Estaquei incerta diante do portão fechado da escola. Mikoto carregava nossas bagagens numa felicidade incrível. Sempre perceptiva, ela sabia que eu estava muito alegre com essa viagem e sorria demonstrando que também o estava. Mas agora, eu me sentia insegura. Só vento passava pelo portão. Nem sombra das outras, muito menos de Midori-chan.


Combináramos de nos encontrar em frente à Academia e não no dormitório que era comum a todas por vários motivos: primeiro, Midori-chan perdera parte de sua tese sobre o Festival de Fuuka e a procurava incessantemente em seu apartamento, sem deixar ninguém entrar. Segundo: Nao-chan, a presidente (não consigo esquecer que ela já se formou! Para mim, será sempre a presidente.) e Natsuki possuem uma incrível habilidade de desaparecer do dormitório quando se precisa delas.Pensando nisso, marcamos no portão da Academia às oito horas para que não houvesse erros.


Indagando a mim mesma se teria chegado cedo demais, tirei o celular do bolso: oito horas e nove minutos. Que as outras não eram muito pontuais, eu sabia bem. Sentei-me na calçada, pronta para esperar pacientemente.


- Mai... vai demorar muito? Eu quero almoçar! – reclamou Mikoto largando as bolsas e sentando-se como um gato ao meu lado. Eu vestira nela uma blusa de mangas curtas azul com duas listras verticais amarelas que realçavam seus olhos amarelados e uma calça até os joelhos azul-petróleo. Eu usava uma saia xadrez e uma blusa rosa também de mangas curtas.


Encarei-a e ri, passando a mão em sua cabeça.


- Mi-ko-to! Você acabou de tomar café-da-manhã! Não faz nem dez minutos que você engoliu o último pedaço de pão.


- Mas... eu não posso comer o ramen da Mai de manhã! – respondeu ela, fazendo cara de tristeza.


- Não se preocupe, eu vou fazer todo dia para você, está bem? Agora, pare de reclamar. – eu prometi encerrando suas preocupações e arrancando um sorriso iluminado dela.


- Mai! – exclamou ela me agarrando como uma criança feliz.


- C-chega! Pare... isso faz cócegas!



Vi as oito e quarenta chegarem sem sinal de vida das outras. Já estava ficando entediada e irritada, apesar de Mikoto parecer incrivelmente calma diante da espera. Parecia prestes a dormir, quando bufei com raiva me levantando de um salto e ela me encarou curiosa. Já havia tentado contatar Midori-chan, mas só chamava e ninguém atendia.


- O que foi, Mai?


- Cansei! Midori-chan só pode estar de brincadeira... se ela não ia poder ir, que avisasse antes! Vamos embora, Mikoto.


Mal pronunciei essas palavras, um veículo estranho deu uma arrancada para fazer a curva e quase bateu no muro. Ouvi algumas vozes femininas gritando dentro dele e senti pena delas por causa da velocidade aterrorizante com que trafegavam.


Quando a coisa parou na minha frente, percebi o quão pequena era a van que comportava seis mulheres e suas bagagens. Com certeza ela já fora branca um dia, mas fora pintada (e bem mal) de pelo menos cinco cores diferentes. O laranja que parecia ser mais atual descascava e dava para ver ferrugem em todo o metal. Além disso, a freada brusca abriu com violência a porta do motorista, nocauteando Mikoto que se jogara em direção à rua para ver o que vinha tão rapidamente.


Malas voaram à minha frente e as vozes dentro daquela... coisa emudeceram, surpresas pela repentina parada. A mais calma delas disse, quebrando o silêncio:


- Que coisa...! Será que já chegamos?


- Claro que não, sua mulher bubuzuke!


- H-Haruka-chan...


- E-eu quero meu Onii-chan!


- MIKOTO-CHIIIIIN! – exclamou a voz que reconheci ser de Midori-chan, abrindo a porta do carona. Meu queixo caiu ao ver quem estava dirigindo.


Por mais que eu tivesse na mente a idéia fixa de que Midori-chan era péssima motorista, o que nunca comprovara, não podia imaginar que existisse alguém tão ruim quanto – ou muito pior que ela. Aproveitando a porta que se abrira sozinha, Youko-sensei saltou do banco do motorista e disse:


- Viu o que esse seu pedaço de lata velho fez, Midori?


- A culpa é sua, que dirige pior que um búfalo selvagem! Tirou sua carteira na selva, foi?– esbravejou Midori-chan dando tapas nada gentis no rosto de Mikoto para tentar acordá-la.


Aproximei-me com um pouco de medo, vendo as duas brigarem e Mikoto no meio da bagunça. Humildemente recolhi a bagagem espalhada pela calçada. Quando pegava a última mochila elas notaram minha presença.


- Mai-chan! Deixe-me guardar isso para você. – disse Youko-sensei ignorando os gritos finais de Midori-chan. Ela arrancou tudo de minhas mãos enquanto Midori-chan abria o porta-malas. As duas estavam com uma expressão séria que não entendi até que Youko-sensei empurrou violentamente as malas para o interior dele e Midori-chan chutou alguma coisa lá dentro, fechando a porta enferrujada rapidamente.


Eu ia perguntar, mas Mikoto acordou nesse momento.


- Maaai...! Estou... tonta...


Com a ajuda de Yukino-chan, consegui deitá-la em um dos dois bancos acolchoados de dentro da van. O outro que estava bem em frente era ocupado por Suzushiro-san, uma atordoada Shiho-chan e a sorridente Akane-chan. Yukino-chan retomou seu lugar entre os perigosos bancos da frente e vi que no espaço restante no banco tomado por Mikoto com a cabeça em meu colo era ocupado pela presidente. Ela sorriu quando entrei e respondi com um aceno de cabeça.


- Prontas? – disse Youko-sensei. A essa frase, Midori-chan se agarrou no painel do veículo, Yukino-chan tirou os óculos para protegê-los e Shiho-chan começou a choramingar.


Sem mais aviso, a van arrancou pela rua, virando tão rapidamente que só pude ver um borrão que eram os muros da Academia. Imediatamente entendi a reação das outras, considerando que na primeira lombada pela qual passamos Mikoto quase bateu a cabeça no teto baixo. A presidente segurou suas pernas para impedir um acidente maior, já que minha reação não foi tão veloz. Ela era a única que parecia calma com a situação.


- POR QUE VOCÊ AINDA ESTÁ DIRIGINDO DESSE JEITO, YOUKO? – berrou Midori-chan sobrepondo-se ao barulho aterrador do motor.


- Foi você que nos atrasou! A culpa é sua se eu tenho que correr por esse barranco! – gritou Youko-sensei de volta. – Devemos chegar para o almoço, o que será impossível se não fizermos este percurso em uma hora e quinze minutos! É uma tremenda falta de educação pedir a casa emprestada a Munakata-san e ainda aparecer fora do horário!


- Munakata-san? – indaguei. – Ele não é...


- Sim, siim! – respondeu Shiho-chan em pânico. – Ojii-san ofereceu nossa casa de verão para o pessoal. Só que ela é um pouco isolada, então demoraremos para chegar lá...! – ela parou de falar bruscamente em uma curva particularmente assustadora.


O avô de Shiho-chan com certeza é uma pessoa gentil, pensei comigo mesma. Meu estômago afundou ao pensar no quanto sua família era rica. Um templo, casa no campo... Meus devaneios foram interrompidos por uma lembrança barulhenta: o porta-malas parecia fazer toc toc e pude ouvir gemidos estranhamente abafados vindo dele.


- Presidente... – comecei a perguntar na voz mais baixa possível em meio à zona de gritos e resmungos.


- Fujino está bom. – ela disse amistosamente.


- Ok... Fujino-san. Pensando agora, o ponto de encontro era a Academia, mas somente Mikoto e eu estávamos lá conforme o combinado. – comecei por esse ponto porque tinha uma vaga idéia do que ia junto com as bagagens lá atrás.


- Bem... como Sugiura-sensei estava atrasada, Youko-sensei achou melhor nos apanhar no caminho do dormitório para cá. E... – ela deu uma olhada triste para o porta-malas. – Elas queriam nossa ajuda para solucionar um probleminha.


Os gemidos foram ficando mais agudos e arfantes na parte traseira do veículo. O olhar triste mas divertido me disse tudo que eu precisava saber.


- Com certeza tem gente faltando aqui. – comentei. – Não é um modo extremista de tratar fugitivas? – perguntei dirigindo-me à Midori-chan.


Ela me lançou um olhar trágico e sombrio: — Eu fiz o que foi necessário.


- É para o bem delas. – completou Fujino-san.


É claro, pensei. Para alegria dela mesma, na verdade. Deixei esse pensamento me dominar e segurei-me para não rir.


Como não dava para apreciar a paisagem, perdi-me em lembranças e sonhos durante a viagem nada silenciosa. Como partíramos às pressas, acabei não conseguindo falar com Takumi que só chegaria mais tarde. Deixei um bilhete a ele em seu dormitório.


Após mais ou menos meia hora de viagem, consegui, incrivelmente, adormecer. Sem sonhos, com o sol batendo em meu rosto e rumo a uma nova aventura.