Magia Do Destino
38 36. Por enquanto
Notas iniciais
Capítulo 36
Por enquanto
− Magali!! Abre essa porta!! − Mônica esbravejou.
Não respondi.
− Magali!! Já tem três dias que você tá trancada aí!! Se você não abrir por bem, eu vou derrubar esta porta.
Não respondi.
− Você sabe que eu derrubo!!
Silêncio.
− Desisto − ela resmungou e se afastou.
Algumas horas depois, foi a vez de Nimbus tentar, pela enésima vez:
− Magali! O que aconteceu?
Não respondi.
− O Tofu e a Chai estão deprimidos aqui fora.
Golpe baixo.
Rastejei até a porta e a abri.
Nimbus estava com os dois bichos no colo. Sem olhar em seu rosto, eu os peguei e fiz menção de fechar a porta novamente. Mas, claro, ele não deixou.
− Sério? Sério que você vai fingir que eu não existo? Ou que não existe mais ninguém nesta casa? Poxa, a gente tá preocupado com você.
Apenas suspirei em resposta, soltando a respiração que eu nem tinha notado que estive segurando.
− Magali, o que aconteceu naquela conversa com o Quim? Ele te fez alguma coisa?
− Nada! Ele não fez nada.
− Então me conta o que aconteceu, pelo amor de Deus!
A mentira era minha única alternativa:
− Você já terminou um namoro de treze anos alguma vez?
− Não.
− Nem a Mônica, nem o DC. Então nenhum de vocês sabe como eu estou me sentindo. Por favor, me deixem em paz − concluí e fechei a porta.
Ele insistiu, batendo os punhos na madeira:
− Minutos antes de ele chegar, você parecia bem com a separação.
− A ficha caiu depois.
Eu podia senti-lo ainda encostado à porta, apesar do silêncio. Só depois de muitos minutos eu escutei seus passos se afastando.
Olhei meu celular. Havia duas mensagens novas.
Uma de Lindsay:
Preciso falar com você
Outra de Harrison:
Preciso falar com você
Não respondi.
Ninguém poderia entender o que se passava comigo. Nem eu poderia falar a respeito. Então o melhor a fazer era evitar qualquer conversa. Pelo menos por enquanto.
−−−−−
Já estava há uma semana reclusa, e Mônica e Nimbus desistiram de me dissuadir uns dois dias atrás.
Por isso fui pega de surpresa com novas batidas na porta, seguidas da voz de Do Contra cantando:
− Você quer brincar na neve? Um boneco quer fazer? Você podia me ouvir e a porta abrir, eu quero só te veeeeer...
Não consegui segurar a risada. E só por isso resolvi ceder.
Mal abri a porta e DC me puxou pelo braço até o closet da sala.
− Vamos, veste o casaco! A gente vai brincar na neve lá fora.
− Você tava falando literalmente?
− Claro! Vamos, só você e eu.
− E a Mônica?
− Tá no Skype com a mãe dela.
− E seu irmão?
− Ele detesta neve ainda mais que chuva.
Dei-me por vencida e coloquei as roupas de frio.
A neve estava alta no chão. DC não tardou em me atirar uma bola de gelo, e eu devolvi. Logo estávamos fazendo um boneco, cavando anjinhos e rolando pela calçada.
Nossa, como eu precisava de ar fresco. E de um amigo que não faz perguntas.
Já exausta depois de meia hora, chamei:
− E agora, vamos ver um filme?
− Qual?
− Frozen, claro.
− Mas dessa vez eu escolho a dublagem. Quero assistir em... finlandês.
− Ok.
Retornamos ao apartamento e DC colocou o filme, que já tínhamos assistido algumas vezes juntos. Talvez duas ou três.
Ao final, como sempre, DC estava chorando, inconformado:
− O Hans é muito mais legal que esse cara aí!! Nada a ver esse par!! − ele limpava o nariz na manga da blusa.
− Você tá chorando por causa disso?
− Não! É que eu vejo a Elsa assim e me lembro de quando a Mônica teve que esconder os sentimentos dela por mim. Já parou pra pensar nisso? Já pensou, você ter poderes que não pode controlar, ou ter um sentimento que não pode admitir, e ter que esconder de todo mundo?
Eu odiava como o DC era tão direto, mesmo sem saber.
− Deve ser horrível mesmo.
− E se você contar pra alguém que eu adoro os filmes da Disney − ele me olhou, sério − sua morte será lenta e dolorosa.
− Não conto! É nosso segredinho.
− Não conta o quê? − a voz de Mônica veio de trás de nós, ameaçadora.
Do Contra fez aquela cara de quem vai ser enforcado:
− Linda, eu posso explicar.
− Pode explicar o quê? − Mô levantou o namorado pela gola com uma mão e apontava a tela com a outra. − Que você me obriga a assistir os filmes ucranovianos e assiste os filmes legais escondido com a Magali?! Ah, seu... E você, Magali, até que enfim saiu do quarto. Depois a conversa vai ser contigo, quando eu der uma lição neste doido.
Os dois sumiram da minha vista, me deixando a sós com meus pensamentos.
Quem dera tudo fosse como nos filmes. Que um simples ato de amor verdadeiro pudesse resolver meus problemas.
−−−−−
As férias de inverno acabaram, e eu precisava voltar às aulas. Eu não poderia fugir da minha vida para sempre, então eu fui. Meia hora mais cedo, para não ter que pegar o metrô com Nimbus ou os outros.
Na sala de aula, Lindsay se senta ao meu lado.
− Ei. Onde você esteve? Mandei tantas mensagens...
− Desculpe. Eu estive ocupada.
− Está tudo bem?
− Sim − forcei um sorriso. − A propósito, eu te vi com o Nimbus. Fico feliz que estejam juntos.
− Do que você está falando?
− No sábado depois daquela festa. Eu te vi chegando no pub e se acertando com o Nimbus.
− O que você viu foi eu pedindo perdão pra ele pelo que eu fiz contigo. Ele aceitou minhas desculpas e somos amigos novamente.
− Sério?
− Claro! É por causa disso que você tem me evitado? E ao Nimbus?
− Não. É outra coisa.
− Vocês dois precisam se acertar logo. É tão óbvio pra mim agora. Vocês são destinados um ao outro. Eu me sinto envergonhada de ter ficado no caminho de vocês por tanto tempo. Mas eu só me envolvi com ele porque eu acreditei que você amava o seu namorado lá no Brasil.
− Uma mentira repetida mil vezes se torna verdade, não é o que dizem?
− Não funcionou pra você...
− Não − meneei a cabeça.
− Mas agora... você tá sozinha?
− Sim. E pretendo ficar assim por um tempo.
A voz de Harrison interrompeu a conversa:
− Bom dia, meninas. Preciso falar com vocês.
− Talvez depois da aula − Lindsay apontou o professor que acabava de entrar na sala.
− Ok − Harrison tomou o assento do meu lado.
Peguei meu celular na bolsa para desligá-lo. Havia seis ligações perdidas. Uma da Mônica, uma do DC e quatro do Nimbus. Havia também uma mensagem, que eu abri com alívio quando vi que era do DC:
Nimbus tá maluco atrás de você hoje. Fica esperta.
Droga. Este seria um longo dia.
−−−−−
− Até semana que vem, pessoal − o professor se despediu e começou a arrumar suas coisas.
A voz suplicante de Harrison me pegou de surpresa:
− Então, Mags... Podemos conversar?
Eu não queria de jeito nenhum. Não estava com paciência para os pedidos de desculpas dele.
Mas quando olhei para a porta, vi o que não queria ver. Nimbus estava ali me esperando.
Virei-me para Harrison com um sorriso enorme:
− Claro! Vamos conversar! Vamos conversar muito! Aqui mesmo, agora!
− Ahn... Eu queria pedir desculpas por aquele dia. Na festa. Eu me comportei de forma inaceitável. Eu bebi além da conta e fui um completo babaca.
− Então somos dois. Tudo bem.
− Mesmo?
− Mesmo.
− Então eu ainda sou seu amigo?
− Claro! − segurei sua mão.
− Eu quero muito ser seu amigo, Mags. Na verdade, pra ser honesto, eu quero ser mais do que seu amigo. Nunca escondi isso. Mas eu reconheço que me comportei de forma muito errada e me dou por satisfeito em ter sua amizade até que você possa confiar em mim de novo.
− Você não devia ser tão duro consigo mesmo. Vamos combinar uma coisa? Vamos ambos ficar sóbrios e não fazer mais nenhuma bobagem, ok?
− Certo − ele sorriu. − Ahn... Vai fazer o quê mais tarde?
− Aceito sugestões.
− Tem um filme novo da Marvel que eu quero muito ver. Quer ir junto?
− Claro! Vamos sim.
− Te pego às sete − ele me deu um beijo no rosto e saiu.
Comecei a guardar minhas coisas na mochila sem pressa. Nimbus entrou na sala e, antes que eu visse, sua mão estava segurando a minha.
Com o dedão, ele acariciou meu anel do humor, que estava cinza:
− Tem estado nervosa ultimamente?
Encarei-o sem responder.
Ele continuou:
− Preciso conversar contigo.
− Diga.
− Fora daqui. Vem − ele me puxou até o gramado do campus.
Sentamo-nos à sombra de uma árvore frondosa.
Ele ainda segurava minha mão:
− Conversei com o Quim. Ele me contou sobre a conversa que vocês tiveram.
Fechei os olhos e abaixei a cabeça, tentando esconder meu embaraço.
− O Quim me contou que você saiu atrás de mim naquele dia. Que você estava determinada a desfazer o mal-entendido que ele causara.
Continuei em silêncio.
− Magali, o que aconteceu no caminho de casa até o pub?
− Nada.
− Como nada?! Você não só não falou comigo, como também se trancou no quarto por uma semana.
− Eu percebi que estava me precipitando.
− E por isso você se trancou no quarto e se recusou a falar comigo e com a Mônica e com o DC.
− Eu precisava pensar.
− E pensou?
− Sim.
− E concluiu o quê?
− Que eu passei por muita coisa e preciso ficar sozinha por enquanto.
Ele me olhou nos olhos por alguns instantes e acariciou meu rosto. Eu me senti derreter em sua mão, afundando nos meus sentimentos.
− Tem algo que você não está me contando.
Foi a minha vez de levar a mão ao rosto dele. Afaguei sua bochecha e senti sua barba por fazer.
− Nimbus, você significa muito pra mim. Você é muito importante. Eu vou sempre estar do seu lado. Eu vou ser sua amiga pra sempre.
− Amiga? − ele afastou sua mão de mim. – Pra sempre?
− É só o que eu posso te oferecer. Na nossa última conversa, você disse que entenderia se eu precisasse de um tempo pra mim. Por favor, entenda.
− Você tem razão. Eu disse. Antes de saber que você − ele abriu aspas no ar − "me ama com todas as células do seu corpo". Eu não entendo. Se não há mais sentimentos nem compromissos nos impedindo, não há nada que possa nos separar agora. Ou há?
− Eu preciso que você confie em mim. Eu sei o que tô fazendo.
Isso era uma grande mentira. Eu não tinha ideia do que fazer.
Nimbus segurou minha outra mão, que estava em seu rosto, e a puxou para olhá-la. O anel do humor estava azul-escuro, denunciando minha paixão.
Ele, mais uma vez, me olhou fundo nos olhos e sussurrou:
− Que o teu silêncio me fale cada vez mais / porque metade de mim é abrigo / mas a outra metade é cansaço... / Que o amor nos aponte uma resposta / mesmo que ele não saiba / E que ninguém o tente complicar / porque é preciso simplicidade para fazê−lo florescer...
Respondi, continuando o poema:
− E que minha loucura seja perdoada / porque metade de mim é amor / e a outra metade também...
Ele enxugou minhas lágrimas e se levantou. Antes de sair, apenas disse:
− Eu vou te dar o tempo que quiser, gatinha. Mas não conte comigo pra desistir de você. Somos amigos por enquanto, não pra sempre.
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