Made of Fire

30 XXVII - Season Finale


Notas iniciais
Gente linda, gente bela, gente wonderful! *0* Please, LEIAM AS NOTAS FINAIS! 1. Último capítulo! :3 2. Me desculpem meeeesmo pela demora de três semanas, eu super empaquei e essa semana começaram minhas aulas. 3. Não vou me despedir nem falar sobre o quanto foi ótima nossa trajetória, porque ela ainda não acabou. Humpf. Mas amo vocês ♥ Rich's POV Boa leitura! *-*

O som familiar de ondas invadia meus ouvidos de forma branda, trazendo um sorriso para meu rosto. O vento batia contra minha pele e meus cabelos de forma com que eu fechasse os olhos, apreciando a sensação que há tempos não sentia. Todas as memórias, boas ou ruins, foram para o fundo de minha mente, esquecidas. O único contraste diferente no cenário em que me encontrava era a presença ao meu lado, assim como o aroma peculiar que misturava-se com o salgado do mar.

Will.

Virei o rosto em sua direção, encontrando os olhos verdes em mim, semicerrados devido ao sol em nossos rostos. Os cabelos despenteados estavam em uma bagunça com o vento, que não cansava-se de embaralhá-los cada vez mais. Sorri, apertando-o mais um pouco junto à mim com o braço esquerdo que o rodeava pelos ombros. Senti seus lábios roçarem meu pescoço levemente antes dele encaixar a cabeça ali, suspirando.

— Eu te amo — murmurou, o braço direito estreitando-se ainda mais em minha cintura. A voz não era mais do que um murmúrio, porém, alta o suficiente para fazer-se ouvir acima do som do mar. Beijei-lhe a testa antes de dizer-lhe o mesmo, sabendo que não era necessário. Will sabia.

Abraçados ficamos durante o que se pareceram horas. O conforto do calor um do outro não permitia que víssemos o tempo passar, entretanto, alheios ao mundo ao nosso redor, completamente envolvidos com a simplicidade e a beleza do momento.

*

Meu olhar estava cravado na tela preta da televisão por mais tempo do que eu me permitia admitir. O silêncio do apartamento invadia meus ouvidos de forma tão sutil que só o percebi quando foi cortado pelo som da porta se abrindo. Pisquei os olhos, dando-me conta de que já estava escuro o suficiente para que eu mal pudesse enxergar a figura de Jay ao lado da porta, que logo fechara em um baque.

— Puta merda, Rich! — gritou ele assim que ligou a luz e deu de cara comigo, sentado no sofá. — Você quer me matar do coração? O que faz aí sentado no escuro? — perguntou, a mão no peito e os olhos castanhos alargados ao dispararem pelo apartamento, como se procurasse alguma ameaça. Suspirei.

— Estava pensando — murmurei, lembrando que não faltava muito para escurecer quando eu sentara ali. Não fazia tanto tempo que estava raciocinando, no fim das contas. Uma hora no máximo.

— Aconteceu alguma coisa? — perguntou ele depois um tempo em silêncio. Largou o que pareceram várias pinturas em cima do balcão antes de sentar-se ao meu lado, os olhos analisando-me. — Brigou com o Will?

Encarei seu rosto assim que o nome de Will fora mencionado, afundando-me mais no sofá.

— Não, estamos bem — respondi, erguendo os ombros.

— Rich, eu não sou psíquico — disse ele, cruzando os braços musculosos. — Desembucha logo. O que te aflige?

Cocei a barba rala que começara a crescer dentro desses dois últimos dias, encarando os olhos castanhos. Jay estava completamente sujo de tinta, fazendo-me indagar como ele havia voltado para casa sem ao menos lavar o rosto. Estava dedicado às pinturas novamente, deixando de lado os desenhos e as esculturas.

Foquei os olhos em seu rosto, onde uma sobrancelha se arqueava, impaciente.

— Meus pais — falei, lembrando da última ligação. — Eles querem que eu vá para casa no Natal.

— Claro que querem — disse ele, prontamente. — Você sempre passa o Natal lá, por que não iriam querer? — A expressão em seu rosto me dizia que ele sabia exatamente qual era o problema e o porquê. Revirei os olhos.

— Não posso voltar sem ter que contar sobre o Will — reclamei.

— Não, não pode — disse ele, escorando-se no sofá e pegando o controle para ligar a televisão. Soltou um arquejo empolgado ao dar de cara com os óculos redondos de Harry Potter na tela. Balancei a cabeça, chocado.

Não era possível um filme passar tantas vezes na televisão sem as pessoas se cansarem.

— Você não está ajudando, cara — falei, bufando.

— Olha só, Rich — começou ele, sem tirar os olhos do garoto da cicatriz —, você é o adulto mais responsável que já conheci na vida, tá bom? Então aja como tal — falou, olhando para mim por um segundo antes de olhar para frente novamente. Esperei que ele continuasse, mas estava visivelmente concentrado na tela grande da televisão.

— O quê? — perguntei, após alguns segundos de silêncio. Jay revirou os olhos.

— Estou querendo dizer que é ótimo você estar agindo feito um adolescente, porque o amor nos faz agir feito adolescentes — disse ele, como um velho sábio. — Mas toda essa euforia e confusão deve ficar entre você e o Will, e vice-versa. No que diz respeito à sua vida familiar e profissional, seria sensato agir feito o responsável aborrecido que você costuma ser. — Olhou para mim e riu quando eu o fuzilei com os olhos. — Mesmo em momentos difíceis como contar à sua família que você está foliando com um aluno. — Ergueu uma das sobrancelhas, segurando o riso.

Limitei-me a ignorar as brincadeiras em suas palavras e focar-me no resto. Não fosse assim, jamais teríamos qualquer conversa civilizada.

— Ou seja, eu posso estar receoso por causa de Will, mas preciso ir para casa mesmo assim e arcar com as consequências de me relacionar com um aluno? — deduzi, vendo-o abrir um sorriso.

— Olha só, a parte responsável de seu cérebro continua viva, parabéns! — brincou, rindo alto assim que fechei a cara. — Não é como se você precisasse que eu lhe dissesse isso, Rich — completou, os olhos sérios. — Você já sabia disso.

Sim, eu já sabia.

Divaguei por alguns segundos, mexendo com a almofada ao meu lado. Virei o rosto para Jay mais uma vez e sorri abertamente pela primeira vez em nossa conversa.

— Ora, eu sempre preciso que você me diga as coisas, Jay. Sempre preciso que clareie minha mente — contei-lhe, vendo-o sorrir convencido. — Sempre vou precisar de você.

Meia hora depois, eu andava de um lado ao outro na sala, pensando, planejando, raciocinando.

Logo chegaria o Natal, onde eu deveria locomover-me até Mallow Coast e encarar minha família para lhes contar a grande notícia. Depois disso, ainda havia o Ano Novo, o qual eu sempre passava com eles e com Jay em nossa cidade natal. Era como um ritual. Acabavam as aulas e eu me locomovia até a cidade vizinha, onde me acomodava até uma semana depois da virada de ano. Voltava para casa, passava um tempo com Jay e às vezes viajava para outras cidades antes de voltar no início do ano letivo.

Minha família não era religiosa, tampouco o era eu. Porém, tanto eles quanto eu fazíamos questão de estar juntos na data. Se tratava de família, de união, de amor. Se tratava de reencontrar pessoas amadas que, muitas vezes, passamos o ano inteiro sem ver. Por isso meus pais faziam festa com os familiares, até mesmo os mais distantes. Uma festa que, para variar ao menos um pouco, não tinha relação alguma com a Turner Imóveis. E eu gostava.

Como eu faria agora que havia Will em minha vida?

Poderíamos passar o Natal separados, mas eu não queria passar a virada de ano longe dele. Eu não iria passar a virada de ano longe dele. Eu podia até prever uma série de aborrecimentos por conta disto, mas me recusaria a deixar de beijá-lo no início do próximo ano.

Como eu faria então?

Jay resmungava cada vez que eu passava em frente da televisão, atrapalhando seus filmes, que graças aos céus não mais eram os filmes mágicos. Deu sua opinião explicitamente a cada pergunta que eu lhe fazia, fazendo-me outras como resposta também, o que deixava-me ainda mais impaciente. Eu não queria perguntas, queria respostas.

Onde eu passaria o ano novo, aqui com Will ou na minha cidade natal com minha família?

— Por que não leva o Will no fim de ano se é tão difícil passar longe dele? — perguntou, a cabeça pendendo para um lado e para o outro quando eu passava em sua frente, sem desgrudá-los da televisão, onde passava um filme de Tim Burton.

— Não vou separá-lo de sua família, Jay — resmunguei, lembrando do rosto simpático e cansado de sua mãe. Havia finalmente feito as pazes com Will e me aceitado no processo, eu não podia simplesmente tirar o filho dela em uma data importante.

— Leva a família junto — sugeriu Jay em resposta, distraído.

— Claro que levo — falei, ironicamente. — "Mãe, estou namorando com um homem que, a propósito, é meu aluno e tem dez anos a menos que eu. Ah, aqui está ele e sua família para passar a virada do ano com a gente. Sejam gentis" — Encarei seus olhos castanhos agora focados em meu rosto com uma careta.

— Está bem, péssima ideia — falou ele, logo gargalhando ao imaginar a cena. O corpo inclinou-se para trás ao passo que ele levava a mão até a barriga.

Ri também, incapaz de segurar-me ao encarar o rosto contorcido em riso de Jay. Se havia algum momento em que Jay deixava de ser um deus grego era quando gargalhava a ponto de perder a voz. O rosto contorcido em uma eterna careta abobalhada e os olhos lacrimejados eram mais cômicos do que a própria piada. Balancei a cabeça, empurrando-o para o lado no intuito de fazer-lhe parar de rir e respirar novamente, visto que já estava roxo.

Assim que conseguiu parar, o som da televisão tomando conta do apartamento mais uma vez, uma ideia brilhou em minha mente. Sabia que podia dar certo, apesar de eu não saber se era muito absurda. Meu sorriso desvaneceu ao passo que minha mente voava, calculando quantos dias faltavam para Natal. Peguei meu celular como um vulto, digitando rápido uma mensagem para Will.

Suspirei, minha cabeça já latejando de tanto pensar, antes de encarar a figura concentrada ao meu lado.

— Você vai também, não é? — perguntei, focando os olhos nos dreads erguidos de Jay.

— Provavelmente — disse ele, erguendo os ombros. — Eu preciso checar o pessoal e eles precisam de mim. Belle disse que terminou com o namorado, Jamie anda brigando na escola novamente, Bridget já está no nono mês de gravidez e Kevin está andando com pessoas suspeitas. — Ergueu os olhos para mim, sério. — Belle acha que tem alguma coisa a ver com a gangue do bairro.

Suspirei pesadamente, encarando o rosto preocupado de Jay. Tinha uma família grande, com seis irmãos, três dos quais ainda viviam na casa da mãe. Jay havia saído de casa com apenas dezessete anos, indo morar na casa de um amigo. Queria livrar-se de todos os problemas que envolviam ambos pai e mãe viciados. Nunca deixou de visitar os irmãos, ajudá-los ou tirá-los um pouco de casa, fazendo-o até os dias atuais. O pai acabou falecendo um pouco depois que Jay se formou em Artes Visuais e a mãe, apesar das recaídas, está andando nos trilhos desde então.

O cenho franzido no rosto de pele escura trouxe-me más lembranças e eu sabia que em sua mente passavam-se hipóteses perturbadoras a respeito do irmão. Kevin era mais velho que Jamie, mas tinha apenas quinze anos de idade.

— Não deve ser nada, Kevin é um menino inteligente — falei, apertando seu ombro. — E se for alguma coisa séria, resolveremos isso assim que chegarmos. Está bem?

— Está bem — murmurou em resposta, voltando os olhos para a televisão, agora já desanimado. Suspirei mais uma vez.

— Sabe que conheci a mãe de Will? — perguntei para tentar distraí-lo, vendo-o girar o rosto em minha direção em um milésimo de segundo. Ri de sua reação, sabendo que havia atingido meu objetivo.

— O quê? Quando? Onde? — perguntou, começando a rir antecipadamente.

— Ontem — falei, lembrando dos olhos esverdeados no rosto mais velho da mulher, dando vida à este. — Will passou a tarde aqui, então o levei para casa antes de escurecer. Apesar de haver feito as pazes com a mãe, ele ainda anda em ovos perto dela.

— Ele se parece com ela? — perguntou, interessado ao deixar a televisão de lado.

— Um pouco — falei, sorrindo. — Quem parece mesmo com o Will é o irmão mais novo dele, Caleb.

— Te trataram bem? — perguntou em seguida, preocupado.

Sorri, assentindo ao recordar do momento.

Flashback on

Will descera do carro após deixar um beijo rápido em meus lábios. Distraído com o celular que vibrou com mais uma mensagem de minha mãe, demorei um instante para perceber Will ainda em minha linha de visão. Havia fechado a porta do passageiro, entretanto, mantinha-se em pé em frente à esta, de costas para mim.

Franzi o cenho ao tentar entender o que o fizera estancar no lugar. Foi quando o corpo esbelto virou em minha direção, os olhos verdes alargados. Abri a janela do carro apenas para ouvi-lo dizer as temíveis palavras: — Minha mãe!

Inclinei a cabeça para ver a figura de vestido florido dentro do pátio, atrás de Will, os olhos curiosos e os braços cruzados, como se estivesse na defensiva. Tinha os cabelos presos para trás, e de longe não pude perceber os fios de cabelos brancos junto aos escuros. Tinha os traços bonitos, mas parecia mais velha que a idade diria – de acordo com Will. Foi apenas quando vi o rosto da mulher que percebi nada haver de ameaça ali, apenas hesitação. Desviei os olhos para Will, que não precisou falar nada para eu saber o que precisava fazer.

Tirei a chave da ignição e saí do carro, caminhando até o lado de Will, meu braço ao redor de seus ombros. Ele sorriu de forma nervosa antes de guiar-me portão adentro, em direção à sua mãe que, por sua vez, acabou com a distância entre a gente. Os olhos escuros, levemente esverdeados, alargaram-se ao passo que se aproximava, parecendo surpresa. Surpresa por eu ser mais velho do que esperava ou por ser mais novo do que esperava, eu não sabia, e cheguei à conclusão de que era melhor nem saber.

— Boa tarde — disse ela, desviando os olhos de nossos rostos para meu braço em torno de Will antes de voltar aos nossos rostos. — Will, não vai me apresentar ao seu... — Embaraçada com a falta de palavras, sorriu ao tentar remendar apenas acenando em minha direção.

— Boa tarde, senhora — pronunciei-me rapidamente, sabendo que Will demoraria alguns segundos a mais para reagir. Segundos de embaraço estes que eu não estava disposto a presenciar. — Sou Richard. Richard Turner. — Estendi a mão, sem ter tempo suficiente para pensar se devia estender a mão, abraçá-la ou beijar-lhe as bochechas como os franceses.

— Prazer, Richard — disse ela, apertando minha mão com insegurança. — Senhora me faz sentir velha. — Riu nervosa, desviando os olhos para Will antes de voltá-los à mim. — Pode me chamar apenas de Sarah.

— É um prazer conhecê-la, Sarah — falei, sorrindo.

— Mãe — começou Will, pronunciando-se pela primeira vez, a voz gaguejada. — Esse... Quero dizer, eu... Eu e Turner... — Engoliu em seco, piscando mais vezes que o vi piscar na vida. Apertei-lhe levemente o ombro, mas os olhos arregalados mantiveram-se assim.

— Ora, Will! — interrompeu a mãe, balançando a cabeça. — Não é necessário tanto nervosismo, querido — disse ela, fazendo um gesto vazio com a mão, claramente tentando acalmá-lo. Sorri ao ter certeza de que ela é tão boa mãe quanto Will me houvera dito. — Vamos, entrem um pouco para tomar um café! Isso, claro, se você não tiver outro compromisso, Richard — completou, olhando para mim de forma amigável. Ao mesmo tempo, no entanto, os olhos esverdeados diziam-me que eu não tinha outra opção.

— Seria ótimo! — falei, antes de encontrar os olhos verdes de Will. — Tudo bem por você, Will?

Observei-o assentir mecanicamente, forçando um sorriso em direção à mãe. Ela virou as costas, chamando-nos em direção à casa, desculpando-se antecipadamente pela bagunça. Porém, assim que entrei pela porta, percebi que a última coisa que a casa estava era bagunçada. Sorri ao pensar que esse é o tipo de coisa que mães dizem, lembrando da minha.

O cômodo era pequeno e simples, mas aconchegante. Fiquei surpreso ao perceber que a entrada da casa atipicamente dava direto em uma cozinha. Completamente imaculada, talvez pela própria organização e aroma de produtos, a cozinha acomodava poucos móveis e tinha uma grande abertura – logo descobriria ser duas portas conjuntas, de correr – que levava à sala de estar.

Sorri, grato por descobrir finalmente onde Will crescera e onde passava a maior parte do tempo.

A Sra. Jones prontamente arrumou a mesa de jantar, lotando-a com pães e biscoitos, junto de xícaras e diversos tipos de bebidas, à despeito de eu dizer que não era necessário. Will, ainda assustado, mantinha os olhos grudados nos movimentos da mãe, os ombros tensos. Forçou um sorriso ou outro ao ajudá-la a arrumar a mesa.

Em seguida, outro par de olhos verdes se fez presente no pequeno cômodo, curiosos ao estancarem em mim. O garoto, que eu sabia chamar-se Caleb, usava uma espécie de pijama e tinha os cabelos desordenados, da mesma forma como os tinha da primeira e última vez em que o vi. Exatamente como Will.

— Oi — disse ele, aproximando-se devagar como se para testar o terreno. Até nisso parecia-se com o mais velho.

— Boa tarde — cumprimentei, sorrindo em sua direção. Recebi um meio sorriso de volta.

— Você é o namorado de Will? — perguntou ele, direto.

— Caleb, os modos! — alertou a mãe, visivelmente envergonhada, exatamente como um espelho do rosto avermelhado ao seu lado. Estanquei os olhos em Will, hesitante.

Não havia exatamente o pedido em namoro, mas acreditava que estávamos namorando, sim. Acreditava que Will também dispunha da mesma opinião que eu. Sendo assim, assenti ao voltar os olhos para o menino de cabelos escuros, como os da mãe.

— Sim, sou o namorado de Will — afirmei, ignorando o arquejo que saiu da boca do loiro, ao estender a mão para Caleb. — Você deve ser o irmão que ele tanto fala. É um prazer conhecê-lo.

Caleb ergueu as sobrancelhas, o brilho no olhar não se assemelhando de forma alguma ao de qualquer garoto de doze anos de idade que eu já conhecera. Estendeu a mão também, apertando a minha de forma firme. Percebi, pelo sorriso que se espalhou no rosto do menor, que ele havia apreciado o fato de eu não o haver tratado como uma criança.

— O prazer é meu — disse ele, olhando para Will com uma careta divertida logo em seguida. Só então percebi que Will e sua mãe haviam parado de arrumar a mesa e nos olhavam de forma estancada, silenciosos.

Talvez eu não devesse ter dito que somos namorados, pensei ao observar Will.

Ele pigarreou, desviando os olhos por cada um de nós, querendo acabar logo com o silêncio. Sarah balançou a cabeça como se saísse de um transe.

— Bom — disse ela, a voz falha —, a mesa está pronta. Podem se sentar — completou, apontando para o móvel à sua frente.

— Tem bolo? — perguntou Caleb, sentando em frente à mesa como um vulto.

Sentei ao lado de Will, sorrindo ao ver que havia relaxado um pouco com a mudança de assunto. Caleb, à minha frente, já havia cortado um pedaço enorme de bolo e o colocado em seu prato, completamente indiferente à minha presença. Imaginei que fosse isso que havia deixado Will menos tenso.

— Caleb, por favor! Come direito — ralhou a mãe, a voz alarmada levemente contida, como se assim eu não pudesse ouvir. Ergueu os olhos para mim. — Perdão, Richard. Quando se trata de comida, Caleb não sabe se comportar de maneira adequada. — Voltou os olhos ao filho mais novo ao seu lado, censurando-o em silêncio.

— Tudo bem, eu não me importo — disse, sorrindo. — Tenho um amigo exatamente assim — completei, vendo que Will segurava o riso.

O resto do café da tarde passou tranquilo, durando no máximo uma hora antes que eu me retirasse, com medo que Will tivesse um ataque cardíaco. A Sra. Jones, sendo a impecável mãe que é, fez-me perguntas à respeito do meu trabalho, minha família e meus amigos. A princípio, estava receosa a cada palavra que saía de sua boca, mas percebi que o amor pelo filho falava mais alto.

Caleb, apesar de parecer indiferente à situação, ainda assim mantinha os olhos um tanto curiosos e um tanto desconfiados em mim. Podia perceber que estava prestando atenção em cada palavra que eu dizia, tão ou mais protetor quanto sua mãe em relação à Will. Senti uma paz interior espalhar-se por meu corpo, sabendo que eu já adorava essa família e que faria de tudo para fazer parte dela.

Antes que eu pudesse entrar no carro, Sarah pediu que Will buscasse certa fotografia que havia em seu quarto para mostrar à mim. Eu sabia que ele estava à beira de um ataque, apesar de tudo haver corrido bem, e não queria, sob hipótese alguma, deixar-me sozinho com sua mãe. Sorri de forma acolhedora para ele, de forma que soubesse que estava tudo sob controle. Depois de contrariá-la, Will viu que não havia alternativa e, hesitante, virou as costas para entrar na casa novamente.

— Richard — começou ela, assim que Will sumiu de vista —, quero que saiba que não me oponho ao relacionamento de vocês. — Assenti, esperando que continuasse. Quando pensei que nada mais falaria, devido ao silêncio, ela continuou: — Will é como um anjo em nossas vidas — disse ela, a voz embargada, e eu soube que ela se referia a si mesma e a Caleb. — Ele é querido, determinado, tem um coração bom. Imagino que seja muito fácil se apaixonar por ele — disse ela.

A senhora não tem ideia do quanto, pensei.

— Will é destemido. Ele coloca a mão no fogo por quem ama. Ele está se arriscando por você. E eu também — falou, forçando um sorriso. — Pude perceber que você é nada como eu pensava. Pude perceber que se importa mesmo com meu filho, aliviando meu coração de mãe. Espero que faça o possível para merecê-lo — disse ela, o que soou mais como um aviso. — E que nunca o machuque, que nunca quebre seu coração — avisou, séria. — Nunca vi Will tão apaixonado, então eu sei que você tem a capacidade de machucá-lo, mesmo que não o queira — acrescentou quando abri a boca para falar. Fechei-a novamente. — Jamais permitirei que algo assim aconteça, de braços cruzados.

Um segundo depois ouvi a porta ser aberta, Will apareceu e começou a percorrer a distância do pátio em direção à nós.

— Estamos entendidos? — perguntou ela ao perceber também que ele caminhava em nossa direção.

— Sim, senhora — falei, com um sorriso. — Jamais faria qualquer coisa para machucá-lo — falei, baixinho. — Eu o amo com todo meu coração.

Um sorriso espalhou por seu rosto, rejuvenescendo-o uniformemente. Podia perceber que, apesar de Will não se parecer tanto com a mãe, com exceção de alguns traços familiares, ele com certeza havia herdado sua beleza. Era possível imaginar que ela tivesse anos vividos intensamente, mesmo com o pouco que Will me contara, devido ao rosto cansado. Não havia mentido com relação à grandeza de sua mãe. Muito menos com relação à beleza dela, desapercebida em um primeiro olhar.

— Eu imaginei que assim o fosse — replicou ela em um sussurro, o sorriso ainda maior.

— Mãe — falou Will logo em seguida, a sombra em seu rosto fazendo-me dar conta de que estava realmente escurecendo. — Não encontrei a foto que queria — completou, os olhos desconfiados em nós.

— Ora, Will, não encontrou porque não procurou direito — disse ela, piscando um dos olhos para mim. — Outro dia eu lhe mostro a paisagem da praia que visitamos, Richard.

— Claro — respondi, sentindo-me feliz pela oportunidade que havia me dado.

Apenas quando já estava dentro de meu carro, dirigindo em direção à casa, que percebi o quanto estava nervoso. Apenas quando já me afastara da casa do garoto de olhos verdes, me permiti respirar de forma calma. Minhas mãos suavam e meu coração batia forte. Havia me permitido ficar calmo, porque sabia que alguém devia ficar calmo na situação. Claramente, nem a mãe nem o filho o estavam.

Eu não havia percebido o quanto significava para mim ter a aprovação da família de Will. Sabia que significava o mundo para ele, mas eu não havia concedido à mim mesmo o direito de me preocupar com isto. Não com todos os problemas que Will havia tido com a mãe.

Inspirei e expirei várias vezes, sentindo o calor do alívio inundar o meu ser.

Flashback off

— Ela realmente te ameaçou? — riu Jay, encarando-me com diversão.

— Sim, e ela foi honesta em cada palavra. — Ri também, erguendo os ombros. — Mas eu pude perceber que ela só estava cumprindo seu dever como mãe — falei, inspirando fundo. Encarei os olhos castanhos de Jay com um sorriso largo. — Eu recebi a aprovação dos dois — falei, orgulhoso.

— Estou orgulhoso, Rich! — disse ele, como se lesse meus pensamentos, sorrindo também.

— Eu também — murmurei.

Jay voltou ao seu apartamento assim que o filme acabou, apesar de haver ficado conversando comigo durante o resto deste. Levou seus trabalhos e suas pinturas e, antes que fechasse a porta ao sair, eu ordenei que tomasse um banho. Ouvi um resmungo em resposta antes da porta bater.

Não demorou muito para a porta soar novamente, através das batidas que nela agiram. Levantei em um pulo, sabendo que encontraria cabelos claros e bagunçados atrás dela. Sorri ao ver o rosto esculpido do meu garoto antes de puxá-lo para um beijo de forma rápida.

— Boa noite para você também — murmurou ele, rindo contra meus lábios.

— Boa noite, anjo — falei, fazendo-o entrar e fechando a porta logo após.

Ele sorriu sem graça por um instante antes de erguer uma sacola com o logotipo de uma empresa de fast food.

— Você chamou, eu vim — disse ele, rindo. — Trouxe um hambúrguer para você — falou, mostrando a covinha na bochecha esquerda.

Sentindo-me subitamente mais nervoso, lembrei da analogia de Jay me comparando a um adolescente com hormônios à flor da pele. Pensei em forçar-me a agir feito o adulto responsável que era, mas então lembrei que Jay havia dito que não era necessário quando se tratava de Will. E eu sabia que o que ele queria dizer, na verdade, é que não era possível com relação a Will.

Mordi o lábio inferior, encarando os olhos verdes, confusos ao me observar.

— Will, precisamos conversar — falei, vendo-o franzir o cenho. — Digo, desculpa te tirar dos seus amigos para vir aqui — emendei, lembrando do que ele falara nas mensagens.

— Tudo bem — disse ele, desconfiado. — Eles já estavam indo embora mesmo. O que houve? — perguntou, visivelmente preocupado.

— Nada — falei, andando até o sofá e sentando, as mãos nos joelhos ao pensar em como perguntar o que devia. — Eu só queria fazer uma pergunta.

Pude sentir, mais do que ver, sua figura deslocar-se em direção à mim, sentando-se ao meu lado e encarando-me, provavelmente com confusão. Assim que ouvi sua voz, no entanto, percebi que o que a rondava era diversão. Provavelmente para mascarar o nervosismo.

— Não vai me pedir em casamento, não é? — perguntou, rindo. Pisquei algumas vezes. — Sou muito novo.

— Não — falei, rindo também ao encarar o mar esverdeado em seus olhos. Pensei à respeito. — Quero dizer, ainda não — falei, vendo-o arregalar os olhos mais uma vez, deixando o queixo cair. Balancei a cabeça. — Não é isso — falei, tentando tranquilizá-lo. Suspirei. — Meus pais estão ligando mais vezes que o normal. Eles querem te conhecer.

Will assentiu devagar, parecendo pensar no que dizer. Mordeu os lábios e piscou algumas vezes, remexendo-se no sofá.

— Está bem... — disse ele, incerto, mais como uma interrogação. Queria saber onde eu chegaria com tudo isto, notoriamente.

— Eu sei que você vai passar o natal com sua família. E eu gostaria de passar com a minha também, já que eles se importam bastante com essa data — comecei, levando uma mão para seus cabelos, acariciando-os. — Então eu pensei em voltar e passar o ano novo com você. Bom, e com sua família ou seus amigos, com quem você estiver, é claro — acrescentei, vendo os olhos brilharem.

— É mesmo? — perguntou, rindo nervoso.

— Claro — falei, deixando um beijo em seus lábios. — Não vou querer mudar de um ano para outro sem você. — Ri, trazendo-o para outro beijo. Will afastou-se devagar, os olhos estreitos.

— Não era isso que você queria perguntar, era?

Dei um meio sorriso, negando com a cabeça.

— O quê, então? — perguntou, mais curioso do que nervoso.

— Meus pais... — falei, fazendo uma careta. — Minha mãe é capaz de vir até aqui se eu não der algo para acalmá-la. No caso, informação — falei, vendo-o rir da forma com que eu falara.

— E você está com medo de contar sobre mim? — deduziu, voltando a ficar sério.

— Não — falei, balançando a cabeça. — Estava com receio, é certo, mas apenas da confusão que eles terão à respeito. Não mais — falei, pegando sua mão e entrelaçando nossos dedos. — É exatamente por isso que queria falar com você. — O rosto de Will ficou tenso. Ele já imaginava o que estava por vir. — Ainda falta um tempo para o natal, oito dias para ser exato. E eu pensei que você pudesse ir até Mallow Coast comigo para conhecer minha família. Partiríamos amanhã e eu te traria de volta antes do Natal.

A boca de Will caiu e a mão inconscientemente apertou a minha.

— Eu sei, eu sei — falei, vendo o rosto chocado. — É muito para pedir e é muito em cima da hora, mas eu realmente acho que a melhor maneira de contar é com você junto. Eles vão te amar só de olhar para esses lindos olhos verdes — falei, sorrindo.

— Mas... — murmurou, mordendo os lábios. — Mas e se eles não gostarem de mim?

— Impossível. — Sorri.

Era possível que eles não gostassem da situação, entretanto. Visto meu histórico em meter-me em problemas, era bem possível que eles pensassem que isto entrava para a lista. Não era assim, no entanto, e eu sou capaz de mostrar-lhes.

Will era tudo, menos um problema na minha vida. Muito pelo contrário.

— Eu não sei — disse ele, nervoso. — Não sei se é uma boa ideia. Você ao menos vai avisar que estou indo com você? — Assim que desviei o olhar, ele fechou os olhos ao perceber a resposta, balançando a cabeça. — Isso não vai dar certo, Turner. Vai ser um desastre!

— Não, Will — falei, pegando as duas mãos nas minhas. Suspirei. — Não vai ser um desastre. Meus irmãos não vão precisar nem pensar antes de se apaixonarem por você também. Meus pais podem demorar um pouco, mas eles jamais dariam as costas à algo que me faz feliz. — Levei as mãos ao seu rosto, passando os dedos por seus traços. — À alguém que me faz feliz.

Ou assim eu espero, completei mentalmente.

— Tem certeza de que isto vai funcionar? — perguntou ele depois de pensar um pouco.

Depois de um longo suspiro, me permiti balançar a cabeça negativamente.

A verdade é que, apesar de conhecer meus pais a vida inteira, eu realmente não sabia o que esperar deles. Parte de mim imaginava que, depois de tanta decepção que eu trouxe à vida deles, o último com o qual se importariam seria o gênero ou a idade da pessoa pela qual me apaixonei. Outra parte minha ponderava se esse não seria o ápice das decepções, a última gota que faltava para que todo nosso bom relacionamento, construído durante anos, rompesse em mil pedaços.

Não, eu não fazia ideia se iria funcionar.

— Vou com você — sussurrou Will, irrompendo meus pensamentos ao passar os dedos por meu rosto. — Não sei se vai dar certo, mas eu vou com você. — Sorriu em seguida, revirando os olhos. — Iria com você até Nárnia, se insistisse.

Deixei um largo sorriso espalhar-se por meu rosto, logo puxando-o para mais perto. Senti o aroma de seus cabelos e o gosto de seus lábios. Envolvi-o com meus braços, imaginando que não havia nada mais precioso no mundo do que o garoto dos olhos verdes. Sorri contra sua pele.

— Garoto dos olhos verdes, dos cabelos bagunçados, dos toques inesperados e dos sorrisos encantadores — sussurrei em seu ouvido.

Não, não havia nada mais precioso em minha vida.Nem o ar que respiro, visto que até isso Will rouba descaradamente.

Notas finais
IMPORTANTE: Gente, não deixem de acompanhar, a não ser que achem necessário, porque eu não vou fazer um novo link para a segunda temporada. Os novos capítulos serão publicados aqui mesmo. Então, super poker face agora. Acabei de descobrir que sou péssima com finais AHAHAHAH Me desculpem por isso, mas eu tenho a desculpa de que é apenas o começo do fim o/ Não vou falar muita coisa senão eu vou chorar, e chorar é desnecessário no momento, né não? Não sei quando vou começar a postar a segunda parte, talvez daqui um mês ou talvez daqui há três meses, não sei dizer. Mas nos encontraremos antes na outra fic original, não é? Beijo na bunda de vocês, gente bela! ♥ Amem, odeiem, mas me digam o que acharam! ME DIGAM! *O* Atualizada: 10/2017.