Mais Que Um Professor
26 Capítulo 26 - Ciúmes?
Indo para o colégio, deixei minha mente se ocupar com algumas questões. Depois de voltar para a casa ouvindo sobre “adolescência e amores platônicos” e casos da minha mãe, comecei a pensar na outra figura materna da história: a mãe dele. Acredito que não seria muito agradável para ela descobrir que seu filho se relaciona com uma aluna de dezessete anos. Mães sempre colocam expectativas nos filhos. Seguindo esse pensamento, é de se imaginar que ela espere uma esposa e netos do filho. Qual seria sua reação ao descobrir que suas expectativas foram roubadas por uma menina que tem provas para se preocupar, pais para dar satisfação e horário para voltar? Talvez o encontro de ontem não tenha atingido níveis extremos de vergonha. Mas um encontro com sua mãe atingiria.
Não apareci nas aulas da manhã. Decidi dormir mais um pouco. Mesmo assim, não consigo me livrar do hábito de sair em cima da hora e chegar alguns minutos atrasada.
Encontrei a Isa no corredor:
– Você? Atrasada? – indaguei.
– É. Fui repor uma aula de pintura – disse após me abraçar. – E você?
– Deixei meu sono curtir mais o momento – sorri para ela.
As salas estavam agitadas. Conversas ecoavam de todos os lados. É sempre assim depois do almoço.
A Isa bateu na porta e a abriu em seguida:
– Vitor... Licença?
Ele estava sentado em sua mesa. Sem tirar os olhos da tela do seu notebook, assentiu com a cabeça e nós entramos. Logo percebo que ele está com um “roxo” no braço. Antes de ir para a minha carteira, paro na do Otávio:
– Doou sangue ou está usando drogas? – e aponto para o braço dele. Otávio ri. Dou um beijo em seu rosto e vou para o meu lugar.
Desinibido como é, ele se dirige ao nosso querido professor:
– Professor – Vitor olha –, você doou sangue ou está usando drogas? – risadas tomam contam da sala. E quando olho para frente, ele também está rindo.
– Não. Exame de sangue.
– Também, com tudo o que exigem dos doadores, você provavelmente não iria poder doar. Limite de parceiras por ano e etc. – onde o Otávio arranjava tanta coragem para fazer essas perguntas? Mal sabe ele quem se encaixa no termo “parceira”...
Vitor riu. Todos riram. E quando menos esperávamos, ele responde:
– Eu posso ter várias parceiras, porque – uma pequena pausa – eu sou solteiro. É só usar camisinha... – a sala toda ri. Duda e Victoria me olham. Eu rio e após verem minha reação, elas riem também.
Segundos se passaram e os tontos que sentam no fundo não perderam tempo:
– Ô lá Anna, é a sua chance, ele é solteiro, pode ter várias parceiras – e riam mais ainda. Apesar de eles serem tontos e não merecerem minha atenção, eu ri. Ri principalmente por essa chance ser desnecessária.
Foi estranho ouvir aquilo. E ao mesmo tempo, engraçado. Estranho devido as circunstâncias, engraçado pelo seu senso de humor. Não haviam motivos para eu ficar descontente. Sei que ele não tem outras parceiras, e ele é solteiro. Ou melhor, todos precisam achar que ele é.
– É um alívio saber que na sua vez sendo parceira ele realmente usou camisinha – Victoria sussurrou em meu ouvido antes de ir ao banheiro. Pisquei para ela.
Sorri para o Otávio. Seu olhar debochador, sarcástico e “ele faz parte da máfia russa” me fitavam.
– Quero ser uma das parceiras – falei baixinho. Ele pegou seu celular, digitou algo e o virou na minha direção. “190” estampavam a tela.
– Experimente e – ele colocou seu celular no ouvido – alô, polícia? – ri, mas por dentro, eu sentia a tempestade chegando. Aos seus olhos, tudo não passava de uma brincadeira. Eu não seria capaz. Nosso professor não seria capaz. Mas ele agiria do mesmo modo se descobrisse a verdade? Ou essa reação também é parte da brincadeira?
As aulas de física seguiram como de costume: fórmulas, dúvidas, exercícios, olhos lindos me encarando.
O sinal para o intervalo bateu. Todos saíram correndo e eu sempre pensando na possibilidade de ele ter algo a dizer, retardei meus passos.
– Anna? – olhei para trás – Foi uma brincadeira.
– Eu sei – e sorri pra ele.
Depois de tudo, estávamos conectados. Eu podia sentir.
Encontrei as meninas perto da cantina. Peguei um pedaço do lanche da Duda.
– Várias parceiras... Quem diria – rindo, Vic disse. Piscou para mim.
– Ele é estranho. Quase sempre está sério, algumas risadas contidas e hoje isso – Isa diz.
– Ah, Isa, o senso de humor dele sempre esteve presente. Não negue. Ele só não adota o estilo simpático durante suas explicações – Duda sempre intervindo a favor dele.
– Como vocês aturam minhas implicâncias? – Isa pergunta e nós nos olhamos.
– É bom exercitar frequentemente a paciência – Duda responde e ela ri.
– Por que você sempre demora para descer, Anna? Sei que é um tanto lerda, mas parece que é mais nos dias que temos aulas de física – Isa, sorrindo, me indaga. Para ela, ele ainda é o meu amor platônico.
A lança da amizade e da vontade de contar tudo me apunhala. Sorte eu andar sempre com o bom senso no bolso. Não é sempre que ela está de bom humor. Talvez ela entendesse hoje. Mas a probabilidade de ela me julgar amanhã é altíssima.
– Um tempinho a mais para olhá-lo, Isa – sorrio e seu cotovelo me cutuca.
– Ainda assim será estranho, mas você pode encontrá-lo no futuro – ela diz por fim.
Voltamos do intervalo e nos dirigimos para os nossos lugares.
– O aniversário da Anna está chegando – Duda comenta em voz alta.
– Dezoito anos? – Isa pergunta.
– Sim – respondo para ela e olho para a Duda –, e ninguém precisa ficar sabendo disso.
– O russo precisa – Vic sussurra em meu ouvido antes de sentar em sua carteira. Reviro os olhos para ela e sinto meu rosto corar ao lembrar ele dizendo que “não será mais envolvimento ilegal”.
– Dezoito anos, Anna? – Diego pega uma carteira vazia e coloca do meu lado. Olhos verdes preenchiam meu campo de visão.
– Oi, Diego. É, dezoito... – abaixo para pegar meu livro na mochila.
– Posso sentar do seu lado?
– Já está sentado mesmo – e sorri. O Vitor nos deixava sentar em dupla, trio... Desde que ninguém atrapalhasse, ele não se importava com a organização das fileiras.
Vitor o viu do meu lado. Olhou normalmente e prosseguiu com a sua aula.
– Ainda continua encantada pelo professor de física? – perguntou enquanto abria o caderno.
– Ainda mantém sua cisma sobre ele?
– Mais ou menos. A resposta dele para o Otávio hoje me ganhou um pouco – solteiro, várias parceiras... Era de se esperar que os meninos o exaltassem.
Voltei minha atenção para a lousa.
– E as minhas caronas, quando vai aceitar?
– Gosto de andar sozinha – respondo e continuo olhando para frente.
– Uma companhia de vez em quando não faz mal – notei seus olhos em mim e comecei a me sentir desconfortável.
– Ultimamente, não estou no clima para companhias, Diego.
– Mas você nem conheceu a companhia direito para decidir está no clima ou não. Acho que deveria pensar mais sobre isso.
Enquanto penso numa maneira de me esquivar desse convite, uma voz alta e grossa me interrompe:
– Diego, sai daí. Agora – ergo meus olhos. Vejo um professor irritado e toda uma sala olhando para o meu lugar.
– Eu? – Diego o encara.
– Você mesmo – Vitor também o encara. As meninas olham pra mim.
– Por qual motivo eu sairia daqui?
– Sua voz está me incomodando. Vai aproveitar a chance de mudar de lugar ou quer perdê-la e sair da sala? – boquiaberta, ruborizo rapidamente.
– Eu não vou mudar de lugar e muito menos sair da sala. Não estou atrapalhando. Minha colega e eu estamos conversando baixo.
– É? Então sua colega fará o favor de se mudar por você.
– Ela não fez nada.
– Te deu atenção. E não gosto de quem atrapalha minha aula. Para frente, Anna. Suas notas não melhoraram o suficiente para você ficar conversando – isso não pode estar acontecendo.
Junto minhas coisas e me encaminho para a carteira vazia do outro extremo da sala. Sinto-me mal com a quantidade de pessoas me olhando.
Só consigo pensar no quanto isso não é certo.
A aula acabou e me apressei para sair da sala. Queria ir embora. Na saída, a Duda me alcançou:
– Não fica triste, Anna. A semente do ciúme foi plantada após ver aqueles olhos verdes te devorando. Não é todo dia que o medo de ser trocado por alguém mais novo o invade. Ele está aprendendo a lidar.
– É, pode ser.
– Tenho que ir agora. Fica bem – ela me dá um beijo e vai embora.
Semente do ciúme, ser trocado por alguém mais novo... Preciso aprender a lidar também.
Segui para a casa. A cada passo eu me livrava do nervosismo que estoquei em mim.
Um carro familiar me para no meio do caminho.
– Podemos conversar? – ele diz após abaixar a janela.
Apenas entro no carro.
Ele para no beco de praxe e se dirige a mim:
– Vocês estavam atrapalhando.
– Desculpa Vitor, mas não estávamos. Eu mal falei. E o Diego estava falando baixo. Sei que não gosta dele – ele não diz nada e continuo. – Onde está seu equilíbrio? O Vitor equilibrado de sempre... Você não pode esquecer que dentro da sala eu sou apenas sua aluna. Do nada, você ficou irritado.
– Me equivoquei. Desculpa – ele pega minha mão e me olha gentilmente.
– Sei que não deveria estar conversando durante a aula, então devo desculpas também. E realmente, minhas notas não melhoraram o suficiente – retribuo o olhar gentil.
Ele chega mais perto e eleva suas mãos ao meu pescoço. Me puxa para si e envolve meus lábios num caloroso beijo.
Como de costume, para a alguns metros da minha casa. Agradeci a carona com um beijo. Abro a porta. Ele segura meu braço, se aproxima do meu ouvido e sussurra:
– Não era algo que eu quisesse assistir.
Sorri para ele e saí do carro.
Fale com o autor