Magic Whisper

13 Ciaran era dele!


Deimos avançou para o mago que parecia bem despreocupado, um toque do cajado no chão e um muro de fogo se estendeu a frente do invocador para impedir o ataque do demônio.

Ele não pensava que Deimos era idiota, ou sim?

Ele continuou correndo na direção do inimigo e arremessou uma das suas espadas onde ele tinha visto o mago pela ultima vez.

Se esse cara pensava que podia chegar ali e ir mexendo nas coisas que pertenciam aos outros sem ter consequências, oh, meu amigo, ele tinha vindo mexer no território errado!

O objeto cortante atravessou a parede de fogo deixando uma abertura pelo vento, suas espadas eram mais pesadas e maiores que a maioria, Deimos notou que o mago tinha se movido do local anterior, mas ele errou por muito pouco de qualquer forma, sua espada ficou presa entre as rochas do castelo e a parece de fogo.

Ciaran era dele.

E ele achava que tinha deixado bem claro para todos do instituto esse pequeno detalhe, todos pareciam ter entendido, menos um mago novato que Deimos ainda tinha feito questão de afirmar seu território verbalmente no dia anterior, só para o caso de a sua linguagem corporal não ter falado por si só! O desgraçado ainda tinha tido a audácia de tentar fazer mal a Ciaran.

Deimos continuou correndo e atravessou a barreira antes que ela se fechasse novamente, pulou sobre a parede de pedra e arrancou sua espada já preparando o ataque seguinte, o mago já não parecia tão a vontade. Talvez tenha percebido que ele não estava ali para brincar.

Dessa vez uma barreira de gelo cresceu diante de si e Deimos usou a lamina pesada de suas espadas para quebrá-la, não é que funcionou? Deimos viu finalmente a preocupação nos olhos do mago quando ele derrubou o homem no chão e estava em cima dele pronto para o golpe final. Damir tinha perdido seu báculo no impacto com o chão.

— Você ainda não me disse porque está tentando me matar. – o mago falou quando Deimos ergueu o pedaço de aço mirando em seu pescoço.

— Você sabe, essa ladainha não me... – alguma coisa o cegou e bateu no seu olho, não importava o quão forte ele fosse alguma coisa no seu olho ainda o incomodava, ele viu pelo canto do segundo olho, era a maldita fada que andava com o homem em baixo de si.

Aconteceu rápido, o mago pegou seu cajado novamente e em segundos, seus pulsos, seu pescoço e seu corpo estavam presos por cipós grossos e rígidos de plantas que brotavam do chão.

Ciaran ia ser capaz de fazer isso um dia? Talvez sim, mas com a ajuda de outro professor.

Deimos sentiu seu corpo ser arrastado para longe do maldito mago que agora se levantava do chão.

— Agora eu realmente quero entender o que está acontecendo aqui. Você quase me matou a sério. – o homem falou se recompondo de pé. Ele achava que Deimos estava brincando?

— Se você queria a alma dele devia consegui-la justamente! Você quase me enganou com o papo de não querer bagunçar com o equilíbrio do mundo das almas e tudo mais...

— Eu ainda não sei do que você está falando... se é do meu pupilo, eu realmente não me interesso por sua alma. Mas sim, reconheço que ela é algo raro. Meu poder iria aumentar muito se a tivesse.

Era dele! A maldita alma era de Deimos! O corpo de Ciaran era seu! Tudo era seu! Esse imbecil não teria a chance de se aproximar de Ciaran de novo, ele não ia deixar a vida do garoto ser descartada tão facilmente por alguém tão baixo!

— Você não vai... – Deimos começou a puxar o próprio corpo se livrando dos cipós.

— Acalme-se, não quero machucá-lo. – o homem falou desdenhando de si, desdenhando? Deimos era muito mais forte do que malditos magos de araque!

Ele soltou seus pulsos e suas pernas da maioria das plantas, o mago pareceu não gostar muito do que via, em seguida plantas com espinhos se envolveram em seus braços e pernas, mas isso não ia parar Deimos, não mais. Como se meras ervas daninhas pudessem parar um demônio guerreiro de destruir um inimigo. Ele sentia o poder fluir.

Seus músculos enrijeceram e ele saiu em disparada deixando para trás os galhos e alguns pedaços de pele que se prenderam aos espinhos, mas não era grande coisa, esses pequenos machucados não significavam muito para si, cicatrizariam logo.

Deimos ganhou em velocidade e ele viu um tanto de medo e desespero quando ele estava a poucos metros de arrancar o pescoço do mago fora, o demônio viu seu reflexo nos olhos apáticos do mago e mais uma barreira de gelo surgir na sua frente... mas dessa vez não ia dar tempo, era o fim de um infeliz mago negro.

Ciaran era dele!

— Deimos! – a voz veio da porta.

O moreno se desconcentrou e um passo errado foi o suficiente, as plantas o agarraram de novo e ele se sentiu puxado para trás, ele não ia desistir de matar o desgraçado! A raiva queimava dentro dele como um combustível sem fim.

Ciaran no quarto pulando a janela. Só mais alguns segundos e já era... ele teve muita sorte.

Seu braço esticou e ele sentiu a lâmina espessa cortar a carne lisa do rosto alheio, ele tinha acertado e por pouco muito pouco o maldito não tinha ido prestar contas no reino dos mortos.

Deimos sentiu seu corpo voar e se chocar forte contra a parede. Ele ficou um pouco tonto, foi um impacto e tanto, ao abrir os olhos, esquifes de gelo estavam vindo na sua direção, ele seria mutilado por essas coisas!

—x-

Ciaran apareceu no grande salão para ver uma cena muito bizarra se desenvolvendo, Deimos estava prestes a atacar o seu tutor, ele só conseguiu gritar o nome de Deimos porque... e agora o que ele podia fazer?

Deimos ainda conseguiu acertar o seu professor com aqueles pedaços de ferro enormes que ele chamava de espadas, mas as plantas que saiam do chão atacaram o moreno e agora ele estava sendo jogado contra a parede de pedra!

Seu peito apertou, ninguém sobrevive a uma pancada daquelas. Mas Deimos não era normal, então ele esperava mesmo que o seu parceiro estivesse bem. Ele correu até a parede para afastar as preocupações. Deimos era preso por plantas normais e algumas que pareciam mortas, de coloração roxa e negra.

Ciaran viu o rosto de Damir em um misto de ódio profundo e sangue que escorria livre por sua bochecha. Isso não podia significar boa coisa, o jovem mago assistiu esquifes de gelo brotarem do chão na direção de Deimos! Ele apertou os passos.

Damir não ia empalar o demônio, ia? A julgar pela expressão do homem e das estalagmites crescendo grossas, fortes e mortais na direção de Deimos, ele ia. Ciaran não podia fazer nada! Ele não sabia fazer nada!

Bom, ele só seguiu o seu instinto... que tinha uma certa tendência a ser meio suicida, as ele esqueceu no momento. Ele só correu para onde Deimos estava sacudindo a cabeça e focando seus sentidos.

Ele se pôs em frente ao gelo mortal que se projetava já bem perto de Deimos. Ele só estendeu as mãos mandando que o gelo parasse. Ok, isso não era inteligente, o gelo não estava parando de crescer. E mais uma vez, seu báculo tinha sido deixado no chão do salão. Ok, o fato de Deimos ser morto estava assustando a merda fora dele. O que menos importava era um pedaço de madeira meio inútil no momento, ele ia precisar das duas mãos se quisesse quebrar esse gelo.

— Ele é um idiota mesmo, Damir... – Ciaran começou tentando fazer o seu mestre perder aquela expressão de ódio e reconsiderar.

— Ele tentou me matar, eu estou retribuindo o favor. – seu mestre respondeu.

— Por que? – Ciaran ia cada vez mais para trás até encostar no corpo preso atrás de si.

— Saia daí! – seu mestre gritou quando uma estalagmite cresceu em direção ao seu pescoço. Feiy correu para atacar o mago. Isso não era boa coisa! Isi o impediu e os dois meio que ficaram brigando pelo salão.

— Eu não... – estava tudo enlouquecendo? – Eu não vou sair daqui! Vocês vão me dizer o que houve e ninguém vai matar ninguém!

Qual era a chance de ele sair dali e deixar aquelas coisas perfurarem o que restava de Deimos? Era zero. Sim, restava porque depois de um choque daquele, Ciaran não esperava muita coisa.

Ciaran ouviu algo atrás de si, era apenas Deimos rasgando as plantas que o mantinham preso, mais uma e outra surgiam no lugar das que cediam, mas Deimos não parecia desistir, ele mantinha a pesada espada em uma das mãos e cada instante que passava a expressão de Deimos se tornava mais e mais animalesca, seus caninos cresceram um pouco e seus olhos mudaram para o vermelho vivo. Era como se tudo o que importasse para ele fosse se livrar das amarras.

Deimos arrancou seu corpo dali deixando as plantas para trás e descendo a frente de Ciaran, empurrando o loirinho para perto da parede de pedra, em seguida cortou o gelo espesso como se fosse queijo. Aquilo devia ter uns oitenta centímetros de espessura perto da base! Alguns ele quebrou com a mão!

Ele estava de pé diante de si e ofegante, Ciaran viu vários ferimentos em Deimos, alguns pareciam bem sérios, mas o demônio parecia nem senti-los. Seus olhos estavam vidrados no mago e ele ainda mantinha posição de combate.

Finalmente a loucura parou. Ciaran tentou ver seu mestre diante de si, mas Deimos estava entre os dois, respirando pesado e bem concentrado no homem que estava em cima do baixo palco adiante.

Os dois se encaravam e Ciaran não conseguia entender qual era o problema.

— O que está acontecendo, Deimos? – ele disse sem saber se tocar ou não o moreno era uma boa ideia, mas ele precisava disso no momento, como essa loucura tinha começado?

Quando ele tinha acordado, Aisha estava cuidando de uma ferida horrível nas costas de Haziel e mandando que o vampiro fosse se alimentar o mais rápido possível. O garoto tinha lhe dito que Deimos saíra com um espírito assassino, ele achou normal por algum motivo, mas ele não sabia que o espírito assassino era por causa de seu novo treinador!

Ciaran tocou as costas de Deimos que pareceram ficar tensas por alguns segundos e relaxaram em seguida.

— Ele foi o responsável por tentar matar você na noite passada. – o demônio disse em uma voz grave e sem o mínimo tom de brincadeira.

— O que? Como você sabe? – Ciaran saiu confuso de trás de Deimos e foi encarar o moreno guerreiro, que não estava afim de encará-lo de volta, o demônio estava de olho no mago perto da janela, a fada que andava com Damir estava cuidando de seu ferimento. Ela brilhava e um pó fino caia sobre o rosto do mago.

— Aquilo era magia negra, eu tenho certeza disso.

— Podem me explicar do que estão falando? – Damir perguntou não muito contente com a situação em que se via. Mas seu rosto parara de sangrar e a ferida tinha fechado, Ciaran duvidava que a cicatriz ia sair um dia.

— Você tentou matá-lo na noite passada! Diga a ele! – Deimos gritou para o homem.

Era verdade? Ciaran olhou confuso para o homem, que parecia tão perdido quando ele.

— Eu não estou entendendo. Fale tudo de uma vez. O que diabos aconteceu noite passada?

— Eu estava... dormindo. – Ciaran disse querendo, como todos ali, entender a situação. Ele deu um passo a frente, mas Deimos deu um em seguida bloqueando o caminho de Ciaran. Ele tocou o braço exposto para dizer que estava tudo bem, mas Deimos não parecia relaxar. – Eu sonhei que estava em uma floresta ensolarada, muito bonita, calma e tranquila, e que caminhava para um campo de flores mais abaixo de um barranco. Mas quando eu ia pular uma sombra negra me alcançou e me puxou de volta, quando eu acordei era Deimos que me segurava e ele tinha impedido que eu pulasse da janela.

O mago pareceu surpreso e confuso ao mesmo tempo.

— Hum, isso parece mesmo magia negra. – seu tutor disse tocando a sua nova cicatriz. – Mas não fui eu.

— E você quer que eu acredite que um dia após você chegar Ciaran quase é morto com magia negra e a culpa não é sua? – Deimos disse entre dentes.

— Mas, espera... – Ciaran ia argumentar, mas...

— Qualquer um podia querer matá-lo. – Daren falou chateado. – Você não precisava ter vindo me matar sem provas!

— Qualquer um? Usando esse tipo de magia covarde? Se eu não tivesse impedido a tempo isso teria parecido um simples suicídio!

— Entendo porque você acha isso Deimos, mas... – Ciaran começou de novo.

— Por que eu ia matar o garoto se a minha raça já está quase extinta?

— Porque você quer a alma dele!

— Eu não quero, eu já disse isso uma vez. Minha raça precisa de toda a ajuda possível, ele é um dos poucos que ainda podem procriar! Não iria matá-lo!

— Ele não pode. Ele prefere homens.

Os olhos de Ciaran cresceram três vezes em direção a Deimos. Como assim? Ele sentia o seu sangue se concentrando nas suas bochechas.

— Como você diz isso com tanta certeza? – Ciaran falou a Deimos.

— Eu vejo como você olha para mim. Agora, quieto, estou tentando provar um ponto aqui.

O que?

— A esperança é a ultima que morre, nunca ouviu?! – Daren comentou. – Sua acusação para comigo é descabida, você não tem provas nenhuma! E eu estou aqui a pedido de Ário, sou caçado pelos celestes, por que eu iria querer me meter com esse tipo de merda?

— GENTE! – Ciaran gritou finalmente tendo a atenção dos dois. – Deimos, não faz sentido ele ser o responsável. Eu já tenho sonhos estranhos desde pequeno. E ele não me conhecia antes.

— Você nunca me disse isso. – o moreno falou finalmente dando atenção a Ciaran.

— Eu falei.

— Você só me falou de uns pesadelos.

— Então? É estranho. Mas... ninguém nunca tinha tentado me matar antes. Essa foi a primeira vez.

— Acho que está na hora do seu presente. – o mago disse subindo as escadas laterais e indo para um quarto escuro. Ele voltou trazendo um saco médio cheio de algum tipo de material.

Ele colocou o saco no chão e chamou Ciaran para perto dele, o loirinho viu várias pedras brilhantes sendo reviradas dentro do saco de papel. Todas as cores e formatos estavam ali.

Até que Daren retirou uma pedra do tamanho de um punho, de um violeta escuro e mal lapidada, ele ofereceu a Ciaran.

— Esse é o meu presente, como prometi. É o seu cristal. Essa é a ametista, ela protege contra energias negativas, ajuda na cura do corpo e do espírito e sempre o ajudará nas decisões difíceis quando se precisar fazer justiça. Mas o maior motivo pelo qual eu escolhi esse cristal foi essa revelação de hoje. Tem alguém que não está forte o suficiente para vir vê-lo pessoalmente, Ciaran, então está atacando no momento em que você está mais vulnerável, que é quando você dorme. Essa pedra afasta os pesadelos e a insônia, limpa as suas conexões interespirituais. Se alguém quiser mexer na sua cabeça, vai ter um pouco mais de dificuldade. Entendeu?

— Uhum. – Ciaran recebeu a pedra e ficou olhando para ela um tempo. Isso seria legal, ele ia conseguir dormir bem agora, a figura encapuzada de seus sonhos ainda lhe dava calafrios.

— Vai dizer que a pedra está amaldiçoada também? – Damir falou em direção a Deimos.

— Se isso pudesse acontecer eu não duvidaria. Mas cristais são purificáveis. Não sou idiota. – Deimos respondeu recolhendo suas espadas, mas Ciaran sentiu que os olhos carmim ainda estavam em si.

— Quando chegar no seu quarto, você vai purificar o seu cristal. O seu livro deve ensinar. Agora... quero que me conte o que você vê nos seus sonhos, para que eu e, principalmente, o louco do demônio ali consigamos entender o que se passa com você. Provavelmente, você vai precisar de muita ajuda.

Deimos sentou em um dos bancos que estavam inteiros e esperou que Ciaran começasse a falar. A maioria tinha sido retirada dali.

— Bom, eu vinha tendo um sonho constante em que eu aparentemente andava por um corredor e no fim dele tinha duas portas, uma a esquerda e outra a direita, mas nunca conseguia entrar. Costumava ter uma pessoa esperando por mim no fim, mas com o tempo, parecia que ela habitava o aposento a esquerda. Um dia, eu consegui entrar na da direita, onde algum tipo de cavaleiro me esperava, mas eu não vi seu rosto, só me passava uma sensação boa de segurança e carinho. Então, eu decidi ver o que tinha na da esquerda, era um ambiente frio e escuro e alguém encapuzado estava lá me esperando e estendeu a mão para mim. Ele me agarrou e disse “achei você”, e então é isso. Esse sonho suicida foi a primeira vez.

— Hum. – Damir olhou para Deimos, Deimos olhou para Damir, agora Ciaran se sentia meio por fora dos olhares indiscretos. – Você andou puxando briga com alguém?

— Provavelmente, ele é meio suicida por natureza. – Deimos completou ganhando um olhar de desaprovação de Ciaran.

— Não, eu nunca fui muito de ter inimigos, e eu vim conhecer esse mundo de magia alguns meses atrás.

— Isso é estranho. Talvez alguém esteja atrás da sua alma.

— É, o Deimos está.

— Outra pessoa além dele. De qualquer forma, vamos ficar atentos, ok? – ele disse lançando um olhar a Deimos que apenas começou a se retirar da sala. – Você podia se desculpar por me atacar sem motivo. – Deimos não respondeu. – Bom, Ciaran, vamos começar nossas atividades a tarde, eu tenho que mandar Isi a enfermaria roubar alguma coisa para evitar uma cicatriz no meu rosto.

Ciaran concordou e foi dispensado para colocar seu cristal em seu cajado e conversar com Deimos sobre atacar as pessoas sem ter a certeza de nada. Ele voltou para o dormitório e ouviu o banheiro ser utilizado. Deimos chegara antes dele.

Bom, ele ia começar a purificar o seu cristal. Feiy foi dormir e Ciaran começou a recolher as coisas necessárias. Bom, do jeito convencional demoraria dois dias para purificar completamente o seu cristal, sendo assim ele optou pelo jeito mais rápido, já que ele precisava dormir hoje.

Ele não sabia se ia funcionar, mas ele ia tentar, essa seria sua primeira visita a outro plano. Ele respirou fundo, mas não tinha o que temer, era um transe leve.

Ele desenhou um circulo de um metro de diâmetro com um giz natural e desenhou os quatro grandes símbolos elementais, ele tinha treinado na biblioteca, fez riscos de cada um para o centro, acendeu um incenso, sentou-se dentro de um lado e colocou a pedra a sua frente. Ele respirou fundo e tentou meditar. Assim, sua energia iria atrair as energias elementais e a purificação seria mais rápida, cerca de uma hora.

Ciaran se concentrou, o ambiente calmo ajudou, logo ele sentia-se leve, como se estivesse dormindo. Ele olhou ao seu redor e tudo estava escuro, bem escuro, ele andou ao redor e viu pequenos pássaros brancos e brilhantes passarem por ele deixando uma leve brisa. Depois ele andou mais um pouco e gotas de água brotaram do seus pés e começaram a andar como pessoas, na verdade elas tomaram a forma de um corpo de uma pequena mulher com cabelos longos e livres como a água. Era bonito, mas era estranho, ele estava no meio do nada, Ciaran andava, mas parecia flutuar no meio do nada, um dos pássaros pousou em seu ombro e era como se ele tivesse a sua própria brisa pessoal, era gostoso. Mais adiante algo caía de cima eram pétalas, que formaram um tapete no chão, pétalas brancas, e dentro dela estava algum tipo de roedor, pequeno e com chifres, que também passou a segui-lo na escuridão, aonde o roedor ia as pétalas o seguiam. Que engraçado. Ciaran sentou em uma pedra no meio do nada, mas tudo parecia tão normal, ao mesmo tempo que não era. Então ele sentiu a pedra em baixo de si esquentar, ele levantou até que ela entrou em combustão, o fogo subiu e depois sumiu, a pedra voltou a ter a mesma cor pálida de antes. As moças de água começaram a andar a sua frente, como se o convidassem, ele resolveu segui-las, até que todos eles voaram para um nível mais abaixo, Ciaran podia ver, lá em baixo, lá ao longe, algumas coisas maiores estavam andando, mas ele não se sentia seguro para ir até lá. Não ainda. Mesmo que aquilo lhe parecesse o correto a fazer.

Ciaran ouviu o som da madeira cair no chão, era tão alto que parecia que uma árvore tinha desabado, mas ele sabia que era só a madeira de seu cajado.

Ele abriu os olhos e estava de volta em seu quarto, Deimos estava sentado relaxado na poltrona bem a sua frente, os olhos carmim o encaravam sérios, mas sedutores, o coração de Ciaran falhou uma batida, mas ele só desviou o olhar, ele não ia deixar Deimos brincar com ele. Ele viu Feiy brincando de puxar gravetos com o seu cajado, foi dali que veio o som.

O sol já se punha no horizonte e... isso era estranho, ele tinha começado a purificar o seu cristal de manhã.

— Quanto tempo eu fiquei sentado aqui? – Ciaran perguntou a Deimos descansado na poltrona.

— Umas oito horas. – ele disse entediado.

— Oito? Mas...

— É, quando passou da primeira hora eu fui buscar o seu professor para avaliar o que você estava fazendo. Ele disse que você tinha ido socializar com os elementais da natureza, só os menos perigosos, e estava na dimensão deles agora. Contando que você não fosse muito fundo, tudo bem.

— Ah. – Ciaran tinha lido sobre isso, os espíritos dos elementos viviam no mesmo mundo que eles, mas em um plano diferente, eram tão próximos que era mais como se os seres fossem apenas invisíveis, eram tão próximos que os seres tinham poderes sobre a este plano e viviam da mesma energia. Ele só devia conseguir fazer isso no futuro e... ele devia ter seu cajado consigo. Ciaran olhou para a madeira, era o único modo de seu espírito voltar para casa se ele se perdesse, por isso o som da madeira foi tão alto. Ele precisava começar a andar com isso.

— Como se sente? – Deimos perguntou mais uma vez.

Ciaran tentou levantar, mas suas pernas estavam dormentes, então ele esperou um pouco. Bem, seu cristal deveria estar bem puro agora!

— Me sinto bem. – Ciaran olhou para Deimos com alguns machucados da batalha nos pulsos, braços e pernas, alguns deviam estar escondidos pela roupa que o cobria, o loirinho levantou um pouco mais preocupado. – E você? – disse se aproximando, mas mantendo uma certa distância.

— Estou ótimo. – ele disse sem desviar os olhos de Ciaran.

— Não doem? – ele perguntou se referindo as feridas, pareciam bem cicatrizadas, mas ainda assim.

— Não tanto, eu já estou acostumado, não sinto a dor.

— Uhum. AH! – Ciaran gritou e saiu do quarto, bateu no quarto da frente e esperou. Bem, ele esperava pelos céus que Haziel não abrisse a porta, ele ainda se sentia desconfortável perto de vampiros.

— Sim? – Aisha colocou a cabeça na porta.

— Você ainda tem daquele remédio que estava passando no Haziel?

— Uhum.

— Pode me emprestar um pouco? Deimos não está bem. – Aisha correu para dentro do quarto e trouxe um pequeno pote com uma gororoba esverdeada, mas não cheirava mal.

— É muito boa, principalmente para eles que tem essa capacidade de regeneração maior. – Aisha falou entregou a Ciaran. – Pode ficar. É só cobrir as férias com isso.

— Obrigado.

Ciaran voltou para o quarto e encontrou Deimos olhando para ele um tanto apreensivo. Ciaran só sorriu.

— Isso vai ajudar na cicatrização. – ele disse mostrando o gel como se fosse o remédio dos deuses, mas na verdade não sabia bem do que se tratava, essa era a praia de Aisha.

— Não precisa, amanhã já vou estar bem.

— Vamos lá, isso vai ajudar.

Deimos deu de ombros e Ciaran o sentou na cama. Primeiro Deimos lhe deu os pulsos e Ciaran começou a passar o remédio nos ferimentos.

— É frio. – Deimos comentou sem muita emoção.

— Isso não ta nada bonito, como ia ficar bom até amanhã?

— Eu tenho uma boa capacidade de regeneração, mas eu devo isso ao seu amigo.

— Você foi puxar briga com ele.

— Para mim parecia óbvio que ele tinha tentado matar você.

— Tudo bem, mas você devia ter me contado dos seus planos antes.

— Quem sabe se você tivesse sido mais claro sobre os seus sonhos eu não teria confundido tudo.

— Ainda assim você devia ter falado comigo!

— Eu estava com raiva. Eu não penso muito quando estou com raiva.

— Com raiva de que alguém tinha tentando roubar a alma que pertence a você? – Ciaran desdenhou passando para o outro pulso. Mas Deimos apenas o olhou sério, lançando um pequeno calafrio pela pele de Ciaran.

— Estava com raiva de alguém tentar matar você de uma maneira tão baixa. E bem debaixo do meu nariz.

Agora, isso era novidade, pela primeira vez uma frase de Deimos não tinha ‘alma’ envolvida.

— Talvez essa pessoa não achasse que você fosse se importar. – Deimos ficou em silêncio e Ciaran preferiu não se prolongar no assunto. O sol estava quase se pondo e ele queria terminar o processo nos ferimentos antes que isso acontecesse. Eles tinham luz, mas a luz do sol era melhor. — Bem, não é como se eu me sentisse a vontade para contar coisas sobre mim se você nunca conta nada sobre você. – Ciaran continuou, isso era algo que o incomodava muito, afinal ele queria conhecer Deimos, ele queria conhecer mais sobre ele, mas o demônio sempre se fazia de indiferente.

Ciaran ficou um pouco nervoso quando passou para os bíceps bem desenhados do moreno, ele se perguntou se era mesmo uma boa ideia, ele estava ficando um pouquinho nervoso agora, principalmente porque os olhos carmim estavam sobre ele, Deimos não dava um ‘ai’ ou se esquivava do medicamento, talvez não doesse mesmo, ou talvez ele realmente só estivesse acostumado com tudo aquilo, o que só fazia a curiosidade de Ciaran aumentar, o que Deimos fazia antes de estar ali com ele?

Deimos apenas suspirou.

— Pergunte. – ele disse a Ciaran que ficou tão chocado que esquecera todas as perguntas que ele queria fazer.

— Hmm, ta. – ele disse olhando confuso para Deimos que só ergueu as sobrancelhas para que ele continuasse. – Seus olhos vão ficar assim para sempre? – bem, essa definitivamente não era uma das perguntas de sua lista.

— Não sei, a tendência é que eles fiquem assim a medida que eu fico mais forte, mas provavelmente eles vão voltar para o preto. – Por que?

— É estranho.

— Já se olhou no espelho? – Deimos perguntou se referindo aos olhos bicolores de Ciaran.

— Mas é um estranho legal! – Ciaran respondeu meio mal humorado.

— Eu gosto dos seus também. – Deimos disse e Ciaran o olhou confuso, não tinha tom de brincadeira nem nada, era algo sério, mas Deimos estava olhando para a janela e o por do sol agora.

Ciaran pegou mais um pouco da meleca.

— Então... o que você fazia antes de vir para ca?

Um belo sorriso simples e sedutor se desenhou nos lábios do moreno que apenas olhou com mais vivacidade para Ciaran.

— Em que época exatamente? Desde que eu nasci até hoje é muito tempo, mas, exatamente antes de eu vir para cá eu era um mercenário.

— E a sua família?

— Minha família não me trouxe mais nada do que problemas e vergonha.

— Terminei. – Ciaran disse passando a gosma no ultimo ferimento exposto, o medicamento secava, não estava tudo lambuzado.

Bom, Ciaran não esperava por isso, mas Deimos tirou sua blusa para mostrar alguns ferimentos no abdome duro e definido. O moreno estava tão confortável que Ciaran teve vergonha de dizer que não faria aquilo no abdome do homem, então...

Bem, ele não estava muito confortável com aquilo, mas devagar e tentando manter a sua mão firme ele foi colando a gosma fria nas curvas que não deviam estar ali. Ele era sim bem construído, a pele levemente bronzeada ficava impecavelmente bonita com os fios negros, curtos e rebeldes do rosto sério. Deimos tinha uma pequena esfera de metal com detalhes pequenos na orelha esquerda levemente pontuda, mas não tanto quanto a de Natane. Enfim, era inevitável a vontade de explorar o corpo bem construído, mas... o que ele estava pensando, suas bochechas já estavam quentes.

— Mais alguma pergunta? – Deimos perguntou quebrando a concentração de Ciaran.

Ah, sim, claro...

— Por que você disse que eu prefiro homens para o Damir, quer dizer, isso foi totalmente sem noção. – Ciaran começou a tagarelar um pouco e ele com certeza não ia olhar para Deimos agora, não mesmo. E que pergunta era essa? Por que ele trouxe isso a tona.

— Pelo jeito que você olha para mim.

— Você é muito convencido, e como eu olho para você? – Ciaran perguntou olhando para Deimos assim que ele terminou o abdome.

Deimos apoiou o queixo de Ciaran com uma das mãos e seu corpo foi se aproximando de Ciaran, que não se mexeu, ele simplesmente não se mexeu. Ele só ficou assistindo Deimos vir para cima dele sem fazer nada.

— Exatamente desse jeito. – ele disse quando suas bocas estavam tão próximas que Ciaran sentiu o hálito quente.

Seus lábios se uniram, como sempre Deimos liderava, era a língua dele que brincava com a de Ciaran e eram os lábios dele que possuíam uma sede única que instigavam Ciaran a matá-la, ele queria ser o responsável por acabar com a sede que Deimos demonstrava quando eles se beijavam assim, Ciaran podia não ser muito experiente no ramo, mas ele apostava que devia ser assim um beijo apaixonado e com desejo.

Ele sentiu a mão de Deimos acariciar a sua nuca e aproximar ainda mais as duas bocas, Ciaran tocou o peito firme e deixou que as mãos fortes guiassem seu corpo para a posição que Deimos desejava, ele só estava entre as pernas do moreno, com uma das mãos em sua cintura, enquanto suas bocas continuavam unidas sem nenhum pudor ou vontade de se afastar.

Tudo bem, Ciaran sentia alguma coisa por Deimos, e daí? Mesmo que ele fosse meio infantil as vezes e que só quisesse saber de sua alma, mas ele queria, ele queria que Deimos se preocupasse com ele e queria que Deimos gostasse dele acima de tudo. Ele queria que Deimos o desejasse. Bom, talvez ele estivesse no caminho certo.

Quando os dois se afastaram, Deimos acariciou a bochecha vermelha de Ciaran com o polegar e lhe deu um meio sorriso tão fascinante quanto os olhos carmim.

— Vamos parar de brigar como cão e gato agora? – Deimos perguntou com uma voz grave tão impressionante que fez o corpo de Ciaran derreter, mas calma, recomponha-se.

— Acho que não. Mas você pode tentar ser menos antipático. – Ciaran falou tentando se livrar de seu embaraço.

— Eu achei que não.

Ciaran olhou para o moreno que ainda acariciava discretamente sua cintura, mas parecia mais relaxado.

— Só mais uma pergunta. – Deimos lhe deu atenção. – O que você procura no reino humano?

Deimos ficou em silêncio e encarou Ciaran por alguns segundos.

— Não vou responder a essa pergunta. — ah, ok, então. Ali era o limite, Ciaran entendeu. – Ei... – os lábios de Deimos novamente tomaram os de Ciaran, calmos e famintos, mas dessa vez foi mais rápido. – Ninguém sabe o que eu vim fazer aqui. É melhor que você também não saiba, vai evitar problemas.

Ciaran concordou e assistiu Deimos levantar da cama e se afastar. Bem, onde isso estava indo... isso entre ele e Deimos, ia ser só por hoje ou, primeiro, ele devia confiar em um demônio? A sua razão dizia que não e o seu coração dizia que sim. Ciaran decidiu deixar para lá quando Feiy pulou em suas pernas e decidiu ficar ali.

Oh, bem, ele ia deixar as coisas se desenrolarem sozinhas.