Magnólia, minha cidade do interior
24 Meu sangue
—Eu sinto muito Lucy...
—Meus pêsames...
—Coitadinha....
—Recém veio para cá e agora perde o pai...
—Senhorita Hearthpilia, meus sentimentos...
—Ah Lucy... eu sinto muito...
—Por favor aceite minhas condolências...
—Meus pêsames senhorita Heartphilia...
—Eu sinto muito amiga...
—Bah Loira, eu sinto muito...
—Lucy?
—Lucy?
—Deixe ela, Lucy precisa de um tempo...
—Eu estou preocupada com ela...
—Ela comeu algo Natsu?
—Ela precisa se alimentar...
—Dê espaço a ela, acabou de perder o pai...
—Senhorita Heartphilia, eu sinto muito...
—Meus pêsames senhorita...
—Tão jovem e já perder os dois pais...
—Que desastre...
—Ele era tão bom esse homem, pelo menos faleceu dormindo e não sofreu...
—Soube que o rapaz e a filha o encontraram...
—Que cena horrível para dois jovens...
—Deus leva quem está pronto...
Ouvi esses sussurros durante a manhã inteira enquanto olhava para o corpo inerte de Jude Heartphilia, o homem respeitado por Magnólia inteira, que veio prestar seus sentimentos.
O boato se espalhou rapidamente depois que chamamos a doutora Poluchka e ela o declarou morto por Pneumonia. Tanto os mais velhos quanto os mais jovens apressaram-se em vir prestar socorro aos pobres jovens que estavam sozinhos na casa.
Eu não saí do lado de seu corpo para nada, não queria comer, não queria ir respirar ar fresco ou beber um copo de água, meu pensamento era ficar ali e ver se Deus era misericordioso e me levava para me juntar a minha família. Mas tudo o que ele fez foi fazer que eu escutasse sussurros e fofocas em volta de mim, como se não bastasse eu ter perdido meus pais, eu tinha que ouvir pessoas falando merda sobre como dois jovens iriam se virar agora.
Eu queria levantar e gritar com todos, fazê-los ir embora, mas Natsu me continha toda vez que esse pensamento vinha em mente, como se imaginasse o que eu precisava, ele vinha ao meu lado de tempos em tempos e apenas colocava sua mão sob meu ombro direito, para que eu soubesse que ele estava ali e se precisasse era pra chamá-lo.
Horas e horas se passaram e o pessoal começou a ir embora, meu estômago doía, gritando por comida, mas eu o ignorei, minha garganta estava seca e agradeceria por apenas um gole de água, mas eu não lhe dei também, minhas pernas queriam descansar, mas eu insisti na dor e permaneci ao lado de meu pai até o anoitecer.
Quando a última senhora foi embora e dentro do quarto restaram apenas o corpo de meu pai e o meu, eu superei minha dor e fui até, me ajoelhei ao lado da cama, olhei em seus olhos agora fechados, olhos que derramavam lágrimas quando ele achava que eu estava triste, olhos que eu odiei por tempos, olhos que amaram quando eu vim a esse mundo e quando eu retornei, olhos que se apaixonaram por minha mãe, olhos que viram eu partir sem data pra voltar.
Agora eu o via partir sem passagem de volta, eu merecia isso? Não sabia, mas era o que eu estava recebendo.
Olhei para minha mão e a fita azul ainda estava ali, então desenrolei e amarei delicadamente em seu braço e no meu e senti sua pele gélida.
—Eu sei que você já se foi, mas espero que possa ouvir o que nunca pude dizer... – meus olhos começaram a arder e meu peito a doer. – Eu sinto muito por ter ido embora... eu sinto muito por ter imaginado que seria um homem horrível que fez mal a minha mãe... eu sinto muito por ter dito que mal o conhecia... eu sinto muito por duvidar do amor de um pai... eu sinto muito por ter deixado o senhor sozinho todos esses anos... eu sinto muito por você não ter visto eu crescer e não ter podido prender meu cabelo ... eu sinto muito por ter tirado de você o amor da sua vida... eu sinto muito não ter contado que mamãe nunca teve outro homem... eu sinto muito por não ter chamado a doutora antes... eu sinto muito por não ter conseguido te salvar... eu sinto muito... eu sinto... sinto... sinto muito pai.... sinto muito ter dito que lhe amava apenas uma vez... sinto muito não ter te chamado de pai quando voltei... me perdoe...
Tudo o que estava sentindo eu queria ter dito pessoalmente, mas como sempre, deixamos de falar o que sentimos e depois não podemos mais. Ou você aprende a falar pra pessoa que ama, ou nunca poderá amá-la, ou você diz que está arrependida ou nunca poderá viver com o perdão de alguém, ou você vive com a pessoa o quanto você pode ou nunca mais poderá viver.
A vida é assim, Deus é assim, a morte é assim. Ou você age, ou nunca mais abra a boca pra falar porra nenhuma, você tem pouco tempo, você tem poucos segundos pra viver, não pense que você tem anos pela frente pra dizer a alguém o quanto você a ama, não pense que você terá sua mãe e seu pai para sempre ganhar colo, amanhã eles podem não fazer mais o café da manhã pra você ir à escola, não pense que seu cachorro vai estar ali na semana que vem pra você brincar com ele, amanhã ele pode arrebentar a coleira e fugir por debaixo da cerca e ser atropelado. Você pensa que tem a eternidade, mas na verdade a vida passa em segundos diante de você, e o que você fez? Nada, só reclamou do que tem, então a vida vem e tira não o que te incomoda, tira você do jogo.
Ao passar de mais algumas horas, meu estômago começou a doer mais, então desenrolei a fita do braço de meu pai e prendi em meu cabelo. Saí do quarto dele e fui até o meu, chegando lá fechei a porta e pus a me trocar, afinal eu estava com a roupa de dormir ainda, Natsu apenas tinha me dado um casaco seu.
Coloquei meu colar e vi que Happy estava debaixo nas cobertas, o potinho de comida e água estava cheio, meu namorado deve tê-lo alimentado, a caixinha de areia estava limpa também, me abaixei e peguei o colar que ganhei na noite anterior e o coloquei no pescoço, então me olhei no espelho.
Parecia um dia normal para Lucy Heartphilia, um dia cansativo, exceto pelas roupas pretas e a falta de esperança em seus olhos, apenas uma adolescente, que não sabia o que queria para o futuro, que não sabia se queria casar, que não sabia que queria ir à escola ainda, e agora estava sem os pais para orientá-la.
Toc toc toc...
Abri a porta e Erza, Cana, Mira e Lisanna entraram pela mesma e encaram-me como todos os outros, com pena, eu não podia culpá-las, eu sentia pena de mim mesma.
—Vamos... – Erza disse pegando na minha mão e puxando-me para a cozinha. – Você precisa comer alguma coisa.
—Eu não estou com fome... – tentei desvencilhar minha mão.
—Lucy, com todo o respeito... – Mira falou pondo sua mão em meu rosto. – Mas neste momento não acreditamos em você.
—Você precisa comer. – Cana disse me encarando agora com determinação.
Então soltei meu corpo e deixei que me levassem até a cozinha, onde os rapazes estavam juntos conversando com Natsu, eles pararam de falar quando viram que eu entrei e me sentei na mesa.
Meu namorado não veio até mim, pois sabia que eu não queria falar com ninguém agora, ele apenas me olhou de longe e acenou um positivo quando viu que eu iria me alimentar. Natsu já estava vestido de preto, assim como todos os outros, então eles iriam enterrar meu pai hoje mesmo.
—Aqui está. – Mira preparou um café, enquanto Lisanna arrumava um sanduíche, e assim me forçaram a botar pra dentro, eu não conseguia sentir gosto de nada, pois minha consciência estava em outro lugar, mas pelo menos fiz o que queriam, alimentei meu corpo que agradecia pela comida.
Depois que comi, Erza e Cana lavaram as poucas louças que sujei e assim todos se levantaram e fizeram sinal afirmativo com a cabeça.
—Está na hora. – Erza veio até mim e estendeu sua mão, eu segurei e a segui para fora de casa, demos a volta na fazenda e passamos pela portinhola que tinha onde dava acesso ao milharal, e assim atravessamos a plantação e eu pude ver o nosso destino, o destino final de descanso de meu pai, a árvore que ficava na colina onde ele subia todos os dias.
Todo o pessoal que antes estava lá em casa prestando seus pêsames, agora esperava pelo corpo de Jude para dar o grande adeus.
Quando cheguei perto da árvore, finalmente pude ver o que tanto lhe chamava atenção ali. Eu sabia que o corpo de minha mãe não jazia neste local, mas no pé da árvore, encontrava-se uma foto de Layla e um pedaço de vela apagado, era o tumulo de minha mãe para meu pai, mais ao lado os rapazes já haviam cavado um buraco fundo do tamanho de um corpo, era uma cova que aguardava seu morto.
Da casa, agora saia meus amigos carregando um caixão normal, recém devem ter colocado meu pai dentro, Laxus e Freed levavam a parte de trás do caixão e Natsu e Jellal, a parte da frente, o rosto do meu namorado que até então eu não havia percebido, estava contorcido, mas não de dor por causa do peso, era de rancor, como pude ser tão egoísta? Natsu estava sofrendo tanto ou mais do que eu, afinal ele foi criado por meu pai, passou muito mais tempo com ele do que eu, eu por algumas horas esqueci que eu não era a única que o amava, afinal por mais estranho que pareça, meu namorado era como um filho para meu pai, e agora Natsu perdeu ele também.
Chegando no topo eles colocaram devagar e com cuidado o caixão no chão, assim vieram para perto de nós, Natsu ficou ao meu lado segurando minha mão com firmeza, garantindo que eu não fosse fugir dele, não se preocupe, ficarei ao seu lado assim como você ficará do meu.
—É com enorme pesar que nos reunimos hoje para dizer adeus a mais um amigo. – A doutora Poluchka começou a falar, suas mãos estavam entrelaçadas na frente de seu corpo e ela mantinha seus olhos fechados, como se estivesse rezando. – Todos aqui testemunharam como Jude Heartphilia era um grande homem, honesto, trabalhador, amoroso, atencioso, não só com seus filhos, mas com toda a Magnólia, somos uma grande família e amamos muito este homem, que sempre quando era chamado, a necessidade do outro vinha antes da sua.
Natsu começou a chorar, por tristeza, por emoção da doutora falar em filhos, eu segurei com mais firmeza sua mão, eu sentia tristeza por ter perdido meu pai, mas agora eu sentia mais orgulho de ter conhecido ele e de ser filha de alguém tão nobre.
—E como seu desejo, será enterrado no topo da colina onde pediu sua mulher em casamento, e onde soube que teria uma filha, onde por ele jaz o corpo de sua falecida mulher. – a doutora falou e não pude deixar de levar minha mão à boca em surpresa, olhei para Natsu e ele também me olhou surpreso, mas estávamos felizes por ser um lugar bom pra ele. – Descanse em paz Jude Heartphilia.
Assim os adultos agora pegaram o caixão e baixaram com cuidado na cova, deixando que ele sumisse no buraco, e assim com suas pás, começaram a cobrir o espaço com a terra que tinham retirado, cobrindo completamente o caixão de meu pai e deixando um cruz com sua foto e seu nome.
Ficamos ali um tempo contemplando o túmulo de meu Jude, enquanto o pessoal ia embora, o céu estava laranja e vermelho, era um por do sol lindo, porém manchado de sangue.
Quando percebemos que a maioria já tinha se despedido, nossos amigos nos abraçaram e disseram que viriam amanhã trazer algumas coisas para nos ajudar até que decidíssemos o que fazer.
—Obrigada novamente pela ajuda. – Falei a todos, eles sorriram e subiram em suas carroças, deram um último aceno e sumiram na estrada noturna.
Natsu e eu demos meia volta e quando entramos na casa, a doutora ainda estava ali arrumando suas ferramentas de medicina.
—Desculpe doutora, não sabíamos que ainda estava aqui. – Natsu falou. – A senhora tem carona pra casa?
—Meu jovem, eu vim cavalgando, não preciso de ajuda. – ela disse um pouco fria e voltou a guardar suas coisas.
—Certo, desculpe. – meu namorado ficou um pouco sem jeito, mas foi preparar algo pra comer.
—Com licença. – cheguei mais perto da doutora. – Não fomos apresentados formalmente, eu sou...
—Lucy Heartphilia, eu sei quem você é, eu trouxe você a esse mundo, nasceu naquele mesmo quarto que viu seu pai falecer. – ela olhou para mim e vi em seus olhos frios um pouco de tristeza.
—Certo, eu queria perguntar. – falei e ela olhou para mim. – Se a senhora tivesse examinado ele antes, ele teria sobrevivido?
—É uma boa pergunta. – ela sorriu pra mim. – Mas agora não importa mais não é, se eu falar que sim, vocês vão se culpar pelo resto da vida, se eu falar que não iria ferir o meu orgulho como médica.
Então ela passou por nós e foi até a porta, e por alguns instantes pensei que fosse embora sem dizer adeus, mas ela virou-se e viu Natsu se aproximando de mim e pegando em minha mão, e sorriu, o que achei que ela não soubesse fazer.
—Fico feliz que se deem bem. – ela disse.
—Por que não nos daríamos bem? – perguntei curiosa.
—Por causa de seu pai. – ela respondeu achando estranha à pergunta.
—Como assim? – Natsu perguntou franzindo o cenho.
—Vocês são irmãos! – ela falou.
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