Magia Negra
10 O Segredo das Kent
Notas iniciais
“Darwin Segundo” – dizia a plaqueta sobre a mesa da sofisticada sala do diretor dos bruxos de Mystique Campus; ele estava furioso fitando a mim e às irmãs Kent, sentadas em frente a ele. Eu só conseguia encarar o chão.
— Como puderam fazer uma coisa dessas? – escutei sua voz grave dando sermão em alto tom, e podia sentir seus olhos sobre mim – Isso jamais aconteceu na Ala Fogo! Magia negra... Deviam saber que isso só é permitido a bruxos maiores de 18 anos e mesmo assim não é recomendado. Sunori, sinceramente esperava mais de você, pela sua família. E vocês duas, lamento informar, mas terei que chamar seus pais. – Nina e Shirley protestaram, mas era tarde demais.
Seus olhos furiosos passaram por nós até o alto homem se ausentar, fechando a porta com força. Estava perdida. Minha mãe iria ser chamada? E o mais importante, ela viria? E meu pai seria chamado? Mesmo assim duvido que ele apareça. Sua filha, a que ele deixou os estudos pagos, já está na diretoria na primeira semana de aula, com certeza ele se envergonharia.
Fomos deixadas lá por um tempo e o silêncio perdurou; eu tive que segurar algumas lágrimas. Depois do que pareceu uma eternidade, o silêncio se quebrou:
— Estamos f*didas – Nina lamentou, se remexendo na cadeira.
— Não devíamos ter ido lá – sua irmã só conseguia direcionar seu olhar para seus tênis.
— Nós é que fomos burras de termos sido pegas. Agora...
—... É tarde demais! – terminei a frase para a Kent, me virando para ela – Querem me dizer qual foi o motivo daquilo?
No momento em que falei a porta da sala se abriu e se inseriram nela uma mulher alta e bela, de roupas sociais e as madeixas loiras presas em um coque, sendo seguida por um homem que parecia ser bem mais velho, de barba por fazer e igualmente bem vestido, e (ainda) mais alto que ela.
— Oh minhas filhas, estão bem? – a mulher correu até Shirley a abraçando e falando em voz melosa. O homem apenas se aproximou com uma expressão de desaprovação. — Isso é tudo culpa sua! – a voz dela se engrossou pra advertir Nina, e o pai deu suporte a ela:
— Mais uma vez, você passa dos limites. Quer que aconteça de novo como foi com a outra garota? – o homem lançou um olhar de castigo para a morena, a mãe sem falar nada enquanto as duas assustadas, não sabiam o que fazer.
— Não foi culpa dela! – Shirley exclamou tentando defender a irmã.
— As duas estão de castigo. – o Sr. Kent avisou as filhas – e se voltarem a cometer o mesmo erro, não estudarão mais aqui.
— Ah, minha filhinha! – a Sra. Kent já estava prestes a chorar, apertando Shirley em um abraço (era claramente a favorita, provavelmente por parecer ser mais nova) – só não quero que aconteça tudo de novo.
De novo? Quer dizer que não é a primeira vez que as irmãs mexem com magia negra? E quem era a outra garota? Fiquei calada pra não me intrometer nos assuntos deles, mas captei bem que a relação de família deles não era nada boa.
— Srta. Kimonno, por favor, queira me acompanhar – pronunciou a voz grave do inspetor, em tom baixo de forma que ninguém na sala ouviu. Levantei-me e fui até a porta; pra minha surpresa ela estava lá. Minha mãe.
O Sr. William se ausentou e tudo que ela fez foi lançar um olhar preocupado e acolhedor pra mim, sem interromper o silêncio. Estava com um vestido leve e casual, o calor estava excepcional lá fora. As madeixas curtas e castanhas, ao natural. Minha mãe.
— Conseguiu deixar o trabalho? – quebrei o gelo
— É claro, eu viria de qualquer jeito, querida. – ela se aproximou e me tocou no braço, que estava cruzado e fixou os olhos em mim. Filha, eu sei que você não é disso. Alguém te convenceu e você foi na onda – minha mãe falou com a voz mais doce do mundo.
— Eu sei... – desviei o olhar – mas não vai acontecer de novo. – queria ter falado que ela também esconde coisas de mim, que eu não sei nem qual é o seu emprego, mas permaneci quieta.
*
Estava escuro e frio naquele lugar, mais um com aparência rústica naquele castelo (pelo menos parecia pertencer a ele); eu nunca estivera aqui antes. Parecia ser feito de mármore o chão, que refletia minha sombra e meus passos ecoavam pelo salão, extenso e repleto de pilares, decorados com tecidos em um tom pastel; levavam até um trono à minha frente. Tinha alguém sentado lá, mas eu não conseguia ver. Como eu havia chegado aqui?
Uma voz ribombou pelo salão, ampliada pelos ecos:
— Você me chamou mortal? Eu escutei sua voz e de suas amigas.
— N-não, você se enganou, quem chamou foi outra pessoa...
— Você estava no círculo é isso que conta.
Calei-me.
— Já estava destinada a me encontrar antes, eu fui até ti. E agora quero encontrar com vós.
Do que ele estava falando? Aliás, quem era ele?
— Eu preciso que alguém me traga de volta. – sua voz falhou e ele se movimentou no trono, trazendo seu corpo envolto em sombras para frente; estava muito escuro, porém consegui enxergar sua cabeça gigante com um par... De... Chifres?
Ah, não. Era ele. No meu sonho.
*
Acordei com um grito sufocado na garganta, o quarto estava escuro e só o que consegui enxergar foi a Alergia do meu lado na cama, seus pelos estavam todos eriçados e ela estava sibilando. Levantei minha cabeça do travesseiro de leve pra ver o quê a gata estava ameaçando, e era o meu braço.
— Ai! Ai! – gritei de dor, no mesmo momento em que mexi o braço uma queimação emergiu dele, parecia estar pegando fogo. A gata começava a miar alto, fazendo barulho.
Liguei o abajur. Meus olhos se incomodaram com a luz repentina, mas reconheci bem o símbolo. Já o vi antes. Um pentagrama invertido, moldado em minha pele como uma marca de um cavalo ou de um boiadeiro. E eu sabia que vinha dele. Baphomet.
~
— Então, é isso? Todas ganhamos uma marca da besta? – interroguei as irmãs, no quarto delas da Ala Fogo, pela manhã. Era final de semana e elas iriam para casa. Eu? Bem, eu não sabia bem pra onde ia, mas pra casa com certeza não.
— Não seja tão dramática, Sunori. – Nina me encarou com seus olhos negros afiados – isso é só pra demonstrar nossa fidelidade a ele.
— É como um bônus – disse Shirley – nossos poderes ficaram mais fortes.
— Eu não entendo... Tudo isso deve ter um preço. E não espero nada de bom.
— Deixa de ser careta – falou a Kent já se dirigindo à porta – você pensa demais em tudo.
— Isso aí, só curta seu fim de semana. Agora temos que ir. – sua irmã completou, as duas saíram juntas, a morena com um vestidinho vermelho-sangue mais curto que o normal e a loira com a habitual baby look cor-de-rosa.
— Ei, antes de saírem, tiveram algum sonho ontem à noite?
As duas se viraram pra mim e a mais nova disse: — Não, por quê, você teve?
— Hã, por nada não. — Precisei sair do quarto delas.
— Ah, estive te procurando, senhorita Kimonno! – era o inspetor da escola, apertando o passo até chegar a mim, me entregando um pedaço de papel – um rapaz pediu que te entregasse isso.
Rapaz? Ricardo?
— Obrigada, Sr. William. – sorri e ele partiu.
*
"Encontre-me no meu apartamento hoje qualquer hora, tenho informações sobre sua mãe.
Ricardo."
*
O que ele queria dizer com isso? Que descobrira com o que minha mãe trabalhava?
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