Made to Suffer
8 Capítulo 8: Tempo de recomeços.
Notas iniciais
ANGIE GRENNE.
Eu não sabia quanto valia um abraço até estar envolvida nos braços de meu pai. Parecia que todas minhas dores, todos os meus medos e todos os meus monstros viraram pequenos problemas. Antes eu sentia como se estivesse em um grande precipício, sem ninguém para me segurar. Ninguém que se importasse ou que percebesse.
O rosto de Hershel poderia estar diferente, mas não o deixava irreconhecível. O rosto juvenil, com uma barba ralha, cabelos castanhos razoavelmente ondulados e olhos azuis, agora estavam bem gastos. Havia rugas em todo seu rosto, os cabelos eram grandes e brancos e a barba havia crescido muito. O abraço foi bem duradouro, eu queria curar todos os anos perdidos, sentindo sua falta.
Não sei como, mas já estávamos dentro da prisão. Era uma enorme sala com grandes estantes de ferro e panelas. Algumas mesas de cimento e as paredes frias em cinzas davam o aspecto de alguma cozinha ou mini refeitório. O número de pessoas curiosas diante de mim não era grande, mas o bastante para me deixar desconfortável.
Por algum motivo, dentre todas as pessoas, eu procurava por Maggie. Era estranho, pois em um momento ela estava diante de mim e agora ela desapareceu. Queria pensar que ela não está me evitando, mas as circunstâncias me levam a crê nisso.
— Acho que você nos deve uma boa explicação — uma mulher cobrou. Ela não devia passar dos 30 anos, cabelos presos e pele bem negra. Suas roupas estavam bem limpas e em suas mãos uma chave de cabra estava marcada por sangue.
— Angelina... — meu pai a ignorou, virando-se para mim e sorrindo. — Acompanhe Beth. Ela cuidará de seus machucados e arranhões. Eu cuido deles!
Eu apenas assenti e no mesmo momento, uma garota loira deu um passo à frente. Eu a segui por um corredor cheio de celas e lençóis em cada porta. A semelhança entre Beth e meu pai eram visíveis.
Nós paramos na última cela do corredor inferior. Beth limpava meus ferimentos apenas com algodões e álcool, porém isso não evitava a ardência. Seus grandes globos azuis eram cheios de vida, seu rosto era fino e pálido, mas não escondia sua beleza.
— Se quiser que eu pare é só me avisar — ela pronunciou baixo sem encarar-me nos olhos.
— Tudo bem, pode continuar — eu pedi após gemer com a ardência.
— Veja esses inúmeros arranhões e cortes! Você estava brincado na mata ou algo do tipo? — estranhei a forma como me tratava. Parecia que me conhecia há anos ou só estava tentando ser gentil.
Eu não tinha forma para respondê-la, sabia que, por mais que me esforçasse, sairia algo rude. Senti mais confortável em retribuía com um mero sorriso, um fino e especo. Não era uma das melhores formas, mas naquele momento, parecia o mais aberto que consegui chegar.
— E vejas suas roupas sujas... há quanto tempo não toma um banho? — ela ignorou ou tomou o sorriso para prosseguir com seu espanto.
A roupa realmente estava suja. A calça jeans, que um dia chegava ao branco, estava tremendamente cinza. A jaqueta azul estava mais rasgada do que inteira e manchadas em alguns pontos – por sangue e terra -. A última vez que água limpa se encontrou com meu corpo foram momentos antes de matar Scott. Abigail deixou uma bacia com água morna para eu me banhar antes de prossegui com minha vingança.
Beth ainda me fitava confusa quando a olhei. Ela havia parado, por algum motivo desconhecido, de limpar meus machucados e passou a me encarar. Sua sobrancelha esquerda mantinha-se erguida em prol da sua curiosidade inocente.
— Você não vai falar nada? — perguntei de cenho franzido.
— Ah, de desculpe — ela pareceu voltar-se para si e, com uma forma desastrada, retirou a bacia com os algodões de seu colo e levantou-se. — Eu estava admirando-a. — admitiu envergonhada.
— Não tenho coisas admiráveis.
— É o que você pensa — ela voltou a sentar sobre o banco parado diante da cama, assim, diante de mim. — Ainda bem que esses cortes são superficiais, basta apenas alguns curativos.
Ela deixava sua palavra pelo ar tenso daquela cena, mordiscando o lábio inferior enquanto colocava suas mãos quentes sobre meu rosto e cobria meu corte com um curativo. Assim que este ficou preso a minha pele, ela voltou o corpo para trás e sorriu.
— Aguarde! Eu venho logo — falou antes de desaparecer pela prisão.
A cela era bem arrumada, não retratava de maneira alguma aquilo que as TVs descreviam. Havia sim paredes sujas, camas de ferro gastos e colchões desconfortáveis, porém, a cômoda repleta de livros, flores e objetos inúteis dava um ar adorável.
Agora com o silêncio, exceto pelo murmúrio que vinha lá de fora, eu poderia ao menos expelir tudo o que aconteceu. Foram turbilhões de acontecimentos que não me deixaram respirar. A morte do meu bebê foi o baque que desencadeou essa confusão sentimental, por algum motivo, eu já não o sentia mais vivo dentro de mim, como em outros tempos. Essa com certeza era a confirmação do meu aborto espontâneo. Eu também pude confirmar que conheci o próprio lobo na pele de um cordeiro.
O encontro com Willie Jack só me deram a garantira de que Scott não retirou a única coisa boa que restou dentro de mim: a compaixão. Ao encarar os olhos do rapaz, eu pude ver o quão assustado ele estava, aquilo mexeu comigo. Eu precisava salvá-lo mesmo que para mim não houvesse cura. E o encontro com Shawn arrancou de mim todas as forças e energias para pensar.
A transe me trouxe a realidade e eu ainda continuara sozinha naquela cela. Sobre a cômoda havia uma mamadeira com leite até a metade. Ao tocar nela, pude sentir o liquido ainda morto. ‘’Como poderia existir um bebê ali?’’ um lugar tão asqueroso como este, certamente, manteria a mãe e um bebê a salvo de zumbis, mas a pergunta era: como essa mãe conseguira sobreviver sem os devidos recursos?
— Mika esqueceu a mamadeira novamente — levei a mão sobre o coração ao ouvir a voz de Beth. Ele me pegara desprevenida enquanto ainda encarava a mamadeira de bico rosa. — Desculpe-me se te assustei... — ela escondeu o riso.
— Não foi nada — deixei a mamadeira sobre a cômoda e voltei a sentar sobre a cama.
Beth trazia um balde cheio d’água e toalhas espalhadas pelo ombro. Parecia bem difícil carregar aquelas coisas, pois no exato momento em que ela deixou o balde no chão, emitiu um suspiro alto de alivio. Ela sentou ao meu lado, molhando o primeiro pano na água, ela tentou passar em mim, mas eu me afastei, segurando sua mão.
— Posso deixar que eu mesma faço isso — disse exibindo um sorriso bem amigável para que ela não se ofendesse.
Beth se retraiu, mas não deixou de sorrir. Tomei de suas mãos o pano molhado e comecei a passar sobre meus braços. De inicio, a terra manchou o pano e uma única gota fez um percurso de meu braço até o chão. Beth se levantou e novamente, caminhou em direção à porta.
— Beth! — a chamei e ela virou rapidamente para trás. Estava bem retraída, com aquela cena não pude deixa-la de olha-la com compaixão e sorrir novamente. — Você pode me fazer companhia.
— Será que enquanto você se limpa posso enchê-la de perguntas? — ela sentou sorrindo ao meu lado.
— Eu estou extremamente cansada, mas tentarei respondê-la.
Beth me encheu de perguntas bem razoáveis. Confesso que ao ouvir sua pergunta, imaginei-a me perguntando novamente sobre os arranhões e de como eu sobrevivera até aqui. Esse não era o assunto que eu gostaria de relembrar ou cogitar a falar. Eu sei que não esqueceria aquilo tão cedo, mas lembrar-me dos momentos terríveis que passei só vai piorar minha condição.
— Será que eu tenho uma vez aí? — Hershel perguntou encostado na batente da porta com o corpo acomodado sobre as muletas. Seu sorriso emendava os cantos do rosto. Ele não deixava de exibir o quão feliz estava.
— Eu já acabei — falei. Havia terminado de passar a última toalha em meu corpo há muito tempo.
— Vou deixar vocês conversarem um pouco — Beth levou consigo o balde e os panos ensopados.
Meu pai caminhou até a cama, ajeitando suas muletas de lado e se acomodando ao meu lado. Meu coração não deixava de saltar em meu peito quando eu estava em sua presença, o que percorria – e transmitia – para todo meu corpo, um sorriso se abria em meus lábios, minhas mãos ficavam soadas e de alguma forma as coisas pareciam leves.
Ele colocou suas mãos grandes e quentes sobre as minhas finas e modeladas, bateu uma nas outras e sorriu ao me encarar novamente, era notável como ele ficaria admirado com minha presença.
— Eu não a vejo há tanto tempo que, se nos encontrássemos por aí, eu não a reconheceria.
— Não minta para mim! Shawn me contou que você guarda todas as fotos de todas as minhas fases com você — sorri.
— Parece que você e seu irmão tiveram uma longa conversa desde que se encontraram.
— Foi algo... algo razoável, eu diria — mordiquei o lábio olhando para o lado.
— Certo; certo... mas não estamos aqui para falarmos de você e seus irmãos — por mais que eu tentasse me esquivar ou me enganar, eu sabia qual era o assunto .E isso me assombrava, provocava arrepios na minha espinha e apaga o sorriso em meus lábios. — Como sobreviveu durante todo esse tempo?
Meu coração parecia ter acabado de levar um soco duro. Meu corpo todo congelou e minhas mãos passaram a soar frias, eu não sabia como respondê-lo, tentava encontrar palavras dentro de mim, eu não tinha reação nenhuma. Eu fitava-o assustada e temerosa.
— Não vou dizer tudo, mas, houve momentos horríveis. — as palavras não pareciam lhe convencer, todavia, ele sorriu e apertou minhas mãos à suas.
— Mas isso vai acabar. E você vai voltar a se iluminar, eu tenho certeza — ele ergueu minha cabeça com as costas da mão e sorriu. — Você vai começar uma nova vida.
— Eu tenho certeza disso.
— Mas precisa esquecer o que tanto te atormenta.
E parecia que ele me decifrou ali mesmo. Seus olhos azuis exibiam a mais pura gentileza e forma de amor que encontrei depois que tudo que passou. Não consegui segurar as lágrimas que, depois de uma longa batalha, conseguiram molhar as maças de meu rosto.
Ele me tomou pelos braços e me abraçou novamente. E parecia que nós convivemos juntos há anos, que nada aconteceu; que ninguém ficou sem se falar e acima de tudo, que não houve lá no fundo um ressentimento. Eu me sentia tão bem em seu abraço.
— Agora — ele afastou sua cabeça, mas ainda continuou próximo de mim. — Você tem que me acompanhar.
Nós andamos por corredores frios e com falta de iluminação até chegarmos ao pátio. Nele, havia um aglomerado de pessoas com expressões bem tristonhas. Eu estava prestes a perguntar ao meu pai o que estava acontecendo quando vi as sepulturas bem simples. Não precisava ser esperto para saber que estava rolando um enterro ali.
— Fique aqui — Hershel falou retirando as mãos do meu ombro, parando diante de todos.
Um dos homens ao seu lado entregou-lhe uma bíblia e ele, abrindo-a no livro de Salmos começou a recitar alguns versículos. Ele sempre foi um homem religioso e não me espanta vê-lo pregar um velório. A única coisa que me deixava confusa era a falta de um cadáver ali. Para um velório era necessário ao menos um morto.
Suspirei de alivio ao ver Willie e Jack ao meu lado, depois que entramos na prisão não os vi, temia em saber se os dois estavam bem, mas bastava ver o novo curativo no braço de Jack para confirmar que ambos foram bem tratados.
— Sabe quem morreu? — perguntei no tom mais baixo que consegui.
— Pelo o que ouvi, uma mãe deu a vida para salvar sua filha — Jack me contou entre os lábios.
Eu abaixei minha cabeça terminando em silêncio de ouvir a oração de meu pai. Esse não era um mundo para crianças, elas não mereciam viver aqui, mas acima de tudo, qualquer mãe daria sua vida para salvar sua criança. Senti um pouco de remorso e dor ao ouvir as palavras de Jack.
O velório acabou com um abafado e remoto ‘’amém’’ proferido por todos. Aos poucos todos foram se dispersando exceto por um garotinho tristonho com um chapéu em suas casas. Seu rosto estava cabisbaixo, impossibilitando minha visão. Eu tentei me aproximar, mas no mesmo momento em que dei um passo, fui surpreendida pela mulher negra que fez a pergunta – tanto inconveniente a meu pai.
— Angelina, será que pode me acompanhar? — ela perguntou calma, mas ainda sim, muito séria.
Um bom número do que estavam no enterro estavam dentro da sala que acabamos de entrar. Ela não era muito grande e nem desajeitada. Havia três mesas de escritórios dividindo espaço com estantes grandes com caixas medias. Uma enorme mesa de madeira oval bem no centro da sala. Havia algumas pessoas sentadas outras em pé, encostada sobre as estantes também de madeira.
— A prisão é um lugar para sobrevivência. Aceitamos qualquer tipo de pessoa, desde que essa se prove confiável — o arqueiro, talvez o mais afastado de todos, começou de forma informal se aproximando. Ele carregava uma besta sobre os ombros, um olhar incomodado e muito, muito sério. — Você tem de responder apenas três perguntas.
Mesmo intrigada e bem, mas muito mesmo, intimidada encarei os olhares curiosos que se dirigiam a mim.
— Pode fazê-las. — balancei a cabeça em confirmação.
— Quantos zumbis você já matou? — o rapaz asiático, sentado à minha frente perguntou.
— Não foram muitos.
— Quantas pessoas você já matou?
No exato momento senti meus pulmões trabalharem mais rápido, mas meu peito não saltava freneticamente. Pelo contrário, estava bem calmo. Minhas sobrancelhas se sobressaltaram.
— Uma.
— Por quê?
— Eu... estava me defendendo.
Eles se entreolharem, todos estavam sentados à mesa bem intrigados. O clima abafado da sala se tornou inda pior, eu não sabia se deveria encara-los, via a porta a aberta e queria sair por ali e deixa-los a sós. Mas não sabia o que deveria fazer.
— Você pode sair, está liberada. Em breve daremos a resposta — a mulher de cabelos curtos e grisalhos assegurou sorrindo. Ela era bem menos desconfortável do que os outros.
Eu me retirei, acreditando que ficaria sozinha, mas assim que sai, Shawn estava apoiado de braços cruzados contra a parede. Ele ergueu a cabeça quando viu meu vulto caminhar em sua direção. Nós sorrimos e ele desmanchou toda a pose.
— Foi difícil? — perguntou, referindo-se as perguntas.
— É constrangedor, intimidante — respondi rindo fraco.
— É o que todos dizem, e olha; que já aceitamos muita gente — ele brincou e nós dois começamos a caminhar. O clima com Shawn poderia ser tenso, mas era bem mais agradável. — Hershel faz parte do conselho, mas preferiram deixa-lo de fora. Ele poderia interferir.
— Conselho? — franzi a sobrancelha e o encarei.
— É o grupo responsável por todos na prisão. Quem entra, quem vai em rondas, quem fica sobre os comandos das áreas. — ele sorriu leve e ficou em silêncio.
Acabei ficando em silêncio também a ponto de conseguirmos ouvir nossas respirações.
— Angelina? — o rapaz asiático corria até minha direção. — Nós a aceitamos. Vamos procurar por roupas a você, mas... as de Maggie pode servir em você.
— Ah... Claro! Muito obrigada! Aliás... vocês a viram em algum lugar?
— Ela... ela está um pouco ocupada — ele respondeu olhando para meu irmão e depois sim, me encarando. — Eu vou atrás de suas roupas.
Ele saiu tão apressado quanto chegou. Eu não entendia bem o motivo da tanta indiferença, pareciam esconder alguma coisa.
— Vou mostrar a você seu quarto — Shawn falou.
Todas as celas eram bem simples e organizadas. Fiquei feliz ao saber que os rapazes também foram aceitos e Willie convidado a trabalhar nas grades logo de cara. Eu estava feliz em saber que nós encontramos um lugar para sobrevivermos e a prisão, aparentava ser bem segura.
Eu estava sozinha no que dizia ser meu quarto. Havia o mesmo beliche como em todas as celas e uma cômoda simples. O rapaz asiático – que descobri ser Glenn e, meu cunhado — entregou-me algumas roupas. Elas não ocuparam muito lugar na cômoda, mas já me serviam de alguma coisa. Para um recomeço, estava ótimo, mas estar sozinha me fazia relembrar de tudo que aconteceu.
— Angie? — Beth entrou em minha cela e sentou ao meu lado. — Estou feliz por ganhar uma nova irmã. Você não quer conhecer a prisão?
— Vamos.
Eu estava extremamente cansada, mas preferi acompanha-la. Beth estava animada, mostrando-me cada lugar da prisão, havia crianças correndo por todos os corredores, pessoas passavam por nós e davam leves acenos de cabeças. Existiam corredores pavorosos e outros bem iluminados alguns tinham até desenhos de crianças pregados nas paredes.
Quando voltamos ao pátio, o enterro parecia nunca ter acontecido. As pessoas voltavam a seus afazeres sem o mesmo clima de enterro, várias delas sorriam e riam estridentes. Eu me perguntava se era falta de consideração ou se todos estavam acostumados com a morte.
Pude ver Willie trabalhando nas grades ao lado de Maggie. Nossos olhares se cruzaram e em segundos, estávamos uma diante da outra. Maggie mudou fisicamente, mas não deixava de manter seus cabelos curtos e seu olhar sério. Ela havia se tornado uma mulher, muito bonita por sinal. Mas ela estava diferente. Parecia não estar feliz com minha presença.
— Eu... não consigo acreditar. Você está viva, é inacreditável — proferi, praticamente silabando.
— Por quê? — ela perguntou, mas eu não pude responder. Não entenda tamanha indignação. — Por que não nos procurou durante todos esses anos? -Por que não se juntou a nós quando o apocalipse começou?
— Maggie, eu...
— Porque você preferia sobreviver sozinha, lógico. Manter-se afastado da família que só a desprezou. Você... você é uma idiota!
— Mag; não fale assim com ela! — Beth gritou encarando-nos perplexas

— Não se intrometa Beth! — ela se enfureceu. — Não estou dizendo que não a quero aqui, mas... não procure falar comigo! Se você sempre quis se afastar de nós, que se afaste! Eu não me importo.
Maggie jogou sobre mim toda uma raiva desconhecida. Eu não a entendia, não entendia seus motivos e acima de tudo, como pode retirar palavras tão ardilosas da minha boca? Pude vê-la se afastar entre passos firmes e brutos. Todavia, eu continuava no mesmo lugar, tentando processar toda aquela raiva.
— Eu... ela está...
— Vamos continuar a conhecer a prisão? — me virei para ela exibindo um sorriso.
Mesmo querendo parecer forte eu não conseguia emitir um sorriso tão aberto quanto os outros. As palavras de Maggie me destruíram, era muito ressentimento guardado e acima de tudo, ressentimento sem causa. Eu não os rejeitava ou desprezava, jamais faria isso. Jamais cometeria uma crueldade com uma parte de mim.
Estávamos sentadas na biblioteca vazia. Havíamos conhecido todos os cantos da prisão, muitas pessoas passaram por nós intrigados. Beth foi uma boa companhia naquela tarde, a conversa entre nós já não era tão informal quanto antes. Ela estava sentada ao meu lado, tentando acalmar a pequena chorona em seus braços. Durante o tempo que estivemos a conhecer a prisão, fui apresentada a bravinha e também a sua história.
— Você pode segurá-la enquanto vou buscar sua mamadeira? — Beth perguntou oferecendo-me a pequena.
Vi Beth se afastar e suspirei pesado por ficar novamente sozinha. Nem tão sozinha assim, a pequena ainda chorava e se esperneava em meus braços. As maçãs de seu rosto estavam bem vermelhas com o tanto de choro que derramava.
Meus passos se misturavam com o choro da pequena enquanto eu a embalava em meus braços. Era tão linda que fazia com que eu lembrasse do meu bebê. Era realmente difícil continuar a nina-la com a solidão que me dominava, mas eu continuei. Ela estava faminta e Beth começava a se atrasar um pouco. Algumas músicas antigas que minha mãe cantava para mim saiam da minha boca, na tentativa falha em acalma-la.
— Eu sei que você está com fome... — comecei a conversar com ela quando seu choro já era irritante e minhas músicas acabaram todas. — Ela já vem com sua mamadeira, você vai poder se acalmar e tomar seu leite morno, provavelmente... por favor; não chore! Você precisa economizar essas forças que tem no pulmão.
Finalmente a garotinha se acalmou com o som da minha voz. Ela só queria um pouco de atenção ou alguém conversando com ela. Eu continuei a conversar com ela durante um bom tempo, até me assegurar de quê ela não voltaria a chorar nem tão cedo.
Ela finalmente parara de chorar e pegara no sono, mas mesmo assim continuei a segurando e sussurrando coisas para ela, algo nela fazia com que eu quisesse tê-la por perto sempre. Enquanto a ninava, vi algo preto passar pelo outro lado da biblioteca e dei um pulo, sobressaltada. A menina remexeu-se nos meus braços, mas continuou dormindo.
Ouvi passos pelo quarto e virei-me rapidamente, um homem estava parado atrás de mim. Ele era alto, cabelos castanhos e olhos azuis, com barba por fazer e parecia exausto, me encarando com o cenho franzido. Dei alguns passos para trás, um pouco assustada e constrangida, eu não sabia quem ele era, portanto era para gritar, mas algo nele me constrangia
— Desculpe-me — pediu risonho, estendendo sua mão. — Rick Grimes.
— Angelina — retribui o aperto de mão. — Eu... sinto muito pela morte de sua mulher. Deve ser uma pena enorme.
Beth me contou sobre a mulher que foi simbolicamente enterrada, sobre os filhos que deixou e, principalmente, sobre o marido. Rick era o líder do grupo que decidira manter-se afastado, tentando cuidar diretamente dos filhos e da perda que acabara de sofrer.
— Ah, me desculpe-me — exaltei envergonhada tratando rapidamente de colocar a criança em seu colo. — Beth foi buscar sua mamadeira, mas eu acho que ela já cansou de esperar.
— Diga a ela que estarei esperando no pátio.
Assenti vendo-o se afastar aos poucos. Ele carregava a filha de forma cautelosa, parecia ter medo de acorda-la e acima de tudo, quebra-la. Era engraçada a cena.
— Angelina? — ele falou virando-se para mim e eu, apenas ergui a cabeça para encara-lo. — É tempo de recomeços; para todos nós!
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