Magic the Gathering: Tales of the Ætherbreaker
14 A Fobia das Cordas
Notas iniciais
Ignorância é uma bênção, blá blá blá
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A noite era cruzada de ponta a ponta por um rio de estrelas que corria vagarosamente através do firmamento, inúmeros pontos de luz se deslocavam visivelmente e uniam-se em um amplo cinturão que abraçava o céu.
A serenidade sobre nossas cabeças contrastava com o mar bravio abaixo de nós, uma treva turva e disforme sarapintada de espuma, rimbombando com o arrebentar das ondas.
Voávamos havia horas, minhas pernas sentiam falta do solo, minhas coxas amargavam a sela e o frio fazia com que eu mantivesse meu corpo o mais próximo do de Anya quanto possível.
— Não está longe. — Ela disse. — Se fosse uma noite de lua, poderíamos ver Bosquetorre daqui.
A torre de pesquisas estava localizada em uma ilha à cerca de três quilômetros da costa, ela costumava ser conectada ao continente, mas a longa ponte de rocha que as unia havia sido corroída havia milhares de anos.
Eu ouvia o espatifar das ondas contra as pedras, eu ouvia o mármore e o granito serem desgastados, quebrados até virarem areia e serem lavados para as profundezas. O spray da água me amolecia, e o vento salgado me atingia, me erodia.
Minha correia amarelou e tornou-se fina como papel, a fivela enferrujou até virar pó, uma brisa me abraçou e, gentilmente, tirou-me das costas do grifo, carregando-me sem peso algum.
Os outros grifos me ultrapassaram como cometas, deixando um rastro luminoso atrás de si e ascendendo até o céu, deixando-me a cair em direção ao mar.
Olhei para as águas, estavam plácidas como um espelho, imitando o firmamento tão fielmente que até esse poderia se confundir.
Enquanto caía naquilo que não sabia ser o mar ou o céu, uma voz soou em minha cabeça, parecia ser o som das ondas ao mesmo tempo que parecia ser o silêncio do cosmos.
A voz disse lentamente, levando quase uma eternidade. — Veja ao seu redor — Infinitas estrelas dançavam a minha volta, como se todo firmamento se unisse em um balé cósmico. — Cada estrela é um universo, e cada universo é um de meus corações, — Estiquei a mão e segurei um sol, ele era pequeno, porém pesado; aquecia minha palma de forma agradável e parecia pulsar de maneira tênue. — Irei entregá-los todos a você, vagante. — Sem saber o porquê, esmaguei o astro em minha mão. Lancei os resquícios para o lado e vi a poeira se aglutinar para formar outra estrela. — Serão todos seus, para fazer o que desejar.
Nem sequer perguntei o motivo, mas a voz respondeu.
— Eu estou velho, desarmonizado e maculado, é uma questão de tempo até que minha essência se perverta. — Os universos que me cercavam começavam a apagar. — Eu devo morrer para que você me substitua, vagante, pois este é seu destino, governar o multiverso como um ser superior. — Eu comecei a cair muito rápido através do infinito.
— Apenas... — Meu corpo começou a envelhecer, meus ossos começaram a estalar e minha pele perdeu a firmeza.
— Não... — Minhas roupas desintegraram, assim como minhas armas.
— Resista.... — Desfiz-me em poeira cósmica, mesclando-me à infinidade do multiverso, enfim.
— A mim... — A voz acrescentou enquanto os ventos solares me espalhavam, as estrelas ganhavam vida enquanto eu passava por elas. — Pois do pô que vieste, — Eu me tornava cada vez mais esparso.
— Pode muito bem voltar — Minha consciência se tornava cada vez mais vaga.
— Com pouco mais do que meu querer.
— Estamos chegando. — Anya me tirou do torpor. O silêncio de minha estase foi preenchido pelo bramido das águas.
Balancei a cabeça enquanto me indagava o que fora aquilo, uma alucinação mágica, foi meu palpite, mas obra de quem?
Olhei ao redor, os demais grifos voavam afastados para garantir que as correntes de vento repentinas não os jogassem um contra o outro, longe e rápido demais para que qualquer manipulação mental significativa fosse feita, então eu descartei a possibilidade que algum dos outros apagados houvesse feito aquilo. Olhei para baixo e vi que os embaixadores Simic pulavam da água como peixes voadores, refletindo o céu em suas asas; eles também não tinham condição de fazer tal coisa naquela hora, então descartei-os também.
Talvez eu devesse ter suspeitado de Anya, mas por alguma razão não o fiz. Apertei ainda mais os braços contra seu corpo, desejando algo concreto para me ater.
Segundos depois, o grifo começou a mergulhar suavemente, provocando um frio na barriga. A nossa frente, a sombra monumental e agourenta de Bosquetorre agigantava-se.
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Havíamos chegado à ilha de Kivor, uma formação bem heterogênea dividida em cinco biomas principais, sendo estes: uma área rochosa, onde as construções eram feitas de adobe ou esculpidas nos rochedos; uma floresta de vegetação densa e frondosas árvores que serviam como casas para os que lá viviam; um trecho de campinas e colinas, sem dúvida o local menos hostil de toda ilha para habitar; um grande recife de corais que, apesar de pouco impressionante visto da superfície, abrigava a maior parte da vida de Kivor submersa em seus canais, tanto selvagem quanto inteligente; e por fim, um enorme alagadiço pantanoso onde, os poucos que arriscavam viver lá, o faziam sobre uma cidade de palafitas.
Ao chegarmos pelo lado rochoso, era possível ver os contornos de uma cidade tenuemente iluminada mais à frente com a silhueta da gigantesca torre atrás de si. Mal as garras do grifo tocaram o solo eu soltei meu cinto e saltei da sela, minhas botas afundaram na areia úmida que, apesar de traiçoeira, não deixava de ser terra firme, coisa pela qual eu agradeci. Anya desceu de sua montaria e deixou o grifo solto, o animal obediente sacudiu o dorso e começou a bicar suas penas, procurando por carrapatos.
Poucos instantes depois, as outras feras aterrissaram e seus montadores fizeram o mesmo, largando-os sem atrelar. Os cavaleiros foram chamados por Anya e se retiraram para um ponto um pouco mais distante do litoral escuro para discutirem algo, deixando-nos apagados a sós.
Longe de formarmos um grupo sociável, ficamos em nossos cantos: A grande mulher, Valghanti, abriu sua algibeira e começou a procurar por algo lá dentro; Styie, o homem de púrpura, encostou-se em uma rocha e continuou lendo apesar da escuridão; o ruivo Ilan Roche ajoelhou-se vendado e começou a murmurar com as mãos juntas abaixo do pescoço; a jovem enfaixada do cabelo azul, Pra'er, ia em direção ao mar e desfazia as amarras em seus braços; e eu estava sentado na areia, taciturno, pensando naquilo que eu havia ouvido da voz incorpórea durante a viagem.
Eu sempre odiei profecias, agouros, presságios e esconjuros de forma quase que geral e além disso, sucessões, ciclos de renovação infinita sem começo ou fim, governar o multiverso e coisas do tipo eram muito canastronas para mim. Muito clichê. Meu último desejo era ser o epicentro dessa ladainha cósmica e transcendental, eu não queria mais da minha vida do que vagar sem rumo, ver coisas nunca vistas, amar e ser amado, ser um errante bem acompanhado. Eu não queria mais do que isso, não queria ser deus.
Não queria e não iria, eu pensei, eu tinha mais o que fazer da vida como, por exemplo, resgatar os reféns de Bosquetorre, encontrar a elfa Lhamiz, descobrir o que houve com a minha centelha e encontrar Ishka pois ela me devia um beijo.
Um arrepio percorreu meu corpo, acompanhado por uma torrente de sensações. Eu havia me esquecido dela, já fazia quase um ano desde o nosso encontro, mas o momento voltava em cores frescas à memória, cada instante, cada olhar...
Então por que diabos eu havia me esquecido dela?
Subitamente, o chão ao meu redor sumiu e eu estava, novamente, entre as estrelas. A voz que antes me falava agora tinha uma forma, iniciava com uma ponta fina na base que se alargava para fora, como o copo de um liririo, coroada por cinco espinhos que cresciam conforme se afastavam da borda.
— Foi você. — Eu disse, finalmente erguendo a voz para ele. — Você me fez esquecê-la.
A forma não tinha olhos, mas eu sabia que ela me encarava.
— Eu libertei seu potencial. — Sua voz continuava inalterada. — Em Theros, fui eu quem lhe disse para abrir o Éter pela primeira vez. Sem mim, sem minha ajuda, aquela mulher teria te esmagado como um verme, juntamente com todo aquele vilarejo que você tanto adora. — O cheiro de azeite e trigo soprou por entre minhas memórias, eu sentia falta de Theías.
A forma projetou a cena do vilarejo ardendo em chamas enquanto monstros destroçavam os cadáveres de todos aqueles os quais havia conhecido por lá: Thales, o fazendeiro, estava com a enxada cravada nas costas; o albergueiro, pai das garotas, jazia com as vísceras sobre o corpo gorducho enquanto os olhos vazios fitavam o céu.
— Sem mim, suas meninas adoradas jazeriam degoladas enquanto monstros violariam-lhes os corpos ainda quentes. — A forma lançou essa cena em minha mente: Melissa balançava na ponta de uma corda que lhe matara pelo pescoço, amarrada nos galhos da frondosa árvore que germinara da semente que eu lhe dera, os monstros usavam seu corpo como um alvo para arco e flecha.
— Ela não iria se contentar com aquele lugarejo insignificante, ela iria incendiar Theros. — Ágata estava partida ao meio na cintura, os invasores haviam prendido seu corpo nos braços e pernas por cordas e a usaram em um jogo macabro de cabo de guerra, partindo seu corpo juvenil e largando-a como um brinquedo quebrado, a espada que fora meu presente estava caída próxima do corpo, com os dedos debilmente estendidos na direção do cabo.
— A Teríada não passaria de uma rinha de galos perto da destruição que ela traria, não sobrariam deuses em Nyx para impedi-la. — A pequena Helena estava amarrada em uma estaca, inerte, enquanto corvos bicavam seus olhos e lábios incessantemente, quando as aves se afastaram, eu pude ver que meu colar com as cores de mana estava enfiado em sua boca entre os dentes quebrados.
Melissa com suas flores, Ágata com suas aspirações militares, Helena com seus devaneios tolos. — Eu te ajudei e impedir tal cataclismo. — A voz concluiu.
— E por que você me ajudou? — Eu perguntei, sem deixar que as emoções me controlassem. Eu estava chocado, mas ilusões não me assustavam, eu era um mago azul.
— Pois era seu destino. — A forma respondeu, ainda inexpressiva. — Pois é seu destino matá-la.
Fiz silêncio.
— Ela será responsável pela morte de inúmeros mundos, você deve matá-la para evitar isso.
Continuei sem responder.
— Você não tem escolha. — A forma continuou. — Sua arrogância vazia e seu zelo por uma aberração como ela hão de cair por terra, eu conheço seu tipo e conheço você, um herói incapaz de permitir que mundos inteiros sejam destruídos.
Ergui meu queixo e semicerrei os olhos, carregando meu olhar e infundindo minha voz com magia. Por que? Porque certas coisas precisam ser ditas do jeito certo.
Saquei o Estilhaço do Éter e apontei para o Multiverso.
— Eu não sou um herói. — Proferi como um desafio, mas também como uma promessa a nós dois.
— Você está preparado para sacrificar o multiverso por seu orgulho sem significado? — O ser me indagou. — Você está disposto, vagante?
Quando eu abri a boca para responder, o cenário estelar sumiu e eu estava de volta à praia escura. "Você está disposto, vagante?"
Me levantei, sacudindo a areia branca e grossa das calças, decidido a me ocupar, caminhei na direção de Pra'er, sentada com as pernas abertas próxima da água.
Esmaguei areia com força para alertar minha aproximação e evitar sobressaltos, sentando-me ao seu lado silenciosamente. A lâmina da gigantesca espada estava totalmente descoberta, a jovem apoiava a arma contra a parte interna da coxa, seus braços também estavam desenrolados até a altura dos ombros, ela era magra e tinha os pulsos feridos pelas faixas que agora se empulhavam no chão. Eu via que ela molhava a mão direita no mar e esfregava a água salgada contra a lâmina de forma cerimoniosa, respeitosa.
As bandagens em sua boca afrouxaram e caíram revelando os lábios azulados.
— O que te traz até aqui? — Ela perguntou, sem desviar o olhar ambarino de seu ofício cerimonioso.
— Uma vontade inexplicável de ir embora. — Eu respondi sem pensar. — Uma corda invisível que me arrastava até o abismo.
Ela pareceu pesar o que eu disse por um instante.
— E o que te traz até mim?
— O desejo de me afastar de devaneios ociosos. — Confessei.
— Geralmente, os devaneios ociosos são os mais reveladores. — Ela comentou.
— Demasiado reveladores, por vezes. — Eu falei com mal guardado desgosto.
Ela ergueu a sobrancelha, também azul. — Futuro? — Ela perguntou, incisiva.
— Passado, do que poderia ter sido.
— Se não o foi, é porque o Giro não se alinhou para tal. — Ela soou como um provérbio.
Dessa vez, eu ergui a sobrancelha. — Giro?
Ela não respondeu, não insisti no assunto e decidi tentar outra abordagem.
— O que está fazendo? — Esperava não ter soado muito intrometido com seu rito.
— O Retorno. — Ela respondeu, deixando que a água corresse pelo aço que eu reparei que era perolado. — Essa espada veio do mar, o aço Endral'wen Chouke deve retornar às águas, às ondas e ao sal que o conceberam.
— A espada veio do mar? — Indaguei.
— Dwan'dral carregou a essência dessa lâmina até o mar e deixou que as correntezas a unissem nessa liga. — Ela explicou, girando a espada e repetindo o processo. Quando ela terminou de encharcar o outro lado, fechou ambos os olhos e tocou a arma com a palma da mão. — Endral'wen Chouke, Runai. Aedral'wen Chouke, Revenen. Ze Gir, Ret'Ek.
Apesar do dialeto, eu consegui entender que molhar a espada na água do mar era um gesto que significava que ela havia vindo do mar e ao mar ela retornava ou algo similar.
Senti meus dentes baterem de leve, como se algo vibrasse. Olhei para a espada institivamente, sentindo uma mágica poderosa emanar dela.
— O que...? — Eu gaguejei.
— Ela está se comunicando. — Pra'er sinalizou para que eu me calasse. — Fale, Aen'dwan. — Ela ordenou.
"Você não deveria falar nesse tom insolente comigo, ladrazinha imunda." Uma voz feminina respondeu, parecia que a dona da voz falava através de um longo tubo de metal vibrante. "Eu deveria torcer esses seus pulsos um pouco para você aprender a me respeitar." As faixas saltaram do chão e cobriram os braços nus de Pra'er, enrolando-se como cobras.
"Por mais que me encha de prazer discipliná-la, sacerdotisa," Ela proferiu a última palavra como se fosse uma doença. "Meus assuntos são com ele, não com você. Agora se apresse e me recolha, nossos captores retornaram."
Quando a voz terminou de falar, os guardas voltaram com Anya e com os enbaixadores simic discutindo.
"Venha conosco, meu caro." A jovem se levantou e levou a espada às costas, onde a mesma foi rapidamente envolvida pelas bandagens. "Eu tenho muito para lhe dizer, não em quantidade, mas em significância."
Me levantei também e perguntei mentalmente.
"E quem é você? Se é que posso saber tal coisa. "
A entidade riu. "Eu sou Enrhyra Kree'dwan, mas isso não é importante agora, guerreiro de vidro." Pode parecer infantil, mas eu me senti um tanto lisonjeado pela alcunha. "O importante é: O que nos aguarda na torre não é deste mundo, assim como nós não somos. Não deixe que nossos anfitriões ponham as mãos neles, ou os resultados serão catastróficos." Tão de repente quanto veio, a vibração sumiu.
Eu ia perguntar algo a Pra'er, mas as bandagens cobriram-lhe a boca, então apenas trocamos um olhar.
Anya sinalizou rapidamente para que seguíssemos-me em direção à cidade. A caminhada seria longa, mas eu não repararia.
Novamente, vozes incorpóreas tomavam meus pensamentos, não bastassem os presságios, agora eu possuía incumbências também.
Suspirei, lutando contra os fios que se enrolavam em meus pulsos, tornozelos e mente, sentindo um princípio claustrofóbico alastrando-se pelo meu ser, de repente assustado pelas cordas que me guiavam.
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