Magia Do Destino

17 16. O primeiro da fila


Capítulo 16

O primeiro da fila

Alguns dias se passaram. Era um domingo, e no dia seguinte nossas aulas na faculdade começariam.

Mônica e Do Contra acordaram cedo e foram ao Central Park. Eles me chamaram para ir junto, mas eu estava especialmente mal humorada hoje, e não estava a fim de segurar vela do casalzinho perfeito.

Uma garota bonita, tipo modelo, com roupas de balada, saiu do quarto de Nimbus. Ele saiu atrás dela, só de cuecas, e entrou no banheiro, deixando-me sozinha com a garota na sala.

Essa devia ser a décima garota que ele trazia ao apartamento— eu já tinha perdido a conta. Assistente eficiente que sou, tratei de me livrar logo da menina. O procedimento era sempre o mesmo com todas elas.

— Oi — falei em inglês, estendendo minha mão a ela.

— Oi... — ela apertou minha mão, hesitante.

— Sou a Magali, assistente do Nimbus. Como vai?

— Bem, obrigada — ela disse meio sem jeito.

— Eu quero te agradecer pela ajuda que você deu ao Nimbus.

— Ajuda?

— Sim. Ele acabou de chegar na cidade, e saiu de um relacionamento complicado. Ele tem muitos problemas, sabe?

— Mesmo? — a garota se espantou.

— Sim. Ele não tem sido boa companhia ultimamente. Por isso, fico muito grata que você o esteja ajudando nesta chegada dele em Nova York.

— Ahn... Sem problema.

Tirei de um vaso as flores que estavam enfeitando o aparador na sala e entreguei a ela:

— Por favor, aceite estas flores como um gesto de agradecimento de Nimbus e sua equipe. Pode anotar aqui seu telefone, querida? — estendi-lhe uma agenda.

— Ahn... Claro.

Obediente, ela anotou o número, embora estivesse visivelmente desconfortável pela situação toda. Todas elas ficavam assim. Não se conformavam de serem despachadas pela assistente do cara.

Abri a porta do closet que ficava ao lado da saída e peguei a carteira de Nimbus no casaco dele. Tirei duas notas de 20 dólares e entreguei a ela.

— Para o táxi. Mais uma vez, obrigada.

Sem dizer nada, e absolutamente arrasada, a moça saiu do apartamento, com o dinheiro numa mão e as flores na outra.

Nimbus saiu do banheiro e reclamou:

— Cadê a menina? Você dispensou ela de novo?

— Como assim, de novo? É a primeira vez que você traz essa garota aqui.

— Sim, mas... Toda vez que eu vou me despedir da pessoa, você já despachou a coitada. Você não precisa fazer isso, eu mesmo posso fazer.

— Sim, eu poderia, mas eu gosto de dispensar as meninas de uma forma fofa e delicada. É a minha contribuição pro mundo.

— E como isso contribui com o mundo?

— Simples: eu dou um tratamento atencioso a elas, dou flores, anoto o telefone, e isso diminui um pouco a tristeza delas, pelo menos até elas perceberem que você não vai ligar.

— Agora você é a salvadora das minhas “vítimas” — ele fez sinal de aspas com os dedos.

— Exatamente. A propósito, eu devo manter o telefone desta?

— Não. Pode jogar fora.

— Imaginei — arranquei a página da agenda.

Sentei-me no sofá, enquanto Nimbus procurava por algo na geladeira.

— Magali, você faz esse teatrinho, como se isso fosse muito natural pra você, mas eu sei que não é.

— O que quer dizer?

— Se isso fosse tão natural quanto você se esforça pra aparentar, você não ficaria nesse mau humor terrível toda vez que tem que despachar uma menina.

— Eu estou fazendo o meu trabalho, não estou?

— Eu já disse que eu mesmo posso fazer isso.

— Mas eu tenho pena das meninas, Nimbus! — minha voz saiu mais alta do que deveria.

— Pena? Por quê?

— Porque deve ser horrível ser usada assim.

— Elas não saem daqui reclamando da noite que tiveram, não é? E sabe por quê? Porque elas adoraram passar a noite comigo. Elas não são umas coitadinhas que precisam de pena.

— Mas sou eu que vejo como elas saem de coração partido no dia seguinte, então acredite, eu sei do que estou falando.

— Quando eu trago elas pra cá, eu não prometo um relacionamento pra elas. Elas não têm do que reclamar.

— Esquece, Nimbus. Você é só um homem galinha que não entende do que eu tô falando.

— Você me chamou de quê?

— Eu te chamei de galinha. G-A-L-I-N-H-A.

— E você é uma matraca. Você fala mais do que devia.

Isso me tirou completamente a calma. Gritei em resposta:

— Eu falo demais, é?

— Demais. Eu não aguento mais seu falatório sobre minha vida íntima.

— Então vem me calar!

Nimbus soltou a porta da geladeira, deixando-a aberta, e fez uma expressão de quem não acredita no que acabou de ouvir:

— O que você disse?

Gritei:

— Vem me calar, se você for homem!!

Antes que meus olhos conseguissem ver, Nimbus já tinha saído da cozinha e estava na minha frente. Ele me segurou pelos pulsos, me obrigando a levantar, e me empurrou contra a parede.

Ele me olhava com ódio, e a respiração dele estava ofegante. Seu corpo estava colado ao meu, e pude sentir que o coração dele estava acelerado. Exatamente como o meu.

Com a testa encostada à minha, ele fechou os olhose respirou fundo. Eu pude ver que ele estava tentando se controlar. Depois de alguns momentos, ele me olhou novamente, e disse com um tom de voz firme:

— Eu tenho um jeito muito especial de calar uma mulher. Então, se você quiser se manter fiel ao seu namorado, não me provoque desse jeito. Nunca mais. Eu tô falando sério.

Não consegui responder. Eu estava paralisada, com medo misturado num monte de sentimentos confusos.

Ele, então, encostou muito rapidamente, por uma fração de segundo apenas, os lábios dele nos meus, e em seguida sussurrou no meu ouvido:

— Touché.

Ele largou meus pulsos e se afastou de mim, entrando no quarto dele e batendo a porta atrás de si.

Eu senti um misto de alívio e decepção. Ao mesmo tempo em que eu estava aliviada por ele não ter seguido adiante em sua ameaça, uma parte de mim lamentou que ele não o tivesse feito.

Se ele tivesse me beijado, o que eu teria feito?

Eu teria conseguido me afastar? Ou teria perdido o controle?

Acho que a segunda alternativa estava mais próxima da verdade.

Senti vergonha de mim mesma por perceber que, entre nós dois, o Nimbus era o mais controlado, o mais capaz de conter seus impulsos. Desta vez, eu saí da linha. Eu deixei a raiva me dominar, e o provoquei. Mexi com os brios dele. E ele poderia ter facilmente me beijado se quisesse. Mas ele foi mais adulto e mais maduro do que eu.

Eu devia desculpas a ele.

Preparei uma bela bandeja com uma xícara de café, pães, manteiga, geleia, frutas e suco, e levei até o quarto dele. Bati à porta, e, quando ele não respondeu, tomei a liberdade de entrar.

Nimbus estava deitado na cama, lendo um livro, e levantou os olhos preguiçosamente em minha direção.

Coloquei a bandeja na cama e me sentei ao lado dele. Ele me olhou com surpresa:

— A que devo um café da manhã tão caprichado, e na cama ainda? — ele tentava esconder um sorriso.

— Você não comeu nada hoje ainda. E esse é o meu jeito especial de pedir desculpas.

Ele tomou um gole do café e perguntou:

— Pelo quê?

— Esquece — respondi, seca, levantando-me para ir embora.

— Ei, espera — ele segurou minha mão. — Me acompanha.

— Eu vou te acompanhar, mas só porque o café tá delicioso — peguei a xícara da mão dele e tomei um bom gole.

— Desculpas aceitas — ele tinha um largo sorriso no rosto. — Mas gatinha... A gente tem que resolver esse assunto de uma vez por todas. A gente não pode brigar toda vez que eu trouxer uma menina pra cá. Ou eu realmente vou achar que você tá com ciúmes.

— Eu não tenho ciúme de você, eu já disse.

— O que é que você sente, então? Me explica, porque eu quero entender — ele suplicou.

Eu não sabia o que dizer. Portanto, resolvi inverter o jogo:

— Se eu trouxesse, a cada noite, um rapaz diferente ao apartamento, como você se sentiria?

Ele ficou indignado:

— Eu sei que você nunca faria isso.

— E se eu fizesse?

— Eu não deixaria. Colocaria esses rapazes pra correr.

— Por quê? Por ciúmes?

Ele ficou sem resposta por um momento, mas respondeu:

— Não é uma questão de ciúmes. É uma questão de proteção.

— E você iria querer me proteger do quê, exatamente? Do estilo de vida que você leva?

— Ahn... Sim. Mas você é uma pessoa melhor do que eu, gatinha. E eu sei que isso não vai acontecer. Você tem um namorado que você ama, e você é fiel a ele, certo?

— Certo, mas... Talvez eu não fique com o Quim pra sempre.

Ele abriu um sorriso ridiculamente grande:

— Neste caso, vai ter uma fila de rapazes esperando por uma chance com você, mas eles não vão querer só uma noite. Eles vão querer algo sério. E aí você vai escolher um deles, e vai trazer pra eu aprovar.

Dei uma risada:

— E que tipo de cara você aprovaria?

— Nenhum. Ninguém nesse mundo é bom o suficiente pra você.

— Você acha isso?

— Claro. E, se for pra você ficar com o cara errado, então eu sou o primeiro da fila.

Senti-me ficar vermelha, mas tentei ter jogo de cintura:

— Você não jogaria fora meu número de telefone no dia seguinte?

Esta era para ser uma pergunta engraçada, mas eu pude ver que ele ficou incomodado com o comentário:

— Eu te trouxe pra vir morar comigo em Nova York, pelo amor de Deus!! Você realmente acha que eu jogaria fora o seu número?

Percebendo a seriedade do que ele próprio estava falando, Nimbus retomou o tom jocoso da conversa:

— Se eu jogasse fora seu telefone, como é que a gente iria trabalhar? Você é minha assistente, eu preciso do seu número. Não seja boba. E agora, chega de conversa e vamos aproveitar este domingo ensolarado.

— O que você quer fazer?

— Que tal irmos à Estátua? Amanhã começam as aulas, e depois estreia o show, então vai ficar realmente complicado pra ir lá.

— Ótima ideia! Vou me arrumar.

— Coloque roupas bem confortáveis e tênis. E faça uma refeição reforçada.

— Mas eu acabei de comer.

— É melhor comer de novo. Serão muitas horas de fila. No barco até tem comida pra vender, mas nada muito saudável.

— Tudo bem então — obedeci e comecei a devorar o restante da comida que havia na bandeja que eu havia trazido.

Nimbus ficou me olhando comer, apenas sorrindo.

— O quê? — perguntei.

— O que o quê?

— Você tá me encarando.

— Nada, não. Eu só gosto de te olhar comendo. Você parece tão feliz. E o melhor de tudo, você fica calada.

Fuzilei-o com o olhar, e ele emendou:

— Tô brincando!

— Vou me arrumar, antes que eu brinque de te esganar.

Fui para meu quarto, e, enquanto me trocava, eu repassei na cabeça todo o nosso diálogo. Nimbus disse tantas coisas... Ele praticamente confessou que sente algo por mim.

O que será que ele sente?

Considerando a quantidade de mulheres com quem ele se envolvia casualmente, provavelmente tudo o que teríamos seria somente isso: um caso. Uma noite.

E eu acho que não vale a pena sacrificar meu namoro de tantos anos por causa de uma noite.

Se eu vou ficar com o Quim para sempre, eu não sei. Mas, se tivéssemos que terminar, o motivo não poderia ser o Nimbus.

Minha muralha estava ruindo, e eu tinha que colocá-la no lugar de novo. Antes que eu me envolvesse demais nos truques desse mágico encantador.