Mais Que Um Professor

3 Capítulo 3 - Sorte no Amor


Às vezes me assusto com a normalidade dos dias que se seguem, apesar de ansiar por algo que movimente minha vida, gosto dos meus dias assim, calmos. Não saberia lidar com coisas extraordinárias acontecendo todos os dias. E sei que cada detalhe da minha rotina, vistos de um modo geral, contribuem para o que sou hoje, e para o que serei amanhã.

Diga-se de passagem, ele era um excelente professor, explicava minuciosamente e era atencioso com seus alunos e suas dúvidas. Apesar disso, e do meu desejo de mostrar resultados para o queridíssimo mestre, minha apatia com a física e as matérias de exatas, parecia não ir embora. Não perdia nenhuma de suas aulas, e por mais que eu não piscasse (desculpa física, mas não era por sua causa), era uma árdua batalha entender o que ele explicava.

Conforme o tempo foi passando, a sala em si foi se aproximando mais do novo professor. Ainda sim, os limites existiam e não era qualquer brincadeira que podíamos fazer em suas aulas. Mas depois de mais contato com os alunos, ele não aparentava mais ser tão sério e amedrontador.

Depois de semanas convivendo com ele, fomos descobrindo coisas a seu respeito. Através de uma conversa casual com uma professora, ficamos sabendo que ele era solteiro. E durante uma aula, ele nos contou que era descendente de russo (seu avô materno havia nascido em Moscou).

Ao escutar esse fato, peguei meu celular e enviei uma mensagem para o meu amigo Otávio que estudava na mesma sala que eu:

“Adoraria ir para a Rússia.”

Alguns segundos se passaram, e meu celular vibrou:

“E para o psicólogo?”

Otávio Rissi é meu amigo desde os doze anos, nos conhecemos no ensino fundamental. Ele é uma pessoa incrível, o meu melhor amigo. Sempre é muito sincero comigo. Às vezes ultrapassa uma linha tênue e acaba sendo ríspido (como a vez em que, do nada, após eu fazer uma piada, me disse: “Sabe, o fato de você fazer muitas piadas é uma barreira que criou contra sua insegurança”), mas não me importo mais.

Nunca me ofendo com seus comentários não muito amáveis, já me acostumei com eles, e a maioria das coisas que diz é verdade. Ele é demasiadamente perspicaz, e sempre me importuna dizendo que o meu azar com os meninos é de um nível absurdo. Além de, “sua mente vive te metendo em problemas, você deveria morar no consultório da sua psicóloga”.

Mas como não amar a pessoa que sempre te resgata do fundo do poço (mais conhecido como “baixa autoestima”)? Que sempre te anima, atura seus extremos, suas mudanças de humor... E que agora aturará também, seus delírios platônicos.

O Professor Vitor estava virado para a lousa, quando para me provocar e divertir a sala, Otávio diz:

– Professor, você sabe qual o brinquedo favorito da Anna em um parque de diversões?

A sala toda ficou em silêncio.

– A montanha-RUSSA – ele realmente deu ênfase na palavra “russa”.

Risadas se espalharam pela sala. O professor riu, e o Otávio continuou sua teoria:

– Ela disse que a montanha-RUSSA é bem rápida e potente.

Impulsivamente, gritei:

– Eu não disse nada!

Corei rapidamente. Ele não se virou, mas do meu lugar dava para ver que depois de rir, o sorriso não saiu do seu rosto enquanto escrevia na lousa.

No mesmo dia, antes de dormir, mandei mais uma mensagem para o meu querido Otávio:

“Boa noite meu querido amigo, estou indo apreciar um bom vinho com meu amor Vitor.”

E ele responde:

“Boa noite minha linda amiga, estou indo na polícia.”

**

Estávamos em abril, e nada de relevante havia acontecido. O encanto pelo meu querido professor permanecia o mesmo. A cada aula eu captava seus hábitos e suas manias: uma das mãos no bolso enquanto escrevia na lousa com a outra, a mão no queixo enquanto se distraía e olhava para o nada, a língua passando pelos lábios enquanto dava uma pausa no que estava dizendo, as covinhas... Ele era tão bonito, e a frieza que o cercava o deixava ainda mais charmoso.

Analisando melhor o quesito “amor platônico pelo professor”, notei que o que todos imaginam é que o encantamento de uma aluna sempre irá provir da beleza do professor. Mas estão errados. Isso é apenas uma atração. Um amor platônico é muito mais do que isso. Platão dizia que todos nós vivemos aprisionados em uma caverna, e para cada coisa que conhecemos existe um molde perfeito no qual foi inspirado. Só conheceremos esse molde quando sairmos da caverna, e pararmos de enxergar a superficialidade de tudo o que nos cerca. O termo “platônico” veio desta linha filosófica; o amor que idealizamos, o molde perfeito que nunca conheceremos. É uma utopia, o norte para o qual caminhamos. O amor inalcançável.

E como não se apaixonar platonicamente por alguém que representa tudo o que você espera de um homem? O encantamento que ele exerce sobre mim tem várias origens. Ele não é particularmente bonito, mas é charmoso. E por ele ser tão enigmático e indecifrável, esse amor se torna ainda mais inalcançável.

**

Entrei na sala, e ele ainda não havia chego. Passou-se uns cinco minutos, e meu querido professor deu o ar da graça. Era o dia da prova bimestral de física. Não havia estudado muito. Não por preguiça, mas por não saber o conteúdo mesmo.

– Bom dia – ele disse, e sua voz enviou ondas de afeição que quebraram em mim. – Antes de entregar as provas, preciso fazer a chamada.

Colocou sua mochila em cima da mesa, e sentou-se em sua cadeira. Eu era a primeira da lista de chamada, e aguardava ansiosamente a voz grossa me chamar.

– Anna Marin – ele disse meu nome, olhou para mim e sorriu. Sorri de volta.

Depois ele seguiu chamando os outros nomes normalmente, sem o entusiasmo que chamava o meu. De repente, Duda virou para mim e sussurrou para ninguém ouvir:

– Ele te induz a ter pensamentos proibidos, induz a todas nós.

Realmente.

Recebi a prova, e eu não sabia fazer nada. Vinha em todas as aulas, mas ao invés de captar o conteúdo que ele falava, só conseguia captar o som da sua voz. As fórmulas deviam ficar atrás dele, enquanto eu reparava em seu cabelo, em seus olhos e em suas mãos. “Você está ferrada, querida” uma voz dentro de mim repetia a cada segundo.

Como eu não sabia nada, decidi me descontrair, e aproveitando meu momento de audácia, o indaguei:

– Posso desenhar você aqui na prova?

Pedindo, ansiando por um elogio, ele responde:

– Pode, mas faça um desenho bem bonito já que não sou bonito na realidade – olhando para mim, dá aquela risada sarcástica seguida de um sorriso tímido.

Não podia perder a oportunidade, olhei para ele também e disse:

– Você é muito bonito.

Dito isso, abaixo a cabeça por vergonha e só a levanto quando percebo que ele não está mais do meu lado.

**

Às vezes me pego recordando alguns momentos dele que presenciei, e participei. Como o dia em que fui para a sala cinco minutos antes de bater o sinal, e ele já estava lá acompanhado de mais alguns alunos. Eu estava com um livro na mão, e ao me ver entrando, se voltou para mim:

– Lolita... Esse autor é muito bom, o Nabokov. Já li outros livros dele.

O engraçado não fica só por conta de o livro ser sobre um homem de meia-idade que se apaixona por uma menina bem mais nova. Não estou querendo assimilar as histórias, Humbert era um pedófilo. Mas o fato de Lolita o instigar lembra-me uma aluna que vive com os olhos brilhando por conta de um professor treze anos mais velho. A coincidência se dá também pela informação que recebi de quem me emprestou o livro. Vic, ao me entregá-lo, disse:

– Aposto que vai se lembrar do seu querido professor. E ah, o autor deste livro é russo.

– Mentira?

Ela ainda brincou com as primeiras frases do livro, alterando o nome de Lolita pelo meu:

– Annita, luz da minha vida...

Ficamos rindo por uns minutos, e passamos a tarde desse dia imaginando relações inusitadas.

**

Durante uma de suas aulas, fui questioná-lo sobre uma dúvida que tive em um exercício. Para não atrapalhar a classe, me ajoelhei ao lado de sua mesa. Ele não estava lá, tinha ido ao banheiro. Quando chegou, ao se aproximar de mim para sentar em sua cadeira, sua mão acabou encostando (acidentalmente?) em meu joelho. Foi rápido, mas eu pude sentir seu toque, suas mãos grossas...

**

É difícil esquecer quando quase surtamos dentro da sala de aula... Após terminar de lotar a lousa de exercícios e voltar a sua mesa, deve ter ficado com calor e foi tirar seu moletom. De repente, Vic (que senta atrás de mim) sussurrou em meu ouvido:

– Olhe para frente.

Quando olho, ele não tirou somente seu moletom, mas também a blusa de baixo, deixando sua barriga à mostra. Fiquei extasiada. Ele não era musculoso, mas tinha uma barriga definida. Espero que ele não tenha olhado para mim. Se olhou, percebeu meu rosto vermelho e minha visível agitação.

**

Teve a vez em que ele entrou na sala nos saudando:

– Tudo bem pessoal?

– Melhor agora – eu respondi.

– Melhor agora é Anna? – intrigado, ele olha pra mim e pergunta.

Deixei por isso mesmo, sorri envergonhada e abaixei minha cabeça. Nunca irei me conformar com o fato de eu pensar em tudo e em nada, antes de fazer alguma coisa.

Algo que comecei a notar e a analisar nele, era a forma como me tratava. Um jeito diferente diante o tratamento que ele dava aos outros alunos. E então entendi. Ele me instiga, me incita a me encantar ainda mais por ele. Não como se ele estivesse atraído por mim, mas pelo simples prazer de provocar as alunas que possuem os olhos brilhando por ele, pelo simples prazer de ter alunas aos seus pés. Ele sabe sobre o seu “poder”, e tem plena convicção da confiança que exala. Mas consigo entendê-lo, deve ser triunfante saber que muitas meninas te admiram e sonham com você.

Não sei o que nele é real e o que é fruto da minha imaginação.

Após eu me recompor, Duda vira para trás e me diz:

de olho.

– Esse “tô de olho” é em relação a quê? Estou confusa quanto a como interpretá-lo, pois abrange muitos sentidos... – pergunto.

de olho em você com esse professor.

– Seria interessante e do meu agrado, se existissem motivos para esse “tô de olho”.

– Seria engraçado ter uma amiga que saísse com um professor.

– Seria mesmo. Saber das intimidades do professor...

Eu a amo tanto nesses momentos, nos momentos em que esquecêssemos o mundo e imaginamos coisas.

– Sabe, acho que o professor Vitor ficaria com uma aluna.

– Você acha? – apesar dos meus delírios, minha insegurança me priva de me animar com uma possibilidade dessas.

– Sim. Isso se ao longo de sua carreira acadêmica, ele já não ficou com uma aluna... Nunca saberemos.

– Por que acha isso?

– Olha a cara de safado dele. Acho que ele poderia te dar uma chance, caso você se insinuasse mais – ela tentou falar sério, mas não conseguiu.

– Entendi o que você quis dizer. Pode deixar, na próxima aula virei com um decote de modo que vejam meu umbigo, e irei passar batom vermelho – brinquei.

– Não sei se conquistaria ele, mas com toda certeza você iria ganhar o prêmio de “Meretriz do Ano”.

Ri, ela também.

Isa entrou na nossa conversa, e com uma expressão um tanto séria, me disse:

– Anna, o que mais gosto em você é sua capacidade de sonhar e se transportar para um mundo só seu. Todos deveriam ter a imaginação que você tem. E viajo com seus delírios. Mas quero que me prometa que saberá a hora de parar, que saberá reconhecer quando estiver extrapolando. Sonhar também pode ser perigoso, ainda mais com algo impossível. Fugir da realidade é bom, mas não sempre. Não quero que se frustre por sonhar alto demais.

Assenti. Ela sempre escolhe ser séria comigo em momentos que não condizem com o meu estado. A amo por ser realista, mas eu estava brincando, sempre estou brincando. Apesar dos meus constantes devaneios, sei quem sou, onde pertenço e quais são os meus limites. As pessoas se esquecem disso.

Nesse dia fui almoçar com a Duda em um restaurante self-service próximo ao colégio. Fazia tempo desde a última vez que tínhamos ido lá. Escolhemos uma mesa no fundo, sentamos e logo em seguida levantei para ir “fazer” meu prato. Duda permaneceu sentada. Cheguei com arroz, carne e batatas-fritas. Como de praxe, minha querida Duda roubou uma batata. Não que seja do meu agrado, mas tudo bem.

Seguimos o almoço conversando, e passado alguns minutos ela se levantou para pegar algo. Voltou com um prato de batatas-fritas. Duda rapidamente terminou de comer, e ainda faltava um pouco para eu terminar. Isso é algo que minhas amigas e todo mundo reclama: eu demoro muito para comer. Também demoro para me vestir, arrumar minhas coisas... Mas isso não vem ao caso.

Tenho mania de deixar as batatas para comer no final, e minha querida amiga tem a mania de aproveitar da minha lerdeza e roubar algumas. Pegou uma no começo, foi pegar outra no final...

– Agora chega! – foram meses de batatas sendo roubadas, descontadas em uma frase. O engraçado é que não consigo manter a seriedade perante aqueles olhos azuis, mas enfim, a “engraçadinha” me vira e diz:

– Só mais uma, para dar sorte no amor, uma no começo e outra no final.

– Como se isso sempre tivesse me dado sorte no amor, como se isso fosse dar sorte... – ando me privando, por segurança, de ataques de otimismo.

– Mas agora vai, você vai ver, e depois iremos nos lembrar desse dia – disse sorrindo.

Depois de um ótimo almoço e uma ótima conversa, espero me lembrar mesmo.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Lembrando sempre que: comentários me estimulam. Obrigada por acompanharem! Beijos. P.s.: Vocês acreditam em superstição?