Notas iniciais
Hello again, fellas, aqui vai um capítulo mais direto de história,pra encerrar o arco de Theros. Diferente dos outros, esse aqui não vai ter nenhuma carta nem ada do tipo, então podem ficar sossegados e só lerem enjoy

Ishka não foi minha única tragédia.

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Passei a mão por meus cabelos, afastando as madeixas suadas da minha testa. Suspirei de novo e soltei a clava em minha mão, desconjurando-a. Larguei o Estilhaço do Éter na relva e deixei-me cair, sentindo o orvalho em minhas costas.

Respirei fundo, de novo, e de novo, e mais uma vez. Eu havia vencido, mas não me sentia como um vencedor. Algo faltava, imaginei que fosse Ishka, fitando-me com seus olhos de rubi enquanto o suor escorria por sua pele desenhada e olivada. A pele dela era linda, era verde e castanha, como uma azeitona, como alguém consegue ser verde igual uma azeitona e continuar sendo linda feito a perdição. E aquele cabelo, raios, a mulher era um delírio!

Cobri os olhos e gritei, arranhando um som do fundo de minha garganta. Virei-me de bruços e esmurrei o chão. Me contorci, eu deveria tê-la matado, estraçalhado-a, deveria tê-la destruído!

Com um grunhido não humano, me lancei até o Estilhaço para ter algo com o que matá-la. No momento que toquei a superfície fria, raiada de sangue, meu sangue, aquele ímpeto sumiu. Eu sentia falta dela, apenas isso.

Eu conseguia ver seu olhar ali, vitrificado nos padrões escarlates. O meu sangue fluía naquela espada, literalmente. Canais corriam abaixo da superfície cristalina, veias, artérias e capilares, todos convergindo no centro do cristal, onde um pequeno triângulo (uma miniatura precisa da lâmina) pulsava como um coração, imbuindo o vidro de magia

Fitei meu reflexo na superfície do éter, fragmentado pelos caminhos vermelhos que rachavam minha imagem. Meu cabelo negro estava lambido para trás e meu rosto estava sujo de fuligem. Meus olhos brilhavam levemente em azul, mas eu não me lembrava deles serem azuis pra começo de conversa.

Tentei lembrar meu nome, mas a única coisa que me vinha era “Estilhaçado”, soando com a voz de Ishka. Estilhaçado, Estilhaçado, Estilhaçado, Estilhaçado Estilhaçado estilhaçado estilhaçado estil estilace stilace.

Stilace, acho que era o mais próximo de um nome que eu chegaria.

Me recompus. Fiquei ereto e fiz um pouco de água nas mãos, com a qual limpei o rosto. Recolhi o Estilhaço e rumei para Theìas, esperando receber um pouco de reconhecimento.

Quem diria? Fui recebido como um herói! Coroa de louros e tudo. Recebi abraços e beijaram minhas mãos. Disseram que eu poderia ter tudo aquilo que quisesse, mas eu me contentei com a proposta de um ferreiro que insistiu em fazer um cabo e uma bainha para meu “pedaço grande e incomodo de vidro azul, já que bons guerreiros fazem questão de colocar um cabo entre sua mão e sua lâmina.”.

Aceitei mais pela lógica do que pela necessidade.

Aquilo iria me segurar na cidade por mais algum tempo, então decidi procurar um lugar para passar a noite. Achar um lugar foi difícil, mas não pelas maneiras óbvias. Eu estava procurando um quarto com uma cama macia e com uma janela para que o ar circulasse, mas todos na cidades estavam me oferecendo seus lares e suas camas, alguns incluíam as próprias esposas na barganha.

Quando escureceu, consegui encontrar um pequeno albergue. O albergueiro me garantiu refeições boas e frescas enquanto eu estivesse ali, tudo absolutamente de graça. O único problema era que, caso eu não aceitasse a companhia das atendentes durante a noite, estava tudo desfeito.

Pessoas de Theros negociam de forma estranha. Caso você não aceite dormir com três lindas mulheres, nada feito.

Para qualquer outra pessoa no multiverso, dormir com três jovens lindas na mesma cama não pareceria um negócio tão ruim, mas para mim era.

Eu só me interesso sexualmente por pessoas as quais eu tenho algum tipo de relacionamento. No meu plano, o termo correto para isso era demissexualidade, mas não ne levavam a sério e lá, e não me levam a sério em lugar algum do multiverso.

Lembro-me do dia que conversei com Ishka sobre isso. A cara dela foi simplesmente impagável.

Mas isso é uma outra história para outra ocasião.

Eu deixei bem claro para as três que não pretendia nada com nenhuma delas. Eu só queria dormir e picar a mula quando minha espada ficasse pronta.

Elas concordaram, não fazendo a mínima questão de esconderem a estranheza, o que eu achei falta de profissionalismo. A cama ara grande o bastante para nós quatro, e isso que importava para mim.

Eu estava encardido, então pedi para que trouxessem água para que me banhasse na grande tina de madeira, deixada lá para este mesmo propósito. Elas foram rápidas e, em questão de minutos, jarros de água quente já estavam me aguardando. Arranquei minhas roupas imundas, ignorando as três, que não se incomodaram em me dar privacidade, minha camiseta branca estava irrecuperavelmente encardida juntamente com a minha calça, minhas meias e meus tênis.

Suspirei, aquela roupa não estava mais em condições de ser chamada de "roupa". Eu precisava de um conjunto novo o quanto antes. Pedi para que me arranjassem algo para vestir quando saísse do banho: Calças, uma túnica, botas, e uma algibeira para carregar meus pertences.

Que meninas prestativas. Despudoradas, mas prestativas.

Entrei na tina e elas despejaram a água sem que eu pedisse, derramando alguns óleos aromáticos e espumantes. Uma delas começou a esfregar minhas costas com uma esponja. Era bem agradável e bem relaxante, aquela situação, apesar da água estar muito quente para o meu gosto. Me concentrei um pouco e senti a temperatura abaixando gradativamente, vantagens de ser um mago.

Decidi cochilar enquanto uma delas me esfregava o cabelo. Quando acordei, não estava sozinho na banheira, muito pelo contrário, as três estavam lá dentro, escandalosamente nuas e muito à vontade. Quando viram que eu havia acordado, sorriram muito sugestivamente e se aproximaram.

Com um susto, senti a mão de uma delas se fechar em algo que eu definitivamente não queria que fosse tocado.

— Não. — Consegui dizer sem virar um tabefe no rosto daquela atrevida. Ela me soltou de pronto e, sorrindo como se entendesse, respirou fundo e submergiu. Consegui agarrá-la e puxá-la para fora da água com a boca aberta.

— Não entendo. — Ela disse. — Por acaso só se contentaria com a nossa purez...

— Não! — Cortei. — Eu agradeço o esforço das três, e agradeço a ajuda e o quanto são prestativas, de coração! Mas eu não tenho interesse na pureza de nenhuma de vocês. Não que vocês não sejam bonitas, vocês são lindas.

Depois daquilo o clima ficou meio estranho, como era de se esperar. Tentei amenizar a tensão ali. Me apresentei, Stilace, e perguntei os nomes delas (Ágata, Helena e Melissa), suas idades (quinze, dezesseis e dezoito), seus sonhos (ser uma heroína, ser uma planinauta e cultivar um pomar), conversamos de forma mais solta após isso. Eu descobri que as três eram irmãs, filhas do estalajadeiro .

Elas perguntaram de onde eu vim, de um plano muito jovem conhecido como Terra; quantos anos eu tinha, vinte; e, por fim, perguntaram como eu havia derrotado os invasores do vale, ou seja, Ishka.

Eu contei a história, mas optei por ocultar a identidade de Ishka, disse que eram apenas monstros saqueadores. Elas engoliram, sem problemas.

Passado um tempo, saímos da tina e nos secamos. Só havia uma toalha, então eu fiquei com ela e sequei as meninas com uma rajada de vento morno. Segundo os costumes, dormimos nus, sendo que elas estavam todas amontoadinhas e bonitinhas em um extremo da cama e eu estava em outro. Perfeito.

Fiquei em Theías por seis meses. Nesses meses, me tornei conhecido da população como uma espécie de enviado dos deuses, mandado ali para protegê-los. Fiquei amigo do padeiro, do azeiteiro, do ferreiro, dos fazendeiros, das donas de casa, dos mercadores, de todo mundo, inclusive do fazendeiro loiro de antes, Tales.

Eu nunca comi um assado de cordeiro melhor do que o da mulher do Tales.

Nesses meses, desenvolvi um relacionamento muito especial com Ágata, Helena e Melissa. Principalmente com Helena.

Acho que esqueci de descrevê-las. Todas eram bastante parecidas, altas, magras, cabelos pretos e lisos, poderiam se passar pela mesma pessoa caso quisessem, mas não queriam. Só era possível diferenciá-las pelos penteados e pela forma de agir.

Ágata usava o cabelo trançado e enrolado na cabeça como uma guirlanda e, quando não estava ajudando na estalagem, estava brincando com gravetos, usando-os como espadas, sempre de joelhos esfolados e mãos calejadas, a menina tinha fibra e batia bem forte.

Melissa, a prática (e atrevida), usava um rabo de cavalo simples e sempre podia ser vista coletando frutos ou simplesmente admirando as árvores. Um dia, eu preparei uma guirlanda de flores para ela, simplesmente porque achei que ela fosse gostar. Ela entendeu como se eu estivesse a convidando para uma banheira. Ela era muito prática.

E, por fim, Helena estava sempre com os cabelos soltos. Sempre lendo e sempre no mundo da lua, muito quieta e guardada, eu não pude deixar de simpatizar profundamente com a menina. Ela gostava de sentar comigo e não dizer nada, só ficar me olhando, como se eu fosse um quebra-cabeça que se resolve sem tocar.

Ah, Helena. Que peça.

Um dia, entretanto, eu tive de partir. O Multiverso me chamava para outro lugar.

Minha despedida se deu como uma celebração. Todos festejaram minha estadia e me abençoaram em nome de todos os deuses. Deram-me honras, roupas, armas, suprimentos, mais e mais, mais do que eu poderia carregar mesmo com mágica.

Comigo, eu levei uma capa com capuz, branca como gesso e leve como ar; um par de grandes botas de couro; minha espada, agora com um cabo feito em prata com uma guarda de punho, guardada em um resistente boldrié de couro reforçado com aço (senão, a lâmina cortaria o boldrié ao ser desembainhada) preso aos meus ombros por uma ombreira armadurada; um belíssimo punhal, mais afiado que a minha língua; e todo o ouro que minhas algibeiras podiam carregar, além de suprimentos e um pequeno saco para carregar as coisas que meus bolsos não conseguiam.

A única coisa que faltava para que eu fosse embora era me despedir de minhas queridinhas.

Para Ágata, dei uma espada. Reta, estreita e longa como ela. Ela pulou em meu pescoço com um abraço para retribuir.

Para Melissa, dei uma semente imbuída com todo o mana verde que eu consegui reunir naqueles seis meses. Ela levantou de novo a questão da banheira. Um dia, Melissa faria um homem de muita sorte muito feliz.

E, para Helena, dei algo muito especial. Um pingente de éter com as cinco cores de mana girando lá dentro, mana primordial que eu consegui depois de procurar muito. Foi uma obra-prima, lindo, lindo, parabéns pra mim. Ela baixou o olhar quando recebeu o presente, então eu a abracei e disse em tom de segredo.

— Você pode ter uma centelha aí dentro. — Apontei para seu peito. — Nunca se sabe.

Ela assentiu e perguntou com os olhos marejados. — Você volta?

— Pode apostar! — Baguncei seu cabelo. — Tchau, Helena.

Soltei-a e dei as costas para a Theías, era minha hora.

Eu abri um portal, um vórtice de energia azul que me jogaria em outro plano.

Antes de entrar, olhei por cima do ombro e sorri para minhas meninas antes de saltar para o que quer que meu destino guardasse para mim.

Theías foi calma, pacífica e boa comigo. Eu costumava voltar para lá de tempos em tempos para descansar, ver as meninas crescerem ou simplesmente para ter algum lugar para ir. Eu vi Ágata virando soldado e, depois, oficial em Ácros; vi Melissa se casando à sombra de sua majestosa árvore, sempre carregada com todos os tipos de frutos.

Nunca mais vi Helena, entretanto.

Ela desapareceu pouco tempo após minha partida, fugindo durante a noite como a menina boba que era. Deve ter saltado de um penhasco para acender sua centelha e deve ter se espatifado contra as rochas.

Menina estúpida.

Eu sinto falta de Theías, mas não tenho coragem de por os pés lá de novo, não depois da última vez. Não depois da caçada.

Não depois da Planeschase.

Eu estou me adiantando, a caçada é outra história e deverá ser contada em outra ocasião.

...

Me desculpem, meninas. Eu sinto muito.

Ágata, Melissa e Helena.

Oh, Helena.

...

Ela era minha menina estúpida.

...

...

...

Digressões à parte, Theías foi o céu para mim, mas agora, adivinhem aonde eu ia?

Exatamente.

À Ravnica, a Cidade das Guildas.

À Ravnica, meu inferno.

Notas finais
Que mania ruim a minha de terminar meus capítulos em um clima pesado, não? Mas e aí? Gostaram? Estão ansiosos para Ravnica? Eu sei que eu estou. até breve