Made to Suffer
13 Capítulo 13: Entre Grimes.
Notas iniciais
O outono chegara mais cedo que imaginávamos. Os ventos fortes que se alastravam por toda a prisão acabaram prejudicando um pouco a plantação de milho feita por papai, já que o estagio era o primeiro, sendo assim, um pouco mais critico por ainda ser inseguro. Por sorte, tínhamos uma dispensa lotada que aguentaria até o inicio da próxima estação.
Com a mudança de tempo, as coisas aqui mudaram também. O número de buscas caiu, o que tornou mais rígida as saídas. Dividiram em três turnos as pessoas que tomavam conta das grades além de diminuírem o número de rondas pelos arredores da prisão.
Michonne voltara de sua busca e se estabilizara aqui. Eu nunca descobri qual era o motivo que levava a dona das katanas sair da prisão e voltar três dias, ou até uma semana depois. Agora ela estava mais firme em seu cargo no conselho, além de ajudar Willie nos assuntos pendentes sobre as guardas da prisão.
Eu estava no pátio, assim como os demais. Glenn e Daryl estavam saindo para mais uma ronda em busca de sobreviventes. Eu observava minha irmã se despedir do namorado enquanto Daryl arrumava alguma coisa na parte traseira da caminhonete.
— Como está o dia? — Shawn apareceu, oferecendo um pouco de chá no que antes era um enlatado de feijão. — Está livre hoje?
— Eu estou livre todos os dias — respondi. Os moradores daqui eram incríveis em relação à saúde, pouco se via alguém ficando doente.
— Eu queria treinar com você.
Meu irmão estava me ensinando a atirar. Achei que esse era o melhor momento para que eu soubesse me defender do mundo lá fora. Shawn era um bom instrutor, mas era péssimo quando se pedia paciência, em diversas vezes nossos treinamentos acabaram em discussões. Ouvir isso me fez torcer o nariz um pouco, eu não estava nem um pouco a fim de acabar discutindo com meu irmão novamente.
— Podemos deixar para outro dia?
— É você quem manda! — ele falou se afastando. — Eu ia me esquecendo... — colocando a mão no casaco, Shawn tirou de lá uma arma pequena. — Pega aí!
Agradeci com um sorriso. Era um grande passo ganhar uma arma, já que quando iniciamos o treinamento meu irmão deixa bem claro que não é todos que vão possuir uma arma. Shawn era sério e muito exigente com todos que treinava e dar uma arma a alguém significava que ele realmente acreditava na capacidade daquela pessoa.
Guardei a arma por baixo da minha camiseta e tornei a observar a caminhonete, desta vez, se afastando cada vez mais da prisão. Minha irmã lançou um sorriso quando passou por mim e retornou a torre.
— Angie?
Carl se aproximava com seu inseparável chapéu. Ele vir me chamar não me estranhava nada, afinal, tínhamos um assunto importante a tratar.
— Carl... que surpresa! — ironizei e ele sorriu. — Aposto que é sobre aquele mesmo assunto que você vem me atormentando a semanas.
— Sim, sobre o nosso jogo de xadrez. Hershel disse que você estaria livre e eu achei que poderíamos jogar agora!
— Mas tínhamos um trato, não tínhamos? Você cumpriu?
— Eu me enturmei com as crianças daqui, eu prometo! Pode perguntar a Patrick ou Lizzie. Eu até a deixei cuidando de minha irmã.
Precisei me controlar para não rir vendo a insistência de Carl em tentar me convencer, apesar de ele não precisar. Depois da conversa que tive com Rick, achei que seria bom fazer seu filho voltar a interagir e ser uma criança então o propôs um trato. Ele teria nossa revanche se conversasse e brincasse com algumas crianças daqui.
Eu não sabia se era um pedido muito abusivo, mas Carl o aceitou extremamente bem e se esforçou para fazê-lo.
— Então acho melhor irmos. Aposto que foi um grande sacrifício deixar outro alguém cuidando de Judith se não Beth. — brinquei.
Fomos até a biblioteca e assim que chegamos, Lizzie se despediu. A mesa onde o jogo de tabuleiro se encontrava já estava preparada. Judith estava em um berço improvisado e foi quase impossível não sorri quando a vi. Carl sentou diante de mim terminando de arrumar algumas peças.
— Pronto para perder? — questionei.
— Só pode estar me zoando! Eu vou ganhar mais uma vez.
— Você acha?! É o que veremos— falei rindo.

Carl realmente estava animado. Quando iniciamos o jogo, ele analisava todos os movimentos sem deixar de observar cada jogada que eu fazia. Nunca pensei que um jogo o deixaria tão entusiasmado.
— Sabe a coisa mais legal do xadrez? — eu questionei e o garoto fez menção de levantar apenas o olhar. — É como uma guerra de grandes reinos. O jogo não é apenas o mover de peças, é algo mais... ambicioso, já ouviu falar?
— Para mim é apenas um jogo e você está em desconcentrando. — ele respondeu.
— Então tudo bem, eu não digo mais nada... — ergui as mãos em sinônimo de redenção.
Nossas jogadas eram silenciosas. Eu me perdia em observar o garoto tão atento a tudo em nossa volta. O silêncio raramente era quebrado por algum gemido de Judith, muito deles eram apenas de tédio. A filha de Rick estava crescendo bem e ficando cada vez mais esperta e curiosa com o mundo a sua volta.
— Alguém está bem nervoso aqui — falei quando, em um movimento, Carl deixou suas peças caírem.
— Eu não estou nervoso! — rebateu firme. — Eu sei que vou ganhar.
— Não vá com tanta sede ao pódio, Carl Grimes.
— Eu sou muito bom no xadrez, minha mãe me ensinava quando meu pai me colocava de castigo. — ele contou.
— Sua mãe parecia ser uma mulher legal...
— E ela era, mas... — suspirou pesado e de repente, toda aquela animação infantil se foi. Agora, era o garoto frio me encarando. — fez coisas erradas que acabaram com ela e com pai.
O silêncio se instalou sobre o jogo. Eu olhei para Judith. A imagem angelical da menina me fez pensar no que Carl acabara de falar. Ela não poderia ser esse erro, Judith é como uma nova esperança para todos que sobrevivem no meio disso.
— Você nunca pensou que, talvez, sua mãe tenha feito o certo? — questionei, voltando meu olhar para ele.
— Judith foi à coisa mais certa que ela fez — ele contou. —A verdade foi que minha mãe era fraca e fez coisas erradas que acabaram afastando-a de meu pai.
Eu fiquei a encarar a imagem de Carl. Não sabia como reagir depois do que ele me falara.
— É a sua vez!
A voz dele me fez voltar a realidade e, balançando a cabeça, movi meu cavalo, capturando o bispo de Carl. A reação do garoto foi inevitável. Ele fechou a mão direita, mordeu o lábio inferior enquanto grunhiu baixinho. O filho de Rick lançou um olhar enraivecido e retomou toda sua atenção para o tabuleiro.
Carl conseguiu mover sua torre e derrubou meu cavalo. Com isso, ele conseguiu deixar um caminho livre para que sua torre se aproximasse de minha rainha. O jogo parecia estar virando – mais uma vez – para ele e agora aquilo virava uma questão de honra. Eu não poderia perder duas vezes para um garoto.
Olhando para as minhas outras peças que Carl já conseguira capturar, consegui trazer estabilidade para o jogo. Meu rei estava protegido pelo cavalo restante e também pelo último bispo. O choro de Judith interrompeu o movimento de Carl, fazendo-o pegá-la no colo. Ela estava muito inquieta e todas as tentativas que ele tentou foram em vão.
— Ande, deixa-a comigo. — Carl parecia receoso em entregar sua irmã, mas o choro da pequena já estava estridente o suficiente para fazê-lo mudar de ideia. — Às vezes é cólica... a única coisa que precisamos fazer é dar carinho.
— Carinho?! Como conseguimos dar carinho para uma criança que só sabe chorar alto?
— Não é tão difícil como você pensa que é. Basta fazer uma massagem simples. — falei e Carl me observava atento. Comecei a acariciar sua barriga com movimentos circulares. Aos poucos, Judith diminuía seu choro, mas ainda sim parecia gemer de dor.
— Você é muito boa com isso!
— Na verdade, eu passava tempo demais assistindo a Discovery Home & Health!
Várias peças já haviam sido capturadas durante o jogo, estávamos em um momento crucial e a única coisa que eu desejava era que ele acabasse logo, não importava quem ganhasse.
Judith segurava o cavalo capturado de Carl e em algumas vezes tive que tirá-lo de sua boca e afastar suas mãozinhas curiosas das peças restantes sobre o tabuleiro. A cólica dela felizmente havia passado, mas ela não quis sair do meu colo. Talvez temesse que se voltasse a deitar sua dor voltaria.
Quando Carl terminou seu movimento, movi meu bispo em direção do seu rei, deixando-o em xeque. Eu não sabia como ele havia deixado tal falha e como eu a havia percebido. Ele percorreu os olhos sobre todas suas peças, procurando um meio de disfarçar isso, mas não havia mais jeito.
— Faça sua jogada, senhor rei do xadrez — eu ironizei.
Ele moveu seu peão e então eu derrubei seu rei, ganhando o jogo.
— Eu não acredito que fui tão distraído assim — ele se queixou com a expressão leve, nada que lembrasse alguém enraivecido. — Você foi boa Angelina, tenho que admitir!
— Eu até daria algumas aulas a você, mas depois desse jogo não quero ver peças de xadrez por um bom tempo!
O garoto começou a rir e Judith agitou-se em meus braços, ameaçando um choro. Pensei que fosse a volta cólica, mas quando tentei fazer massagem em sua barriga, ela se esquivou.
Nesse meio tempo, Patrick e Lizzie entraram na sala, chamando Carl para uma partida de futebol ou coisa do tipo. Eu estava ocupada com Judith e só vi Carl olhar para a irmã e depois para os amigos, provavelmente pensando se ficaria com a irmã ou iria aprontar com os amigos.
— Eu a entrego para Beth, pode deixar! — falei.
Carl acenou com a cabeça e aos poucos foi se afastando. Antes de deixar a sala, ele se virou e sorriu:
— Você é uma pessoa maneira!
Judith não chorava, mas ainda sim, estava muito inquieta. Pensei que ler a acalmasse, mas não demorei muito para mudar de ideia. Eu não conseguia entender o que acontecia e tudo que desejava era entregá-la a Beth, mas essa era uma das poucas vezes em que minha irmã não estava cuidando de Judith ou das demais crianças e eu não queria estragar isso.
Meus pés abririam um buraco no chão de tantas vezes que andei para lá e para cá, tentando acalmar a pequena. Em alguns momentos eu até consegui acalmá-la, mas quando parava de andar e tentava colocá-la em seu berço, Judith voltava a fazer gemidos de dores e caras estranhas.
— Ande mocinha, vamos cooperar — eu suplicava com calma para que não a assustasse ainda mais.
— Judith?! — a voz preocupada de minha irmã viera em boa hora. Quando me virei para trás, Beth vinha em nossa direção com os braços estendidos e um pouco atrás dela, Rick.
— Ela estava inquieta, julguei ser cólica e tentei acalmá-la. Funcionou! Por alguns minutos... — contei frustrada e então olhei para Rick. Ele tentava esconder o riso, entretanto, eu o consegui ver.
Beth pegou-a do meu colo e se foi com ela, agora, chorando. Meu coração ficou apertado quando ouviu seus berros, mas eram apenas de dor, como minha irmã havia falado antes de partir.
— Eu queria sua ajuda... — Rick falou mudando a expressão em seu rosto.
— Está machucado? Ou alguém? — questionei.
— Me acompanhe!
Nós percorríamos os coredores quietos. Rick estava muito tenso e olhava para trás muitas vezes. Chegamos aos corredores de celas mais vazias, o bloco A. Como não havia vigias ali, o local era mantido fechado por segurança.
—Michonne? — Rick chamou.
Ela apareceu em uma das últimas celas com a feição também preocupada.
— Estamos aqui!
Segui caminho com Rick. Quando entrei na cela, Willie também estava lá. Ele mantinha um infectado preso a uma corda. Isso me assustou, fazendo-me recuar para trás, mas Rick garantiu que a corda era segura.
— Eu não entendo! Estamos nos protegendo dos infectados e vocês os trazem para cá? — falei.
— Olhe nos olhos dele — Rick disse.
Mesmo contrariada e até irritada pela situação, olhei nos olhos do infectado. O que mais chamava atenção era o sangue escorrendo de seus olhos. Eram lágrimas grossas de sangue bastante avermelhadas. A íris, que normalmente deveria ser clara, estava enegrecida.
— Isso não é normal! Mortos não sangram pelos olhos — Michonne falou.
—Gênesis atingira seu próprio limite de perigo. Não pode ocorrer uma evolução. — constatei.
— Você tem certeza disso? — Michonne questionou.
— Claro que eu tenho.
Todos se entreolharem em silêncio. Eu tinha certeza do que falara. Quando Gênesis atingira seu limite, sabíamos que não havia nada para destruí-lo, entretanto, não pensei que ele pudesse evoluir.
— Pai? Michonne?
A voz de Jack nos deixou apreensivo. Nos entreolhamos e Rick olhou para os dois assentindo com a cabeça. Michonne passou pelo infectado cravando uma faca em sua cabeça antes de se dirigir ao garoto com Willie.
Rick começou a andar de um lado para o outro na cela. Era visível a preocupação em seu rosto. Ele parecia perdido em seus próprios momentos, nem notou que eu ainda estava lá.
—Não se preocupe, o cara pode ter morrido assim...
— Não me preocupar? — ele parou de caminhar e voltou-se para mim. — Nós mantemos essas grades para nos protegermos e de repente, eles resolvem evoluir?
Rick estressado me assustou. Eu parecia àquelas crianças assustadas e encolhidas no canto da sala; e talvez ele tenha percebido isso quando parou e se afastou.
— Rick, mesmo que eu pudesse ajudar como eu conseguiria sem os devidos aparelhos? — tentei falar de uma forma que Rick entendesse. A expressão dele mudou e agora, ele estava parado. — Eu estou longe de qualquer coisa que pudesse me ajudar. Só nos restar acreditar que isso não é perigoso, pois é só isso que fazemos, acreditamos!
Ele me olhou firme. Era quase impossível não notar as semelhanças nas mesmas expressões de Carl. Ambos te analisavam e analisavam suas palavras e em todas às vezes era desconfortante.
— Eu vou levar essa...esse infectado para fora e queimá-lo — falei. — Aliás, isso que vocês fizeram aqui foi loucura.
Comecei a puxar o corpo pelo corredor. Por estar morto e bastante desnutrido era fácil carregá-lo, eu conseguia fazer isso apenas com uma mão, mesmo assim, caminhava com dificuldade. Estava perdida em meus pensamentos e tentava pondera meus passos para não cair no chão feito uma idiota.
A cena que acontecera antes me deixara insegura. Quando tudo aconteceu, achei que não tinha como ser pior agora isso acontece e eu só conseguia pensar no pior. Era como se não pudéssemos ter esperanças, como se fossemos feitos para sofrer.
De repente, o corpo ficou mais leve. Olhei para trás e Rick segurava as mãos do morto e sorria-me tímido. No começo, eu achei que ele fosse ficar preocupado com toda a situação, mas não parecia quando eu olhava em seus olhos.
— Só nos resta acreditar — ele repetiu minhas palavras.
Nós levamos o corpo para fora e depois o queimamos. Rick pediu desculpa pela forma que gritou comigo, mas não o culpo. Se eu tivesse que cuidar de pessoas, manter um lugar seguro, também explodiria em situações como aquela.
Voltávamos conversando para o pátio principal. Já era tarde e o sol começava a se pôr no oeste, por trás das torres e das árvores no entorno da prisão. Ao nosso lado, alguns errantes estavam grudados na grade. Enquanto conversamos, vi Beth e Jack se aproximarem e não evitei em sorrir. A ideia de vê-los juntos me agradava, mas preferia não contar isso a ela, apenas para provocá-la.
— Angie...diga a Jack que ele está com febre! — ela pediu.
— Eu não estou com febre — Jack disse em meio a um gemido.
Coloquei o colo da minha mão em sua testa e de fato o rapaz estava ardendo em febre. Jack começou a tossir compulsivamente e uma poça de sangue fora cuspida de sua boca. Olhei assustada e temerosa para todos os presentes ali antes de levar Jack correndo para a enfermaria.
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