Magic Whisper
10 Eu encontrei você.
Faziam alguns meses que Ciaran chegara no instituto e ele estava suspenso de atividades. Sim, ele estava suspenso até que aprendece algo sobre sua raça e como usar um pouco de seus poderes.
Ário disse que havia conseguido um professor para o garoto, mas o homem já estava algumas semanas atrasado.
Ciaran aprendeu que o seu livro se chamava grimório, era onde estavam todos os feitiços de um mago, e o seu era bem rico, ele era enorme. Existia uma boa descrição de alguns seres, algumas dicas de como usar os poderes, mas nada muito específico. Tinham trechos escritos em várias línguas direfentes e Ciaran não fazia ideia de como ler aquilo... ele aprendeu mais com seu livro do que com a literatura da biblioteca.
Que, por falar nela, era enorme, estantes eram preenchidas do chão até o terceiro andar, escadarias se elevavam dando acesso aos outros pisos. Era povoada por vários gnomos que se responsabilizavam por cuidar do local em troca de viverem na floresta ao redor. Parecia que a atmosfera do mundo humano era melhor para eles também.
Ciaran descobriu que não era simples ser um mago, ele tinha que conseguir que seu báculo absorvesse quatro criaturas elementais. Uma da água, uma do fogo, uma a terra e uma do ar. Ele não tinha a menor ideia de como ia conseguir isso.
Ser um mago Elemental era difícil. Ele só conseguiria usar a magia criativa se conseguisse esses aliados, se não, ele apenas conseguiria controlar os elementos que ele tivesse disponível a sua volta. Ou seja, usar água em um deserto era impossível, ou fogo em algum lugar gelado.
Fora que ele descobriu que a sua energia também entrava no processo, era uma simbiose, as criaturas seriam tão fortes quanto ele fosse. Se Deimos estivesse certo ele tinha muita energia.
Para que ele pudesse absorver as criaturas ele precisava de algum tipo de cristal. Segundo seu livro eles ajudavam no equilíbrio do mago e na sua recuperação, tanto física como mental, eram fonte de energia... então, ele precisava de um, mas existiam vários e vários tipos.
Ele já tinha um báculo de árvore milenar que parecia ser execelente, forte e resistente, ia ajudar a canalizar a sua própria energia que já era muita.
Além disso, ele descobriu que magos eram excelentes diplomatas. Isso o assustou e o preocupou ao extremo. Como sua raça era suposta viver em equilíbrio com a natureza, eram extremamente inteligentes e cultos, a diplomacia era uma característica nata de todos eles. Isso era algo que Cianran iria ter que trabalhar bastante. Pareciam ser poliglotas... esse era um real problema.
E enfim, era basicamente isso, existiam alguns desenhos de gestos e movimentos em seu livro, provavelmente para invocar uma magia mais forte. Ele não entendia muito bem.
No fim, seu livro acabava abruptamente, algumas paginas haviam sido arrancadas. Bom, menos alguma coisa que ele não precisava ler. Mas ele não passou esse tempo todo só aprendendo sobre si, ele também pesquisou sobre as outras raças e estava contente com o seu poder de assimilação. Existiam desenas de seres diferentes e milhares de misturas de raças.
Ele teria que lidar com todas no futuro.
Ele também viu a divisão do reino mágico. Existiam sete reinos, porém um dos reis foi morto... Ciaran não pesquisou os detalhes, mas depois ele iria procurar. Agora existiam apenas seis e eles ocupavam seus cargos há milênios.
Não eram pessoas acessíveis, raramente eram vistos, eram como entidades divinas. Um dos reis era responsável pelas raças aquaticas, outro pelas criaturas que viviam embaixo da terra, um cuidava das criaturas celestes e parecia ser o mais antigo e respeitado de todos, existia um rei sombrio, soberano das criaturas da noite, o rei das criaturas demonicas e obscuras era o quinto e por ultimo, o rei responsável pelos demais, os seres que viviam sobre a terra, sem duvida era o mais poderoso dos seis.
O rei que havia sido assassinado era responsável por aqueles que a magia brotava da alma, ou seja, o rei dos seres como Ciran não existia mais. E parecia que ninguém tinha tomado seu lugar ainda.
Eles tinham seus meios de deixar as coisas em ordem e nada escapava de seus olhos. Eram meio deuses sim.
Ciaran folheou mais uma vez seu livro e se rencostou na cadeira, ele queria saber mais sobre a sua mãe. Quem sabe assim descobriria quem era seu pai também. Ário disse que ia procurar tudo o que tinha sobre ela e passaria para ele.
Como sua vida havia mudado e ele nem sabia o que tinha contecido direito.
Feiy pulou em suas pernas e se deitou ali, sua raposa tinha crescido muito desde que chegara ao instituto, parecia forte. Sim, Ciaran tinha pesquisado sobre ele também, daqui há alguns dias Feiy ia se transformar em uma pessoa, um rapazinho na verdade, que podia usar um pouco de magia. Ciaran estava louco para ver.
Ele olhou para o lado e lá estava Aisha com o seu amigo. Aisha vinha a biblioteca pelo menos uma vez por semana, quando Haziel saia para se alimentar, pesquisar um modo de libertar o vampiro do selo de escravidão, para isso ele vinha acompanhado de um garoto de outro dormitório, Aisha não conseguia ver, então esse garoto o tinha ajudado.
Eles eram bons amigos e Ciaran lembrava de tê-lo visto uma vez na sala de Ário, acompanhado de três brutamontes.
Ciaran olhou para a janela e observou o que estava acontecendo no campo, aguns seres caminhavam pela grama bem aparada e alguns entravam na floresta. Ciaran entendeu que alguns seres, como Denver, precisavam libertar sua fera interior para que ela pudesse correr e gastar energia.
E falando nele, Denver e Natane tinham treinado todos os dias e hoje não era excessão, os dois estavam lá embaixo em seu treino diário. Ciaran tinha que admitir, Natane era muito exforçado e Denver era uma bela visão de se ver, mas... o elfo não levava jeito mesmo para a coisa.
–x-
A espada de Natane voou pelos céus pela terceira vez naquele dia. Denver estava se dando os parabéns, ele havia se tornado uma pessoa muito paciente, se bem que ele sempre foi muito disciplinado. Mas ensinar Natane estava lhe dando nos nervos e o deixando com uma bela dor de cabeça.
– Vá buscá-la. – Denver disse ao elfo que concordou e foi buscar a lâmina.
Três coisas a se enumerar. Um: Natane era muito exforçado e atento, dois... por mais que doece admitir, Denver não estava vendo nenhum tipo de resultado, Natane progrediu um pouco com as espadas, mas simplesmente não era suficiente, ele não era bom naquilo e Denver estava tentando encontrar uma forma de falar para o elfo.
O ruivo ia ficar arrasado. Denver suspirou e olhou para o céu. Ia chover logo logo. Ele conseguia sentir, estava perto da lua cheia e, embora ele não fosse um lobisomem propriamente dito, a lua ainda era sua principal fonte de força, seus sentidos estavam apurados e ele conseguia sentir a umidade no ar.
Natane voltou segurando a espada. E a terceira e ultima coisa: ele estava se tornando muito intimo do elfo e isso era ótimo.
– Vamos lá. Em posição de ataque. – Denver falou e o elfo tomou a posição, ele ficava muito bonitinho com essa cara de mal. – Ataque-me.
Natane era rápido e preciso, mas não tinha força nem jeito com a espada, não era dele. Ele não conseguia se movimentar sem passar a lamina muito perto de si ou se cortar com ela e parecer um suicida, era ridículo, e ele simplesmente ia pra cima, o que de certa forma era o correto, mas você tinha que ter uma estratégia e um pensamento intuitivo, não tinha tempo de analizar a situação detalhadamente, e o elfo não era bom nisso.
Em dois segundos, Natane estava no chão. E mais uma vez, mais outra e outra.
Denver escutou alguns risos ao redor, ele sabia que algumas pessoas gostavam de assitir o treino dos dois só para rir de Natane ou algo assim, mas alguns até torciam por ele.
Era isso, não estava dando resultados e era hora de encarar os fatos.
Mais uma vez Natane foi buscar a espada, só que dessa vez mais devagar, as gotas frias de chuva começaram a cair de leve e as criaturas começaram a voltar para o instituto.
O elfo pegou a espada e esperou Denver se aproximar.
– Então... treino na chuva? – Natane disse com um meio sorriso, sem encarar o lobo.
– Só se você quiser ficar doente.
– Você também.
– Hm, não, é muito difícil.
– É muito injusto a sua raça ter tantas regalias.
– Natane... você não está progredindo. – Denver finalmente falou e ele nunca tinha se sentido tão mal de dizer a verdade para alguém.
– É... eu sei. – Natane disse indo sentar-se em um dos bancos que se encontravam no local.
Denver passou a mão no pescoço e o seguiu. Natane apanhou umas pedrinhas de cal e começou a joga-las na parede de pedra cinza do castelo.
Denver sentou ao seu lado sentindo a chuva aumentar e o vento frio bater em sua pele quente. Ficou assistindo o rapaz jogar as pedras na parede, Natane parecia frustrado e pensativo.
– O que você quer fazer agora? – Denver perguntou para que Natane começasse a falar o que se passava em sua cabeça.
– Eu não sei.
– Podemos continuar com o treinamento.
– Você esta perdendo o seu tempo.
– Nos podemos dar um jeito.
– Você já tentou tudo o que sabia. Eu sou um caso perdido.
– Podemos passar para o mano a mano.
– Eu posso derrotar o seu lobo no mano a mano?
Bom...
– Dificilmente.
Natane suspirou frustrado e deitou sua cabeça no ombro mais alto de Denver, o rapaz olhou para o cabelo ruivo perto de si, já alguns tons escurecidos pela chuva fina que caia.
Até os olhos verdes olharem para ele meio perdidos, ele adorava os olhos de Natane eram muito expressivos e brilhavam como verdadeiras esmeraldas.
– O que eu faço agora?
Denver não tinha resposta para isso, talvez voltar para casa realmente fosse o mais seguro para Natane no momento. Lá ele teria proteção e... e se a tribo dele fosse atacada um dia? Com certeza o alvo mais fácil seria o elfo, Denver se mexeu um pouco no banco. Ele duvidava que o noivo medito a besta conseguisse dar conta de proteger Natane. E seu lobo concordava com ele.
– Vamos ver o que podemos fazer.
O lobo apenas observou Natane atirar pedras contra a parede maciça que era lavada pela chuva. Era melhor eles entrarem, a chance de Denver ficar doente em perfeita saúde física e mental era zero, mas Natane era diferente.
Ele observou Natane atirar uma, duas, três pedras... todas no mesmo lugar. Ele era bom em pontaria.
Hm. Isso era muito bom.
Denver levantou quase derrubando Natane que apenas o observou. O lobo foi até a parede e apontou para uma das grandes pedras maciças.
– Atire uma pedra bem aqui, elfo.
– Onde o seu dedo está apontando?
– ... Claro. — Natane jogou e acertou a centímetros de seu dedo. – De novo. – mais uma vez, no mesmo lugar. – Isso é bom. De novo. – no. Mesmo. Lugar. Denver estava impressionado. – Você é bom nisso.
– Ah, eu costumava ganhar do meu irmão quando éramos pequenos. E até de Thassos. Brincávamos de assustar os pássaros quando eles comiam as sementes das plantações. Eu sempre acertava mais do que eles, mas eu acho que eles me deixavam ganhar.
– Acho que não. Tente acertar aqui. – Denver apontou para uma rachadura feia na estrutura, exatamente no lugar onde mais duas fendas se cruzavam.
Natane acertou. E Denver finalmente via a luz de esperança no fim do túnel. Ele não conseguiu conter um sorriso de satisfação.
– Acho que fiz algo certo, você está sorrindo e isso é muito raro.
Denver mandou o elfo esperar onde estava e foi buscar algo dentro do instituto. Natane esperou pacientemente e olhou para o céu chuvoso, ele gostava de sentir a chuva em seu rosto era revigorante.
Ele ia mesmo voltar para casa com atestado de inutilidade, como alguém tão incrível como Thassos ia se unir a alguém como ele?! Era humilhante.
E então lá vinha Denver segurando... um arco e algumas flechas. O que?
– O que é isso? – Natane perguntou olhando assustado para aquilo.
– Digamos que você estava aprendendo a usar as armas erradas. Essa deve ser melhor para você.
– Eu sou um elfo de uma tribo especializada em espadas! Não em arco e flecha!
– Qual o problema? Você sempre pode ensinar uma nova arte na sua tribo.
– Eu não vou conseguir usar isso.
– Vai tentar pelo menos uma vez. Venha aqui. Confie em mim.
Natane caminhou até ele ainda achando aquilo muito errado. Ele devia aprender a usar a espada, sem arrancar o próprio pescoço no processo, e não algo com flechas e coisas assim! Ele não conseguia lembrar de alguém na sua tribo usando isso.
– Ainda acho que isso não é certo...
– Imagine que você vai ser melhor do que o seu... noivo em alguma coisa. – Denver disse ficando as costas de Natane e o colocando na direção certa.
– Sinto que você não gosta de Thassos.
– Não fui com a cara dele.
– Ele é uma boa pessoa.
– Não quero discutir isso agora. Observe. – Denver armou o arco e apontou para uma árvore qualquer na floresta. – Preste atenção à postura. – Natane olhou para o seu corpo de cima a baixo, mais lentamente do que o necessário. – Observe onde a flecha deve ficar e em seguida a altura onde ela deve ficar dos seus olhos. Mire e solte.
A flecha de Denver acertou a árvore e ficou presa na madeira.
– Sua vez.
– Eu não sei como usar isso.
– Eu vou ensinar, tenha calma. – o elfo era muito apressado e isso lhe dava nos nervos as vezes.
– Ok! – e ainda falava como se ele fosse estressado!
– Vamos lá. Você pega o arco e... não, Natane, ao contrário.
– Ah.
– Isso. Ai você coloca a flecha... com a ponta apontado para frente e não para si.
– Ta me chamando de burro?!
– Foi só precaução.
– Assim? – Natane perguntou meio torto, com a pontaria errada.
Denver colocou as mãos na cintura de Natane que apenas ficou meio tenso ao toque, o lobo o puxou mais para perto até que as costas do elfo se moldaram em seu peito.
– Agora relaxe. Estique esse braço. – Denver conduziu o braço esquerdo de Natane a posicionar o arco. – E segure firme a fle... – Natane soltou a flecha que se perdeu no bosque, ele encolheu os ombros e olhou culpado para Denver.
– Tudo bem. É a sua primeira vez. Pegue outra. – Denver ofereceu mais uma e Natane pegou. – Agora separe um pouco as pernas. — o lobo deu dois papinhas nas coxas de Natane. — Perna esquerda na frente, perna direita mais atras.
– Assim?
– Na mesma linha dos ombros. – mais ou menos, mais ia dar por enquanto. – Agora. – Denver aproximou-se do ouvido de Natane com o objetivo de ficar na mesma altura da cabeça do rapaz. – A flecha deve... pare de olhar para mim e se concentre no seu alvo. – o lobo falou ao observar que Natane o olhava pelo canto do olho.
– Desculpe! Mas é que é difícil se concentrar com alguém respirando no seu pescoço.
– Besteira. Olhe para o alvo. – Natane obedeceu. – Erga o arco até a altura dos ombros... está alto Natane, agora está muito baixo. Aí. Puxe a flecha a altura da boca, abaixe um pouco esse cotovelo, assim...
– Isso não é muito confortável.
– É porque você não está relaxando, está todo tenso. Com o tempo fica natural.
– Hm.
Denver se aproximou e cochichou levemente na orelha pontuda.
– Relaxe...
Natane assumiu o mesmo tom de vermelho que seu cabelo e a orelha apenas mexeu um pouco, Denver achava isso muito bonitinho.
– Ta, mas se afaste.
– Preciso ensinar a mirar o alvo. Volte para a postura e tente se concentrar.
– Vai rápido! Eu to todo molhado.
– Quem queria treino na chuva era você. Foque o alvo.
– Meu alvo é...
– A árvore.
– Ah. Toda?
– Toda. É bom que acerte.
– Isso é muita pressão.
– Concentre, Natane, e atire.
– Tá!
O elfo pensou um pouco. Denver sentiu o cheiro de Natane caminhar até ele, folhas verdes e orvalho, mas mesmo assim era um cheiro diferente das árvores e da chuva que caía, o mel também estava ali, mas... agora tinha algo muito mais doce, meio feminino. Seu lobo grunhiu em sua alma. E um sentimento meio selvagem começou a brotar em si. Ele queria provar o elfo a sua frente, queria saber como era ter o ruivo embaixo de si e como era estar entre suas pernas, era algo que vinha crescendo dentro dele sem que ele tivesse o controle sobre isso.
Denver sacudiu a cabeça, isso não era respeitoso nem bem vindo a alguém comprometido como Natane. Ele ia resistir. Ele sempre fora muito disciplinado, não ia deixar anos de treino irem por água abaixo porque ele estava sentindo tesão como um adolescente desesperado.
O arco vacilou alguns milímetros e Natane atirou. A flecha atingiu a árvore, mas um pouco mais embaixo, não muito, mas com certeza não era onde Natane estava mirando.
– Você estava mirando ali?
– Um pouco mais em cima.
– De novo.
Denver passou mais uma flecha e Natane se colocou em posição. Mirou e disparou. Parecia que Natane ainda não estava satisfeito com o resultado, ele pegou outra flecha, dessa vez sem pedir a Denver. Atirou, puxou mais outra e outra.
Natane sorriu e olhou para Denver.
– Acho que peguei o jeito. – ele disse olhando convencido para o lobo.
– Pode me provar.
Natane puxou uma flecha e disparou, em seguida mais outra embaixo dessa, outra e mais outra e mais outra. Quatro flechas perfeitamente alinhadas uma embaixo da outra.
– Parece que o fato de você ser horrível em espadas faz com que você seja muito bom com arcos...
– Eu gostei disso.
– Ótimo, porque a partir de amanhã vou trainá-lo com o arco e flecha. Você tem chance de ficar melhor do que eu.
– Você é tão modesto.
– Só tenho consciência das minhas habilidades.
Natane sorriu e olhou para onde as flechas estavam presas. Ele ergueu os braços e gritou a todo pulmão.
– EU SOU BOM EM ALGUMA COISA!!!
– É, você é.
Denver sorriu de volta, deixá-lo feliz definitivamente era bem melhor.
–x-
Ciaran entrou no dormitório e seguiu direto para o seu quarto. Um dia chuvoso era perfeito para deitar em sua cama e dormir, dormir profundamente. Mas o garoto se assustou quando percebeu alguém no quarto.
Foi só o choque inicial, era apenas Deimos. O demônio o olhou rapidamente e voltou ao que fazia, ou seja, se livrar de todo o equipamento bélico que carregava.
– Você finalmente voltou! – Ciaran disse com um sorriso enorme no rosto.
Fazia algumas semanas que Deimos tinha saído em uma missão extra curricular, ele havia ido resolver assuntos pessoais no mundo humano e parecia ter voltado hoje, o que Ciaran achou ótimo. Claro, o demônio o tirava do sério, mas discutir e conversar com Deimos era legal e bem menos solitário do que ficar ali sozinho.
Não que ele ficasse sozinho, ele sempre conversava com Aisha, mas a presença de Haziel o incomodava, seu pescoço ainda doía só de ver as presas do vampiro, ele sabia que era um trauma psicológico, mas ele não podia deixar de lembrar da dor lacerante em sua carne.
E depois tinha Natane, mas ele andava meio ocupado ultimamente e sempre que Denver estava com eles, Ciaran se sentia interrompendo alguma coisa, então ele saía de fininho sempre, mas era divertido. Feiy tinha passado seus dias dormindo.
– É o que parece. – sempre a delicadeza em pessoa.
– Resolveu seus assuntos?
– Nenhum resultado. – Deimos disse frustrado sentando-se em sua bela poltrona acolchoada. – E você? O que tem feito?
– Eu tenho estudado muito.
– Já aprendeu a usar magia?
– Hmm, não, mas Ário me conseguiu um professor, ele só está um pouco atrasado...
– Aham.
Deimos se dirigiu ao banheiro e Ciaran se jogou em sua cama, ele agarrou as cobertas e escutou o barulho da chuva do lado de fora da janela. Ela tinha ficado mais forte, o vento ricocheteava com força no vidro grosso.
Mesmo assim, o loirinho gostava do som e do clima frio na medida certa. Ele fechou os olhos e sentiu o sono chegar de leve e os barulhos ficarem mais distantes... até sua cama se mexer. Espera, o que? Ele abriu os olhos e lá estava Deimos deitado com uma calça frouxa de algodão e ele duvidava que o demônio usava cuecas a julgar pelo desenho do tecido... esquece.
– Essa cama é minha. – Ciaran disse no travesseiro.
– Sabe, eu aposto que você é meio demônio, você é bem egoísta.
– Você não precisa dormir!
– Mas eu gosto, ajuda a polpar energias. E você não acha que a sua cama fica menos vazia comigo aqui? – Deimos lançou-lhe aquele sorriso convencido, Ciaran só revirou os olhos e virou para o outro lado.
Ele não ia cair nos truques de Deimos, mesmo que o demônio parecesse cada vez mais tentador. Isso era mais um truque deles, com certeza, a literatura sobre as raças desses seres era muito extensa, mas todos chegavam a um denominador comum: enganar, prover e colher suas recompensas.
Ciaran fechou os olhos mais uma vez e voltou para o seu sono. E la estava esse de novo, naquele mesmo corredor, naquele mesmo castelo. Não era o instituto, agora ele conseguia ver muito bem os quadros na parede enquanto andava.
Ele viu a mesma pessoa no fim do corredor que mais uma vez se dirigiu a sala da esquerda. Ciaran... ou quem quer que fosse, chegou no fim do corredor, ele olhou para a direita e aquela pessoa estava lá, olhando pela sacada. Da ultima vez ele não teve controle ele simplesmente correu até ela, mas agora ele estava ali parado.
Ele sabia o que tinha encontrado a direita... mas e a esquerda? Quer dizer, aquela pessoa sempre o esperava no corredor. Dessa vez ele abriu a porta grande de madeira da esquerda.
Estava tudo meio escuro, o sol entrava apenas por algumas brechas da cortina, mas ele via uma pessoa de pé bem no meio da sala. Tudo estava meio turvo, como se ele não quisesse prestar atenção em nada a sua volta, apenas no ser de pé no meio do aposento, ele usava capuz, Ciaran não conseguia ver o rosto e então o homem lhe estendeu a mão.
Seu coração acelerou e seu corpo começou a tremer. Ele estendeu a sua também.
Quando ele estava bem perto ele vacilou, ele estava muito apavorado para tentar alguma coisa, ele recuou, mas não rápido o suficiente.
A mão agarrou seu pulso e o puxou para perto, o quarto todo foi imerso por sombras e dois olhos vermelhos se projetaram dentro do espaço negro do capuz.
– Eu encontrei você. – uma voz fraca ecoou em sua cabeça e Ciaran ouviu um barulho tão assustador que seus olhos se abriram.
Ele acordou com o susto e viu Deimos fechando a enorme janela de vidro que lutava contra o vento forte da tempestade.
– Foi você quem fez isso? – Deimos perguntou com um pouco de raiva.
– N-não... acho que não. – Ciaran respondeu percebendo suas mãos tremerem e seu coração pular tanto que parecia querer sair pela boca.
– Parecia aquela ventania que você jogou em mim da outra vez. – Deimos falou e caminhou pelo quarto até ficar em frente a Ciaran. – O que foi?
Por algum motivo Ciaran estava morrendo de frio agora, ele não conseguia parar de tremer.
– E-eu não sei.
Deimos subiu na cama perto de Ciaran e pegou as mãos menores com as suas, o loirinho assistiu aquilo como se fosse algo de outro mundo. O moreno levou as mãos de Ciaran até perto de sua boca e soprou o hálito quente nelas, mas seus olhos estavam vidrados nos olhos de Ciaran.
– Por que você está chorando? – a voz do demônio era doce, raras eram as vezes que Ciaran tinha escutado esse tom da boca do moreno grosso.
Ciaran levou as mãos aos olhos, mas ele não tinha percebido que tinha começado a chorar.
– Deve ter sido o susto.
– E porque você está tremendo?
– Deve ser pelo mesmo motivo.
– O que você sonhou?
Deimos perguntou sempre com o mesmo tom brando.
– Como sabe que eu sonhei alguma coisa?
– Você começou a ter medo enquanto dormia. Você começou a suar, seu coração acelerou e a janela explodiu. Você acordou com o susto. – Ciaran apenas tentou recapitular os fatos. – Você quer água?
– Não, eu estou bem.
Ciaran começava a se acalmar agora. Ele tinha que relembrar os fatos, tinha sido apavorante, porque ele simplesmente não fora para a direita onde ele sabia que era seguro.
“Eu encontrei você.” A voz ainda ecoava na sua cabeça, ele não sabia se aquela voz fantasmagórica ia deixar sua cabeça tão cedo.
– Você tem muitos desses sonhos? – Deimos perguntou e Ciaran apenas o olhou.
– Tenho tido esse sonho desde sempre, mas nunca foi assim tão... assustador.
– Uhum... o que se passa nele?
– Você está muito interessado. O que você procura no mundo humano?
– Nada de importante.
– Nada de importante acontece no meu sonho também.
Deimos apenas suspirou.
– Tudo bem. – Deimos apenas virou no colchão e dormiu.
Ciaran voltou a deitar também, mas ele não queria deitar, ele não queria dormir de novo. Ele virou-se na cama e deu de cara com Deimos olhando para ele.
– Só acho que você como humano precisa dormir mais do que eu. – Deimos falou de novo de modo casual. – Porque não dorme? Eu prometo que se alguma coisa estiver estranha com você eu te acordo. Ok?
Ciaran concordou e esperou alguns instantes. Ele não dormiu de imediato e ele sabia que Deimos estava apenas de olhos fechados, mas a medida que as horas passavam ele não resistiu ao sono. Devagar o cansaço o levou novamente para o início do corredor.
Não tinha ninguém no fim dele, Ciaran andou pelo espaço, sem se importar com os quadros dessa vez. Ele chegou ao fim do corredor e olhou para a esquerda, a porta estava fechada, mas um vento frio saia de dentro dela e ele conseguia escutar passos.
Ciaran correu para a porta aberta a direita, lá estava quente e iluminado e tinha mais alguém ali, alguém que lhe lembrava um cavalheiro. E então, mais uma vez ele perdeu o controle sobre si e correu para ao braços alheios. Ele sentiu os braços em torno de si. Estava tudo bem agora.
Ali sim era muito melhor. Muito mais quente, muito mais aconchegante, muito mais seguro. Ele devia ter corrido para aquele lado desde o começo.
Deimos estava simplesmente curioso de saber o que tinha apavorado Ciaran ao ponto do sangue do garoto fugir do seu rosto. Devia ser bem assustador. Mas agora ele parecia dormir, Deimos retirou os fios loiros que caiam pelo rosto do garoto, tudo parecia bem agora.
Até que Ciaran começou a se mexer e seus braços o envolveram em um abraço, o loirinho estava bem perto de seu corpo agora, os dois se tocavam, Deimos conseguia sentir a respiração do mago em seu peito... quem diria.
Bom, ele não se importava nem um pouco com isso. Ele só queria ver a cara que Ciaran ia fazer pela manhã.
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