Madelyn
2 O medo com asas
O vento gelado batia fortemente contra o rosto da garota, que abraçava a si mesma tentando espantar o frio, andando em passos largos e tentando ignorar as gotículas de gelo que caiam sobre sua cabeça. Apertou o livro que levava em mãos contra seu peito, estremecendo, quando mais uma vez o vento forte lhe atingiu a face.
Balançou a cabeça, em uma falha tentativa de retirar do rosto os fios de cabelo castanho escuro. Pensou no quão ruim seu dia havia sido, e aquilo só parecia piorar.
Mary diminuiu os passos, suspirando pesadamente ao encarar o beco escuro a sua frente. As ruas de Chamberlly Falls já não eram as mais seguras para uma garota de dezessete anos voltar sozinha para a casa. Pensou em dar meia volta e pegar um outro caminho, mas já estava tão perto...
Segurou a bolsa com firmeza, andando rápido e cautelosamente, tentando manter a postura firme. Estava perto de casa. O que mais poderia dar errado naquele dia?
●••ზ••●
O corpo sem vida desmoronou no chão, enquanto ele retirava do bolso de sua jaqueta um pano, limpando o canto da boca. Olhou para mais uma de suas vitimas, os olhos gelados e sem emoção, tão sem vida quanto os daquele cadáver. Um sorriso sádico cresceu no canto dos lábios, enquanto com um pé, empurrava o corpo barranco abaixo.
Sentia-se saciado.
Poderia até se sentir livre, enquanto caminhava calmamente como se nada tivesse acontecido.
Como se não tivesse acabado de tirar uma vida.
"Que Deus a tenha" Pensou ironicamente.
Sebastian sorria presunçoso, a sensação de poder que dominava seu corpo era quase indescritível, sentia-se poderoso, inalcançável e inatingível, era uma roxa sólida. Seus passos eram confiantes, o olhar duro e ao mesmo tempo, calmo, sem emoções.
Sentiu o jato forte de vento lhe atingir a face, assim que os pés deixaram o chão e o corpo deu impulso para cima, em um salto, logo depois as asas negras e grandes se abrem e então ele estava pronto para sua nova caçada.
Era claro que depois de tanto tempo, Sebastian já não sentia as sensações vibrantes quando flutuava sobre a imensidão negra que era o céu de Chamberlly Falls, aquilo havia se tornado tão normal quanto caminhar, talvez o fato de não sentir liberdade ou excitação quando contornava o céu como um grande pássaro negro, fosse resultado de sua total falta de vontade de sentir qualquer emoção. Na verdade, aquilo era quase tedioso para ele, já não se impressionava com as coisas que era capaz de fazer, do poder que possuía ou do controle que tinha sobre as pessoas, as criaturas frágeis e humanas, que ele tanto desprezava, eram fracas e inferiores e não havia lugar para elas em seu mundo.
É claro que se fosse séculos atrás, esses pensamentos jamais passariam pela cabeça do jovem Sebastian Sullivan, o garoto dedicado e repleto de sonhos, que foi cruelmente impedido de realizá-los, ainda jovem, dois dias depois da morte de sua mãe, Sebastian se encontrava tomando o mesmo destino que ela, deitado em uma cama em seu leito de morte, sentindo a tuberculose o matando aos poucos. Foi quando recebeu a visita de um homem, dizendo poder salvá-lo. Maldição, antes ele tivesse se deixado morrer, ao invés de deixar que aquele homem que lhe prometia vida e juventude eterna, o salvasse. De fato, ele cumpriu a sua promessa e como castigo por enganar a morte, Sebastian se torna um escravo da noite, um monstro faminto, o próprio medo com asas. Asas negras, para simbolizar sua alma, se é que ele ainda tinha uma.
O homem é brutalmente lançado para fora de seus pensamentos, quando um grito agudo e desesperado alcança seus ouvidos, era o grito de uma garota, ele reconhecia e, por alguma razão, gostaria de saber de onde vinha, gostaria de saber de quem vinha, tentou concentrar-se e sua audição apurada logo recolhia os sons ao seu redor e então ele ouviu o grito novamente, a voz frágil e assustada, ele quase podia ver os olhos daquela garota, o medo estampado neles e então, sem que percebesse, já estava voando em sua direção.
Mary sentiu a ardência em seu rosto, quando um dos homens lhe esbofeteou a face uma segunda vez, mandando que a mesma se calasse. Deixou que ás lágrimas que segurava escorressem por seu rosto pálido, o corpo é arremessado ao chão, fazendo a cabeça bater contra uma pedra.
Os homens recolhem a sua bolsa, olhando um para o outro e então se virando para começar a correr, mas param subitamente, quando vêem um vulto acima deles, uma rajada forte de vento bate contra ambos os corpos fazendo-os olhar de um lado para o outro, vendo a “coisa” se movimentar, e então ele estava a sua frente, as asas em volta do corpo, um dos joelhos pousados contra o chão, a cabeça baixa. Sorriu vagamente, não precisava olhar para os homens para saber o quão apavorados estavam.
– Eu não acho que essa seja a maneira correta de se tratar uma dama. – Sua voz é grave, seus olhos se levantando até os dois homens paralisados a sua frente. – Parece que os rapazes não foram bem educados.
Sebastian caminha na direção deles, as asas se escondendo e o fazendo parecer um homem comum, as garras arranham a parede, o sorriso crescendo nos lábios.
– Não me digam que estão pensando em correr. – Diz Sebastian, soltando uma gargalhada de deboche. Balança a cabeça negativamente, quando um dos homens empurra o outro para cima dele e se dispõe a correr.
Sebastian encara os olhos desesperados, sentindo a euforia tomar conta de si quando o homem começa a implorar por sua vida. Ele inclina a cabeça para o lado, aproximando os lábios do ouvido do homem.
– Tenha bons sonhos. – Sussurra, enquanto a mão atravessa o peito dele, arrancando-lhe o coração.
O corpo desaba no chão e então ele está de volta, o assassino impiedoso, abrindo suas asas e voando de encontro ao outro sortudo que cruzou seu caminho.
●••ზ••●
Mary abre os olhos lentamente, a dor latejante em sua cabeça faze-a soltar um inaudível gemido, levando a mão até a testa e sentindo um curativo sobre a mesma. O teto foi á primeira coisa que avistou, era alto, muito alto, havia uma luminária no centro e pelo seu estado, ela podia dizer que era antiga. Depois ela olhou em volta, as paredes davam-lhe a sensação de estar em um castelo medieval, com uma única porta de madeira, sem janelas ou móveis, apenas uma cama e no centro, uma cadeira com o que ela supôs ser suas roupas, perfeitamente dobradas. O lugar era grande, maior do que seu quarto, na verdade, caberiam dois de seu quarto naquele lugar. Finalmente, olhou para seu próprio corpo vendo a si mesma dentro de um vestido longo e branco, as mãos e os braços levemente machucados.
Levantou-se, olhando ao seu redor, procurando por alguém, talvez a pessoa que a tivesse levado até aquele lugar, mas como já se era suspeito, estava sozinha. Aquilo não a desapontou, na verdade a deixou aliviada. A última coisa que gostaria era acordar e dar de cara com um estranho.
Vestiu-se, mais rápido do que o normal. As lembranças da noite passada piscando em sua mente.
– Maldição. – Esbraveja, quando se recorda dos dois homens que tentaram assaltá-la, e ela supôs que eles conseguiram, já que ela não encontrava sua bolsa em lugar algum, considerando que os únicos lugares aonde ela podia procurar, eram a cadeira e a cama.
Suspirou, cobrindo o rosto com as mãos e ignorando o incomodo em suas bochechas. Agradeceu mentalmente por não ter um espelho ali, assim como não gostaria de dar de cara com um estranho, também não ficaria nada feliz em dar de cara consigo mesma.
Não pensou duas vezes antes de caminhar até a grande porta de madeira, levou a mão trêmula até a maçaneta, respirando profundamente antes de girá-la. Agora seria uma boa hora para ligar para a polícia, ou para qualquer pessoa, é claro, se ela tivesse seu celular. Mary puxou a porta, ouvindo-a ranger e pensando ironicamente no quanto era boa em fazer silêncio. Deu dois passos para fora do quarto, olhando para ambos os lados e dando de cara com um longo corredor gelado e mal iluminado. Ficou alguns segundos parada no meio dele, travando uma batalha interna na tentativa de decidir para qual lado deveria ir.
– Parece perdida. – O coração quase pula do peito da garota, quando sente o hálito gelado bater contra a sua nuca. Vira-se rapidamente, deparando-se com o corredor longo e vazio. As pernas estão bambas, a respiração ofegante. Mary tinha certeza absoluta de que não havia sido coisa de sua mente.
– Quem está ai? – Perguntou, engolindo em seco, os pés levando seu corpo para trás, as mãos procurando a parede. Mary não teve resposta alguma, ouviu-se apenas uma risada densa e sonora para logo depois ela conseguir avistar uma sombra a sua frente, escondido na escuridão. Via-se apenas a silhueta de seu rosto, suas vestimentas escuras e garras. Ela se lembrava de ter visto garras, garras e asas. Asas negras como a noite.
O homem começou a caminhar, até que ficou escuro demais para que Mary pudesse vê-lo. Sabia que corria o grande risco de se arrepender cruelmente disso, mas ela o seguiu, os passos cautelosos, as mãos tateando a parede, forçava sua visão na medida que o corredor ficava mais escuro.
– Eu consigo ouvir seu coração. – A voz está lá outra vez, grave e fria. – Você cheira a medo.
– Quem é você? – E novamente ele ri, fazendo-a estremecer.
Mary continua caminhando, o coração palpitando mais forte, à medida que adentrava o corredor. Suspira, quase aliviada, quando avista uma fresta de luz.
Sebastian observa a cena de longe, o sorriso malicioso brincando em seus lábios quando a observa descer as escadas até a sala. Deveria deixá-la ir, não queria, mas deveria, seria muito bom se Sebastian fosse capaz de seguir a razão ou simplesmente capaz de fazer algo que beneficiasse alguém além de si mesmo e naquele momento, Mary infelizmente havia se tornado o seu mais novo brinquedo e Sebastian estava adorando brincar com ela.
Ele saltou para o andar de baixo, a tempo de poder ver Mary no último degrau, as asas negras poderiam com facilidade cobrir todo o corpo da garota quando ele as abriu, pouco antes de chegar ao chão.
Mary não teve tempo de gritar e muito menos de correr, ele estava a sua frente e ela adoraria saber o que era ele, mas tudo o que pode vislumbrar antes da escuridão a tomar pela segunda vez, foram os seus olhos e os lábios levemente curvados em um sorriso. Teve a sensação de que estava caindo em um abismo, quando encarou seus olhos que lhe pareciam dois faróis vermelhos. E para Sebastian, foi como encarar o próprio inferno, ela era um maldito farol que o trazia de volta a vida.
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