Mai Hime: Summer Vacation
11 11. A nova isca
Rinji-kun acordou assustado. Abriu os olhos e espiou furtivamente o lugar em que estava deitado, sem se mexer. Seus cabelos roçavam a grama úmida e ele enxergava o céu embaçado. Estava sem óculos. Tateou à sua volta, apertando os olhos para enxergar melhor.
Nada encontrando, Rinji-kun recuou tateando, recostou-se em uma árvore e sentou-se, fechando os olhos. Ainda havia barulho de água em seus ouvidos. Agora sua cabeça doía horrivelmente e ele precisou de muito esforço para se lembrar do que acontecera. Visualizou Kuga, o tigre e um rio. No momento em que afundaram, ele perdera a consciência.
Um farfalhar nada suave à sua esquerda fez Rinji-kun abrir os olhos. O que de nada adiantou, tudo continuou extremamente embaçado. Uma figura de traços bem definidos pisoteava a grama irritada.
- Ah, você acordou. – Ele ouviu a voz mal-humorada da garota, com um toque de rouquidão.
- Escuta, Kuga...
- Só Natsuki está bom. – respondeu ela no mesmo tom irritado. Ouviu-se um “crac” e a garota praguejou para si mesma. Rinji-kun sentiu que ela se aproximava.
- O que foi que...? – antes que terminasse a pergunta, tudo ficou repentinamente visível de um lado só.
- Está enxergando bem? – perguntou Natsuki enfiando os óculos por trás de suas orelhas, o rosto a meio metro do dele.
A primeira coisa que Rinji-kun viu foi o sol que ia alto no céu. Calculando que devia ser mais ou menos uma hora da tarde, ocorreu-lhe um súbito pensamento de que Natsuki passara um bom tempo empenhada em encontrar suas lentes. De alguma maneira, a armação fora rachada ao meio. A lente esquerda estava perfeita e limpa. A direita, que agora ele suspeitava que acabara de ser quebrada com um “crac”, continha uma imensa rachadura, que ela tentara emendar. Ambas as emendas, da lente direita e da armação haviam sido feitas grotescamente com tiras de pano. Como a direita ameaçava cair a qualquer momento, Natsuki praticamente a enfaixara, o que fazia com que Rinji-kun parecesse caolho, pois não via quase nada por sobre o pano daquele lado.
A segunda coisa de que se deu conta foi que estava completamente seco. E nisso reparou porque olhou para Natsuki, que estava encharcada e detonada, diga-se de passagem. As roupas rasgadas, um roxo na testa e outro na perna que acabara de se recuperar, olheiras gigantes e pálida.
- É... estou sim. – disse ele, levantando-se. Ela fez cara de satisfeita e se jogou na grama.
Eles estavam à beira do rio, na margem oposta à que haviam caído, na entrada da floresta. O sol inundava aquela área preguiçoso, espalhando lentamente a luz e o calor.
Passado um tempo, Natsuki sentou-se de pernas cruzadas e começou a esfregar o vergão na testa, distraída. Rinji-kun chegou perto do rio para lavar o rosto.
- O que aconteceu? – perguntou sem se virar, pegando água com as mãos em concha.
Ela demorou um pouco para responder.
- Bem... – disse, finalmente. – Nós caímos, você me soltou – ambos coraram um pouco à menção da cena ridícula dos dois bêbados, despencando para dentro do rio. -, a correnteza começou a nos arrastar e percebi que você estava desacordado.
Ela fez um pausa, tossiu e prosseguiu. Rinji-kun se virou, ajeitando os óculos.
- Subi para tomar fôlego e tentei te arrastar até a margem, mas a água acabou me carregando mais para longe, e bati a cabeça em uma pedra. – ela indicou a testa. – Pensei que talvez estivesse sangrando, porque minha vista embaçou. Então, você veio boiando e aproveitei para te empurrar para terra firme. Seus óculos saíram voando quando te joguei na grama. – acrescentou ela, meio que justificando o estado lamentável do objeto.
- E aí foi só dar um impulso e subir para a margem também. – completou Rinji-kun. Natsuki deu um sorrisinho sarcástico.
- Ainda não.
Rinji-kun ergueu uma sobrancelha.
- Quando te empurrei, a correnteza aproveitou para puxar minhas pernas, o que fez com que eu fosse levada mais alguns metros. Acabei ficando presa entre duas pedras – ela indicou a perna, dessa vez – e, quando consegui me soltar, desmaiei na beira do rio.
Rinji-kun erguera a outra sobrancelha, o que lhe dava um ar engraçado de descrença.
- Não fique aí parado com essa cara de idiota. – disse Natsuki impaciente, tossindo outra vez. – Precisamos encontrar comida.
Rinji-kun ficou encarando a garota com aquele olhar inexpressivo.
- Por que – falou, indicando a si mesmo. – eu estou seco e você parece que passou por um tsunami?
Ela ficou vermelha e tentou ajeitar os cabelos. Assim que disse aquilo, Rinji-kun reparou que ela estava usando uma regata e ele vestia um casaco muito familiar. Com um pequeno “ah!”, ele entendeu que ela lhe dera o casaco para se aquecer e o deitara ao sol, para secar que nem carne seca.
- Eu estou ótima assim. – replicou ela secamente, tossindo, tremendo e mancando.
Ele amarrou a cara e tirou o casaco, ficando de peito nu. Depois de ficar desmaiado, estirado ao sol, o tempo não lhe parecia muito frio.
- O que fazendo?! Não faz duas horas que você estava tremendo e cuspindo água aí, seu pff... – enquanto Natsuki protestava, Rinji-kun correu a forçar-lhe o casaco pela cabeça.
- ... e grande idiota! – completou ela olhando para o rapaz que estava bem próximo.
- Cale-se. – disse ele, mas não saiu tão seco quanto pretendera. Eles ficaram ali se encarando, Rinji-kun, sem perceber, chegando mais perto.
Então, Natsuki aplicou-lhe um belo chute na canela. Ele ficou ali, sem reação, a perna latejando.
- É, parece que minha perna está melhor mesmo. – disse ela jogando o capuz por cima dos cabelos e mancando em direção às árvores. Rinji-kun pigarreou e mudou de assunto.
- Suponho que tenhamos perdido todas as coisas que carregávamos.
- Sim, e também todas as pistas de Nao e Suzushiro.
- Hum.
Fez-se um silêncio cortado apenas pelo som dos passarinhos descrevendo círculos ao longe. Natsuki parou à entrada da floresta e ficou brincando com um galho baixo. Rinji-kun encarava suas costas (com um olho só), a mente vazia.
- Então... você e Takeda, hein? – disse ele de repente, tentando parecer despreocupado.
Natsuki abanou a mão e riu.
- D-de onde você tirou isso?
- Ele gosta de você. Achei que fosse óbvio. – respondeu ele erguendo a sobrancelha direita, o que lhe dava um ar muito estranho.
Natsuki deu de ombros sem olhar para ele.
- Desculpe se você não gosta de falar nisso. – acrescentou Rinji-kun depressa.
Ela se virou para ele, meio vermelha e sorriu sinistramente.
- Você não entenderia. — E sobreveio novamente o silêncio.
Por pouco tempo.
Um farfalhar nas folhas e menos de cinco segundos depois, enquanto Rinji-kun tirava novamente os óculos para limpá-los (ele tinha essa mania, como pudemos perceber mais tarde), alguma coisa caiu com estrondo na floresta e Natsuki deu um grito.
Rinji-kun levou um susto e deixou os óculos caírem.
- Droga! Ei, Natsuki, está tudo b...? – gritou ele, tateando pela grama de quatro. Antes, porém, que terminasse a pergunta, ela gritou de novo e ele a ouviu lutando com alguém.
- Sai daqui, idiota! – e um chute para o alto.
- Ara, moça, acalme-se! – e um tapa.
- Hiroto, segure os braços!
Uns gemidos abafados e gritos assustados depois e o silêncio voltou.
- Achei! – berrou Rinji-kun levantando-se triunfante. – Natsuki, não se preocupe, eu vou...
Ele estacou. Seria cômico se não fosse trágico. Natsuki estava presa em uma gravata dada por um homem que mal batia no seu pescoço. Um outro, maior e com mais cara de palerma, segurava uma vara de pesca apontada para ela à guisa de ameaça.
- Acredite... ele é... bem mais forte... do que parece. – ofegou ela lendo os pensamentos do rapaz que tinha uma franca vontade de rir.
Ajeitando os óculos com um gesto firme, Rinji-kun recuperou a seriedade. Um olhar para as árvores o informou que os homens haviam, de alguma forma, derrubado um galho grosso e pesado quase em cima de Natsuki. Foi uma sorte terem errado, pois a perna dela estava escancaradamente cedendo. Ela mal conseguia ficar de pé.
O homem com a vara de pescar baixou sua “arma” e veio caminhando na direção de Rinji-kun. Este se preparou para o combate. Era mais magro e sem músculos que o estranho, mas também era mais alto e mais rápido.
Tudo terminou em um segundo aflito. Natsuki ofegou e despencou na grama. Hiroto nem se deu ao trabalho de imobilizá–la. Yaki baixou a vara de pescar no rapaz. Um golpe e Rinji-kun jazia no chão, com uma marca da coisa na testa, os óculos tortos e uma horrível cara de perdedor aparvalhado.
- Essa foi mais fácil, hein, Yaki?
- Estamos pegando o jeito, Hiroto! – exclamou o outro se ajoelhando ao lado de sua vítima.
- Ótimo, aqui já tem até a água! Vou fazer uma fogueira e pegar nossas coisas que ficaram escondidas naquela clareira. Amarre os pombinhos.
- Não somos um casal! – gritaram Natsuki e Rinji-kun ao mesmo tempo, ele com voz fraca e ela ofegando.
Hiroto e Yaki se entreolharam e deram de ombros.
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