Magic Whisper

12 Quantos iguais ao Aisha você já viu, Haziel?


Haziel andou pelos corredores do instituto em direção ao campo dos portais, Aisha logo atrás dele, ele preferia que Aisha não fosse com ele, não era como se o moleque soubesse fazer alguma coisa mesmo, ele só servia para preocupar Haziel no campo de batalha.

— Qual nossa missão? – Aisha perguntou atrás dele.

— Parece que tem algo matando animais em uma vila ao norte e todos que tentam eliminar a criatura acabaram morrendo, parece que o animal ou o que quer que seja, está atacando as pessoas da vila agora.

— Entendi...

— Quero terminar isso o quanto antes.

O sol brilhava claro lá fora maltratando os olhos de Haziel, ainda era cedo, mas os raios sobre sua pele já a faziam coçar. Ele ia falar seriamente com Ário para mudar o horário das suas malditas missões. Ele era um ser da noite, por que diabos ele tinha que cumprir missões durante o dia... claro, tinha Aisha, mas ele era muito mais forte pela noite até para cuidar de Aisha.

Missões durante o dia só o faziam precisar se alimentar com mais frequência, o que o obrigava a deixar seus reais deveres de lado.

Os dois chegaram ao campo dos portais e seguiram para o centro dos cogumelos. As fadas colocaram as coordenadas no colar de Aisha e os dois seguiram para o outro lado do véu.

Haziel avaliou ao redor, um bosque, mas nada lhe chamou atenção ao se concentrar na mata fechada. Ele escutou vozes a esquerda então seguiu para lá e deu de cara com uma pequena vila em plena atividade pela manhã, algumas carroças levavam jarros de alguma bebida, talvez vinho, algumas barracas com jóias estavam bem guardadas pelo vendedor que fazia suas ofertas e homens grandes que provavelmente estavam ali para evitar um roubo.

Bem, ele tinha que investigar, nada melhor do que uma taverna onde todos sabiam da vida de todo mundo. Ele procurou por todas as poucas ruas da cidade, muitas crianças brincavam, parecia uma vila bem próspera.

Haziel sentiu seu braço arder e se embrulhou com a capa e colocou o capuz, assim era ruim de ver Aisha atrás dele.

— Aisha, ande a minha frente. – ele falou para o garoto que prontamente obedeceu. Haziel sempre achou engraçado o fato de Aisha olhar para tudo ao seu redor como se de fato pudesse ver alguma coisa.

Eles passaram por um beco onde uma trupe de deformados faziam mágicas baratas para entreter as crianças, elas riam com as bobagens, eram apenas pós brilhantes que entravam em combustão facilmente. Tinham cinco deles ali, uma mulher sem um braço, um homem com um tapa olho e a boca mais rasgada de um lado, um homem com o rosto todo coberto de cicatrizes que se estendiam pelo resto do corpo e um homem baixinho sem dentes e sem alguns dedos das mãos e dos pés, faltava uma orelha também.

— O que está havendo ali? – Aisha perguntou no meio do caminho.

— Um grupo de andarilhos faz mágica para crianças. – Haziel respondeu seguindo o caminho, mais a frente ele viu um homem sair de uma casa completamente bêbado, provavelmente era ali.

— Você meu jovem, está interessado em assistir um show de mágica? – o homem perguntou vindo na direção de Aisha.

— Eu não posso ver, senhor. – Aisha respondeu com toda a sua simpatia de sempre.

— Oh, mas que pena. – o homem disse com toda a lábia que alguém de negócios poderia ter. – Mas você parece um jovem muito bonito... gostaria de juntar-se a nós? Como você sabe, não temos muitas vantagens nesse mundo que nos julgam por nossos defeitos. E como você é cego... bem, mas é bonito, a nossa estrela está ficando velha e não atrai mais tanto o público assim. – ele olhou para a mulher mais atrás que bebia uma caneca de alguma coisa. – O que me diz?

Ah! Era só o que faltava, primeiro Haziel tinha virado escravo de um vermesinho que não conseguia enxergar, depois fora obrigado a trabalhar para o instituto e agora ele ia virar um vampiro que participava de um trupe de deformados?! Estava de brincadeira. Aisha não seria tão idiota.

— Não estou interessado, mas obrigado pelo convite. Eu posso ajudar de qualquer forma. – Aisha falou entregando duas moedas para o homem e seguindo seu caminho.

— Espere! – o homem disse segurando o braço de Aisha. – Você deveria...

O homem assistiu todo o tamanho de Haziel se erguer a sua frente, o homem o olhou de baixo e Haziel o encarou de cima.

— Ele disse não.

O homem soltou Aisha lentamente.

— Só ia dizer que não costumamos receber dinheiro sem antes performarmos um show. – o homem disse em uma desculpa visível.

— Hm. Sendo assim, queremos informações pelo dinheiro. – Haziel disse tomando a deixa. – Há quanto tempo estão na cidade?

— Desde a ultima semana senhor.

— O que você sabe sobre os ataques aos animais? – Aisha perguntou em seguida.

— Bom, o que eu soube é que um enorme monstro está matando todos os animais, mas ultimamente ele tem atacado pessoas. Algumas desaparecem e outras aparecem só meio comidas pelos campos, não é nada bonito. Estamos pensando em sair daqui ao nascer do sol. Essa cidade está condenada.

— Por que diz isso? – o vampiro voltou a perguntar curioso.

— Sabe... não é só aqui, os outros reinos também tem comentado, há alguma coisa acontecendo e os celestes tem sido vistos com mais frequência. Os emissários dizem que os Reis tem se reunido com mais frequência também, algo está perturbando o equilíbrio e o desfecho não parece bom.

— E a criatura que está aqui tem a ver com esse desequilíbrio que você fala? – Aisha perguntou novamente.

— Sim, existe um homem na vila que o viu e sobreviveu, ele passou uma noite em choque. As pessoas comentam que viram um enorme búfalo com presas enormes, capazes de atravessar um tronco de árvore sem dificuldade, outros disseram que tem asas de dragão e que parece mais uma besta felina. Ninguém sabe ao certo. Só aparece a noite.

— Não faz sentido. – Haziel falou imaginando se não seria o homem que delirava.

— Onde podemos encontrar esse homem? – Aisha perguntou por ultimo.

— Parece que ele saiu da cidade, mas costumava morar em uma fazenda na saída leste.

— Obrigado. – Aisha falou e Haziel se pôs a andar.

Mas que droga! Quer dizer que essa coisa só aparecia a noite? Perfeito! Teria que passar o dia ali. Ótimo. Bom, sendo assim, ele ia sair e procurar por mais informações, não havia necessidade de Aisha se cansar.

— Aisha, nossa missão só é a noite. Você pode ficar na hospedaria enquanto eu procuro por informações e venho de encontrar.

— Ok, se você prefere assim. – o garoto disse a sua frente. Ele preferia, menos uma preocupação e Aisha estaria seguro e longe de olhos curiosos.

Ele entrou na hospedaria e alugou um quarto, deixando um pouco mais de dinheiro que assegurava que ninguém ia chegar muito perto do quarto.

— Descanse. – Haziel disse antes de sair. – E não saia daqui.

— Pode deixar. – Aisha respondeu com um sorriso minimalista.

Haziel saiu da hospedaria e seguiu o caminho para o leste, quanto mais informações, melhor.

— Haziel? – o vampiro virou-se para a voz conhecida.

— Príncipe? – ele o olhou confuso, assim como Dorian o olhava também.

— O que faz aqui? — ele disse de repente, muito abalado. — E onde está Aisha?

— Eu vim resolver um problema que parece bem perigoso, deixei Aisha na estalagem enquanto procuro por informações. — Dorian apenas concordou e parecia ponderar sobre alguma coisa. – E o senhor?

— Eu vim pagar uma dívida do meu mestre com uma senhora dessa vila. – parecia que o vampiro queria dizer mais, mas Dorian apenas olhou para a estalagem de onde Haziel saía e em seguida encarou o loiro. – Quero que venha comigo, Haziel, tem uma coisa que eu quero que veja. É muito importante.

Haziel não sabia se seguia o seu príncipe ou se ia logo atrás de mais informações, essa coisa parecia perigosa, mas ele não gostava de negar nada ao seu príncipe, mesmo que ele já não fosse. Para Haziel, Dorian seria sempre seu príncipe.

Ele concordou e seguiu o vampiro, de qualquer forma o que ele procurava só ia apareceria a noite e o olhar no rosto de seu príncipe era no mínimo misterioso.

— Tem certeza que Aisha está seguro? – o moreno perguntou entrando na mata fechada, que logo parecia mais uma floresta do que um doce bosque.

— Tenho. – eram quartos privados e Haziel ainda tinha deixado uma quantia maior para que ninguém se aproximasse do aposento.

— Bom.

Eles iam ainda mais fundo e mais fundo na floresta, pularam um pequeno riacho que era mal iluminado pela mata fechada, eles já estavam andando há pelo menos uma meia hora, ele tinha muito para perguntar, mas agora nenhuma das perguntas tinha vindo a sua mente. E quanto mais se afastavam, mais ele achava aquilo tudo muito esquisito e... mesmo que ele tivesse deixado Aisha seguro, nunca era bom ficar longe da coisinha muito tempo.

O mesmo ele diria de seu príncipe e o maldito Hunter.

— Aonde estamos indo, príncipe? – Haziel perguntou finalmente, não era algo muito respeitoso fazer perguntas ao príncipe, mas desde que suas vidas mudaram, Haziel foi perdendo alguns bons costumes... e no momento ele devia devoção a outra pessoa.

— Você já vai saber. Eu estava pensando num modo de mostrar isso a você ou lhe contar, mas com nós dois presos em nossos respectivos papéis, isso tem se tornado difícil.

Finalmente Haziel viu um pouco de luz vindo de algumas árvores a frente, uma clareira? Fazia mais ou menos uns quarenta e cinco minutos que andavam até chegarem ali. Seu príncipe parou onde o sol não os iluminava e Haziel se aproximou.

Na verdade eles estavam em cima de um barranco bem alto, e lá em baixo era uma clareira, com apenas grama, mais adiante um pouco, a mata continuava.

Mais uma vez, o que diabos o seu príncipe queria?

E então Haziel viu Axis, irmão de Aisha e dono de Dorian, aparecer no campo aberto acompanhado de outro Hunter, depois mais dois apareceram, eles estavam conversando e olhando para os lados.

Isso era no mínimo muito esquisito. O que diabos eles faziam aqui no meio do nada?

— Cuidado agora. – Dorian disse com sua voz calma, escondendo-se como podia entre as plantas e Haziel fez o mesmo. Notou Axis e seus olhos esquadrinhando a área. – Ele é muito bom em achar seres escondidos. – Dorian completou, completamente imóvel. – Temos que ficar aqui sem sermos descobertos. – com o tempo eles encontraram um bom lugar para observar, tinham uma boa vista da área e Axis parecia muito mais preocupado em fugir do sol do que mesmo avaliar a área. Haziel não o culpava, o sol era mau.

— Ainda não entendi porque estamos aqui. – Haziel falou novamente sem ver nexo algum, ele precisava completar sua maldita missão e sair do sol. Mesmo que estivessem na sombra, ainda era ruim.

— Tenha paciência, o que você vai ver aqui hoje não vai ser esquecido. Enquanto isso... eu vou contar o que aconteceu antes de você ser entregue a Aisha.

— Com todo respeito, acho que isso não me interessa nem um pouco, príncipe.

— Pois eu acho que vai interessar e muito depois do que você presenciar hoje aqui.

— O que vai acontecer? – Haziel estava morto de curiosidade e pronto para dar uns tabefes no seu príncipe.

— Eu preciso que você veja. – seu príncipe disse como se adivinhando seus pensamentos, nada menos esperado, seu príncipe o conhecia há centenas de anos. – Se eu conseguisse descrever isso eu já teria lhe informado há eras. Mas acho que eu falharia em passar a gravidade e perversidade. Agora, preste atenção a história, talvez mude a sua visão das suas admirações e dos seus pesares. — Dorian se concentrou e começou a falar sem olhá-lo nos olhos. — Tudo começou quando fomos atacados e o nosso clã foi dizimado. Alguns sobreviveram e você escapou.

— Não por muito tempo, ela me pegou alguns anos depois.

— Ela não participou do primeiro ataque. – Dorian o encarou sério. Haziel olhou intrigado para o seu príncipe. – A mãe de Aisha só chegou alguns meses depois. Estava mais para arrastada eu diria. O líder dos Hunters viajou para o oriente para socorrer um clã que precisava de ajuda, chegando lá ele conheceu a mãe de Aisha, filha de um dos líderes que estavam na batalha. Ele ficou encantado e apaixonado, como nunca fora na vida... eles não me disseram, eu vi. O homem saiu do clã dos Hunters frio, rude, grosso e impiedoso.

— Como ele é hoje.

— Como ele voltou a ser hoje, você quer dizer. Quando ele retornou da viagem ele trazia sua nova esposa, ela era Kumiko, significava beleza perpétua.

— Ela morreu apenas quatro dias depois que eu cheguei. — Haziel falou lembrando da bela mulher.

— Não era nada estranho que todos se encantassem por ela, nunca tinham visto mulher mais bonita e era extremamente forte. O pai de Aisha até chegava a sorrir, ele estava feliz e eu notei que não era uma coisa que ele costumava sentir, ficava estranho nele, sabe? Ele não sabia lidar com o sentimento. Então, eu notei duas coisas em seguida. Miko, como ela passou a se chamar no clã, não partilhava da mesma felicidade que seu esposo, mas isso era de se esperar, ele já era muito velho para ela e não tinha nada a oferecer além de anos de matança de vampiros ou seres que saíssem da linha. E a segunda coisa, eu acho que Axis estava apaixonado por ela. Ela tinha a idade dele, mas seu pai que a desposou. Ele nunca falou nada a respeito. Mas eu tenho experiência nisso.

— Então o homem do coração gelado conseguiu se apaixonar?

— Pois é, mas ele a tratava com respeito e nunca se aproximou. Então... Miko ficou grávida poucos meses depois. Eu a notei preocupada e me aproximei dela, eu ainda não era acostumado com as regras de escravidão. Ela apenas me sorriu e conversou normalmente, como se eu fosse um igual, eu contei minha história para ela e ela sentiu por nós.

— Eu não acredito.

— Falo sério. E eu tenho certeza que era verdade. Ela me contou que sua tribo só caçava os vampiros que saiam da linha, aqueles que até nós caçamos, aqueles que drenam a vítima até a ultima gota e que desrespeitam as regras.

— Eu ainda não acredito, são todos da mesma raça sem moral, matando quem eles bem entendem quando se sentem ameaçados, só puro ódio.

— Ela me disse que sua mãe era uma Shame.

Haziel encarou seu príncipe.

— O que?

— A mãe dela era alguém igual a Aisha. E seu pai era líder do clã. Logo, corria sangue vampiro em suas veias.

— Não acredito, ela não tinha nada a ver com Aisha, os como Aisha são, fracos, magros, tem aquele cabelo branco e...

— Quantos iguais ao Aisha você já viu, Haziel?

Haziel ponderou por alguns minutos.

— Eles são raros. Aqui evitamos nos misturar com o inimigo. — era óbvio.

— Só o Aisha, então? — seu príncipe riu dele, não o agradou. — E eles não são raros, meu amigo. Existem aos montes, nós só não prestamos atenção a eles, e os que nasciam eram banidos ou enviados para longe com suas mães traidoras. Miko disse ao seu marido, antes de ser arrastada para essas terras, sobre o sangue que corria em suas veias na esperança que ele desistisse dela. Mas Zonda, o pai de Aisha, disse que não tinha problema, ele disse que sua semente jamais germinaria em solo sujo. — Dorian sorriu ironicamente. — Nove meses depois, Aisha nasceu.

— Eu achei que só acontecia se...

— Eu não sei se Zonda é o pai de Aisha e eu não sei se isso pode acontecer, ninguém nunca esperou para ver o que acontecia se filhos de Shame voltassem a gerar filhos de hunters. Tudo indica que Aisha é mesmo filho de Mika e Zonda, ela tinha sangue vampiro e ele é um Hunter, isso é o suficiente. O que a maldição diz é “quando o sangue da bela criatura da noite que se alimenta do líquido da vida se misturar ao sangue dos bravos guerreiros que equilibram o sombrio, nascerão aqueles que não podem se esconder na escuridão”. Eles tinham tudo para isso acontecer, então, lá estava Aisha. Eu lembro como se fosse hoje. Eu estava no corredor com Zonda e Áxis, esperando o parto acabar. Quando ouvimos o choro do bebê, Zonda se animou, Áxis ficou curioso e eu estava feliz que ela estava bem. A porta abriu e a parteira olhou enojada para Zonda que ficou confuso. Os dois entraram no quarto como uma bala. “O que? É um inválido?”, Zonda gritou para a mulher deitada. Mas não era só o pequeno bebê, branco como leite, e com os poucos cabelos se destacando na escuridão do quarto. Ela olhou para o marido com fogo de batalha nos olhos, claro que ela sabia o que viria por ali, disse “Esse é Aisha, seu filho, e ele é um Shame”.

— Ele deve ter ficado muito puto da vida. — Haziel sorriu sentindo a satisfação da decepção de alguém que se achava tão importante.

— Não só ele, mas Axis também. Disso eu nunca vou esquecer. Zonda caminhou até o lado da cama, e encarou Aisha pacificamente nos braços da mãe, ele arrancou a criança de lá e sacou uma faca. Antes disso, eu pensava que ele teria compaixão e enviaria Aisha para fora do clã para que alguém cuidasse dele. Miko nem sequer se mexeu, ela só disse “se você matar o meu filho eu vou embora, ou me mato, e você não me terá mais ao seu lado.” Eu juro que isso me soou um tanto patético, Zonda era um homem orgulhoso demais para sair no seu clã dizendo que Aisha era seu filho, isso nunca iria acontecer. Ele tremia de tanto ódio e repulsa enquanto olhava para Aisha, seu rosto ficou vermelho, até que Miko tomou a criança de novo nos seus braços, e eu notei que ela estava apavorada, o cheiro de medo me invadiu depois disso. E só podia vir dela. Mas ela era um mulher única e disse “Você vai me jurar, que vai proteger o meu filho se algo acontecer comigo, ele é seu filho também quer você aceite ou não. Eu o avisei que corria sangue vampiro em mim. Você correu o risco. Agora você vai me jurar pela sua honra e pelo seu clã que meu filho não sofrerá dano algum e estará sobre a sua proteção até que você morra. Prometa.” Por incrível que pareça, ele disse sim. Mas voltou a ser o homem frio de sempre, a história sobre Aisha ser seu filho se espalhou na tribo e o fato de ninguém poder tocá-lo ou matá-lo surpreendeu a todos. Os Shames são mortos em alguns clãs de hunters, alguns sobrevivem, mas são poucos.

— Os nossos são deixados a sorte.

— Sim. Muitos sobrevivem, até certo ponto. Então, Aisha começou a crescer...

— Quem são aqueles? – Haziel disse olhando para um grupo de dez novos hunters andando em fila, mas não pareciam com Axis ou com os outros, eles ainda não usavam o casaco azul escuro, apenas uma blusa de mangas da mesma cor.

— São novatos. – Dorian disse. – Estão aqui para a sua iniciação. Uma parte dela.

— Você me trouxe para ver uma iniciação de Hunters? – Haziel perguntou imaginando se seu príncipe tinha perdido a cabeça.

— Já vai começar. Espere só mais um pouco. Valerá a pena. – seu príncipe respondeu. Haziel suspirou e voltou ao que seu príncipe dizia.

—Me admira muito ele ter cumprido a palavra.

— Zonda?

— Sim.

— Mas veja bem... nem tudo são flores. Miko achava que tinha ganhado, que podia sossegar. Ela podia aguentar o olhar de desprezo para Aisha, ela podia aguentar os comentários sobre o que ela deveria ter feito com Aisha, porque ele ia estar protegido de qualquer forma e quando ele notasse o desprezo ela iria explica-lo porque. E, de qualquer forma, ela estaria ao lado dele para ajudá-lo, ela planejava ensina-lo a se defender e planejava levá-lo de volta para a sua tribo, onde ele seria melhor aceito.

— Parece perfeito, pena que ela morreu. — Haziel desejava que ela tivesse conseguido. Pelo menos ele não seria a pessoa sofrendo ao lado de Aisha e aquentando o desprezo de todos.

— É.

— Ela morreu e deixou esse fardo para mim. Ele já estava protegido pelo pai, por que diabos precisava de mim?

— Isso. Era aí onde eu queria chegar. Apenas o pai de Aisha prometeu protegê-lo e cuidar dele.

— É o suficiente, ele é a autoridade máxima.

— Ele não vai viver para sempre. E esse é o problema. — Haziel estava tentando entender onde seu príncipe queria chegar. Ele olhou de novo para o campo e olhou para Áxis, ele dava instruções aos novatos. Haziel sentia dali o tom arrogante e sentia o olhar superior dos olhos frios. Agora ele entendia como dois irmãos eram não diferentes, não tinham sido paridos da mesma mulher. – Isso. – seu príncipe disse. – Está olhando para a pessoa certa.

Para a pessoa certa? Áxis? As engrenagens começaram a funcionar de novo na cabeça de Haziel.

— Quando Aisha tinha quase quatro anos. – seu príncipe continuou. – Ele brincava na grama ao lado da casa, tinha uma enorme árvore com um balanço e ele corria atrás de um gafanhoto. Simples assim. Miko saiu por um momento, entrou na casa. Eu fiquei observando de longe, estava polindo uma espada em um armazém, bem distante. Mas Aisha era tão puro e belo que eu não conseguia tirar os olhos, todas as vezes que ele estava por perto, ele sempre falava comigo e me convidava para brincar, uma vez eu aceitei apenas para Zonda mandar eu me afastar, disse que Aisha era muito importante para brincar com um escravo como eu. Bobagem, ele só...

— Ele só queria isolar o Aisha.

— Isso. E ele teve sucesso, Aisha era uma criança sozinha, nunca soube o que era uma outra criança... Miko saiu e Aisha perdeu o gafanhoto, ele sentou-se no balanço e em seguida correu para dentro da casa, voltou para fora segurando um copo enquanto bebia. Dois minutos depois ele caiu do balanço para o chão como uma boneca de pano. Miko retornou momentos depois de dentro da casa, correu e segurou Aisha nos braços, pegou o primeiro cavalo e partiu da vila levando o corpo do menino.

— Veneno.

— Veneno.

— Quem fez isso? – Haziel perguntou baixo, ainda encarando Áxis.

— Qualquer um naquele lugar podia ter feito isso, não sei como não tentaram antes, mas... você sabe quem fez. Três noites e quatro dias, Zonda estava inconsolável porque sua mulher o abandonou. Na tarde do quarto dia, Miko voltou montada em seu cavalo, e Aisha estava vivo.

— Vivo?

— Aparentemente tinha uma bruxa, um feiticeiro... alguma coisa que morava nas redondezas. Era em uma montanha, todos pensavam que ela já tinha morrido, mas depois da visita de Miko com certeza a bruxa se mudou. O que importa é que Aisha estava vivo. Mas ele estava cego agora.

— Achei que ele tinha nascido assim...

— Não, Aisha enxergava muito bem. Mas alguém fez o favor de deixá-lo cego. Você nunca conversou com Aisha?

— Nunca tive muito interesse. – realmente ele nunca tinha tido, mas parecia que o garoto tinha passado por maus bocados. Por algum motivo ele se sentia um idiota agora, quer dizer, não que ele quisesse saber da vida de Aisha, ele achava que devia ser altamente entediante, mas pelo visto algumas informações poderiam ser úteis para ele.

Para fazer seu trabalho melhor. Claro.

Parando para pensar ele tinha partilhado alguns anos com Aisha, uns 10, e ele notava que não sabia muito sobre... ele não sabia nada sobre o Aisha, apenas que a família dele era uma merda e que ele era um inútil com uma magnífica audição e sentidos aguçados.

— Depois disso, Miko não deixou mais o Aisha sozinho, ela sabia muito bem quem tentara matar seu filho e redobrou os cuidados. Aisha aprendeu a lidar com sua nova condição e Miko o ajudou. Aisha crescia e a antipatia do pai e do irmão apenas aumentava, Aisha crescia forte, saudável e bonito, ele era o próprio reflexo da mãe. Era tudo o que os dois não queriam. Mas Miko estava fraca, ela tremia constantemente e todos sabíamos que algo não estava certo. E então, ela ouviu sobre uma missão de eliminação, era no nosso ninho, e ela escutou Áxis falar sobre você.

— Sobre mim?

— Ele estava alertando os outros. Nós fomos e ela foi junto, rezando para que quando ela voltasse, Aisha ainda estivesse respirando. Bem, o pior inimigo estava bem ao lado dela, então devia ficar tudo bem. Miko só foi a essa missão com a intenção de pegar você, Haziel. E...

— Dessa parte eu já sei. Ela me trouxe de volta. Eu estava fraco e tinha perdido muito sangue. Meus pulsos estavam atados com prata e isso dificultava a minha fuga, quando cheguei no quarto eu vi aquela figura estranha sentada na cama, eu amaldiçoei aquele lugar por abrigar um Shame. Ela disse “Venha aqui Aisha” ele obedeceu e ela me chutou até que eu estava no chão, praticamente imóvel. “Coloque o seu pé sobre ele, Aisha.” O garoto obedeceu. “Levante”, ela disse a mim, mas eu não conseguia, simplesmente não conseguia. “Diga o que nós combinamos, Aisha”. “V-você desiste?”, Aisha disse meio incerto. Eu estava tão malditamente fora de mim que eu respondi que sim, e eu o ouvi dizer as palavras do encantamento, algo como escravo, do meu sangue... não lembro. Eu sei que senti meu pescoço arder, eu não me preocupei porque eu estava apagando e eu tinha certeza que ia morrer. Até que alguém enfiou o pulso na minha boca e a sede foi maior.

— Desculpe. Fui eu. – seu príncipe disse e Haziel ficou sem palavras. Seu príncipe tinha tido um papel na sua perda de liberdade. Podia ter sido misericordioso e o deixado morrer!

— Depois disso... eu vi a coleira no meu pescoço e o bracelete escuro no pulso de Aisha. Foi o pior dia da minha vida. – Haziel falou sentindo toda a raiva que ele possuía voltar, até ele olhar de novo para Áxis. Ele ainda o achava o pior dos vermes, mas era um guerreiro genuíno que poderia derrotar Haziel em uma luta justa, se fosse seu escravo era compreensível que tivesse perdido, ele seria honrado porque fez o seu melhor, mas o inimigo fora mais forte. Mas, estar preso a Aisha... – Como tem tanta certeza que foi Axis, ele parece tratar Aisha... bem, na medida do possível.

Dorian ficou em silêncio, Haziel o encarou e seu príncipe parecia pensar no que ia dizer.

— Eu comprei o veneno. – Haziel olhou incrédulo o seu príncipe. – Não sabia que era para ele. E mesmo que soubesse, não podia fazer nada. Ele é meu mestre afinal. Haziel tenho certeza que você sabe, as aparências...

— Vem chegando alguma coisa. – Haziel disse olhando o início da clareira. – Parece uma carroça... com prisioneiros.

— Agora, olhe para mim. – o tom de seu príncipe mudou e Haziel o olhou. Era o mesmo tom de comando de quando Dorian mandava em seu clã. Uma dor nostálgica o tomou. – Nada do que você vir aqui deve chegar aos ouvidos de Aisha, não importa o que você vir ou ouvir, você vai ficar bem aqui nesse lugar. Não faça na estúpido. Entendeu? — porque diabos ele faria algo estúpido? – É uma ordem do seu príncipe.

Há muito tempo Haziel não ouvia isso. E há muito tempo Dorian não usava sua autoridade, ele estava ficando tenso e apreensivo. Ele assistiu Axis mandar os novatos para o outro lado do campo e mandou que se armassem, antes de puxar o pano que encobria a carroça de prisioneiros.

Haziel ficou paralisado, em choque. Tinham pelo menos umas vinte e cinco pessoas apertadas ali, algumas eram crianças, dois adultos e alguns adolescentes.

Todos eram iguais a Aisha.

Cabelos brancos, olhos claros, beleza incomum e ar angelical. Nenhum era tão bonito quanto Aisha, mas todos tinham aqueles padrões.

— O que vai acontecer? – Haziel perguntou, ele parecia uma criança apreensiva, mas... ele não queria ver o que estava por vir. Ele sentia nos seus ossos o que estava por vir.

Axis mandou que descessem e os colocou em fila sob o olhar atendo dos outros homens veteranos.

— Hunters! – Axis disse do meio do campo e os novatos se prepararam, cada um sacou sua arma e se colocaram em modo de combate. Haziel viu o medo estampado nos rostos das crianças e dos adolescentes, alguns não tinham nem dez anos!

Já o rosto dos Hunters brilhava de adrenalina e excitação.

— São apenas crianças! – um dos adultos gritou para Áxis.

— Vou dar um tempo para que tentem salvar suas vidas. Acho melhor correrem.

Os Shames se espalharam e correram para os bosques. Áxis esperou 2 minutos.

— Cacem! – Axis gritou e os novatos correram ao ataque.

Não demorou muito e Haziel ouviu gritos ao longe e suas pernas estavam paradas, qual tinha sido a última vez que ele tinha ficado imóvel daquele jeito?

Ele viu um adolescente correr na direção deles, o garoto era rápido, mas não era pareo para caçadores treinados. Pouco tempo depois um Hunter veio na sua direção e uma flecha enorme, usada para matar vampiros, atravessou o corpo do rapaz que caiu imóvel. O Hunter se aproximou, recuperou sua flecha e cuspiu no corpo do rapaz.

— Eu vou... ajudar. – Haziel disse um tanto confuso. Ele queria ajudar aquele tipo de gente? Ele só conseguia pensar em Aisha.

— São shames. – Dorian disse sarcasticamente.

— Mas isso é... – isso era repulsivo além da conta. Até para ele. Podiam não ser fruto de orgulho, mas ele não se importava que vivessem suas vidas por ai.

— Sabe, depois de assistir isso ano após ano... eu realmente não tenho mais antipatia ou repulsa por eles. Eu costumava ter. Quando eu vejo um eu tenho pena e vontade de mandá-los para o mais longe que eu puder.

Os dois ouviram um último grito e os ossos de Haziel congelaram. Era um gripo infantil, e então ele sentiu o cheiro fraco do sangue vindo com o vento e um a um, os novatos apareceram de dentro dos bosques, alguns sujos de sangue inocente e seus próprios sangues.

— Muito bem. – Áxis disse. – Por que fizeram isso?

— São frutos de uma conjunção maldita. São sujos e uma vergonha para os costumes e crenças de tudo o que é ser um Hunter. Devem ser eliminados para que esse erro não seja estimulado nem passado adiante. – um dos novatos falou, nenhum deles sentia remorso ou qualquer coisa parecida, eram simplesmente inespressivos. Eles realmente pensavam que aquilo era algo normal.

— Acalme-se, Haziel. – Dorian falou com sua voz calma.

— ME ACALMAR? SE AISHA NÃO FOSSE O MALDITO FILHO DO LÍDER ELE JÁ TERIA IDO PARA LA HÁ MUITO TEMPO!

— Oh, sim, mesmo sendo, não lembra o que eu disse? Zonda ia matá-lo assim que nasceu. Mas isso não importa, eu só quero que você preste atenção no que eu vou dizer agora.

Haziel viu o corpo de duas crianças sendo arrastado do meio do bosque e jogados de volta na gaiola. Isso era doentio.

— Haziel! – Dorian falou um pouco mais autoritário, – Eu sei que você ainda está chocado, mas o que eu tenho a dizer é importante.

— Não há gloria em matar mulheres e crianças. Guerreiros devem combater guerreiros.

— Eu sei. Haziel...

— Eles são covardes.

— Haziel. – Haziel finalmente olhou para o seu príncipe. – Zonda sempre protegeu Aisha por obrigação e nunca fez mais do que apenas o essencial. Assim que Miko morreu, ele empurrou Aisha para o instituto. Primeiro, porque Aisha era a figura viva de Miko, segundo, porque se ele morresse no instituto não era problema dele, afinal ele tinha você. Áxis nunca, nunca prometeu nada a Miko, ela sabia que não conseguiria barganhar com ele. Eu sei que eu disse que Zonda odiou o nascimento de Aisha, mas não chega nem aos pés do inferno que isso significou para Áxis, ele não aceita, ele não quer e ele não vai ter um parente tão sujo quanto Aisha. Ele só não tentou nada contra Aisha ainda em respeito ao seu pai, para não deixá-lo em maus lençóis como no dia do envenenamento. Mas Zonda está velho, está fraco e abatido. Não vai demorar até que Axis assuma. A primeira coisa que ele vai fazer é ir atrás de Aisha.

— Deixe ele tentar. Esse maldito vai...

— Ultimamente, eu o tenho pegado pensando muito e de vez em quando eu me atrevo a perguntar sobre o que... ele responde: meu querido irmão. Isso sempre faz um frio percorrer meu corpo. Eu não quero imaginar como ele vai por as mãos em Aisha ou o que ele planeja fazer depois ou...

— Ele não vai tocar em Aisha. – tudo bem, Haziel podia não morrer de amores pelo pequeno rapaz, mas por mais irritante que Aisha fosse, Haziel sabia que Aisha não podia parar nas mãos desse maníaco maluco. Ele não merecia isso.

— Eu espero que não. E mais uma coisa... se Áxis pudesse voltar no tempo. O escolhido para ser escravo dele seria você.

— O que?

— Depois de ver você com Aisha e tudo mais, ele decidiu que você era mais apropriado para ele.

— Achei que ele queria o mais forte de todos nós.

— E queria. Nós dois sabemos Haziel, que se você quisesse o meu título, você o teria. Claro que eu iria dar um trabalhinho. — Dorian falou em tom de brincadeira. Mas logo voltou a seriedade. — Ele planeja adicionar você a sua coleção quando ele matar Aisha.

— Ele não vai encostar em Aisha, eu já falei! – agora os malditos recolhiam os corpos e Haziel só conseguia pensar em Aisha.

— Sei disso.

— Isso é impossível. Ele já tem você, não pode ter dois escravos.

— Quem disse? – Haziel nunca visto algum Hunter com dois vampiros, isso... – Ele tem dois pulsos não tem? — ele não tinha pensado nisso. – Acho que é isso que eu tenho para dizer. Ah, sim... — Dorian disse começando a se distanciar. — Sabe aquele homem que gritou para Axis “são só crianças?”- Haziel assentiu. – Ele era trabalhador doméstico de uma mulher na vila onde estávamos. Axis pagou por ele a mulher e eu estava lá para deixar o dinheiro. – o que? – Já pensou se ela espalha para os donos da estalagem que aqueles como Aisha valem dinheiro? Então, eu pergunto de novo, Aisha está seguro, Haziel?

Aconteceu tudo meio rápido, Haziel segurava seu príncipe pela roupa. Seus dedos estavam tão apertados que Haziel sentia suas unhas do outro lado do tecido.

— Por que não me disse antes?!

— Isso é para você aprender! Eu trabalho para o pior ser que já pisou nesse lugar maldito! Não confie tanto em mim! Eu não sou mais o seu príncipe! Infelizmente, eu sou o seu inimigo agora! Hoje eu te ajudei porque você estava com um pau enfiado na bunda e não percebe o quão preciosa é a vida pela qual você é responsável! Faça seu trabalho e o proteja direito...

— VOCÊ NÃO PRECISA ME DIZER ISSO!

Haziel empurrou o vampiro para longe e fez o seu caminho de volta, aumentando o ritmo a cada passo, sua cabeça estava a mil, era muita informação muita coisa para pensar e refletir. Mas ele sabia que no fim, Aisha precisava de alguém do lado dele e finalmente ele entendeu o que a maldita mulher queria. Ele sabia que Aisha ia dar trabalho, mas ao ponto dele se confrontar com o líder dos Hunters que destruiu sua casa e sua família... ele não podia pedir mais!

Mas no momento ele não conseguia ficar animado com a ideia, ele só esperava que Aisha não tivesse sido jogado numa maldita carroça para ser vendido aos hunters. Se isso tivesse acontecido, a pequena cidade ia tremer sobre sua fúria. Ele já não estava no melhor dos humores e o sol já estava se pondo.

Haziel fez o percurso de volta em metade do tempo, ele estava um pouco suado, mas isso não importava, ele entrou na estalagem chamando a atenção de muitos e lançou seu olhar aos donos que se encolheram. Ele estava diante da porta de Aisha no segundo andar em dois tempos.

— Aisha. – ele disse batendo na porta uma vez e sentindo o aroma de ervas. Haziel entrou em seguida, observando Aisha preparar alguma coisa dentro de uma caneca de metal, era aquecida com uma vela e cheirava a planta.

— Olá, Haziel. – Aisha disse com um sorriso simpático em sua direção e voltando a atenção ao que fazia. Haziel sentiu seu peito apertar aos poucos e um desconforto tomar conta da boca de seu estômago. Ele viu Aisha tatear a penteadeira de madeira e colocar a caneca em cima, depois ele começou a assoprar. Ele já tinha visto Aisha fazer isso mil vezes, tatear sobre as coisas, mas hoje teve um significado diferente. Hoje ele poderia enxergar se não fosse...

Haziel caminhou até a cama e sentou-se sem tirar os olhos de Aisha.

— Você encontrou informações? – Aisha perguntou iniciando a conversa de sempre.

— O que você está fazendo? – Haziel perguntou curioso com o que tinha dentro da caneca.

— O que? – Aisha perguntou olhando em sua direção.

— O que tem na caneca?

— Ah... quer mesmo saber? – Aisha perguntou descrente, qual é o problema com a pergunta claro que ele queria saber.

— É um... uma pasta de ervas, ajuda na cicatrização de feridas, é muito boa, de verdade.

— Você está ferido? – Haziel podia sentir a apreensão em sua própria voz e isso soou estranho.

— Hmm, não... – Aisha disse meio reservado e confuso. – É para você.

— Para mim?

— É, pelo que eu escutei na taverna lá em baixo, essa coisa tem grandes dentes e garras. É para o caso de você se machucar.

— Você saiu do quarto? – Haziel perguntou subindo o tom de voz. Ele disse para não sair, qualquer coisa podia ter acontecido!

— Não! – Aisha disse prontamente. – Eu deixei a porta um pouco aberta e escutei as conversas! Eu não preciso me esforçar muito, eu simplesmente escuto.

Isso era verdade.

Tinha conseguido mais informações que ele. Aisha veio em sua direção e parou na sua frente, Haziel não entendeu muito bem, mas então as duas mãos macias e aveludadas de Aisha correram para o seu rosto, Haziel sabia o que ele estava fazendo, era reconhecimento, Aisha tinha feito a mesma coisa no dia seguinte que eles fizeram o pacto, mas ele tinha sentido repulsa, no momento... para Haziel era reconfortante. Ele relaxou um pouco e fechou os olhos para o toque gentil. Mas seu peito ainda estava apertado, uma agústia estranha e diferente.

— Por que está fazendo isso? – Haziel perguntou quando uma das mãos se aproximou de sua boca, então Aisha se afastou e ele sentiu imediatamente a perda.

— Estou confirmando se é você mesmo.

— Por que?

— Está... agindo estranho. – Aisha falou de um jeito que tentava amenizar as palavras, provavelmente para não irritar o Haziel. Aisha o irritava com frequência, ele lembrava.

Haziel segurou o pulso de Aisha e o puxou para suas pernas, sentando Aisha ali. Isso, era isso, ele sentiu o calor emanando do corpo menor e os músculos rígidos e apreensivos, mas seu próprio corpo relaxou, sua angústia diminuiu. Finalmente Haziel conseguia pensar que ele podia realmente protegê-lo de um clã inteiro de Hunters. Ele suspirou.

— O que está acontecendo? – Aisha perguntou apreensivo, tentando detectar a ameaça, Haziel só costumava puxá-lo assim em situação de risco, o vampiro sorriu para si.

— Eu já disse que quando eu fizer isso você não deve perguntar só me obedecer. – ele disse próximo ao ouvido perto de si. Aisha só concordou. – Confie em mim. – aos pouco Aisha relaxou e esperou, descansou a cabeça no peito de Haziel.