- Hiroto, ele não está vindo.

- Cale-se.

- É sério, Hiroto.

- Ara!

Hiroto arremessou um graveto longe, com raiva. Depois, andou sem direção pela clareira e deu um chute em uma árvore próxima.

Eram aproximadamente cinco horas da manhã e os quatro estavam acordados, Suzushiro-san e Nao-chan amarradas em uma árvore, lado a lado, com os braços imobilizados. A chuva cessara havia um tempo e Yaki reacendera a fogueira. Agora, os dois pescadores haviam embarcado em um ritual de recitar palavras estranhas, aparentemente convocando o deus-peixe.

- Ele gosta do vento da manhã – comentara Yaki com as garotas. – Sabe, inspira ações grandiosas. Ainda mais com um sacrifício desses. – E lançou um olhar piedoso às duas, que tiveram a certeza de que essa madrugada seria especial: a última de suas vidas.

Contudo, o deus-peixe não parecia disposto a atender seus fieis. Após quase uma hora de ritual, até a fogueira minguou um pouco, desistindo de ouvir os versos sendo recitados, diminuindo a energia das chamas.

- Obrigada, deus-peixe. – murmurou Suzushiro-san para si mesma. – Sua ausência é o melhor que podia acontecer.

- Tomara que ele continue pensando assim – sussurrou Nao-chan em resposta, visivelmente cansada de ficar amarrada naquela posição. Seus braços e pernas doíam e sua cabeça estava explodindo.

- Ei, o que é que vocês estão cochichando aí? – Yaki aproximou-se com uma garrafa de água, enquanto Hiroto retomava sua caminhada em círculos, resmungando sozinho.

- Nada, seu amigo de bubuzuke. Me dá um pouco dessa água! – mandou Suzushiro-san, com mais ousadia do que deveria.

Yaki, espantado e acostumado a obedecer, tirou a tampa da garrafa e começou a despejar o líquido na boca da jovem, quando de repente Hiroto deu um grito.

- É claro! Ara, como não pensei nisso antes?!

- O que foi, Hiroto? – Yaki virou a cabeça para o companheiro e esqueceu a garrafa virada para trás.

- Pense, Yaki! Queremos convocar um deus poderosíssimo na floresta em que tudo lhe foi tirado? Nunca conseguiremos!

- É... faz sentido, né?

- Sim! – exclamou Hiroto excitado, ainda andando em círculos, os olhos focados no chão. – Precisamos... precisamos de um lugar grandioso, imponente, bonito, pacífico...

- Tem um monte de fazendas por aqui. – lembrou Yaki – Poderíamos invadir uma, eles sempre têm piscinas, acho que o grande deus-peixe deve aparecer mais fácil na água, não é?

- Isso! Você entendeu direitinho o que eu quis dizer! – Hiroto deu uma olhada para a barraca e acenou displicentemente para o amigo. – Vou guardar tudo, você desamarre essa garotas daí. – E sumiu pela lona.

- Certo. – murmurou ele, só agora notando que ainda mantinha a garrafa inclinada para trás. – Ah, foi mal, moça. – Ele tirou a água de perto e pegou uma faca para cortar os nós da corda. Suzushiro começou a fazer um estranho barulho de gargarejo.

Enquanto isso, Hiroto recolhia tudo rapidamente, jogando as coisas, impaciente, dentro de uma mochila surrada.

- Ei, Hiroto! – gritou Yaki, rindo.

- O que foi? – respondeu ele impaciente.

- Acho que a loira engasg...

Ele parou no meio da frase e Hiroto ouviu um grande “PFFFF”, seguido de um gemido surpreso, um grito de “Vai, vai, VAI!", galhos quebrando e folhas farfalhando. Estacou intrigado. Com um rápido movimento, fechou o zíper da mochila e agarrou sua vara de pescar.

Quando saiu da barraca, percebeu que tudo estava errado. Visualizou Yaki estatelado no chão, com cara de idiota e... nada mais.

- O que aconteceu, seu idiota? – perguntou ele ajudando Yaki a se levantar.

Yaki tossiu e limpou o rosto na camiseta.

- Aquela moça cuspiu em mim! Ela... ela ficou segurando água na boca e aí... botou tudo pra fora de repente! E... – ele deu uma olhada em volta – E agora elas fugiram!

- Ara! Isso eu posso ver, sua anta! – Hiroto ficou muito irritado. Chutou as cordas que jaziam cortadas no chão.

- E agora? – indagou Yaki, abobado.

- E agora – replicou ele lançando um olhar pensativo para o céu e arqueando as sobrancelhas. –, vamos precisar de outra isca.

- Suzushiro, nunca pensei que fosse dizer isso, mas você... é... brilhante! – comentou Nao-chan, arfando.

- Minha cara Yuuki, eu sempre soube o que estava fazendo! – em meio à corrida descontrolada das duas, Suzushiro-san tropeçou em uma raiz exposta e parou para respirar. Nao-chan, logo atrás, parou também, tomando fôlego. Sua perna esquerda doía horrivelmente. Achando que tinha deslocado alguma coisa, sentou-se entre duas raízes saltadas e Suzushiro a observou curiosa.

- Deslocou alguma coisa? Fraturou um osso? Santo deus-peixe, você QUEBROU A PERNA? – Suzushiro-san levou as mãos à cabeça.

- Não seja dramática, devo ter topado com uma raiz. – retrucou Nao-chan, impaciente. – Ajude-me, a culpa é sua.

Sem encontrar o que responder ou argumentar, Suzushiro-san examinou com muita cautela o tornozelo da outra e, eficiente, decretou descanso de alguns minutos, já que ficou provado que não era nada grave.

- Para onde vamos agora? – perguntou Nao-chan olhando à toda volta em pânico, como se estivessem sendo caçadas por um felino grande e letal.

Suzushiro-san demorou a responder. Ficou de boca aberta, ouvindo os sons da floresta. Nao-san esperava uma resposta típica, animadora, otimista. Já que, olhando para as duas, parecia que tinham estado trabalhando numa construção ou numa mina. As roupas de verão sujas de terra, os cabelos voando para todos os lados, suadas, com os membros doendo, primeiro, de tanto ficarem paradas e, depois, de desembestarem sem rumo pelas árvores, com medo e perdidas.

- Não sei – sussurrou Suzushiro-san sem ânimo. Suas olheiras pareciam saltar do rosto quando ela fechava os olhos. – A propósito, perdemos o bumerangue quando nos capturaram. – informou ela.

Nao-chan suspirou.

- Estamos perdidas. – comentou com voz rouca.

Diante dessa reação, Suzushiro-san teve um ímpeto energia. Botou as mãos nos quadris e, dando as costas para Nao-chan, começou a marchar pela floresta, como se estivesse calmamente dando ordens na Academia Fuuka.

- Onde você está indo? – perguntou Nao-chan intrigada, levantando-se de um salto. Ela cambaleou um pouco por causa da perna, que chiou à menção do movimento brusco e parou onde estava, observando as costas da companheira.

Suzushiro replicou com outra pergunta.

- Por que parou? Precisamos encontrar aquele brinquedo e o caminho para casa, sabe.

- Mas... mas como...?

Suzushiro-san sorriu, confiante. Seus olhos continham aquele brilho fanático que ela exibia nos seus raros e atrapalhados triunfos.

E, embora Nao-chan soubesse que aquela era a empreitada da vice-presidente com maior chance de dar errado, encolheu os ombros e a seguiu, sob o sol que já ia alto e lançava tímidos porém firmes raios por entre as copas das árvores.