Natsu me apresentou ao comércio de Magnólia e assim pude ir me acostumando com o ritmo e os limites deste lugar, não tinha quase nada, apenas o básico do básico, como o pessoal daqui sobrevivia?

Aos poucos obtive mais conhecimento sobre os horários, as gírias e que a única pessoal mal educada dentre os cinquenta habitantes de Magnólia era a tal da Lisanna, a ex de Natsu.

—Natsu? Todos os habitantes daqui são fazendeiros? – perguntei.

—Ahm, bem sim. – ele pensou por um instante. – todos tem criação de gado, porco, ovelha, galinha e o diferencial do seu pai, é que ele tem belos cavalos.

—Uau... – expressei. – então tudo o que se come aqui vem do próprio cultivo?

—Sim. – Natsu respondeu orgulhoso.

—Interessante. – e neste momento minha barriga roncou alto.

—Haha, vejo que está com fome. – ele riu e olhou o relógio no pulso, que até aquele instante não havia reparado nele. – É hora de ir, falei ao seu pai que estaríamos em casa até às vinte horas, e já são dezenove e quarenta e cinco.

—Você mora com o Jude? – perguntei espantada.

—Sim. – ele respondeu guiando-me até a carroça que ele deixou estacionada perto de uma poça onde os cavalos estavam bebendo água.

—Então vamos morar juntos? – perguntei, até ontem eu morava apenas com minha mãe, agora vou morar com dois homens?

—Algum problema? – ele ficou preocupado.

—Ah não, não entenda mal. – eu sorri para tranquiliza-lo. – É só que não estou acostumada.

—Entendo. – ele disse e ajudou-me a subir, então deu partida se assim posso dizer.

Boa parte do trajeto fizemos em silêncio, eu estava observando a fauna e a flora de Magnólia, apesar de ser pequena e isolada do resto do mundo, era muito bonita, toda a região era plana, e o sol estava terminando de se pôr, trazendo a noite e o sereno para a cidade, o som dos grilos e do vento roçando no milharal e nas folhas das árvores transmitiam uma tranquilidade contagiante, era um pequeno paraíso, e o estranho é que eu gosto dessa sensação, era tão familiar, mas esta memória estava escondida numa gaveta de minha mente que eu recusava-me a abrir, tenho medo do que eu possa vir a lembrar.

—Natsu? – o chamei de repente, ele me olhou intrigado. – Como... como é o Jude?

—Bem, ele é o seu pai, quem poderia conhece-lo melhor? – Então ele lembrou-se.- Não se lembra dele? Quantos anos tinha quando foi embora?

—Três, eu acho. – dei de ombros e olhei para a estrada de terra que se alongava em nossa frente.

—Bem, o que eu posso dizer. – Natsu também olhou para frente buscando por respostas. – Ele é um homem muito trabalhador.

—Sim, isso eu sei, mas como ele é como pessoa? – tentei explicar melhor para Natsu.

—Sim, bom... ele é determinado e fiel, se tem algo que ele coloque na cabeça, nada o faz mudar de ideia, e o que o admiro muito é... – então ele olhou pra mim. – Que se ele defende algo, ele vai até o fim, isso você herdou dele, eu acho.

Suspirei e virei para o outro lado, queria fugir dos olhares intensos de Natsu.

Eu estava totalmente nervosa, fazia quase uma vida que não o via, nem tive qualquer contato com meu pai, como posso chegar até ele e dizer: “Oi pai, e aí como tem passado esses anos todos?”

Não posso, simplesmente precisava de mais tempo para encará-lo e conhece-lo melhor, foram muitas emoções surgindo juntas, perda, raiva, tristeza, e agora reencontro. Eu sentia que estava prestes a explodir, mas não posso fazer isso com ele, iria magoá-lo e eu não faço isso com as pessoas.

—Olha Lucy, sei que está preocupada com o seu reencontro com seu pai, pois fazem muitos anos. – Natsu começou a falar. – Não deve ser fácil, mas eu disse a mesma coisa ao seu pai, pois acredite ele está tão nervoso quanto você, “acalme-se, deixe as coisas acontecerem e deem uma segunda chance um ao outro.

Olhei para o garoto espantada, ele era muito sábio, a não ser que o assunto seja garotas.

—Sei que mal lhe conheço. – ele disse por fim. – Mas conheço seu pai e convivi com ele alguns anos a mais e triste digo, mais do que você, não tem um dia que ele não olhe para o único retrato que ele tem na casa, a foto sua e da sua mãe.

Meus olhos lacrimejaram e as lágrimas vieram, não pude mais evitar, então senti a carroça parando e senti braços quentes e fortes me abraçando, me senti confortável e segura, porém isso só permitiu que elas rolassem cada vez mais.

Depois de um tempo, eu me acalmei e Natsu ainda estava me abraçando, não queria que ele soltasse, mas assim que percebeu que eu estava mais calma, ele desfez o laço e prosseguiu com a estrada.

—Estamos quase chegando. – ele disse fazendo-me olhar para um pequena luz que vinha de uma casinha um pouco a frente, chegando perto, ele desceu para abrir os portões e então puxou os cavalos para dentro do cercado, me ajudou a descer e então pegou minha bagagem.

Enquanto ele fazia isso eu olhei com atenção em volta, havia uma pequena casa, onde suponho ser o meu novo lar, para o lado esquerdo existia uma construção um pouco maior e comprida, como um celeiro, onde devem ficar os animais, e do outro lado havia um puxadinho para as carroças, e é claro, até o limite do terreno de meu pai se encontravam muitas árvores, plantações de todos os grãos e verduras que pude imaginar no momento.

—Bonito né? – Natsu apareceu ao meu lado.

Concordei com a cabeça e olhei para ele, havia um sorriso sem igual em seu rosto e seus olhos brilhavam de orgulho pelo lugar.

—Bem, vamos entrar? Seu pai deve estar nos esperando. – ele disse me guiando até a varandinha, onde tirei minhas botas que estavam sujas e então ele abriu a porta para mim.

A luz e o cheiro que invadiram-me foi instantânea, fechei os olhos para me acostumar e assim o cheirinho de carne assada veio até mim e novamente meu estomago falou.

—Hehe parece que está com bastante fome hein. – Natsu brincou e eu fiquei corada, fazer o que, eu nem almocei, apenas tomei café e logo em seguida embarquei no trem e fiquei muitas horas sem um lanche.

Então o barulho de pisadas no chão chamou minha atenção, e me deparei um homem alto, de cabelos e olhos castanhos, barba por fazer, a roupa um pouco amassada, mas limpa, em forma e com olheiras profundas, como se trabalhasse demais, igual à mamãe.

Em seus olhos jaziam lágrimas que queriam sair, mas ele estava as controlando, seu olhar não desviava um só instante do meu, era como se estivéssemos lembrando um do outro em fragmentos de memória a muito não acessados, sua feição era familiar, eu me lembro dos seus olhos e do sorriso, mais jovem e menos cansado.

Então sua expressão ficou séria e raivosa e ele avançou como uma pantera para cima de Natsu.

—O que você fez seu pirralho? – ele esbravejava. – Por que ela está com os olhos inchados?

—Senhor...

Natsu tentava se defender mas, Jude estava com olhar assassino.

—Ele não fez nada de errado. – defendi ele e então ao ouvir minha voz, se acalmou e veio correndo até mim.

—Como você cresceu... – o sorriso em seus lábios era bobo, mas dei-lhe uma chance. – Se parece tanto com sua mãe....

Nesse momento senti uma pontada em meu peito e o sorriso em seu rosto desapareceu.

—Ah Jude? – Natsu interveio para mudar de assunto, ele sabia que isso era delicado. – Será que a janta já está pronta? É que a Lucy está com fome senhor.

—Você também está. – falei a Natsu.

—Ah certo, desculpe. – Jude saiu correndo e entrou numa portinha a esquerda, então voltou mais que depressa. – Desculpe, estou nervoso, venha comigo querida, vou lhe mostrar seu quarto para que possa deixar suas coisas lá, então podemos comer.

—Querida? – olhei para Natsu depois que meu pai nos deu as costas e o garoto deu de ombros.

—Aqui... – Jude parou na metade do corredor e abriu uma porta de um aposento para mim, adentrei e assim reparei no meu novo quarto. Era pequeno, mas tinha uma cama com uma coberta rosa, dei risada disso, um pequeno armário recém pintado de rosa, o cheiro de tinta estava forte ainda e uma mesinha com algumas gavetas e um espelho pregado na parede. – Gostou?

—Gostei, obrigada! – olhei para ele e sorri, então ele se pôs a chorar e eu não soube o que fazer.

—Ahhhh, que bom, trabalhamos tanto tempo nele, desde que o mensageiro foi embora, eu e Natsu não paramos até ficar pronto e ainda assim, está om cheiro de tinta... Ahhhhhh.... – ele dizia ao prantos, admito, não esperava por isso.

—Ahmm... – eu tentei me aproximar, mas o medo era maior. – Eu gostei, não tem problema o cheiro... vai ficar tudo bem...

—Ahhh você é tão meiga, vai se dar bem aqui... – então ele secou as lágrimas e saiu do corredor apressado. – Esqueci a carne, venham jantar.

Natsu olhou para mim tão espantado quanto eu.

—Ele não é sempre assim, é? – perguntei observando Nastu colocar minhas malas no chão.

—Não. – ele respondeu sério. – Ele está assim desde que soube da morte de sua mãe.

Fiquei em silêncio e pensando em sua resposta.

—Eu vou indo, preciso lavar as mãos. – então saiu do quarto e me deixou sozinha, apenas pensando no porque de tanta tristeza vindo de meu pai, será que ele ainda amava a mamãe?

Depois de alguns minutos, fui até a cozinha, mas antes de chegar lá ouvi um pouco da conversa.

—Será que ela está bem? – era Jude perguntando.

—Eu acho que você deve dar um tempo pra ela. – Nastu respondendo. – Pelo que percebi, ela está muito abalada pela perda da mãe e também dos amigos.

—Não sei o que fazer. – Jude reclamou.

—Apenas lhe de espaço e tempo. – Natsu respondeu, e percebi que meu pai ficou em silêncio, decidi entrar na cozinha, sorri para o rapaz e então olhei para meu pai.

—Ahm... eu sei que esta situação é estranha... – eu comecei a falar, precisava dizer algo que o tranquilizasse, era meu jeito, não gostava de deixar as pessoas desconfortáveis perto de mim. – então eu peço... que me de um tempinho para me acostumar com tudo isso...

—Eu entendo Lucy... – ele disse sorrindo bondosamente.

—Obrigada... – sorri e então levantei minha mão direita para cumprimenta-lo.

Um pouco confuso ele apertou minha mão, mas aos poucos ele percebeu que um abraço seria muito avançado para um pai e uma filha que há muitos anos não se veem.

—Por favor, sente-se. – ele apontou para a cadeira vaga ao lado de Natsu. – A carne esta quase esfriando.

Então ele tirou ela do forno e colocou sobre a mesa, rapidamente Natsu encostou as mãos e fechou os olhos, em sinal de agradecimento pela comida, meu pai fez o mesmo, então por educação e respeito, imitei seu gesto.

Posteriormente, meu pai pegou o facão e cortou um pedaço de carne para mim e outra para Natsu, então se serviu por último.

—Bom apetite. – ele desejou e assim ambos começaram a comer, com cuidado e um pouco nervosa, cortei um pedaço e experimentei, era a melhor carne que havia comido na vida, muito bem temperada e no ponto.

—Uau, está delicioso. – exclamei sorrindo.

—Fico feliz querida. – ele disse com um belo e sincero sorriso nos lábios.

Observei Natsu comendo e não pude deixar de me perguntar por que ele morava com meu pai, mas é claro, iria deixar ele me contar, não queria pressioná-lo, e era minha primeira noite ali, queria que ficasse tudo bem.

Depois que comemos rapidamente me levantei e comecei a recolher as louças sujas e as levei até a pia, foi quando percebi que ambos me olharam espantados, só então percebi.

—Desculpe, costume. – falei rindo envergonhada. – Como vocês fazem?

—Na verdade Natsu faz isso. – Jude explicou e olhou para o rapaz, que já levantava da mesa.

—Pode ficar sentado Natsu. – falei sorrindo para ele. – De hoje em diante eu lavo as louças, tudo bem?

Ambos se olharam espantados.

—Se você tem certeza que é isso que quer... – meu pai disse.

—Não, é minha obrigação. – Natsu levantou da mesa e pôs em minha frente.

—Eu vou morar aqui, preciso de afazeres também. – argumentei.

—Não seja machista. – Natsu respondeu. – Não precisa ir chegando e se ocupando de tarefas, pode deixar que eu lavo.

—Está bem, mas só hoje. – respondi sorrindo e convencida. Então olhei para meu pai e eu sabia que ele não iria negar. – Não é?

—Ela está certa pirralho. – ele disse e olhou para Natsu.

—Ahhh... – Natsu reclamou. – mandona.

Sorri para o elogiu.

Então ele se pôs a lavar a louça e eu sentei na mesa em frente ao meu pai.

—Uhum... eu sei que está cansada e não é o melhor momento. – meu pai começou a falar. – Mas amanhã ou quando se sentir mais a vontade, quero conversar com você, saber como tem sido sua vida, como vai nos estudos, o que gosta de fazer, o que gosta de comer...

—Eu entendo. – eu disse. – Como o senhor mesmo disse, agora não é a melhor hora, eu preciso de um tempinho, espero que entenda, neste momento eu só queria tomar um banho e dormir, eu preciso ficar um tempinho sozinha.

—Sim, é claro. – ele sorriu. – Natsu, você pode mostrar onde fica o banheiro para Lucy?

—Sim. – o rapaz rapidamente secou a mão e sorriu para mim, era um sinal para segui-lo.

—Boa noite. – desejei a Jude e ele assentiu com a cabeça. Então fui atrás de Natsu.

Fomos até o final do corredor e ele abriu um porta, era o banheiro, havia uma pia, um vaso, uma cortina que do outro lado se localizava o chuveiro e alguns acessório higiênicos.

—Bem, quando abrir o registro, cuide pra não levar choque e tem um pequeno segredo. – Natsu explicou. – Se você empurrar para dentro o registro e depois girar a água vem mais quentinha.

—Interessante. – respondi achando graça. – Obrigada Natsu.

—Tudo bem. – ele sorriu e então se virou para ir até a cozinha.

—Natsu? – o chamei de volta. – Esta tudo bem?

—Sim... – ele respondeu relutante olhando para baixo.

—É que desde que chegamos você ficou um pouco diferente. – expliquei, estava preocupada, será que fiz algo que ele não gostou? – Se eu fiz alguma coisa...

—Você não fez nada, não se preocupe com isso. – ele respondeu olhando seriamente para mim.

—Ok, mas se precisar conversar... – falei humildemente.

—Obrigada. – ele sorriu e assim deu as costas para mim e foi para a cozinha.

Estranhei sua atitude, mas dei de ombros, talvez uma hora ele me conte, então fui até meu quarto e peguei uma roupa limpa, então me fechei no banheiro, e foi aí que entrei em desespero. Não tinha nenhum tipo de fechadura na porta, nem chave e nem maçaneta, como diabos eu iria tomar banho com risco de alguém entrar?

Porém eu não tinha o que fazer, tirei a roupa, a separei para lavar amanhã e liguei o chuveiro como Natsu me explicou, tomei um choque, mas não dei bola, a água veio quentinha e então relaxei até certo ponto, pois eu ficava de ouvidos atentos para pular até a porta caso alguém tente entrar.

Mas nada aconteceu e consegui tomar um bom banho e me vestir com roupas limpas e aconchegantes, saí do banheiro e fui até meu quarto, que também não tinha chave, revirei os olhos e então decidi arrumar minhas coisas, guardei minhas roupas, coloquei alguns livros e meu porta retrato na mesinha.

Então peguei a foto e deitei na cama, abracei ela o máximo que pude e deixei que caísse no sono, eu estava começando uma nova vida, não sei o que me aguarda, mas vou dar o meu melhor e espero que a vida me responda a altura.

Tinha que reconstruir um relacionamento de pai e filha, e por sorte parece que meu pai quer se aproximar de mim, então eu precisava nos dar uma chance, eu tinha que descobrir um modo de ir para a escola, pois não queria parar de estudar e também precisava construir amizades, pois sem elas, não sou ninguém.