Maipetto no Neko
12 Capítulo 12 - Medo
Notas iniciais
Maipetto no Neko
Capítulo 12 – Medo
- Aizen vai ficar se metendo na minha vida agora?! – exclamou Grimmjow depois da frase de Neriell.
- Faz parte do trabalho dele. Aliás, como conselheira da empresa, esse também é o meu dever.
- Então é um problema com a empresa?
- Em parte. – ela cruzou as pernas exibindo melhor as grossas coxas saindo da lateral da saia justa. Grimmjow não pode evitar o olhar mais detalhado sobre aquela parte de seu corpo, voltando a encará-la segundos depois.
- Então?
- Grimmjow o Aizen... Na verdade eu também... Estamos muito preocupados com você ultimamente.
- Por qual razão? Eu estou bem.
- Não, não está. Já faz um tempo, você tem ficado mais relapso em alguns assuntos relacionados à empresa, e bom, recentemente...
- “Recentemente” o que Neriell?! – esbravejou chegando o corpo para frente.
Ela ergueu os olhos decididos encarando a fúria azul dos dele:
- Você tem ficado cada vez mais impaciente e irritável. E você sabe o por que.
As íris dele se arregalaram junto com a boca semi-aberta completando a expressão de surpresa, e susto. Cerrou os punhos chegando o corpo para trás e batendo com as costas na almofada do sofá cruzando os braços.
- Isso não tem nada a ver! – esbravejou, mirando a direção oposta dela.
- Tem sim Grimmjow! Você mesmo me contou sobre isso... – ela fechou suas pálpebras respirando fundo e apertando as mãos sobre seu colo – Grimmjow há quanto tempo você está saindo... Como é mesmo o nome... Com aquele tal de Ichigo?
Agora ele tinha ficado impaciente. Levantou-se apressado batendo os pés no chão com vontade conforme andava, mas Neriell não esboçava nenhuma reação ou temia isso. Já ao seu lado, ele aproximou sua boca dos ouvidos dela permanecendo com o cenho furioso:
- Eu disse que não tem NADA a ver!
- Responda a minha pergunta. – rebateu de imediato sem dar espaço para ele se impor mais sobre ela.
Bufando, ele caminhou pela imensa sala coçando o cabelo; sinal visível da sua irritação e também do lapso de respostas para encerrar a conversa. Não tinha argumentos plausíveis para discutir com Neriell, afinal ele sabia por dentro que ela estava certa.
- Quase três meses. – disse entre os dentes olhando para o jardim através da enorme porta de papel.
- E você... Sabe... Já chegaram naquele ponto?
Ela pode ouvir um rosnar vindo dele preferindo não forçar a barra dessa vez aguardando pacientemente a sua conclusão, apesar dela já ser bem óbvia.
- Não Neriell, eu ainda não transei com ele, se é isso que você quer fofocar. Agora dá para ir embora e me deixar em paz?!
Os gritos dele poderiam ser ouvidos á distância, mas por sorte a residência não estava com nenhum empregado naquela tarde de folga. Apenas os fiéis do templo visitavam o local, mas a sua casa era bem longe da entrada dele ou do campo de orações; conveniente.
Neriell levantou-se, agora caminhando para o lado dele pé ante pé tentando não o enfurecer mais ainda. Cruzou os braços com a face voltada para o chão. Estava na hora de passar um sermão nele, e apesar de ter prática com Grimmjow para isso; afinal ele facilitava muito; a situação na qual se encontrava era delicada. Não era um assunto comum, e talvez por isso fosse tão complexo.
- Grimmjow – começou com a voz manhosa – lembra quando nos conhecemos, assim que fui transferida para e empresa, e nós saímos juntos umas quatro, cinco vezes?
Ele meneou que “sim” com a cabeça evitando encará-la:
- Apesar das nossas desavenças e do seu desapego por mim quando já tínhamos nos divertido, você me viu além da figura de uma das empregadas da empresa. Eu também havia me tornado sua amiga. Foi quando você me contou a história da sua família, dos seus poderes, que são passados de geração em geração.
Os dedos dele estalaram ao fechar o punho, porém manteve-se em silêncio, pois se dissesse algo poderia piorar ainda mais aquele discurso já programado dela, que não tardou a prosseguir:
- A lenda do gato da sorte, em como ele deu seus poderes para um simples clã de um templo, de início eu achei que você era louco, mas aos poucos fui me convencendo da verdade. E fiquei admirada com eles, atônita. Afinal, qualquer humano cobiçaria poder se transformar em um felino para observar à todos a sua volta o quanto quisesse... Sem contar no bônus de ser sortudo, dos sentidos apurados, enfim! Todos esses detalhes me fizeram ver quanta responsabilidade você tinha; apesar da sua imprudência em muitas delas.
Grimmjow pensou ter visto um sorriso no canto da boca dela com sua última frase, e talvez Neriell o tivesse mostrado por recordações repentinas que vieram a invadir sua mente, mas o assunto de agora era mais importante, tornando ao tom sério, porém consternado:
- Foi também que pensei em como seria magnífico fazer parte da sua família; ser você... Até saber do outro lado disso.
Ele andou mais alguns passos para frente, sentando-se na beirada de madeira da pequena varanda típica, antes da grama do jardim vendo a água da fonte ir e voltar pelo tubo visível dela. Neriell o seguiu balançando os pés no ar também sem virar seu olhar para o dele:
- Há uma espécie de condição imposta sobre todos os descendentes do seu clã, como um tipo de troca por seus poderes... – falou por fim — A sua família; você; é mais ligado aos seus instintos do que qualquer outro homem. Em outras palavras, é como se o seu desejo por qualquer coisa fosse mais profundo, necessário. É por isso que quando você quer algo, geralmente atropela tudo em seu caminho até o conseguir. E... Diferente dos outros seres humanos, seus instintos sempre falam mais alto, fazendo ser quase impossível negá-los...
- Aonde quer chegar com isso? – interrompeu-a num to mais sereno ainda sem desviar suas íris dos raios de sol da manhã que iam embora iluminando a fonte até onde podiam.
- Naquela época, você também me contou sobre a “punição” ao se negar por muito tempo os seus instintos... Por não completar os seus desejos. – ela deu um longo suspiro, como se o ar faltasse para dizer isso á ele, apesar de Grimmjow já conhecer essa história de cor e salteado – Você me contou, lembro até que estava chovendo naquele dia, que quanto mais você fosse contra os seus desejos, mais próximo você ficaria de seus instintos, do seu lado animal... Até finalmente sucumbir a eles.
Os cabelos azulados moverem-se com a repentina brisa, e foi quase como se ela o fizesse se levantar justamente no fim da frase de Neriell. Os pés descalços sentiam a grama fresca ainda morna. As folhas iam e vinham adiante dele sem tocar em seu corpo, apenas o vento possuía esse direito.
Pela primeira vez na conversa ele girou a face para Neriell vendo-a também o fazer agora, deixando os olhos se encontrarem por um tempo.
- Você já enfrentou tudo isso diversas vezes – ela continuou — comprando os carros que tanto gostava, correndo atrás das mulheres; e alguns homens, que te interessavam, bebendo feito um louco, fumando, impedindo sempre que esses seus desejos se sobrepusessem à sua vontade... Mas dessa vez, pela primeira vez... Você está desejando outra pessoa.
- Sei disso tudo Neriell. – comentou ele, decidido.
- Então sabe o que vai acontecer com você se continuar a sair com esse garoto, não é?
- Faço o que quiser da minha vida ninguém tem de ficar metendo o bedelho nisso.
- Grimmjow você perdeu completamente o juízo?! Estamos falando da possibilidade de você deixar de ser um humano!!!
- Isso não vai acontecer!
- Por quê?! Pretende contar tudo á ele?!
- Nunca! Não vou falar esse tipo de coisa para ele ficar com pena de mim! Não quero nada vindo dele dessa forma!
- Mesmo assim pretende continuar o vendo?! Saindo com ele?! Piorando ainda mais seu estado?! Você já suportou por quase três meses Grimmjow, e você sabe que não ficará satisfeito até ter tudo o que puder dele!
- Eu sei disso, porra! – berrou aproximando-se agora da mulher numa velocidade incrível, deixando seus olhos á frente dos dela, fazendo-a sentir sua respiração quente e acelerada.
Os globos azuis eram mesmo fascinantes. Uma tonalidade suave, porém selvagem ao mesmo tempo. Só que um detalhe peculiar ressaltava deles agora. Analisando suas íris, ela pode notar uma fina linha negra descendo da parte de cima até a inferior, cortando-o ao meio, quase como os de um felino...
- Já está começando, não é? – comentou a mulher com as feições sérias.
Com o baque, Grimmjow se afastou dela pressionando suas têmporas com os olhos fechados. Após alguns segundos, sua mente estava mais limpa e centrada tornando a olhar Neriell de uma distância segura para ambos; quando a linha negra do meio de sua íris havia sumido.
- Sua paciência tem se esgotado com muito mais facilidade ultimamente, sem contar na sua constante irritação... E agora isso... Seu corpo sofrendo por conta das suas ações; até onde pensa que vai com isso Grimmjow?!
- Chega Neriell! – esbravejou vendo-a se calar – Já disse que estou a par de tudo isso, mas não vou deixar que essa... Essa “maldição” seja cumprida. Eu vou dar um jeito, sempre dou, vai ver.
Deixando a boca entreaberta Neriell não encontrava mais palavras para dizer á ele, apesar dos seus motivos serem muitos e plausíveis. Porém ele jamais daria o braço a torcer, não importasse qual fosse a razão. Ele sempre ia arrumar um jeito por si mesmo de concertar as coisas... Ou fuder com tudo de vez. Balançando a cabeça negativamente para os lados, ela achegou-se mais perto dele, até dar-lhe um abraço.
- Você é tão desligado que precisa dos outros se preocupando por você...
- Tu gosta de cuidar de mim que eu sei. – brincou escutando uma rápida risada dela, afagando seus cabelos verdes e a deixando deitar a bochecha em seu peito.
- Vai mesmo continuar a sair com ele? – falou com o rosto amassado ouvindo as batidas do coração acelerado de Grimmjow.
- Sim.
- Nossa se apaixonou de verdade dessa vez hein?
- Ah! Cala a boca! – falou num tom de deboche, saindo do abraço dela e indo para a sala; ele sabia que a mulher só estava esperando a oportunidade para fazer uma piadinha dessas.
Neriell riu. Era engraçado o ver sem graça ao fazer seus comentários sobre os sentimentos que ele tanto tentava negar. Mas, verdade seja dita, ele sempre arrumava uma maneira de sair de situações como essa, o que a aliviava um pouco, mas por dentro ainda sentia um receio, um medo de ver tudo dar errado no final. Entrou poucos segundos depois pegando sua bolsa do sofá e indo até a porta.
- Já vai? – indagou Grimmjow espreguiçando-se, quase como se a briga entre eles não tivesse ocorrido; um bom sinal da sua amizade.
- Tenho detalhes importantes à tratar da empresa.
- Só veio aqui me dar sermão de mãe preocupada? – ironizou.
- Faz parte da vida... Além do mais; — disse virando-se para ele ao terminar de encaixar as botas e sorrindo – Tenho de fazer uma oração no templo para essa alma perdida que é a sua!
Ele riu conforme a amiga partia de sua casa; realmente indo para a direção da caia de orações. Do carro ela chegou a gritar um: “boa sorte” da janela antes de sair de seu campo de vista.
Os armários de seu quarto estavam revirados. Grimmjow procurava freneticamente por aquele pecado de papel antigo que julgava ser inútil desde a partida de Neriell. Havia o recebido assim que teve idade o bastante para compreender seu conteúdo. Porém agora estava perdido em meio a sua bagunça generalizada; mas nesse momento, poderia conter alguma ajuda.
A tarde avançava naquele dia monótono. As aulas foram normais, o almoço fora normal; e a última aula terminava de forma quase parada. Era como se ele se arrasta-se mais lento, como um detalhe importante faltando nele. Grimmjow havia sumido; de novo. Tinham saído no final de semana, mas depois disso nem se viram direito, apenas pelos corredores da faculdade. Inoue, agora, volta e meia perguntava como andavam as coisas entre eles. Não era como se tivessem algum problema, porém ainda era estranho falar sobre isso com a amiga. O mais assustador talvez fosse imaginar a reação de sua família, ou de Chad e Ishida ao saberem disso... Merda! Em que confusão complicada ele havia se metido!
- Ichigo! – falou mais alto dessa vez esperando que ele virasse a cabeça avoada na sua direção.
No susto o ruivo voltou-se para Renji, percebendo agora o quão distraído estava.
- Algum problema? – perguntou sentando-se ao seu lado.
- Nenhum. Só estou com tédio.
- Idem. Essa semana passou de uma maneira tão estupidamente chata.
- Concordo.
- Então quer vir comigo numa festa? – alegrou-se sorrindo para o outro.
- Você não tem jeito mesmo.
- É um dom!
- Valeu pelo convite, mas não posso. Vou estudar para as provas.
- Já temos alguma prova?
- Claro que sim! Começam em cinco dias! Como que você não sabe disso?! Acaso não freqüenta as mesmas aulas que eu?
- Geralmente eu durmo e te deixo anotar tudo para mim.
- Inacreditável...
- Ah, mas já que não tenho saída, quer estudar junto comigo? Podemos ir a biblioteca.
- Não sei ainda, vou perguntar para o Grimmjow se ele tem algo para fazer, pois ele sabe alguns detalhes melhor do que eu.
- Certeza? – disse vendo Ichigo voltar-se para ele – Ele deve ter mais coisas para fazer, afinal está em um período à frente de nós. Além disso tem as provas dele para se preocupar.
- É... Eu acho que sim... – pensou agora, depois de ele ter dito. Talvez Grimmjow precisa-se mesmo se focar nos estudos e bom... Sabia que se ficasse perto dele... Fariam tudo, menos estudar. Aliás, nos últimos dias tinham se visto pouco, provável que fosse por esse motivo; havia se esquecido de perguntar isso á ele.
- Falando nisso... – continuou Renji, ignorando a presença do professor apesar dele falar quase sussurrando, chamando a atenção de Ichigo – Você e o Grimmjow já estão saindo há... Quanto tempo mesmo?
- Acho que... Quase três meses. – respondeu fazendo os calculos mentalmente.
- Nossa... Bastante tempo, né?
- É...
O ruivo pousou a caneta no papel branco de seu caderno, refletindo um pouco sobre todo este último período no qual havia ressaltado em sua cabeça na conversa. Fazia mesmo três meses? Nossa, como tudo isso tinha passando tão depressa?
- Ele já te disse alguma coisa? – terminou Renji, finalmente, sua fala, fazendo a linha azulada da caneta do ruivo parar de se mover com o repentino baque criando uma fina linha saindo de dentro do caderno.
Por alguns minutos, a mente de Ichigo ficou branca, com o nada vagando por ela. Os momentos que passava com Grimmjow tinham sido bem tranqüilos. Quem visse de fora com certeza diria que eram “namorados”. Mas não era bem assim. Nenhum deles havia dito algo ou tocado no assunto... Continuavam como pensara antes, numa relação praticamente vazia, sem sentido, apenas respondendo aos seus desejos. Apesar do tempo que passaram juntos era como se não tivessem evoluído do ponto do primeiro encontro.
- Não... – respondeu cabisbaixo.
- Sei lá... No início eu achei que ele só não sabia como se expressar direito, mas depois de três meses ele nem abriu o bico para dizer o que sente por você Ichigo. Tem certeza que é isso que você quer?
O ruivo acocorou-se um pouco na cadeira pensativo sobre essa última frase de Renji e permaneceu com o olhar distante. As palavras do professor mal chegavam ao seu ouvido, quase como um eco, e o sol batia na sua mesa refletindo o incomodo brilho do metal das argolas do caderno em sua face. Até voltar-se para Renji. Porém sem encará-lo:
- Também pensei sobre isso um tempo e... Eu resolvi que iria esperar para ver até onde o Grimmjow vai com essa história. É uma coisa nova tanto para mim quanto para ele então eu sei que é difícil. Decidi esperar até ele perceber ou pelo menos começar a dizer alguma coisa, a agir de certa forma comigo.
- Mas já fazem três meses Ichigo... – insistiu.
- Sim, mas se você parar para pensar ficamos atolados com um monte de coisas na faculdade, sem contar que ele também tem de se preocupar com os assuntos pessoais dele. Seria pedir demais de uma pessoa nesse meio tempo, e eu não sou egoísta.
- E até quando você decidiu que vai esperar por ele?
- Até eu ter uma prova que ele sente algo por mim... Ou não.
Renji calou-se virando o rosto para frente e tornando a ouvir a voz do professor retumbando na sala de aula. Ichigo poderia estar realmente feliz ao lado de Grimmjow, mas também se entristecia com o fato de ser o único a demonstrar tais sentimentos enquanto o outro nada fazia para isso, nem ao menos se manifestava a fazer algo por ele. Isso era cruel.
- Saco. – comentou Ichigo por impulso, chamando a atenção de Renji.
- Que foi? – indagou curioso.
- Eu não sei como agir numa situação dessas... Se fosse com uma garota eu mesmo dizia tudo e pronto. Mas... – calou-se por alguns instantes dando a entender as palavras que havia pensado – Mas devido ao que estou passando, me sinto meio perdido, e sem motivação nenhuma! Eu sou homem também, não sou melodramático para ficar fazendo disso o fim do mundo. Então se ele, que parece ter mais experiência no assunto, disser alguma coisa, então eu também digo.
- Tudo bem se a resolução não for o que você espera?
A caneta parou mais uma vez como se o ruivo processasse todo esse raciocínio. Verdade: estava apaixonado por Grimmjow, mas não sabia dos sentimentos dele, e do jeito que ele era orgulhoso, falar alguma coisa à ele só o deixaria mais egocêntrico, piorando ainda mais as coisas. De certa forma, não era como se estivesse esperando por ele ou algo do tipo, mas, realmente, como havia dito à Renji: não tinha experiência nenhuma com relacionamentos, ainda mais um desse tipo, então era melhor esperar mais um pouco... Ou então acabar com tudo de uma vez.
- Sim, tudo bem. – respondeu depois de tomar um longo fôlego, pois apesar de agüentar qualquer que fosse o resultado disso, o seu desejo de querer tudo correndo como esperava, ressaltava-se dentro de seu peito.
A cama já havia trocado de lugar com o teto. No ventilador várias roupas penduravam-se em uma total desordem, além de ser impossível determinar onde aquele cômodo começa e terminava. Grimmjow se encontrava no meio dele, ainda revirando o armário na procura do antigo pergaminho, sem sorte alguma; irônico isso.
Volta e meia se estressava jogando uma blusa para a porta de papel que dava acesso á uma pequena varanda, enfeitando o jardim com suas peças mais inusitadas. Impaciente, parou por alguns instantes, jogando os braços para trás e tentando buscar um apoio. Nunca pensou em como se frustraria tanto apenas para encontrar uma coisa tão velha.
Girou o pescoço para os lados até o ouvir estalando. Desceu o queixo até alcançar seu peito á mostra, pois a manga do kimono branco caía sobre seu ombro esquerdo, até os olhos se abrirem notando uma pequena tala de madeira do fundo de seu armário um tanto quanto solta. Engatinhou até ela devido á surpresa; estúpido. É claro que algo desse porte estaria guardado em um local seguro, como pode esquecer?!
Quase arrancou o pedaço do piso e o jogou para o lado vendo a pequena caixa preta, adornada com os detalhes dourados dando a ela um ar rústico, porém delicado e simples. Não havia fechadura, nem uma tampa aparente nela.
Pousou-a sobre seu colo, agora se ajeitando numa pose mais confortável. Cerrou os olhos mais uma vez deixando os lábios recitarem um daqueles mantras repetitivos que aprendera obrigado quando pequeno. Como por mágica, a pequena caixa foi desenhando uma fissura em volta dela mesma até formar uma pequena tampa, pronta para ser aberta.
Grimmjow deixou suas pálpebras relaxadas com a face tranqüila, e dispôs-se a abrir aquele objeto tão estimado por usa família; passado de geração em geração desde a época de seu primeiro ancestral.
Apanhou gentilmente seu conteúdo, pesado apesar da aparência sutil, deixando a caixa de lado. Puxou a pequena corda; feita de ouro; que prendia o pergaminho o mantendo fechado, e passou a percorrer as íris pela escrita rudimentar do pedaço de papel: era um diário antigo, narrando uma lenda, uma história, quase na forma de um poema, numa espécie de aviso para aqueles que a conhecessem...
“Na época em que os espíritos zombavam da fraqueza e aparência simples dos seres humanos, por um instante, uma única dessas presenças compadeceu-se da alma daquele homem que com tanto carinho e zelo cuidava dele. Para os membros de sua futura família, concedeu um poder divino, que garante aos agraciados o dom da metamorfose em sua forma carnal enquanto no mundo humano: um felino de pelagem clara; possuindo assim uma agilidade apurada e movimentos mais graciosos que qualquer outro animal, dando ao seu possuidor a oportunidade de enxergar o mundo ao seu redor sobre uma nova perspectiva. Enquanto no seu exterior humano, este seria mais propício a atrair bons eventos e prosperidade, também tendo seus sentidos sensíveis aos toques da vida.
No entanto, essa benção exigia um pagamento. O portador vagaria por uma tênue linha dividindo seu lado racional de sua bestialidade. Sua parte humana ligar-se-ia de maneira mais profunda aos seus instintos, compelindo-o a saciar seus desejos com mais afinco que a maioria dos homens para então aquietá-lo.
A única maneira encontrada para se aplacar estes impulsos, era a meditação; acalmar a alma, numa fuga das tentações mundanas para impedir estes impulsos, porém, está longe de se tornar a solução definitiva para esta condição.
Caso os agraciados não queiram, ou não possam, cumprir com a regra, dia após dia, seu corpo transformar-se-ia na figura animalesca na qual eram capazes de tornar-se, abandonando até o fim de sua existência sua fala, sua aparência, e por fim sua consciência humana, definhando sua vida como a besta que havia se tornado.”
Os dedos apertaram a fina folha fazendo o estalar do papel velho chegar aos seus ouvidos. Soltou-a pondo os braços para o lado e tornando a apoiar-se neles.
As palavras eram duras e concisas, como numa natureza de um sermão. Era o aviso dado às gerações posteriores sobre como suas vidas, desde o momento de seu nascimento, tinham sido, não iluminadas pelas mãos de um doce espírito, mas sim amaldiçoadas. Se naquela época as forças do outro mundo gostavam tanto de brincar com os seres humanos, porque deveria de ser diferente dessa vez? Do que adiantava ter esses poderes tão milagrosamente maravilhosos, se para isso era preciso afogar-se mais e mais sobre seus impulsos?! Se para evitar não ser mais humano, e acabar o resto de sua vida na forma de um animal burro e sem emoções era preciso atender a esses pedidos desesperados, antes que sua alma se perdesse?!
“Se estou com sede...” Começou a pensar Grimmjow observando o ventilador de seu teto com as hélices envergadas pela quantidade de roupas, rodar devagar. “Se estou com sede, eu bebo um copo d’água. Se tenho fome, como alguma coisa. Se quero beber um uísque novo que vi numa loja, eu o compro e bebo até meu fígado estourar. Se quero trocar a marca de cigarro, eu fumo até enegrecer meus pulmões. Se eu quero transar, eu pego qualquer um que quiser e transo...”
Erguendo-se do chão e ajeitando o kimono caído, ele foi até a varanda vendo o jardim por alguns instantes antes de fechar a porta andando em meio ao caos de seu quarto.
“Mas porque quando eu penso em você...” Prosseguiu com idéias “Eu nunca sei o que eu quero?! Se eu continuar assim vou ficar louco, e por fim acabarei no estado dessa maldição... Porque eu simplesmente não pego tudo aquilo que eu desejo de você, e assim acabo com toda essa angústia?! Será que é porque por mais que eu pegue tudo isso, nunca terei o bastante?!” Esbravejou no final de sua frase. Ainda que ela estivesse apenas em sua mente, o soco abrindo um rombo na parede foi demonstração suficiente de como estava se sentindo naquele instante.
Queria Ichigo mais do que tudo nesse momento. Era como Neriell havia dito: nenhuma outra vez Grimmjow tinha desejado uma pessoa, e agora, nessas circunstâncias novas e inusitadas, ele não sabia o que fazer ou como o fazer... E mesmo se quisesse algo, não poderia apenas impor ao ruivo. Não poderia conviver consigo mesmo sabendo que ele estava ao seu lado por pena... Se... Se ele o queria tanto assim, só estaria satisfeito... Se Ichigo dissesse á ele por livre e espontânea vontade.
- Já te falei da lenda do Maneki Neko, Gin? – indagou Aizen com a xícara de chá estendida enquanto acompanhava com seu olhar o tráfego da janela de seu escritório.
- Algumas vezes, Aizen-sama. – respondeu o homem-raposa – Me contou principalmente, para explicar melhor sobre os poderes de Grimmjow-kun.
- Ah! Seria belíssimo se eu fosse o detentor dessa tão bela graça! Poderia observar meus inimigos de perto na forma de um animal tão inofensivo como aquele. – tomou um gole de seu chá tornando a falar – Até mesmo o gosto dessa bebida tão comum eu poderia sentir de forma mais clara, com meus cinco sentidos elevados ao seu máximo...
- Porém o senhor almejaria ter a sorte de Grimmjow-kun, não é? – interrompeu-o, vendo o sorriso brotar nos lábios daquele homem meticuloso.
- Bem, isso seria interessante... – prosseguiu – No entanto é como dizem: quando a sorte de alguns acaba, ela tende a passar adiante, para as pessoas mais próximas dela.
- Porque diz isso agora?
- Porque, meu caro Gin... – voltou-se para ele depositando a xícara no pires de sua mesa – A sorte de Grimmjow-kun está começando a falhar e... Eu sou aquele que será o mais próximo quando ela o abandonar de vez.
“Grimmjow.” Pensava Ichigo antes do fim de sua aula “Quando eu vou saber mais de você?”
Espreguiçando-se na mesa apertada da classe, ichigo ouviu o badalar do sino guardando seu caderno o mais rápido que pode.
- Com pressa, Ichigo? – perguntou Renji vendo-o passar por ele tão rápido.
- Tenho que falar com uma pessoa, nos vemos amanhã!
A latinha de refrigerante amassou nas mãos firmes de Renji ao vê-lo afastar-se, deixando aquela sua última frase martelando em sua cabeça. “Uma pessoa o caralho!” Pensou com o cenho estranhamente sério. “Você vai falar com o Grimmjow...”
Virou-se para a direção oposta dele, andando até as escadas do outro lado; precisava de uma bebida, precisava sair essa noite. Arremessou a latinha meio cheia dentro do lixo sem nem olhar para ele, caminhando com as mãos afundadas nos bolsos de sua calça. Isso já estava ficando deprimente...
No escritório do centro da cidade o chá esfriava sobre a mesa. Não era mais preciso tomá-lo, afinal, o sabor doce na boca de Aizen agora era por outro motivo.
Continua
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