Magic Whisper
7 Talvez sua família tivesse problemas com demônios.
Ciaran andava de novo pelos corredores de um lugar desconhecido. Ele agora conseguia ver seus pés caminhando abaixo de si e suas mãos, agora ele conseguia controlar um pouco esse corpo estranho.
Observou quadros nas paredes e finalmente viu aquela pessoa no fim do corredor, aquela que lhe estendia a mão, mas dessa vez, quando ele se aproximou ela caminhou como um fantasma para uma sala lateral. Ele parou e ponderou se seguiria aquela pessoa estranha.
Deu mais alguns passos e olhou para dentro da porta dupla de madeira, estava fechada. Ele a tocou e um frio percorreu sua coluna de cima abaixo, talvez... ele não devesse abri-la. Deu três passos para trás e mais uma porta estava aberta.
Alguém estava na sacada de um quarto, de costas para ele, parecia um cavaleiro ou algo assim, suas roupas. Seus pés começaram a caminhar sozinhos em direção a ele, mas uma angustia lhe batia o peito como se fosse amassá-lo.
Então a porta de trás abriu, mas Ciaran quase morre de susto com o barulho!
E seus olhos abriram para aproveitar o sol brilhante que entrava pela janela do instituto, ele ainda se sentia meio ressacado de sua recente visita ao reino do outro lado do véu, mas nada que ele não pudesse lidar.
Deimos já estava de pé, claro. Ele não precisava dormir. Deimos colocava suas munhequeiras e calçava seus coturnos, parecia pensar bem longe, até que seus olhos ônix encontraram os seus e um sorriso convencido se desenhou em seu rosto, Ciaran estava com preguiça até de sorrir.
– Bom dia, chapeuzinho. Ário quer nos ver. – ele disse começando a andar pelo quarto com os passos pesados e sonoros.
– Uhum.
– Agora!
Ciaran sentou na cama e olhou para a sua roupa, ele precisava ir buscar outras com urgência, ele estava dormindo com uma calça branca que lhe tinham dado na enfermaria, era confortável, mas uns dois tamanhos acima do dele, então...
– Apresse-se. – Deimos disse da porta de novo.
– Vou fazer o que posso.
Ciaran se arrumou em seu tempo, bem lentamente, ele se sentia lento, nunca as cenas de seus sonhos ficavam frescas em sua mente, mas dessa vez, ele lembrava de tudo com detalhes. Caminhar pelos corredores, a porta escura de madeira que lhe enviava um mal pressentimento e a sala do outro lado, cuja visão de alguém fez com que seu peito ardesse e a ansiedade boa crescesse, foi nesse momento que ele perdeu o controle sobre o sonho e...
– Você está bem distante hoje. – Deimos disse da porta chamando a atenção de Ciaran, felizmente ele já estava vestido.
– Eu ainda estou meio lento.
– Percebi, faz uns vinte minutos que você está ai. Pronto?
– Por que está tão apressado?
– Quero um pouco de tempo pra mim no seu mundo... tenho assuntos pra resolver, então se puder se apressar...
– To indo. Você vem Feiy? — claro que a raposinha o acompanhou, eram inseparáveis.
Ciaran acompanhou Deimos até a sala de Ário. Hoje ele iria para casa pegar suas coisas e tudo mais, talvez procurar um livro sobre magos e que o ajudasse a entender sobre ele próprio. Mas enfim, ele olhou para o rapaz forte a sua frente. O que Deimos queria no mundo humano? Talvez só uma refeição...
– O que você quer fazer no meu mundo? – Ciaran perguntou assim que chegaram a porta de Ário.
– Assunto de família, não é da sua conta.
– Grosso.
Eles entraram e Ário como sempre estava escrevendo e escrevendo... ele ainda escreveu mais uns três ou quatro papeis até que parou e olhou para os dois com um sorriso simpático.
– Temos muito trabalho esses dias, parece que todos decidiram virar delinquentes. – ele disse em meio a um riso. – Hoje você vai finalmente buscar suas coisas, Ciaran?
– Hm, sim.
– Ótimo. – Ário disse levantando e indo a uma pilha mais afastada de papeis e escolhendo um que estava meio que no meio. Como ele sabia exatamente onde estava era um mistério. – Quero que investiguem um garoto da sua própria cidade, Ciaran. – disse estendendo um papel que foi rapidamente sequestrado por Deimos.
– Do que se trata? – o demônio perguntou enquanto lia o endereço escrito no papel.
– Parece que o garoto é um adolescente...
– Isso é comum pros humanos.
– Mas ele já tem quase três metros de altura.
– Um gigante? – Deimos disse um ar de decepção.
– Parece que sim.
– Como foi parar lá?
– Isso é o que eu quero que descubram, tudo sobre ele e vejam a remoção dele para o mundo mágico.
– Ta. – Deimos respondeu totalmente desinteressado e entregando o papel a Ciaran.
– Mais uma coisa. – Ário disse olhando para Ciaran. – Quero que você procure na sua casa um livro, jovem mago. Ele deve ser antigo, escrito em versos. Ele é o seu livro para aprender magia. Os livros de feitiços são passados pelas gerações, cada geração acrescenta algo a ele e o mago seguinte da continuidade. O seu deve estar em casa, procure-o, vai ajudá-lo.
– Tudo bem.
Os dois deixaram a sala de Ário e se dirigiram ao campo dos portais.
– Você não vai colocar sua capa, chapeuzinho? – Deimos perguntou entrando em um circulo de cogumelos.
– Não é comum os humanos usarem capas.
Em dois segundos Ciaran se viu no meio do bosque que cercava a cidade, mas ele conseguia ouvir as pessoas falando, os passos, as bicicletas... quem era o louco que andava de bicicleta em uma cidade tão íngreme?!
– Vamos primeiro a sua casa, sim? – Deimos falou tomando o caminho.
Ótimo, o portal estava na porta dos fundos de sua casa.
Ciaran pulou o cercado e foi para a frente de casa, bom agora era só achar a chave e...
– Ah, graças a deus, meu filho! – a dona da padaria disse ao ver o garoto de pé em frente a sua casa, ela o abraçou como se o garoto fosse sumir na sua frente. – Você me preocupou meu querido! Faz uns três dias que você não aparece! Eu estava preocupada e... quem é seu amigo?
A mulher disse avaliando Deimos de cima abaixo e sorrindo para o que tinha visto.
– Esse é... Deimos, ele foi meu colega no colégio interno. – Ciaran respondeu a mulher.
– Bem vindo, se quiser fazer uma boquinha, minha padaria está aberta.
– Lá tem muitos doces gostosos. – Ciaran disse como se Deimos estivesse muito interessado.
– Pois bem, onde você estava, meu querido?
– Eu... é... recebi um convite para trabalhar no meu antigo colégio e aceitei. Então, só vim buscar algumas roupas e deixar a biblioteca em ordem.
– Ah, mas que pena... vai voltar para lá? Bem, de qualquer forma é melhor do que você ficar sozinho nessa casa.
– Também acho. – e como ele achava.
– Depois passem na padaria para se despedirem.
– Tudo bem.
A senhora se afastou e Ciaran abriu a porta. Bem, de certa forma era um alivio saber que alguém notava que ele existia ali e que se importava.
– Quem era essa mulher? – Deimos disse da porta enquanto observava a mulher voltar para sua casa.
– Ela é a dona da confeitaria, realmente tem uns doces muito bons lá.
– Hm, comida humana não me interessa, se apronte, eu vou dar uma volta.
E Deimos saiu andando. Então tá né, quem precisava de ajuda? Ele tinha Feiy, e era melhor assim, ninguém apressando nem nada...
Ciaran pegou todas as suas poucas roupas e jogou dentro de uma mochila grande que possuía, algumas coisas pessoais e pronto, era isso, não tinha dado muito tempo dele deixar aquele lugar com a sua cara, então...
Bem, próximo passo era a biblioteca. Não devia ser tão difícil, afinal ele tinha umas três ou quatro prateleiras... tá, umas dez, e o estoque, não era nada demais, ele iria encontrar um livro velho e estranho com poemas esquisitos, era simples. Feiy ia ajudá-lo, com certeza, assim que ele acordasse.
Primeira estante com algumas prateleiras e nada... segunda, terceira... ele não sabia nem direito o que procurava. Apenas suspirou enquanto seus olhos vagavam pelas prateleiras restantes, talvez o depósito fosse mais fácil.
Ele abriu uma velha porta recuada e o que ele viu foram pilhas de livros, algumas formadas por folhas rasgadas e tinha algo vivo morando ali, com certeza. Ele resolveu terminar as estantes antes de enfrentar o desconhecido do quarto úmido.
O problema é que tinham vários livros interessantes ali. Então Ciaran lia uns quinze paginas antes de lembrar que ele deveria estar procurando alguma coisa e assim foi a manhã toda e o inicio da tarde, ele sentou no chão e esperava a coragem para começar a desmontar o estoque e ver quantos tipos de seres viviam naquele lugar sujo e úmido e escuro e... sujo.
Bom, Deimos ajudaria se ele decidisse voltar.
Decidiu começar o estoque, passou pela primeira caixa, pela segunda e decidiu sentar no chão com um livro entitulado “Seres mágicos”, bem, tinha algumas páginas sobre magos ali...
Ciaran estava com sono, muito sono, deu uma piscada longa e ele ouviu alguém sussurrar seu nome. Era uma voz masculina e soava poderosa. Quem tinha entrado ali? Ele levantou e olhou ao redor, não havia ninguém.
– Deimos? – quem sabe fosse apenas ele que tinha voltado.
De repente ele sentiu algo agarrar sua perna e isso o assustou como a morte, ele olhou para o chão e não tinha nada, será que foi Feiy? Não, era uma mão, ele sabia o que era uma mão tocando nele, decidiu se afastar um pouco das prateleiras e olhar para debaixo delas de longe, não tinha como alguém caber embaixo daquela estante.
Mas, ele viu algo brilhar lá embaixo, algo como ouro ou não... talvez, outra coisa. Ele ouviu outro barulho na sala e decidiu ir lentamente até lá, lógico, ele estava apavorado, mas devagar e silenciosamente daria certo, tinham velas e castiçais na sala, era realmente sua casa, mas parecia em outra época? Estranho, mas muitas coisas estranhas estavam acontecendo em sua vida ultimamente e ele tinha certeza que essa também teria uma boa explicação.
Ele andou até o centro da sala, como seria seu quarto lá em cima? E então a porta da frente abriu, não deu para ver o rosto, a luz do sol encandeou, mas parecia um soldado. A pessoa veio muito rápido em sua direção, e em dois segundos segurou seus ombros e os sacudiu, Ciaran empurrou de volta.
Quando ele abriu os olhos ele estava de volta a sua casa, com a decoração correta, meio suja. E Deimos o segurava e olhava para ele. Hm, isso foi estranho.
– Pode me soltar? – Ciaran disse meio sem entender porque Deimos estava tocando nele.
– Você está bem? – por outro lado, parecia que Deimos o olhava como se fosse um ser de outro mundo.
– Claro que estou. E por onde andou? Ainda tenho um estoque todo para verificar.
– Estava cuidando de uns assuntos meus.
– Ótimo, ainda bem que voltou. – Ciaran falou voltando de novo para a livraria. – Assim vai ser mais rápido.
– Aham.
Ciaran olhou para Deimos e ele ainda o olhava estranho.
– Que foi?
– Nada. – Deimos deixou pra lá. – Então, o que temos que procurar?
– Você está bem prestativo.
– Não sei porque você está tão impressionado.
Ciaran assistiu Deimos entrar no depósito e olhou para a estante onde ele tinha visto a coisa de ouro, bem a estante não tinha mais a parte aberta embaixo, mas quem sabe.
Ele tentou arrastá-la, mas venhamos e convenhamos, ele não era tão forte assim, era uma enorme estante de madeira maciça com umas sete prateleiras repletas de livros.
– Deimos.
– O que é?
– Pode vir aqui e me ajudar a arrastar essa estante?
– Por que? – Deimos pareceu ao seu lado admirando a madeira envelhecida.
– Acho que tem alguma coisa embaixo dela e eu não consigo...
– Se afaste. – Deimos disse se preparando para mover a construção de madeira.
– Eu ajudo.
– Não precisa.
Realmente não precisava, Deimos moveu aquilo sem derramar uma gota de suor. E lá estava, alguma coisa. Um livro. Era velho grosso, vermelho com as bordas douradas. Ciaran ergueu o objeto do chão e de repente parecia que um peso tinha sido posto em suas costas.
– Deve ser esse. – Deimos comentou roubando o livro da mão do loirinho, o abriu no balcão e parou na primeira página. – Como sabia que ele estava ali?
– Eu não sei... só sei. Talvez ele quisesse que eu encontrasse ele.
Diemos o olhou como se ele fosse idiota.
– Isso é um livro, quem tem poderes é você não ele.
– Achei que as coisas funcionassem assim.
Deimos voltou a visão para a primeira página do livro. Ciaran só ficou observando.
– Então... é esse? – Ciaran perguntou e ficou olhando do livro para Deimos, ele parecia bem concentrado, mas de repente não parecia que as coisas estavam bem.
Os olhos de Deimos começaram a ficar carmim e isso não parecia uma coisa boa, os lábios dele começaram a se mover como se ele mesmo entoasse um feitiço. Ciaran estava achando isso estranho.
E quando Deimos arranhou a madeira do balcão com as unhas Ciaran resolveu se preocupar.
– Deimos? – ele não parava, ele não cortava o contado visual com as páginas amareladas. – Deimos? – Ciaran viu que Deimos começou a desenhar algum símbolo na madeira com as unhas. Já chega. – Para! – Ciaran colocou as mãos nos olhos de Deimos para fazer ele parar de olhar para aquele livro.
Deimos deu uns passos para trás e caiu junto a parede, Ciaran caiu meio estabanado por cima dele. Deimos estava desacordado? Ah, não, não, não isso não podia estar acontecendo!
– Deimos, Deimos acorda! Você ta bem? – Ciaran falou batendo de leve no rosto e no peito de Deimos. – Ai, minha nossa.
– Fraco... – ele ouviu o Demônio sussurrar. – Minha energia se foi.
– O que? O que eu faço?
– Preciso de energia.
– Energia, certo. Comida... eu vou... – Ciaran sentiu uma mão ser posta na sua cabeça e seu rosto ser trazido para perto e mais perto de Deimos, até que seus lábios estavam unidos com os do moreno a sua frente.
Ciaran não ia mentir, beijar Deimos era bom, ele não sabia se aquela sensação de êxtase e relaxamento era pelo beijo do moreno em si ou pelo fato de que ele tinha sua energia drenada através daquilo. Era bom, era bom, era quente era como ter Deimos em cima dele tentando estar entre suas pernas... exatamente como ele estava fazendo agora.
– Ei, ei... já chega. – Ciaran disse desviando o rosto e empurrando o corpo... grande de cima dele.
– Tem certeza? – Deimos falou quando seus lábios tocaram a pele do pescoço de Ciaran.
Por mais que aquilo lançasse um bom arrepio por todo seu corpo...
– Você não estava fraco?
– Eu estou quase morrendo.
Por alguma razão visível, Ciaran não acreditou nisso!
– Eu estava preocupado com você! – Ciaran disse empurrando Deimos para trás e o infeliz estava sorrindo. – Eu achei... que você estava mal, seu idiota.
– Hm, não, mas eu não resisti, desculpe. – o maldito demônio disse levantando normalmente.
Ciaran olhou para o meio de suas calças. Não, estava tudo bem ali. Ufa. Ele levantou logo em seguida e viu Deimos fechando o livro como se pegasse fogo.
– Mas eu estava em perigo ali. Você... me ajudou.
– Sério?
– Sim. Esse primeiro feitiço do seu livro é um contra demônios. Eu iria me prender a essa casa e seria um escravo pessoal do dono. É uma forma de nos domesticar e controlar nossos poderes.
– Por que esse seria o primeiro feitiço do meu livro?
– Não sei... talvez sua família tivesse problemas com demônios.
– Você acha?
– Acredite, não é normal começar um livro de feitiços com um encanto contra demônios... e um muito forte.
– Ah.
– Magos passam longe de demônios... a menos que...
– A menos que?
– Você descenda de magos que usam magia negra. – Deimos sorriu como uma vitória. – Isso seria muito interessante.
– Por que?
– Vamos manter esse fato longe do conhecimento de Ário, tudo bem?
– Não sei se confio em você.
– Eu serei seu parceiro, teremos que nos ajudar mutuamente, não é assim?
– Hm.
– Escute, Ciaran, magos negros são perigosos, eles são cassados e eliminados. Se Ário souber que você pode ser descendente de um, ele vai ficar de olho em você. Vai ser visto como ameaça.
– Entendi...
– Mas você não precisa seguir o caminho da magia negra... pode ser um mago normal e sem graça.
– Vou começar com isso. – Ciaran se sentiu mais leve e um sorriso até se desenhou em seu rosto, ele até contagiou Deimos também.
– Agora que já tem o que precisa, vamos indo.
Ciaran segurou o grande livro debaixo do braço e pegou o papel da mão de Deimos, o endereço não era muito conhecido para ele, mas Emerald Sea não era tão grande assim, eles iam topar com a rua certa mais cedo ou mais tarde.
Ah! Eles sempre poderiam usar a bússola que Ciaran ganhou de presente. Ele pegou o cordão sobre seu pescoço e olhou a bússola apontar o caminho, em frente, em frente. Até que a cidade acabou e um caminho de terra levava de volta ao bosque.
– Bem, pelo visto é por aqui. – Ciaran observou o caminho estreito no meio da mata fechada.
– Então vamos. – Deimos tomou a dianteira e se adiantou pelo caminho.
Ciaran não estava muito corajoso e nem desejoso de passar por aquele caminho estreito rumo ao desconhecido, mas bem... Deimos estava indo na frente, então ele se sentia um pouco mais seguro.
Não demorou muito, apenas uns três minutos de caminhada e eles avistaram uma casa simples, com sua própria horta e uma placa dizendo “Vende-se ervas medicinais.” Então, tudo bem. Deimos parou na porta e olhou para Ciaran.
– O que? – o loirinho perguntou a expressão seria no rosto de Deimos.
– Você vai descobrir que a sua raça é excelente em diplomacia. – falou apontando a porta com a cabeça. – Acredite, se alguém abrir a porta e me ver vai ser pior. – é, Deimos não era um dos mais simpáticos.
Mas Ciaran também não era, o que ele sabia sobre interagir com pessoas? Passou a vida trancado em um colégio interno e apenas. Bom, não deveria ser tão difícil. Ele bateu duas vezes na porta.
Deimos apenas balançou negativamente a cabeça, como se ele estivesse fazendo tudo errado. O moreno mesmo bateu duas vezes na porta, com um pouco mais de força.
Até que a porta abriu, uma senhora baixinha com algumas rugas e visual bastante áspero apareceu. E Ciaran não sabia por onde começar.
– Eu... gostaria de algumas ervas para o estômago. Meu amigo está com um problema sério. – Ciaran iniciou e Deimos o olhou por um instante.
– Hum, muitas ervas serão necessárias, ele é um rapaz grande. Esperem aqui fora. – a senhora se retirou atravessando toda a casa para chegar ao outro lado, tinha uma porta para o jardim.
– Era pra você perguntar sobre o possível gigante! – Deimos disse baixo.
– Você queria que eu a abordasse como? Ah! Viemos aqui porque você pode estar criando um gigante?! Claro que não!
– Vamos entrar.
– Ela mandou esperar aqui!
– Como você quer encontrar o maldito adolescente aqui fora? Uma coisa tão grande assim deve estar bem visível... onde está o seu báculo?
– Eu precisava trazer?
Deimos colocou as mãos na cintura e olhou para cima, respirou fundo e contou até dez.
– Como você planeja usar a porra dos seus poderes?
– Eu não sabia!
– Vamos entrar antes que ela volte. – ele disse já pisando o piso de madeira velha da casa. Rangia pra caramba, eles nunca iam conseguir ser discretos assim.
Então Deimos abriu as únicas três portas da casa. Um quarto, estava bem organizado e parecia ser habitado, outro estava pronto para esperar uma visita, e a outra porta era um banheiro. Ciaran andou e as madeiras rangeram, ele parou no tapete da sala, era o único lugar onde o som cessava.
– Nada... – Deimos disse indo até a janela e olhando para fora, talvez estivesse em uma casa a parte, tinha um caminho meio escondido entre as plantas.
A mulher veio lá de fora com um ramalhete de alguma coisa e os observou na sala, olhou de um para o outro algumas vezes.
– Pedi que esperassem la fora. – a mulher disse já um pouco chateada e tensa.
– Ah, desculpe... – Ciaran começou. – A gente não ouviu, mas podemos sair agora. – Ciaran pisou de novo no chão barulhento e olhou para baixo, não era para essa madeira fazer tanto barulho, ela estava no nível do chão! – A senhora mora sozinha? Deve ser difícil.
– Não, não é. Aqui suas ervas.
Curta e grossa. Deimos acompanhou o olhar de Ciaran para o chão.
– O que você guarda embaixo do chão? – Deimos perguntou a mulher que pareceu perder umas duas tonalidades.
– Nada... essa madeira que é velha mesmo.
Deimos olhou para Ciaran e Ciaran para Deimos.
– Senhora... – Ciaran falou escolhendo as palavras. — Nós viemos aqui porque estamos investigando... se a senhora pode estar escondendo uma pessoa que...
– Um gigante. – Deimos falou de uma vez e a mulher ficou confusa.
– A gente pode falar sobre isso com leigos? – Ciaran perguntou a Deimos. Ele tinha a impressão que seres sobrenaturais deviam ficar em segredo.
– Não sei. Mas eu já falei.
Ótimo.
– Um gigante? – ela disse ficando nervosa. – Isso não existe.
– Eu acho que sim, madame. – Deimos retrucou. – E ele está bem aqui embaixo.
– Ele é meu filho e vocês não vão tirá-lo de mim! Ele só é um pouco diferente e... vocês não vão levá-lo. – ela disse pegando uma faca de mesa, Ciaran estava mais perto dela. Deimos avaliou a situação, mas não era nada que ele não conseguisse chegar a tempo, até porque ela não parecia exatamente um desafio. E ainda tinha Feiy montando guarda perto de Ciaran. Como sempre.
– É isso que tem errado comigo? – uma voz masculina, mas bem juvenil soou na sala. – Mãe, me deixa sair.
Ciaran e Deimos sentiram pancadas fortes no piso de madeira. Eram... fortes.
– Não! Eles vão lhe fazer mal.
– Não vamos. – Ciaran disse sacudindo demais a cabeça. Deimos preferiu não responder, se fosse preciso ele faria.
– Vamos, mãe, eles podem nos ajudar. – a voz disse de novo.
– Quem são vocês? – a senhora perguntou ainda apontando a faca a Ciaran.
– Somos pessoas que lidam com esse tipo de coisa todos os dias. – Ciaran falou como se já tivesse muita experiência. Bem, mais do que ela ele tinha.
– Eu chamei um médico aqui uma vez... ele disse que é só uma anomalia rara que ele cresce mais do que o normal e...
– Quantos anos ele tem agora? – Deimos perguntou e a mulher ficou engasgada.
– Tenho treze. – a voz disse do andar de baixo.
– E qual sua altura?
– Tenho quase três.
– Nossa. – Ciaran disse olhando para Deimos, que parecia bem normal. – Como ele veio parar aqui?
– Mamãe, me deixe sair! – o rapaz disse de novo.
A mulher abaixou a faca e chutou o tapete. Claro que a passagem estava embaixo do tapete. O Garoto abriu o alçapão e Ciaran pensou que o garoto nunca ia acabar de sair la de dentro. Até que o quarto lá embaixo era bem organizado.
Ele era alto, era alto e magro e um tanto tímido. Parecia não ter contato com muita gente. Claro que não tinha.
– Olá, eu sou Ciaran e esse é Deimos. – Ciaran se apresentou e o garoto apenas assentiu.
– Sou Willy. – ele disse olhando para a mãe que estava fazendo birra.
– Como você conseguiu um gigante? – Deimos perguntou e a mulher o olhou.
– Eu não tenho uma anomalia? – Willy se meteu olhando mais para Ciaran.
– Bem... não, você é um daqueles gigantes de contos de fadas.
– E você vai continuar a crescer até ter uns quinze metros. – Deimos disse olhando para ele. – Isso não é anomalia, você é uma criatura que não pertence a esse mundo.
– Como ele chegou aqui? – Ciaran perguntou de novo.
– Eu... – a mulher começou e recebeu um aperto no ombro do filho, como se ele dissesse que estava tudo bem. – Há muito tempo eu tive um filho, mas ele morreu ao nascer e eu fiquei desolada, meu marido morreu no mar e tudo ao que me apeguei foi a essa criança. Eu não consigo expressar como eu me sentia na época. Em uma noite de chuva um homem apareceu na minha porta e me pediu abrigo. Eu dei, eu não tinha nada a perder e era pobre. Ele trazia uma cesta grande e quando olhei para dentro era um bebê... enorme, tenho que admitir, mas nada fora do comum. Ele me perguntou porque eu estava triste e eu contei. Foi aí que ele me ofereceu o bebê, ele disse que não tinha condições de criá-lo e me pediu em troca apenas uma ampulheta de areia vermelha do topo da montanha. Ela havia sido feita pelo meu marido e era minha única lembrança dele... mas eu aceitei. E assim eu fiquei com o Willy.
– Como era esse homem? – Deimos perguntou escutando bem a história.
– Ele era baixinho, como um anão e...
– Era isso mesmo o que ele era. Um anão. – Deimos interrompeu. – Existem duas raças de anões, aqueles que vivem no subsolo e não sobem muito a superfície. E os que vivem na superfície e não descem muito. Quando um anão que vive embaixo da terra se aventura a morar na superfície geralmente eles demoram um pouco a se acostumar e nessa hora eles ficam vulneráveis e acabam perdendo seu propósito. Esse anão que você conheceu é provavelmente um comerciante, ele consegue passar para além do véu e troca coisas do mundo de lá com o de cá. Resumindo. Tem uma mamãe gigante procurando seu filho roubado até hoje. E ele provavelmente levou a ampulheta com a vitória de seu marido sobre a montanha, para fazer porções de poder.
– Isso quer dizer que meu filho...
– Ele foi roubado de uma tribo de gigantes e dado a você.
– Eu não sabia. – a mulher disse refletindo.
– Bem, você não pode ficar aqui. – Deimos falou para o rapaz alto. – Tem que voltar conosco.
– Calma, Deimos. – Ciaran falou baixo.
– Vocês não podem levar meu filho. – a mulher disse já parecendo que ia chorar.
– Eu preciso mesmo ir? – o rapaz perguntou preocupado com a senhora.
– Você ouviu o que eu disse? Você vai chegar a quinze metros de altura.
– Eu sei, mas... eu tenho o meu quarto e...
– Vai passar sua vida inteira preso em um quarto? – Deimos perguntou achando aquilo ridículo.
– Eu não posso deixá-la sozinha. – o adolescente enorme falou já ficando um pouco zangado. – E grande diferença se eu for com vocês. Vou ficar sozinho lá.
– Seu bando vai encontrar você. Gigantes tem uma ligação forte.
– Vocês não vão levar meu filho! Eu não sei quem são vocês e não acredito na história de vocês! Vão embora daqui!
– Se mamãe diz. – o garoto falou um pouco confuso, mas encarou Deimos com raiva.
– Nós precisamos levá-lo. – Deimos disse entre dentes.
As coisas não estavam indo bem, Ciaran podia dizer, ele correu e se pôs entre Deimos e Willy.
– Calma, gente. – Ciaran falou alto e claro. – Olha, senhora, seu filho vai viver como um prisioneiro aqui, aliás, ele já vive. Você o esconde do mundo e vai ser assim pelo resto de sua vida. Nós vamos levá-lo para onde ele possa ser livre. Deixá-lo aqui seria egoísmo seu.
– Mas eu vou ficar sozinha!
– Ele vai ter a chance de ser feliz lá!
– Eu vou ficar com a minha mãe. – o gigante disse olhando sério para Ciaran, ao mesmo tempo que este ouviu Deimos rosnar atrás de si. Ótimo, ele tinha que impedir de um demônio se digladiar com um adolescente hiper crescido.
– Ótimo, então por que não fazemos assim? A senhora se muda.
– O que? – a mulher disse confusa.
– Eu tenho uma casa no centro. Acho que parte da sua solidão se deve ao fato que você mora aqui, isolada de tudo... e acho que parte disso é culpa do Willy, porque você não quer que o vejam.
– Vão tratá-lo como monstro. – ela disse perdida em pensamentos.
– Você pode ficar com a minha casa para morar! Lá tem uma livraria, você pode se ocupar disso se quiser... e levar suas plantas para vender, vai fazer amigos e não vai se sentir tão sozinha e...
– Vocês não vão levar meu filho. – ela disse impassível.
– O que você quer fazer Willy? – Ciaran perguntou. Bem, eles não iam arrastar um homem daquele tamanho de volta ao instituto.
– Vocês querem me levar para onde exatamente? – o rapaz perguntou mais calmo.
– Queremos levar você de volta para o lugar de onde veio, é uma terra, em outro lugar, onde criaturas como nós existimos.
– Você disse que tinha uma casa aqui. – a mulher comentou desconfiada.
– Eu morava aqui até Deimos me encontrar, não somos os únicos que vivemos aqui, Willy...
– Se não são os únicos, meu filho pode ficar.
Deimos socou a parede fazendo a mulher arregalar os olhos e seu filho dar um passo para trás, Deimos afundou o concreto.
– Qual a porra da parte que ele vai ter quinze metros você não entendeu. –Diemos falou sem paciência.
– Acabo de acreditar na história de vocês. – Willy disse admirando o belo buraco na parede.
– Vamos... recompensá-la por isso. – Ciaran disse olhando a parede e depois para a mulher.
– Eu nunca mais vou ver meu filho? – ela perguntou com todo o tom de uma mãe. Ciaran não lembrava muito da sua, mas tava valendo.
– Acho que ele poderá vir vê-la. Eu não sei, mas vocês podem escrever um para o outro, com certeza, eu mesmo me encarrego de entregar as cartas.
O rapaz virou para a mãe e sentou-se no chão, ainda assim ele era alto. Eles ficaram a discutir e tudo mais, a mulher começou a chorar, eles se abraçaram e Deimos estava impaciente.
– Bem... eu vou com vocês. – o rapaz disse aos dois. – Mas se eu não gostar eu volto. E mamãe ficará na sua casa.
– Tudo bem. – Ciaran disse sorrindo e olhando para Deimos que não parecia feliz, ótimo, que cara difícil de agradar.
Ciaran combinou todos os detalhes com a mulher e ela iria se mudar. Pelo menos teria alguém cuidando de sua casa.
Os três seguiram pela floresta, já era noite, o sol já tinha se posto completamente e o som que ecoava na floresta vinha dos grilos e seres que se moviam entre as plantas.
– Eu sempre me achei meio diferente... eu sentia que esse não era o meu lugar. – Willy comentou para ninguém especificamente. – Nunca fiz amigos ou algo do tipo...
– Agora tudo vai ficar melhor. Você vai encontrar a sua família e quem sabe você não passe a ter duas mães e...
Ciaran esbarrou no corpo maciço de Deimos e o olhou raivoso, podia avisar quando fosse parar. Mas Deimos parecia olhar por entre as plantas e Ciaran percebeu os músculos do moreno se contraírem enquanto ele olhava para dentro da mata escura. Feiy também parou e parecia rosnar na mesma direção.
– O que foi? – Ciaran perguntou enquanto olhava para a mata densa.
– Shh. E fique aí atrás de mim.
Depois de um tempo dois homens surgiram das sombras. Um deles se vestia de azul e prata... e Ciaran lembrou daquela noite na qual quase perdia sua vida para um vampiro. Eles estavam lá, essas mesmas pessoas com essas roupas.
Esse cara olhou para eles como se fossem nada mais do que vermes. Ele tinha o cabelo preto, curto e sedoso, os fios que caiam sobre suas bochechas tinham um movimento leve, ele era esquio e alto, porem forte, Ciaran conseguia ver que a estrutura do homem era sólida e ele transpirava letalidade, como Haziel ou Deimos estressado.
Mas o que mais o incomodou eram os olhos azuis que brilhavam como algo sobrenatural, eram frios e impiedosos. Ciaran não gostava do que via, e os olhos azuis se encontraram aos dele por um momento e ficaram lá, o que? O que foi? O que ele queria? Ele achava que aquela noite tinha acabado e era só uma lembrança ruim!
– Por que estão aqui? – Deimos perguntou com o seu tom habitual, custava ele ser mais educado... com alguém assim?
– Eu que devia perguntar por que um demônio continua andando solto no reino humano. – a voz grave falou como uma faca. Porém era calma e constante, mas soava como autoridade.
– Estamos aqui em uma missão.
O homem olhou para o rapaz alto atrás dos dois.
– Um gigante. – o homem afirmou.
– Isso. E o que vocês fazem aqui?
– Vejo que ele escapou. – o homem falou olhando para Ciaran.
– É.
– Como? Ele teve a garganta dilacerada. Era morte certa.
– Eu o levei ao instituto. Cuidaram dele lá.
– Você levou um humano ao instituto?
Ciaran percebeu que Deimos parou de falar, parecia que ele estava, pela primeira vez, escolhendo as palavras.
– Ele é um mago.
– Sei... – o homem disse dando mais uns passos em sua direção. – E como você descobriu isso? — Ciaran percebeu que Deimos preferiu ficar em silêncio. – Não decidiu fazer nada errado com um humano. Certo, demônio?
– Ele encontrou isso na minha livraria. – eu mostrei o livro. Bem, ele tinha descoberto que Ciaran era alguma coisa quando o tinha beijado... bem, roubado sua energia. Ele não podia ter dito isso?
O homem olhou para o livro e para Ciaran e pareceu ponderar.
– Estão indo para o Instituto? – o homem perguntou sem muita emoção.
– Sim. – Deimos respondeu, eles estavam a alguns metros do portal.
– Irei com vocês. – o moreno falou e finalmente Ciaran conseguiu olhar para a segunda pessoa.
Ela andou e saiu das sombras.
Dessa pessoa ele lembrava, naquela noite ele viu um belo homem esguio e belo de longos cabelos negros e com uma expressão piedosa na sua direção. Lembrava ter pensado que era um anjo da morte.
E lá estava ele de novo. A pele de alabastro, os longos cabelos negros e olhos escuros, parecia um ser imaculado. Mas tinha a mesma marca de Haziel. Aquele círculo negro ao redor de seu pescoço.
Deimos começou a andar e encontrou o círculo do portal.
Ciaran ficou bem próximo de Deimos, e os outros dois também, afinal estavam levando um gigante com eles, o espaço diminuía.
Os cinco voltaram ao campo dos portais. Willy achou a viagem um pouco enjoativa, mas nada que ele não conseguiu lidar.
Ciaran estava morrendo de vontade se saber quem eram aquelas duas pessoas andando atrás deles pelos corredores, e por que chamavam tanta atenção, mas ele decidiu que andar junto com Deimos era uma opção melhor.
Bem, eles pararam na frente da sala de Ário e Ciaran olhou para trás.
– Podem ir primeiro. – o moreno sério disse e encostou-se na parede. Os olhos de Ciaran ficavam vidrados no homem mais magro, e parecia que o cara tinha gostado dele também.
– Não me arrume problemas e entre ai. – Deimos sussurrou para Ciaran empurrando o garoto e o convidado para a sala
Ário viu os três e sorriu, sorriu ainda mais quando viu o livro de Ciaran em suas mãos.
– Ótimo, completaram todas as missões. Esse deve ser o rapaz...
– Sou Willy. — o jovem disse calmamente.
– Olá, Willy, meu nome é Ário, vamos providenciar para você encontrar o seu clã e...
– Eu gostaria de manter contato com a minha mãe.
– Sim, vamos providenciar. Amanhã conversaremos melhor, ok? Vou chamar alguém para levá-lo a um quarto para passar a noite.
– Tudo bem.
– Ótimo! – Ário ficou calado e olhando para ele. Willy olhou para os outros dois e Ciaran o encarou como se também não tivesse entendendo.
De repende a porta abriu e uma jovem apareceu na porta.
– Pronto, ela vai levá-lo. – Ário disse apontando para a porta.
A mocinha sorriu para Willy e o cumprimentou.
– Seja bem vindo. – a garota disse. — Você vai ficar no nosso quarto. Nós somos... – e a porta fechou.
Sobraram Deimos e Ciaran na sala.
– Bom, relatório. – Ário disse olhando para Ciaran.
– Bem, encontrei meu livro e acho que seu antigo dono tinha problemas com demônios porque tem um feitiço contra eles logo na primeira página. Depois fomos atrás do rapaz gigante, ele morava embaixo da casa, tivemos um pouco de dificuldade de convencer a mãe dele a nos deixar trazer. Parece que ele foi traficado quando bebê... mas acabou que deu tudo certo e ele está aqui com a gente. Ah, e tem dois homens aí fora para falar com você.
Ário sorriu.
– Muito bem, obrigado. – e depois olhou para Deimos.- Dois homens?
– O Hunter e seu escravo.
– Axis. – Ário disse diminuindo o sorriso.
– Esse mesmo.
– Seu relatório. – Ário disse suspirando.
– Tudo bem até encontrar o livro. – parecia que Deimos queria falar um pouco mais, mas desistiu. – Depois fomos atrás do gigante. Entramos em casa e a mulher o mantinha embaixo da casa, realmente, mas estava confortável. Para convencer a mulher Ciaran ofereceu sua casa para ela morar, ofereceu seus serviços para entregar a correspondência deles e se colocou em perigo, além de simplesmente esquecer seu báculo aqui.
Ário olhou para o loirinho. De repente parecia que o trabalho pelo qual se orgulhou tanto estava meio errado.
– Errei muito?
– Ciaran... – Ário disse sorrindo. – Meu bem, você não pode oferecer sua casa para todo mundo nem muito menos se comprometer com coisas assim.
– Mas eu queria ajudar.
– Eu sei... mas você não vai poder fazer isso por todo mundo, então só fazemos o que está ao nosso alcance sem nos envolver demais. Ok?
– Ta bem.
– E não saia desarmado. Estou quase conseguindo um professor para você.
– Eu não sabia que precisava andar por aí com ele.
– Tudo bem. Fizeram um bom trabalho rapazes. Podem ir. E mandem Axis entrar.
Os dois saíram da sala e Deimos deu sinal com a cabeça para que os outros dois entrassem. Assim que estavam fora de vista, Deimos empurrou Ciaran contra a parede e apontou um dedo para o seu rosto.
Quem ele pensava que era?
– Você perdeu o juízo? – Deimos perguntou bem sério.
– Por que?
– O que você estava pensando quando se meteu entre mim e o maldito gigante?
– Eu só queria evitar que vocês brigassem!
– Ele podia ter te dado um belo de um soco. E eu duvido que seu corpo aguentasse!
– Ele era inofensivo!
– Bem, graças aos deuses esse era inofensivo! Se você tivesse entrado na frente e fosse um gigante de verdade ali... com certeza você estaria bem mais ferido, e vamos tentar passar pelo menos três dias sem ir para a enfermaria, ok?
– Tá, mas eu não sabia!
– Esse é o problema, você não sabe de nada! Vá estudar antes de arriscar a minha preciosa alma por aí.
– Tá! Tudo bem! Eu vou fazer o possível.
– E não se meta mais entre as minhas batalhas e eu.
– Vou me meter quando eu achar necessário!
– Você é... – Ciaran achava que a cabeça de Deimos ia explodir! – Insuportável!
– E você é muito impaciente e esquentado! Tem que se controlar!
– Você é um consequente burro!
– Vamos passar a noite aqui trocando elogios?
Feiy começou a morder o calcanhar de Deimos e o Demônio o olhou sério, apenas o chutou para longe.
– E você, vê se cresce e aparece pra defender seu dono! – Deimos gritou para o animal que pareceu ficar quieto.
O moreno suspirou e deixou os braços cair. Olhou mais uma vez para Ciaran, ele não estava com a expressão muito agradável, não senhor!
– As damas na frente. – Deimos disse apontando o caminho.
– Então, como sempre, pode ir.
Ciaran percebeu que a briga ia começar toda de novo. Por um momento, só por um momento ele pensou que Deimos estava preocupado com ele, mas não... ele era um demônio e só estava interessado em uma refeição.
Tudo bem, ele não ia esperar muito mais de um pavio curto como aquele.
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