Magic the Gathering: Tales of the Ætherbreaker
4 Quando eu a conheci
Notas iniciais
Ishka, Ishka, Ishka!
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Essa descrição vai ser complicada, Ishka vai me matar caso eu não faça isso direito.
Verdade que ela, muito provavelmente vai me matar de qualquer forma, mas eu quero aumentar minhas chances.
Ishka era formidável. E por formidável, eu quero dizer exótica.
Os cabelos cacheadíssimos eram uma mescla de mechas azul-escuras, vermelhas vivas como brasa e negras como carvão e estavam presos em um rabo de cavalo de amazona por uma tira de couro cozido, formando uma cascata turbulenta que simulava uma fogueira de chamas azuladas, ocultando a nuca; a pele era castanha e esverdeada como uma azeitona e reluzia ao sol como bronze, perolada pelas gotículas de suor de sua ampla fronte (sim, a testa dela é enorme, mas ela é esperta o bastante para esconder isso).
Os olhos dela eram enormes, vermelhos da íris e violentamente expressivos, emoldurados por intrincados padrões curvos de henna preta que se expandiam para bochechas, formando uma imagem que recendia às asas de uma mariposa que descia até a junta de sua mandíbula; entre as asas de mariposa, linhas retas e agudas em um tom de escarlate formavam o desenho de uma boca demoníaca com dentes afiados em torno de sua própria boca que tinha as beiradas curvas em um sorriso irônico; e, em sua grande testa, curvas e ondulações se dobravam em uma coloração azulada vívida e profunda.
Seu corpo alto e esguio estava apertado em um corpete de couro, a cintura fina era envolvida por um grosso cinto de tachões com uma fivela do tamanho de um punho fechado segurando as calças estreitas.
Seus pés eram, no mínimo, do mesmo tamanho que os meus, mas suas botas eram de impor respeito. Mais do que meus pés molhados e meus tênis enlameados.
— O que você planeja? —Ela me perguntou. Ela falava sem gritar, mas eu a ouvia claramente.
— O que você planeja? — Retruquei no mesmo tom.
— Te matar. — Ela falou como se fosse apenas um aviso amigável.
Tive de dar esse crédito a ela. — Boa resposta.
— Você ainda não me respondeu. — Ela cruzou os braços com certa petulância.
— Estou ciente disso. — OK, eu fui mais petulante.
— E por que está em silêncio? Você tem cara de ser tão falante. — A mulher já me conhecia melhor que minha mãe, aparentemente.
Suspirei. — Não há nada que eu possa fazer. — Admiti. Minha defesa era pobre, meu ataque era pior ainda, e as mágicas que eu possuía na manga dificilmente seriam de ajuda.
— Você tem uma espada. — Ela apontou prestativa, mas meu pessimismo era crescente.
— E o que eu faria com ela? — Eu estava começando a soar como um adolescente dramático.
— Me mataria? — Adorável sugestão.
— Não é possível no momento, preciso de mais tempo. — E de mais uma sorte de coisas, claramente.
— Para? — Ela sabia, mas queria que eu dissesse.
— Te matar?
Estava longe, mas eu vi um discreto sorriso se abrir em seu rosto.
—Você vai precisar de sorte, além de tempo. —Ela esticou o pescoço e deu uma olhada em suas criaturas. — E, aparentemente, você não dispõe de nenhum dos dois.
Eu retribui o sorriso, sentindo meu pessimismo derreter em algo como aceitação. Espírito esportivo, talvez? — Aparentemente.
Ela sentou no ombro do ciclope e fechou os olhos como se pensasse em compenetração.
— Bem... — Ela disse por fim. — Eu posso te dar uma ajuda.
Fitei-a com descrença. — Não está falando sério.
— Duvida de minha benevolência? — Ela abriu um olho e ergueu uma sobrancelha.
— Não vejo razão para sua benevolência. — Pode ter parecido que eu queria negar sua ajuda, mas eu estava sendo sincero apenas.
— Você claramente precisa dela. — Ela abanou a mão.
— E você vai dá-la por isso apenas?
— Sim e não.
— Eu poderia te dar um beijo.
— Eu teria que te matar.
— Deixemos essa ideia em suspenso, então. — Ela jogou a cabeça para trás e gargalhou, decidi acompanhá-la porque a risada dela era cativante e porque eu realmente era muito engraçado.
— Pois bem. — Ela disse por fim. — Faça seu movimento e eu irei lhe aconselhar.
Eu havia esquecido que era meu turno.
— O que você me recomenda?
— Baixar um mana. — Ela sugeriu.
Obedeci.
— Agora?
— Dar um jeito de inutilizar minha defesa.
— Como.
Ela pensou por alguns instantes.
— Você é um planeswalker.
— Confere.
— Planeswalkers são magos, antes de qualquer coisa.
Aquilo estava ficando interessante.
— Logo?
— Logo você é capaz de criar suas próprias mágicas para se adequar às suas necessidades.
— Qualquer coisa?
—Obviamente não.
— O que, então?
— Varia de sua aptidão.
— E como eu descubro as minhas?
— Suas cores de mana são uma dica. Você está usando azul e branco, então sua aptidão dificilmente será voltada para violência, criaturas colossais, explosões, morte e etc.
— Ironicamente, parece que são justamente as coisas que eu preciso no momento.
— Tente ver em outra perspectiva. Magos azuis são mestres da mente, da enganação, da água e do vento. Magos brancos são especialistas em curas, defesas poderosas, luz e justiça.
—Você tira alguma conclusão disso?
— Uma dezena de conclusões, mas para aplicá-las, devemos saber qual é traço que te define, qual a coisa que faz você único.
— O que você quer dizer com isso?
—Todo planeswalker possui um traço que o define. Sarkhan Vol tem seus dragões, Kiora tem suas criaturas abissais, Chandra tem suas chamas. Você deve ter algo assim.
— Eu posso manipular o éter. — Lembrei subitamente.
— Isso definitivamente é algo bem único.
Como eu havia esquecido isso?
Futuramente, apenas, eu descobri que era o Multiverso que havia me feito esquecer, mas essa é outra história.
Estendi a mão esquerda, colocando-a entre mim e o sol, olhando para o astro-rei por entre meus dedos. “Éter” eu pensei.
— Vamos. — Ela disse. — Puxe-o.
E eu puxei, eu ordenei ao éter que viesse a mim, e ele assim o fez.
Em minha mão, aglutinou-se uma massa azulada que parecia o meio termo entre o gás e o plasma. Éter, puro e virgem.
Você deve estar pensando “Mas você já fez isso antes.”. De fato, eu já havia feito isso antes, mas você já percebeu que certas coisas são mais fáceis de fazer sem pensar? Essa era uma delas. A pequena esfera se esvaiu.
— Pronto? — Ela perguntou ansiosa.
Respirei fundo e voltei-me para ela.
— Pode vir. — Eu disse.
Ela sorriu, dessa vez, cheia de si. Apontou para mim e disse.
— Matem-no.
Prontamente, o guerreiro e o sátiro avançaram em minha direção, mas eu ordenei ao kraken e às ninfas que os bloqueassem.
— Nananinão! — Ela disse infantil antes que minhas criaturas atendessem ao comando, extremamente presunçosa. Apontou na direção do meu Kraken, Kenny, e disse. — Golpe Ardente.
O chão se abriu sob Kenny com uma rachadura e, da fresta, uma violenta onda de calor o atingiu em cheio, rachando sua carapaça como a um ovo e cozinhando-o instantaneamente. Ele só teve tempo de guinchar antes que sua existência fosse reduzida à cinzas e à um aroma delicioso de marisco.
Ok, eu conseguia lidar com o soldado nyxnato que avançava em minha direção com a espada em punho, contanto que minhas ninfas bloqueassem o sátiro.
Sem motivos para alarde. Mas aí, Ishka disse.
— Chamas da Instigadora. — Em sua mão, surgiram três bolas de fogo do tamanho de limões, que giravam rapidamente. Ela jogou as bolinhas para cima e estas aumentaram abruptamente, avançando como mísseis na direção de minhas ninfas.
Eu corri para o lado e me joguei para evitar a poderosa explosão que engolfou as irmãs do trigo. Senti o calor rachar meus lábios e vi que, agora, eu não conseguiria bloquear ambas as criaturas que vinham em minha direção.
Restavam-me ainda o Iconoclasta Leonino e a Mensageira dos Deuses.
— Fundir! — Ela proferiu e a Mensageira explodiu.
OK, me restava apena o Iconoclasta. Ordenei a ele que bloqueasse o sátiro e eu cuidava do guerreiro.
O homem de nyx brandiu sua espada reta e estocou, mirando meu ventre, mas eu consegui desviar ao me jogar de lado, caindo de bruços na terra de uma forma pouco digna.
Eu não iria conseguir sozinho, então, recorri ao éter. Apanhei do ar uma esfera em minha mão e ia lançá-la no Guardião Sinistro, mas tive de repensar isso quando o fio de sua lâmina talhou meu rosto com um corte fundo na altura da têmpora.
Cambaleei para trás, mas consegui recuperar o controle quando ele preparava um golpe horizontal para abrir minha garganta. Para esquivar, mergulhei para frente e passei por debaixo de seu ataque, que ceifou o ar onde eu estava antes. Recuperei o equilíbrio com uma cambalhota, vendo-me diretamente às costas dele.
Posicionei minha esfera de éter contra seu rosto no momento que ele se voltou para mim.
Disparei.
Senti um forte recuo em meu braço, mas o som foi apenas um assovio de vento. O Guardião Sinistro explodiu em nanquim quando o mana preto que o compunha foi violentamente expulso.
Quando a fumaça se dissipou, eu vi uma estátua de vidro no formato do guerreiro. Eu sabia que aquilo era éter, que manteve a forma mesmo após a mana que lhe dava vida se esvair.
Com algum esforço, consegui separar a espada cristalina do resto da escultura. Uma espada de vidro já é melhor do que espada alguma.
Ouvi um som que era a mistura entre um grito e um balido, olhei na direção e vi que o meu Iconoclasta estava arrancando o coração do Festeiro Ressurgido. Aquele sátiro poderia ser um zumbi, mas eu aposto que aquilo doeu.
Senti minha confiança se renovar. Girei a espada na mão com uma destreza que eu sabia que possuía.
— Acabou? — Alfinetei, erguendo a sobrancelha e imitando sua expressão presunçosa.
Ela riu de forma amarela. — Quer que eu vá com tudo?
— Você não estava vindo com tudo?
— Eu poderia ter te matado faz tempo, menino. — Ela sentenciou. — Você só vive agora porque eu quis assim.
Ela não estava se gabando. Ela possuía o Martelo de Púrforo no campo, além das Lâmpades Medonhas, que agora cochilavam enquanto os querubins do Pacifismo giravam ao redor de suas cabeças. Ela realmente poderia ter acabado comigo faz tempo.
— E por que você me poupou? — Indaguei, sentindo meu ânimo murchar.
Ela fechou os olhos e suspirou como se fosse uma longa história. — Porque parecia a coisa errada a se fazer.
Na hora, eu não entendi. — Como assim?
— Você vai entender, eventualmente. — Ela abanou a mão, afastando o assunto. — É a sua vez.
Testei o peso da minha espada, pensando em algo para fazer. Eu possuía uma mágica em minha mão, mas não possuía o mana para invocá-la. No campo de batalha, estávamos apenas eu e o Iconoclasta Leonino, nem de longe o poderio necessário para ganhar aquela luta.
“É necessário um diamante para cortar outro.” Eu pensei, sem fazer a mínima ideia do porque havia pensado aquilo. Era a semente de uma ideia brotando em minha mente.
Um sussurro do Maelstrom.
— Vai fazer algo? — Ela perguntou impaciente. — Ou eu posso ir?
— Posso te pedir algo? — Respondi com outra pergunta.
Ela ergueu a sobrancelha, séria. — O que?
— Me dê mais um turno, só mais um, e depois, você pode me destruir.
Ela pareceu se surpreender, e após alguns segundos, acabou dizendo. — Sim, farei isso.
Assenti para ela, demonstrando gratidão. — Muito obrigado...
— Ishka. — Ela disse. — Meu nome é Ishka.
— Muito obrigado, Ishka. — Gesticulei para ela, como se a entregasse algo. — Sua vez.
Ela assentiu. — Não pense que eu vou deixar minha guarda aberta para você, menino. Sou benevolente, mas não sou estúpida. — Ishka assoviou e, vindas de todos os lados, dezenas e dezenas de criaturas inundaram o vale. Todas me olhavam de forma ameaçadora, sedentas pela minha destruição. Aquilo era um reflexo da planeswalker, que, por motivos que eu não compreendia, dava-me tantas chances.
Aquela, entretanto, era a última.
— Sua vez. — Ela disse com a voz pesada.
Era agora ou nunca.
Com minha espada etérea, eu golpeei o ar a minha frente, criando uma rachadura azul e luminosa no espaço.
Ishka arranjou uma forma de erguer mais as sobrancelhas, dessa vez, com surpresa. — O que você está fazendo?
Eu golpeei novamente, fazendo com que a rachadura aumentasse. — Quebrando as regras.
No terceiro golpe, eu enfiei minha espada da fresta estreita. — Preciso ser único, certo? — Segurei o cabo com as duas mãos e fiz força para torcer. — Duvido que alguém tenha feito isso.
Com um solavanco, a espada girou feito uma chave e o som de vidro se estilhaçando se propagou de maneira poderosa pelo vale. Todos ali, planeswalkers e criaturas, sufocaram uma respiração ao verem uma infinidade de rachaduras se espalharem no ar como raízes. Como se uma muralha de vidro invisível estivesse se partindo.
— O que você fez? — Ela perguntou, com uma discreta nota de pânico na voz.
Eu removi a espada quebrada da rachadura luminosa e lancei-a para trás com desinteresse, estendendo a mão. — Eu abri uma porta que nunca existiu. — Quando introduzi minha mão naquele vão, o mundo mudou. O meu mundo, e todos os mundos.
Pois ali estava o Éter.
“O Éter?” Você deve estar se perguntando. “Mas você já não tinha tocado o Éter?”. A resposta é sim e não.
Veja bem, eu gosto de dividir o éter em dois tipos: Menor e maior.
O menor é como se fosse um copo d’água, simples. O maior, entretanto, é um oceano.
Qual a diferença? Um oceano não é apenas água, de forma alguma. É tudo aquilo que nele habita, e tudo aquilo que ele significa. Ou seja, é muito mais do que água.
Até aquele momento, eu nunca tive mais do que copos.
Mas agora, eu possuía um oceano.
Removi a mão e aquela barreira desabou como uma grande vidraça, desfazendo-se em uma infinidade de cacos transparentes que desabaram sob o chão ruidosamente. Apanhei um grande estilhaço que, diferente dos outros, era azulado. No formato de um triângulo escaleno, possuía cerca de um metro e meio de comprimento, uma polegada de espessura e arestas violentamente afiadas. Aquele era um estilhaço do éter maior, ou seja, era uma chave mestra e uma arma em potencial.
Eu não tinha que lançar o mana ao éter, agora eu podia trazer o éter ao mana, o que reduzia a quantidade de mana necessária de forma significativa.
Segurei da melhor forma que pude, mas acabei que cortando mesmo assim. Fios de sangue escorreram pela lâmina, contrastando com a superfície azul.
Voltei minha lâmina para Ishka, era agora ou nunca.
Com o Estilhaço, talhei o éter e moldei-o com apenas um mana em uma mágica de aura para o leonino, o Manto Espiritual. Uma chama azul o engolfou, dando-lhe uma aparência mística. E, para mim, conjurei a Cospe-Fogo, uma pequena clava de metal com o formato de uma boca furiosa.
Era isso, eu precisava finalizar aquilo naquele momento.
Acenei para o Leonino e ele investiu em um borrão de velocidade, afastando todas as criaturas inimigas de seu caminho com o Manto espiritual. Ao chegar aos pés do Ciclope, ele saltou e o escalou velozmente com as garras e, de maneira inacreditavelmente rápida, retalhou sua garganta.
O ser titânico desabou e Ishka saltou de seus ombros, planando leve como uma pena, mas meu fiel Leonino saltou atrás dela e a agarrou, arrastando-a consigo até o chão. Ambos caíram desajeitadamente no solo. O Iconoclasta conseguiu atingi-la com as garras afiadas que, caso ela não estivesse protegida por sua Vida (tentem puxar na memória.) teria sido violentamente dilacerada.
Quando Ishka conseguiu se afastar, um vórtice de fogo engoliu meu único soldado, desfazendo-o em cinzas de éter.
Já havia valido a pena, entretanto.
Era a minha vez. Apertei o Estilhaço do Éter com firmeza e avancei.
Ishka se recompôs rapidamente e ordenou que aquele mar de monstros impedisse meu avanço. Todos aqueles seres se precipitaram em minha direção, um verdadeiro exército.
Cortei a garganta de um minotauro que era o primeiro da fila. O mana negro dele fugiu em uma nuvem negra, deixando apenas uma estátua de vidro em seu lugar.
Uma lâmia saltou em minha direção, mas eu consegui bailar para o lado e abrir seu ventre com minha lâmina, ela se estilhaçou ao cair no chão. Em seguida, um sátiro munido de machadinhas investiu, mas eu me abaixei e girei, praticamente cortando-o ao meio.
Essa dança frenética continuou por muito tempo. Eles se aproximavam, mas um talho de minha lâmina os transformava em vidro.
Passado muito tempo, eu desalojei o estilhaço da carcaça de uma quimera com cabeça de tubarão, destruindo a escultura, no processo. Quando percebi, estávamos eu e Ishka, parados em uma galeria de estatuetas de cristal.
— Quem diria. — Disse a ela, que era indescritivelmente mais bela de perto. Eu notei que as tatuagens em seu rosto não eram de henna, era sua própria pele.
Não sei como, mas aquilo a deixou ainda mais bonita.
Ela sorriu. — Quem diria.
Girei o Cospe-Fogo em minha mão. — Posso?
Ela assentiu. Eu golpeei seu rosto com a pequena clava, mas ela mal se moveu.
Tenho a impressão que aquilo doeu mais em mim do que nela.
— Desculpe. — Sim, eu sou um cara ridículo.
— Não faz mal. — Ela apaziguou. — Foi um belo show, mas creio que você perdeu mesmo assim. No próximo turno, criarei outro exército e cairei sobre você sem piedade. — Disse sem alterar o tom. — Já lhe dei chances demais, não acha?
— Acho. — Concordei, abrindo outra fenda no éter. — Mas eu ainda tenho uma carta na manga.
— O quê?! — Agora seu tom alterou.
— Sinto muito, Ishka. — Moldei o éter. — Distorção Temporal. — Proferi.
E, eu tinha mais um turno.
— Me desculpe. — Golpeei-a com o Estilhaço do Éter, reduzindo sua Vida, e, com o Cospe-Fogo, atingi seu estômago, ultrapassando sua defesa e machucando-a de verdade.
O duelo havia acabado.
Eu a segurei antes que caísse. Ela engasgou com o próprio sangue e cuspiu, manchando-nos.
Olhei para seu rosto e vi que lágrimas brotavam.
E, naquele instante, eu me senti a pior pessoa do Multiverso.
Quando sua expressão de dor amenizou, ela sorriu para mim, com um fio de sangue escorrendo dos cantos de sua boca.
— Obrigado. — Ela agradeceu.
—Pelo que?
— Por me ajudar a desafiá-lo. — Ela explicou. — O Multiverso não possui mais poder sobre mim.
E, a partir daquele instante, eu não possuo mais memórias do que aconteceu. O que vou contar agora são relatos da própria Ishka.
Eu a empurrei, derrubando-a e tentei esmagar sua cabeça com minha clava. Ela conseguiu rolar para o lado e eu abri um buraco no chão.
Ela levantou e se afastou com um salto, desviando de um ataque desferido com meu estilhaço que abriu um rasgo no tecido do éter. Eu espalmei a mão na frente da abertura e, segundo ela, um milhão de fantasmas e criaturas surgiram, investindo sobre ela. Mas, por sorte, ela conseguiu conjurar o Decreto de Érebo, destruindo todas.
Eu a encarei, com uma expressão neutra e desprovida de qualquer emoção. Ela sabia que eu iria matá-la, então, ela transplanou.
— Adeus, Estilhaçado. — Ela disse antes de saltar para outra existência.
Quando dei por mim, ela havia sumido. Eu não lembrava de nada do que havia acontecido, absolutamente nada.
Suspirei triste.
Ela me devia um beijo, no final das contas.
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