Magic the Gathering: Tales of the Ætherbreaker
2 Quando eu fui um herói
Notas iniciais
Heroísmo é o pior dos vícios.
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Cheguei à vila após algum tempo. Um vilarejo de construções baixas de pedra branca com telhados arredondados e arcos de colunas, uma rua de paralelepípedos ladeada nos dois lados por uma baixa mureta de gesso claro. Eu já havia visto casas assim no meu plano natal, mas não estava esperando encontrar aqui.
Bem, na verdade eu esperava por causa das memórias do fazendeiro, mas desconsideremos isso por ora.
Aquele vilarejo, Ev̱logía Ti̱s Theías Piroúni Kyría To̱n Ydáto̱n, ou como eu gosto de lembrar, Theías, brilhava com o sol matutino refletido no gesso. Os locais andavam sem muita pressa em suas roupas simples de linho claro com os pés descalços a ir e vir pelas ruas, o populacho abria suas portas e procurava os negociantes que já operavam a algum tempo vendendo pães, azeites e carnes, todos bastante frescos.
Não é nem necessário dizer que eu destoava daquele lugar. Eu era um sujeito enlameado e com roupas estranhas e poderia ser confundido com um assaltante facilmente, mas a graça da ninfa me poupou de desconfortos e mal—entendidos (não de olhares tortos e cochichos, veja bem), mas eu não ligava para isso.
Uma menina de uns quinze anos com os cabelos castanho-claros presos em um rabo de cavalo por uma fita de couro me trouxe uma bandeja de madeira escura com um grande pão e um jugo de barro cheio do que parecia ser suco de uva.
Veja bem, eu estava com uma bela de uma fome e uma bela de uma sede depois de correr metade da manhã por um trigal com um fazendeiro maluco atrás de mim, então eu aceitei a comida e me retirei para um banco de pedra à sombra de uma bela oliveira para ter minha refeição.
Agora, você deve estar esperando uma narração cômica ou grata de mim devorando aquele pão e entornando aquele suco em questão de minutos, despertando a surpresa da multidão que me passa a me ver mais como um humano normal do que como um objeto singular.
A verdade não foi tão agradável assim.
Eu arranquei um pedaço daquele pão e percebi que ele não estava tão quente quanto eu esperava, e estava muito mais farelento também. Quando pus o naco na boca, senti o sabor seco e levemente ácido de pão dormido e, para anular isso, levei o jugo aos lábios e sorvi um longo gole de suco. Estava morno, doce demais e mais viscoso que o normal. Aquela “refeição” deveria ser o que sobrou do dia anterior.
Eu pensei comigo mesmo e cheguei à conclusão que esperar um suco recém-espremido e um pão recém-assado era pedir demais.
Eu comi um pouco do pão e beberiquei levemente o suco, apenas para ajudar aquela massa pesada e incômoda a descer. Quando comi um quarto do pão, percebi que já não estava com fome e nem com sede.
No momento que eu levantei, ouvi um trotar lento às minhas costas. Era um carro de bois carregado com mercadorias de vilas próximas, e eu notei, em especial, um belo par de botas de cano alto com fivelas.
Sim, eu não disse ainda, mas eu estava louco para arranjar um sapato bom. Os meus tênis até estavam em bom estado, mas não seriam muito úteis na estrada. Naquele momento, por exemplo, eles estavam enlameados e encharcados e eu notei que a sola parecia descolar de leve.
Eu também precisava de uma bolsa e uma capa cheia de bolsos por motivos que nem vou me dar ao trabalho de explicar e talvez, alguns suprimentos.
Eu estava sendo bem genérico já que aquela vida era novidade para mim.
Não precisei de muito tempo para perceber que havia algo errado ali. O comerciante estava claramente assustado e fazia questão de compartilhar esse pavor com os locais.
Não tenho certeza se já expliquei isso, mas eu havia tirado uma boa parte do dialeto local da mente daquele maldito, então eu consegui reconhecer algumas palavras. "Assaltantes, assassinos, minotauros, vindo." mau sinal, mau sinal de fato.
Pois bem, minha carreira é composta de decisões heroicas e decisões dúbias. Esse foi uma das heroicas
— Eu posso ajudar. — minha voz sempre foi uma das boas, então não foi difícil me fazer ser ouvido. — Eu posso impedi—los.
Todos me olharam. Ninguém tentou me impedir.
Eu aproveitei a situação, me aproximando com decisão.
— Mas, para tal, preciso de ajuda. — Acrescentei, abrindo os braços para a multidão, parando a caminhada e fazendo minha voz reverberar. — Um ancião, alguém que já viu tudo que essa vida tem a oferecer.
O momento de hesitação cheio de burburinho foi longo, mas não mais do que o esperado.
— Theías, você a oferecer tens o que? — Um aldeão perguntou. Um homem em seus trinta anos com princípios de calvície.
Em meu plano natal, existe um conceito chamado timing, que significa fazer as coisas na hora mais apropriada.
Abri os braços mais ainda e um brilho dourado me banhou. A ninfa tinha timing.
— Salvação.
Minhas palavras eram verdadeiras, a ninfa não me deixaria mentir. E, a aprovação de um ser benigno da região era mais eficaz que um carteirada com um bom distintivo.
— Este aqui se oferece. — um senhor de cabeça careca e manchada pelo tempo, se apoiando em uma rústica bengala de madeira disse. — Plena vida vivi, ofereço ao sacrifício para convocar o poder dos deuses.
Sorri para ele de forma tranquilizadora. — Não será necessário sacrifício, — era o que eu esperava. — não apelarei aos deuses.
Ele ergueu uma sobrancelha, todos ergueram, na verdade.
— Fará o que comigo, então? — perguntou, perdendo um pouco da certeza de seus movimentos. Nunca vi alguém tão disposto ao sacrifício.
Eu me aproximei, puxando o mana azul que Theías irradiava em sua civilização.
— Apenas vou pegar algumas ideias. — moldei o mana em um feitiço mental em minha mão esquerda, pronto para esculpir a mente¹.
Espere, eu já contei meu plano? Não!?
...
Ok, eu ia fazer o seguinte. Eu precisava de alguém com uma boa galeria de memórias, para que eu pudesse lê—las e usá—las no combate vindouro.
Como eu faria isso? Bem, o Maelstrom me deu algumas poucas e seletas mágicas, uma delas tinha a finalidade de vasculhar a mente alheia. Não era muito útil em um combate, acredito, mas servia como uma boa inspiração e como uma excelente fonte de ideias.
Eu poderia ter todo mana e todo o éter do multiverso ao meu dispor, mas não servia de nada caso me faltassem ideias.
Com meu indicador esquerdo, eu toquei no centro de sua testa. Instantaneamente, sua expressão ficou vazia e seus olhos começaram a brilhar em um tom pálido de azul.
Aquele velho tinha visto coisas interessantíssimas, e eu peguei as melhores e mais úteis para mim.
Quando o contato foi interrompido, ele desfaleceu, mas foi aparado pelos cidadãos.
— Não há razões para se preocupar. — Eu realmente esperava que não houvesse. — Ele vai ficar bem. — Eu realmente esperava que ele ficasse bem. — Agora, acredito que será melhor esconderem—se em suas casas antes que eles cheguem.
E, realmente, eles se esconderam antes que eu pudesse contar até um.
A batalha ainda não havia começado, então eu tinha mana e tempo ao meu dispor.
Ou era o que eu achava.
Tentei colher um bom mana, mas a mesma não se deixou ser colhida, com exceção de um mana azul.
Teria que me contentar com isso, aparentemente, então lancei esse mana no Éter com uma ideia bem clara em mente.
Logo em seguida, um grande ser se materializou no chão. Semelhante a um grande molusco, o filhote de kraken² ofereceria alguma defesa contra os invasores iminentes.
Subi em sua casca resistente e fiquei lá, sentado, esperando os inimigos.
Não demorou muito tempo, uma nuvem de poeira se formou no horizonte, avançando através da garganta na entrada do vale—cratera.
Um bom contingente de saqueadores errantes, de fato. Eu contei em torno de vinte criaturas bastante ecléticas, entre eles, gigantes, ninfas, minotauros, górgonas, sátiros e soldados sátiros.
Aquilo prometia ser bem divertido, realmente.
O grupo se espalhou pelo vale, não se direcionando todo ao vilarejo de uma vez.
Em minha direção vinha um grupo de dois humanos, duas ninfas nyxnatas e um gigante.
Os humanos eram um homem de capuz azul³ e uma mulher de capuz roxo⁴. As ninfas⁵ pareciam ser gêmeas, ambas com os mesmos cabelos que esvoaçavam como densas nuvens de fumaça negra, olhares afiados, belezas perigosas e sombras estreladas de nyx, mau sinal. E, por fim, o gigante⁶ que era o líder daquele grupo, aparentemente, um ser com cerca de dez metros de comprimento que liberava uma densa e carvorosa fumaça negra que matava as plantas e flores em seu rastro. Notei que ele também era nascido de nyx.
O gigante apontou para mim, ordenando o ataque e o casal de humanos encapuzados se precipitou para frente, assumindo uma postura defensiva.
Senti meu mana se renovar e consegui puxar mais um mana, branco dessa vez.
Optei por esperar mais um pouco antes de invocar algo.
Ao ver que eu não me movimentaria, a dupla de humanos atacou com punhais. Eu saltei de meu kraken e ordenei que ele bloqueasse o golpe do homem, enquanto eu cuidava da mulher.
O grande molusco emitiu um guincho de concordância e se moveu para bloquear o avanço do encapuzado, deixando o caminho livre para a mulher.
A discípula da enganação correu em minha direção com o punhal em riste, mas eu consegui desviar de seu primeiro golpe, ou melhor, seus primeiros golpes, pois ela atacou repetidamente, mas sem disciplina.
Ela perdeu o equilíbrio em um golpe desferido com mais força e eu me enfiei em suas defesas, atingindo seu agradável rosto com um soco muito bem dado. Ela cambaleou violentamente, mas ainda assim, de alguma forma, conseguiu cravar a lâmina em meu ombro direito.
Como era de se esperar, aquilo doeu pra valer.
Dei um grito de dor, mas consegui revidar. Minha mão esquerda envolveu o cabo da faca e, com um puxão, removi-a. E, tirando força da alseíde que me agraciou, dei um passo para frente e abri a garganta daquela vadia com sua própria lâmina.
Eu não gosto muito dessa parte, mas vou descrevê-la aqui por motivos de futura referência.
A lâmina dela, que agora era minha, abriu um talho fundo em sua garganta por onde um rio de sangue se derramou. Ela levou a mão à ferida e caiu de joelhos antes de seu corpo se desfazer em éter.
Tive um sobressalto quando vi seu corpo se decompondo. Ela era uma criatura invocada.
Essa descoberta aliviou minha consciência antes dessa ficar pesada pelo homicídio. Guardei a faca em minha cintura do lado direito para poder liberar a mão e estancar a ferida. O corte era feio e fundo, mas não sangrava.
Eu só aprendi isso futuramente, mas vou explicar agora para facilitar o entendimento. Sempre que um planeswalker entra em algum tipo de confronto, ele recebe um tipo de proteção do Maelstrom que é chamada vulgarmente de Vida. Todo dano que um planeswalker sofre em combate não o atinge, mas sim, à sua vida. A vida, no entanto, não é infinita, mas um planeswalker tem plena consciência de seu estado.
Você deve estar se perguntando “Então por que você feriu o ombro?”. Bem, a resposta dessa pergunta é também a resposta de outra pergunta muito boa: “Por que planeswalkers são tão poderosos, mas não lutam suas próprias lutas?”. A resposta é relativamente simples: Porque o multiverso tem regras diferentes para criaturas e planeswalkers e, quando você age como uma criatura, o multiverso entende que você é uma naquela situação.
O multiverso não é um lugar justo, entenda. Ele é muito melhor para nós, planeswalkers, do que para qualquer outro ser.
Mas, voltemos à narrativa.
Eu voltei até meu kraken e me apoiei nele, sentindo uma dor lancinante no braço. A concha de Kenny (foi o nome que dei para ele) estava lascada em diversos pontos, mas ele estava bem. Eu não tinha certeza, porém, se ele aguentaria muitos outros assaltos.
E então, veio a gira.
Peço desculpas por interromper tanto a narrativa, mas é normal que o começo de uma história seja cheio de explicações.
A gira, como eu gosto de chamar, é um fenômeno chave em todos os duelos planares. Quando ela vem, todos os machucados e feridas sofridas por criaturas no combate ou algo do tipo são instantaneamente curados. O mesmo se aplica para mágicas de curta duração ou etc.
A ferida em meu braço se regenerou diante de meus olhos, tal como as falhas na concha de Kenny.
Meu mana se renovou e eu consegui apanhar mais um mana azul, agora tinha três.
Ia fazer uma invocação, mas ainda pretendia manter a defensiva.
Formei uma ideia clara do que eu queria e lancei meu mana ao Éter. Um vento forte soprou e se aglutinou acima de mim, tomando a forma de um ser alado, compacto, esguio e ágil. O Elemental do sopro ascendente⁷.
O pequeno grifo composto de ar morno pousou ao meu lado com leveza e eu acariciei a penugem de seu pescoço. Era como afagar um pequeno e simpático furacão.
Fiz um sinal afirmativo para ele e o mesmo alçou voo sem agitar as asas. Era uma gracinha.
Minha defesa estava forte, mas eu ainda não tinha ataque. Não fazia mal, aquele duelo era meu.
Era a vez dele, ele sinalizou para que suas Lâmpades Medonhas entrassem em campo. As ninfas nyxnatas sorriram para mim de uma forma tão horrível que destoava daqueles rostinhos bonitos.
Elas ativaram sua Constelação, enviando uma nuvem de nyx que envolveu o homem encapuzado.
Ao meu lado, Kenny se remexeu em desconforto. O Ladrão Ousado agora era bem intimidador.
O Ladrão avançou brandindo sua arma, em primazia, eu pensei que se tratava de um punhal, mas na verdade era um estranho garfo de dois dentes.
Saquei minha faca e dei um passo para frente, eu conseguia dar conta dele, mas minha recente experiência me deixou um tanto indisposto.
Esse conflito foi um pouco mais rápido.
Poupando-lhe os detalhes, o garfo dele se cravou em minha coxa e meu punhal se cravou em seu peito, e, idêntico à sua amiga, ele se desfez em éter.
Recuei mancando até Kenny, a dor em minha perna era terrível, mas, novamente, a Alseíde me salvou.
Novamente, a gira. Novamente, minhas feridas se curaram.
Puxei um mana branco. Aquilo era justamente o que eu precisava para vencer.
Um sorriso diabólico irradiou em meu rosto e eu o direcionei para as Lâmpades, que retribuíram em altura.
Certo, eu não me orgulho do que fiz a seguir, mas foi necessário. Extremante, necessário.
Eu apontei para as ninfas e proferi as palavras mais malditas do multiverso, palavras que nem mesmo o mais pútrido dos planeswalkers ousa proferir.
Eu disse...
— Pacifismo⁸.
Eu juro que ouvi o próprio diabo gargalhar ao ter sua presença invocada por mim. De minhas costas, pequenos e medonhos anjinhos carregando um par de guirlandas surgiram e voaram até as ninfas, que estavam com olhares assombrados.
Os pequenos malditos cercaram-nas, paralisando-as com o mais profundo pavor.
E, como o coração do novilho é depositado no altar, as guirlandas foram depositadas em suas cabeças.
Subitamente, suas expressões de medo derreteram em sorrisos abobalhados. Ambas sentaram no chão, deram as mãos e começaram a cantar.
E eu, ignorante à profanidade que havia cometido, consegui achar graça na cena.
Vamos prosseguir, não quero mais falar sobre isso.
O gigante deu um passo à frente e meu riso engasgou em minha garganta. Ele exalou uma densa fumaça negra que me fez engasgar. Subitamente, me senti doente, fraco.
A onda de negrume secou e apodreceu a viçosa e verdejante grama aos nossos pés, fazendo com que um verdadeiro mutirão de insetos e animaizinhos saísse do conforto de seus lares e fugisse daquela desolação.
Ok, não tinha problema, aquilo iria sumir na gira.
Mas aí, o gigante urrou e correu na minha direção, esticando a mão e puxando um grande martelo dourado⁹ de lugar nenhum, passando por cima das ninfas que brincavam de a-do-le-tá.
Sim, aquilo foi uma surpresa bem desagradável.
Uma das ninfas interrompeu a brincadeira por um segundo para lançar uma sua Constelação no Gigante do rastro funesto. Quando a nuvem estrelada alcançou o gigante, algo dentro de mim se quebrou enquanto um dedo lento de gelo desceu pela minha espinha.
Meu kraken e meu elemental fugiram da sombra que se agigantava diante de mim.
Aquele momento de choque me fez esquecer que eu tinha tudo para ganhar aquele combate. Com pressa, apanhei meu mana restante e o lancei ao éter, com uma imagem clara e fervorosa do que eu queria, do que eu precisava.
Eu senti uma energia calorosa e arrasadora correndo por meu corpo, e quando ele levantou aquele pé colossal para me esmagar, eu voltei minha mão esquerda para ele gritei.
— Represália¹⁰!
A luz que eu emiti era atordoante, ofuscante e poderosíssima. Um raio de energia que desfez o gigante em pó.
Um poder capaz de transformar a noite em dia.
Quando a luz desapareceu, não havia nem sinal do gigante, apenas o grande martelo que atingiu o chão pesadamente, abrindo um buraco.
Eu caí sentado, atordoado pelo susto. Aquele combate havia sido fácil, um tanto cansativo, um tanto assustador, mas fácil.
Eu já estava me preparando para voltar à vila contar as boas novas quando eu notei algumas coisas.
As lâmpades ainda brincavam e aquele gigante era apenas criatura.
O duelo ainda não havia acabado.
Eu não me orgulho disso, mas por um momento eu cogitei a ideia de transplanar daquele plano e não voltar tão cedo.
Mas então, eu entendi porque estava ali.
O Maelstrom estava me testando, nos testando, eu tinha de enfrentar aquele planeswalker e tinha de salvar aquele vilarejo da mesma forma que ele precisava destruí—lo.
Assim o Maelstrom elegeria o mais digno.
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