Magic Whisper

6 Ele podia pelo menos mostrar que ele se importava.


Notas iniciais
Genteee, eu só vou poder postar qualquer coisa agora a partir do dia 12/12... :/

Natane estava bem animado para a sua primeira missão com seu novo parceiro. Bem, mais agradável do que o seu anterior, com certeza. Em todos os sentidos.

Ele olhou-se no espelho do quarto, usava sua calça justa, uma blusa de manga curta, com uma segunda pele branca por baixo, um cinto que foi lhe dado pelo seu pai em seu décimo aniversario, era ideal para segurar a bainha de uma espada. No ano seguinte veio a espada de verdade... mas era muito pesada, então eles deram uma versão mais fina... Natane nunca foi bom em decorar os nomes das espadas, seu irmão sempre soprou para ele, ou Thassos.

Bem, ele havia treinado muito e ele era bom com espadas. Ele era ótimo. Afinal era filho do líder da tribo de Windyfall nas montanhas de Larggàs, elfos especialistas em espadas curtas, médias e longas.

O líder achava que Natane estava sendo muito paparicado em sua tribo e assim ele nunca iria aprender a lutar propriamente para se defender de uma ameaça iminente ao filho do líder de uma tribo tão bem sucedida.

Então ele começou a treinar com mais vontade... ele não levava muito jeito para a coisa no começo, mas depois melhorou, em sua opinião. Mas o líder não via assim, para ele Natane ainda era muito cru e inexperiente, o líder não confiava em ninguém além do irmão de Natane e Thassos para treinar o filho mais novo e bem... eles eram os que mais paparicavam o elfo, então seu pai resolveu mandá-lo para o instituto para que ele visse de antemão a variedade de criaturas no reino, pudesse conhecer vários lugares e aprender melhor a arte da espada, na prática. E o que o líder decidia era ordem.

Então ele estava ali até o ano seguinte... ele faria vinte três no ano seguinte e as obrigações da tribo exigiam sua presença.

Seu irmão já havia casado e se juntado a outra tribo. Ele sim era um guerreiro nato. Mas Natane também era, sim, por que não?!

A porta do quarto abriu e seu novo parceiro entrou. Denver não era muito de sorrir, Natane notou, mas tudo bem, o elfo ruivo era suficientemente sorridente pelos dois. Ele ficou observando o parceiro caminhar pelo quarto e se equipar com algumas armas. Ele também era bem silencioso. Mas não tinha problema, Natane seria o mais falante dos dois.

– Então, está pronto?! – Natane perguntou bem animado, seu parceiro o olhou sério. Os belos olhos analistas brilhavam graças a luz do sol que irradiava pela janela, eles brilhavam a cor caramelo mais expressiva que Natane já tinha visto, era cremosa e uniforme, brilhavam como para enfeitiçar o adversário, misteriosos.

– Eu não entendo, por que está tão animado? Não é a primeira vez que faz isso é? – ele perguntou terminando de se aprontar. A voz era grave e mais uma vez uniforme, Natane notara que seu novo parceiro era muito disciplinado, na forma de falar, de andar e se expressar. Seria uma característica de lobos?! Ele não sabia, era o primeiro que ele conhecia de fato.

– Não, mas faz um tempo que não tenho uma missão... eu posso estar enferrujado.

– Não se preocupe, tudo que o guerreiro precisa para voltar a ativa é um pouco de aquecimento.

Natane concordou... ele esperava que finalmente ele aquecesse o suficiente. Denver tirou o casaco e Natane notou a tatuagem que circulava o bíceps de seu parceiro, era provavelmente o símbolo do bando dele, lobos faziam isso. Denver trocou de casaco, e colocou a capa marrom escura com o símbolo do instituto sobre os ombros, depois penteou os cabelos muito bem arrumados para trás, eles eram meio espetados, mas ficou muito elegante, eram de chocolate brilhante, como se tivesse óleo ou algo assim, ficavam bem na pele levemente bronzeada.

Natane sabia que estava olhando demais.

– Bom, então... – falou debilmente com alguns movimentos desajeitados. – Vamos?! Só gostaria de passar antes na enfermaria e ver como está o Ciaran.

– Quem?!

– Ele é o rapaz que ocupa o outro quarto, você deve conhecê-lo. E Deimos. Não tem problemas com demônios tem?! Ele é um bonzinho.

Denver o olhou misteriosamente de novo. Natane não sabia muito como agir perto dele, não queria parecer idiota ou algo assim, mas não sabia o que se passava na cabeça do parceiro, e ele sabia que ia permanecer assim por um bom tempo, ele parecia bem fechado.

– Se o demônio não mexer comigo não tem problema. Mas eu nunca ouvi falar de demônios bonzinhos. Eu acho que você devia ter mais cuidado com suas companhias.

– Ele é inofensivo.

Mais uma vez aquele olhar que Natane não sabia o que era.

– Vamos indo logo então. — Denver analisou Natane de cima abaixo e depois um olhar confuso passou por seu rosto, rapidamente. – O que vai usar para lutar? Sabe que nós vamos enfrentar um ogro de mais de três metros. Provavelmente é cria de um gigante e um ogro das montanhas, eles são enormes.

– Minha espada. – Natane disse mostrando sua espana longa e fina.

Denver desembaiou a espada e observou.

– É muito bem feita. Realmente faz jus ao nome da sua tribo. – o lobo comentou e Natane sentiu seu ego inflar mais um pouco. Um quarto da população de sua tribo era de artesãos ferreiros. – Mas você não vai causar danos a um ser cuja pele é tão dura quanto casca de tartaruga com uma rapieira. Onde estão suas outras armas?

Nunca perguntaram a Natane sobre elas. Ele foi ao guarda roupa e puxou uma enorme bolsa verde musgo, quase do tamanho do guarda roupas, ele puxou, ela se arrastou e caiu debilmente contra o chão, o troço era pesado mesmo, parecia uma criança arrastando algo pesado, mas ele ia conseguir mais cedo ou mais tarde. Uma terceira mão se juntou a ele e finalmente a bolsa saiu do lugar, Denver puxou a sacola para fora e Natane se sentiu meio fraco, mas devia ter quilos e quilos de espadas e facas ali!

– Obrigado. – o ruivo disse abrindo o tecido. O cheiro de metal invadiu suas narinas e isso o transportou para casa por alguns segundos. Ele ficou olhando para a enorme quantidade de armas bem trabalhadas. – Então... o que estamos procurando?!

Natane ouviu Denver suspirar, isso não era algo bom, era?!

– Talvez uma montante.

Ah, certo. Uma montante... ele com certeza tinha que aprender o nome delas. Ta, calma, se eles iam enfrentar um ogro, a pele dos ogros era em maior parte dura, escamosa e dura... então. Ah, droga... ele puxou a espada que estava mais abaixo de todas as outras, ela era pesada, uns três quilos, era pesada para ele, afinal ele ia ficar balançando aquilo tentando enfrentar um monstro enorme.

– Aqui, uma montante. – ele disse como se soubesse o nome de verdade.

– Isso. – Denver o olhou e virou-se para a porta. Natane revolver levar aquela espada na mão mesmo.

Os dois saíram do quarto e Denver seguiu o caminho guiado por Natane. Natane com certeza iria precisar voltar a fazer seus exercícios. Ele era rápido e subia em arvores como ninguém, era bem flexível e quando precisava ficar em silêncio era bom nisso... na maioria das vezes.

Ele não era muito bom com pesos e essa era a espada mais pesada de todo o seu arsenal.

– Então, Denver, você tem irmãos? – Natane perguntou tentando conhecer melhor seu parceiro.

– Tenho dois irmãos mais novos. Gêmeos.

– Legal, com quantos anos?

– Oito.

– O meu é mais velho, já casou e agora é líder de outra tribo, a esposa dele é muito bonita, eles se conheciam desde crianças, eu mal posso esperar para ter um sobrinho, ele já deve estar a caminho, já faz dois anos que eles estão juntos e ele já tem a lealdade da tribo, então eu... Chegamos!

Finalmente estavam na enfermaria, Natane se pôs para dentro e viu Deimos se equilibrando em duas pernas de uma cadeira, olhava para cima em tédio mortal, devia estar contando as vigas ou algo assim. Ciaran estava imóvel em cima da cama, enquanto Aisha parecia preparar algum tipo de bebida enquanto a enfermeira cuidava de outro paciente.

– Ele já acordou? – Natane perguntou enquanto se aproximava de Deimos que nem se mexeu, apenas lhe direcionou os olhos ônix.

– Não. – ele respondeu monossilabicamente. Depois seu rosto virou em direção ao novo parceiro do elfo parado alguns centímetros atrás de Natane. Denver ficou imóvel com os baços cruzados obre o peito.

– Esse é Denver, ele é meu novo parceiro. – Natane disse saindo da frente. – Denver esse é Deimos.

– Um filhote de lobo alfa? – Deimos falou normalmente, meio entediado. – Já não temos muitos grandes egos em um dormitório só?! Temos Haziel, filhos de líderes...

– Você... – Aisha falou docemente enquanto trazia uma bebida e a colocava na cabeceira de Ciaran. – Estão saindo?

– Sim, vamos enfrentar um ogro enorme! – Natane disse bem animado e olhou para Deimos que por sua vez fitava a espada que ele carregava. – O que foi?

– Você tem força para levantar isso? – Deimos perguntou bem descrente.

– Claro que sim! Eu sou filho da tribo...

– Bla bla bla, eu já sei, mas você é muito magrelo e fraco para balançar essa espada por mais de três minutos. – Deimos interrompeu e olhou para Denver que continuou impassível. – Prepare-se para fazer tudo sozinho.

Bem, Natane não era cheio de músculos como Deimos ou Haziel, nem podia se transformar em um lobo gigante, ou era alto e bem distribuído como Denver, mas ele tinha um pouco de bíceps sim, seu peitoral não estava tão ruim e ele tinha pernas bem fortes que o ajudam bastante!

– Eu vou conseguir! – Natane disse sério. Ele ia tentar.

Ciaran se mexeu na cama e abriu os olhos lentamente, colocou sua mão da testa como se estivesse doendo e depois olhou ao redor.

– Tenho algo para você beber. – Aisha falou para o garoto de olhos bicolores. – Vai melhorar as dores e vai te fazer se sentir mais disposto.

– Obrigado. – Ciaran disse fazendo uma careta, provavelmente não ia ter um gosto muito bom. – Queria poder parar de vir para cá. – ele sentou-se na cama e pousou seus olhos em Deimos. – Você voltou. Que bom. – um sorriso sincero se desenhou em seus lábios. Então ainda somos uma dupla.

– Parece que sim. – foi a frase de Deimos. Depois Ciaran olhou para o novo convidado e ficou esperando.

– Ah, esse é Denver... meu novo parceiro. – Natane apresentou. – Esse é Ciaran.

Denver apenas o cumprimentou com a cabeça.

– Eu trouxe o seu báculo. – Deimos disse e apontou para o lado da cama. A débil madeira estava lá, branca e descascando.

– Pois é... não tem como trocá-la?! – Ciaran disse enquanto avaliava o pedaço de madeira maior que ele.

Aisha foi até lá para pegar e entregar a Ciaran, ele passou a mão para cima e para baixo no pedaço de madeira e depois sorriu.

– Isso é um galho de Meleyda... são arvores milenares que dormem durante o verão, na época de chuva elas voltam a ser frondosas. – Aisha falou e se dirigiu para a jarra de água que estava em cima de uma bancada. Ele encharcou a madeira por um tempo.

O branco lentamente foi substituído pela cor escura da madeira e várias casquinhas começaram a despregar e cair. Alguns minutos depois a madeira assumiu uma cor de cerejeira sem muito brilho, com contornos bem ásperos, realmente a anatomia de um galho, nada de folhas, ele foi apenas... voltando a vida.

– Isso... é legal. – Ciaran disse bem mais satisfeito com o seu báculo novo.

– Isso é muito bom, principalmente para você. Arvores milenares possuem mais energia, ela vai ajudar você a se adaptar quando passar o véu de novo. Muitos da sua raça querem ter a graça de serem apadrinhados por uma Meleyda... as árvores escolhem seus magos Ciaran. Isso com certeza vai te ajudar com as criaturas mágicas, seu báculo é como a sua identidade.

– Eu não sei o que dizer.

– É porque você não faz a mínima ideia do que você é. – Deimos completou.

– Bom, tem a biblioteca, você pode pesquisar depois lá. – Natane completou. – Não sei muito sobre magos também.

– Depois que você for buscar suas coisas. – Aisha falou encostando o báculo novíssimo ao lado da cama, agora ele parecia ter uma textura melhor.

– O que aconteceu comigo? – Ciaran perguntou recebendo a bebida de Aisha.

– Você não estava preparado para a atmosfera depois do véu... perdeu muita energia. – Aisha explicou.

– Ah, agora faz sentido, eu só queria dormir, parecia que não tinha forças e...

– E por que você não disse nada? – Deimos perguntou sério.

– Porque eu não sabia que aquilo era anormal! Eu só achava que estava cansado.

– Como diabos você se esgotou tão rápido se você... tem uma alma que transborda energia? – Deimos tentou falar a parte final mais baixo.

– E como você sabe? – Natane perguntou desconfiado a Deimos.

– Achei que Ário tinha proibido de fazer contratos com humanos. – Aisha falou não muito feliz.

Deimos só revirou os olhos.

– Ciaran não é humano.

– O que? – Natane e Aisha falaram incrédulos.

– Isso não lhe da o direito de barganhar sua alma! – Aisha falou cruzando os braços, certo, se isso era para ser ameaçador, não estava funcionando.

– Eu não fiz um contrato com ele! E se tivesse feito não era da sua conta. A escolha é da outra parte.

– A gente sabe como vocês são persuasivos.

– Eu não preciso necessariamente fazer um contrato com ele para ter acesso a energia. Sabia disso?

Ciaran apenas subiu as sobrancelhas e Natane baixou a cabeça.

– Eu não entendi. – Aisha falou um tanto confuso. – Achei que vocês se alimentavam de almas e...

– Você ainda tem muito o que aprender Aisha. Eu posso ensinar se você quiser. – Deimos disse sorrindo e Aisha ficou sem saber o que responder, ele se sentia meio perdido na situação.

– Tudo bem... basta me dizer. – Aisha falou meio inseguro e dando de ombros.

– Sei que você pode, Deimos. – Haziel disse aparecendo na porta.

– Aí está você! – Deimos completou. – Sabe que temos um filhote de lobo no dormitório agora?

– Sei. – Haziel falou lançando um olhar perfurante a Denver, mas ele não pareceu se importar.

– Podemos ir? – Denver perguntou para Natane que apenas concordou.

– Estamos indo. – ele disse com toda a animação que possuía em si.

– Boa sorte. – Deimos falou em direção a dupla.

– Obrigadooo! – Natane disse da porta.

– Foi para o lobo.

Denver seguiu Natane pelo instituto, ele falava e falava... céus, como falava. Denver nunca ficou perto de alguém que falasse tanto, mas tudo bem, a voz não agredia seus ouvidos, na verdade, era bem agradável. Era uma existência estranha esse elfo.

O lobo observava o rapaz falar e falar caminhando a sua frente, ele tinha os movimentos bem leves e era bem expressivo, na verdade, fora a pessoa mais fácil de ler que Denver já conhecera. Era muito espontâneo. E ele com certeza foi muito bem recebido por seu novo parceiro.

Na verdade, Denver não tinha do que reclamar. O elfo era um especialista em espadas, nenhum dos seus sentidos o mandou ficar alerta, o rapaz cheirava a orvalho e folha verde, era um cheiro ao qual Denver estava acostumado a julgar pela floresta ao redor de sua tribo, mas o dele era fresco, muito agradável... e tinha um leve odor de fêmea, o que Denver achou um pouco estranho.

A única coisa que o incomodava um pouco era essa tagarelice infinita. Mas resolveu agir conforme seu pai o ensinou: não se deve tratar mal a uma dama nem a um belo rapaz. E se ele iria conviver com Natane ele teria que se acostumar, afinal eles iriam se encontrar muito, dividiam o mesmo quarto.

Pois é, Denver tinha evoluído de passar alguns meses se virando sozinho na montanha para passar seus dias em um quarto aconchegante, com um elfo ruivo, de cabelos bagunçados e olhos de um verde fosco fascinantes, Denver sempre achou a raça élfica bem interessante. Natane só acrescentou mais uns pontos positivos. Além disso eram excelentes guerreiros e muito inteligentes.

– Bem, aqui é o campo dos portais. – Natane falou descendo as escadas em direção ao enorme gramado com círculos de cogumelos e fadas que voavam como vagalumes super rápidos.

Natane entrou em um dos círculos e esperou Denver se juntar a ele, o lobo o encarou, como sempre sério e o jovem elfo só desviou os olhos e ficou um pouco nervoso, é que Denver era naturalmente bem sedutor, então ele ficava meio sem jeito e seus pés balançando seu corpo para frente e para trás só confirmaram como ele se sentia desconfortável.

O breu os envolveu e a sensação de estarem no meio do nada os atingiu, Natane odiava isso, era uma sensação de como você tivesse sumido do mundo, era um sentimento de nada, você estava envolto pelo nada. E ele se apavorava com a possibilidade de ficar preso naquele lugar sempre que viajava, embora fosse apenas por um segundo ou algo assim.

Logo a luz iluminou os dois e eles estavam no centro de um belo campo verde, lindo mesmo, o campo ia até onde a vista podia alcançar, até as montanhas mais ao longe, o mato verde estava alto, ia até quase o joelho de Natane. O vento acariciava lindamente o verde o vivo das plantas flexíveis e as ondas se propagavam por toda aquela área. Era lindo e o cheiro era vivo, cheiro de chuva e primavera, de natureza viva pela graça da água.

– Então, esse portal nos trouxe para o meio do nada? – Denver comentou olhando para o horizonte em busca de algum sinal de vida. Nada só o som do vento.

– Talvez devêssemos andar um pouco. O portal nunca nos leva exatamente para onde devemos ir... as vezes temos que agir em uma situação já existente, uma guerra ou algo assim, não é seguro nos materializarmos no meio do conflito. E dependemos de onde as fadas do lado de cá plantam os portais. É aleatório.

Denver ergueu o rosto e Natane notou as narinas aumentarem discretamente. O lobo começou a andar na diagonal e o ruivo começou a segui-lo.

– Sabe para onde está indo?

– Sinto cheiro de fumaça nessa direção, está um pouco longe.

– Tudo bem.

Eles começaram a andar... e andar e andar. Até o ponto que Natane cansou de falar, Denver escutou tudinho, mas de vez em quando se sentia mal, ele não gostava tanto de falar então suas respostas eram curtas ou ele não respondia, então ele não sabia se Natane entendia isso muito bem, ele não queria o rapaz entendesse errado.

De vez em quando ele se concentrava nos passos atrás dele, só para ter certeza, era um campo aberto, nada mais perigoso que um campo aberto, mais adiante existia um bosque que parecia se estender as montanhas mais próximas, eles estavam em um vale...

– Que bom que viemos parar aqui. – Natane disse atrás dele. O elfo estava curtindo a paisagem e jogando sua espada de uma mão para outra o tempo inteiro. – Podemos ver os inimigos quando se aproximam.

– Na verdade, os inimigos conhecem sua casa, nós somos os visíveis aqui. – mas ele era um elfo não muito experiente pelo visto. Primeiro, não se fica jogando uma espada de um lado para o outro, segundo, ele parecia muito despreocupado com tudo a sua volta, nada de cautela.

Finalmente eles avistaram uma casa mais adiante de onde saia a fumaça negra, um pouco antes de chegar ao bosque. Eles tinham que chegar ao vilarejo mais próximo para averiguar como era bem a situação.

Era uma casa com um pequeno armazém ao lado, estava mais para um estábulo, na verdade, ao aproximarem-se, notaram uma vaca, dois cavalos e três cabras, duas galinhas e seis pintinhos. Somente.

Natane aproximou-se da porta de madeira pesada e bateu.

Um senhor baixinho e velho apareceu, meio ranzinza com a ausência de uns tufos de cabelo.

– O que querem? – ele disse grosso e Natane procurou ser o mais gentil que conseguiu.

– Somos do instituto e viemos ajudar. Parece que um ogro...

O homem abriu a porta com o maior sorriso do mundo.

– Meu amigo! – o anão falou e abraçou a cintura de Natane, para um anão até que ele era alto.

– Olá, eu sou Natane e este é Denver.

– Só vocês dois vão derrubar um monstro daquele? Duvido muito. Venham, entrem. Ele não costuma aparecer de tarde... é mais ao anoitecer.

Os dois sentaram nas cadeiras pequenas e ouviram o anão relatar. Parecia que entrando no bosque estava a vila, perto da montanha que o ogro vivia, a noite ele descia das montanhas, pelo menos uma vez por semana para procurar comida. Acabava levando os animais como vacas, porcos e ovelhas. As vezes levava algumas mulheres que nunca conseguiam retornar, sempre havia luta dos homens da vila para tentar defendê-la, mas a maioria acabava morto e sem ferir letalmente a criatura.

Durante esses três meses, parecia que o número de homens na vila diminuíra e o ogro estava descendo mais frequentemente, eles estavam ficando sem comida e as mulheres e crianças estavam trancados em suas casas. Porém, agora o ogro estava invadindo as moradias e ninguém estava mais seguro.

– E por que ninguém subiu a montanha durante o dia para matá-lo?! – Denver perguntou com seu modo sério, o anão apenas o olhou de cima abaixo e voltou a encarar Natane.

– Porque a montanha é o lar de muitos ogros e criaturas piores, quem subiu nunca voltou, é um local proibido, todos tem medo. Daqui a alguns dias ele virá para minha casa levar meus animais e tirar minha vida.

– Nós vamos resolver o problema. – Denver falou levantando-se e indo em direção a porta.

Natane agradeceu e seguiu Denver pelo caminho apertado entre as árvores em direção a vila escondida.

– Tomara que ele fique bem. – Natane falou percorrendo os arbustos sem muita dificuldade.

– Vai ficar, esse ogro morre hoje.

Não demorou muito para chegarem a vila. Ela estava vazia, era um vilarejo pequeno, talvez trinca casas ou algo assim, todas em volta de um poço, mas estava deserta, escura, com cara e cheiro de morte e abandono.

– Não tem ninguém? – Natane perguntou baixo atrás de Denver, como se não quisesse perturbar o silêncio que pairava no ar.

– Tem sim. – Denver respondeu ao mesmo tempo que alguma coisa voou em sua direção, mas o lobo foi mais rápido e segurou a bendita coisa.

Ela uma pedra do tamanho de um punho.

– SOMOS AMIGOS! – Natane gritou, até que ele viu um movimento nos galhos superiores das árvores, uma garota estava lá, mirando uma flecha na direção deles. – Anqueiro!

Natane pulou para um lado e Denver para o outro.

– Somos do Instituto e viemos ajudar!

A arqueira abaixou o arco e algumas mulheres e crianças apareceram na janela. O primeiro a sair foi um homem idoso seguido de uma mulher robusta com muita presença e cabelos curtos, com a testa cheia de rugas, provavelmente por sustentar sempre uma expressão raivosa, lábios vermelhos como sangue e roupas de uma aldeã normal, o espartilho estava o mais acochado que conseguia, saliantando os seios já nada modestos.

– São do Instituto? – ela disse com a voz a autoritária.

– Hm, sim. – Natane respondeu tentando deixar o símbolo do instituto visível. – Soubemos que estão com problemas e viemos ajudar.

A mulher avaliou os dois e se deteve em Denver, mas o lobo estava com os olhos fixos na arqueira que ainda estava em sua posição, em um galho alto.

– Ela não vai feri-lo se eu não mandar. – a mulher gritou em direção a ele, mas Denver ignorou, parecia que a ameaça no galho o preocupava mais.

– Soubemos que tem um ogro causando problemas... – Natane começou e todas as doze pessoas a sua volta pareciam avaliá-lo. Ele estava começando a se sentir desconfortável.

– Um ogro? Eles são cinco! – a mulher disse colocando as mãos na cintura. – Cinco ogros e eles só mandam um magrela e um rapaz mal encarado? Como vão conseguir derrotar cinco ogros de pelo menos três metros e 900kg?

– Eu... o que nos chegou foi que vocês estavam tendo problemas com um ogro.

– Pois vocês estão errados. Agora deem o fora daqui, ou voltem quando trouxerem reforços.

– Viemos ajudar...

– Não estou botando fé em vocês. – ela falou, os outros continuaram mudos.

– Nós vamos resolver o problema. – Denver falou, sem perder a arqueira de vista.

– Você ouviu o que eu disse rapaz, são cinco ogros adultos!

– Ouvi. Vamos dar um jeito. – Denver falou e o coração de Natane disparou, talvez fosse melhor eles voltarem. Quer dizer, eles eram bestas que não pensavam muito, eles iam se defender com tudo o que tinham... e eles tinham 800kg.

– Muito bem. Eles chegam um pouco mais tarde. Enquanto isso... vocês podem esperar aqui. – e todos voltaram para suas casas.

Bem, Natane não gostou muito da hostilidade, na verdade ninguém gostava muito do instituto. Os primeiros convocados eram arrogantes e não se preocupavam com nada a sua volta, então eles acabavam destruindo um pouco demais e tratavam mal os contratantes, além de cobrarem mais do que o necessário, ainda existiam esses, afinal o instituto tinha muitos membros, mas a maioria não era mais assim!

A arqueira desceu das arvores e se dirigiu aos dois, mais em direção a Denver.

– Eu sou Amyr. – a garota disse, era magra baixa, inexpressiva e com cabelos negros exageradamente lisos, não tinha muitas curvas no corpo e o nariz parecia excessivamente pontudo . – Eu vou ajudar se vocês precisarem.

– Eu sou Natane e esse ai é Denver.

O lobo apenas a ignorou e foi sentar-se na parede do poço esperando os últimos raios de sol sumirem no horizonte.

– Ele não fala muito. – ela disse já mais próxima de Natane.

– É, ele não fala. Mas é bem legal. Por que acha que recebemos a notificação de só um ogro?

– Bem, eles aumentaram de número quando paramos de nos defender. Estamos ficando sem comida... e sem mulheres jovens. Eles parecem gostar delas.

Natane encostou a espada no muro do poço, ela era pesada mesmo, seus braços já estavam cansados e a batalha não tinha nem começado. Logo escureceu, e o local onde estavam só era iluminado pelas luzes que vinham de dentro das casas.

Até que Denver levantou, olhou ao redor em direção as montanhas.

– Eles estão vindo. Preparem-se. – falou tomando a dianteira e sacando uma jambia e uma adaga longa e delgada, mas parecia bem resistente.

– Como ele sabe? – a garota perguntou a Natane.

– Ele é um homem-lobo, então acho que ele sente essas coisas e...

– Um o que? – ela disse meio assutada.

– Um homem...

– Eu ouvi! – ah, então por que perguntou de novo.

– Tire ele daqui. Nós preferimos os ogros.

– O que? Por que? Ele está aqui para ajudar.

– Vamos mais adiante. – Denver disse seguindo para a montanha.

– Ele é louco? Está indo para cima deles! – ela falou com os olhos quase saltando fora das órbitas.

– É melhor não lutarmos aqui... os prejuízos serão menores, certo?! – Natane completou e puxou sua espada, mas lhe faltou um pouco de força então... em três segundos o eco do metal batendo nas paredes do poço e se afundando na água foi ouvido em alto e bom som.

Denver parou e andar e olhou para trás.

Natane ficou lá imóvel.

– Não me diga que você perdeu sua arma. – o lobo disse entre dentes.

– Foi... sem querer. – Ah, que ótimas maneira de impressionar seu novo parceiro. – É muito fundo? – ele perguntou a morena que o olhava curiosa.

– Ela deve estar se afogando com uns cinco ou seis metros de água, no mínimo.

– Ah. – droga! – Talvez se deu mergulhar...

Eles começaram a ouvir os passos pesados e lentos no inicio da montanha e as árvores reclamando, sendo maltratadas.

– Eles vem vindo. – Denver disse fazendo seu caminho de volta e fuzilando Natane com os olhos.

– Foi sem querer. – o ruivo falou em sua defesa.

– Vamos atacar por cima, subam nas casas. – Denver disse aos dois. – Tentem mirar entre a mandíbula e clavícula do ogro, a pele é mais fina lá. Deixe-me ver suas flechas. – ele falou em direção a morena que lhe deu uma. Era feita de um galho fino de árvore com a ponta em pedra. Denver não podia estar mais sozinho. – Não desperdice as suas flechas tentando acertar onde eu disse, tente cega-los. Entendeu?!

– Eles tem um olho minúsculo! – ela rebateu ficando um pouco distante de Denver.

– Achei que era uma boa arqueira.

– E eu sou! Mas acertar aquilo é impossível!

– Tente.

Natane juntou algumas pedras e levou para o telhado, ele ia servir pelo menos de distração, ele era rápido e tinha boa mira.

Denver por outro lado estava lutando com todas as suas forças para conter o seu lobo de tomar conta da situação, ele teria que tentar resolver as coisas em sua forma humana. Era assim. Era lei. E ele não conseguisse, bem...

Ele estava furioso e irado, como o idiota do elfo derruba a arma, aquilo que vai mantê-lo vivo, dentro de um poço? Ele era um cabeça de vento! Idiota! Os passos ficavam mais pesados e próximos, já podia se ouvir os vários gemidos, a lua cheia começava a aparecer enquanto as luzes das casas apagavam.

Eles despontaram no caminho já aberto entre o bosque. Eles eram enormes, alguns menores outros maiores e um era gigante. Devia ser o líder. Matando o líder, o resto corre e eles não voltariam mais... mas o bastardo era enorme. Devia ter pelo menos três metros e quilos e mais quilos de pele verde musgo, a cabeça parecia uma batata e muito menor do que o corpo edemaciado, era uma criatura grotesca e meio sem cérebro. Movida por instintos.

Denver olhou para a garota e para Natane do outro lado, em cima das casas paralelas. Ela tremia, mas estava firme e forte apontando na direção deles que se aproximavam cada vez mais. Natane falava alguma coisa para ela e isso parecia acalmá-la. É, ela ia morrer calmamente, em paz, pelo menos.

As criaturas chegaram, eram apenas quatro deles, o líder vinha na frente. Denver tirou a bolsa que estava em suas costas e deixou no telhado, era melhor ela permanecer intacta. Ele olhou de novo para o outro lado quando os ogros pararam perto do poço. Sues olhos se fixaram no ruivo.

Por algum motivo ele estava bem preocupado agora. Natane não parecia... experiente. Ou habilidoso. Ou... ele não queria ver o ruivo morrer nem muito menos voltar para casa com a notícia que em sua primeira missão seu parceiro morrera.

Um dos ogros menores tomou a posição dianteira, eles não eram muito inteligentes, não tinham notado as pessoas sobre o telhado ainda. Na verdade, eles viam mal e ouviam mal... o que não queria dizer que uma flechada nos olhos não doeria.

Denver olhou para a garota que mirou no menor. Não, não! Era pra ser no líder! Ela não sabia de nada! Natane cochichou algo para ela e ela apontou para o grande.

Pena que foi na mesma hora que o monstro viu os dois. O urro que o ogro soltou era alto forte e assustador. Ela atirou a flecha, mas errou, realmente não era muito habilidosa. Natane pegou uma pedra... uma pedra?! E atirou em direção ao rosto do ogro.

O mostro berrou mais uma vez e levou a mão ao seu próprio olho. Ele acertou? Talvez não fosse tão ruim assim! O ogro menor deu um soco na parede da casa onde eles estavam. A estrutura tremeu e os dois lutaram para se equilibrar. Ela jogou mais uma flecha e por sorte foi direto na boca do monstrinho. O ogro vomitou um liquido preto que o nariz de Denver identificou como sangue. Era fétido.

Os outros dois se dirigiram para lá ao comando dos berros do ogro maior. Denver levantou e foi até o fim do telhado, ele precisava de impulso se queria pular dali e alcançar o maldito. Ele começou a correr pelas telhas velhas e quebradiças, mas todos estavam muito distraídos com o lado mais fraco e ele pulou, aquela sensação de voo, mas que na verdade ele estava caindo. Ele enfiou com toda a força que ele conseguia a sua adaga no braço do maldito, ela entrou apenas até a metade.

O ogro gritou de dor e sacudiu o braço tentando se livrar da dor. Quando o ogro levantou seu braço Denver arrancou sua adaga e subiu no pescoço da coisa, era ruim embora o monstro tivesse ombros largos para se apoiar. A cabeça era pequena e o espoco menor ainda, esse parecia se alimentar bem.

Ele enfiou a adaga no ombro do pescoço da criatura, ou tentou, ela não quis entrar completamente, pelo contrario, o ogro urrou ainda mais alto e furioso agarrou Denver e o atirou para o meio do bosque, seu corpo doeu horrores depois de bater em três arvores e derrubar uma , lhe faltou o ar... ele era forte, ok. Precisa mudar a estratégia, matar os menores, e torcer para que o líder fosse embora.

Denver assistiu o ogro retirar sua adaga do pescoço como se fosse um palito e atirá-la entre as plantas ele encontraria, fedendo a sangue como estava.... ele contava que tivessem uma espada maior para usar! Ele levantou-se sentindo as dores passarem e alguns músculos se curarem... ele ficaria faminto depois dessa batalha.

Natane não sabia o que fazer, o ogro maior havia atirado Denver longe e ele com certeza estava machucado por aí.

Amyr tremia apavorada e gritou quando os ogros começaram a quebras as paredes da casa e essa veio abaixo. Um dos ogros, com um pouco mais de dois metros escavou os destroços em busca da garota e a encontrou.

Ela gritava como nunca! Parecia que o mostro estava esmagando suas costelas, ela chorava e gritava.

Ele tinha que fazer alguma coisa. Pegou mais uma de suas pedras e atirou no monstro, uma duas três vezes, sempre no mesmo lugar, ele era bom de mira, no mesmo lado da cabeça, até o monstro ficar um pouco desorientado. Ele avistou Denver sair da floresta e correr em direção ao monstro maior, jorrava um pequeno chafariz de sangue no local onde Denver espetou o bicho, mas ele correu para a floresta desviando do monstro que parecia bem interessado nele.

Os outros três pareciam gostar mais de Natane, pois começaram a ir em sua direção, até aquele que segurava Amyr, ele a soltou depois que ela desmaiou e parou de se estrebuchar, fingir de morta, bom plano.

– Vocês vem me pegar?! Tudo bem então!

Um deles pegou um pedaços das vigas da casa destruída e usou para acertar Natane, mas ele desviou, fugir era com ele mesmo, ele seria a distração então.

Do nada Denver pulou no ombro de um dos ogros que o perseguia e cravou sua espada no pescoço da criatura, essa sim jorrou muito sangue e o monstro caiu no chão agonizando. Agora o líder deles ficou irado e foi em direção a eles. Denver não perdeu tempo e matou mais um, sobrou apenas um dos menores que decidiu se afastar deles por um momento. O grandalhão se aproximava o mais rápido que conseguia, ele era muito pesado para andar rápido. O monstro socou outra casa e essa veio abaixo.

– Aqui. – Denver disse entregando sua adaga recém recuperada a Natane. – Sabe usar, certo? Não perca na merda do poço ou morreremos.

– Tudo bem. – mas Natane ficou preocupado com algumas manchas pretas e um corte horroroso na testa de Denver, mas se ele estava bem...

Denver correu chamando atenção do ogro grande que estava sedento por sangue, pelo sangue do lobo.

Natane encarou o outro ogro que também o olhava. Ele gruiu chamando Natane para a luta. Oh, céus.

Denver correu para o bosque, o ogro grande o seguia destruindo as plantas e acordando os animais que dormiam. Ele correu e fez com que o mostro o seguisse, ele precisava de tempo, no fim ele teria que matar o bicho mesmo. Mas Natane precisava matar o outro antes.

Ele observou o seu parceiro. Ele parecia bem mais apavorado, ele desviou, desviou e desviou do golpe. Vamos Natane, era um monstro lento! Ele balançou a adaga e o acertou como se fosse uma espada! E na parte mais dura que podia existir do monstro! Aquilo era uma adaga, era para ele furar e não usar como espada, não era o momento pra isso!

Denver deu uma volta de 360º na vila, sempre com o monstro acéfalo atrás dele. E ele percebeu para o aumento substancial de sua fúria que Natane não sabia como usar a porra de uma espada, muito menos uma adaga, muito menos lutar corpo a corpo, muito menos achar pontos fracos no inimigo. Ele sentiu seus caninos descerem. Ele estava com muita raiva.

O ogro conseguiu acertar Natane enviando-o fatalmente ao chão. O ogro apontou a viga pontuda para o elfo, ele errou a primeira, Natane desviou, mas o monstro conseguiu acertar sua perna, ótimo, ele só sabia fugir e agora nem isso!

Denver saiu de sua rota e pelas costas do ogro novamente, pulou na região do pescoço e martelou sua Jambia três, quatro, cinco vezes, sangue espirrou para todo lado, mas o terceiro corpo imóvel caiu como um rinoceronte no chão.

O lobo sentia seu corpo quente, e cansado, necessitando da transformação para que pudesse curar mais rápido.

Ele olhou Natane no chão e sem querer, foi sem querer mesmo, ele lhe mostrou suas presas. Os olhos do elfo cresceram algumas vezes.

– Saia do meu caminho e se esconda.

O ogro apareceu do meio do bosque e destruiu mais uma metade de uma casa. O monstro avaliou o estrago, todos os seus aliados mortos. Ele urrou a ponto de transparecer toda a sua dor e a sua fúria.

Denver correu na direção contraria, ele ia tentar uma ultima vez arrancar fora a jugular do monstro. Uma ultima vez.

Foi então que ele escutou a voz de Natane, e era o som que ele temia ouvir. Um grito. Seus olhos pegaram o momento exato da criatura apanhando o elfo como se fosse um boneco e o espremendo nas mãos, o sangue começou a jorrar da perna ferida de Natane, como se fosse água.

Ele sentiu seu lobo chegando a superfície, ele tinha que agir logo, e não tinha outro jeito. Denver sentiu sua consciência dar espaço ao lobo dentro de si e em dois segundos ele sentia que besta dentro de si agora estava no comando, agora não tinha chance desse ogro viver.

Natane não conseguia respirar, não conseguia, ele sentiu sua vista ficar turva e algo liquido escorria em sua perna, algo bem fluido, ele ia morrer ali, daquele jeito?!

O elfo ouviu um grunhido, não vinha do ogro, na verdade o ogro recuara um passo. De repente o aperto sobre si afroxou e Natane caiu de uma altura de três metros direto no chão duro, mais uma vez ele sentiu sua consciência se esvair, mas não antes dele ver um enorme lobo, ele era gigante, imenso, devia ter quase dois de altura e pelo menos três de comprimento, era imenso, o lobo estava sobre si agora, ele só esperava que fosse Denver, porque ele só queria dormir, dormir um pouco.

Mas ele não conseguiu, ele sentiu tapinhas no seu rosto e água ser posta em sua boca. Ele abriu os olhos que focaram os aldeões sorridentes ao redor e Amyr segurando um pedaço de coco de onde vinha sua água. Denver estava ali, sem camisa também, apenas com uma calça frouxa simples. Ele o olhava sério, com raiva e chateado.

Ótimo.

– Pensei que tivesse morrido. – Denver disse com sua voz sem emoção.

– Que bom que você voltou. Acho que seu corpo não possui lesões graves. – Amyr falou séria.

Natane se ergueu e o mundo girou.

– Você perdeu muito sangue. – Denver falou ainda o observando. – Va devagar.

– Você está ótimo. – Natane não conseguia ver um arranhão no desgraçado. É... cadê o ogro imenso?!

Natane olhou ao redor... o monstro estava destroçado, parecia que alguém tinha arrancado pedaços dele por toda parte, era horrível, Natane sentia vontade de vomitar. Aquelas coisas eram os intestinos do ogro?!

– Aqui. – a mulher, a que parecia a líder da vila, veio com um pequeno saco de moedas e entregou a Denver. – É tudo o que temos para pagá-los.

Denver apenas recebeu e pegou sua capa no chão e enrolou no pescoço.

– Vamos embora. – Denver disse em direção a Natane. Ok. Ele ia tentar. Levantou devagar, tentando fazer o seu mundo parar de girar. Pronto, ele conseguiu.

– Ok, então.

Denver apertou o pescoço de Natane com um pouco de força, Natane ficou desesperado! Ele ia ser morto pelo seu próprio parceiro! O que aconteceu, ali estavam elas de novo, as presas. Eles assustaram o inferno em Natane.

– Você não sabe usar espadas. Você não sabe se defender. Você não sabe lutar. Em outras palavras você é um inútil que pôs a sua vida e a minha em risco essa noite, você percebeu isso? Você me disse que sabia usar espadas, facas essas coisas porque é a especialidade do seu povo, mas você não sabia nem como segurar ou como manejar! Eu não sou brinquedo de ninguém para arriscar minha vida com alguém que não pode defender minhas costas.

– Como se você precisasse. Você é uma besta enorme! – Amyr disse descrente.

Mas Denver ignorou, Natane estava lá respirando pela boca e escutando tudo direitinho.

– Eu não vou arriscar minha vida uma segunda vez. Preciso de uma pessoa em quem eu posso confiar e que saiba cuidar do próprio nariz, que seja mais útil e que tenha mais habilidade. Fui claro? – Natane assentiu devagar e Denver o soltou. Ele suspirou e desviou os olhos do parceiro, Natane parecia bem triste agora, mas ele tinha que dizer isso. – Vou falar com Ário para arranjar outra dupla para você.

Isso pareceu pegar Natane desprevenido.

– Eu posso... me esforçar mais. – ele falou meio baixo e sem vontade.

– Não é questão de esforço se você não sabe nem o que fazer. Você vai se esforçar para que? Você vai se jogar com mais vontade em cima de uma quimera? Porque você não sabe usar uma arma. Você não foi mais que um peso e um inútil essa noite.

– Ele é bom com pedras. E mira. – Amyr disse entrando na conversa.

– Fique fora da conversa. – Denver rosnou para a garota.

– Não, tudo bem. Ele está certo. Não é nada que eu não esteja acostumado a ouvir. – Natane disse sorrindo um pouco triste.

– Bem, então... — a mulher com os labios carmim voltou a falar. – Como não temos muito dinheiro, oferecemos uma de nossas mulheres para casamento. – ela empurrou Amyr na direção de Natane, até a garota parecia surpresa. Enfim, parecia que Natane era mais seguro para um matrimonio do que Denver.

– Hm, não precisa. – Natane falou educadamente e Amyr pareceu se ofender. – Não é isso, não se ofenda! É só que eu já sou comprometido e...

– Eu não estou interessado. – Denver falou rudemente. – O dinheiro está bom. Vamos.

Natane concordou e seguiu Denver que já fazia o seu caminho de volta.

– Obrigada. – a mulher disse enquanto os dois se distanciavam.

Estava escuro, ainda bem que a lua iluminava o caminho de volta. Eles viram a casa do anão e agora só precisavam percorrer todo o longo caminho de volta, como diabos Denver ia farejar o caminho de volta.

Natane tomou a dianteira avaliando algum tipo de amuleto.

– É só me seguir. Isso é uma bússola. Eu já fiz isso várias vezes, mas se você quiser eu passo para você. – Natane falou sem olhar para ele, apenas seguindo o caminho.

– Não. Tudo bem. – Denver respondeu.

Era uma caminhada de mais ou menos meia hora. E já havia passado uns quinze minutos, para alguém que estava com a perna machucada até que Natane estava andando bem rápido. Mas o elfo não tinha dado nem um pio depois que começaram a caminhar, Denver não esperava que ele falasse na verdade, mas ele precisava dizer aquelas cosias, Natane ao parecia ter noção das gravidades das coisas e as vezes o que as crianças precisam para aprender é só um choque. Agora que Denver estava mais calmo e já tinha explodido tudo que queria na cara do elfo, ele não queria que o ruivo ficasse muito chateado ou bravo com ele. Ele não tinha sido duro demais, só falado a verdade... talvez chamar o elfo de inútil tenha sido um pouco demais. Ele suspirou e se esforçou.

– A história de ser comprometido era verdade? – Denver se viu começando uma conversa, isso era tão raro para si que o assustou. Era um progresso. Ele só tinha que melhorar o tom de voz, ainda parecia meio autoritário... ele não costumava reparar nessas coisas.

– Sim. – ok. Pelo menos ele respondeu.

– Ela é bonita?

– É ele.

Tudo bem. Denver nunca poderia tomar um homem como companheiro, eles eram apenas amantes, Denver precisava deixar descendentes para que continuassem sua linhagem.

– Ele é bonito? – Denver achou estranho, não a pergunta, mas a qualidade.

– É. – certo, Natane não queria conversar com ele. Ouviu Natane suspirar. – Ele é o melhor guerreiro da minha tribo. É habilidoso com todos os tipos de armas. De verdade. – Denver sentiu o peso desse “de verdade”, ele decidiu parar de estabelecer o diálogo.

O caminho aprecia mais longo que o convencional. Denver sentiu o cheiro de sangue fresco, vinha da perna de Natane, era o cheiro doce inconfundível.

– Podemos ir mais devagar. – ele disse casualmente.

– Já estamos quase lá.

Tudo bem. Ótimo, porque ele estava morrendo de fome, ele podia agora caçar qualquer coisa para comer, a fome depois que seu lobo era liberado era incalculável. Isso porque ele ainda estava crescendo.

Natane parou e Denver ouviu a respiração irregular. Ele tinha perdido sangue, muito sangue. Se ele precisava parar tudo bem.

– Chegamos. – Natane disse e Denver se juntou a ele dentro do circulo de cogumelos.

O breu logo os envolveu e eles estavam no jardim bem iluminado do instituto com doas as fadas voando por eles. Natane se dirigiu para dentro e Denver o seguiu. Estava bem movimentado naquela noite, varias criaturas circulavam por ali, grandes e pequenas.

Natane parou em uma bifurcação.

– Você segue direto por esse corredor. Na quinta entrada você dobra esquerda e é nosso dormitório. – Natane disse fazendo sinal com a mão.

– Certo. E você vai para onde?

– Enfermaria. Você precisa de alguma coisa?

– Não, estou bem.

Natane concordou e seguiu pelo corredor a esquerda. Denver assistiu Natane caminhar próximo as paredes, do outro lado criaturas circulavam. Bem, ele ia esperar Natane no quarto então. Ou ele devia acompanhá-lo. Não... ele não devia querer que...

– Você está bem? – ele escutou alguém falando e deu meia volta. Natane estava de joelhos no chão tentando conseguir o máximo que conseguia de ar. Um rapaz de pele escura e olhos de ouro falava com ele, mas Natane apenas assentia.

Claro que ele não estava. Denver chegou perto dele e colocou o braço de Natane sobre seus ombros.

– Não... – Natane gemeu. – Tudo bem, eu posso fazer isso sozinho. – Denver sentiu a pele gelada que tremia levemente, os lábios hipocorados estavam lá também separados e respirando fundo.

– Você está péssimo. Eu ajudo você... – Denver o levantou do chão.

– NÃO PRECISA! – Natane disse se afastando dele, isso meio que o surpreendeu um pouco. – Você já fez demais por hoje... você mesmo disse. Eu consigo, não se preocupe. Vá descansar, você está cansado.

Natane seguiu seu caminho e Denver ficou um tempo no corredor, até que percebeu que tinha muita gente olhando para ele. Tudo bem! Ele não ia se humilhar para alguém que não queria sua ajuda e nem conseguia ouvir umas verdades. Mimado!

Ele chegou em seu dormitório e entrou, a primeira criatura que viu foi o tal Deimos. Ele lhe lançou aquele sorriso malandro.

– E aí, como foi? – Deimos perguntou e Aisha despontou no outro quarto.

– Onde está Natane.

– Morto , provavelmente. – Deimos respondeu, mas Aisha esperou.

– Está na enfermaria. – Denver respondeu. – Acho que ele não quer ninguém com ele.

– E por que não? – Aisha continuou a perguntar.

– Não sei.

– Mesmo?

– Como foi a noite? – Deimos perguntou.

– Ele não sabe como lutar ou usar espadas. – Denver comentou. Enfim, era melhor que todos soubessem logo o que estava por vir.

– É. – Deimos disse. – Você fez todo o trabalho sozinho?

– É...

– E você costuma andar assim semi nu?

– Não é por opção. De qualquer forma, não acho que dê para sermos uma dupla. – a vida de alguém era um fardo muito grande para Denver.

– Por que? – Aisha disse quase desesperado.

– Porque eu não quero arriscar minha vida sozinho e ter que salvar a bunda dele sempre.

– E você disse isso a ele?

– Disse.

– Vocês vão se separar? – Deimos perguntou com um sorriso no rosto. Irritante.

– Sim.

– Haziel, eu ganhei a aposta. – Deimos gritou para o quarto ao lado. – Não aguentou uma noite sequer!

–Eu vou falar com ele. – Aisha disse saindo do dormitório.

Logo em seguida Haziel despontou no quarto e seguiu o mesmo caminho do garoto.

– Você me deve! – Deimos gritou.

Denver apenas seguiu para o quarto, tomou um bom banho e relaxou em sua cama. Mas não dormiu, ele esperou Natane voltar da enfermaria. Ele devia era dormir. Ele não devia nada a ninguém. Mas dormir com o cheiro do elfo no aposento estava bem difícil. Denver podia ter dito aquilo, mas ele ainda se preocupava com o ruivo, um dos motivos disso não dar certo era justamente o fato da vida dele correr perigo e o único responsável por ela ser Denver.

Ele ouviu a porta da frente abrir, mas era só garoto albino e seu escravo. Só os dois. Ele esperou os dois se recolherem e levantou. Pegou o hobby escuro e saiu no corredor. Não era difícil, era só seguir o cheiro dele.

Ele entrou em vários corredores até encontrar a enfermaria. Natane estava em uma das camas e dormia, muito calmo e tranquilo. Ótimo, ele estava lá super preocupado e Natane aqui, dormindo como um anjo. Ridículo.

Exceto pelas bolsas escuras embaixo dos olhos. Isso era novidade. Bem, não havia nada que ele pudesse fazer, dirigiu-se então para fora, mas parou no meio do caminho.

Ele podia pelo menos mostrar que ele se importava.

Deu meia volta e encontrou uma cadeira, sentou e resolveu ficar ali esperando. Ele finalmente conseguiu relaxar um pouco.