Magic Whisper

3 Você está no dormitório das melhores pessoas.


No dia seguinte, Ciaran estava pronto para sair da enfermaria. Ele se desculpou com a enfermeira por chamar sua poção de água com lodo ou algo assim. Ainda estava com as suas ataduras do pescoço, parece que além do seu sangue o vampiro queria levar um pedaço da carne também.

Mas não conseguiu. Bom.

Ele saiu da enfermaria e entrou em um corredor largo de rocha amarelada. Onde ele estava mesmo?! Mais alguns passos e deu de cara com as paredes vazadas da construção, eram colunas finas e longas, com detalhes bonitos e meio medievais, ele olhou entre elas e viu a floresta, flexionou-se para fora da construção, ele estava alto muito alto, não seria legal cair dali, devia estar a uns seis andares. Aparentemente Feiy achava que ele queria se matar porque a raposa mordeu sua calça e tentava puxá-lo de volta. Calma, carinha, ele não era suicida... ainda.

Parecia ser uma construção enorme, as paredes iam até onde a vista podia alcançar, até as paredes ficarem arredondadas e fazerem a curva. O vento batia em seu cabelo e acompanhava a brisa impotente que batia nas paredes rochosas.

Hm, seria um lugar grande. Ciaran não era bom com lugares grandes nem com grandes centros de comércio, bastava virar uma esquina e ele não sabia mais como voltar.

— Hm, pronto para ir?! – ele ouviu a voz conhecida chamar sua atenção. Voltou seu corpo para dentro do corredor e olhou prontamente para onde vinha a voz. Era o pequeno Aisha que estava ali! Ciaran o olhou sorrindo... mas não durou muito.

Estava lá com o grande Haziel... bem, Ciaran não tirou os olhos da expressão seria do vampiro, ele tinha medo do grandalhão. Parecia mais uma estátua grande e mal humorada. Ciaran acabou levando a mão de novo inconscientemente ao pescoço. Esse cara ia estar no mesmo dormitório que ele e supostamente era amigo de Aisha, então ele tinha que tentar pelo menos passar a ser suportável aos olhos do vampiro.

Ele resolveu voltar a conversar com quem lhe parecia mais agradável.

— Oi, Aisha! – ele achava que havia falado feliz demais, na sua opinião.

— Olá, eu sou quem vai levá-lo ao nosso dormitório, ok?! Já que seu parceiro não parece cooperar muito. – ele disse sorrindo discreto. – Podemos ir?!

— Claro, certo. – com certeza era melhor a companhia de Aisha do que do demônio. Ele não queria ir andando por ai e de repente ser atacado por alguma coisa... tipo um vampiro! Ciaran olhou discretamente para trás onde estava Haziel... por que o maldito demônio tinha implicado com a criatura? – Então, Aisha, o que é você?

— Eu? – o garoto lhe perguntou de volta.

— É, que criatura mágica?! – Ciaran chutaria um anjo ou algo assim. Ao longo do caminho, Ciaran via mais e mais corredores, via algumas pessoas neles, mas todas pareciam normais até agora. Opa, não. Algo com uma pele escamosa passou rapidamente em um dos corredores.

Ele olhou para frente e parecia que uma dupla discutia, parecia uma briga bem acalorada. Ciaran parou prontamente quando uma bola de metal cheia de espinhos surgiu na mão de um deles que atirou no rapaz a frente dele. O outro rapaz colocou as mãos a frente de seu corpo, como um mecanismo de defesa e a bola atingiu um escudo invisível e o objeto espinhoso saiu voando pelo ar.

— Eu sou filho de um...

Foi meio rápido, Aisha continuou em frente no caminho. A bola se chocou com um lustre enorme no teto e a estrutura quebrou pela metade e vinha na direção deles! Ciaran correu para o lado oposto, mas...

— Ais... – Ciaran tentou avisar, o garoto estava prestes a ser esmagado!

Mas então... o braço do vampiro rodeou o corpo pequeno antes que o desastre acontecesse e o puxou para longe do metal que rachou o chão ao cair.

Graças aos deuses. Ciaran colocou a mão no coração. Parecia que Feiy já sabia o caminho, porque a raposa continuou andando em frente sem esperá-los.

— Ah, bem... eu não estava esperando por isso. – Aisha disse normalmente. Minha nossa, se ele conseguisse ver a profundidade do buraco que a estrutura de ferro deixou, ele não estaria assim tão calmo. Haziel apenas rosnou e o trouxe para uma distância segura do local, ele parecia com raiva! – Desculpe.

Aisha falou baixo, mas suficiente. Isso alterou o sangue de Ciaran. Não era culpa dele! A dupla só correu na direção oposta.

— Por aqui, Aisha. – Ciaran chamou e já ia buscá-lo, mas ele veio andando normalmente, até que as mãos pequenas encostaram a parece e ele pode seguir o caminho por ali, sempre tocando a parede de leve, acho que para constatar que estava no caminho certo.

Haziel continuava a segui-los pelos corredores.

— Bem, aqui é assim, as coisas mudam de vez em quando. Ário fica com muita raiva quando isso acontece. – Aisha falou animado de novo, como se o seu parceiro não tivesse sido um grosso momentos atrás. – É bom ir prestando atenção no caminho...

— Eu vou me perder, com certeza, prestando atenção ou não. Quem precisa aprender o caminho é Feiy, mas parece que ele já sabe?! – a raposa ia muito mais a frente.

— Você vai se acostumar. Também me perdia no início. Agora conheço esse lugar como a palma da minha mão... tirando as surpresas é bem seguro.

Haziel suspirou atrás dele.

Eles dobraram aqui e ali, desceram umas escadas e deram mais uma, duas... algumas voltas. Mas não era difícil, Ciaran esperava que Feiy tivesse aprendido.

— Estamos perto? – ele perguntou só para saber mesmo, era um lugar bastante grande.

— Logo a frente. – Aisha riu.

— Não vi muita gente pelos corredores. – Ciaran viu algo aqui e lá. Ele queria explorar o local, não antes de descobrir onde dormiria.

— Ah, os horários de todo mundo não batem. Por exemplo, algumas linhagens de vampiros não saem de dia, algumas criaturas tem hábitos noturnos, como os lobisomens... grande parte está trabalhando. Cada um meio que tem seu horário aqui. E o castelo é grande. É difícil encontrar todo mundo de uma vez.

Aisha parou de frente para uma porta pesada de madeira, tinha outra na frente desta e mais duas no mesmo corredor curto. Parecia uma prisão, Ciaran não ia mentir para si. O garoto abriu a porta e os dois entraram.

Nossa. Não, não parecia uma prisão. Tinha uma sala pequena, com um sofá uma janela grande, uma mesa com duas cadeiras e um tapete estampado que ia da porta a janela do outro lado. A sua esquerda existiam duas portas e a sua direita, uma porta.

— O seu quarto e o de Deimos é o da direita. – Aisha disse e Ciaran seguiu até a porta. Seriam quartos divididos em dupla, ótimo. Não devia ser tão difícil. – O meu e o de Haziel é esse próximo a janela. Esse perto da porta é de Natane e Eluh.

— Não lembro de ter conhecido o parceiro de Natane. – Ciaran disse abrindo a porta de seu quarto.

— Eles estão passando por um momento difícil agora. – Aisha completou entrando no quarto com Ciaran.

O loirinho gostou do que viu e Feiy também. Tinha uma pequena caixa acolchoada para a raposa que logo foi tirar um cochilo. Devia estar cansada de ficar ao lado de Ciaran a noite toda. Era um quarto grande, com uma janela enorme, o vidro era trançado por ferros em losangos, Um enorme tapete quente recobria o local, tinha um armário embutido na pedra, uma portinha,no fim, que Ciaran julgou ser o banheiro, uma lareira, uma mesa para estudos com cadeira e uma poltrona bem acolchoada que não faria feio a uma cama.

Só uma coisa o incomodou. A cama. Era apenas uma cama, enorme. De casal.

— Eu vou ficar sozinho nesse quarto, certo? – Cairan perguntou já sentindo qual seria sua resposta.

— Não. Vai ficar aqui com Deimos. Ele é a sua dupla. – Aisha respondeu. – Por que?

— Só tem uma cama de casal aqui, Aisha.

— Ah, isso é porque demônios não dormem. Eles são criaturas narcisistas. Eles raramente se esgotam a ponto de precisarem dormir. Eles tem muita, muita energia.

— Ah. Tudo bem então.

— Então, bem vindo. – Ciaran escutou a voz vindo da porta. Era Natane, sempre simpático, parecia que acabara de acordar, estava sem blusa, apenas com um capre curto marrom e suspensórios descansados até a altura dos joelhos. Ele bocejava também.

— Obrigado.

— Onde está Deimos? – o elfo continuou perguntando e avaliando o local.

— Não sei... uma hora ele deve aparecer. – ou não, ele não se importava muito se o demônio ia dar as caras ou não.

— Você vai precisar ir a sua casa pegar suas coisas. – Aisha disse depois de um tempo

— Ok.

— Provavelmente Ário vai te chamar para uma reunião onde vocês decidirão sobre isso e...

— A reunião! – Natane gritou dando um tapa na própria cabeça e saindo correndo. – Merda!

— Que reunião? – Aisha disse preocupado.

— Sobre Eluh! – Natane gritou do próprio quarto.

— Vocês vão mesmo se separar?!

— Parece que sim. Não tem mais volta! Não se preocupe Aisha, vai dar tudo certo. Prometo! – e os dois ouviram a porta da frente bater.

Ciaran notou que Aisha parecia triste.

— O que foi Aisha?! – Ciaran perguntou se aproximando do garoto.

— Sabe... você vai perceber que Natane é dono de um coração enorme e esforçado... ele pode fingir que não liga, mas... sabe, ele já perdeu seis parceiros, todos acabam o abandonando. Dois deles morreram. Há boatos espalhados sobre ele na instituição e ele aguenta tudo sozinho.

— E por que os parceiros o deixam?!

— Porque não são parceiros de verdade. – Aisha falou determinado e se pôs para fora do quarto.

Ele ia caminhando em direção a porta.

— Aonde vai? – Ciaran perguntou quando ele alcançou o trinco de bronze pintado de preto. Haziel estava sentado no sofá e já se pôs de pé, Ciaran imaginou que o vampiro ia seguir o garoto de novo.

— Vou falar com Eluh antes da reunião.

Ciaran observou Haziel cruzar os braços e voltar a sentar no sofá onde estava segundos atrás.

— Você não vai, Aisha. – a voz grave no vampiro soou no local, calma, mas sem nenhuma doçura.

— Alguém precisa falar com ele...

— Pare de se meter onde não é chamado e de arrumar problema desnecessariamente. – Haziel falou e Aisha parou na porta, uma mão começou a acariciar outra. Qual é?! O que esse vampiro pensava que era para falar com o garoto daquele jeito? Ciaran podia ter medo dele, mas não ia tolerar que o vampiro o maltratasse só porque era seu parceiro ou poucos centímetros mais alto!

Ciaran ia abrir a boca para confrontar o vampiro, quando Aisha afastou-se rapidamente uns quatro passos da porta. A madeira abriu em um estrondo e um cara baixo, mas cheiro de músculos com uma armadura estranha entrou no dormitório. Tinha um cabelo ralo, dava para ver seu couro cabeludo, parecia chateado e entrou no quarto de Natane sem dar uma palavra com ninguém. Parecia um romano antigo com aquelas roupas.

Ele saiu segundos depois.

— Onde está aquele desperdício de vida?! – o homem perguntou olhando para Aisha.

— Natane não é um desperdício e ele já saiu para a audiência com Ário. Você não devia estar lá também? – Aisha falou sério no meio da sala. O homem, que Ciaran julgou ser o tal Eluh, apenas estreitou os olhos em direção a Aisha e virou seu corpo grande e compacto para Aisha.

— Vê lá como fala comigo, imundo. Eu sou um guerreiro nascido para lutar batalhas grandes, não me esconder atrás de um escudo de escravo. – ele apontou para Haziel que também não parecia muito feliz com a presença do homem ali.

— Eu só queria que você reconsiderasse, Natane é...

— O pior e mais inútil guerreiro que já existiu nessa terra maldita! Aliás, ele não é um guerreiro! Não sabe fazer nada! Não me admira que dois de seus parceiros estejam mortos! A culpa é dele, não sabe lutar, deve ser o mais vergonhoso elfo que já existiu! Devia ter continuado como o troféu para os machos de sua tribo! Definitivamente ele parece mais com isso!

— Não diga isso. – Aisha falou baixo. – Você poderia ensiná-lo.

O homem apenas riu do que o garoto falou.

— Eu não vou perder meu tempo com alguém inútil como ele. Nem para lidar com a minha virilidade sexual ele serve! Se fazendo de rogado... Quero um parceiro a minha altura.

— É você quem está perdendo.

O homem parecia se irritar fácil ele deu um passo em direção a Aisha com os punhos cerrados ao lado do corpo.

Haziel levantou do sofá e o homem parou no meio do caminho e seus olhos se dirigiram ao vampiro.

— Ao contrário de você, eu luto minhas próprias batalhas.

Mas o homem só sabia ladrar. Ele não deu mais um passo, ao ameaçou o garoto parado no meio da sala. Porém, seus olhos foram para Ciaran e o homem o olhou de cima abaixo, avaliando.

— E você o que é?! – ele continuou perguntando bem petulante.

— Eu sou um mago. – isso era ainda estranho de se dizer, mas...

— Hm. É novo aqui.

— Sou.

— Não foi uma pergunta. – ok, então. O homem o olhou novamente. – Esses olhos trazem azar... mas um mago deve saber bloquear a má sorte. Venha ser minha dupla.

— O que? – como assim? Era só convidar? Ele já tinha um parceiro problemático, não precisava de dois.

O homem se aproximou e Ciaran ficou meio tenso, ele não sabia o que fazer nessas situações ou se o cara ia atacar. Haziel não ia ajudá-lo de qualquer forma, o vampiro estava muito ocupado fuzilando Aisha com os olhos, Aisha, não ia ajudá-lo também e Feiy também não. Então... como ele faz para usar seus poderes mesmo? Ele tinha que prender logo, ser fraco não era nada legal nesse lugar.

— O que foi isso no seu pescoço? – o homem perguntou avaliando. Ciaran o achou bem intenso em suas expressões.

— Um vampiro me atacou...

— E você sobreviveu?

— É o que parece. – o homem franziu o cenho para ele. Opa, resposta errada?!

— Tirando a língua atrevida parece que você daria um bom parceiro. Junte-se a mim.

— Já tenho um parceiro. – Ciaran disse caminhando lentamente para trás enquanto o homem encurtava a distância entre os dois.

— Não é melhor do que eu, garanto. Sou um guerreiro meio kiroptian*, como orgulho, bravura e força. Juntos seriamos perfeitos.

— Eu estou... conformado com o meu parceiro, obrigado pela oferta.

Eluh colocou a mão no rosto de Ciaran que preferiu apenas ficar parado, vai que se ele se mexesse o cara atacava. O problema era que ele não sabia como agir naquele tipo de situação, que criatura era aquela? O que ele devia fazer?

— Eu escutei a discussão de vocês dois do corredor. – Ciaran escutou a porta da frente abrir e fechar e percebeu que Deimos passou por ela. – Sinceramente, se ele fosse meu criado, Aisha... – Deimos disse apontando para Haziel. – Já teria mandado ele despachar esse cara há tempos. – continuou caminhando em direção a cena bizarra, o tal Eluh parecia ter gostado da pele lisa de Ciaran. Deimos ficou olhando a cena um instante e observou o estado de transe do guerreiro, depois olhou para Ciaran esperando uma explicação e como ela não veio... seus olhos rolaram, como se Ciaran fosse a coisa mais cansativa do mundo. Que absurdo! – Muito bem. Você não toca o que é meu. – Deimos disse tirando a mão de Eluh do rosto de Ciaran e colocando seu corpo entre os dois. – Esse aqui tem dono. Dê o fora.

— O que? – o homem disse enojado e depois olhou para Ciaran.

— Isso mesmo o que você ouviu. Agora some daqui. Não sou tão preguiçoso quanto Haziel nem devo nada ao idiota do Ário, eu te despacho rapidinho.

Haziel rosnou baixo para ele.

— Você é o parceiro dele?!

— Ele é. E não vai falar com você a menos que eu mande. – como é?! Desde quando esse demônio mandava em Ciaran?! — Agora dê o fora daqui antes que a coisa fique ruim para você. O elfo ridículo deixou você?!

— Eu deixei aquele inútil! – o homem disse indignado.

— Sei. Dá no mesmo. Esse rapaz aqui não vai mudar de parceiro. Vai saindo.

O homem apenas virou-se e caminhou até porta com seus passos ecoando por todo o recinto. Ciaran tentou ver o homem saindo, mas os ombros de Deimos estavam na frente.

Ele parou por uns instantes e olhou para todos com desdém.

— Nunca fiquei tão feliz de deixar um dormitório. Aqui só tem a escória da sociedade. – o homem disse da porta. – Um ser imundo que envergonha seu povo. – ele olhou para Aisha. – Um maldito escravo. – olhou para Haziel. – Um elfo adulto que não sabe se defender mesmo que sua vida dependa disso. E uma vadia que se vendeu a um demônio sujo.

— Foda-se. Ninguém quer você aqui mesmo. – Deimos disse como uma criança mimada. — Se a sua força fosse tão ameaçadora quanto as merdas que saem da sua boca, talvez você bom competidor a altura.

O homem virou e vinha na direção de Deimos. Eles iam brigar no meio da sala. Mas, então, a postura de Deimos apenas mudou levemente, mas Ciaran sentiu um frio percorrer sua coluna, parecia que o ambiente tinha ficado mais pesado só por esse breve movimento. Ao mesmo tempo Eluh parou de andar em direção a ele, Ciaran viu um gota de suor descer pela testa do homem e ele simplesmente olhar para Deimos com desdém.

Se dirigiu a porta e saiu.

Ciaran ficou escutando o silêncio na sala. Haziel ficou sentado petrificado no sofá, Aisha fazia carinho na parede onde se encostara e Deimos continuava a sua frente. O que tinha acontecido exatamente para o clima ficar pesado daquele jeito?

— Babaca. — Deimos falou, voltando ao seu eu despojado.

— O que ele quis dizer? – Ciaran perguntou quebrando o silêncio.

— Ah! – Deimos disse virando para ele e sorrindo. – Você está no dormitório das melhores pessoas do mundo. Você não sabia?! É o seguinte... – o demônio começou, sentando na mesa atrás de Ciaran. – Aisha é filho de uma mistura explosiva. Ele é filho de um caçador de vampiros com um vampiro. Você pode não saber, mas os Hunters são uma raça. Esses caçadores tem o maior orgulho que eu já vi. E nada para eles, nada, nem mesmo contratos com demônios é mais pecaminoso do que manter relações com um vampiro. Nosso pequeno Aisha ali é um amaldiçoado, um sujo, um pecado. Ele é o fruto dessa fusão que não deveria existir. É odiado por vampiros e por caçadores.

— Como se vocês não fossem orgulhosos. – Haziel disse em direção ao demônio.

— Sim, somos. Mas admitimos. Pessoas como Aisha são as vergonhas dos clãs de hunters e dos covens de vampiros. Os chamam de Shames.

— Minha família não me odeia. – Aisha disse de onde estava. Ciaran não podia ver como alguém odiaria Aisha, não dava para se odiar o garoto, ele era bom, ele emanava paz. Mas agora que Deimos falara, Haziel parecia não gostar dele, o tratava mal, mas Ciaran julgava que era porque o homem fosse um mala mesmo.

— Você é exceção, Aisha. Talvez. – Deimos completou. – Já o nosso amigo Haziel. Nossa, Haziel era o braço direito de um príncipe de coven, estava lá para protegê-lo. Isso era um cargo e tanto, para os vampiros claro porque eu não vejo graça nenhuma em proteger a bunda de um príncipe... a menos que eu tenha acesso a ela. – Haziel o lançou um olhar mortal.

— Cuidado com a boca, demônio. – Haziel rosnou para Deimos que apenas levantou as duas mãos para que o vampiro se acalmasse.

— Um dia um certo clã de Hunters atacou o coven de Haziel... e hoje, por algum motivo, nunca me contaram a história, ele é escravo de Aisha. Aquele anel negro. – Deimos disse mostrando o pescoço de Haziel. — Quando você o vir no pescoço de alguém, essa pessoa é um vampiro e é um sinal de escravidão. Garotos brancos como Aisha são os indesejados filhos de caçadores e vampiros.

— Eu vi esse anel no pescoço de um homem na minha casa na noite que mataram o vampiro e você me trouxe para cá. – Ciaran adicionou a conversa e Deimos apertou os lábios, foi sutil, mas Ciaran viu.

— Os caçadores foram te ajudar?! – Aisha perguntou virando na direção de Deimos.

— Sim, eles quem mataram o vampiro.

— Foi meu clã que te ajudou?! Meu irmão estava lá?! – Aisha perguntou tão animado, parecia uma criança.

— Estava. – Deimos disse curto e grosso. – Como sempre só deu as ordens para execução do vampiro.

— Axis não luta com qualquer vampiro de quinta. – Haziel se pronunciou do sofá. – O nível dele vai além disso.

— Ele falou se viria aqui?! – Aisha perguntou meio sem jeito.

— Ele não é de falar muito, você sabe. Muito menos como alguém como eu. – Deimos lhe respondeu e Aisha concordou. Ele ficou bem animado quando Deimos falou do irmão, ele poderia ter lhe contado antes.

A porta abriu e Natane entrou por ela. Parecia cansado e meio desanimado.

— Iai? O que eu perdi?! – ele perguntou para todos no local.

— Já tem um novo parceiro? – Aisha perguntou para ele.

— Não, mas semana que vem parece que alguns novatos vão chegar e Ário disse que me daria... uma última chance.

— E for fim, mas não menos importante. – Deimos completou. – Natane, o elfo inútil.

Natane pôs uma carranca na testa.

— Ah, para com isso! – ele disse indo para o quarto.

— Todos sabem que elfos são exímios lutadores e muito bons com diversos tipos de armas. A tribo de Natane é especialista em espadas curtas, médias e longas. Acontece que o nosso Natane aqui é um fracasso com espadas, luta corpo a corpo, reação ao inimigo... é uma vergonha para a tribo. Os pais o mandaram aqui para que ele aprendesse alguma coisa na marra. Porque sendo filho dos chefes da tribo ele não poderia fazer feio.

— Cala a boca! – Natane gritou do quarto.

— Filho dos chefes?!

— Isso. Aliás. Todos aqui temos cargos importantes... Aisha também é filho do líder dos Hunters. Haziel era um braço direito de um príncipe.

— E você?! – Ciaran perguntou, muito bonito Deimos contar a história de todos e esquecer a dele.

— Eu?! O de sempre, eu engano, seduzo e ganho as almas para que elas queimem, me deem energia e nunca possam voltar a fazer o ciclo da vida de novo. É uma coisa bem mórbida. E odiosa. Eu tiro a oportunidade de uma alma ter a chance de implorar os deuses para voltar a vida. Ela simplesmente passa a não existir mais. Mas não se preocupe eu faço isso de cem em cem anos, mais ou menos, e dou algo em troca... por isso o baixinho lá ficou com tanto nojo de você. – ele falou olhando fundo nos olhos de Ciaran, eles eram intensos, o rapaz tinha que admitir, não era de se admirar que Deimos conseguisse o que queria. — Ele assumiu que você me dá energia. E como você ainda se meche, quer dizer que eu e você temos uma relação íntima, bem sexual. E não há nada mais sujo, nem os do tipo de Aisha, do que ser amante de um demônio. – finalizou se afastando de Ciaran e seguindo para o quarto que era reservado aos dois. — Viu?! Não somos um grupo adorável?! – Deimos ficou sério e raivoso em seguida.

O demônio sumiu passando pela porta. Ciaran o seguiu para dentro do quarto. Ele viu Deimos retirar a blusa de manga e as botas e pular na cama.

Ciaran não estava prestando atenção em Deimos, ele tentava digerir tudo o que o demônio falara instantes atrás.

— Eu jurava que Aisha era um anjo ou algo assim. – Ciaran afirmou e Deimos apenas olhou sem muito interesse para ele. Apenas riu um pouco.

— Anjos são muito mais puros do que Aisha. – Deimos disse observando a porta.

— E não tão justos quanto eles gostariam. – Haziel disse da porta entregando um papel a Ciaran.

Hm. Parecia que os dois concordavam em algo.

— Pelo menos Aisha parecia ter o apoio de sua família. – Ciaran falou abrindo o papel e lendo as curtas frases. – Ário quer que o visitemos de tarde.

— Ótimo. – Deimos disse suspirando e se esparramando ainda mais na cama. – Eu não contaria com o que você disse sobre a família de Aisha.

— Como assim. Deu para ver que ele adora o irmão e...

— O irmão de Aisha é alguém muito perigoso, Ciaran. Duvido que ele sinta carinho pelo irmão. Eu sugiro que você se informe dos perigos a sua volta antes de cruzar o véu. Eu tenho o pressentimento que quanto mais longe Aisha ficar daquele cara melhor para ele.

Hmm. Ciaran tinha muito para aprender, ele podia ver. Tinha que começar logo.

— Você poderia me ajudar e me ensinar.

— Não quero. Não tenho saco para isso... mas, eu sempre estou disposto a negociar. Sua alma é uma boa barganha.

— Não, obrigado. – eles eram parceiros, bem que Deimos podia ajudá-lo, ele não sabia nem por onde começar. – Então... – Ciaran disse ao corpo esparramado na cama. – Achei que demônios não precisassem dormir.

— Não precisam. Mas eu gosto de dormir.

— Mas a cama é minha!

— Tem espaço para dois.

— Vou pedir para que tragam duas camas.

— Você não quer dormir comigo?! – Deimos falou em um tom falso indignado, tonificando os músculos e lançando um olhar sexy a Ciaran.

— Não. Eu não quero.

— Qual é?! Eu só durmo de vez em quando. Junte-se a mim. – ele falou dando dois tapinhas no colchão.

Ciaran queria só descansar um pouco, seu pescoço parecia doer um pouco agora que passara um bom tempo sustentando sua cabeça. Ele deitou-se na cama, mas bem na beirada, quase caindo.

— Está com medo que eu tente alguma coisa?! – Ciaran ouviu a voz jocosa em suas costas.

— Só prevenindo. Você não vai fazer nada que eu não queira.

— Não me tente.

Notas finais
*Os meio-kiroptians são seres medievais que possuem uma forma aterrorizante, podem ter uma forma humana e serem monstros por baixo, são seres que podem se curar rapidamente e necessitam de menos sangue do que os kiroptians puros,são muito fortes são quase impossíveis de serem controlados. A unica forma de se matar um kiroptian é decapitando-o. Aisha, filho do clã do Norte. Raça: "Shame", Hunter. Idade: 19 Altura: 1,69 Olhos: prata Cabelo: branco Cor favorita: ele não sabe. Comida favorita: peixe com arroz. Gosta: de ter pessoas ao redor. Não gosta: se sentir rejeitado Hobby: sair para passear. O que mais deseja: voltar para sua casa.