Mais Que Um Professor
25 Capítulo 25 - Camuflados
Depois de tantos acontecimentos, foi estranho voltar para casa. Se tudo que guardo em mim pudesse ser visto, meus pais me castigariam por roubar coisas que não me pertencem. O que seria um equívoco da parte deles. Mas pensando nisso, talvez eu sempre tenha sido uma ladra. De memórias, sonhos... Afinal, se imaginar em perspectivas alheias não deixa de ser um roubo. Talvez eu sempre tenha sido invasiva, entrando em lugares que nunca me pertenceram. No começo, no momento em que sem saber entrei neste trem, me senti invadindo um lugar. Me senti numa viagem clandestina, já que eu não havia comprado nenhuma passagem. Mas conforme tudo ia se encaixando, descobri que eu nunca precisei de passagem. Que no meu destino final estava o lugar que sempre me pertenceu. Eu só não tinha conhecimento sobre ele. Meus pais também não conhecem esse lugar, e não sei se gostariam de descobrir as novas aquisições e propriedades de sua filha.
Para minha felicidade, abri a porta e só encontrei meu irmão deitado no sofá. O cumprimentei e perguntei sobre os outros moradores da casa. Meu pai estava dormindo e minha mãe no supermercado. Tudo o que me restou, foi subir ao meu quarto. Sentei em minha cama e olhei ao meu redor. Meses atrás pensei que minha cabeça fosse explodir por não ter espaço suficiente para abrigar tantos devaneios. Esses dias cheguei a pensar que de tanto brincar fora de casa, de tanto esvaziar minha mente, eu poderia não me reconhecer mais. O quão boba fui? Olho novamente a minha volta e é como o se o meu redor tivesse se moldado à nova Anna. Então me veio à mente que talvez o palco seja o mesmo, mas o show pode ser diferente.
“Estou cansada. É muito provável que eu durma. E não se preocupem, não estou com fome. Mas estou com saudades. Nos vemos amanhã, hein?
Com amor,
Anna.”
Escrevi em um papel e colei na porta do meu quarto para os meus pais verem.
Acordei com meu celular vibrando. É sábado e o dia amanheceu bonito.
“Estou bem por você estar.”
Me sinto como um dia bonito. O Vitor é um dia bonito.
Desci para tomar o café da manhã e encontrei todos sentados à mesa. Inclusive meu irmão. O considero uma pessoa legal, apesar de não demonstrar ser. Mas não o culpo por sermos distantes. São ideias, caminhos, mundos diferentes. Sinto um carinho enorme por ele. Um carinho que foi plantado a partir do momento em que nasci. É uma pena que essa planta não seja regada cotidianamente.
— Bom dia, turista – meu pai abriu um sorriso ao me ver.
— Turista? – ri enquanto pegava uma caneca no armário. Essa associação abrangia mais significados do que ele podia imaginar.
— É. Daqui a pouco vou ter que começar a pagar diárias para mãe da Duda.
— São tantos trabalhos, o que posso fazer? – eu também abri um sorriso ao vê-lo.
— Tanto a conversar... O que podemos fazer? – minha mãe ria.
— Espero que sua presença não incomode os pais dela, Anna.
— Liguei para a mãe da Duda outro dia, ela disse que é um prazer ter a Anna em sua casa – o que posso dizer da dona Elisa?
Pisquei para os dois e sentei para comer um pedaço de bolo.
— Pensei em irmos ao shopping hoje à noite, Anna. O que acha? Assistir um filme, comer alguma coisa...
— Acho uma ótima ideia, mãe. Faz tempo que não saímos juntas.
Entrei no carro e minha mãe começou a me olhar de um jeito estranho. Aquilo durou tempo suficiente para eu desconfiar de que ela sabia de algo. Quando ela sorriu, boa parte das minhas suspeitas foram embora. Comecei a olhá-la também.
— Há algum tempo você aparenta estar mais contente, feliz... Realizada, talvez? Seus olhos brilham, Anna. Mas não aquele brilho de quando você entra em modo devaneio. É diferente – continuei olhando para ela. Ela sabia que havia algo. Acredito que não tenha sido difícil notar algo em mim. Doía esconder coisas de pessoas que tanto amo. Nunca fui do tipo mentirosa, mas para o meu bem e para quem me fazia tão bem, eu não poderia dizer nada.
— Impressão sua, mãe – e dei um beijo em seu rosto.
Ao chegarmos no shopping, minha mãe perguntou:
— Prefere comer antes, durante ou depois do filme?
— Durante. Faz tempo que não como pipoca.
— Estava torcendo para que você escolhesse a opção “durante” – ela colocou os braços em meu ombro e caminhamos rindo.
— O que vamos assistir?
— Você vai descobrir ao decorrer do filme.
— Então vou assistir uma incógnita?
— Pode se dizer que sim. Como faz tempo que não saímos, decidi fazer diferente hoje. Nem eu sei ao certo. Sinopses e trailers nos enchem de expectativas.
— Realmente. É bastante difícil fugir das expectativas. Pelo visto você encontrou uma saída – ela sorriu.
O filme era horrível. Um clássico clichê de terror. Mas não nos arrependemos. A companhia e a pipoca estavam igualmente boas. Sinopses e trailers enchem de expectativas, mas alertam.
Saímos do cinema e antes de voltarmos para a casa, decidimos passar numa livraria. Dona Elisa amava ler, e sendo sua filha, herdei esse amor.
Os best-sellers iluminavam a bancada principal.
— Sempre que puder, combata o preconceito contra os best-sellers, Anna – olhei com a minha cara de ponto de interrogação. – Alguns acreditam que se tornam mais cultos ao afirmar que não gostam. Na minha visão, só os tornam bobos. Afinal, eles nem chegam a ler para poder falar algo. Algumas histórias não são tão boas assim, concordo com esse argumento. Algumas são repetitivas e cheias de elementos que vendem, sabe?
— Sei. Parecem até que são feitas seguindo a mesma receita.
— E são feitas. Mas não é porque o livro fica famoso que é ruim. Tem pessoas que não sabem extrair coisas boas de nada.
Comecei a refletir no que tinha acabado de ouvir e transformei de acordo com a minha realidade. Espero que se um dia ela descobrir os caminhos que percorro, saiba extrair coisas boas da situação. Não é porque é um professor que é ruim.
Vasculhávamos minuciosamente as prateleiras em busca de algum tesouro perdido. As promoções não estavam tão atrativas.
Sempre soube que os opostos se atraíam, mas não sabia que se atraíam para o mesmo lugar. Olho para o fundo da loja e vejo um porte atlético bastante familiar. O mesmo porte atlético que observo virado para a lousa em todas as aulas de física.
— Aquele não é seu professor? – minha mãe diz. Minha mãe... Por um momento me esqueci dela.
Antes que eu pudesse refletir o quão estranho seria se ele me visse aqui com minha mãe, ela já estava indo na direção dele. E é tarde demais para eu impedi-la.
— Oi, professor – ela o saudou e ele virou assustado com um olhar confuso, até me ver. E ao me ver atrás da minha mãe, um sorriso tomou conta de sua expressão séria. Um sorriso diferente. Profissional com um toque de afeição, se assim posso dizer.
Foi estranha a primeira vez que nos vimos fora da escola, mas nossos olhos se encontraram e tudo ficou bem. Só que desta vez, nossos olhos não podiam se encontrar. Acostumados como estavam, poderiam insinuar algo.
— Oi, mãe da Anna – e estendeu a mão pra ela. – Oi, Anna – me cumprimentou do jeito mais casual que podia.
Fiquei parada olhando a cena em que eu me encontrava. Meu sorriso, impedido pelo medo, não conseguiu emergir. Normalmente estar com os pais e encontrar um professor é um tanto vergonhoso. Mas assumindo minha devida posição, nunca pensei que essa situação poderia atingir níveis extremos de vergonha. Tudo em que eu conseguia pensar era que minha mãe não estava de frente para o meu professor, ela estava de frente para o homem que tirou minha virgindade. Instantaneamente, o rubor preencheu todo o meu rosto.
— Não posso dizer que é uma surpresa encontrá-lo por aqui, professor. Afinal de contas, estamos em uma livraria.
— Professor e livro é uma associação inevitável. Por que está quieta, Anna? – ele sorria e eu queria morrer.
Inacreditável. Ele mantém toda sua postura. Sorri, conversa com a dona Elisa como se ela fosse mãe de uma aluna qualquer. Como se ela não fosse mãe da sua aluna especial.
— É verdade, Anna. Por que está estranha? Nem cumprimentou seu professor... – ela disse se dirigindo a mim. Ele ainda sorria. Como conseguia manter todo o equilíbrio? Como conseguia ser tão seguro de si?
— Oi, professor Vitor – com os olhos baixos, disse. – Vamos, mãe?
— Vamos. Bom professor, foi bom te ver. Até breve! – apertou a mão dele e saiu andando.
Conforme ela se afastava, a sensação de desconforto ia se esvaindo. Provavelmente ela associaria meu silêncio a minha paixão platônica pelo professor de física. E isso me deixava mais à vontade.
Pensei em toda sua compreensão. Talvez nada de ruim acontecesse se eu contasse a verdade, mas era um risco acreditar num incerto talvez. Conforme ela se afastava, o medo das consequências ia embora e assim eu me permiti olhá-lo com carinho.
Torcendo para que ele entenda, mexi minha boca num “se ela soubesse...” e sorri. Ele eleva sua mão e simula um pescoço cortado.
É como se todas as pessoas fossem cobertas de tintas. Uma camuflagem para se adequarem ao ambiente sem que ninguém note nada de diferente. Se um temporal fosse suficiente para tirar essa tinta, quantas coisas não seriam descobertas... Quantas coisas não seriam trazidas à tona. Sem a minha camuflagem, sou uma aluna do ensino médio que se relaciona com seu professor treze anos mais velho. Olho a minha volta e me pergunto: quem são essas pessoas sem suas camuflagens?
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