Magic the Gathering: Tales of the Ætherbreaker
13 Até o purgatório deve ser bonito quando visto das costas de um grifo
O que as estrelas fazem quando apagam? Essa é uma pergunta a qual ninguém quer estar perto da resposta.
———————————————————————————————————————— Pense. — Um vento frio soprou entre minhas mãos. — No quê? — Esse vento começou a espiralar preguiçosamente, de forma quase viscosa. — No nada. — O éter em minhas mãos se tornou mais denso, mais concentrado. — Em nada? — Uma gota de mana azul de tonalidade pálida começou a tingir o éter, era a dúvida germinando. — Não, no nada. — O mana foi expulso e minha esfera se tornou virgem de novo. — Mas quando se pensa no nada, ele não vira algo? — O azul da dúvida retornou. — Pense neste algo, o que ele é? — A esfera se tornou mais densa, novamente.— Nada? — Respondi a mim mesmo, a dúvida aumentou na esfera, se tornando confusão. — Não, ele se tornou algo. Algo originado do nada. — A confusão congelou, parando seu desenvolvimento. — E o que seria esse algo? — Agora, a confusão retrocedia, voltando a ser dúvida e chegando até a se minimizar em hesitação. — A inexistência. — O exterior da esfera endureceu em uma fina camada de vidro que manteria sentimentos mais sutis para fora. Como pode a inexistência existir? — Dessa vez, a dúvida não chegou a entrar, e a hesitação desapareceu. — A inexistência é a existência de si mesma, logo, a inexistência da existência. — A camada rígida ao redor da esfera começou a engrossar. — Stilace Levei um susto. O azul e preto do susto conseguiram invadir a esfera juntamente com uma gota vermelha de raiva. Respirei fundo e uma partícula branca de tranquilidade entrou também. A esfera havia sido muito maculada, e os sentimentos dentro dela eram muito confusos para se tornarem em algo de fato, era apenas mana errante e pouco concentrado. Apertei a esfera em minha mão e a destruí, frustrado. Lancei o mana remanescente para o lado, que voou como quatro finas colunas de fumaça, cada uma de uma cor. — Te interrompi? — A voz feminina perguntou um tanto petulante, tentando mascarar a diversão. — Sim, Lavinia. — Respondi irritado, minha cadeira estava de costas para ela. — Você podia ter batido. Eu ouvi os passos firmes dela se aproximando. — Eu bati. — Ela chegou do meu lado e pousou a mão em meu ombro, estava quente e úmida. — Mas duvido que você tenha ouvido, pois estava falando sozinho em alto e bom som. Suspirei e olhei para ela. Seu cabelo estava comprido cacheado, ela não via mais necessidade de cortar ele pois não saia mais de Prahv, além do mais, ajudava a proteger do frio; o trabalho integralmente interno fez com que sua tez se tornasse pálida, mas ainda saudável. Ela vestia um roupão, ou seja, havia acabado de sair do banho. — O que você quer? — Perguntei, olhando em seus olhos castanhos. As olheiras os sulcavam profundamente. — Um grupo de elfos está mantendo dezenas de civis cativos. — Ela foi direto ao ponto, algo que eu gostava muito nela. — Estão em Bosquetorre. — Bosquetorre? — Bosquetorre era uma torre colossal dos tempos remotos, utilizada pela guilda Simic como habitat para suas criações. Tendo cerca de cinco quilômetros quadrados por dois e meio de altura, a construção era uma das maiores de Ravnica. — São Selesnya? — Perguntei. A trilha de Lhamiz havia esfriado fazia tempo, aquilo poderia ser algo que nos colocaria de volta em seu encalço. — Não sabemos ao certo, o pedido de socorro veio da torre à poucos minutos. — Ela disse. — Vista-se, você parte com a cavalaria grifina em cinco minutos. — Você vai? — Indaguei, apesar de desconfiar da resposta. — Tenho muitos documentos para assinar e muitas pessoas para serem ouvidas. — Ela respondeu, sem tentar esconder a decepção de mim. Ela sentia falta de participar da ação. — Parece que uma tribo de amoques está descendo as montanhas e saqueando alguns vilarejos próximos, preciso ouvir representantes de ambos os lados antes de dar o veredito. Cobri sua mão com a minha, confortando-a.— É melhor você ir. — Ela disse, afastando-se do meu toque. — Porque você sempre recua? — Sempre que tínhamos contato físico, por menor que fosse, ela se afastava. — É difícil de explicar. — Ela começou. — É como gelo quente. — Gelo quente? — Sorri de leve. — Nem parece aquela mulher fria que me recepcionou com uma bela surra. — Não seja estúpido. — Ela reprimiu, esfregando o punho. Estava calejado de tanto escrever. — Vista sua armadura, pegue sua espada e penteie seu cabelo. — Tudo bem, mãe. — Respondi infantil. Em um show de luzes discreto, minha armadura e manto surgiram em mim, perfeitamente ajustados. Uma das primeiras magias que um bom mago aprende é a de se vestir (ou despir) rapidamente, extremamente útil. — Feliz? Estiquei a mão esquerda e o Estilhaço do Éter voou do canto do aposento para minha mão, pois eu tinha preguiça demais para deixá-lo em um raque, ou algo do tipo. Guardei-o no boldrié com um movimento rápido, percebendo que ele estava se tornando cada vez mais translúcido e perdendo o tom azulado de outrora.
— Use meu teleportal, — Lavinia sugeriu. — Eu o ajustei para levá-lo até Sverd. — Obrigado. — Agradeci, checando se as partes da minha couraça estavam bem apertadas. — A Anya vai estar lá? — Sim. Creio que vocês, leitores, vão ficar felizes de saber que o meu relacionamento com Anya não havia melhorado nos cinco meses que haviam se passado. — Mal posso esperar. Lavinia sorriu discretamente. — Aposto que ela também não. — Ela pigarreou e assumiu ar de seriedade. — Vocês irão junto com a cavalaria grifina até o portão guilda dos Simic no litoral sul. Lá, irão se reunir com uma unidade dos locais, eles irão guiá-los até Bosquetorre. Corri os dedos pelo meu cabelo, soltando os nós. — Eles vão nos levar lá e, daí, estaremos por conta? — Perguntei. Ela negou com a cabeça. — Bosquetorre é um laboratório enorme, é verdade, mas também guarda inúmeros perigos e quilômetros de mata fechada em seu interior. — Ela fez uma pausa. — Os simic irão proteger nossas unidades e assegurar que nenhum de seus espécimes foram feridos ou mortos. Além disso, servirão de suporte caso reforços sejam necessários. Assenti. — Algo mais? — Não se assuste com eles. — Com os elfos? — Franzi o cenho. — Orelhas puxadas não são exatamente assustadoras. — Não apenas com os elfos. — Ela corrigiu. — Você vai ver.Rodei os ombros. — Vou manter isso em mente. — Rumei na direção da saída do escritório. Quando passei por ela, Lavinia segurou meu pulso. Voltei o olhar para ela, percebendo a diferença de tamanho entre nós dois. Após alguns instantes, ela soltou. — Vá. — Disse seca, sem olhar para mim. Abri a boca para dizer algo, mas acabei optando pelo silêncio. Atravessei a soleira da porta e cheguei ao quarto de Lavinia. Sempre achei curioso o fato de Lavinia ter me cedido os aposentos de Jace Beleren espontaneamente, e também achei deveras conveniente a ligação entre esse e o quarto dela. Eu era jovem, possessivo, orgulhoso, arrogante e com uma imaginação fértil, ou seja, não precisei de muito tempo para tirar minhas conclusões. Entrei no teleportal e saí num recinto quadrado, tratava-se de um salão de portais, algo como um terminal repleto de pessoas que entravam e saíam a passo rápido sem se esbarrarem nenhuma vez. Apressei o passo e saí do terminal através das enorme porta arqueada. Da enorme escadaria do salão de portais, era possível ver uma ampla extensão do distrito de Sverd. Uma larga avenida, diretamente à minha frente, estendia-se por vários quilômetros em linha reta, alcançando a cidade universitária de Lvet que abrigava, por sua vez, o grande fórum de Nova Prahv, coração do Senado Azorius. Os transeuntes eram muitos, tanto de cavaleiros, hussardos e magos-legistas quanto de mercadores, ferreiros, curtumeiros e civis em geral. Tal movimento era comum em toda Prahv, entretanto, a peculiaridade de Sverd era que as operações relacionadas com voo e criaturas aéreas eram situadas lá, logo, não era incomum ver um pequeno bando de grifos e hipogrifos sendo guiado pelas ruas, agrupados ou à granel. Desci as escadas, desviando daqueles que subiam, e cheguei ao pavimento de paralelepípedos. Olhei para frente e vi uma espécie de bondinho feito de madeira e metal brancos, à cerca de dez metros de mim, que seguia pela avenida principal. Eu corri até o veículo e, com um, pequeno salto, alcancei uma das barras traseiras e me segurei lá, realizando um pequeno trecho de meu caminho sem esforço. Ao longo do percurso, conforme pessoas subiam e desciam do vagão, eu lembrava de meu plano natal. Não era tão diferente assim, apesar de tudo. Soltei a barra e pulei para o chão, fazendo o resto de meu trajeto a pé. Meu objetivo era a torre alta e cilíndrica chamada Poleiro de Orn, um edifício largo e alto com amplas varandas de todos os lados para a entrada e saída de criaturas aladas. Quando me aproximei da entrada, os guardas me reconheceram e me convidaram para entrar, dizendo-me que eu era aguardado no último andar.O piso térreo do Poleiro de Orn era um grande salão circular, suas paredes eram cheias de gavetas e estantes, como um grande arquivo. Homens uniformizados corriam com documentos em suas mãos, levando-os para quem os solicitara ou para uma mesa para serem redigidos. A passos lentos, cheguei no elevador, um grande disco de mármore no centro do salão com um círculo de vidro azul no meio, brilhando de forma fraca. Pisei dentro e, alguns segundos depois, comecei a subir lentamente, sentindo a temperatura baixar gradativamente. Eu contei quinze andares em minha subida, sendo que os três primeiros estavam relacionados com trabalho administrativo; em seguida, um andar responsável pelos pombos-correios onde os recebia, catalogava as cartas e às enviava para os níveis inferiores, além de cuidar do abrigo e do despacho dos pássaros. Os próximos três andares eram alas médicas adaptadas para o atendimento, tanto dos cavaleiros quanto das montarias. Na sequência, quatro níveis para o trato das criaturas e, por fim, os três últimos eram áreas de pouso e aterrisagem. Conforme eu me aproximava do topo, sentia a temperatura cair e o vento aumentar até que, enfim, cheguei. Olhei para cima e vi apenas o céu sangrento do pôr-do-sol de Prahv, uma pincelada de aquarela desleixada sobre nossas cabeças com apenas duas funções: iluminar, aquecer. Lamentei por meu manto leve quando percebi quão miseravelmente o sol havia falhado em sua segunda função. O grupo que me esperava era bem distinto. Quatro guardas azorius, Anya e sete pessoas que eu nunca havia visto, sendo que quatro dessas eram humanos. Um homem com cerca de trinta anos vestindo um robe púrpura sem muitos adornos com diversas algibeiras e bolsas na cintura e um colar adornando o pescoço, cabelos claros e um belo cavanhaque. O olhar transmitia uma fagulha de ferocidade, mas o semblante era calmo e contido. Uma mulher alta e magra com faixas de couro envelhecido envolviam os braços até os ombros e, então, desciam, cruzando-se algumas vezes no tronco para, por fim, subirem, recruzando-se no peito e enrolando o pescoço e a boca, mas deixando a outra metade do rosto livre. As faixas não pareciam atrapalhar seus movimentos. Seu nariz era levemente arrebitado e seus olhos eram profundamente dourados, os cabelos azuis que chegavam na altura dos ombros eram ondulados e possuíam as pontas e esbranquiçadas. Por fim, a pele era parda como pergaminho envelhecido, mas ela não aparentava mais de vinte anos. Não posso deixar de citar a espada desconfortavelmente grande e de aparência pesada, totalmente envolta nas faixas de couro, presa nas costas da jovem.A outra mulher era alta, negra e robusta, com ombros largos e musculosa. A camisa simples e campônia revelava os braços fortes e cheios de tatuagens intrincadas que os cobriam dos ombros até as mãos. Na cintura, trazia uma bolsa em formato de estômago e uma espada curta e cheia de ranhuras estranhas.E, por fim, um jovem de pele clara com uma venda e com os cabelos muito vermelhos presos em tranças grossas com uma fita. Ele vestia uma túnica com um padrão de desenhos hexagonais também vermelhos, que terminava em um saiote aberto na frente, com uma calça simples e branca por baixo. Não parecia visivelmente armado e aparentava ser um dos mais jovens ali, tendo a minha idade no máximo.Agora, os não humanos. Duas mulheres e um homem com a pele verde grama, orelhas pontudas, narizes pequenos e aduncos, olhos totalmente negros e cabelos crespos e ruivos. Todos os três estavam cobertos com uma espécie de xale com aspecto de membrana, um tecido peculiar e semitransparente que começava nos ombros e cobria a parte superior do corpo, terminando em pontas desiguais, onde era possível ver as terminações de esporões, aparentemente ósseos. Sem dúvida, era o grupo mais esquisito que eu havia visto até o momento.— Em suma. — O elfo continuou. — Minimizar as perdas à qualquer custo. Sei que vocês dispensam instrução quando o assunto é combate não letal. — De fato. — Anya concordou. — O procedimento será padrão para operações relacionadas a resgate de reféns. — Perfeito. — O elfo disse. Seu tom era totalmente desprovido de emoção. — Em acréscimo, peço que tentem danificar os captores o mínimo possível. Anya ergueu a sobrancelha, confusa. — Perdão? — O alto escalão da Assembleia compreende que a sobrevivência dos reféns é importante. — Uma das elfas explicou. — Todavia, pede encarecidamente que a integridade dos captores seja mantida o tanto quanto possível, mesmo que isso resulte na morte de alguns dos cativos.
A Justiçar franziu o cenho. — O Senado, todavia, declara que a segurança dos civis compõe prioridade máxima. — Anya era dotada de petulância e autoridade, duas coisas que combinam muito. — E essa declaração não é negociável em hipótese alguma. Os três elfos se curvaram, assentindo. — A Assembleia compreende, Srta. Lhytovaris. Contudo, pedimos que compreenda que a Assembleia está disposta à transferir cinquenta milhões de zinos para a vossa conta no banco de Vizkopa e dez milhões para a conta de cada soldado azorius envolvido por cada captor mantido vivo e deixado aos nossos cuidados. Eu estava sensível às emoções alheias, e com isso, eu podia sentir que Anya estava ultrajada até o mais profundo patamar. Sem responder à oferta, ela se dirigiu até seu grifo totalmente branco e o montou com agilidade. — Você. — Ela apontou para mim enquanto ajeitava os arreios. — Comigo. — Apontou com o polegar para a garupa em sua sela. Olhei para ela descrente, mas acatei, subindo no animal com certa dificuldade. O grifo se incomodou com a forma que eu puxei suas penas, emitindo um piado baixo. Anya não esperou pelos outros, esporeando seu grifo e fazendo-o saltar. Instintivamente, agarrei a cintura dela. — Você pode me agarrar sem problemas. — Ela disse sarcástica quando o grifo arremeteu pra cima. — Mas não precisa gritar no meu ouvido. Não havia percebido que estava gritando, então parei imediatamente. — Eu, de verdade, recomendo que você coloque o cinto assim que começarmos a pairar. — Ela sugeriu, conforme sacolejávamos para cima. — Não vai demorar muito. Agradeci silenciosamente quando o animal estendeu as enormes asas e começou a flutuar tranquilamente. Abri os olhos com cautela e vi que Anya ficava incomodamente agradável de se olhar com aquele sol alaranjado do ocaso dourando seus fios loiros e pálidos. — Veja se eles já nos seguem, não posso tirar o olho da estrada. — A amazona pediu e assim o fiz, percebendo depois que não havia estrada. O Poleiro de Orn já estava à centenas de metros de distância, para trás e para baixo, e os outros quatro grifos já haviam decolado, sendo que cada grifo era conduzido por um soldado e trazia um daqueles sujeitos estranhos, os quais eu não parava de me perguntar quem eram.Os embaixadores saltaram da rampa também e seus xales estranhos se abriram em algo que parecia a mistura entre uma asa de inseto e uma barbatana de peixe. Eles subiam em um ritmo mais suave. — Estão à cerca de duzentos metros. — Constatei. — Os elfos estão um pouco mais longe. — Ótimo. — Ela disse. — Preciso conversar com você. — Virou o pescoço para ver minha expressão de dúvida. — Você estava achando que te trouxe comigo só porque gosto de alguém me agarrando como se a vida dele dependesse disso? Soltei-a imediatamente, lembrando de colocar o cinto. Uma correia de couro com fivela e vários tachos para garantir que ficaria presa. — Não se acanhe. — Ela acrescentou seca. — Estamos numa corrente de ar quente, mas temos umas massas de ar frio à frente, e vai ficar de congelar aqui. Decidi me manter afastado, segurando a sela. — Depois não diga que eu não avisei. — Ela voltou à olhar pra frente. — Eu não confio naqueles mutantes. — Achei que você não confiava em ninguém. — Comentei. Ela balançou a cabeça. — Com eles é diferente. — Diferente como? — Eu confio mais em você do que neles, e eu não confio nada em você. — Obrigado pelo voto de confiança, estou tocado. — Não seja engraçadinho, o assunto é sério. — Eu estou seriamente tocado, oras. — Lavinia estava certa, você é igualzinho à ele. A fala morreu em meus lábios. Ela falava de Beleren, era sempre o Beleren. Um minuto de silêncio incomodo pairou até que eu perguntei.— Quem são aqueles outros.— Me referia aos humanos.— Aqueles que não são soldados.— Imaginei que você fosse perguntar isso.. — Ela disse com uma nota de sarcasmo... — A mulher alta e musculosa chama Valghanti, ela é uma ferreira e artificie de amuletos mágicos. O ruivo magrelo chama-se Ilan Rosh, é um górgon.— Górgon?— Meio humano, meio górgona. Extremamente raro.— E aquela mulher toda enfaixada? — Ela era sem dúvida, a mais estranha.—Pra'er Enlayha, ex-discípula do monastério de Pral'dwan. A espada que ela tem é amaldiçoada, por isso as faixas. — Ela disse como se fosse óbvio, e continuou. — E o sujeito de roxo é Stiye Purstoy, ele consegue criar esferas de puro vácuo e é um dos criminosos mais procurados de Ravnica.Pensei nisso por alguns instantes ante de perguntar. — E o que eles estão fazendo vindo conosco?— O mesmo que você. — Ela respondeu, desviando de uma nuvem. Eu achei, primeiramente, que havia sido um desaforo, até perceber que eu não sabia exatamente o que eu estava fazendo ali.— Não está óbvio? — Ela olhou para mim, desacreditada. — Eles são Apagados.Franzi o cenho. — Apagados?— Planeswalkers sem centelha. — Voltou à olhar para frente. — Como você.— Oh... — Olhei para o lado e vi a mulher enfaixada do cabelo azul, Pra'er, na garupa do grifo, de olhos fechados e braços cruzados. Ela abriu os olhos, como se soubesse que eu estava olhando-a, mas eu não tentei disfarçar, ao invés disso, eu sorri e acenei para ela. Em resposta, ela gesticulou para baixo com um gesto sutil de cabeça, o qual eu demorei um pouco para entender, mas eventualmente, compreendi que eu deveria olhar para baixo, para Prahv. Só naquele instante, eu percebi como Ravnica era grande. Os edifícios brancos dos fóruns, das casas e dos estabelecimentos de Prahv estendiam-se até o horizonte. Sobrevoávamos um trecho mais novo da cidade, o local onde ocorreu a queda do Parhelium, nas antigas espirais. O mais fantástico, entretanto, era a forma como a cidade estava disposta. Cada distrito era uma réplica do Olho, a Pirâmide Azorius, onde o edifício do centro era o mais alto e os outros eram mais baixos conforme mais perto do limite distrital. As ruas e avenidas desenhavam um padrão extremamente complexo, imitando as várias curvas no labirinto do Olho, sendo que os bairros eram triangulares e encaixados, todos formando o triângulo maior da cidade. De cada um dos três vértices, corriam largos rios que alimentavam a tubulação da cidade para consumo e para irrigação, convergindo em um grande anel de água que circulava Lvet e Nova Prahv, formando o desenho circular do símbolo, Boquiaberto pela visão, voltei o olhar para Pra'er, que também observava o solo. Quando ela ergueu o rosto para olhar para mim, as faixas que cobriam sua boca afrouxaram, revelando um sorriso juvenil em seus lábios que, tirando a cor azulada semelhante à dos cabelos, eram perfeitamente normais. Os olhos de âmbar pousaram em mim por um instante antes dela voltar a fechá-los. As faixas em seu pescoço voltaram a cobrir sua boca, deslizando como cobras coriáceas ao redor do rosto. Girei o pescoço, vendo meu redor. O manipulador do vácuo, Styie, segurava-se à penugem do grifo com uma mão enquanto folheava um pequeno livro com a outra; a robusta mulher, Valghanti, conversava com o condutor de seu grifo, mas o vento abafava demais suas palavras para que fosse possível entendê-las; e o jovem Ilan levantava a venda discretamente e via a paisagem com apenas um dos olhos castanhos. Sorri e abracei a cintura de Anya, recostando-me sobre sua armadura fria. Pode parecer infantil, mas ninguém gosta de sentir-se sozinho, e agora, eu sabia que não estava. Cinco planeswalkers atrás de suas centelhas desaparecidas, aquilo seria divertido, pensei. — Estrelas apagadas não brilham. — Eu pensei alto. — Mas elas explodem que é uma beleza. Ouvi Anya rir. — Essa é uma verdade incontestável.
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