Magic the Gathering: Tales of the Ætherbreaker
1 Quando eu acendi minha centelha e caí num trigal
Notas iniciais
Cuidado com os fazendeiros, eles são terríveis.
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E subitamente, minha centelha acendeu.
Um estalo no fundo de minha mente, tão poderoso que meu cérebro pareceu ser chamuscado, tão alto quanto a explosão de um raio. O cheiro de fósforo inundou minhas narinas, como se algo queimasse.
Era minha mente, era eu que queimava.
As chamas escorreram como água da minha cabeça e logo cobriram meu corpo, desintegrando minha pele e me deixando exposto. Tão rápido quanto surgiu, o fogo desapareceu, e então eu senti fluir através de mim.
A água e o ar.
Não a água de um córrego ou a água da chuva, muito menos a água das minhas lágrimas ou do meu próprio sangue. Não o ar que soprava a todo momento, tampouco o ar que enchia meus pulmões.
Através de mim, toda água e todo ar do Multiverso fluíram.
A água virgem dos mares de Shandalar, a água fervente das Fornalhas Izzet, a água fria das montanhas de Tarkir. O ar salgado dos portos de Nefália, o ar primaveril das florestas de Kamigawa, o ar estagnado das vielas de Ravnica.
Minha mente se expandiu, correndo através do Multiverso, conhecendo intimamente cada uma das infinitas existências que o orbitavam.
Não, não era aquilo que eu buscava, então o Maelstrom me mostrou o que eu buscava.
Em Shandalar, minha mente voou com os vistosos dragonetes de pelagem avermelhada e desbravou o oceano com os tritões e com os seres do mar. Em Ravnica, nos Labirintos de Niv-Mizzet, compreendi as coisas que estavam além da compreensão e desafiei a mente do próprio Dracogênio, sentindo o calor de sua mente de fogo e sondando seus planos visionários. Nas montanhas de Tarkir, senti um frio descomunal, mas não o frio que drena ou que mata, mas sim o frio que aplaca e acalma e também meditei à sombra das asas do dragão Ojutai.
Em Innistrad, me escondi nos becos de Nefália como um infiltrador, invisível até mesmo ao apurado olfato dos vampiros e, em Thraben, enxerguei uma batalha feroz entre um anjo e um demônio através dos olhos de um geist atormentado. Em Kamigawa, vi uma parceria improvável surgir quando um samurai kitsune, um ninja nezumi e um mago soratami se uniram para enfrentar um poderoso oni que assolava a Floresta Junkai. E, de volta a Ravnica, testemunhei uma trupe de Rakdos festeiros ser subjugada pelo punho justiceiro de Azorius após uma orgia tremendamente destrutiva.
Eu me expandi até os cantos mais obscuros do Multiverso, até não ter mais para onde me expandir.
E então, comecei a retroceder.
Minha mente recuou tão rápido quanto havia se expandido e, em meu desespero, me ative às ideias que considerava mais importante.
A questão era que tudo parecia importante, toda forma de existência (e inexistência) de Nova Phyrexia à Dominária, de Lorwyn à Theros, do mais poderoso dos Planeswalkers ao mais ínfimo dos goblins. Tudo era relevante, e eu precisava encontrar o mais relevante.
Me soltei, e deixei que as águas e os ares me levassem.
Sim, aquilo era o mais importante. A água e o ar que abafaram o resto, os poderosos e amplos escudos de justiça virtuosa, as erupções vulcânicas que inflamavam o mundo e a alma, o vão egocentrismo daqueles que violam a morte, a selvageria primária e animalesca da natureza.
A água, profunda, misteriosa, estoica, bravia, primeva. O ar, onipresente, constante, erosivo, atemporal, primevo.
Não somente eles, como também a fome por conhecimento e por sabedoria; a curiosidade necessária para desbravar o mundo; a trapaça que nos livra dos conflitos através da astúcia; a mente, que é ao mesmo tempo, a maior das forças e a maior das fraquezas; os sonhos, uma porta sem maçaneta que nos leva diretamente às partes mais profundas de nosso subconsciente; a memória, o mais valiosos dos tomos; o clique-claque das máquinas que vergam o mundo a vontade de seus criadores.
Sim, aquilo era o mais importante.
Segurei-me à isso com toda força que pude, guardando essas ideias comigo.
E, enfim, minha mente retornou ao ponto de partida.
Eu estava caindo, vendo a calçada se aproximar a uma velocidade alarmante. Olhei para cima e vi a beirada a qual havia saltado segundos antes, impossivelmente distante, e cada vez mais distante.
Era aquilo? Eu havia viajado por todos os planos, explorado o Multiverso de cabo a rabo, e, mesmo que tais memórias esvanecessem de forma alarmante, seria um grandíssimo desperdício que minha centelha houvesse acendido para nada. Em instantes ela estaria espalhada junto de meus restos deformados no meio de uma calçada qualquer.
Mas não, era claro que aquilo não ia acontecer, eu ainda possuía algumas cartas na manga.
O tempo parou, e eu usei isso para sondar minhas opções. Aprofundei minha mente, e lá eu achei justamente o que precisava.
O Maelstrom me conectou a uma ilha de marés furiosas, cinco quilômetros de distância da costa de Nefália. Dessa ilha eu extraí o mana azul, que fluiu frio e viscoso através de minha mão, como plasma. Eu concentrei essa essência para abrir o éter o suficiente para que minha invocação viesse.
E, surgindo do nada, minha criatura veio ao meu auxílio.
Um Fantasma de Jace, uma ilusão azulada e nebulosa no formato de uma grande arraia, nadou pelo ar até me alcançar.
Com um sorriso triunfante no rosto, fiz com que o tempo voltasse a fluir. O Fantasma me envolveu com sua grande cauda e me salvou da queda com uma boa folga.
Sem dificuldade, escalei sua cauda e subi em seu dorso, ficando em pé, apenas admirando a magnitude daquilo que eu havia feito, uma arraia azul gigante que flutuava de forma lenta e preguiçosa pela noite. Olhei para baixo, para o chão dez metros abaixo e vi apenas a rua deserta e mal iluminada. Uma pena, certamente, não havia ninguém para impressionar ali.
Dei de ombros, subitamente cansado daquele lugar e sentindo e indescritivelmente ansioso para sair dali.
— Leve-me aonde eu preciso ir. — Pedi ao Maelstrom, sem ter a mínima ideia de onde esse lugar seria. — E para quando eu preciso ir.
Abri um portal para o Vórtice e me segurei firmemente ao Fantasma, para que a ventania não me soprasse para longe, fechei os olhos e respirei fundo.
“Talvez seja a última vez que eu respiro esse ar.” Pensei, enquanto dirigia meu Fantasma ao Vórtice.
O Maelstrom, então, me acolheu, como acolheria a um filho que retorna para casa depois de muito tempo.
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Saltei do dorso de meu fantasma e esmaguei o cascalho úmido sob meus tênis. A grande arraia se desfez em uma densa névoa azul com gosto de oxigênio.
Quando a neblina se desfez, eu notei que estava em uma grande seara, um trigal provavelmente. O ar campestre carregado com o odor de terra úmida e trabalho honesto foi tranquilizante e desconcertante ao mesmo tempo. Eu sentia que aquela atmosfera não era para mim, era muito natural, pura e viva, transbordando com mana de cores outras às minhas.
Aquela seara era situada em um amplo vale cercado por altas e intimidadoras montanhas, parecendo muito mais se tratar de uma cratera do que de uma vale. Interessante.
Sem diretriz e sem pressa, comecei a vagar pelo trigal, afastando feixes com os braços de forma delicada para não danificá-los.
Após alguns minutos vadeando pela imensidão dourada, esbarrei em um fazendeiro loiro e careca com uma barba cheia na mesmíssima cor do trigo que ele arava. Ele se assustou e começou a segurar a enxada como se fosse um machado.
— Wow! Calma, amigo! — Fiz um sinal apaziguador com as mãos e ele, em respostam ladrou uma série palavras brutas e toscas em um idioma que eu não conhecia. Ele deu um passo para frente e balançou a enxada na minha direção, mas eu consegui desviar do golpe. — Ca-a-a-al-ma. — Repeti em um tom tranquilizador, mas ele deve ter entendido aquilo como um insulto direto à memória de sua vovozinha querida, pois desembestou atrás de mim desferindo golpes à torto e à direita sem a menor consideração pelo trigo ao nosso redor.
— Eu pedi numa boa. — Disse antes de expandir minha consciência, buscando por mana. Achei muito mana verde emanando da plantação, muito mana preto emanando das escuridões abaixo, muito mana vermelho emanando do homem, muito mana branco emanando dos espíritos do trigo, mas nenhum mísero mol de mana azul. — Ah, merda! — Constatei com muita perspicácia, me abaixando e ouvindo a lâmina silvar sobre minha cabeça.
Ok, não podia recorrer ao mana azul, então, puxei o branco.
Isso é um pouco difícil de explicar, mas nós só podemos puxar um tanto específico de mana de cada vez. Mana não tem peso, mas se fosse para atribuir uma medida, imagine uma bolha do tamanho de uma bola de praia, isso equivale a um mana.
Com um mana branco, minhas opções se expandiram. Lancei aquela bolha no éter, sem ter certeza do que ele me cuspiria de volta.
E, do ar, um grande falcão com quatro patas desceu ao meu auxílio, espiralando e caindo sobre o fazendeiro.
E, em toda minha carreira de planeswalker, acredito que, até hoje, nunca havia testemunhado tamanha decepção.
O fazendeiro olhou para cima, cuspiu no chão e, com um único golpe da enxada matou o coitado do Falcão da Cauda Solar da forma mais badass possível, que explodiu em um fuzuê de penas e grasnidos, fazendo com que o mana preto no lugar aumentasse consideravelmente. Os resquícios de éter esvaneceram, uma parte permanecendo comigo e outra parte retornando ao éter maior.
Em vista disso, optei por correr.
Os gritos e pragas do fazendeiro barbudo estavam me atingindo, mas, graças à deus, a enxada não estava. O mesmo não pode ser dito do trigo, o que já estava fazendo com que as dríades se revoltassem.
Depois de mais alguns tempos, eu escorrei e cai de cara em um pequeno córrego, espirrando água para todos os lados. Quando eu vi que aquilo era água, eu quase dei uma risada e um beijo no leito. Mana, finalmente!
Olhei por cima dos ombros e vi o fazendeiro com um sorriso maníaco na beira do córrego, retribuí o sorriso com o meu próprio, virando a palma de minha mão para ele e gritando.
— Hidrosurto! — Um jato fortíssimo de água jorrou de minha palma e o lançou metros para trás. Aquilo, decididamente, não o mataria ou desacordaria, então, decidi tomar a ofensiva. Me ergui do córrego e corri na direção do barbudo caído enquanto ele ainda estava enfraquecido. Eu o vi ali caído, mas duvidei que conseguisse subjugá-lo apenas com minha força. Meu mana ainda não havia se renovado e eu estava sem opções fiáveis para sustentar minha ofensiva, e, o mais irônico, em minha opinião, era a forma como o mana transbordava daquela seara, sem forma de ser domado e jogado ao éter.
Parei por um segundo, após ser fulminado por uma ideia. Eu não podia jogar o mana ao éter, mas nada me impedia de jogar o éter ao mana.
Bem, na verdade, um trilhão de regras me impediam de fazer isso, mas valia a pena tentar.
Dei um salto e enchi a mão esquerda de éter e lancei essa esfera como uma bola de baseball no mana exuberante.
Deu muito certo, muito muito certo.
A esfera de éter explodiu, condensando o mana na forma de uma mulher, uma ninfa linda com a pele amarelada e um cabelo esvoaçante nas cores do trigo.
A Alseíde Observadora sorriu para mim e consumiu cinco manas para me Agraciar. Ela se desfez em uma névoa dourada e me envolveu. Eu senti a força dela correr junto da minha e senti minha visão se ampliar, eu enxergava tudo ao meu redor. Eu estava Vigilante.
Eu corri até o fazendeiro encharcado, que já havia levantado. Ele me golpeou com a enxada novamente, mas eu não recuei, apenas ergui o braço para aparar o golpe. A ferramenta maldita explodiu em um milhão de lascas e farpas contra meu antebraço e eu, então, ataquei, desferindo um poderoso soco no maxilar do desgraçado que estalou de forma deliciosa.
Ele caiu para trás, desacordado, e eu me aproximei de seu corpo, tocando sua testa com a minha mão, puxando alguns manas azuis do córrego próximo para sondar a mente dele.
Um fato interessante sobre o mana, ele flui para nós livremente em qualquer momento, mas em batalha, nós temos que ir atrás dele, expandindo nossa consciência pelo multiverso atrás de algo. As vezes não achamos mana algum, o que é um saco; as vezes, só achamos mana, e não magias, o que também é um saco; e, raramente, achamos os dois em equilíbrio.
Explicado isso, vou descrever o que vi na mente dele.
Ele achou que eu era um assaltante ou um ladrão por que as terras por ali estavam sendo arrasadas pelos Nyxnatos, Ressurgidos, Sátiros e Hoplitas que estavam tão bêbados de guerra que não se preocupavam em saquear e arrasar tudo em seu caminho. Outra coisa interessante, também, foi que eu aprendi instantaneamente o dialeto local, os costumes locais, a geografia local e o nome do lugar onde eu estava.
Theros.
Definitivamente, parecia um lugar bem divertido.
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