Madly Living
7 ♛ - Um Vislumbre do Passado [Ou Sobre Como Guerras Começam]
Notas iniciais
— Merida Dunbroch! Comporte-se! – bradou Elinor, ajeitando, pelo que parecia ser a milésima vez, o cabelo da filha. Céus, por que a menina tinha que puxar o cabelo de Fergus?
Uma Merida de dez anos revirou os olhos azuis, cruzando os braços. Sua mãe não havia deixado passar o feriado de Ação de Graças na escola, como sempre acontecia. Tudo por causa do maldito jantar que aconteceria esta noite.
Era algo para “aprofundar relações”. Merida se segurou para não bufar. Todas as vezes que um jantar de “aprofundamento de relações” era marcado, algo péssimo acontecia. Três deles haviam sido tentativas de casar Merida com algum filho de alguma empresa influente. Merida quase foi prometida a Dingwall, mas estes faliram pouco tempo depois do jantar. Os Macguffin não se encaixaram nos padrões de Elinor, tão porcos e grosseiros quanto os trasgos dos contos de fada que Merida lia. Por fim, depois que a filha mais velha dos Macintosh, que na época tinha 19, ameaçou denunciar a própria família e os Dunbroch pela quase-prometida mão de Merida ao caçula da família (Céus, nessa época ambos só tinham nove anos!), os jantares com fins matrimoniais pararam.
Outros dois foram apenas tentativas de conhecer melhor a empresa um do outro, e Merida não podia fazer nada que não fosse se sentir em uma daquelas aulas de etiqueta que sua mãe insistia em colocá-la. Tinha que usar três tipos de garfos diferentes; Não colocar o cotovelo na mesa; Não revirar os olhos; Não ser ela mesma! Argh!
— Agora, — Elinor se colocou a sua frente, a encarando séria – quero que você se comporte, ouviu bem? Nada de reclamar, bufar, revirar os olhos, ser respondona, comer de boca aberta, ou comer demais, ouviu bem?
— Que tal você comprar um robô para ir no meu lugar então? – indagou Merida, irritada.
Sua mãe apenas a olhou com aquele olhar perigoso. Merida sustentou o olhar.
Elinor suspirou.
— Ah, bem que você podia ser mais como a filha dos Arendelle. A mais velha. É tão educadinha! – foi dizendo, enquanto se virava para sair da sala e dar os últimos retoques na própria aparência. Ah! Como cuidar de Merida era difícil!
Merida, por sua vez, apenas encarou as costas da mãe, a boca aberta em indignação. Não acreditava no que a mãe havia falado!
— ADOTE A MENINA ENTÃO! – gritou para a mãe, que a esta altura já estava na sala, e não a ouviu.
Bufando, Merida encarou-se no espelho. Seu cabelo revolto e volumoso ficava ridículo numa trança. Com um grunhido de raiva, desfez a porcaria da trança.
As outras meninas seriam sempre melhores! Os Tremaine, com a tal loirinha – que Merida havia esquecido o nome, mas apelidou, durante o jantar que eles haviam vindo aqui de Cinderela -, que era tão educadinha! Se importava com a aparência! Limpava a casa sem reclamar!
Os Mulan, com a caçula que era quatro anos mais velha que Merida, Hua (e que nome estranho para uma garota!), era tão confiante! E tão delicada!
E aquele tal de Mortimer, filho do milionário viúvo Walt Yen-Sid? Merida até gostava um pouco dele – lembrava-se que o apelidou de Mickey Mouse -, mas, sinceramente, sua mãe parecia querer colocá-lo em um pote! E isso por que Mortimer era a arrogância em pessoa, para um garoto tão jovem.
Mas tinha também os Gibbs, com a pequena filha deles, Mary. A garota “Boo”, de três anos, era a garota-propaganda da empresa dos pais. Lembrava-se com perfeição de seus pais babando na fofa menina.
Merida bufou. Ninguém era perfeito, mas sua mãe queria que ela fosse.
Respirando fundo, desceu as escadas. Estava na hora do jantar.
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— Que pena que Anna não agüentou! – disse a Senhora Arendelle, olhando para as escadas, na direção onde haviam colocado Anna, a irmã mais nova, que estava dormindo – Mas também, coitadinha, brincou a tarde inteira na escola! Não tem criança que agüenta!
Merida se segurou para não bufar. Todo aquele jantar estava sendo uma chateação total! A Senhora Arendelle era totalmente rígida e arrogante. Era de uma altura que não era baixa e nem alta, não era magra nem gorda, tudo “perfeitinho”. Tinha olhos azuis gélidos e cabelos ruivos, porém de um tom bem mais claro que os de Merida. O irritante era que a mulher olhava para os cabelos ruivos de Merida a cada dois segundos em desaprovação! Nem disfarçava!
O Senhor Arendelle era tão arrogante quanto a mulher. Não parou um segundo de falar do carro novo que tinha comprado semana passada e do novo contrato que havia fechado ainda pela manhã. O pior era a forma como sua mãe parecia admirar cada palavra do que eles diziam! Merida nunca iria entender os adultos.
Olhou para a mais velha, sentindo pena dela. Seu nome era Elsa, e devia sofrer tanto quanto ela com a pressão de ser perfeita. Mas Elsa encenava bem. Comia de modo certo, era toda educada e tinha uma postura perfeita. Elsa tinha os cabelos loiros do pai, mas os olhos azuis da mãe. Uma perfeita “princesinha”.
Quando o jantar finalmente terminou, os adultos foram para a sala, enquanto as duas meninas foram para o quarto de Merida. Ao chegarem, Elsa passou os olhos por todo o quarto, para comentar:
— Seu quarto é bonito. – Merida quase revirou os olhos.
— Não precisa mais fingir. – disse Merida, em tom cúmplice – Os adultos são um saco, mas não precisa fingir ser essa chatinha perfeita aqui comigo.
Elsa a encarou, arregalando os olhos. Merida a encarou, desconfiada. Alguns anos depois, quando Merida relembrasse dessa cena, ela admitiria que chamar a garota de “chatinha perfeita” não foi a melhor coisa que poderia fazer, mas mesmo assim continuaria sentindo uma antipatia enorme pela outra.
— Por que eu fingiria? – a garota parecia estar verdadeiramente confusa, e Merida bufou.
— Ah, fala sério! – a ruiva fez um sinal de descaso com as mãos, irritada – “Olha a postura”, “Não revire os olhos”, “Concorde com o que disserem”... Você não acredita mesmo em tudo isso, não é?
— São regras de etiqueta que qualquer garota que se preze deve ter! – Elsa retrucou, num tom levemente convencido. Merida a encarou com os olhos semicerrados.
— E você, com certeza deve se achar muito por ser a perfeitinha. – ela bufou, para depois dar uma risadinha – Os Arendelle, pelo jeito, não criaram uma filha. Criaram uma boneca.
— Não fale mal dos meus pais! – pediu Elsa, agora já perdendo um pouco a paciência.
— Não estou falando mal de ninguém. – Merida ergueu as duas mãos na altura da cabeça – Só estou falando a verdade.
Elsa a olhou, um brilho feroz passando por seus olhos. Não iria admitir que aquela... aquela... cínica ficasse falando mal da sua família!
— Ah é? – e Elsa avançou para perto de Merida. A ruiva, por um momento, achou que a loira iria dar-lhe um soco, mas Elsa apenas começou a falar em tom cortante – Por que eu vou dizer o que os DunBroch criaram! Uma mimadinha irritante que não é capaz nem de ser educada! Esse tipo que não consegue nem educar uma criança nem deveria ter filhos!
Merida a encarou, estupefata, muito espantada para falar.
Elsa observou o rosto de Merida ir ficando vermelho, e, por um segundo, achou que fosse por vergonha, que suas palavras haviam-na atingido. Mas Elsa descobriria, cedo demais, aliás, que vergonha não era um sentimento presente em Merida. O que a ruiva sentia era raiva, muita raiva.
— Olha aqui, princesinha...! – começou Merida, mas foi interrompida pelo casal Arendelle e sua mãe, que estavam abrindo a porta.
— Bom, foi muito divertido. – vinha comentando a Senhora Arendelle, mas apesar de sorrir, seus olhos não pareciam ter achado nada daquela noite divertido. Merida tinha que admitir que achava o mesmo. – Mas agora temos de ir. Elsa, se despeça de sua amiga e vamos embora.
As duas meninas se encararam. Merida tinha um sorriso zombateiro no rosto. De amigas as duas não tinha nada.
Merida agora odiava a loira.
Elsa não seria deselegante ao ponto de sair odiando alguém no primeiro encontro, mas tinha de admitir que o que sentia por Merida chegava perto.
— Bom... Até mais, Merida. – se despediu a loira, com voz de quem queria que o “até mais” nunca chegasse.
Merida não respondeu. Curvou-se numa longa reverencia.
— Até mais, princesa.
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