Chie-chan cutucou minhas costas com uma caneta. Acordei do devaneio em que estava para ouvir Midori-chan gritando comigo. Não para que eu prestasse atenção em seu inflamado discurso de fim de ano, mas porque o sinal já tocara e ela estava perdendo seu precioso tempo querendo falar com Yukino-chan e comigo.


Fomos as três para o fundo da sala e Midori-chan começou empolgada:


- Garotas... quero conversar com vocês mais tarde. Podemos nos encontrar no restaurante... Mai, que horas acaba seu turno? – ela olhou para mim.


- Bem... se vocês chegarem às seis, poderemos conversar com calma. – respondi curiosa.


- Ótimo! Então nos vemos à tarde! – ela saiu saltitando. Encarei Yukino-chan perplexa. Ela me devolveu um olhar interrogativo.


- Faz idéia...? – comecei, mas um ser pulou pela classe até mim e me agarrou.


- MAI! – gritou Mikoto toda feliz, se esfregando em mim. – Midori te contou? Vamos nos reunir, todas nós! Bom dia, Yukino! – ela sorriu para minha colega.


- Bom dia, Mikoto-chan! – respondeu Yukino em sua voz fina e baixa, sorrindo de volta. – Será que ela está reunindo as Himes de novo?


- Não sei... só espero que não sejam problemas. – eu disse apreensiva. Já fazia um bom tempo desde a nossa grande crise. Tínhamos certeza de que os Childs não voltariam para nós e que havíamos perdido totalmente nossos poderes de Himes. A estrela Hime não mais brilhava, um alerta de paz. Nas últimas batalhas, havíamos lutado umas contra as outras, mas depois nos uníramos a um inimigo comum: Lorde Kokuyou, encarnado em Reito-san.


Após a destruição deste, voltamos às nossas vidas normais de escola. O que é bem difícil no caso da Academia Fuuka. Aqui, coisas estranhas aconteciam e por isso nós, um grupo chamado de Himes, surgiu para restaurar a paz. Kagutsuchi e os outros Childs eram monstros que nos ajudavam a combater outra espécie nojenta e vil de criatura: os Orphans. Após a queda do Lorde, estes desapareceram e não havia mais necessidade de lutarmos com nossos poderes.


Pensando agora, acabei não resolvendo muita coisa com Yuuichi sobre nossos sentimentos, mas estamos caminhando bem devagar. O mesmo vale para Natsuki e a presidente (elas preferem não verbalizar a situação, mas todo mundo na Academia comenta, e para ser sincera, a presidente não faz questão de esconder nada, mas Natsuki não diz sim ou não) e para Akira-kun e meu irmão, Takumi. Aliás, Akira-kun já comprou o uniforme feminino do colégio, mas ninguém consegue se acostumar com o fato de ele ser uma garota.


Voltando à minha calada amiga, a presidente mexeu uns pauzinhos e Natsuki conseguiu a proeza de não repetir por faltas, com uma misteriosa desaparecida taxa de 25% de presença. No próximo ano, Suzushiro-san, a presidente e Reito-san nos deixarão e seguirão para a universidade. Portanto, estamos no fim da primavera e o calor já alcançou as janelas de Fuuka, trazendo uma leve brisa que sopra quente. Temo que Midori-chan queira conversar sobre as férias de verão. E antecipo uma tensão caso ela convide todas as Himes. Nem todas as feridas do passado se curaram.



Vendo o grande grupo entrar pelas portas duplas do restaurante, vejo que tenho razão. Yukino-chan evita a presidente, Suzushiro-san a encara nervosa e... Natsuki e Nao-san estão gritando uma com a outra.


- Bem-vindas... – foi tudo o que pude dizer, suspirando.


- Mai-chan! Vamos conversar lá atrás. – acenou Midori-chan. – E fiquem quietas!- ela passou entre Natsuki e Nao-san, separando-as.


Suspirando de novo, tirei o uniforme e afugentei os últimos clientes rapidamente. Akane-chan me ajudou e fomos juntas para a cozinha da loja.



Depois de conseguir botar ordem nas conversas paralelas (o que rendeu alguns arranhões para Natsuki, Mikoto, Nao-san e Suzushiro-san), Midori-chan pigarreou e tomou a palavra:


- Bem... eu as chamei aqui hoje, porque, sendo líder de uma democracia, peço que me ajudem a tomar uma decisão.


- Desde quando ela é líder de alguma coisa? – murmurou Nao-san mal humorada.


- Continuando... acho que, como amigas e companheiras, deveríamos nos unir e passar juntas as férias de verão!


- O QUÊ? – exclamou Shiho-chan chegando atrasada. – A-do-rei! Eu aceito!


Midori-chan sorriu para a recém-chegada encantada e olhou para nós, que estávamos estupefatas diante da proposta repentina.


- Eu não vou! – gritaram Natsuki e Nao-san ao mesmo tempo.


- Não tenho dinheiro para uma viagem dessas – murmurei entristecida.


- Ah, vão. – disse Midori-chan com um olhar maligno. – Porque eu vou pagar tudo e tudo que vocês precisam me dizer é: casa no campo para curtir o sol ou chalé nas montanhas em algum lugar distante?


As duas se calaram emburradas, enquanto as outras comentavam animadamente a proposta.


- Yukino... – começou Suzushiro-san, tremendo de excitação.


- Sim, Haruka-chan?


- Vamos fazer com que essas férias sejam inesquecíveis! Eu, como ex-diretora executiva da Academia, prometo que nós vamos nos divertir! E vamos para as montanhas!


- Sim, Haruka-chan! – respondeu Yukino, alegre.


Eu sorri muito, mas muito feliz. Seriam férias perfeitas e com tudo pago!


- Midori-chan, eu quero ir para o campo! – disse em meio à balbúrdia. Ela anotou meu voto.


- Sim, sim! Para o campo com a Mai! – concordou Mikoto dando seu voto.


Eu estava sentada ao lado de uma estressada Natsuki e nesse momento, ouvi a presidente sussurrar do outro lado dela:


- Ah... que ótimo! Imagine o frio da montanha, e nós juntinhas em frente à lareira e à noite...


Natsuki foi ficando gradualmente vermelha e sem esperar o fim da frase, levantou-se de um salto e bateu com a mão no balcão.


- E-eu quero ir pro campo!- gritou totalmente em pânico, provavelmente imaginando a cena descrita. A presidente sorriu de satisfação e eu imaginei que o campo poderia ser pior do que o esperado para algumas de nós.


Assim, por um significativo voto de diferença, ficou decidido que iríamos para uma calma casa no campo.


- He he, que bom. A casa do campo vai me sair bem mais barata, já que não teremos que sair do país. – confidenciou-me Midori-chan em êxtase. Eu quis perguntar se ela convidaria os garotos, mas fiquei com vergonha. Quis compartilhar essa alegria com Takumi e Akira-kun, mas eles já estavam voltando de navio, então eu daria a notícia pessoalmente. A cirurgia do meu otouto fora bem-sucedida e ele já estava ótimo! Eu relia ansiosamente sua carta de dias atrás, esperando sua chegada.


- Maaaai... – ronronou Mikoto enquanto saíamos do café – muita fome...


Eu sorri e prometi cozinhar o ramen de que ela tanto gostava depois do banho. Voltamos andando para o dormitório.