Magic Whisper
4 Eu não vou voltar.
Ciaran queria ter descansado, queria mesmo. Mas ele ficou lá deitado na beira da cama todo o tempo, só escutando a respiração lenta e compassada de um demônio que NÃO precisava dormir.
Olhou pela milésima vez o papelsinho que o vampiro lhe entregara mais cedo. O recado requisitava sua presença...e a de Deimos... à tarde. Bem, talvez ele conseguisse alguma explicação ou algo assim.
Ele não se sentia diferente sabendo que era um mago, quer dizer, ele nunca conseguiu levitar coisas ou flutuar ou incendiar a casa de alguém sem querer. Ele simplesmente vivera normalmente como uma pessoa comum, estava curioso para saber como seria sua vida dali em diante.
Quem sabe até ele conseguiria manter o demônio afastado da cama quando ele quisesse! Ou quem sabe ele nem precisasse mais de uma cama, ele simplesmente ia dormir em pleno ar... não, seria estranho, ele gostava de colchões e coisas assim. Bom, era de tarde e Ciaran já havia percebido que não conseguiria dormir,então decidiu ir logo para a sua audiência.
Ele sentou-se na cama e olhou para o seu parceiro. Deimos dormia profundamente, pelo menos era o que parecia. Deimos podia ser meio difícil e tudo mais, mas Ciaran tinha que admitir, como na primeira vez que ele o viu em sua casa, o demônio era realmente lindo. Ele suspeitava que podia ficar o dia inteiro olhando para o moreno dorminhoco e não ia mudar sua opinião, nem sequer enjoar.
Pois é... mas só assim mesmo! Com o demônio dormindo e calado, sem colocar ninguém em confusão. E pronto.
Ciaran olhou de novo para o rapaz deitado a seu lado. Ele devia cutucá-lo?! Chamá-lo?! E se ele acordasse de mau humor?! Ah... mais mau humorado que ele impossível! Não conseguiu dormir nada e seu pescoço ainda doía.
Os olhos bicolores desceram pelo pescoço de Deimos, pelo peito trabalhado, que era coberto apenas por uma camiseta justa verde musgo, pelos braços fortes, pelo abdome bem desenhado, pelo... bem Ciaran apenas olhou para o teto depois disso. Ah, que bobagem, ele ia chama-lo e pronto.
— Deim... – mas ele não terminou, notou uma corrente no pescoço do demônio, era algo muito delicado para alguém como Deimos usar. O pingente parecia estar do outro lado da cama. Ciaran ficou em seus joelhos e devagar, devagarsinho, ele passou o braço por cima do corpo adormecido... mas não era suficiente, ele colocou uma mão bem próxima ao tronco de Deimos e seu corpo passou por cima do belo adormecido abaixo de si.
Ele finalmente alcançou o pingente. Parecia um relógio de bolso com um pentagrama... era bonito e parecia que dava para abrir, mas não tinha botão.
Um pouco mais de movimento e pronto.
Sua mão escorregou nos lençóis e seu corpo caiu inteiro em cima de Deimos.
ÓTIMO!
Era tudo o que ele queria. Não, porque ele não podia ter dado a volta na cama ou simplesmente ter acordado o cara antes, ele tinha que cair com tudo em cima do demônio.
Ele olhou meio sem jeito para Deimos, que apenas o encarava sério. Ciaran sorriu sem jeito ainda segurando o pingente. Bem, pelo menos agora ele sentiu como o abdome de Deimos era bem definido.
— O que diabos você está fazendo? – ele perguntou baixo, mas sem muito interesse. Ciaran apenas olhou para o pingente, ainda estava se sentindo meio idiota.
Deimos abruptamente trocou os dois de posição, Ciaran agora encarava um gigante acima de si e se sentia meio indefeso e encurralado ali em baixo entre os braços fortes e firmes. Uma de suas pernas estava entre as de Deimos e isso não facilitava uma fuga, caso alguém perdesse a calma. O moreno ergueu-se e cruzou os braços diante de si e esperou uma resposta.
— Foi um acidente. – ele respondeu sem encarar o demônio, Ciaran já estava bem constrangido com o que tinha acontecido, Deimos apenas conseguia ser um pouco mais intimidador.
— Estava tentando roubar?! – perguntou grosseiramente, praticamente rosnando.
— Não! Não! – Ciaran fez questão de ser bem enfático e olhar bem nos olhos negros a sua frente, ele até tocou o peito forte, mas não durou muito tempo. – Eu só queria ver... o que tinha na corrente.
Deimos olhou para o cordão e para Ciaran.
— Por que não pediu, idiota? – ele tirou a corrente do pescoço e ficou segurando com a mão.
— Porque você estava dormindo! E não me chame de idiota.
— Você me acordou quando começou a se mexer na cama. – falou jogando o cordão para que Ciaran pudesse ver.
Ele olhou todos os detalhes de tentou abri-lo. Mas não conseguiu, ainda assim era muito legal, era antigo e bem cuidado, tinha cor de esmeralda e detalhes de ouro envelhecido.
— É muito bonito. O que é?! – perguntou realmente fascinado com o pequeno objeto.
Mas aí as coisas começaram a ficar estranhas. Os braços de Deimos se puseram cada um a seu lado e o corpo maior começou a se inclinar sobre o seu. Agora sim ele não fugia mais. Ciaran olhou discretamente para o rosto acima de si, enquanto o cordão brincava entre suas mãos, talvez um leve sinal de nervosismo?!
— Eu posso te dar isso se você quiser. – Deimos falou com a voz suave, como um predador pronto para enganar sua presa. Seu rosto desceu até a lateral do pescoço de Ciaran e sua respiração tocou a pele exposta. – Eu estou com fome. Eu te dou esse cordão em troca de uma pequena retribuição aos meus desejos.
Sua coxa pressionou o espaço entre as pernas de Ciaran e o garoto escapou prontamente para o pequeno espaço que ainda restava perto da cabeceira. Tentou esconder seu embaraço, mas nada muito efetivo, ele não estava acostumado aquele tipo de ataque.
— Pode ficar com isso. – o loirinho falou devolvendo o cordão e se retirando da cama. – Temos uma reunião agora, é melhor irmos.
— Sério?! Eu poderia te dar uma noite que não iria esquecer nunca... ou uma tarde, tanto faz.
Ciaran foi até a poltrona onde a outra blusa de Deimos estava e a jogou para que o rapaz a vestisse e ele pudesse sair dali. Seus dias seriam sempre assim, precisando fugir do moreno na cama?!
— Eu não vou. Mas sinta-se a vontade. – Deimos disse e Ciaran revirou os olhos. Ah, ele não tinha cabeça para discutir com criança teimosa!
— É claro que você vai. O convite foi para você também. Agora mova a sua bunda daí porque eu não sei onde fica a sala do Ário. Você vai me mostrar.
— Peça ao Aisha, ele adora perambular por aí.
Ciaran foi até a borda da cama e ficou lá, como uma mãe brava, com as mãos na cintura olhando para o demônio.
— Nós vamos agora. Mova-se.
— Não é um convite se ele me obriga a ir.
— Ele não está obrigando, eu estou.
— Ah, eu gosto dos mandões. – Deimos afirmou com um sorriso travesso.
— Se vamos ser uma dupla isso precisa funcionar.
— Não vamos ser uma dupla.
— Ótimo, vamos comigo e você pode reclamar o quanto quiser para o Ário. Agora, vamos. – falou por fim se dirigindo a porta e observando Deimos levantar e vestir a sua segunda blusa. Ciaran se sentia um vencedor! Ele conseguiu dobrar o demônio teimoso.
— Só estou indo porque eu acho essa ideia de dupla ridícula. – Deimos deixou claro quando seguia para perto do loirinho esperando na porta.
— Tanto faz, só sei que com certeza Haziel mataria alguém se tivesse que levantar mais uma vez daquele sofá e ir atrás de Aisha.
— O que te faz pensar que Haziel é mais letal que eu?! – Deimos perguntou sério a Ciaran que apenas deixou para lá.
Os dois já estavam no corredor curto fora do dormitório, Feiy não estava com Ciaran, isso não era bom, como ele ia aprender o caminho?! Deimos tomou a dianteira e os dois seguiram pelos corredores em direção ao centro da construção.
Ciaran tinha uma visão realmente bela das costas de Deimos enquanto ele trilhava o caminho correto. Então, três grandes homens vinham na direção oposta, quase de encontro a ele, vestiam preto e pareciam seguranças de boate, mas com um ar mais letal, passaram por eles como se não fossem ninguém. Bem, tudo bem...
— Boa tarde. – uma vozinha suave veio do grupo e Ciaran olhou para trás, um daqueles homens enormes não podia ter aquela voz, certo?! Tinha um homensinho menor andando entre eles, parecia que era escoltado no meio das três torres. Loiro de olhos escuros como breu, mas lhe sorria.
— Boa tarde. – Ciaran respondeu e foi só isso. O rapaz tinha o mesmo colar que Deimos, mas de cor diferente.
Continuaram pelo extenso corredor e mais duas pessoas vinham em sua direção. Duas mulheres em vestes roxas. Uma tinha o cabelo curto e ruivo, parecia falar com a outra, sua boca se mexia, mas falava muito baixo, a outra era morena com longos cabelos que chegavam a suas coxas.
Ela encarou Deimos e sorriu, mas foi só isso, Ciaran parecia invisível as duas. Ele olhou para trás e acompanhou o caminho da dupla um tempo. Amiga de Deimos, talvez.
Ciaran esbarrou no demônio a sua frente, ele tinha parado em frente a uma porta e o garoto estava muito ocupado olhando para trás.
— É aqui?! – Ciaran perguntou retoricamente.
Deimos não se deu ao trabalho de responder e os dois entraram na sala de Ário. Ciaran observou a janela grande no mesmo estilo da sua, a mesa grande com uma pilha enorme de papel de um lado e outra pilha enorme do outro, além de uma cadeira bem acolchoada. Uma estante enorme com livros e uma lareira no canto, alguns moveis com jarros de planta, uma pequena fonte de água e um corvo que... tomou hormônios talvez, era enorme, estavam todos bem distribuídos no ambiente.
Ário estava sustentando o queixo entre os dedos de uma mão, com os olhos fechados, e a outra segurava uma pena que não parava de percorrer o papel, logo ele puxou outro papel e passou o anterior para a pilha da direita.
Ele ainda escreveu mais um pouco e parou. Abriu os olhos e encarou os dois a sua frente com um sorriso comportado que parecia acompanhar sempre o rosto do homem.
— Bom, olá. – Ário cumprimentou os dois e pegou um embrulho em papel que estava em algum lugar dentro do móvel, Ciaran não viu. – Aqui, Ciaran, sua capa.
Ciaran se aproximou e desembrulhou o papel, era muito bonita. Um vermelho brilhante e vivo em um tecido pesado que com certeza o protegeria no frio e também seria um bom isolante contra o calor. Ele colocou o tecido sobre os ombros e colocou o capuz, depois virou para Deimos, que o observava com uma cara de tédio e braços cruzados sobre o peito.
— E então?! Ficou legal? – Ciaran perguntou dando uma voltinha.
— Parece a chapeusinho vermelho. – Deimos disse sem muito interesse. – Era só isso que você queria?
— Não. – Ário disse sorrindo ao demônio enjoado. – Quero que dê o pentagrama a Ciaran.
— O que? Por que?! – Deimos perguntou meio irritado e Ciaran ficou se perguntando o que ele iria ganhar agora. Era o colar que Deimos usava?!
— Por que o pentagrama fica com o mais responsável da dupla. São as regras.
— Eu sou o mais responsável. Pelo menos sou o que tem mais chance de voltar vivo!
— Vocês são uma dupla agora, você tem que zelar pela vida do seu companheiro assim como ele tem que zelar pela sua.
— Um humano que descobriu há horas que era um mago e não sabe sobre o mundo que ele vai enfrentar. Isso é o que vai ser responsável por zelar a minha vida?!
— Bom, você pode ajudá-lo.
— Só pode estar brincando comigo.
— Até que eu encontre um professor para ele. Sabe, a raça dele é muito difícil de ser encontrada. Sugiro, Ciaran, que você comece a ler sobre sua raça na biblioteca, a literatura sobre vocês não é muito extensa, não temos muita informação, mas deve ser o suficiente para começar.
— Tudo bem. – Ciaran respondeu prestando muita atenção na conversa.
— Bom. – Ário falou pegando um monte de papel na mão e fazendo as folhas voarem entre seus dedos. — Ah, essa aqui. – puxou um dos papeis e entregou a Ciaran. – Essa é a primeira missão de vocês. Dê o pentagrama a ele agora, Deimos.
Deimos lhe passou o cordão que usava a Ciaran, ele não parecia chateado, apenas um pouco contrariado.
— O que isso faz?
— Isso vai indicar o caminho para onde vocês devem ir quando atravessarem o véu. Ele indicará onde está a sua missão e o tempo que vocês tem para concluí-la até que o portal se abra de novo.
— Entendi.
— Bom. Eu sei muito pouco sobre magos, mas sei que todas as raças deles tem um cajado ou algo assim. Quando vocês receberem o dinheiro da missão eu quero que você use para comprar um para você. É um presente.
— Mas eu nem sei o que devo procurar, nem onde procurar...
— Deimos vai te ajudar nisso. Eu sei também que vocês tem um livro, algumas vezes é passado de geração em geração... eu lembro que sua mãe tinha um, acho que estão os feitiços, coisas assim. Não sabe dele?!
— Não faço a menor ideia.
— Talvez esteja em sua casa.
— Vou procurá-lo.
— Bom. Acho que é só isso que eu tenho a dizer, vocês podem ir logo pela manhã se quiserem. A tarde você pode ir buscar suas coisas, Ciaran.
— E qual é a missão? – Deimos questionou pegando o papel da mão de Ciaran. Muito educado! – Eu acho que você está fazendo isso para me irritar. – o moreno comentou entre dentes
Ciaran pegou o papel de novo e leu o que havia escrito.
“Ajudar a levar a mercadoria da loja nº 9824, Damra, ao porto Norte da cidade. Recompensa: treze moedas; doze de prata, uma de bronze.”
— Geralmente não realizamos esse tipo de tarefa. É mais uma missão de reconhecimento, Deimos. Ciaran nunca esteve depois do véu e Damra é a cidade mais importante do reino mágico. Pelo menos em questão de comércio, a maioria de nossas missões partem de lá. Quero que apresente a Ciaran a cidade, explique o puder sobre tudo e todos e voltem no tempo certo. – Ário enfatizou bem o fim.
— Ok. – Deimos disse já louco para sair dali.
— Era só isso. Podem ir.
Os dois saíram da sala, Ciaran não ia aguentar muito desaforo, mas ele queria ter um relacionamento legal com a sua dupla e ele detestava admitir, mas Deimos podia lhe ensinar e lhe guiar nesse mundo novo que ele estava prestes a conhecer.
— Você pode ficar com isso. – Ciaran disse entregando o cordão de volta. – Era seu em primeiro lugar.
Deimos olhou para o cordão e em seguida para Ciaran, mas só empurrou a corrente de volta.
— Não, pode ficar com isso...você pareceu gostar dele, com certeza, mais do que eu.
— Tem certeza?!
— Tenho.
— Ok. – Ciaran desistiu e colocou o cordão no pescoço. Ah, ele não ia mentir, achou lindo aquele pingente que batia no meio de seu peito. E adorou que Deimos não fez questão de ficar com ele.
* * *
Já era tarde da noite... para humanos. Deimos estava muito bem deitado em um bom espaço da super cama de casal enviada para a raridade que deitava ao seu lado. Ciaran era mesmo um tipo raro, bem raro. Deimos já vivia nas terras há algumas centenas de anos e, que ele lembrava, só conhecera uns dois ou três magos elementais, dois deles eram velhos e um era bem jovem, assim como Ciaran.
Mas ele entendia a raridade, a jornada de um mago desse tipo era difícil. Deimos desejava boa sorte ao loirinho ridículo ao seu lado. Ridículo porque o maldito agia como se Deimos tivesse uma doença contagiosa e se mantinha na beira da cama, praticamente caindo dela. E não conseguia dormir.
O que era ridículo porque ele não podia pegar doenças mundanas.
Mas Deimos sabia o real motivo do garoto se manter afastado. Era porque ele era fodidamente bonito e sexy para qualquer humano conseguir relaxar perto dele, mas foda-se se ele iria sair da cama para que o mimado aí do lado tivesse aquele colchão enorme só para ele. Nunca, a cama era boa e Deimos estava ficando com ela também.
Alias, não era nem um sacrifício dormir do lado de uma belezinha tão apetitosa.
Embora ele lhe desse nos nervos às vezes, Deimos estava orgulhoso do quanto tinha se tornado paciente durante esses anos todos. Claro, ele tinha que evoluir de algum modo e estava louco para conseguir libertar a parte demoníaca dentro de si.
Sim, ele era um demônio e sim ele podia fazer contratos, mas apenas coisas simples, seu verdadeiro poder ainda estava para ser liberto, ele ainda era muito jovem, infelizmente. Sua sorte é que a sua raça, demônios guerreiros, alcançava esse estágio muito mais depressa. Ele mal podia esperar... talvez assim fosse mais fácil de encontrar o que ele procurava no reino humano.
Ele ouviu a respiração lenta e profunda do corpo ao seu lado. Finalmente o garoto dormiu. Deimos imaginava que o rapaz devia estar cansado, mas se surpreendera com o fato de que Ciaran aceitou sua nova vida tão rapidamente. Talvez ele nem soubesse no que estava se metendo e o moleque muito se enganava se pensava que ele iria bancar sua babá.
Estava ansioso para que o dia seguinte chegasse. Finalmente depois de alguns séculos sem voltar para casa Deimos finalmente ia ver se o velho mundo mágico ainda era o mesmo ou se seus contatos ainda estavam vivos.
Ciaran se mexeu ao seu lado, o loirinho se recusara a ficar mais a vontade e estava dormindo de roupa mesmo. Problema dele. Deimos ouviu um pequeno ronco curto.
Oh, seu parceiro roncava?! Não, pareceu que foi só uma vez, mas Ciaran não saberia disso pela manhã.
Ah, Deimos tinha que admitir certas coisas, Ciaran era muito transparente, deve ser algo de magos elementais, eles são diplomatas de nascença e pregam a pacificidade e são excelentes conciliadores, ser transparente só aumentaria a confiança dos envolvidos nele. Ciaran era muito expressivo, a cada coisa que dizia seus olhos se moviam e seu corpo acompanhava seus movimentos, Deimos não sabia se o garoto notava, mas ele corava lindamente com muita frequência.
Deimos sabia que olhos felinos significavam mal pressagio. Era azar na certa. Mas, foda-se se aqueles olhos não eram hipnóticos e malditamente bonitos. Ele não ia negar, estava com muita vontade de provar a pele cálida que descasava ao seu lado, sua boca salivava, além disso a energia. Imagine o quanto de energia ele não conseguiria após transar com a reserva infinita de energia!
Deimos passou a mão pelo rosto e virou-se na cama. Imagine o quanto de energia ele não teria em sua alma. Olhou para o espelho do outro lado do quarto, seus olhos estavam vermelhos.
Isso era uma merda, ele estava com fome, desde que viera para o mundo humano não tivera uma refeição descente. Ele precisava de uma alma. Se alimentar de pingos de energia não era o que ele mais gostava de fazer, claro que era divertido e prazeroso como o inferno, mas era como comer em poucas porções e nunca poder ir a um rodízio e se satisfazer de uma vontade, um desejo forte por uma comida.
Amanhã... amanhã seria um dia legal, ele iria para Damra com uma bela refeição ao seu lado. Uma alma de extrema qualidade ao seu lado, ele podia passar quase um milênio sem comer se a alma de Ciaran fosse sua, ele podia apostar. O que seria um mago a menos no mundo, não ia fazer falta, ele não tinha família nem nada... Ário com certeza ia mandar caçá-lo, mas ele podia lidar com quem ele mandasse para pegá-lo.
Isso era bom. Amanhã ele ia voltar para casa e de quebra ainda matar a fome que o corroía há algum tempo com ou sem a alma de Ciaran.
Deimos ficou olhando a noite pela janela até que os primeiros raios de sol cruzaram o céu, um sorriso se desenhou em seus lábios e ele levantou. Tá, ele sabia que era muito cedo para o humano, mas enquanto ele se vestia já era o tempo necessário para acordar Ciaran e irem para Damra.
Tá, três minutos depois ele estava quase pronto... talvez tivesse que esperar mais um pouco. Deixou o corpo cair na poltrona, seus dedos batucaram nos braços do assento. Tudo bem. Ele não tinha paciência.
— Ciaran. – ele disse e o garoto nem se mexeu. – CIARAN! Levanta.
O garoto só virou de lado na cama e se enrolou ainda mais nas cobertas.
— É cedo. – ele disse arrastado no meio dos lençóis pesados.
—É melhor ir para Damra cedo. E ainda tem que ir buscar suas coisas em casa quando voltar.
— Hmm...
Alguns minutos depois Ciaran sentou-se no colchão ainda meio adormecido, o cabelo marcado e em pé lembrava um pica-pau, mas ele caminhou devagar até o banheiro e se aprontou, pegou a capa e a colocou sobre os ombros.
Deimos apenas sorriu para o mau humor matinal do loirinho que agora se dirigia a porta.
* * *
Ciaran chegou a porta e olhou para trás. Não foi o idiota que o acordou as quatro da manhã, com toda a pressa do mundo?! O que ele estava esperando?!
Oh, bem... Deimos estava com uma blusa preta colada ao corpo, com os braços a mostra, a calça escura também, munhequeiras que pareciam de algo resistente, realmente para proteger, e agora ele erguia duas espadas de aparência bem pesadas, as colocava nas costas e era auxiliado por tiras que as seguravam transversalmente no dorso. Elas deviam pesar mais que quinze quilos... essas coisas não deviam ser leves para facilitar o trabalho?! Ou seja, ele carregava uns trinca quilos nas costas?
Nos coturnos também, Ciaran viu ele esconder algumas facas lá. Tudo bem... ele sabia atirar pedras, agora se ele acertava aí era outra coisa.
— Para que tudo isso?! – ele perguntou se aproximando da revenda de armas.
— Nunca saio sem pelo menos uma arma. – Deimos respondeu sem parar se esconder coisas perigosas por todos os lados da roupa.
— Mas aí tem pelo menos uma dúzia de armas.
— Nunca é o bastante.
— Quanto uma dessas pesa?! – Ciaran perguntou avaliando as duas peças em x nas costas do demônio.
Deimos virou para ele e sacou uma das espadas. Eram brutas e pareciam desgastadas, mas as laminas estavam polidas e brilhantes. Empunhou a lâmina na sua frente e ofereceu para que ele segurasse. Ah, não podia ser tão pesada, Deimos não fazia nem esforço, tá, ele era mais forte que Ciaran tudo bem, mas não era assim tããão maior.
Ciaran recebeu e seu corpo quase ia ao chão com o pedaço de metal maciço, ele chegou aos noventa graus e o loirinho pensou que tivesse quebrado o chão.
— Pesa mais do que você consegue manejar. – Deimos disse com um sorriso divertido. Depois colocou a espada de volta no lugar, devia ser terrível carregar um negocio daquele nas costas o tempo todo! – Estou pronto. E você?!
— Devo levar alguma coisa?! – Ciaran se sentia meio perdido, quer dizer... Deimos estava saindo com um arsenal inteiro, isso não podia significar algo muito bom. E não tinha nada, só Feiy, e ele não queria colocar sua raposa em perigo.
Deimos o olhou de cima abaixo, apontou para a capa e para o cordão com o pentagrama, como se estivesse conferindo.
— Não, acho que está tudo aí.
— É só que parece que você vai para a guerra.
Deimos sorriu e tocou o queixo de Ciaran.
— Não se preocupe, se algo acontecer, eu protejo você. Agora, mova-se.
Hm, Deimos parecia com pressa. Tudo bem então, Ciaran chamou sua raposa e se pôs na direção em que Deimos estava indo.
Aisha estava la fora, já acordado a uma hora daquelas pela manhã?! Ele estava sentado em uma cadeira e desenhava com o dedo na mesa, os longos fios brancos estavam presos em uma trança e ele usava um longos vestido simples, talvez fosse sua roupa de dormir.
— Já acordado, Aisha? – Ciaran falou retoricamente.
— É... estão saindo cedo.
— Vamos a... é... – Ciaran olhou para Deimos que já segurava a porta aberta.
— Damra. – Deimos disse entre dentes. – Mas para isso você precisa andar!
— Ah, lá é legal, você vai gostar. – Aisha falou com um sorriso discreto e a bochecha descansando na mão livre.
— Tudo bem. – Ciaran encerrou se dirigindo a porta.
— Vá dormir, Aisha. – Deimos falou enquanto Ciaran passava pela porta. – Daqui a pouco ele aparece.
— Boa viagem. – Aisha desejou com um sorriso tímido enquanto a porta fechava.
— Hm, ele está esperando Haziel? – Ciaran perguntou quando os passos de Deimos pareciam correr pelo castelo quieto.
— É, ele deve ter saído para se alimentar. Não costuma voltar tão tarde... ele já se meteu em confusão antes e como Aisha é bobinho, se preocupa a toa. O que eu acho ridículo, Haziel é um mero escravo.
— Talvez Aisha goste dele. – Ciaran comentou sem muito interesse. Feiy o seguia muito bem, parecia que estava recuperado... e maior um pouco.
Ele escudou uma risadinha abafada de Deimos.
— Para o bem dele eu espero que não.
— Por que? Haziel parece gostar dele... – na verdade não. – Ele o segue para cima e para baixo e o protege...
— Ele faz por obrigação. Ou não ouviu quando eu disse que ele era um escravo?! Eu imagino como ele se sente, Haziel é um vampiro de primeira classe é forte e é um guerreiro, para ele estar acorrentado a alguém como... como Aisha. – Deimos disse com um desdém inconfundível. – Deve ser uma humilhação gigante para o orgulho dele. Haziel deve ser a pessoa que mais odeia Aisha.
— Você está exagerando.
— Espero que sim, porque já ouvi boatos de vampiros condenados ganharem sua liberdade de volta... Aisha não iria gostar de estar na mira de Haziel por vingança. Na verdade... até hoe eu não sei como Aisha conseguiu um vampiro como Haziel.
Ciaran sentiu o sangue borbulhar, olhou mais adiante, eles se dirigiam a uma porta, e parecia que depois dela havia um belo e enorme jardim. Mas o que Deimos estava falando era um absurdo. Ele apressou o passo e se pôs a frente de Deimos impedindo que ele prosseguisse. Ele não conseguia acreditar que Haziel, mesmo com raiva... só de pensar nisso ele já perdia a calma.
— Não acredito que ele faria isso com alguém como Aisha. Ele é obviamente muito mais fraco que ele! Você faria isso?! – Ciaran viu que pela cara impassível de Deimos... ele faria.
— Lembre-se, chapeuzinho, que não foi você que foi privado da sua vida para viver a vida de outra pessoa. Ele é um escravo preso a um senhorsinho inútil, fraco, débil. Eu entendo bem porque estou preso a alguém bem inútil agora.
Deimos passou por ele deixando de novo Ciaran para trás. Ele sentiu, pela primeira vez, de certa forma, que não estava seguro ficando desprevenido ao lado de Deimos, quer dizer... ele viu, ele percebeu pelo olhar de Deimos que ele tiraria a vida de alguém como Aisha sem pensar duas vezes.
Bem, agora ele pareceu abrir os olhos, ele olhou para o jardim onde várias coisas voavam rapidamente e vários círculos de cogumelos cresciam no chão. Por mais que isso parecesse fascinante, agora as armas que Deimos carregava com ele pareciam mais assustadoras que interessantes, com um canivete, não, não, com as mãos nuas mesmo, não precisava de muito para torcer o corpo magrelo de Ciaran, Deimos podia tirar sua vida num piscar de olhos e ele ali, saltitando de um lado para outro de um demônio... um demônio!
Ele devia ter batido a cabeça muito forte porque ele ainda não tinha parado para analisar a situação. Quer dizer, todos a sua volta eram estranhos, menos a sua raposa. E se ele estivesse sendo enganado, e se o lugar para onde ele estivesse indo era o inferno ou algum tipo de abatedor de garotos como ele, e se tudo aquilo era um sonho e ele estava drogado em cima de uma cama a mercê de algum estranho.
Ele viu Deimos olhando para ele e o chamando impaciente. Por algum motivo o seu coração disparou e a adrenalina subiu. Porra! E se o cara fosse mesmo matá-lo e deixá-lo no meio do mato?
O pior é que ninguém ia sentir a falta dele. Ninguém mesmo. Ele percebeu sua visão ficar turva. Ah, ele não ia chorar agora. Para que isso?! Deimos o olhou curioso de longe, ele estava lá sobre a grama verde e brilhante com os poucos raios da manhã, era uma cena comum e até bucólica, mas ele estava com medo agora muito medo.
Ele tinha que achar a saída daquele lugar. Voltar para casa! Não ia ter ninguém lá, mas e daí, pelo menos alguém ia encontrar seu corpo quando morresse e ele teria um funeral digno e não se perder pelas dimensões onde ele não era ninguém.
Deimos começou a vir em sua direção e as pernas de Ciaran correram na direção oposta. Ele viu uma fumaça tomar a forma de um rapaz e os olhos violeta o encararem curiosos, o que diabos era ele? Ciaran percebeu que era meio lento para processar as coisas... ele demorou um dia para surtar!
O braço forte agarrou a sua cintura e sentiu o peito de Deimos atrás de si moldar suas costas.
— O que o assustou tanto? Você fede a medo! – Deimos rosnou não muito gentil e isso não ajudou em nada seu estado de espírito.
— Eu quero ir para casa. – Ciaran disse com a voz chorosa.
— Agora você parece uma criança mimada, o que aconteceu?
— No que foi que eu me meti... tudo bem que eu não gostava da minha vida sozinho, não gostei durante meus dezessete anos, mas eu também não queria ser morto ou jogado em outra dimensão ou sei lá. – tudo meio que parecia loucura para Ciaran agora, tipo... dimensões, o que?!
— Quem disse que você vai ser morto... ou jogado em outra dimensão? – Ciaran sentiu seu corpo ficar duro, se ele falasse alguma coisa agora, seria seu fim. Ele sentiu e ouviu Deimos suspirar. – Foi pelo o que eu disse sobre Aisha? – Ciaran não quis responder. – Ah, pelos deuses, não é como se eu saísse matando moscas mortas como ele o tempo inteiro e sem motivo, moleque! – agora ele parecia irritado, ótimo. – Eu não vou matar você! – ele disse ainda mais irritado.
— Não parece.
Mais uma vez Deimos suspirou.
— Escute. – ele disse agora com uma voz mais calma e melodiosa, Ciaran sentia o hálito quente perto de sua nuca e os braços se enlaçarem em sua barriga. Isso era... estranho. – Se eu te quisesse morto você já estaria, já tive muitas oportunidades. – Ciaran sentiu os lábios perto do curativo que ainda estava em seu pescoço, estava quase completamente curado, mas ele não queria arriscar.
É. Era por causa de Deimos que ele ainda estava ali também.
— É só que isso tudo... é muito.
— Eu estava achando estranho você aceitar tudo tão rápido. Mas agora que você já surtou, já se acalmou, podemos por favor ir para a minha terra, quero atravessar aquele maldito portal de uma vez. – Deimos terminou puxando a mão de Ciaran com ele em direção ao jardim. – Agora, você é um mago, tem uma kitsune, tem um demônio como dupla, três companheiros de quarto de raças diferentes... você é um sortudo. Você não tinha nada disso dois dias atrás.
Ciaran sorriu para si. Era uma forma de ver as coisas.
— Você é bom nisso... melhorar o astral.
— É porque eu sou um demônio, esse tipo de coisa é o que eu faço para pegar minhas presas.
Ah, bem... Ciaran ia tentar imaginar que Deimos tinha feito aquilo para ajudá-lo.
Ele pisou na grama verde e sua boca caiu. Era um área enorme, cheia de círculos de cogumelos dos mais variados tamanhos e vários insetos pareciam voar rapidamente por cima deles.
— O que são essas coisas voando?! – Ciaran perguntou forçando a vista para ver.
— Fadas. Não as chame de coisas, elas não gostam, é muito difícil de agradar fadas e muito fácil desagradá-las. Esses são os nossos portais e elas são as responsáveis por criá-los.
— Eu achei que elas fossem mais lentas, coloridas e bonitas e boas!
— Elas são, é porque seus olhos não estão treinados e sua magia ainda não acordou. Menos a parte de serem boas... fadas são muito traiçoeiras. – Deimos falou mais baixo a ultima parte. – Bem, esse é o nosso portal.
Os dois entraram no circulo de cogumelos.
— Isso parece ridículo. – Ciaran disse baixo olhando ao redor.
Algo passou voando por ele e tocando seu cordão que brilhou como se vários vagalumes estivessem dentro dele. De repente Ciaran pensou que tivesse caído em um lago escuro, era algo que lhe deu um pouco de náuseas, mas logo pareciam chegar no barro do fundo do rio e o vento bateu em seus cabelos.
Ciaran fechou os olhos para se concentrar e focar melhor, ele não tinha gostado de sua pequena viagem. Não foi nada legal.
— Ali é Damra. – Deimos disse apontando e os olhos de Ciaran cresceram três vezes mais.
Era a maior cidade que ele já vira, os olhos não conseguiam alcançar seu fim no horizonte e parecia que a cidade já tinha vida, coisas voavam sobre ela, Ciaran julgou serem criaturas que ele ainda tinha que conhecer, parecia que eles teriam que descer um barranco. Sem problema. Ruim seria para voltar, ele teria que subir tudo de novo.
— Ainda está do mesmo jeito de alguns anos atrás. – Deimos comentou com um sorriso. Um bonito sorriso. Mas não significava que Ciaran não estava com um pé atrás com ele... demônios costumavam cumprir suas promeças, pelo pouco que lera, se Deimos disse que não ia matá-lo... ele ia torcer para Deimos ser um demônio honrado. Isso parecia que o moreno era.
Ele só não entendeu porque o portal os trouxe para o meio da floresta em cima de um barranco.
— Vamos descer e ir até lá. – Ciaran comentou colocando um pé na frente do outro...
— Vá com... – Ciaran pisou em um buraco e rolou barranco abaixo como um saco de batatas sendo descarregado por uma esteira de madeira. – O caminho. Idiota.
x-x
Deimos lá em cima estava, lá em cima ficou. Quando viu que Ciaran estava bem e tentava levantar ficou aliviado e ao mesmo tempo decepcionado. Bem, ele prometera não matar Ciaran, mas tudo bem, ir para casa dependia do loirinho e isso parecia bem mais apelativo do que a alma apetitosa de Ciaran, quer dizer, ele podia comer outras almas se ele conseguisse voltar para casa e ali estava ele. Foi um pequeno sacrifício a ser feito por um bem maior, o ar do reino mágico era diferente, a atmosfera era mais densa, a terra liberava e sugava energia em um equilíbrio eterno. Ele amava tudo aquilo, se arrependera mortalmente de passar tanto tempo no reino humano. Mas agora ele estava em casa. Casa.
— Você está bem, bobão? – Deimos perguntou e Ciaran segurou um pedaço de madeira velha para ajudar a levantar.
— Estou... só um pouco dolorido e sujo... ahhhhh, sujei a capa nova. – Ciaran choramingou enquanto se encostava na madeira.
— Não se preocupe, chapeusinho, o vovô no instituto vai lavar para você.
— Há há... muito engraçado. – Ciaran sentiu uma leve pontada no pé. – Acho que vou precisar dessa muleta para andar por um tempo. – disse se referindo ao pedaço de galho seco e esbranquiçado como cal.
— Então vamos indo. – Deimos falou caminhando pela estrada onde Ciaran tinha caído, provavelmente uma das mil vias que levava a Damra.
— Vai devagar. – Ciaran falou, mas Deimos já ia a uns trezentos metros a frente.
— Se apresse. – ele falou lá da frente.
Mas que demônio mais chato e insensível, ele tinha acabado de rolar ridiculamente por um barranco e estava dolorido, não custava nada o moreno ir mais devagar.
— Mais devagar! – Ciaran disse e fingiu jogar sua bengala em Deimos, mas só fingiu, a bengala parecia ajudá-lo mais que Deimos!
O problema foi o que aconteceu depois. Uma rajada enorme de vento passou por ele e fez com que Deimos deslizasse pelo chão de terra, ele teria caído se não tivesse se preparado no ultimo segundo.
Ele virou irado para Ciaran.
— Que porra você fez moleque?! – o demonio gritou com ele e ele se encolheu.
— Eu não sei! Eu só...
Deimos vinha em sua direção com o cenho franzido. Colocou a mão em cima da sua no mesmo local onde ele segurava o pedaço de madeira.
— Parece que você não precisa mais comprar um báculo. Acabou de transformar esse pedaço de madeira velha no seu.
— O que?
— Sabe a varinha mágica? Essa é a sua. Magos tem báculos porque a energia dentro de si é caótica, isso funciona como uma antena que comunica sua magia interior com a exterior.
— Quer dizer... que esse galho velho vai ser fonte do meu poder?!
— Isso mesmo. Você é um homem de sorte. – Deimos comentou sarcasticamente.
Ciaran não estava feliz, avaliou a madeira de novo. Estava seca, morta. As castas estavam soltando e eram quebradiças e esbranquiçadas. Era terrível! Ia quebrar a qualquer momento!
— Fala sério... E se quebrar?!
— Eu não sei. – Deimos começou a andar de novo em direção a cidade.
— Ei, espere. Eu que fiz aquilo?! Aquela explosão de ar?!
— Uma brisa...
— Fui eu?! Ah, cara que legal! Como eu faço de novo?! – Ciaran repetiu o movimento e Deimos ergueu a palma das mãos meio preocupado.
— Isso não é brinquedo, moleque, pare com isso!
— Eu quero fazer de novo!
— Vamos terminar essa droga de missão para que você volte logo para casa.
Ciaran estava animado. Seu báculo podia ser meio feio, velho e fraco... mas era legal! Ele tinha mesmo movido uma massa de ar?! Quer dizer, ele tinha mesmo poderes! Isso era tão legal, ele ia aprender como usá-los e assim Deimos não seria mais uma ameaça, um terreno inconstante onde ele tinha que pisar.
Espere... voltar...
— Você quis dizer para ‘nós’ voltarmos logo, certo?!
— Eu não vou voltar.
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