Magia Do Destino
36 34. Menina veneno
Notas iniciais
Capítulo 34
Menina veneno
− Vem cá, gatinha − alguém disse no meu ouvido enquanto me abraçava.
Abri os olhos e me lembrei. Eu estava numa pegação muito louca com o Harrison.
E com a Lindsay.
Tudo girava ao meu redor.
E isso era muito legal.
Talvez.
Reparei que eu estava num quarto desconhecido.
Ah sim. Era uma festa na fraternidade do Harrison.
Lindsay se deitou na cama e dormiu.
Algo parecia errado.
Ela não dormiu. Ela desmaiou.
− Ajuda a Lindsay − pedi ao Harrison.
Ele me ignorou e continuou beijando meu pescoço e passando a mão por todo o meu corpo.
− Ajuda ela − insisti.
Me dei conta de que eu estava falando em português.
Eu estava muito bêbada para conseguir formular frases numa língua estrangeira.
Harrison cada vez mais avançava o sinal.
Eu supliquei:
− Pare.
Ele não me deu ouvidos.
Tentei empurrá−lo, mas eu não tinha um controle muito preciso dos meus braços.
Eu acho que queria que ele parasse.
Mas não tinha certeza.
De todo modo, eu não iria conseguir que ele parasse. Não no meu estado.
Então eu me entreguei e fechei os olhos.
Eu gostava daquele beijo e daquele toque.
Meu corpo dizia sim e minha cabeça dizia não.
Sussurrei:
− Não...
Foi quando a porta do quarto caiu.
Mônica arregalou os olhos para mim e, antes que eu me desse conta, ela arrancou Harrison de cima de mim.
Consegui apontar a Lindsay. Mônica foi até ela e se espantou:
− Que droga! Ela tá em coma alcoólico.
Uma voz gritou:
− Leva ela pro hospital! Agora! DC, vai com ela. Eu levo a Magali pra casa.
Era o Nimbus. Só agora eu vi que ele e DC estavam ali também.
Nimbus me ergueu da cama, passou meu braço por seu ombro e me segurou pela cintura.
− Você consegue andar?
Neguei com a cabeça.
Ele me segurou no colo e saiu do quarto, logo atrás de Mônica que carregava Lindsay.
Do Contra, que vinha atrás de mim, pediu:
− Esperem.
Ele voltou para dentro do quarto, encarou Harrison que estava estatelado no chão, e lhe deu um chute na canela.
− Pronto, terminei. Vamos embora daqui.
Descemos as escadas e atravessamos a casa toda até a saída. Nimbus pegou meu casaco no closet ali perto.
Mônica, DC e Lindsay pegaram o primeiro táxi que apareceu.
Nimbus me colocou de pé e me vestiu. Foi um alívio, pois eu estava congelando.
Apoiei minha cabeça no ombro dele até chegar outro táxi.
Entramos e eu apenas me deitei no banco de trás, repousando a cabeça no colo dele.
Acho que eu cochilei, pois nem vi quando chegamos em casa.
Nimbus me carregou até o elevador, e entramos em casa.
Ele me colocou gentilmente na banheira, e eu me recostei com vontade de dormir.
Senti um jato de água fria na minha cara.
− Ei!! − gritei.
− Vou fazer um café. Não sai daí.
Engraçadinho. Ele sabe que eu não conseguiria sair sozinha.
Comecei a me sentir melhor. As coisas pararam de girar um pouco.
Nimbus desligou a água e me entregou uma caneca.
Segurei e olhei, incerta do que deveria fazer com aquilo.
− Toma − Nimbus explicou.
− Ah − obedeci.
Que café horrível. Mas tomei sem reclamar.
Nimbus me ajudou a levantar da banheira. Eu já conseguia andar. Com apoio, claro.
Andamos até meu quarto e ele me fez sentar na cama.
Olhei para ele, e nossa! que homem lindo.
E agora eu era solteira, ele era solteiro, e por que não?
Me levantei e segurei os cabelos de sua nuca, mordendo sua orelha.
− O que você tá fazendo?! − ele me empurrou cuidadosamente.
− Eu te quero. Agora.
− Oi?
− Eu te quero, porra.
− Magali, eu não consigo entender uma palavra do que você diz. Você tá com a língua enrolada.
Que se dane. Eu não quero conversar. Quero outra coisa.
Nimbus me fez sentar novamente, se abaixou e tirou minhas botas e minhas meias.
Ele pegou uma toalha e enxugou meu rosto, meus cabelos e minhas pernas. Então ele segurou a barra de minha blusa e a puxou para cima, me deixando semi−nua.
Ah, então ele finalmente cedeu. Que bom.
Desabotoei o cinto e a calça dele.
− O que você tá fazendo, Magali?! − ele ralhou.
− Não é assim? Você tira minha roupa e eu tiro a sua?
Ele balançou a cabeça em negativa:
− Você tá muito ruim ainda. Não consigo entender nada do que você fala.
Ele me enrolou na toalha e saiu do quarto, voltando com um balde e uma escova de dentes.
− Me mostra a língua − ele ordenou.
Obedeci.
− Com a boca aberta − ele explicou.
− Ahhhhhh − fiz como quando ia ao médico.
Nimbus enfiou a escova de dentes na minha garganta, me causando vômito imediato.
Acho que o balde era para isso. Pena que eu não acertei o alvo.
Vomitei nos pés do Nimbus. Nos sapatos de show dele. Ele ainda estava com a roupa da apresentação.
Ele suspirou pesadamente:
− Que ótimo.
Ele saiu do quarto novamente, e voltou dessa vez calçando chinelos e com um copo na mão.
Ele me entregou o copo, e virei o líquido de uma só vez. Fiz careta com o gosto horrível.
− Sua doida! Isso era Listerine! Era pra você cuspir fora!
Está explicado o gosto estranho.
Me desenrolei da toalha, expondo minha nudez a ele.
Segurei sua mão direita e a pousei sobre meu seio esquerdo.
Ele se espantou e recuou, sussurrando no meu ouvido:
− Não, gatinha. Hoje não. Não assim.
A rejeição dele me fez querer vomitar de novo. Mas me segurei.
Apenas me deitei na cama e enterrei meu rosto no travesseiro. Eu não queria que ele visse minhas lágrimas.
−−−−−−
Acordei com a luz do sol batendo no meu rosto. Já devia ser de tarde.
Me virei na cama e vi Nimbus cochilando na poltrona do outro lado do quarto.
Observei tudo em volta. O chão estava limpo. Eu estava vestindo uma camisola de flanela, e coberta com um edredom.
Tentei me levantar, mas a dor de cabeça era tão forte que quase explodiu meus miolos.
Então isso é que é ressaca.
É bem pior do que tinham me falado.
Me forcei a dormir de novo. Quem sabe, se eu dormir bastante, essa dor de cabeça passa.
−−−−−−
Acordei de novo, e dessa vez a luz que entrava no quarto era do pôr do sol. A cabeça ainda doía, mas eu estava morta de fome. Precisava me levantar e comer alguma coisa.
Me arrastei até a cozinha, e qual não foi minha surpresa quando vi Nimbus colocando sushis numa barca. Estava tudo muito bonito e arrumado.
− Desde quando você sabe fazer sushi?
− Desde sempre. Todo sábado, lá em casa, era o dia de folga da mamãe, e era eu quem cozinhava. Aprendi com meu avô.
− E por que você nunca fez nesses meses todos que a gente mora aqui?
− Porque, se eu fizesse, você ia querer querer sempre. Mas hoje eu tô sozinho aqui com você, e você precisa comer, e eu só sei fazer isso.
Sentei-me e fiquei observando-o fazer as bolinhas de arroz tão minuciosamente.
Então me lembrei de algo importante.
− Como tá a Lindsay?
− Já teve alta. Tomou glicose na veia e voltou pra casa.
− E a Mônica? E seu irmão?
− Foram passar o fim de semana em New Jersey.
− Engraçado como eles sempre somem nos fins de semana, né? Tô começando a achar que é de propósito.
− Claro que é de propósito. Na cabeça deles, eles têm que nos "deixar a sós" − ele fez sinal de aspas com as mãos.
Ele não estava tocando no assunto sobre a noite de ontem. E eu também não queria falar sobre isso antes de comer.
− Pronto! Vamos? − Nimbus chamou, carregando a barca até a mesa de centro da sala.
Sentamos no chão e começamos a saborear a comida.
Nossa, que delícia.
Eu não sabia que Nimbus cozinhava tão bem.
Acho que estou me apaixonando de novo por ele.
− Isso tá bom demais − falei de boca cheia.
Ele apenas sorriu e serviu um copo de saquê para si.
Notei que havia apenas um copo na mesa, e antes que eu questionasse, ele disse:
− Não, senhora. Você não vai tomar saquê hoje. Ainda tem muita tequila aí pra eliminar.
Me senti corar. Eu me lembrei de tudo que fiz ontem.
− A propósito − ele falou enquanto dava um gole − o que foi aquilo?
Não respondi de imediato. Estava procurando as palavras.
− O que aconteceu ontem pra você sair de casa daquele jeito? Pra não ter ido trabalhar? E depois fazer aquela cena toda? Resolveu bancar a menina veneno?
Respirei fundo:
− O Quim me traiu.
− O quê?! − ele se espantou.
− Ele transou com uma estranha numa festa de Ano Novo. Isso me pegou completamente de surpresa, e eu surtei de raiva.
− Hummm... Entendo − ele assentiu com a cabeça. − Quer dizer, eu entendo a sua raiva. Mas não entendo um paspalho daquele trair uma namorada como você.
− Mas... A questão da distância pesou muito, e eu não tenho sido uma boa namorada... Eu entendo ele.
− Você tá defendendo ele?! − Nimbus se indignou.
− Agora a raiva já passou. Na verdade, acho que a raiva era mais de mim mesma, por ter arrastado essa situação durante tanto tempo. A culpa é minha por ter deixado ele preso nesse relacionamento falido. Eu fui egoísta.
Nimbus me olhou com surpresa nos olhos:
− É muito nobre da sua parte reconhecer isso, Magali. Você tá sendo bem mais imparcial do que eu. Minha vontade é de socar a cara dele.
− Mas por quê?
− O filho da mãe acha que a vida dele é muito difícil? Por que tá longe de você? Fala sério. Ele nunca tentou te reconquistar. Ele nunca veio aqui lutar por você. Ele tava acomodado. Você também tava, é verdade. Mas o que eu quero dizer é que o difícil não é ter uma namorada incrível morando longe. Difícil mesmo, Magali, é morar na mesma casa que você, acordar todo dia e te ver tão perto, tão linda, sentir seu cheiro, e não poder tocar, não poder chegar perto. Isso é que é difícil pra caramba.
Engoli seco, segurando minhas lágrimas.
− Nimbus, sobre a noite de ontem, primeiro, obrigada por cuidar de mim. E segundo, eu te devo mil desculpas. Eu não sei o que você chegou a ver...
− Ah, eu vi muita coisa. Quando saí do show, tinha um monte de vídeos no meu celular. Eu queria poder desver aquilo.
Escondi o rosto.
− Eu tava bêbada demais pra raciocinar. Eu só tive curiosidade de beijar uma menina e fui em frente, sem nenhum filtro, sem pensar. Eu não tive intenção de te machucar.
− Me machucar? Imagina! Claro, eu fiquei chocado. Mas até que as imagens eram bem... excitantes. Guardei na minha pasta de vídeos... Ah, você sabe. Vídeos divertidos.
Fiquei muito sem graça.
− Brincadeira, Magali. Eu deletei tudo. Aliás, o Cebola já tá providenciando que os vídeos sejam extintos da internet.
− Chegaram a ser publicados?
− Sim, em alguns sites pornô. Mas o Cebola já tá cuidando disso.
Terminamos de comer e nos sentamos no sofá.
− Se sentindo melhor? − ele perguntou.
− Da ressaca, um pouco. Mas a ressaca moral é a pior, né?
− É normal uma moça da sua idade querer aproveitar a solteirice. É inclusive muito saudável.
− Você acha mesmo que eu tenho que ficar com outros rapazes?
− Eu... Eu entenderia. Eu não posso te pedir pra que não. Eu mesmo tive minha cota de farras, de pegação. Quer dizer, acho que seria injusto te privar da mesma oportunidade, não é?
Pensei um pouco e perguntei:
− Mas assim... Considerando que você tá solteiro... E que agora eu sou solteira também... Eu podia, tipo... Me divertir contigo?
Ele arregalou os olhos e deu uma risada curta, de pura surpresa:
− Acho que sim. Por que não?
− Achei que ontem você tinha me rejeitado porque ficou com raiva de mim por eu ter ficado com a Lindsay e o Harrison.
− Eu não te rejeitei. Eu só não podia me aproveitar de você. Você mal conseguia ficar de pé, falava tudo enrolado. Eu não sou como o Harrison.
− Mas agora eu tô sóbria...
− Aham − ele aparentava nervosismo.
− E solteira...
− Aham...
Fui me aproximando dele e tomei coragem para me sentar em seu colo:
− Então eu acho que agora a gente podia... Se divertir um pouco.
Ele acariciou meus cabelos soltos, me olhando nos olhos:
− Até que enfim esse dia chegou.
Ele me beijou com avidez, e de repente eu me esqueci da minha dor de cabeça, da minha noite de fúria e tequila, de tudo.
Me perguntei se ele tinha só duas mãos, pois elas pareciam estar em todo o meu corpo ao mesmo tempo.
Tirei sua camiseta, sem jamais interromper o beijo, e puxei os cabelos de sua nuca.
Daí a campainha tocou.
Que raiva.
− Você tá esperando alguém? − perguntei.
− Não... E você?
− Também não...
− Mô e DC têm a chave... Bom, vou ver quem é − ele falou em tom de protesto, vestindo a camiseta.
Me sentei no sofá ajeitando meu cabelo despenteado pelo amasso.
Quando Nimbus abriu a porta, eu não podia acreditar nos meus olhos:
− Joaquim?
Fale com o autor