Notas iniciais
Esse aqui até que foi rápido, né não, jão? O próximo vai contar com momentos de CSI!

Eu sei que eu estava.

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Nossa breve comitiva seguia através da avenida principal pobremente iluminada pelas centenas de vagalumes que voavam preguiçosamente, afastando a escuridão para dar lugar a uma penumbra desconfortável.

A cidade era calcada dentro de um vale de rocha avermelhada, as construções eram esculpidas nos paredões pedregosos, formando uma cidade vertical. A garganta do vale era uma grande avenida de vinte metros de largura, ladeada por canaletas que drenavam a água que jorrava de diversas aberturas nas paredes e se espatifava estrondosamente no chão, cobrindo toda a via com um eterno borrifo que grudava o cabelo à testa e fazia as roupas pesarem e esquentarem de uma forma incômoda e pegajosa.

Anya andava do meu lado, profundamente calada, os orgulhosos e louros cachos caíam como uma massa disforme e lisa na cor de areia molhada, mas independente disso, era possível ver que algo estava incomodando-lhe os pensamentos, e seu esforço para solucionar essas questões transpareciam em sua feição dura.

Eu mesmo estava sentindo um crescente desconforto, tanto por conta daquilo que ambas as entidades haviam dito, o deus e a espada, quanto pelo fato de eu me sentir observado.

O formigar em minha nuca era inconfundível, então subi o capuz de minha capa apenas para me sentir menos exposto. Eu sentia como se cada uma daquelas janelas que nos cercavam abrigassem um par de olhos observadores.

Perdido em minha paranoia, mal reparei que havíamos chegado ao final do vale. A entrada de Bosquetorre era esculpida de forma que parecesse a boca de um gigantesco rosto que vomitava um facho de luz.

— A Boca Vermelha. — Começou o elfo, falando por sobre o bramido das águas. — Não temam, agentes da lei, podem adentrar sem medo. — Ele fez um amplo e espalhafatoso gesto para que entrássemos.

— Depois de vocês, caríssimos anfitriões. — Disse Anya, sorrindo de maneira desagradável. — Fiamo-nos em vosso conhecimento para nos guiar através da torre.

O elfo retribuiu o sorriso, porém mais desagradável pois seus dentes eram negros.

— Não guiaremo-vos, oh guardiões da justiça. — O estranhamento fora geral, era possível sentir que os ânimos instáveis começavam a se encrespar. As mãos dos soldados pairaram suavemente até os cabos de suas espadas.

Os elfos se posicionaram um ao lado do outro, bloqueando a entrada, todos sorriam como se aquilo fosse uma horrenda piada.

— Alguém está vindo. — Valghanti proferiu, voltada para o caminho que havíamos vindo, a voz dela era clara e pontuada por alguma idade. Os braços musculosos estavam cruzados e ressaltados.

— Eles são cinco. — Styie complementou, sem desviar o olhar de nossos suspeitíssimos anfitriões. Uma das mãos estava no bolso e a outra, apertando um cabo estreito de metal que despontava do lado de sua cintura.

O magro Ilan subiu sua venda e perscrutou o vale. — São todos humanóides, mãos e pés palmados, pequenos e magros. — Ele constatou. — Todos estão armados com tridentes e redes e se movem com destreza.

Espadas silvaram ao saltarem de suas bainhas, os dedos de Styie esbranquiçaram no cabo de sua arma e Valghanti sacou sua lâmina estranha, eu estava a ponto de desembainhar o Estilhaço, mas hesitei ao ver que Ilan e Pra'er não haviam pegado em armas.

Anya girou seu bastão e apontou a ponta de pergaminho para os alados.

— Do que isto se trata, Denjra? — Ela inquiriu, os três elfos gargalharam em resposta.

— Não há necessidade para tal. — Uma das elfas respondeu.

— Ela está certa. — O ruivo confirmou, ainda sondando a escuridão. — Eles não pretendem nos atacar, mas... — Ele hesitou.

— Mas? — Valghanti pressionou.

— Mas eles querem dar a entender que vão nos atacar. — Ele voltou a baixar a venda. — Estão tentando nos assustar apenas.

— E com sucesso. — Pra'er pontuou de forma ácida, seus olhos de lapidado citrino transpareciam tédio.

Os cinco que vinham finalmente tornaram-se visíveis através da bruma, todos estavam cobertos com uma camuflagem de folhas e tinham os rostos totalmente ocultos, salvo pelos olhos. Todos eles levaram a mão ao peito e fizeram uma reverência.

— Estes nobres cria-trilhas serão seus guias através da mata fechada de Bosquetorre. — O elfo Denjra apresentou de forma lisonjeira. — Mestres na sobrevivência, eles serão capazes de prover todas as suas necessidades lá dentro.

Um silêncio desconfortável cresceu enquanto o senso de ridículo de todos nós, preparados para a luta, começava a apitar.

— Apenas uma peça. — O mago de púrpura murmurou, escondendo o cabo da arma sob o robe.

— Porque o clima pesado? — Eu perguntei forçando um sorriso. — Achei que fosse uma tradição deste plano cumprimentar as pessoas sacando armas. — Risinhos quebraram o silêncio tenso. — Explicaria minha recepção.

— E a minha. — Ilan acrescentou, sorrindo.

Valghanti riu, guardando a espada. — A minha também.

— Idem. — A sacerdotisa disse, cruzando os braços.

Anya pisou forte até ficar cara a cara com os elfos.

— Adoraria ver mais do seu "humor", mutante, — O sorriso dos anfitriões amarelou. — Mas nós temos uma situação crítica aqui e o tempo está contra nós, então, se me dá licença. — Ela atravessou a entrada, esbarrando forte no tritão com o ombro.

Um olhar para trás e um gesto com a cabeça foram mais do que suficiente para que nós, juntamente com os cria-trilhas, seguíssemos-me. Deixei que os mateiros passassem a frente, até porque eram eles que sabiam o caminho, todos tiveram a mesma ideia, aparentemente, então a guerrilha seguiu para frente do grupo.

Todos passaram por mim silenciosamente, sem desviar o olhar, com exceção do último membro. Uma mulher baixa e franzina me lançou um longo olhar, era possível ver através da fresta em sua cobertura que seus olhos eram vermelhos e que sua pele era verde.

Quase como uma azeitona.

Arregalei os olhos, será que ela era. !?

"Ela é muito baixa, uns bons trinta centímetros de diferença. Não poderia ser." — Eu pensei.

Ouvi um risinho metálico em minha cabeça, reconheci como a espada de Pra'er, Enrhyra.

"Qual a graça?".

"Ele quase te enganou, guerreiro do vidro." Mais risadas. "Quase."

Travei o maxilar e a mateira seguiu seu rumo, ida ela, foram os apagados. Eu pretendia ficar por último na fila por mera birra, mas Pra'er puxou minha manga quando passou por mim, quando olhei para ela, estava expressa no liquidâmbar a sua vontade de que eu seguisse ao seu lado.

Ela fez tudo muito discretamente, então não alardeei, apenas acatei, andando ombro a ombro com a sacerdotisa enquanto a fila de soldados seguia atrás.

"Não escute a Enrhyra." Ela disse em minha mente.

"Ela não é confiável?"

"Muito pelo contrário, Stilace." Quando ela disse meu nome, um pequeno sotaque apareceu em sua fala, mesmo que mental, fazendo com que meu nome soasse como Stilás. "Todas as palavras devem ser levadas extremamente a sério e ponderadas com afinco." "Então por que eu não deveria ouví-la?" Perguntei.

"Porque você não precisa de mais enigmas. É visível que tem mais do que o suficiente."

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Vários minutos mais tarde, as portas do elevador se abriram e meu grupo saiu, separando-nos dos demais e adentrando em uma verdejante selva de mata fechada. Durante o caminho, Anya e os cria-trilhas concordaram que a melhor decisão seria a de nos separarmos em cinco grupos com três integrantes. Meu grupo contava com a presença de um guarda alto de rosto sombrio e da pequena mateira de olhos vermelhos que abria caminho o caminho.

Saímos da plataforma que se fechou rapidamente e adentramos na densa folhagem. As copas ocultavam totalmente o teto, tornando fácil de se esquecer o fato de que estávamos em uma torre.

Poupando-os da enfadonha, quente e úmida caminhada, vou pular para o ponto que importa.

Seguíamos em uma fila indiana, a cria-trilhas, eu e o guarda, o calor havia me convencido a tirar manto, mas os incessantes mosquitos estavam me convencendo a colocá-lo de novo. Enquanto me deparava com esse dilema, a pequena parou e sinalizou para que fizéssemos o mesmo.

— O que foi? — O guarda perguntou com uma voz forçadamente grossa.

— Um barulho estranho a frente. — Ela sondou os arredores. — Fiquem aqui, eu vou ver o que é. — E desapareceu na folhagem.

Quando ela sumiu, o guarda suspirou e sorriu. — Finalmente. — Ele murmurou de forma macia. Ergui a sobrancelha. — O que... — Fui interrompido quando ele me empurrou numa árvore e, antes que eu pudesse ter qualquer reação, me deu um beijo violento. Os dedos dele se enroscaram no meu cabelo e sua língua forçou caminho por entre meus dentes.

" Eu estou sendo molestado?" Pensei em profunda confusão tentando me afastar para tomar fôlego, mas a árvore me encurralara.

Quando ele me deu uma brecha, consegui colocar as duas mãos entre nós e afastá-lo alguns palmos, empurrando seu peito e, nesse momento percebi duas coisas estranhíssimas.

Primeiro: A placa de peito dele havia sumido, dando lugar a um corpete de couro, tipicamente feminino.

Segundo: O cheiro pungente de suor havia sido substituído por um aroma refrescante de hortelã.

Terceiro: Seu peitoral era muito sinuoso, muito saliente, muito estreito e muito "almofadado".

Quarto: Seu rosto estava embaçado, como se visto através de uma vidraça suja.

— Quer descer a este nível tão logo, Estilhaçado? — Ela perguntou de forma brincalhona, porém lasciva, roçando as unhas compridas em minhas mãos congeladas no gesto de apertar seus peitos. — Parece que você não é tão cavalheiro, afinal. — O capacete de soldado havia desaparecido, tonando visíveis os olhos fulgurantes como dois rubis e os intrincados desenhos em seu rosto.

— Aparentemente, eu não te devo mais nada, não é? — Ishka perguntou, sorrindo de forma significativa, fazendo os dentes claros aparecerem.

— Aparentemente nã... — Ela me interrompeu com outro beijo, mais comportado dessa vez.

— Uma pena, eu adoraria fazer isso o dia todo... — Ela insinuou.

Quando eu consegui ordenar meus pensamentos, uma torrente de dúvidas surgiu.

— Como raios você está aqui? E porque você desapareceu de Theros sem vestígios?

— Isso vai ter que esperar, menino, temos assuntos mais urgentes para resolver. — Ela cobriu minha boca com o dedo.

— Você está se referindo aos reféns, certo? — Afastei seu dedo.

— Ah, é claro que sim...

...

Ela se afastou rapidamente conforme o som de passos começou a estalar. Rapidamente, refez a ilusão de sua aparência e cruzou os braços, como se nada houvesse acontecido.

A cabeça da cria trilhas surgiu por entre as folhas, ela olhou para nós dois com os olhinhos vermelhos e disse de forma grave.

— Venham, vocês deveriam ver isso. — Sem nos esperar, ela voltou a desaparecer.

Seguimos-na pela vegetação com dificuldade por vários minutos até que comecei a sentir uma presença crescente de mana preto, o que nunca é um bom sinal. À frente, víamos uma pequena clareira, onde eu adivinhei que estaria o que quer que fosse que a mateira queria nos mostrar.

Quando rompemos a densa cortina verde, tal dúvida se concretizou.

Três corpos humanoides estavam caídos, espalhados pela clareira de forma indistinta, sendo que todos os três vestiam roupas de aspecto laboratorial, tratando-se sem dúvida de um dos grupos de reféns.

— Achamos. — Ishka constatou, irônica.

— Sim. — Eu concordei, suspirando. — Não que isso ajude-os de alguma forma. — Acrescentei, oprimido pela enorme presença de mana negro que emanava dos corpos.

Havíamos encontrado os ex-sobreviventes daquele andar, logo nos restava apenas descobrir o que havia acontecido.

Tínhamos uma cena de crime em nossas mãos, e, como agentes da lei, era nosso dever desvendar aquele enigma.