Madelyn

3 Lua de sangue


Notas iniciais
Quero agradecer aos leitores que estão gostando da história e que estão comentando. Saber o que vocês pensam é muito importante. AGORA CHEGA DE ENROLAÇÃO. Boa leitura!

Mary corria, os pés tropeçando contra os galhos e troncos de árvores no chão, as lágrimas deixando sua visão turva, quase impossível de enxergar. O peito queimava, a respiração vacilava deixando as pernas bambas, mas o que realmente a consumia, era o medo que, naquele momento, parecia um veneno em suas veias, espalhando-se por seu corpo como uma doença viral. Mary era incapaz de raciocinar, se perguntava como ainda conseguia correr e então um pensamento veio a sua cabeça e ela olhou ao seu redor e então para trás e por fim perguntou a si mesma, do que ela estava com tanto medo e por que estava correndo. A resposta não veio, e era quase como se ela nunca fosse realmente saber, tudo o que ouviu, foi á risada fria e sem emoção que por alguma razão a fez gritar. Gritava, de maneira tão alta que chegou a pensar que os pulmões fossem pular para fora de seu corpo, gritava com força, mas a voz não saia de sua garganta e os pés não saiam do lugar e então ela viu a sobra negra, aproximando-se dela como um grande pássaro, olhando-a e lançando-lhe um sorriso escárnio.

Mary senta-se na cama, os olhos abertos e assustados, olhando ao seu redor e reconhecendo o quarto, as prateleiras repletas de bonecas de porcelana, a pintura leve e fracamente infantil, a mesa ao canto com um notebook piscando a tela e havia aquele aroma, o delicioso e inconfundível perfume dos seus biscoitos favoritos.

– Você acordou, finalmente. Pensei que fosse ficar apagada para sempre. – A garota loira adentra o quarto, sorrindo abertamente e calorosamente para Mary. Seu nome era Camille, tinha perfeitos e longos fios dourados, a pele pálida quase transparente, olhos verdes esmeralda e uma animação de dar inveja a qualquer um. E é claro, era a melhor amiga de Mary. – Eu me recuso a acreditar que a dona Gertrudes não queria me deixar vir aqui ver você, ás vezes eu acho que já passou da hora de alguém colocar essa velha em um sanatório.

Mary riu, a lembrança do sonho sumindo de sua mente. Sentia-se completamente grata por Cami ter vencido a batalha contra Gertrudes dessa vez, tudo o que ela precisava agora era de sua melhor amiga, falante, curiosa e interrogativa.

– Não diga isso perto dela, ou você se meterá em uma bela encrenca. – Cami suspirou e então sorriu, os braços se erguendo na direção da garota que se sentava na cama e se preparava para ser sufocada pelos braços de Camille. – O que aconteceu?

– Não se lembra? Você virou notícia na cidade toda, eles estão te chamando de “a sobrevivente” isso é tão poético. – Camille rola os olhos, sentando-se ao lado da amiga e torcendo o nariz reto e pontudo. – Eles te encontraram desmaiada perto do campo atrás da escola. Dois caras tentaram te assaltar, eles te empurraram, você desmaiou... Eles discutiram e um matou o outro. Pelo menos foi o que a policia disse, mas eu ainda acredito que você tem um anjo da guarda. – Cami pisca para Mary, que rola os olhos e bate na amiga com o travesseiro.

Mary não se lembrava de muita coisa da noite anterior, apenas de ter batido a cabeça e desmaiado. Repentinamente, seu sonho veio a tona, fazendo-a se questionar o porque de ter voltado a ter pesadelos depois de tantos anos. Suspirou, tentando mandá-los de volta para o mar do esquecimento.

– O que há de errado? Eu conheço essa cara, não me diga que...

– Camille, o que falei sobre atormentar sua prima? – A idosa entra no quarto, olhando acusatoriamente para a loira que lhe mostra a língua. — Ah, Mary querida. Como se sente? – A idosa sorri para Mary, mas a mesma apenas encara a bandeja em suas mãos.

– Eu vou melhorar assim que devorar esses biscoitos. – Ela riu e caminhou até as garotas, depositando a bandeja de biscoitos em cima da cama e, logo depois, agarrando a mão da neta. – Estou tão feliz que tenha acordado e que esteja bem... Deus sabe o que poderia ter acontecido com você.

– Estou bem, vovó. E estou prestes a ficar ainda melhor. – Mary sorriu quando pegou um dos biscoitos e o mordeu, mastigando de vagar e fazendo caretas de prazer.

– É por isso que eu digo que você é a neta favorita. – Cami diz, arrancando um sorriso de Mary e uma careta de Gertrudes que não demorou muito a cair na gargalhada junto com as netas.

Mary estava em casa, em seu quarto exageradamente infantil, com sua melhor amiga e sua avó a quem tanto amava. Estava em seu lugar, seu refúgio e ainda sim, era como se não estivesse em lugar algum, era como se estivesse vazia.

●••ზ••●

Mary suspirou quando parou o carro no estacionamento da escola, apesar de estar aliviada por ter voltado ás aulas, não fazia questão alguma de enfrentar os olhares e perguntas das pessoas, principalmente os de seus amigos.

– Mary! Senti tanto sua falta. – Uma ruiva diz dramaticamente, envolvendo Mary em um abraço um tanto quanto apertado.

– Foram apenas dois dias, Judith. – Mary ri, retribuindo o abraço da amiga.

– Para mim foi uma eternidade. – Judith larga a amiga, o olhar curioso. – Não se preocupe em me contar nada, Cami me ligou ontem assim que você pegou no sono.

Mary rola os olhos. “Por que não estou surpresa?” Pensou Mary, ironicamente.

– É claro que ela te ligou, por que Cami iria perder uma oportunidade de falar sobre a minha vida? – As duas riem. – O que exatamente ela contou?

– Ela basicamente passou horas falando sobre seu tal “anjo da guarda” – Judi levanta os dois dedos em sinal de aspas, sorrindo sapeca para a amiga. – Ele existe?

– É claro que não. – Eu não sei. – Quero dizer... eu sinto como se tivesse alguma coisa a mais, entende? Como se não tivesse simplesmente caído e desmaiado... sinto como se precisasse me lembrar de alguma coisa ou...

– Alguém? Por favor, me diga que não é o Leon. – Mary sorriu, dando tapinhas no braço da amiga. – Eu quero dizer... ele não faz o tipo anjo da guarda.

– Isso não tem nada haver com o Leon. Na verdade... – Mary suspira, colocando as mãos no rosto. – Eu acho que só estou...

– Traumatizada. — Não demorou muito para que Camille se juntasse as duas garotas, sua animação enquanto contava as “novidades” para Mary era quase palpável, — E você sabe o que dizem sobre os traumas; você deve deixá-los para trás. Que tal se a gente focar no presente?

– Eu não estou traumatizada. – Mary faz uma careta.

– E eu estou falando sobre o bumbum do novo aluno. – As garotas riem junto a Cami, enquanto a mesma falava sobre o cara misterioso que havia “trombado” no corredor. A verdade, é que ela literalmente se atirou para cima dele. Os olhos brilhavam de entusiasmo, os lábios se moviam rapidamente enquanto disparava as palavras, fazendo Mary se perguntar se ela sabia ao menos sobre o que estava falando. Por mais incrível que pareça, Mary ainda ficava impressionada com a quantidade de energia que Judith e Camille encontravam de manhã.

Os olhos desviram-se da amiga, olhando por cima de seu ombro e avistando ao longe a figura alta, cabelos loiros que cobriam os olhos e o sorriso debochado que em algum momento, faria seu coração pular pela boca. Ela esperou isso acontecer, esperou se sentir boba e esperançosa em relação a Leon Rivers, o garoto que gostava desde o sexto ano, esperava se encher de animação enquanto suas melhores amigas fofocavam sobre coisas que normalmente, lhe interessava. Mas não ouve nada, nenhuma batida mais forte quando Leon passou por ela e, como sempre, disse seu nome em um cumprimento.

Talvez tenha percebido o quão estúpida parecia para Leon, começou a repassar suas tentativas falhas de chamar a atenção do garoto, desde cartas anônimas até namorados fictícios, aquilo tudo lhe parecia tão insignificante, como se tivesse desperdiçado anos de sua vida com algo tão...

– Sorria! – Mary ouviu alguém dizer, para depois uma luz branca e forte quase cegar seus olhos.

– Mas que diabos... – Mary levou as mãos até os olhos, os esfregando.

– Desculpe, eu ainda não sei ajustar essa coisa. – A menina diz, claramente envergonhada. Logo ela sorri e estende a mão. – Meu nome é Melissa Bennet, sou a nova editora do jornal da escola e parece que você é o assunto do momento, se não se importa, eu gostaria de fazer algumas...

– Desculpe, estamos atrasadas e... ela esta traumatizada. – Cami sussurra, fazendo Mary dar uma cotovelada em seu braço. – Ai, doeu. Ok, Mary não pode responder nenhuma pergunta, mas por outro lado...

– Está totalmente atrasada para sua aula de história. – Mary não disse mais nada, apenas puxou as duas amigas e andou para longe da “jornalista”.

Era sobre isso que ela falava. Perguntas e mais perguntas, que obviamente ela não iria responder.

– É como dizem... com grande fama, vem grandes responsabilidades. – Mary tenta ignorar o comentário da amiga, mas não é capaz de evitar sorrir para a mesma.

– Você é impossível, Camille.

– E eu realmente estou atrasada, vejo vocês depois. – Camille corre para dentro de uma das salas.

– Nada de dar entrevistas sem mim. – Judith fala, estreitando os olhos e apontando para a amiga, antes de seguir o mesmo caminho de Cami.

Mary balança a cabeça, sorrindo sozinha ao pensar nas duas amigas. Por mais que ás vezes tivesse uma enorme vontade de enforcá-las, ela nunca, em circunstancia alguma, seria capaz de viver sem elas. Uma porque cresceram juntas, apesar de passar a maior parte de sua infância brigando com Cami, em algum momento entre os treze e quatorze anos, elas se tornaram inseparáveis e outra porque Judith se tornara sua segunda melhor amiga, desde que se mudou para a casa ao lado da sua, há quase dez anos atrás. As três praticamente cresceram juntas, foram a primeira festa juntas, tiveram juntas a primeira festa do pijama e estavam juntas agora, como sempre estiveram.

Mary suspirou quando olhou para seu livro e notou que não havia terminado de ler nem a primeira página, a aula nem havia chegado á metade, ainda faltavam 45 minutos e ela não entendia absolutamente nada do que a Srª. Fitz falava. Algo relacionada ao ponto Y da matriz.

Sua mente viajou para seu sonho, novamente ela se perguntava o porquê de ter tido aquele sonho, tanto tempo já havia se passado desde que... Não, ela não ia de forma alguma pensar nisso, ela deveria viver no presente, que era menos doloroso e milhões de vezes, mais fácil.

Sentiu um calafrio percorrer sua espinha, a mesma sensação ruim que se lembrava de ter tido no sonho. Olhou ao seu redor, notando que sua aula já havia terminado, o que ela achou estranho já que ela mal se lembrava o que tinha acontecido na aula.

Preciso prestar mais atenção. Pensou Mary, soltando um longo suspiro e se levantando, recolhendo os livros e caminhando para fora da sala.

O corredor estava vazio, frio e escuro. Mary teve a sensação de que já estivera em um lugar assim. Sentiu os pelos da nuca se eriçarem, passou a mão pelos braços tentando espantar o frio. Estava paralisada, por alguma razão, Mary não conseguia caminhar adiante, não conseguia voltar ou simplesmente gritar por alguém, a sensação de que algo estava errado, de que precisava urgentemente se lembrar de algo não a deixava. Era quase como se ela soubesse o que iria acontecer se caso ela decidisse caminhar.

Mary respirou fundo, abaixou a cabeça e balançou a mesma negativamente, dando um riso nervoso.

– Estou ficando paranóica. – Sussurrou para ela mesma, enquanto ajeitava sua bolsa no ombro. Começou a caminhar pelo corredor da escola, pensando que talvez tenha pegado no sono e acabou sendo deixada para trás.

Madelyn.

Mary diminui os passos, pensando ter ouvido algo. A garota olha para trás, tendo de forçar a vista para tentar enxergar algo, já que o corredor parecia ter ficado mais escuro. A garota se assusta, quando pensa ter visto a sombra de um homem. Estava assustada, apavorada, Mary não pensou em mais nada antes de começar a correr, procurando pela saída, ficando mais assustada á medida em que percebia que o corredor não acabava.

– Não se esqueça de apagar as luzes. – A voz de seus sonhos, os olhos que para Mary, representavam a morte. Era tudo o que ela podia ver, os olhos.

Mary tentou voltar para trás, mas estava encurralada contra uma parede, enquanto a risada sádica se aproximava, ela podia ouvir seus gritos desesperados, as mãos socando as paredes ao seu lado, tentando de alguma maneira escapar. De repente, ela sentiu o frio ao seu redor, o corpo quase colado ao seu, o hálito gelado batendo contra seu rosto. Sentiu uma mão tão fria quanto o gelo lhe acariciando a face, e então ela viu presas enormes vindo em sua direção e asas enormes cobrindo seu corpo.

– Mary. – A garota abre os olhos, encontrando o olhar preocupado de Camille, que a sacudia pelos ombros.

Estava encostada em um dos armários, o corpo todo parecia entrar em combustão, as pernas bambas e ela sem conseguir explicar o que havia acontecido. Tudo o que pode fazer foi jogar os braços ao redor de Cami, a abraçando e chorando da mesma maneira desesperada que uma criança com medo de palhaço choraria. Estava assustada e vulnerável, sentia-se tão longe de sua casa, tão longe de encontrar o caminho de volta... tão perdida.

Os soluços escapavam de seus lábios, junto á pedidos de desculpas que, por alguma razão, ela sentia que precisava pedir. Sentia-se sufocar, como se estivesse inalando fumaça, seu peito ardia, sua visão estava embaçada. Ela não queria se lembrar, mas ela ainda sentia o calor e ela ainda ouvia os gritos, ela apenas não queria mais ter que continuar vivendo um único dia, pelo resto de sua vida.

Sebastian a observava de longe, o cabelo negro que quase lhe cobria os olhos, tão claros e azuis como o céu, os lábios cerrados em uma linha reta, seus ombros eram largos e sua postura era firme, vestia preto dos pés á cabeça, parecia assustador enquanto lançava um olhar gélido na direção de Mary, presenciando sua alma se rachando, apreciando seu desespero. Ele gostava daquela sensação, gostava de não ser o único com uma rachadura. Ele também gostava do efeito absurdo que suas lágrimas causavam nele, não era prazer ou satisfação, era... era algo quase humano.

Apertou os olhos, fechando as mãos em punhos. Ele queria matá-la a cada vez que tinha esses pensamentos. Ele não era humano, ele não queria ser, não queria ser fraco e dependente ele não era tolo ou estúpido demais a ponto de querer ter sentimentos. Ele apenas queria rasgar sua garganta e ver a vida deixar seus olhos, mas parecia ser uma maldição, ele também gostava de seus olhos.

– Não! – Ele diz para si mesmo, estava com raiva, estava faminto e estava com raiva de si mesmo.

Sebastian estava pronto para saciar-se com uma garota jovem, descontar nela toda a raiva que sentia de si mesmo e então, jogá-la em algum buraco. Era tudo o que ele queria, mas seus olhos se fixaram no garoto do outro lado da rua, ele também olhava para Sebastian, como se soubesse o que ele era de verdade.



A garota apertou a xícara de chá entre suas mãos, para logo depois levá-la até seus lábios e por fim, sentir o líquido quente escorregar por sua garganta, fazendo-a sentir-se aquecida por dentro. Encarava fixamente um porta retratos, que estava acima de uma mesa de centro a poucos metros de distância. Queria esticar sua mão e pegá-lo, mas se quebrava em milhões de pedaços só de olhar para ele.

– Se sente melhor? – Gertrudes senta-se ao lado da neta, lançando-lhe um sorriso acolhedor. Mary encarou a senhora com os cabelos grisalhos e o rosto iluminado de alegria, balançou a cabeça confirmando, tentando forçar um sorriso. Mary não queria chorar na frente dela, não seria justo, mas ela estava tão exausta. — Vamos querida... conte-me tudo o que está passando nessa cabeçinha. – Gertrudes puxa Mary para seu colo, acariciando os fios negros de sua cabeça.

– Eu sinto tanta saudade deles, vovó. – E novamente ela se deixou levar por aquele sentimento angustiante, por toda a dor.

– Todos nós sentimos, Mary.

– Eu quero tanto ir para a casa. – Confessou, sentindo o peito se apertar ao se lembrar que não poderia voltar.

– Você está em casa, Mary. Você está em casa. – Mary se sentiu segura quando Gertrudes a abraçou, da mesma forma que sua mãe teria feito se estivesse ali. Essa era a única forma de Mary se sentir em casa, era quando estava segura nos braços de sua avó.

Notas finais
Mary tá cheia dos mistérios. SEBASTIAN GOSTOSO, VENHAK PRA EU PODER LHE USAR. Eita homem.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.