Magia Negra
9 Baphomet
Notas iniciais
No outro dia a primeira aula era Elixires e Tônicos, e a professora era uma senhora de meia-idade com cabelo armado, um pouco acima do peso e que não sabia se vestir muito bem; como se não bastasse usava uns óculos de fundo de garrafa que não combinavam nada.
A sala era ampla e de paredes de pedra como o resto da escola, mas não tinha mesas e sim caldeirões borbulhando líquidos quase transbordando; os alunos em roda dos mesmos.
– Agora que já formaram trios, podemos começar. – disse a Sra. Simpson em voz alta – vocês devem ter feito muitos testes esta semana, então vou pegar leve convosco hoje. Como devem saber, existem dois caminhos a se seguir usando magia, o certo... E o mais fácil. O bem e o mal. Um dia terão que escolher entre os dois, então na aula de hoje, o caldeirão vai solicitar exercícios pra cada trio, e terão duas maneiras de fazer isso. Só escolham. E não se esqueçam de usar seus livros de “Elixires e Tônicos – módulo 1”.
–Como assim o caldeirão vai “solicitar” exercícios? – perguntei olhando para o imponente e escuro recipiente, que de repente começou a expulsar uma névoa da sua água borbulhante que continha, enquanto um som brotava do fundo do mesmo e ia subindo até ficar audível – Um rabo de salamandra, uma língua de lagarto e três gotas de veneno-de-sapo
–Calado, banheira estúpida! – Nina bateu na borda do caldeirão com o livro de atividades, e depois começou a folheá-lo.
– Isso está vivo?
– É claro que não, a senhora Simpson o encantou. – falou Shirley, com os lábios cobertos de gloss rosa.
–Ouviu o que a professora disse Sunori? – a morena me olhou com seus olhos negros penetrantes – existem dois lados, bem e mal. E já vou lhe avisando que se escolher o bem vai acabar como eles. – ela direcionou o olhar para o trio que estava do nosso lado, garotos que ao contrário do resto da turma se vestiam normalmente e não como góticos, e que pareciam como “nerds”.
Um deles era mais bonitinho e não usava óculos nem aparelho, Shirley balançou a mão o cumprimentando e sorrindo quando o trio olhou pra nós, decididamente flertando.
– O nosso lugar é no mal, então... O que é isso? – interrompeu Nina olhando o livro
– Me deixa ver! – a irmã puxou a obra pra si e eu, como estava do lado dela, acabei vendo a figura de um homem em posição de meditação desenhada na página; ele parecia uma divindade, o que explicava sua cabeça de bode e seus cascos peludos no lugar dos pés – deve ser assim que a professora fica quando está de ressaca.
– Que maldade.
– Baphomet, deus satânico que muitos bruxos e bruxas adoravam pra conseguir tudo que queriam, desde fama e beleza até dinheiro e poder. – leu a morena tomando o livro de volta para si – mas lhes era cobrado um preço em troca desta magia, que é considerada negra. – terminou a Kent encarando a nós duas como se dissesse mentalmente “sabem no que eu estou pensando?” e então arrancou a folha da obra – vamos descobrir sobre isso mais tarde
– No que está pensando Nina? – perguntou Shirley, ficando sem resposta da irmã. A aula acabou sem o nosso trio completar uma tarefa sequer, então fui para o almoço sozinha e voltei para o quarto.
*
A gata me deu um susto pulando repentinamente em mim, mas o susto maior foi quando olhei pra ela e vi uma angorá de pelagem branca e a cara amassada! Eu me enganei ou vi coisas quando na primeira vez ela me parecia apenas uma gata comum com pêlos dourados?
A deixei em cima da cama o observando tentando entender se essa era outra gata ou não. Mas a coleira verde ainda estava nela, com um pingente escrito “Alergia — ♀” (eu sei que foi o nome menos convencional que minha mãe escolheu) como antes. – ela só pode ter pegado alguma doença – pensei alto.
– Tola! – ai meu Deus agora eu quase enfartei; aquela guria de novo fez aquilo de se esconder no quarto e aparecer de repente! Ela deve ser muito silenciosa. – nunca ouviu falar de animais mágicos? Eu vi ele se transformando bem na minha frente, é um Morfelino.
– Morfe o quê?
– Morfelino, significa um felino que pode sofrer metamorfose. Mas parece que o seu só muda pra outras espécies de gato.
Fiquei olhando para a pequena Alergia agora menor do que sua antiga forma. Então quer dizer que eu terei um gato novo cada dia? Esse mundo mágico não parava de me surpreender.
– Ei – levantei o olhar para a morena vestida de metaleira – seu nome é Kamome não é?
– Como você sabe?
– Agora tem placas com nossos nomes na frente dos dormitórios. E eu notei que você tem faltado às aulas.
– Isso não é da sua conta – ela me encarou com seus olhos castanhos cobertos de rímel – mas eu troquei os meus horários, só isso.
Eu poderia ter perguntado o motivo, mas deixei pra lá. Mais tarde quando as aulas do dia acabaram eu estava indo dormir quando as irmãs Kent surgiram de novo, mas desta vez não era por uma festa.
– Não faça nenhum barulho – advertiu Shirley em sussurros. Onde poderiam estar me levando a esta hora da noite? E o que eu estava fazendo as seguindo? Certamente pela curiosidade afinal boa coisa não havia de ser.
Depois de vagar pelos corredores de pedra do castelo, chegamos a uma sala ampla com janelas de grande proporção, cercada pelo gramado da área ao ar livre; a porta tinha uma placa escrita “Laboratório”.
Nina destrancou a porta depois de lançar um feitiço na fechadura e entrou, sendo seguida por mim e sua irmã. O lugar estava bem mal iluminado, tomado pela escuridão da noite. Tratava-se basicamente de mesas altas cercadas de estandes lotadas de recipientes, provavelmente com conteúdo químico ou mágico.
A morena começou a juntar itens das prateleiras aleatoriamente.
– É a parada daquele Bafo alguma coisa? – perguntei para Shirley
– Sim, eu nunca a vi mais interessada em uma coisa antes. Você sabe, fora ser popular nada mais atraía sua atenção. – a loira soltou um longo suspiro.
– Tem certeza que sabe o que está fazendo?
A morena não me respondeu até terminar de preparar um líquido fervente em uma tigela no centro da mesa principal da sala. Estava cercada por velas que ela acendeu cuidadosamente uma por uma sem magia, como se fosse um ritual.
– Temos que dar as mãos agora – Nina nos fez fechar um círculo entre os objetos, uma segurando a mão da outra; notei que haviam pequenas pétalas de rosas entre uma vela e outra.
A Kent pôs o papel na mesa e começou a recitar um poema que estava escrito nele; eu olhei de relance para Shirley tentando compreender o que ela estava tentando obter.
Frio de verão, calor de inverno
Vou conseguir tudo que eu quero
Serpente no céu, anjo no inferno
Apareça mestre, eu sou teu servo
Nós somos as virgens do teu harém
Mostre seu rosto quando disser Amém
Ar, fogo, terra e mar
Com o diabo irei casar
Quando ela terminou, tudo que eu pensei foi “essa é a poesia mais esquisita que já ouvi”, mas desapareceu da minha mente quando, depois de um longo silêncio, as minhas mãos começaram a esquentar como se estivessem em água fervente; soltei um grito tentando soltar das de Nina, mas ela logo a puxou com força
– Não solte – interveio ela.
– O que é isso? Se for pra vender minha alma, tô fora! – balbuciei tentando sem sucesso ignorar a dor.
Um barulhento estrondo nos assustou, quando a pequena tigela redonda no centro da mesa pegou fogo após uma leve explosão.
– Tarde demais, Srta. Kimonno! – exclamou Nina sorridente de satisfação enquanto eu encarava sua irmã com cara de susto (e a dela não estava muito melhor).
– Quem está aí? – uma voz grave pronunciou, sacudindo uma lanterna na porta transparente do laboratório; era o Sr. William, o inspetor do colégio.
– Droga! – gritamos as três.
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