Mais Que Um Professor

18 Capítulo 18 - O Professor e sua Anna


O sinal tocou. Todos aqueles que não paravam de encarar o relógio saíram correndo. Menos eu, por um motivo bem simples: a física e suas leis.

Estava prestes a sair da sala quando me atrevi a olhar para trás, e a vista, bem, era bastante agradável. Há alguns metros de mim, sentado e digitando algo em seu computador, estava um charmoso professor barbudo. O meu charmoso professor barbudo.

– Vai ficar parada aí na porta? – olhei para ele e seu sorriso me chamava. Aquele pescador havia fisgado seu peixinho, e lentamente, ia puxando a vara.

Não havia mais ninguém na sala. Não tinha nada para fazer em casa. E tirar umas férias na Rússia, mesmo que por algumas horas, é sempre bom.

– E se eu for, tem algum problema? – inclinei um pouco meu corpo de modo que eu pudesse olhá-lo. Não sei se falhei, mas tentei o provocar com um sorriso.

Sem tirar os olhos do computador, respondeu:

– Nenhum, mas aqui do meu lado tem uma cadeira vazia.

Para que ele não visse meu visível contentamento, olhei para uma direção oposta e sorri de uma maneira que até então, eu desconhecia.

Tentei aquietar minha ansiedade e caminhei até a cadeira. Sentei e dei um beijo rápido em sua bochecha. Da mesma forma ele, rapidamente, acariciou minha coxa esquerda.

– Não vou atrapalhar? – perguntei.

– Não – virou-se, tirou uma mecha de cabelo que estava caída em meu rosto e sorriu. Ele estava colocando em ordem seus diários de classes.

A sala vazia me fez pensar em como eu estava há alguns meses. O quão boba fui em pensar que devaneios me preencheriam. Eles, com o tempo, iriam evaporar. Aquela sala só seria preenchida com memórias verdadeiras. E agora, na sala vazia onde tudo começou, paro pra pensar: se cada carteira for algo a se lembrar, não posso reclamar.

Aos poucos, vou me ajeitando. Preenchendo as fantasias com verdades.

– Que aluna aplicada você... Ficando depois da aula para tirar dúvidas com o professor – a voz grossa acompanhada de um sorriso sarcástico, interromperam minha divagação momentânea.

– É, tenho muitas dúvidas – ri baixinho.

– Terei o maior prazer em supri-las, senhorita – ele piscou para mim. Rimos juntos. E é nesses momentos que consigo entender melhor o conceito de que os opostos se atraem.

É nesses momentos que, principalmente, compreendo o fato de que todos estão em busca de seu professor e sua aluna interior. Ensinar a si mesmo, aprender com si mesmo. Felizmente, eu tinha a ânsia de aprender. E calhou de um professor com a demasiada vontade de ensinar e aprender cruzar meu caminho.

– Você já pensou na faculdade que quer fazer?

– Já pensei, mas ainda não decidi. Vários cursos me chamam a atenção.

– Tem algum que se destaca dos outros?

– Psicologia.

– Psicologia? Interessante... Adoraria fazer umas sessões com você – ri. – Você daria uma boa psicóloga, Anna. Sua mente viaja bastante. Para não parar de bater, seu coração precisa ser compreendido e compreender.

Senti meu rosto corar. Talvez ele soubesse mais de mim do que eu podia imaginar. Um bom observador... Queria ter a coragem necessária para dizer que no momento, é ele quem move meu coração. É ele quem me compreende; é ele quem dá abertura para ser compreendido.

– É... – falei por fim.

Ali, sentado em sua mesa, mexendo em suas anotações, ele era somente meu professor. Mas quando se virava para mim, seus olhos o entregavam... Não era um professor e uma aluna. Era o professor e sua aluna.

Como se estivessem em um campo aberto, as borboletas do meu estômago voavam eufóricas em minha barriga.

– Quando é o seu aniversário, Anna?

– Três de outubro.

– Está chegando... – ele hesitou um pouco, mas continuou – 18 anos – e sorriu para mim. Um sorriso bastante ambíguo. Um tanto malicioso, um tanto casual, um tanto sereno. Se seu sorriso fosse um precipício, eu pularia sem medo.

– Há pessoas que passam a adolescência ansiando pelos dezoito anos. Para mim será uma data qualquer.

– Uma data qualquer? Anna, você ainda não se deu conta? Dezoito anos... Não será mais um envolvimento ilegal – meu coração, surpreso, deu um solavanco.

Ocupo minha mente com tantos detalhes, que me esqueço dos fatos.

– Eu não tinha me dado conta. Sim! Dezoito anos! Não será mais um envolvimento – repeti o termo e desviei um pouco da minha atenção para isso: ele é bastante cuidadoso ao usar as palavras – ilegal.

Ele sorriu para mim, e eu sorri de volta. Agora sim havia um motivo para me animar com a aproximação dos meus dezoito anos.

Ao mesmo tempo em que pegava uma pasta de provas para corrigir, perguntou-me:

– Gostou do passeio da professora Lena?

– Sim – fitei-o. – Bastante. E você?

– Também. Foi interessante. Mas gostei mais do subpasseio.

– Subpasseio? – indaguei-o. Do que ele estava falando?

– É. Fomos a uma exposição de artes, mas gostei mais do subpasseio... – sem tirar os olhos das questões erradas que assinalava um “x” com sua caneta vermelha, continuou –, da exposição Anna Marin.

Uma de suas covinhas surgiu em seu rosto e meus olhos transbordavam encanto. Envergonhada e eufórica, olhei para baixo e o questionei:

– Exposição Anna Marin?

– Nunca foi? – finalmente me fitou e sarcasticamente, riu.

– Não conheço – meu lábio superior estava sobreposto sob o inferior, como um lembrete para sossegar: “Aqui não é um lugar adequado”.

– Recomendo. Ainda não vi tudo, mas só pelo pouco que conheci posso afirmar: o passeio vale a pena – revirei os olhos e ri.

– Falando em subpasseios, gostei de um em particular – digo.

– Qual? – perguntou e voltou sua atenção para as provas a serem corrigidas.

– Para a Rússia – bastou uma palavra e roubei toda sua atenção novamente.

Ficamos nos olhando durante alguns segundos. Nunca entendi quando diziam que anos cambiam dentro de segundos. Até presenciar de fato isso.

– Uma das coisas que mais gosto em você é seu subjetivismo. Seu olhar sensível para a vida. Não perca isso.

E mais anos se foram dentro desses segundos que nossos sorrisos de lado se encontraram.

– Sabe, fiquei desconfortável durante todo o passeio – falou.

– Por quê?

– Tive que conter alguns impulsos – ri e seu olhar indicava sua aparente confusão quanto a minha risada.

– Também tive que me controlar – ele então assente com a cabeça.

Inclinei sobre ele e alcancei seu computador. Liguei a webcam e disse:

– Você ainda não tem uma foto nossa.

– Bem pensado, Anna.

Aproximamos-nos de modo que não houvesse mais espaço entre nós. A eletricidade que emanava de nossos corpos entrelaçava-se. Embaixo da mesa, ele segurava minha mão. Nossas pernas tocavam-se levemente. Seus óculos e sua barba acentuavam ainda mais seu charme. O tornava ainda mais irresistível. E por mais que ele fosse treze anos mais velho, o conjunto total da obra não aparentava uma diferença tão grande. Naquele momento, deixei-me acreditar que combinávamos.

Direcionamos nossos olhares para a câmera e sorrimos. Apertei o botão do mouse e ali estava: um novo quadro para a exposição Anna Marin.

– Se participássemos de um concurso “melhores fotos tiradas de primeira”, ganharíamos – eu obviamente ri.

– As primeiras fotos nunca ficam boas, e surpreendentemente, as nossas ficam. Se esse concurso existir, deveríamos participar com certeza.

Quantos segundos inesquecíveis cabem dentro de um simples momento? Quantos momentos inesquecíveis cabem dentro de um simples dia? Eis um compilado de segundos: em um estávamos rindo, no outro nossos olhos se cruzando. E parecia bastante cabível ficar presa nesses segundos.

Sua mão estacionou em minha coxa. Seu cheiro me envolvia. Meus lábios clamavam pelos dele e eu não conseguia parar de olhá-lo. Ele aproximou-se mais. Percorreu meu rosto com seus dedos. Mordiscou meu lábio inferior.

A porta rangeu e quando olhei para o lado, Victoria estava parada. Boquiaberta.

Notas finais
Minhas queridas, primeiramente, me desculpem pelo atraso. Não consegui postar semana passada. Mas espero que eu tenha ressarcido o atraso com esse capítulo. Gostaram? O que acham que vai acontecer? Qual/quais as partes favoritas de vocês? Obrigada por serem fiéis à Anna e ao seu Vitor. Espero que vocês estejam bem. Beijos. P.s.: O que iriam fazer se estivessem no lugar da Victoria/Anna/Vitor?