Mais Que Um Professor
14 Capítulo 14 - Acobertando
Após recuperar meu fôlego, arrancado serenamente pelo meu mais novo barbudo, levantei e adentrei a escola. Antes de ir para a sala e ficar cansada mentalmente com as fórmulas de matemática, precisava ir ao banheiro.
Estava lavando a mão quando um grupo de meninas entrou. Elas também eram do terceiro ano, mas de outra turma. Não são muito amistosas comigo, e o sentimento é recíproco.
– Ai, o professor Vitor é fora de série. Que homem maravilhoso! – meus pelos eriçaram involuntariamente ao escutar seu nome. As borboletas do meu estômago começaram a se agitar. Ordenei que sossegassem e me forcei a prestar atenção no assunto sem que elas percebessem. Afinal, o assunto era de extrema importância para mim. Não sei qual delas falou isso, aliás, mal sei o nome delas. Peguei minha escova de dente para enrolar e permaneci ali, escutando a conversa.
– Vocês já reparam que ele é muito gentil com a Júlia?
– Será que ele está a fim dela? – eu ria por dentro.
– Ele também é super atencioso comigo quando tenho dúvidas.
Não contive minha risada, e sem querer, ela acabou escapando. Elas se voltaram para mim.
– Oi, Anna! – uma delas que eu não sei o nome me cumprimentou.
– Oi – envergonhada pela minha distração, respondi.
– O que você acha do professor Vitor? Ele é tão lindo, não?
– Ah, ele é legal – hesitei em dizer o que realmente acho dele, elas não mereciam saber minha opinião. E não mereciam ver meus olhos brilhando e meu sorriso bobo por falar dele. Não queria dar a oportunidade de acharem que sou como elas, afinal, estou um passo a frente.
– Legal? Anna, ele é perfeito! Nós estamos achando que ele está a fim da Júlia. Ele é bem atencioso com ela.
– O que foi? – ela perguntou.
– Nada, é só que, ele é atencioso e gentil com todos os alunos. Todos, sem exceção. Demonstra ser frio, mas nunca nega ajuda. Isso não indica nada. Se ele quisesse algo já teria insinuado ou feito – completei mentalmente: eu sei bem disso, acreditem.
– Mas com ela é diferente...
– Por que seria? Eu nunca o vi falando com a Júlia, muito menos olhando para a Júlia.
– Você o vigia por um acaso? – indagou.
– Na verdade, eu gosto de observar.
Guardei minha escova de dente e enxuguei as mãos. O sorriso não saia do meu rosto. Sentia-me a pessoa mais sortuda da face da terra. Triunfante, pronta pra guerrear com qualquer um. Confiante. Segura. Sentia-me, pela primeira vez, feliz por ser eu mesma. Feliz por conhecê-lo de um jeito que nenhuma outra aluna conheceu.
É claro que ele podia ter outra Anna, em outra sala. É plausível ele ser gentil e atencioso como é comigo com outra aluna. Mas confio nele, confio que a única Anna da vida dele sou eu. Eu e mais ninguém. Até porque, que horas ele a veria sendo que a agenda dele é dividida entre o trabalho e vontades incontroláveis descontadas em novas experiências comigo?
Poderia ficar horas falando o quanto aquele homem é maravilhoso, o quanto ele pode ser realmente gentil... Senti uma excitação anormal por ter algo que elas não têm. Por já ter sido acariciada por ele, por ter sido beijada... Por ter escutado tantas coisas bonitas vindo de sua boca. E também, por ser aquela que irá a sua casa hoje. Enquanto elas imaginam e cogitam hipóteses, eu faço tudo o que quero com ele.
Entrei na sala e fui para a minha carteira. Isadora me olhou com uma expressão de reprovação por eu ter faltado à primeira aula, Duda e Vic sorriram. A professora chegou e todos se acomodaram. Ligeiramente, me inclinei sob o ouvido da Duda e sussurrei:
– O Russo me convidou para conhecer a Rússia hoje.
Instantaneamente ela corou. Pegou um papel e escreveu de modo apressado:
Duda: “UAU! E você vai?”.
Anna: “Depois de pensar muito, decidi que vou. Você pode me acobertar?”.
Duda: “Claro. Pode dizer que está na minha casa enquanto está na dele. Mas quando e como ele te convidou?”.
Anna: “Hoje. Por isso faltei na primeira aula. Ele me convidou do nada. Fiquei nervosa e hesitei em aceitar. Pensei em possibilidades e comecei a me questionar se tudo aquilo era verdadeiro. Se ele realmente tinha algum apreço por mim, se eu sabia o que estava fazendo... Meus lados razão e emoção entraram em uma intensa batalha. Contei todos os meus receios a ele e recebi ondas calorosas de afeição. Ele me acalmou e com seus dizeres evidenciou que suas intenções eram boas. Me disse coisas tão bonitas, fez minhas dúvidas sumirem...”.
Duda: “Então ele é compreensivo? Interessante... É claro que ele tem um apreço por você. Homens não perdem tempo. Já fazem semanas. Minha querida Anna, faça a gentileza de libertar esse lado emoção. Por favor. Para de ficar criando justificativa pra tudo. Seus devaneios tinham roteiro, agora não existe mais. Aproveite menina. Aproveite pra ser feliz. Que mal tem se sentir gostada?”.
Anna: “Eu te amo. Não se esqueça disso nunca, tá?”.
Duda virou e sorriu para mim. Minha sintonia com ela era incrível. Dormir em sua casa era a melhor opção. O Vitor me deixaria lá, e nenhuma de nossas mães suspeitaria de nada. A minha pensaria que eu estive o tempo todo lá, e a da Duda pensaria que meu pai me levou aquele horário.
De repente, alguém bateu na porta da sala. Era a professora Lena, de Artes.
– Licença, professora. Posso dar um recado?
A professora de matemática assentiu e a Lena continuou:
– Acho que não comentei com vocês, mas temos uma exposição sobre os mestres do Renascimento pra ir. É semana que vem. Vou entregar um bilhete pra cada um com as informações. Horários, preço... Iremos passar o dia fora. Avisem os pais e tragam a resposta amanhã, por favor – a voz dela era tão doce. Doce o suficiente para você se sentir a vontade a ponto de passar uma tarde desabafando, falando sobre a vida com ela. Gosto da professora Lena.
Meu celular vibrou no bolso. Uma mensagem. Abri:
“Vou te pegar na saída, Anna. Espere no mesmo lugar de sempre.”
Duplo sentido?
“Você pode me levar depois?”
“Óbvio que sim. Pensei que isso já estivesse explícito. Agora volte sua atenção pra aula, não vou mais incomodar.”
Se meus suspiros falassem, o que acabei de dar, diria: “Ah, querido Vitor, você nunca incomoda...”. Sempre penso que o estoque de suspiros da minha loja Vitor vai acabar, mas em todas às vezes acabo me surpreendendo. É como se, magicamente, surgissem mais infinitos suspiros para gastar com ele. E que homem para me arrancar suspiros, que homem!
O sinal bateu e meu coração pulou. Os minutos que me separavam dele estavam, aos poucos, diminuindo. Todo o carinho e atenção que ele demonstrava ter por mim me deixava ainda mais ansiosa. Antes de contratarem professores a escola deveria fazer testes. Vou deixar um bilhete na secretária: “Quando forem contratarem professores, antes, testem seu nível de charme. Se muito alto, não o chamem. Os danos para as alunas devaneadoras podem ser irreversíveis”. Sorte a minha que meus danos podem ser descontados em algum lugar, em um alguém... Sorrio sozinha e caminho para fora do colégio.
Faltava uma pessoa para avisar: minha mãe. Pego meu celular e disco seu número.
– Mãe?
– Oi, filha! Está tudo bem?
– Está. Posso dormir na casa da Duda?
– De novo? Vocês não enjoam de ser ver?
– Não. Você me vê todos os dias, não enjoa não?
– Às vezes – ela riu. – De tanto que vai lá, já pode pedir a conta do aluguel pra ajudar a pagar.
– Boba. Então, posso?
– Pode. O que vão fazer? – mesmo por telefone, consegue captar algo para desconfiar. Incrível.
– Ah, você sabe, conversar...
– Juízo hein.
– Juízo? – indaguei.
– Sim. Pra você não esquecer.
Mães e seu sexto sentido... Se a Duda tivesse escutado a conversa, com toda a certeza, iria me aconselhar a deixar o juízo de lado. Ri sozinha e continuei meu caminho. Meu professor me esperava.
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