Mai Hime: Summer Vacation

3 3. Descarregando a bagagem


Acostumada à barulheira aleatória que oscilava entre o motor e os gritinhos de pânico das garotas, acordei assustada quando ambos os ruídos cessaram. Percebi que o movimento também parara. Agora, a nada confiável porta da frente rangia enquanto Youko-sensei e Midori-chan saíam para destrancar a porta mais larga que corria horizontalmente para nos deixar sair. Sonolenta, notei que me encostara à janela e Mikoto não estava mais em meu colo. Abri os olhos assustada com a idéia de que ela pudesse ter caído, mas quando olhei em volta, Fujino-san estava de pé e Mikoto jazia a meu lado, esticada no resto do banco.


- Fujino-san... não precisava ter viajado desconfortavelmente... – murmurei sonolenta.


- Não tem problema. – respondeu ela sorrindo. – Além do mais, tenho uma ótima vista daqui.


Eu fiquei vermelha, pois minha blusa escorregava perigosamente para um lado e Mikoto estava de pernas abertas. Lancei a Fujino-san um sorriso amarelo, sabendo que esse era o tipo de brincadeira do qual ríamos e que irritava muito Natsuki.


- Obrigada. – resmunguei sem graça.


Ela abriu a boca para responder, mas nesse instante Midori-chan e Youko-sensei abriam o perigoso porta-malas. Fujino-san mudou de idéia, abriu os olhos avermelhados e disse:


- Acho melhor ajudá-las. – E saiu da van. Só restávamos Mikoto, dormindo, e eu dentro do veículo. Akane-chan e Yukino-chan pareciam dispostas a ajudar a descarregar as malas. Shiho-chan corria em direção à casa para avisar que chegáramos e Suzushiro-san examinava tudo em volta, analisando a qualidade. Meu estômago despencou de novo ao lembrar que a família Suzushiro era mais rica do que eu jamais sonharia ser.


Levei bem uns dez minutos para conseguir acordar Mikoto. Ela levantou assustada e confusa, reclamando de fome como sempre. Conduzi-a pelos ombros para fora do veículo.


- Agora podemos comer? – perguntou ela esfregando os olhos.


- Bem... vamos tirar tudo da van e então almoçaremos com Munakata-san. – expliquei a Mikoto.


- O que é... van? – indagou ela tombando a cabeça de lado, num gesto de quem não entendera.


- Esse carro grande... ah, esquece. Vá ajudar Yukino-chan um pouco, sim?


Ela se encaminhou lentamente para a parte traseira da van, observando curiosamente a operação que começara: Midori-chan e Youko-sensei retiravam os maiores pacotes que carregávamos: as furiosas e raptadas Nao-chan e Natsuki. Confirmando minhas suspeitas, observei as duas gritarem de ódio.


- Midori, eu vou te MATAR! – berrava Natsuki depois que Fujino-san correra até ela e tirara a fita isolante que prendia sua boca.


- Quem vocês pensam que são? QUE DROGA DE CORDA É ESSA? – gritava mais alto ainda Nao-chan, tentando se desvencilhar da corda que a prendia.


Percebi que o avô de Shiho-chan e a própria corriam até nós para saber o motivo daquele berreiro todo.


- Natsuki, vamos parar com o escândalo... – acudi tentando acalmá-la. Nao-chan se fartou de gritar e apenas montou uma expressão emburrada, mas minha amiga insistia em tentar chutar Midori-chan, o que se provou inútil, já que Fujino-san não a desamarrara. Ela se calou e ficou vermelha de raiva.


Munakata-san e Shiho-chan chegaram até nós. Cumprimentamos o gentil velhinho de óculos, que respondeu:


- Sejam muito bem-vindas. Venham, o almoço já está pronto.


Mikoto saiu correndo sem olhar para trás. Yukino-chan juntou-se a uma animada Suzushiro-san para admirar uma fonte que abrigava uma estátua de mármore em forma de animais míticos e estava no caminho até a casa, Akane-chan conversava com Youko-sensei enquanto caminhavam para o interior da residência, seguidos por Midori-chan e Munakata-san que embarcaram em um relato de troca de histórias sobre relíquias antigas. Nesse instante, algo muito pequeno saiu correndo da casa em direção à Shiho-chan e disse:


- Shiho, quem são essas aí?


Olhando de perto, era um garotinho de uns dez anos com cara de emburrado, cabelos verdes e de sunga cinza que vinha carregando um mangá.


- São minhas amigas, Keisuke-kun. Lendo mangá de novo? – cumprimentou Shiho-chan arrepiando os cabelos do menino.


- Que gracinha! Quem é ele, Shiho-chan? – perguntou Akane-chan gentilmente.


- Meu primo. Lindo, né? Ele passa o dia inteiro lendo essas coisas estranhas.


Aproximei-me a tempo de ver que o garoto lia um shoujo bem... peculiar. Ele fez uma careta e replicou:


- Não é esquisito... yaoi é um excelente estilo alternativo. Pessoalmente, admiro histórias sobre lindos romances proibidos, por causa do tabu de homem e mulher. – Os olhos dele brilhavam enquanto falava fervorosamente. – Acho que esses casais diferentes sãos incríveis e... – ele parou no meio da frase e olhou para algo atrás de mim, com uma expressão ainda mais radiante. Virei a cabeça e vi o que tanto lhe chamara atenção.


- Shizuru, me desamarre. – dizia Natsuki de péssimo humor para Fujino-san. Esta não se mexeu. Ao invés disso, disse sorrindo estranhamente:


- Ah, claro. Mas só se você pedir por favor... — ela começou a brincar com uma mecha do cabelo de Natsuki.


- Por favor, me desamarre. – murmurou Natsuki rapidamente, corando.


Fujino-san fingiu não ter ouvido e chegou mais perto do rosto dela.


- Por favor! – gemeu Natsuki em pânico desviando os olhos.


- Claro. – riu Fujino-san. Ela fez questão de passar a mão em cada pedaço de corda que roçava as curvas de Natsuki, para desespero desta. Lentamente a corda foi se soltando e Natsuki passou voando por nós para dentro da casa, vermelha como um tomate fresco.


Keisuke-kun sorria em êxtase.


- Era disso que eu estava falando! – exclamou ele.


- Esqueça. – disse Shiho-chan.


- É complicado. Não chegue perto. – reforcei.


Akane-chan balançou a cabeça confirmando e Keisuke-kun deixou os ombros caírem em sinal de desapontamento. Akane-chan, absolutamente encantada com o garotinho precoce, tomou-lhe a mão e seguiu conversando com ele através do portal de entrada, acompanhada novamente por Youko-sensei. Troquei um olhar com Shiho-chan, que encolheu os ombros e tratou de conduzir Suzushiro-san e Yukino-chan, que estavam meio perdidas no jardim à nossa esquerda que continha a fonte, para dentro. Olhei para trás e vi Fujino-san andando em direção à porta. Também fui.



O almoço estava excelente. Após a farta refeição, Munakata-san nos mostrou cada cômodo da casa.


A parte de baixo era, basicamente, composta pela sala de jantar de teto alto com um lustre de cristal em que havíamos comido que tinha uma abertura direta para a cozinha, uma ampla sala com lareira e um cômodo cheio de almofadas e portas de correr de vidro que permitiam uma vista maravilhosa do jardim lá fora. Uma varanda de piso de madeira cercava a casa toda e no lado oposto ao da sala de jantar via-se um chuveiro e algumas toalhas. Encontramos uma piscina na parte de trás da casa e Munakata-san disse que se andássemos para nordeste a partir dali encontraríamos um maravilhoso riacho correndo por entre as árvores que era tudo o que avistávamos da varanda. A noroeste estava o estábulo, também escondido por algumas cerejeiras.


Na parte de cima nos deparamos com um corredor bem iluminado onde pude contar pelo menos sete quartos dispostos um de frente para o outro sendo que o último ficava de frente para um grande banheiro. Os três mais próximos da escada eram suítes e uma porta no fim do corredor revelou um armário que continha muitas toalhas extras e algumas roupas. Subíramos carregando as bagagens, e depositamos todas no fim do corredor, na frente do armário. Midori-chan disse que depois faria a distribuição dos quartos.


- Tudo aqui é tão diferente, Shiho-chan. – comentei ao passarmos pelas lâmpadas em estilo ocidental do corredor.


Shiho-chan riu e respondeu:


- Você está pensando no nosso templo, não é? Bem, como tudo lá já refletia o Japão, os Munakata vêm modificando as outras construções da família para lembrar o resto do mundo. Pode-se dizer que essa residência foi inspirada na Europa de um século e meio atrás, com algumas poucas tendências orientais.


- Uau, isso é impressionante! – exclamei. \"As outras construções\", pensei. Muuitos ricos, definitivamente.



- Acho que isso é tudo, meninas. – disse Munakata-san enquanto descíamos as escadas de volta ao jardim florido com a fonte.


- Não vai ficar conosco, ojii-chan? – perguntou Shiho-chan.


- Ah, infelizmente tenho alguns problemas para resolver no templo e creio que tomarão bastante tempo. Amanhã mandarei Rinji-kun para ajudá-las com tudo.


- Não gosto dele... – murmurou Shiho-chan de cara feia. Keisuke-kun concordou com a cabeça.


- Rinji? – indagou Midori-chan.


- Meu ajudante no templo...


- Uma espécie de mordomo. – completou Shiho-chan.


- E muito impertinente. Daria um péssimo shounen-ai. – comentou Keisuke-kun.


- É um ótimo rapaz, não impliquem com seu jeito sério e rígido! – censurou Munakata-san. – De qualquer jeito, Sugiura-sensei, peça o que precisar para ele. Boa estada, garotas. Espero que gostem da casa e dos arredores.


- Obrigada pela generosidade, Munakata-san. – disse Fujino-san, cumprimentando-o.


- Tenho certeza que nos divertiremos muito! – exclamou Akane-chan.


- Hum... é uma boa casa. – disse Suzushiro-san sacudindo os ombros. Yukino-chan sorriu sem graça.


- Sim, obrigada por tudo! – exclamei feliz.


- Vamos cuidar de tudo por aqui. – garantiu Youko-sensei.


- Issooo!! Fériaaas! – exclamou Midori-chan.


Munakata-san deu uma risada enquanto observávamos um carro parar dentro da propriedade. Um jovem loiro de olhos cinzentos estava na direção. Era alto e usava um quimono cinza com uma faixa azul na altura do estômago. Mantinha uma expressão totalmente desinteressada e passou o olhar nublado por todas nós, faiscando os olhos severamente.


- Ah, que bom garoto! Chegou na hora. – disse Munakata-san.


- Ao contrário de nós. – sussurrou Youko-sensei para que o avô de Shiho-chan não nos ouvisse, lançando um olhar de censura para Midori-chan.


- Então... cuide bem de Keisuke-kun, Shiho. Vou deixá-lo com vocês. – disse Munakata-san se despedindo.


- Até mais, vovô. – respondeu Shiho-chan sorrindo.


Assim que ele entrou no carro e este deu a volta para sair, Shiho-chan fez uma careta e nos disse:


- Aquele é o Rinji babaca... que, infelizmente, vai voltar amanhã.


- Acalme-se, Shiho-chan! Vamos simplesmente aproveitar o sol, certo? Tudo aqui é lindo e merece ser apreciado. – eu disse tentando animá-la.


- É, você está certa, Mai. Que esse verão seja inesquecível! – ela respondeu sorrindo novamente e observando o sol que atravessava o horizonte. Passava das quatro horas.


Com certeza será, pensei comigo, enquanto as conversas à nossa volta recomeçavam e eu observava o renovado interesse de Keisuke-kun em Natsuki e Fujino-san, a bronca que Youko-sensei dava em uma alegre Midori-chan, a risada feliz de Akane-chan e as reclamações constantes de Suzushiro-san sobre o calor insuportável enquanto Yukino-chan a abanava com um leque. Mikoto dançava feliz, admirando a grandeza do lugar e contagiando Nao-chan lentamente com a felicidade que só o verão traz. Ao sorrir uma última vez para Shiho-chan, tive certeza das minhas palavras.