Magic Whisper

14 Homens, homens e homens por todo lugar.


Era fim de tarde e alguns meses já haviam se passado desde que Dever começara a ensinar sobre o arco e a flecha para Natane, ele estava satisfeito, finalmente ele tinha encontrado algo em que Natane era bom, o ruivo aprendera muito rápido a usar as duas coisas, realmente parecia que tinha sido feito para aquilo.

Mas Denver não dizia muito isso, só fazia Natane virar para ele chateado e falar “eu nasci em uma tribo de espadas! Eu tenho sangue de espadachim!”, podia até ser, mas a vocação de Natane era para o arco e as flechas.

Denver suspirou e virou para o lado. O peito do corpo adormecido subia e descia, como se fosse o lugar mais seguro do mundo.

Natane tinha pegado uma maldita mania de dormir na cama dele ultimamente. Eles precisavam descansar hoje, já que sua missão seria a noite, então eles estavam tirando um ultimo cochilo.

O elfo respirava calmamente ao seu lado, como se estivesse muito longe de acordar. Denver não se importava com o ruivo dormindo com ele de vez em quando.

Tudo começou em uma noite enquanto conversavam sobre sua matilha, Natane tinha acabado adormecendo em sua cama e depois disso, a maioria das noites seguintes, o elfo lançava aqueles enormes olhos verdes suplicantes a Denver e o que ele podia fazer? Só concordar, e então lá vinha o ruivo com seu travesseiro e se aconchegava ao seu lado debaixo da sua coberta. Natane havia dito que era um hábito que tinha antes de seu irmão partir para chefiar uma tribo vizinha.

Bem, pelo menos não era um hábito que ele tinha com o seu prometido metido a besta.

Denver também tinha descoberto que os dois não poderiam ficar juntos até que se casassem. Mas se ele fosse o noivo de Natane com certeza ele teria tentado persuadir o elfo. Parecia que o homem era muito honrado e tudo mais, Denver também era, ora essa, ele só estaria garantindo que não viesse alguém e o tomasse antes dele. Mas o lobo sabia que esse pensamento era muito especifico de sua raça, então ele deixou para lá.

— Natane, acho melhor irmos. – Denver falou ao elfo que só se contorceu e se aninhou ainda mais, a pele quente roçando na sua. Ah, ele estava testando a sua resistência, só podia ser.

— Só mais cinco minutos... – o ruivo sussurrou coçando o nariz e sem abrir os olhos. – Não, dez...

— Achei que como essa é a sua primeira missão depois de meses e depois do treinamento, você estaria muito mais animado e disposto.

— E estou. – Natane disse abrindo os olhos e levantando. – Isso vai ser tão legal! – o ruivo falou andando animadamente até o guarda roupas para trocar suas vestes. – Hoje eu vou te ajudar, e não só ficar no caminho!

Natane tinha ficado muito animado quando eles receberam a missão e Denver disse que ele estava pronto para voltar a rotina, era quase contagiante e esquisito alguém se animar tanto por uma mísera missão de reconhecimento.

Ultimamente parecia que o reino além do véu estava um caos, ninguém sabia muito bem o que estava acontecendo, ou todos estavam tentando ignorar. Não era algo generalizado, mas os boatos corriam por todos os lugares, inclusive pelos corredores do instituto. Massacres estavam acontecendo frequentemente.

Diziam que alguma coisa estava perturbando o mundo dos mortos, Haziel mesmo disse que ele tinha enfrentado um enorme touro com presas e asas que fedia a morte. Parecia uma criatura destrutiva e ele comentou nunca ter visto nada igual antes. Denver ia ficar muito atento e ele esperava que Natane também olhasse para os lados.

Não foi algo único, era algo que vinha se repetindo cada vez mais, criaturas brotavam da escuridão e atacavam vilarejos durante a noite em busca de carne e vida, os relatos eram de sons de desespero vindos dessas criaturas. Meros aldeões não eram páreos para elas.

Denver não sabia o que esperar.

— Estou pronto. – lá estava Natane de pé com seu arco e suas quarenta flechas.

Os dois seguiram pelos corredores direto para o campo dos portais e receberam suas coordenadas.

Dois segundos depois eles estavam no meio de uma floresta, tinha um campo mais adiante então eles resolveram descer com cuidado.

— Minha casa é perto daqui. – Natane disse em um sussurro e Denver o encarou, sua expressão era de preocupação.

— Eles estão bem.

— Como você sabe?

— Noticias ruins viajam rápido. Agora, eles não tiveram tanta sorte. – Denver disse caminhando em direção a um vilarejo um pouco distante.

O resto do vilarejo, melhor dizendo, eram apenas umas quinze casas simples, algumas estavam destruídas e muitas armas foram deixadas para trás, algumas manchas de sangue ainda conseguiam ser vistas, mas agora era simplesmente uma vila fantasma.

O vento frio da noite passava por entre as frestas das casas meio deterioradas pintadas de preto e azul com ajuda da lua, elas pareciam sussurrar o lamento de todos que viviam ali. Era uma região de montanhas, o vento circulava muito por lá, isso dificultava e ajudava o faro de Denver.

Um barulho forte ecoou por lá e Denver se virou com a adrenalina correndo por suas veias, suas unhas estavam expostas prontas para rasgar quem aparecesse.

Mas foi apenas Natane, tinha tropeçado e agora estava no chão. Era realmente um elfo fora do padrão.

— Cuidado. – o lobo disse suspirando.

— Desculpa. – Natane respondeu levantando e batendo nos joelhos.

— Se tiver alguma coisa escondida aqui já sabe que não está sozinho.

— Já pedi desculpa!

Denver só revirou os olhos, pelo menos Natane já estava armado, ele tinha realmente aprendido alguma coisa.

Depois de revistarem tudo, olharem todos os lugares revirarem todas pedras. Não tinha mais nada ali. Só as cinzas de algo que queimou, o vento frio, o cheiro de sangue e as construções abandonadas.

Denver sentou em uma pedra e ficou assistindo Natane andar para lá e para cá, olhar por dentro das casas, mas nada aconteceu. Denver olhou para a lua, já estava perto de três da manhã? Mas eles iam passar a noite ali para assegurar que nada de estranho estava rondando nas redondezas.

E então, Denver sentiu sua pele se eriçar, olhou para Natane e o elfo também parecia procurar alguma coisa. Tinha alguma coisa errada.

— O que é aquilo? – Natane perguntou olhando para o campo deserto. Denver se pôs prontamente de pé e viu algo se mexendo no meio do capim.

Era escuro parecia um animal e estava com dificuldade de levantar. O ser não identificado foi se erguendo e parecia cada vez mais com uma pessoa.

Denver virou-se bem a tempo de evitar um ataque sobre si, suas unhas cravaram em algo estranho, parecia um corpo, mas não era, era muito vago para ser um corpo, ele jogou a coisa para longe e avaliou, suas unhas estavam cheias de um liquido negro. Ele cheirou e fedia a morte.

Essas coisas estavam mortas. Ele escutou a flecha de Natane disparar e voltou sua atenção, vários deles estavam ali, foram rápidos!

Alguns se arrastavam, só metade de algumas pessoas, outras com mãos mutiladas e pés presos apenas por um simples pedaço de carne. Natane disparou mais uma flecha na cabeça de um deles. O cheiro de morte era quase insuportável.

A coisa a qual Natane acertou sua flecha caiu no chão e sua cabeça rolou, seu corpo ficou imóvel. Atrás de si, Denver cortou em pedaços mais dois. Alguns estavam com os intestinos a mostra, essas pessoas estavam mortas! Que tipo de magia estavam usando aqui?

— Você está ouvindo? – Natane disse chocando as costas com a de Denver, eles estavam sendo cercados.

— O que?

— Eles não aceitam que estão mortos. – Natane disse num sussurro e disparou mais algumas flechas. Um deles pegou um machado e o outro o pedaço de uma espada.

Oh, essas coisas conseguiam lutar?

Denver não escutava nada. Ele se concentrou e então ele escutou, lá no fundo de sua mente os lamentos e os choros, recusas a morte. Espíritos atormentados? Eles não deviam estar em outro plano?

— D-denver. – Natane chamou e Denver olhou para o campo.

Pelos. Deuses. Tinha pelo menos cem coisas dessas surgindo da escuridão.

— Eu só tenho quarenta flechas! – Natane disse nervoso e apavorado.

— Eu posso cuidar dos outros sessenta.

Denver assegurou e mudou em sua forma de lobo. Sempre haviam lhe dito que seu lobo era impressionante, ele só entendia quando estava assim, do lado de alguém como Natane, sua altura chegava ao tórax do elfo.

Ele rosnou para os que vinham por trás e os que estavam com as armas começaram a atacar, não tinha a mínima diferença de alguém vivo! Essas coisas não eram zumbis! O da espada era rápido, pena que ele estava só pela metade!

Denver destruiu um por um, o gosto de sangue e carne podre ia demorar um pouco para sair de sua boca, ou até mesmo de sua pele, mas era a forma mais rápida e prática.

Ele nunca deixou de prestar atenção em Natane, mas parecia que quando mais o elfo atirava mais rápido e mais certeiro ele ficava, as coisas não conseguiam chegar perto nem dez metros do elfo.

Alguns tentaram atirar pedras em Natane, mas o ruivo estava se saindo melhor que a encomenda, ele escondia-se atrás de uma meia porta de madeira.

O lobo de Denver farejou os arredores e não havia mais nada ali. Denver correu para o campo, Tinha muitos deles lá, mas estavam desarmados. Pareciam pequenos, jovens, ele estava confuso, ele não entendia o propósito disso tudo.

Denver perdeu a noção do tempo enquanto destroçava os corpos mortos e putrefatos. Parecia que faziam eras desde que ele tinha começado, alguns deles o arranharam ou jogaram-lhe pedras, mas ele curaria desses pequenos machucados rapidamente.

O tempo foi passando e os corpos vivos iam diminuindo e Denver via Natane pegando a as flechas dos mortos e acertando nos outros vivos que corriam na sua direção. Ele tinha visto Natane em cima das casas por um momento!

Depois de um tempo que lhe pareceu a eternidade nada mais se movia, apenas o vento uivava. Denver correu para onde estava Natane. O elfo tremia e Denver sentia o medo vir em ondas. Aquilo era realmente muito estranho, eles não deviam estar rondando por ai! Era isso que estava acontecendo? Os vivos estavam sendo atacados pelos mortos?

— Acho que acabou. – Natane disse para Denver. – Você consegue me entender na sua forma de lobo?

Denver revirou os olhos e tomou sua forma humana.

— Consigo.

— Você está vestido.

— Estou.

— Da ultima vez, você não tinha rasgado suas roupas?

— Minha mãe me mandou roupas de pele de metamorfo, ela acompanha minha mudança.

— Isso é legal.

Os dois olharam para os campos repletos de mortos. Mortos que já estavam mortos antes deles mesmos fazerem alguma coisa.

— Você não me parece tão chocado com essa cena. – Denver disse, deviam ter pelo menos cem corpos ali.

— Eu vi uma batalha quando pequeno, isso não me choca mais.

Denver já tinha estado em muitas, mas não lutando com mortos. Ele ficou chocado quando viu os primeiros raios de sol no horizonte. Eles ficaram nisso a noite toda? Denver sentiu os raios ainda frios no seu rosto e fechou os olhos para senti-los, era uma sensação divina.

— Eles estão sumindo. – Natane comentou e Denver abriu os olhos.

Os corpos no campo simplesmente estavam evaporando em uma fumaça preta dos campos. Em poucos segundos não parecia que havia tido uma batalha ali, tudo estava normal, verde e deserto, uns galhos quebrados talvez, até mesmo as manchas de sangue que eles tinham sobre si sumiram, mas alguns machucados ficaram, Denver iria se recuperar em poucas horas.

Eles olharam para a coloração alaranjada do nascer. Era incrível como a luz trazia paz.

— Nós estamos perto da minha casa, podíamos passar lá para descansarmos um pouco e voltamos no fim do dia... precisamos verificar se essas coisas não vão voltar de novo de qualquer forma. – Natane disse começando a andar. – E eu preciso de um banho!

— Tudo bem, porque não? – Denver nunca tinha entrado em uma vila élfica antes, ele estava no mínimo curioso para saber como era. – Para que lado fica?

— Na encosta daquela montanha. São uns doze quilômetros.

— Hm...

Os dois caminharam pelos campos até chegar a um bosque de vívido verde. Denver seguiu o elfo até uma estrada estreita, Natane ia na frente e ele atrás.

— Então... o que você acha que eram aquelas coisas? – Natane perguntou a Denver atrás de si.

— O que você acha?

— Eu perguntei primeiro.

— Hmm... eles não aparecem durante o dia, nem há relatos sobre isso. Eles fedem como cadáveres putrefatos e são grotescos. Algo vindo dos mortos com certeza, mas não sei porque nem o que querem, ou como estão chegando aqui.

— Mas eles não deveriam andar por aqui atacando as pessoas, o que os celestes então fazendo? E eram muitos deles!

— Eu não sei. Talvez seja por isso toda essa inquietação, eu vi alguns anjos no instituto uns dias atrás. Acho que alguma coisa vai explodir. – Natane apenas concordou, mas Denver podia ver uma ruga de preocupação na testa do elfo. – Mas o que quer que seja, nós conseguiremos lidar com isso como fizemos na noite passada.

Natane virou sorrindo satisfeito para ele. Bem melhor um sorriso, era bom ver elfo bem mais confiante do que quando Denver o tinha encontrado. E o melhor de tudo é que Natane tinha ido realmente bem na luta de ontem. Foi útil, certeiro e não se desesperou quando as flechas acabaram, ele simplesmente reaproveitou as usadas, isso foi mérito inteiramente dele, Denver não tinha lembrado de recomendar esse detalhe.

— É verdade.

Denver tinha a impressão que aquilo não era nada. Haziel enfrentou algo como um búfalo enorme e tinha ganhado um rasgo do inicio ao fim de suas costas. E fedia a morte também.

E talvez eles estivessem exagerando, talvez fosse uma situação momentânea o que era bem mais provável. Essas coisas costumavam aparecer de vez em quando mesmo. Mas não nesse numero e não tão conscientes assim.

Mas ele ia deixar por isso e rezar para que não fosse nada sério.

Eles tentaram fazer o caminho mais rápido que podiam, mas eles estavam um pouco cansados, Natane parou em um riacho por um momento para que bebessem água, o elfo realmente parecia conhecer essas terras, descansaram por alguns minutos e seguiram caminho, eles já estavam perto de qualquer forma.

— Devo saber de algum costume de vocês antes de entrar? – Denver perguntou tentando não cometer gafes que decepcionassem a família de Natane. Não que ele se importasse muito com isso, é só que uma boa impressão era melhor do que uma ruim.

— Não, não realmente. Já estamos perto...

Denver viu uma pastagem livre de qualquer vestígio da floresta, bem na sua frente e em seguida, um muro de pedras que pareciam ter sido empilhadas de forma magistral, parecia sólido e muito seguro, lá em cima havia quatro postos de observação, dois perto de um portão de ferro pouco vazado, e dois mais distantes deles, colocados para observar toda a floresta, era muito ruim alguém atacar com uma floresta tão densa ao redor, era uma boa localização essa da aldeia de Natane, o único problema era que uma parede de montanha se esquia logo atrás, ou seja, eles estavam presos se um ataque fosse bem sucedido e conseguissem invadir o forte. Mas o lobo ia dar um desconto, a tribo de Natane era uma das mais antigas dos reinos e estava de pé até hoje.

— Quem vem lá? – um homem gritou de cima do paredão alto.

— Natane, filho de Miles. – o elfo disse olhando para o homem escondido com uma mascara de ferro. – E Denver, visitante sob minha responsabilidade.

— Ah! Se não é o garoto Natane! – o homem disse com uma gargalhada amigável. — Abram o portão!

O portão foi erguido lentamente e Natane esperou Denver para os dois entrarem juntos. O lobo olhou tudo a sua volta, mas não tinha uma aparência hostil como era o muro de rochas, parecia uma vila realmente pacífica. Vários elfos caminhavam pelas ruas da cidade que não eram muito largas, mas as carroças conseguiam passar. Algumas casas tinham flores decorando e até as mais altas moradias pareciam bem confortáveis, eram geralmente de madeira, rocha e ferro. Algumas crianças passaram correndo por eles e Denver nunca tinha visto tantas ferrarias em um só lugar, as chaminés eram maiores que o normal e a fumaça era jogada o mais alto que podia, o vento tratava de dispersá-la prontamente, o cheiro de fuligem era quase inexistente, uma leve brisa estava sempre refrescando a vila.

O lobo podia ver que era um lugar próspero, Denver viu homens pegando água em poços estrategicamente colocados em alguns lugares da cidade, a rua principal tinha rochas no chão deixando o caminho firme para andar. Parecia tudo muito bom, parecia um lugar muito bom esse que Natane costumava viver.

Eles caminhavam pelas ruas e os elfos inclinavam a cabeça para Natane em respeito, algo bem discreto, mas todos pareciam gostar dele, pelo menos a maioria.

— E então, o que está achando? – Natane perguntou a Denver ao seu lado.

— Sua vila é muito bonita. Tem um ar acolhedor e familiar.

— Sim, são tempos de paz. Mas no geral, somos um povo pacífico. – um ferreiro veio para fora e jogou pelo menos trinta espadas em uma carroça. – Mesmo fazendo tantas armas.

— Vocês as vendem para muitos reinos diferentes?

— Sim, para as cidades vizinhas. Com certeza se você usa ou usou uma espada ou faca, provavelmente uma delas veio daqui. Elas rodam todos os reinos do mundo mágico.

— Eu já tinha ouvido falar da sua vila.

— Se você precisar de armas no futuro, pode falar comigo. – Natane disse com seu sorriso cativante. – Ficaríamos felizes de ajudá-lo.

Denver notou um grupo que vinha na direção deles, três... homens, com cabelos longos, um loiro e dois morenos, muito bonitos, usavam uma espécie de vestido, mas ficava bem neles, o corpo delgado e uma postura elegante era tudo que eles ostentavam com louvor. Não tinha nada de bruto ou grosseiro. Os três olharam para Natane e o cumprimentaram meio surpresos e em seguida olharam para Denver com uma atenção um pouco mais concentrada.

Ora vejam se isso não era bom.

Logo em seguida Denver viu um ferreiro trabalhando, aí sim, apenas uma calça de couro, pés no chão, a sujeira da fuligem sobre o rosto que não era tão delicado, os músculos rígidos do braço do ferreiro e o olhar concentrado ao martelar o ferro quente, o corpo brilhando do suor, e cabelos um pouco mais curtos para evitar o fogo da fornalha e tornar o calor mais suportável.

Outro homem entrou na ferraria e os dois trocaram um beijo simples, o ferreiro não queria tocar o outro homem, provavelmente porque teria sujado a bela roupa. Denver também tinha disso em sua vila, o amor entre dois homens na matilha de Denver era muito comum, pelos deuses, seu pai até viveu um grande romance com seu atual comandante antes de conhecer sua mãe.

E então Denver olhou ao redor. Homens, homens e homens por todo lugar.

— O que foi? – Natane perguntou quando Denver o olhou confuso.

— Onde estão as mulheres?

— Ah, todas que nascem nós matamos e oferecemos os corpos aos deuses. – Natane olhou para o rosto perplexo de Denver, depois sorriu. – É brincadeira! Não temos mulheres por aqui, somos só homens.

Isso era no mínimo novo para ele. E intrigante.

— E como vocês fazem para... – duas crianças correram por eles na direção oposta. – Terem essas crianças?

— Alguns de nós podem gerar filhos, mas só podemos ter dois deles. Mesmo que possamos ter crianças, nosso corpo não foi exatamente feito para isso então, não podemos ter muitas, como as fêmeas. As crianças são tratadas como tesouros aqui.

Como isso aconteceu?!

— E você...

Denver foi interrompido quando um homem com a barriga distendida vinha sorrindo na direção de Natane, abrindo os braços para um abraço. Ele era da altura de Natane, mas bem mais elegante, bem, parecia que todos eram mais elegantes que o desajeitado do ruivo. Tinha lindos olhos azuis e um cabelo chocolate até os ombros.

Mas os olhos de Denver estavam mais concentrados na barriga um pouco distendida do homem, ele parecia gordo, e Denver diria isso se não soubesse do que acabara de escutar, ela era mais redonda que o normal.

Os dois se abraçaram, mas Denver continuou estudando a barriga do homem, era um tanto estranho. Bem, ele nunca tinha visto.

— Senti saudades de você. Veio para ficar? – o moreno falou levemente a Natane.

— Na verdade não, ainda tenho quase um ano para ficar fora até vir assumir as minhas responsabilidades. – Natane disse sorrindo genuinamente para o homem que parecia bem conhecido. – Você fica bem de cabelo grande. – o ruivo falou mexendo no cabelo do recém chegado.

— Ele está crescendo muito devagar. – o homem respondeu encolhendo os ombros e os olhos de Natane foram direto para onde Denver estava olhando também, o recém chegado só sorriu levemente e pegou a mão de Natane e colocou sobre sua barriga. O ruivo ficou tenso na mesma hora, até Denver notou. – É o meu segundo, Natane.

— O segundo? Mas... só faz três anos que...

— Minos está com o pai. Ele tem um pouco mais de um ano... Logo vai ser a sua vez. – Natane tirou a mão da barriga do elfo, como se ela fosse mordê-lo.

— É... eu sei.

— Você? – Denver perguntou bem surpreso finalmente tirando os olhos da barriga distendida, o movimento brusco fez os dois olharem para o lobo.

— Oh, e quem é você? – o homem perguntou a Denver com um sorriso simpático.

— Denver. – o lobo estendeu a mão e o outro elfo o cumprimentou também.

— Mysa. – o elfo disse o estudando.

— Denver é o futuro alfa de sua matilha. – Natane explicou ao amigo que parecia impressionado.

— É eu meio que senti uma força vindo dele. – Mysa falou olhando para Natane. – Todos esses músculos e esses olhos acastanhados...

— Pare com isso, você está casado agora. – Natane disse em um meio sorriso.

— E você comprometido. Isso não o impediu. – Mysa falou em um tom mais baixo sem deixar de olhar para Denver.

— Eu não... – Natane disse revirando os olhos e deixando para lá. – Esse é Mysa, Denver, ele é meu melhor amigo e companheiro de Irvin, segundo em comando de Thassos. – Natane explicou e Denver concordou. – Onde está seu irmão?

— Advinha. — Mysa falou com um olhar sugestivo.

— Encontre Thassos e você encontrará Mirna. – os dois disseram juntos e riam entre eles. Denver se sentia fora de contexto, mas ele sempre se pegava olhando para a barriga de Mysa.

— Nunca viu um homem esperando um bebê, viu lobo? – Mysa perguntou em tédio.

— Não. – Denver disse finalmente desviando o olhar, ele não queria ser indelicado.

— Ah, deixe de bobagem. – Mysa disse e pegou a mão de Denver colocando sobre sua barriga. – Não é tão diferente das suas fêmeas. – Denver descansou a mão ali por alguns segundos e ele sentiu um chute, um leve sorriso se apossou de seus lábios. Isso era muito legal. – Uh, e ele tem uma mão firme também, eim Naty?

Natane revirou os olhos e sorriu para o amigo.

— Deixe-o em paz.

Os três escutaram o trotar de cavalos mais a frente. Era um rapaz esguio com cabelo curto e franjas que vinham até o seu queixo, era magro e bonito como Natane, mas tinha mais músculos. Carregava duas espadas e olhava para Natane como um arque inimigo.

— Este é Mirna. – Natane disse se aproximando de Denver. – Ele é irmão de Mysa e está sendo treinado para entrar na guarda da tribo.

— Ele é apaixonado pelo noivo de Natane. – Mysa completou. – Mas, nasceu dois anos depois de Natane e, claro, o fato de Natane ser filho do líder pesa muito na escolha e...

— Foi Thassos que quis ser meu companheiro. – Natane completou se defendendo.

— E... Thassos é completamente apaixonado por Natane. É sabido por toda a tribo. — Mysa completou rapidamente. Natane não disse nada e Denver também decidiu não comentar, embora ele não achasse que esse Thassos fosse bom o suficiente. – E se Mirna está aqui. Thassos também está perto.

Assim que o elfo calou a boca, o loiro que Denver conheceu no instituto apareceu montado em seu cavalo, era negro de patas brancas, forte e resistente, e assim que o homem viu Natane ele desceu do cavalo com um sorriso de orelha a orelha.

Seu lobo rosnou em desaprovação.

— Está em casa! – Thassos falou abraçando Natane e o erguendo do chão.

— Estou. – Natane disse sorrindo ao seu prometido. Isso só podia ser piada.

— E o que faz aqui? Voltou para ficar? Não recebemos cartas suas ou... – Denver estava sendo completamente ignorado.

— Viemos fazer uma missão aqui perto e decidimos descansar um pouco em casa.

Finalmente os olhos de Thassos pousaram em Denver e Natane estava no chão novamente. Denver manteve um meio sorriso e Thassos forçou o dele.

— Você também veio.

— Sim. Já faz um tempo que não o vejo. – Denver respondeu.

— Como anda o treinamento de Natane? Teve algum progresso? – Denver podia sentir a pretensão na voz de Thassos, mas ele era superior a um mero elfo prepotente.

— Na verdade ele está muito bem. Consegue se defender sozinho, mal precisei mexer um músculo para ajudá-lo noite passada.

Thassos parecia um tanto confuso.

— É verdade! – Natane disse pulando na frente de Thassos e ganhando sua atenção. – Denver me ensinou o arco e a flecha e eu realmente sou muito bom com isso!

— Oh, meus deuses, milagres realmente acontecem. — Mysa disse impressionado. – Você é mesmo uma coisa, não é? – o elfo continuou com segundas intenções na sua voz, mas Denver percebia o tom de brincadeira.

— Peço que respeite o meu grande amigo, Mysa. Você é um homem comprometido com ele agora. – Thassos disse sério ao homem. Ele não precisava ser um idiota sobre isso.

— Ah, por favor, é só brincadeira, tire o pau da bunda e pare de ser tão chato. – Mysa respondeu ao elfo que só cruzou os braços.

— E não é porque você é seu companheiro que pode falar assim comigo, Mysa. – Thassos falou em tom autoritário ao homem que ignorou.

— Bunda! – a voz infantil foi ouvida e todos viraram para a criança nos braços de outro guerreiro. Denver achou o garoto lindo.

— Pegue leve com Mysa, ele sempre fala o que pensa, Thassos. – a voz grave disse, enquanto passava o garoto para os braços de Mysa.

— Seu filho? – Denver perguntou ao homem de ralos cabelos pretos, mas com um olhar lascivo ao examiná-lo, depois o homem relaxou.

— Sim. Ainda tem medo de cavalgar. – o homem falou como se Denver estivesse por dentro de tudo que acontecia com seu filho. – Irvin. – o homem apresentou-se com um aceno.

— Denver.

— Não significa que Mysa deve me faltar com o respeito. – Thassos falou voltando ao assunto anterior.

— Ele não pensa muito antes de falar, lhe dê um desconto. – Irvin falou arrastado e em tédio, ganhando um olhar de reprovação de Mysa que foi prontamente ignorado.

— Eu quero ver meus pais, e estamos cansados, por favor, podemos ir?! – Natane disse suspirando e seguindo o caminho, Denver apenas seguiu a deixa, Thassos logo atrás deles, mas logo tratou de tomar o lado direito de Natane e acompanhá-lo.

Denver resolveu ficar um pouco para trás, de qualquer forma eles estavam comprometidos e ele não tinha porque e nem o direito de se meter entre eles.

Denver olhou para trás, Mysa sorria para o garotinho que agora estava de volta aos braços de Irvin, mas o que chamou mais atenção, foi o olhar de pura devoção que ele via nos olhos do guerreiro moreno para o seu companheiro. O lembrou do acasalamento de sua própria raça, muito mais forte e profundo do que qualquer vinculo jurado perante os deuses. Ele já havia visto muitos olhares, como o dos elfos, em sua matilha, era um amor puro e profundo que nada conseguia abalar.

Seus olhos seguiram para o casal a sua frente, Natane olhava para Thassos e Thassos olhava para Natane. Ele também já tinha visto olhares assim em sua matilha.

E não, eles não duravam.

Finalmente eles chegaram em frente a casa mais alta da tribo, era grande e bonita, digna dos líderes, realmente. Eles atravessaram um portão de madeira e ferro, lá dentro a grama se estendia até a entrada da casa e uma árvore com um balanço estava a sua esquerda.

Não demorou muito e Miles, pai de Natane, apareceu na porta.

— E o que meu filho faz aqui? – o homem perguntou confuso na direção do ruivo.

— Denver e eu estávamos em uma missão aqui perto, pensei em pararmos para descansar. – Natane respondeu sorrindo.

— Fizeram muito bem, sua mãe vai adorar isso. – o homem falou sem muita emoção, mas parecia que era o jeito do homem mesmo. – Abey! – gritou para dentro. – Seu filho está aqui.

O segundo pai de Natane saiu da casa com um sorriso enorme no rosto, Denver podia ver de onde Natane herdara a beleza, mas a classe... bom, talvez viesse com o tempo. Abey vinha direto para o filho, mas Miles o impediu com o braço, todos ficaram confusos. — Como vão as suas lições?

— Muito bem, eu sou muito bom com o arco e flecha, parece que nasci para isso. – Natane disse orgulhoso e sorrindo. – Eu posso provar. – Natane tinha uma ultima flecha que ele tinha recolhido.

— E com as espadas? – Miles perguntou e Natane ficou em silêncio, pensando em alguma resposta.

— Ele não é muito bom, senhor. – Denver falou e Natane encolheu os ombros. – Mas ele é acima da média com o arco e com as flechas. Natane aprendeu em alguns meses coisas que a maioria leva um ano para aperfeiçoar, isso é impressionante.

Natane olhou para Denver e parecia um pouco mais aliviado.

— Você prometeu ensiná-lo espadas. – Thassos entrou na discussão de um modo leve.

— Acho que prometi ensiná-lo a se defender.

Um silêncio se formou depois disso e Denver podia ver a empolgação de Natane morrer. Isso era uma merda.

— Ora, e qual é o problema de o meu filho ser um arqueiro? – todos os quatro presentes olharam para Abey que se pronunciou com as mãos na cintura. – Seu filho mais velho puxou a você, Miles, e seu filho mais novo puxou a mim. Agora deixem de bobagem. — Abey desceu as escadas e pegou o arco e a única flecha de Natane, ele apontou para o fim do muro. – Thassos, meu querido, pode ir até o fim do muro para mim e se encoste nele. Juro que não tem com o que se preocupar.

O homem obedeceu franzindo as sobrancelhas, mas foi correndo, era uma distância de uns setenta ou oitenta metros. Assim que Thassos estava lá, Abey mirou e disparou a flecha. Natane levou as mãos a boca e Denver apenas assistiu a flecha se fincar acima da cabeça de Thassos, como se estivesse medindo a sua altura.

Abey sorriu e se virou para o filho que ainda estava de queixo caído.

— Quem diria, eu ainda sou bom. – Abey falou sorrindo e Denver o olhou um tanto surpreso. Ele definitivamente gostava da mãe de Natane. – Senti sua falta, meu amado. – o elfo se aproximou o filho e o beijou na testa. – E estou extremamente orgulhoso que você aprendeu algo novo de todos nessa tribo, pelo menos temos uma surpresa para os inimigos.

Abey virou para Denver e olhou para o braço do lobo que logo estava pronto para conduzir o pai de Natane para dentro. As mãos leves envolveram o braço do lobo e se dirigiram para o interior da casa.

— Bom, estão todos cansados, eu suponho, vamos comer e descansar, sim? Eu sempre digo ao meu Miles, Denver, todos sabem que somos excelentes com facas e espadas, claro que um inimigo vai se preparar para isso, mas eles não contam que tem um arqueiro. Dois agora. Já mandei ele treinar alguns, mas você viu como ele é cabeça dura.

Denver não tinha ideia de quão cabeça dura era o homem, mas ele podia imaginar. Abey o tratava como um membro antigo da família.

— É importante um elemento surpresa. – Denver disse em um meio sorriso a Abey.

— Eu sei, é isso que eu digo, mas ele não escuta!

Depois de um banho merecido e de colocar suas roupas para lavar, Denver e Natane estavam sentados a mesa com todos. A mesa era baixa e estavam sentados em almofadas para degustar uma boa refeição, Denver lembrou de casa, só faltava o fogo na lareira e as peles fofas no chão. Agora ele estava bem mais confortável.

Miles sentava na cabeceira, Abey sentava do lado direito do esposo e Denver ao seu lado. Natane e Thassos estavam a sua frente, Thassos tinha voltado trazendo a flecha e ganhado um beijo de desculpas de Abey.

A conversa fluía bem, Abey era um mestre em puxar assuntos e Miles era bem calado. Mais uma fez Denver via de onde vinha a tagarelice de Natane, os dois elfos, mãe e filho, conversavam como dois amigos, Denver e Thassos apenas falavam poucas vezes.

— Diga, Denver, já contei a minha história de amor com Miles? – todos olharam confusos para Abey.

— Não, senhor. – Denver respondeu, claro que não! Eles só tinham se visto uma vez!

— Nem para mim você contou. – Natane disse comendo um pouco de porco.

— Bem, meu pai não era dessa vila, ele era um elfo nascido mais ao sul, ele conheceu um belo jovem aqui de Windyfall que o convenceu a mudar para cá. Um ano depois eu nasci. Meu pai não era bem visto aqui por ser estrangeiro, os estrangeiros geralmente capturam e vendem os elfos de Windyfall por um alto preço, porque somos uns dos poucos machos que podem procriar, então, na época, todos os estrangeiros eram odiados, eles deixaram meu pai ficar por causa da minha mãe, que era daqui. Mas durante o inverno, minha mãe morreu, e meu pai não queria que eu fosse criado em um ambiente que as pessoas olhariam torto para mim, algum tempo depois a tribo pediu para ele se retirar, mas se ele quisesse me deixar, eles cuidariam de mim, afinal eu era filho da tribo. Ele se retirou e me levou com ele. Vivemos próximos daqui e eu cresci como um valoroso arqueiro. Até que um dia, o filho do líder de Windyfall estava andando a cavalo pelas redondezas, eu não sabia quem ele era, então tentei matá-lo e quase consegui. A flecha acertou seu braço e eu desci da árvore onde estava. Bem, foi amor a primeira vista por esse brutamontes.

— Hum, besteira. – Miles disse bufando.

— Eu disse que tinha me apaixonado, mas ele não sabia e não foi fácil me conquistar, demorou cinco anos. Ele ia me ver todos os dias e eu tinha medo de vir para cá e ser hostilizado, como meu pai. Meu pai morreu algum tempo depois e então Miles disse que se eu quisesse ele iria morar no meio da floresta comigo. Foi então que eu cedi.

— Precisa mesmo contar essa história para todo mundo? – Miles disse visivelmente sem jeito.

— Ah, qual o problema, foi tão romântico. Ah, ai veio Arian, que foi uma surpresa, eu não sabia que podia ter filhos. E depois Natane.

— Que legal. – Natane disse em um tom sonhador.

— Nunca apostaria que você foi um arqueiro, Abey. – Thassos comentou tomando um gole da bebida. Nem Denver, embora Abey tivesse aquele ar de ‘escondo mais do que o que você pensa’. – Você tem que me mostrar o que aprendeu depois. – o loiro disse inclinando-se intimamente perto de Natane, que apenas concordou som um leve sorriso.

Mas os olhos verdes logo encontraram os de Denver do outro lado da mesa, que também lhe sorriu torto.

— Como as coisas funcionam na sua tribo, Denver? Você e sua família comandam desde sempre? – Miles perguntou ao rapaz.

— Não, meu avô assumiu o lugar de alfa quando derrotou o alfa antigo que era muito desonesto de não fazia bem a matilha. – Denver olhou ao redor e todos estavam meio que com cara de paisagem. Era disso que seu pai falava, ele não era bom em conversar, diplomacia. – Deixe-me explicar, não somos uma tribo, somos uma matilha, todos os nossos habitantes são shifters, eles podem se transformar em lobos.

— Até as crianças? – Abey perguntou.

— Sim, os filhotes.

— Devem ser muito bonitinhos, os lobinhos ao redor. – Abey disse olhando para o marido que apenas concordou e olhou para Denver novamente.

— Somos comandados pelo alfa, que é um lobo a quem todos respeitam, é algo que se sente ao olhar para um alfa, você sente submissão e respeito. Cada alfa tem o seu beta, que é o seu segundo em comando, geralmente é a companheira do alfa.

— Oh, isso é bom. O companheiro do líder tem algum tipo de poder, ouviu isso Miles? – Abey disse e Miles só revirou os olhos.

— Você manda e desmanda nesse lugar. Do que está reclamando? – Miles falou, mas Abey ignorou.

— As ordens do beta são tão absolutas quanto as do alfa, há quem diga que são ainda mais inquestionáveis que a do próprio alfa.

— Não faz sentido. – Miles disse.

— Isso é porque um lobo faz tudo para ver o seu parceiro feliz e não lhe faltar nada. O companheiro de um alfa é a coisa mais importante que pode existir em uma matilha. – ele não devia estar contando isso aqui. Mas ele não ia entrar em detalhes sobre isso.

— Alfas fazem companheiros homens? – Thassos perguntou ganhando a atenção de Denver em uma pergunta totalmente capciosa, ele sentiu o espinho na voz do homem.

— Não devem. – Denver respondeu seriamente. – Já que o próximo alfa é um filho do alfa anterior. E como os homens da minha vila não podem procriar... mas eu já ouvi casos de que um alfas anteriores e de outras matilhas escolheram um homem como seu companheiro.

— E como vocês resolvem isso? – Miles perguntou.

— Algum nascido tenta derrotar o alfa anterior, se ele conseguir, a liderança é dele. Eu mesmo vou ter que lutar contra o meu pai para conseguir o posto de alfa.

— Minha nossa! – Abey disse assustado. – Bom, mas se você casasse com um dos nossos você poderia ter filhos e nós faríamos uma aliança! Claro, se você quiser.

Miles pareceu aprovar a ideia e Thassos parou sua bebida no meio do caminho.

— Temos muitos homens não comprometidos para você escolher. – Thassos falou deixando bem claro que Natane estava fora do mercado.

— Ele não quer! – Natane disse indignado e todos olharam para ele, Natane ficou meio sem jeito e parecia procurar as palavras certas para se corrigir, mas dessa vez Denver queria ver o ele ia falar. – Bom, não funciona assim para eles, ne?!

— É, na verdade é algo muito forte o que une um lobo e seu companheiro. É um vinculo que não pode ser quebrado. É um compromisso para a eternidade. Não é alguém que você possa escolher simplesmente na escuridão.

— Nossa que profundo. – Abey disse depois de um tempo.

— Natane disse o mesmo. – Denver comentou.

— Bom, vou mostrar o quarto para você descansar. Vão passar a noite aqui? – Abey perguntou aos dois.

— Precisamos voltar ao campo do sudoeste, para ver se nossa missão está cumprida mesmo. As criaturas que enfrentamos só aparecem a noite.

Denver entendeu porque Natane deixou assim, não havia necessidade de preocupar os pais com informações incertas.

— Bom, eu posso mandar os guerreiros verificarem enquanto vocês descansam. Se houver problemas eles mandam uma coruja e vocês vão resolver. – Thassos sugeriu.

— Não sei, a missão é nossa, não quero você fazendo nosso trabalho. – Natane disse levantando e bocejando. Ele estava cansado, Denver podia ver, Natane ainda não estava habituado a esse tipo de coisa, fora que suas flechas acabaram e mesmo que sua mãe fosse um arqueiro, ele duvidava que houvesse pelo menos uma dúzia de flechas prontinhas ali.

— Não, tudo bem, deixe eles verificarem. – Denver disse atraindo a atenção de Natane. – Eu posso ir junto.

— Se você vai eu também vou. – Natane disse com uma segurança imensa.

— Mas ai perde a intenção do meu propósito. Deixe que eu mesmo vou, eu quero ver o que você enfrenta para saber se devo me preocupar ou não. – Thassos falou para Natane.

— Mas é nosso dever.

Ah, quer saber, deixe o cavaleiro de armadura se exibir um pouco para Natane, Denver tinha certeza que eles tinham feito um excelente trabalho na noite passada. Fora que eles não estavam ganhando dinheiro com esse serviço.

E, além de tudo, Thassos era o defensor dessa tribo de qualquer forma, era uma boa oportunidade dele saber o que está rondando tão perto de sua casa. Quanto mais ajuda, melhor.

— Deixe ele ir, Natane. Acho que fizemos um bom trabalho ontem. – Denver comentou e o ruivo concordou meio a contra gosto.

A noite veio rápido e Thassos, como prometido, foi verificar o campo mais abaixo, ele ia a cavalo, então ia ser rápido, Denver se poupou de ir se despedir ou de ver Natane se despedindo. Sua cama era bem confortável, e os seus lençóis eram muito macios também, ele ia ter uma excelente noite.

Bom, já estava tarde e ele continuava olhando para o teto de madeira. Denver sentia o cansaço, mas ele não conseguia descansar. Por acaso ele achava que ia ser atacado enquanto dormia? Bem, não parecia isso... ele ouvia o silêncio da casa e dos arredores, somente o vento soprava, ele sabia que estava um pouco frio lá fora, mas seu sangue quente o mantinha bem, por isso usava apenas sua calça limpa.

Quantas vezes ele já tinha contado as tábuas do teto? Só mais uma vez.

Denver ouviu uma batida na porta e seu lobo rosnou. Ah, por favor, ele não queria atacar ninguém na casa de Natane.

A porta abriu e Natane entrou sorrateiramente para o quarto, com aquele sorriso travesso. Ele usava um daqueles vestidos que os homens daqui costumavam usar, uma versão mais leve e de dormir, mas ainda assim era um vestido muito bonito. Ficava bem nele, o manequim conseguia fazer aquela simples peça ficar mil vezes melhor.

Bom, lobo, era hora de parar com essa linha de raciocínio. Que porra Natane estava fazendo no seu quarto?

Ele trazia um travesseiro consigo. Ah, ótimo, o hábito seguia aqui também?

Natane se jogou na sua cama e Denver sentou, olhando com desaprovação para o ruivo.

— O que faz aqui? – o lobo falou baixo ao elfo. Natane parecia um filhote repreendido.

— Eu vim dormir? – ele disse sorrindo.

— O que diabos seus pais e o seu pretendente iam dizer se te encontrassem aqui?

— Ah, bem, não é nada que eles não saibam. Eu durmo com você no instituto não é?

— É, espertinho, mas eles acham que é em camas separadas. É melhor você sair daqui.

Natane apenas deu de ombros e rolou na cama.

— E então? O que achou da tribo?

Denver apenas suspirou, Natane era como uma versão melhorada de um garoto mimado, ele só fazia o que queria até levar a bela de uma bronca, mas quem sabe conversar não ajudasse Denver a dormir. Ele suspirou e deitou na cama, rosnando.

— Eu disse, achei legal, bonita e bem familiar.

— E o que achou da minha família?

— Abey é bem parecido com você.

— Ah, tudo bem, tirando o fato que ele fala pelos cotovelos. – Natane disse revirando os olhos, Denver não conseguiu esconder o sorriso.

— E você não?

— Eu não! Gosto de falar o essencial... sabe, quando eu te conheci você sorria menos. – esse comentário chamou a atenção de Denver. Ele virou sua cabeça para o lado e Natane estava olhando para um canto qualquer do quarto apoiando sua cabeça em uma das mãos. – Você era todo sério e calado.

— Ainda sou calado e sério.

— É, mas agora você já se tornou um pouco mais simpático. Isso é bom, não afasta as pessoas, não custa nada oferecer um sorriso.

— Quer dizer que para você, eu progredi?

— Sim, de um cara fechado e meio hostil, para alguém um pouco mais palpável.

— Hmm.

— Meu pai nunca tinha contado a história dele. Você foi o primeiro a ouvir. – Natane riu e Denver o olhou curioso.

— O que foi?

— Você ficou chocado com a barriga do Mysa.

— Claro que fiquei, nunca tinha visto. Como vocês conseguem afinal?

— Bom, dizem que, antes de passarmos a louvar aos sete reis, as criaturas louvavam os espíritos antigos, terra, água, fogo e ar. Existia um casal de elfos, dois homens, eles queriam muito ter filhos e força para defendê-los. Um dia um deles estava tão triste que sentou-se em uma rocha no meio da floresta para chorar sob a sombra de um grande carvalho. O carvalho era o mais antigo da floresta e a mãe terra viva nele, ela ficou com tanta pena que lhe concedeu o dom da vida, por ter dois grandes desejos, ele só poderia ter dois filhos, e ela o ensinou a moldar o aço para que pudesse defender sua família. O elfo a agradeceu e disse que ia rezar por ela até o fim de sua vida, ela agradeceu e logo elfo estava esperando seu primeiro filho. Mas chegou o dia do bebê nascer e a criança não tinha por onde vir ao mundo. O companheiro do elfo ficou desesperado e procurou a mãe terra que apareceu para ele. Ela lhe deu duas plantas, uma para o elfo beber e outra para o elfo salvar. Ela disse que o ferro que aprenderam a usar era o único modo da criança vir ao mundo. O elfo voltou correndo para a casa, deu a planta para o seu companheiro comer, ele caiu em sono profundo até que seu companheiro retirasse a criança, a segunda planta ele usou para salvar a vida do seu companheiro colocando sobre a ferida do parto. Ele esperou até o dia amanhecer, com o bebê chorando em seus braços, até que o seu companheiro abriu os olhos. Isso se repetiu mais uma vez, quando a semente estava pronta no dia da lua de seu nascimento.

— Legal. Nós costumávamos louvar a mãe terra. Ainda o fazemos uma vez por ano. Mas eu já ouvi que outros homens podem ter filhos, não só vocês.

— Eles podem já ter cruzado conosco.

— Verdade. – ele não podia contestar.

E lá estavam eles de novo, o ruivo deitado em sua cama como se Denver fosse inteiramente confiável, que não havia segundas intenções, isso só o deixava consciente de quanto Natane era vulnerável, ele podia estar no caminho de se tornar um bom guerreiro, um bom arqueiro, mas ainda era muito inocente para a idade que tinha, o elfo tinha que aprender quais eram as situações de risco.

Ele olhou para o cabelo naturalmente bagunçado do rapaz, o levemente bagunçado caía sobre seus olhos deixando o ruivo com um ar etéreo, leve, era um sentimento especial, os dois ali, com roupas de dormir, conversando sobre assuntos quaisquer. Denver acabara de encontrar aquele ar elegante que ele viu em todos os outros elfos e que ele achava que Natane ainda não tinha adquirido. Estava bem aqui na frente dele, quando o elfo estava meio sonolento e despreocupado.

Pelos deuses. Esse não era nem a hora nem o lugar para ele perder sua disciplina.

— Então... me fale sobre os companheiros dos lobos.

Denver ergueu o corpo e segurou a cabeça em sua mão, assim como Natane, e encarou o elfo.

— Bom, nós somos tão lobos quanto somos humanos. Nossa espécie de lobo só admite uma parceira ou parceiro por toda a vida. Nós podemos escolher quem vai ser, mas temos que tomar muito cuidado com isso, porque quando as duas metades aceitam o compromisso, eles selam seu destino por toda a vida. Os dois sentem suas vidas se torando uma só durante o relacionamento e quando finalmente decidem se unir, pode-se sentir suas almas andando juntas pelo mesmo caminho. Lobos geralmente se relacionam com lobos porque eles entendem esse tipo de compromisso e sentimento. Se um lobo se compromete com alguém que não é um lobo e com o tempo esse alguém desiste dos dois, esse alguém consegue seguir sua vida, enquanto o lobo vai caminhar sozinho por um caminho de tristeza até enlouquecer. Se não for morto ele vai caçar seu companheiro pelo resto de sua existência para tê-lo junto a si. Eu já vi isso acontecer uma vez, não é bonito. Mas quando os dois dão certo, um lobo é inteiramente devoto ao seu companheiro, não há amor e lealdade iguais, e não há lugar mais seguro no mundo do que ao lado do seu companheiro. Ele preferirá arrancar seu próprio coração a ferir aquele que ama.

— Isso... parece legal. – Natane disse desviando os olhos e desenhando círculos nos lençóis.

Denver aproximou seu rosto do elfo, Natane se afastou alguns centímetros, mas não muito, os olhos de mel encontraram os verdes e Denver conseguia ouvir a respiração de Natane mudar, estava mais rápida, junto com as batidas se seu coração. Denver tentou mais uma vez, dessa vez Natane apenas olhou para os lábios do lobo e fechou os olhos.

Denver sentiu os lábios macios nos dele e isso foi melhor do que ele pensava, ele queria mais e com urgência. Sua língua invadiu a cavidade úmida do ruivo e experimentou o prazer único de uma língua tímida tentar brincar com a dele, seu lobo aprovou e Denver conseguia sentir o rosnar em seu peito.

Inconscientemente a mão de Denver foi até as costas de Natane puxando o corpo do elfo para mais perto de si, Denver sentiu seu peito exposto chocar com o corpo alheio, ele conseguia sentir o calor do ruivo através do tecido leve que cobria o corpo de Natane.

Ele mordeu de leve o lábio inferior do ruivo e Natane o imitou, mais suave, mais leve, brincando com ele, apenas provocando, instigando Denver a procurar mais, ter mais.

Seu lobo não queria deixá-lo ir, o cheiro de orvalho e folhas estava lá, até aquele toque adocicado estava lá, mais forte e mais marcante, deixava a essência muito melhor. Ele adorava esse cheiro mais que tudo.

Natane colocou uma mão no seu ombro em busca de apoio, Denver só não esperava que ela deslizasse por seu peito e os dedos frios roçassem em seu mamilo, o lobo sentiu sua pele se eriçar e mais uma vez sua mão se fechou na cintura de Natane. Denver permitiu que Natane respirasse alguns segundos, mas sem afastar sua boca dos lábios deliciosos e avermelhados.

Mas então Natane se afastou e Denver sentiu um leve tremor nas mãos do elfo. Ele não podia ter deixado isso acontecer. Nunca. Não aqui, não agora. Ele não conseguia pensar em nada para dizer.

— Eu disse para você ir embora. – foi a única coisa que ele conseguiu pensar. Teria evitado problemas, para os dois.

Natane apenas levantou e pegou o seu travesseiro, Denver voltou a deitar e escutou a porta fechar. Ótimo. Ele realmente esperava que isso não estragasse o relacionamento deles. E mais importante que tudo.

Isso tinha que parar aqui.

Por melhor que pudesse parecer, por mais sede que ele tivesse, por mais que o seu lobo arranhasse sua alma, isso não podia continuar. Se já estava assim antes de qualquer sentimento aparecer, imagina depois.

Inferno. Ele pouco se importava com Thassos, Abey ou Miles, ele tinha que admitir para começar a reagir. Ele sentia um vínculo se formando. Há meses!

E vínculos que levavam a lugar nenhum tinham que ser quebrados o mais rápido que pudessem.

—x-

Natane, Denver, Thassos e mais quatro guerreiros estavam em seus cavalos e se dirigiam para onde estava o portal que seria usado para os dois rapazes voltarem para o instituto. O dia estava bonito, o sol brilhava e o som mais alto que se podia escutar era o trotar dos cavalos.

Natane cavalgava ao lado de seu pretendente, naturalmente e Denver estava mais atrás. O elfo de vez em quando se pegava olhando para trás, mas o lobo nunca estava olhando de volta para ele. Bom, talvez o que acontecera na noite anterior tivesse deixado Denver chateado, mas ele não teve culpa! Quem começou tudo foi o próprio Denver!

Natane teve até dificuldade de dormir na noite anterior, ele não era acostumado a sair beijando quem ele estava afim, sempre a voz em sua cabeça lhe dizia que ele era comprometido... isso desde sempre, já que tinha se comprometido com Thassos muito novo. Mysa sempre foi mais livre e sempre tentava lhe arranjar alguém para ter um pouco de diversão, mas aquela culpa sempre estava presente. Ele sabia que Thassos era fiel e queria retribuir isso, mesmo com o fato de que eles não tinham nada muito concreto entre eles.

Claro que tinham! Eles tinham um compromisso e estavam noivos, o que poderia ser mais concreto que isso?

Um galho se chocou com a cabeça de Natane e quase o derruba do cavalo, ele ouviu risinhos dos homens atrás de si, mas ao seu lado Thassos só ostentava um meio sorriso.

— Distraído? – o loiro falou com aquele olhar familiar, o mesmo olhar que ele via desde pequeno, gentil e protetor.

— Hm, um pouco. – Natane respondeu se sentindo meio idiota, ele ainda era meio desajeitado apesar da idade e estava muito longe de se achar um homem.

Eles estavam perto de onde o portal estava, a cavalo realmente era muito mais rápido, Natane tirou um pequeno papel enrolado do bolso, Irvin tinha lhe entregado isso antes de Natane sair, Mysa tinha mandado. Apenas duas linhas escritas:

“ Se você deixar esse lobo escapar antes de deixa-lo colocar as garras em você, eu vou chutar o seu traseiro quando você voltar para casa.”

Natane sentiu suas bochechas esquentarem e rapidamente amassou o papel e colocou no seu bolso. Mysa sempre dizia que ele devia experimentar mais da vida, dizia que tinham cortado suas bolas muito cedo. Ele nunca foi muito gentil com as palavras.

Mysa dizia que Natane devia sentir uma paixão tão forte que parecesse que o fogo ia consumi-lo por inteiro, os que apenas um toque o fizesse derreter. Ele lhe dizia que a paixão era necessária para que viesse o amor depois, as coisas ficavam mais divertidas assim.

Mysa lhe dizia que Natane tinha pulado essa parte da paixão com Thassos e tinha ido, talvez, direto para o amor. Bom, para o seu amigo era fácil falar, essa paixão de que ele tanto falava ele sentira com Irvin, então tudo bem.

Natane nunca tinha se apaixonado, seus olhos estavam sempre sobre Thassos e somente. Bem, ele achava que era apaixonado por Thassos. Ele não era?

Natane se sentia meio perdido agora, ele roubou mais uma vez um olhar para Denver, o lobo estava mais concentrado em manter o seu cavalo calmo, eles eram avessos a deixar Denver montá-los, porque eles conseguiam sentir o lobo de Denver. Ele se lembrou dos beijos de ontem e de como o seu calor parecia arder e do quanto ele queria tocar Denver, mas... ele não podia. Bom, ele não devia. Hunf, isso estava dando um nó em sua cabeça.

Ele estava curioso para saber porque Denver o beijou, foi o clima? Desde quando ele queria fazer isso? Significou mais alguma coisa ou ele queria só brincar e passar o tempo?

Se Denver quisesse só brincar e passar o tempo Natane podia tentar, não era? Quer dizer, os homens faziam isso o tempo todo e ele queria mesmo que o único homem em sua vida fosse Thassos?

Eles finalmente chegaram no portal, todos desceram dos cavalos e Denver agradeceu pelo trabalho dos homens, ele já estava pronto para voltar. Bem, vamos lá, Natane não sabia o que esperar a partir de agora. Ele não sabia se devia tratar Denver como se nada tivesse acontecido ou... quer saber, ele estava pensando demais, ele ia deixar para lá.

— Ei. – Natane parou sentindo sua mão ser segurada por Thassos. – Você está mais disperso que o normal hoje. – o loiro disse com um sorriso leve.

— Não faço ideia do porque. – Natane disse com o um suspiro. – Obrigado por nos trazer aqui, Thassos. Logo estarei de volta.

— Definitivamente, isso é o que me alegra. – Natane concordou e sentiu uma mão em sua bochecha. Foi tudo tão rápido, Thassos lhe deu um beijo leve e comportado.

Ele. Nunca. Tinha. Feito. Isso. Antes!

Natane travou no lugar. Bem, aquele foi bem diferente do beijo de Denver, dessa vez ele ficou tenso e por momento era como se o mundo estivesse sobre os seus ombros. – Vou esperar por você com todo o meu coração.

Natane sorriu e o abraçou, ele não sabia o que fazer! Ele só não queria preocupar Thassos, que lhe fora fiel desde o dia de seu compromisso.

— Até logo. – Natane disse e seguiu para onde Denver estava no meio do circulo de cogumelos.

Agora ele estava lá, de frente para Denver que não o encarava, o homem estava ali de braços cruzados e Natane segurava o cordão que ia levá-los para casa. Não tinha nenhum vestígio da inquietação que Natane estava sentindo, será que só ele estava se sentindo assim?

Então os olhos castanhos brilhantes olharam para ele, com a expressão séria tão típica do lobo. E finalmente um sentimento o atacou. Ele queria beijar Denver de novo e ele queria sentir Denver o tocando de novo, queria ficar entre os braços que pareciam tão seguros e tão aconchegantes. Daí veio um frio na barriga e seu coração parecia um tambor.

Ele ia ficar doente. Só podia ser isso.

Denver levantou as sobrancelhas como se esperasse alguma coisa. O que? Ah, sim, ir para casa, claro. Natane pensou no instituto e a sensação de estar dentro de um rio o tomou.

Ele só queria saber se teria coragem de por em prática tudo o que sentia.