Toquei em seu rosto e estava gelado e branco.

—Será que podemos passar uma maquiagem nela para o enterro? – perguntei ao Legista.

—Sim, podem. – ele respondeu e me deixou despedir-me de minha mãe.

—Adeus mãe. Saiba que sempre tive orgulho da senhora, que posso nunca ter falado isso, mas eu tenho orgulho sim, você foi corajosa em criar uma filha sozinha e Deus sabe por que se separou, mas eu confio em você! – comecei a chorar diante do corpo dela. – Mês desculpe por todas a vezes que a fiz chorar, ou quando não obedeci, ou quando a acordei sem estar descansada.

Chorei tanto, fiquei ali por tempo, depois o Legista voltou e disse que eu precisava ir, o advogado de minha mãe precisava me ver.

Olhei pra ela e agradeci ao homem, então subi as escadas e reparei com um homem estranho, não se vestia como advogado, estava mais pra um mendigo, mas ele confirmou sua identidade.

—Prazer em conhece-la Lucy, meus pêsames pela sua perda. – ele disse ao segurar minha mão, apenas baixei a cabeça. – Meu nome é Gildartz, sou advogado de sua mãe desde que ela se separou, você não deve se lembrar de mim, mas ainda lembro de você correndo pelo escritório quando Layla veio falar comigo.

—Não lembro, mas é um prazer. – sorri pra ele, parecia uma pessoa legal.

—Bem, você tem algum parente vivo? – ele perguntou fazendo gesto com a mão para que me sentasse.

—Não. – sentei-me em sua frente, entre nós havia uma pequena mesa, cruzei os braços dando continuidade à conversa.

—E seu pai? – ele pediu.

—Não sei onde ele está e muito menos se está vivo. – respondi.

—Bom teremos que estudar então o seu caso. – então ele guardou alguns papéis em sua maleta. – Tem onde ficar até eu lhe retornar?

—Minha amiga vai ficar comigo. – Respondi.

—Tudo bem, qualquer coisa é só me ligar. – ele esticou o braço e me entregou um cartão com seu número de contato. – Fique bem.

—Obrigada! – agradeci pela ajuda. Então ele foi embora com a cabeça baixa, pelo jeito gostava de sua cliente falecida.

Fiquei sentada mais um tempo ali pensando o que eu faria agora, sem minha mãe eu teria que ir morar com alguém, mas quem? Meu pai? Eu não poderia ir morar sozinha, pois ainda não tenho dezoito anos, e ainda assim preciso acabar meu último ano de escola pra trabalhar o dia todo, então ainda não conseguiria sustentar uma casa sozinha.

Decidi me debruçar sobre a mesa de reunião e largar tudo, chorei até não conseguir mais, por que a vida estava sendo injusta comigo? O que eu fiz de errado? O que minha mãe fez de errado?

Acabei adormecendo e fui acordada por uma enfermeira.

—Senhorita? Está tudo bem? – ela pediu docemente.

—Sim, desculpe. – me levantei e saí da salinha.

—Lucy?! – Levy veio me abraçar. – Te procurei por tudo, ficou aqui esse tempo todo? Está com os olhos inchados, andou chorando mais né?

—Foi um dia difícil. – respondi desanimada.

—Bem viemos te buscar para o enterro. Acho que você gostaria de se despedir não é? – Levy comentou.

—É claro que sim. – levantei a cabeça.

—Vamos então. – ela pegou em minha mão e me puxou pra fora do hospital. – Estão todos lá!

Quando saímos do hospital, vi o carro do Gageel, entrei no banco de trás e ele sorriu pra mim, não sabia o que dizer, Levy entrou no carroneiro da frente e meu amigo colocou o pé no acelerador.

—Levy? Já levaram o corpo dela? – perguntei ansiosa, afinal minha amiga disse que estavam todos lá me esperando.

—Sim, eu já arrumei ela e está tudo pronto, não tem com o que se preocupar. – Levy olhou pra mim e sorriu.

—Obrigada! – relaxei, era muito bom ter alguém que você pudesse contar pra estas horas.

O restante do trajeto se passou silencioso, eu não queria conversar e acho que meus amigos sabiam disso e respeitavam, afinal, que conversa eu teria num momento como este, já chega que quando eu chegar na cerimônia de enterro as pessoas vão ficar vindo me dar os pêsames, e pra falar a verdade, eu não me importava, eu só queria ficar sozinha pra conseguir absorver tudo isso.

Chegamos no local e todos os rostos ali presentes se voltaram para mim quando desci do carro, eu estava enganada, era pior do que pensei, todos me olhavam com pena, eu não precisava disso neste momento.

Logo algumas pessoas adultas vieram apertar minha mão.

—Somos os colegas de trabalho de sua mãe. – apresentou uma mulher com aproximadamente uns quarenta anos de idade. – Gostávamos muito dela, sentimos muito querida.

—Obrigada! – agradeci com um leve sorriso e segui em frente, mas logo a turma da lanchonete Aquarius me puxou e me abraçaram em grupo, admito, me senti confortável e segura por um momento, amava eles.

—Queria, o que você precisar é só me pedir. – Aquarius falou limpando as lágrimas.

—Obrigada amigos. – olhei para Aries, Loki e até o Bigududo estava lá, ele chorava muito, tentava limpar mas vinha cada vez mais lágrimas.

Levy me puxou entre as outras pessoas para que eu ficasse mais próxima ao corpo, e quando abriu espaço e eu finalmente a vi não pude segurar, desabei de novo, eu não queria, mas acreditem, dói muito mais do que chutar o dedinho na quina de uma parede ou brigar com o namorado, o dedinho depois de um tempo para de doer e o seu namorado você pode conversar pois ele ainda está ali, mas eu nunca mais iria vê-la, nunca mais iria poder abraça-la ou acordá-la, simplesmente nunca mais iria vê-la, então me senti no direito de chorar e me sentir desamparada.

Senti mãos quentes me envolvendo, olhei e vi Gray me abraçando, ele estava ali, do meu lado no momento mais difícil da minha vida, só tinha que agradecer, Levy me abraçou do outro lado e Gageel abraçou Levy colocando a mão em meu ombro, eu pude sentir a força vindo deles, consegui limpar minhas lágrimas e olhar bem para o rosto pálido e sereno de minha mãe, Levy havia feito um bom trabalho, ela parecia uma princesa, delicada e tranquila, sorri para ela e fechei a tampa do caixão despedindo-me para sempre de dela.

Fiz sinal positivo para os homens que começaram a descer o caixão no buraco do cemitério, eles baixavam devagar e com cuidado, para que nada fosse danificado, meu coração começou a disparar de forma absurda, minha respiração acelerada, mas não era como a sensação de um beijo, era doloroso e triste, quando ouvi o som do caixão chegando ao fundo e eles começarem a jogar a terra por cima o desespero tomou conta de mim.

—NÃÃÃÃÃÃOOO, eu quero minha mãe de volta.... por favor... não é justo.... – eu gritava e tentava pular no buraco, precisava tirá-la de lá, como ela iria conseguir levantar para ir trabalhar se enterrassem ela. – Por favor, mãe acorda! MÃÃÃÃÃEEEEE!

Gray me abraçava impedindo-me de chegar até ela e logo todo o buraco estava coberto pela terra e o enterro estava finalizado.

Todas as pessoas que estavam presentes agora iam embora e assim restaram apenas meus amigos e eu, o desespero instantâneo passou e deixei meus joelhos cederem ajoelhando-me em frente ao túmulo de minha mãe.

—Lucy? – Levy me chamou colocando a mão em meu ombro.

—Estou bem!... só.... me deixem um pouco sozinha.... – pedi ainda olhando para a cruz que colocaram na cabeceira do túmulo.

—Ok, vamos estar aqui perto se precisar. – Levy respondeu e assim ouvi os passos dos três se distanciando.

Coloquei minhas mãos sobre a terra e a última lágrima caiu entre meus dedos, molhando suavemente aquele pedaço.

—Onde quer que você esteja.... vou sempre carrega-la em meu coração e em minha memórias... – sussurrei para minha mãe. – Eu amo você...

Então me levantei e caminhei até meus amigos.

—Obrigada por estarem aqui comigo, é importante pra mim. – sorri para eles. – Obrigada!

—Não tem que agradecer nada Lucy. – Levy falou e os meninos concordaram.

Então foi quando vi, mais ao longe uma garota de cabelos azuis, era Juvia.

Tentei chama-la, mas quando abri a boca e levantei a mão ela me viu e saiu correndo.

—O que?...

—Ela me avisou que viria, mas ela não queria te incomodar hoje, ela disse que falaria com você em outro momento. – Levy explicou. – Bem Lucy, vamos até sua casa pegar algumas roupas pra irmos pra casa?

—Certo. – olhei para Gray. – Eu vou indo agora, nos vemos por aí.

Ele me abraçou forte.

—Se precisar é só me ligar, já tem meu número. – ele disse sorrindo levemente.

—Obrigada Gray. – dei um beijo na bochecha dele e ele sorriu.

—Tchau. – ele fez sinal com a mão e eu fui para o carro com Gageel e Levy.

Fomos em silêncio até minha casa, pra não ficar relembrando muito dela, apenas fui para meu quarto e peguei algumas peças de roupa e meu celular. Era tudo o que eu precisava por hora, coloquei tudo numa pequena malinha e fui até a porta da entrada, enquanto isso Levy tinha aproveitado para dar uma organizada na sala que nos havíamos dormido noite passada, e também tirado todos os eletrodomésticos da tomada.

—Pronta? – ela perguntou olhando-me serenamente.

—Sim... – olhei em volta e me lembrei que tudo isso não iria mais existir. As lágrimas vieram de novo então larguei a mala no chão e me ajoelhei.

—Lucy... – Levy veio até mim e me abraçou. – Vai dar tudo certo, você vai ver.

—Eu não entendo, por que ela não me contou que estava tomando remédios pra depressão? – perguntei chorando. – Pensei que estávamos bem, como pude ser tão cega?

—Lucy, ouça. – Levy colocou meu rosto entre suas mãos e chamou minha atenção. – Nada disso é culpa sua e nem de sua mãe ok? Ela provavelmente não queria te preocupar, afinal você já sofreu por não crescer com seu pai não é?

—Mas agora eu não tenho mãe também. – respondi olhando para baixo.

—Eu sei Lucy, é triste, é doloroso, mas culpe sua mãe e nem a si mesmo pelas coisas que o destino tira de nós. – Levy falou. – Minha mãe também foi tirada de mim quando eu era pequena, e sim, eu sofri, eu chorei e também a culpei por ter ido embora e me deixado com meus avós, mas hoje eu percebo que não foi culpa dela, por que nenhuma mãe escolhe deixar o filho sozinho, elas lutam até o final e era por isso que ela tomava os remédios, ela estava lutando por você.

Olhei para os olhos de Levy e estavam lacrimejando, então a abracei e ficamos um tempo assim, sem ela, não saberia como enfrentar tudo isso.

Depois deste momento de fraqueza e raiva me levantei e peguei minha mala de volta, fomos para o carro e assim partimos em direção a casa de minha amiga.

Era pequena, Levy morava com a avó, assim como ela já falou, quando entrei a senhorinha já veio me abraçar e dizer que eu poderia ficar ali o tempo que quisesse, ela era muito querida e sempre me tratava bem quando eu vinha ali brincar com sua neta.

Fomos até o quarto de visitas, estranhei pois sempre fiquei com Levy.

—Não leve a mal. – Levy já foi explicando. – Achei que quisesse ficar mais sozinha.

—Obrigada Levy. – ela tinha razão, eu precisava passar um tempo comigo mesma e meus pensamentos sobre o dia de hoje.

—Fique a vontade pra se ajeitar e tudo mais, a porta tem chave pra você ter mais privacidade. – Levy mostrou atrás da porta. – Pode ocupar esse armário com sua coisas e bem, eu te aviso quando for a hora do jantar.

—Obrigada de novo Levy. – ela veio até mim e me abraçou bem forte.

—Já disse que você não precisa me agradecer. – ela sorriu. – está em casa.

Então ela fechou a porta e eu sentei na cama, liguei meu celular e havia uma chamada não atendida, eu não conhecia esse número, mas era familiar, procurei em minhas coisas e achei o cartão que o advogado de minha mãe me deu, o número era o mesmo.

O que será que ele queria? Bom podia esperar mais um tempo, eu só queria ficar quietinha agora. Deitei na cama e logo adormeci.

TOC TOC TOC

Acordo com o som de alguém batendo na porta de madeira, abro os olhos e lembro-me de estar na casa de Levy, então vou até a porta e a abro.

—Tudo bem? – Levy pede.

—Sim, eu só estava tirando uma soneca. – sorri.

—Desculpe te acordar, mas achei que estava com fome. – Levy respondeu.

—Muita pra falar a verdade. – respondi juntamente com minha barriga que roncava.

—Venha então, a janta está pronta. – ela me chamou, a segui pelo corredor até a cozinha e lá estava a senhor Mc Garden colocando a comida na mesa, era sopa, e Gageel olhando faminto também para o prato. – Pode se sentar aqui.

—Obrigada! – me sentei ao lado de Levy, em frente a ela estava Gageel e ao lado dele a vó de minha amiga se senta.

—Espero que estejam com fome, pois fiz uma panelada de sopa bem gostosa pra vocês jovens, vocês precisam comer legumes e proteínas e não só aquelas porcarias de química. – A vó de Levy gesticulava com as mãos.

—Obrigada por deixar que eu ficasse um tempo aqui senhor Mc Garden. – Agradeci a ela enquanto ela servia a todos nós.

—Hum, nem precisa agradecer minha jovem, eu gosto muito de você e desde que Levy era pequena você corriam pela casa, são amigas faz tempo não é? – ela pediu.

Levy e eu apenas nos olhamos e sorrimos uma para a outra, era verdade, desde que eu me mudei para cá, Levy foi minha amiga, quando eu não tinha onde ficar a família Mc Garden sempre me acolhia para que a mamãe pudesse ir trabalhar, e eu e Levy sempre estudamos juntas, enfim ela era sem dúvida minha melhor amiga e companheira para todas as horas.

Jantamos ouvindo as histórias da família de Levy e as travessuras que ela fazia quando era pequena, minha amiga ficava vermelha enquanto Gageel ria da baixinha dele. A vó de Levy gostava muito do rapaz também, afinal ela sabia que ele fazia sua neta feliz.

De repente no meio da conversa meu celular começa a tocar, então peço licença e vou até o quarto para atender, era o advogado, bem achava melhor atender dessa vez.

—Alô? – falo levando o celular até minha orelha.

—Lucy? – a voz do outro lado pergunta.

—Sim. Pois não? – pergunto.

—É Gilgartz, eu queria saber se estava bem? – ele perguntou.

—Sim, como falei estou na casa de uma amiga. – respondi.

—Certo, bem tenho boas notícias. – ele disse. – Primeiro, consegui alguém que comprasse os móveis de sua casa, assim você terá algum dinheiro.

—Mas onde vou morar sem as coisas de minha mãe? – perguntei.

—Bem quanto a isso, a lei diz que até você fazer dezoito anos você precisa morar com algum parente, e o único é o seu pai. – ele disse.

—Mas o senhor achou meu pai? – perguntei curiosa.

—Sim, ele está morando em Magnólia, a cidade onde você nasceu e onde morava quando era pequena. – Gildartz respondeu. – Eu consegui ligar para uma cidade vizinha que mandou um mensageiro falar com seu pai, e ele quer que você vá morar com ele.

—O que? – eu não acredito.

—Bem, é sua única opção. – o advogado fala. – E é a melhor coisa que tem Lucy.

—Eu não acredito. – falei.

—Em todo o caso, o trem que vai para Magnólia parte amanhã cedo, você precisa estar na estação até às nove horas, senão vai perder sua passagem e o próximo trem é daqui a seis meses apenas, e se você não for morar com seu pai terá que ir para um orfanato mais próximo e eu não aconselho você a fazer isso. É melhor ficar com a família. – Gildartz fala.

—Quanto a minha escola e meus estudos? – perguntei desesperada.

—Já providenciei sua matrícula na cidade vizinha de Magnólia, Oak Town, terá que achar um jeito de se deslocar até lá todos os dias. – Gildartz falou.- Bem agora vou desligando, esteja pronta Lucy, tchau.

Desliguei a ligação e me joguei na cama, esse era o pior dia da minha vida.