Made of Fire

31 I. Não é a Casa Branca, apenas a caverna do dragão


Notas iniciais
I'M BAAAAAAAAAAAAACK, seus lindos! ♥ Will's POV (omg que saudade de escrever em primeira pessoa :3) Boa leitura! *-*

— Meu deus, meu deus!

Uma faixa de vento entrou pela janela aberta do carro, colidindo com a alta temperatura de meu corpo. Agradeci aos céus por isto, já que uma gota de suor começava a escorrer por minha têmpora. Não necessariamente pelo calor, mas pelo nervosismo.

— Você não tá falando sério — insisti, os olhos presos no imenso portão à minha frente.

Turner suspirou, tirando uma das mãos do volante e apertando a campainha do interfone. Em seguida, passou a mão pelos cabelos enquanto os dedos da outra mão tamborilavam nervosamente no volante. Virou a cabeça em minha direção, revirando os olhos depois de focá-los no meu rosto.

— Will, tira essa expressão assustada do rosto. Não é para tanto — disse ele, levando uma das mãos até a minha, suada. Só então percebi que minha boca estava aberta e os olhos arregalados. Apesar de tentar acalmar-me, no entanto, eu sabia que ele estava tão nervoso quanto eu.

— Nós não podemos entrar assim, de supetão — falei mais uma vez, balançando a perna incessantemente. — E sério que você mora numa casa que tem um portão desse tamanho?

Incrédulo, gesticulei o máximo que pude com as mãos para ver se ele entendia o absurdo da situação. Entretanto, Turner limitou-se a me encarar com cara de peixe morto antes de virar o rosto para frente sem nada dizer. Esticou o braço para apertar o botão do interfone mais uma vez.

Suspirei, encarando o enorme portão de entrada da residência da família Turner.

Turner pirou de vez!

Eu podia jurar que ele ligaria para os pais, enquanto fizéssemos um tour em Mallow Coast, para ter uma prévia conversa sobre a grande surpresa que ele levaria para casa neste pré-natal. A surpresa que me envolvia por inteiro. No entanto, ele nem sequer parou o carro depois de entrar na cidade até chegar na frente de sua provável mansão de cem andares.

Eu não estava preparado psicologicamente para conhecer os pais de Turner. Pior ainda, seus pais não estavam psicologicamente preparados para me conhecer. Estavam esperando o filho mais velho que passa tempo demais sem visitar a família, envolto em seu trabalho exaustivo na universidade. Esperando o filho que eles conhecem ser hétero, responsável e perfeito. Em companhia de sua nova namorada, que eles devem imaginar ser alguém como a Srta. Clark: loira, querida e monga.

Eles têm que gostar muito, mas muito de olhos verdes. Tanto a ponto de ignorar todo o resto. O tremor das minhas mãos, o sorriso extremamente forçado, o suor fazendo com que a roupa grude em meu corpo de forma nada sensual. O mais importante também: minha idade e a ausência de seios.

Eu nunca devia ter concordado com isto. Sem falar no vento provindo das janelas abertas durante horas de viagem que havia feito meu cabelo parecer um ninho de passarinho. Tudo bem que eu houvesse posto minha melhor roupa. Mas, convenhamos, minha melhor roupa é um lixo.

— Vou conhecer seus pais parecendo o Jack Sparrow — murmurei, olhando para o meu corpo. Limpei a gota de suor que caía de meus cabelos com o braço. — E eu não estou falando da beleza genuína do Johnny Depp.

Turner soltou um riso involuntário pelo nariz, fazendo parecer com que houvesse se afogado. Balançou a cabeça negativamente, me olhando com carinho.

— Eu gosto do Jack Sparrow — disse ele, pegando minha mão e deixando um beijo nela.

— Todo mundo gosta — retruquei, revirando os olhos. — Isso não quer dizer que ele seria bem-vindo em mansões de gente rica.

Turner suspirou, deixando a cabeça cair de encontro com o encosto do banco. Parecia prestes a repreender mais uma vez minha ideia de que eles eram muito ricos, mas não pôde. Fora interrompido pelo som agudo e repetitivo do interfone, o que me fez dar um pulo no lugar. Pisquei algumas vezes, tentando entender, antes de uma voz masculina surgir no mesmo.

— Pois não?

— Que demora, Finn! — Turner respondeu rapidamente, e havia certo divertimento em sua voz. — Será que posso entrar para ver minha família, ou devo esperar o natal?

O homem do interfone parecia haver se engasgado pelo som sufocado que a máquina transmitiu. Turner me encarou brevemente com um aceno encorajador antes de virar para o interfone mais uma vez.

— Senhor! — A voz exclamou, nervosa. — Perdão, senhor! O interfone está com problemas técnicos — explicou ele. — Eu não sei o que seu pai tinha na cabeça ao implantar estas tecnologias aqui — resmungou. Ergui as sobrancelhas, vendo o sorriso no rosto de Turner. — Não era necessário nada disto. E eu sou das antigas, você sabe, não entendo nada dessas coisas. E como o senhor pode perceber, este treco pifa a cada dois meses! É um absurdo!

— Finn? O portão? — Turner perguntou com divertimento.

— Ah, sim! O portão! É claro, senhor, é claro — disse ele, atrapalhado.

O portão se abriu logo em seguida, fazendo-me prender os olhos no mesmo, ou melhor, no pequeno vislumbre da casa atrás dele e no fim da trilha. Turner deu partida no carro logo em seguida, em silêncio.

— Finn não é o mordomo, é?

Atrevi-me a verbalizar uma das perguntas em minha mente, dando um riso nervoso ao passo que Turner deslocava o carro para dentro do pátio, seguindo uma estreita trilha de pedras bonitas. Não era muito longa, de forma que eu podia enxergar parte da casa de onde estávamos. Deixei escapar um suspiro de alívio ao ver que não se tratavam de cem andares, mas de dois. Tampouco se tratava de uma casa tão grande quanto eu houvera imaginado.

No entanto, ao lado da mesma trilha, haviam cercas vivas perfeitamente polidas. Apenas gente rica mantém suas plantações e árvores perfeitamente em ordem, afinal. Apertei o banco do carro, ficando cada vez mais nervoso ao passo que chegávamos mais perto da casa. Mais perto da família dele.

— Claro que não, Will — respondeu ele, soltando um riso. — Isto aqui não é a Casa Branca. Finn é um dos empregados, que está na família há anos. Já disse que minha família não é tão rica quanto você pensa — resmungou ele, manobrando o carro quando chegamos em frente à casa. — Sempre fomos muito simples, para falar a verdade. A casa é grande? Sim — respondeu à si mesmo. — Mas isso é porque meus pais podem se dar ao luxo de pagar depois de tanto esforço na empresa. E eles vendem imóveis, Will. É claro que a casa tinha de ser, no mínimo, bonita. Mas há muitas casas maiores nesta mesma cidade.

Turner estacionou ao lado de três carros bonitos, suspirando pesadamente em seguida. Ergui as sobrancelhas ao perceber, mais uma vez, a irritação dele com o assunto.

— Tudo bem — murmurei, os olhos presos na mansão de cores branca e marrom.

Ele tinha razão, afinal. A casa não era tão grande quanto minha imaginação fértil se disponibilizou a imaginar.

Dispondo de dois andares, a casa de grandes proporções era relativamente normal. Ela não era anormalmente grande na largura e nem espalhafatosa na entrada, mas parecia haver muita extensão do imóvel para trás. O que me levava a pensar que sim, era enorme. Podia não ser na largura, mas pelo que eu podia ver do pátio, parecia ser na extensão.

Assim que descemos do carro, tentei a todo custo desamassar minha roupa, meu cabelo e minha cara. Meu cabelo não estava mais tão curto, mas pelo menos eu conseguia – ou assim esperava – fazê-lo baixar com as mãos. Em seguida, pegando minha mão suada com um arquear de sobrancelha, Turner me guiou até a entrada da casa. Subimos os três degraus até a porta de madeira vistosa.

Turner soltou minha mão para bater na porta, respirando fundo. A mesma fora aberta logo em seguida, revelando um rosto que eu já conhecia. Cabelos castanhos, olhos cinzas e expressão altiva. A mulher um pouco mais velha que eu, em roupas estilosas e cabelos soltos, arqueou as sobrancelhas ao dar de cara com Turner.

— Rich! O que você... — Becca começou, antes de desviar os olhos cinzas para mim. — Ah, olá... — Franziu o cenho, sem saber o que dizer, antes de voltar os olhos para o meu lado. — Eu não sabia que você viria.

— Bom dia para você também — respondeu ele, irônico. — Ninguém sabia que eu viria, é uma surpresa. Será que nós podemos entrar?

Becca estreitou os olhos para mim e Turner antes de arquear uma das sobrancelhas de maneira interrogatória.

Céus, eles eram mesmo irmãos!

— Quem seria "nós" exatamente? — Decidiu perguntar, os olhos focados em mim. Sorri com nervosismo, estendendo a mão rapidamente.

— Will — falei, relanceando um Turner impaciente. — Prazer — emendei assim que ela apertou minha mão.

— Becca — respondeu, abrindo um sorriso largo de quem sabe tudo.

Turner, sem esperar que Becca nos desse passagem, me empurrou de forma delicada, com uma das mãos em minhas costas, para dentro da casa. Seguiu-me para dentro e ouvi o som da porta sendo fechada. Meus olhos, no entanto, estavam disparando por toda a extensão da residência que podia alcançar.

Turner tinha razão, era uma casa simples. No entanto, eu não era capaz de admitir isso em voz alta, já que o simples deste lar faria minha casa parecer uma pilha pequena de madeira velha.

A espaçosa entrada possuía poucos móveis e dava de cara com uma escada enorme. Havia uma entrada para a sala do lado esquerdo e seguindo reto da porta, havia um corredor que devia dar de encontro com outro cômodo. Paredes de uma cor amarelada fosca e bonita, chão impecável e móveis de uma madeira escura.

Meu momento de observação que durou poucos segundos foi interrompido por uma quarta pessoa que adentrou o cômodo, vindo da sala. Congelei no lugar ao vislumbrar o rosto mais velho da mulher elegante e um pouco rechonchuda. Soube no mesmo instante de quem se tratava.

Sim, era a mãe dele.

— Richard! — A mulher de cabelos loiros e olhos azuis chamou e, embora tenha olhado para mim com confusão, isso não a impediu de abraçar o filho com alegria. — Você veio! Ah, que bom que veio — murmurou contra o peito de Turner. Em seguida, afastou-se um pouco para dar um tapa em seu braço. — Ora, por que não me avisou? Fica meses sem aparecer e vem assim, do nada?

Desviei os olhos rapidamente para meu lado direito, onde vi a movimentação de Becca. Estava de braços cruzados e com os olhos fixos em mim. Engoli em seco antes de tentar um sorriso pra ela e voltar os olhos para Turner e sua mãe.

— Não estava reclamando para deus e o mundo que eu não vinha? Pois aqui estou — disse ele, com um sorriso. Passou uma das mãos pelo rosto bonito da mãe antes de olhar para mim com receio. Ela seguiu o olhar do filho em direção a mim.

— Você trouxe alguém? — Perguntou ela, confusa, olhando de mim para Becca. — Ou é amigo de Becca?

— Não, mãe — disse Turner, vindo para o meu lado e colocando um dos braços ao redor de meus ombros. — Eu trouxe alguém para lhes apresentar — disse ele, forçando um sorriso. Podia parecer muito seguro de si, mas a tremida em sua voz o denunciou. Engoli em seco mais uma vez. — Will, gostaria de lhe apresentar minha mãe, Isobel Schüttler.

A mulher bonita sorriu para mim de forma afável, mesmo que ainda houvesse um ponto de interrogação em seu rosto. Usava uma roupa sofisticada, saia social e uma camisa florida. Haviam pérolas em suas orelhas e um colar bonito no pescoço. Devia ser mais velha do que aparentava, mas a beleza intensificada pelos grandes olhos azuis a rejuvenescia. Becca era muito parecida consigo, embora a cor de seus olhos e seus cabelos fossem distintos.

— Prazer, senhora — falei, me xingando mentalmente por tê-la chamado de senhora. Estendi a mão mesmo assim, tentando evitar o tremor das mesmas. — Will Jones.

Ignorando minha mão, ela aproximou-se o suficiente para abraçar-me de forma rápida. Desacostumado com este tipo de cumprimento, pisquei algumas vezes antes de retribuir, surpreso. O cheiro de seu perfume inundou meus narizes, fazendo-me sorrir. Perfume dos bons.

— Prazer, querido — disse ela ao se afastar, sorrindo. Então desviou os olhos para Turner, que lhe deu um meio sorriso. — Não sabia que tinha amigos tão jovens — falou ela, fazendo meu estômago revirar. — Se eu soubesse que viria e traria companhia, teria organizado o quarto de hóspedes, Rich — censurou ela. Acrescentou rapidamente antes que alguém falasse: — Venham para a sala, vamos nos sentar um pouco. Vou pedir para que Finn nos traga um chá.

Sorriu, enlaçando o braço do filho no seu ao nos guiar para a sala, tão bonita quanto o resto da casa que eu houvera visto. O grande quadro renascentista chamou minha atenção antes que eu me concentrasse na conversa que teríamos logo em frente. Pensar à respeito me deixava tão ou mais nervoso do que o olhar de Becca sobre mim, como se soubesse exatamente quem eu representava: o namorado de seu irmão.

— Will não é tão jovem assim — Turner anunciou, pigarreando. — Pode não parecer, mas ele já chegou aos vinte anos. — Riu, nervoso ao relancear-me com os olhos.

— Não parece mesmo — confessou a mãe, sorrindo para mim. Sorri de volta, ignorando a vontade de sair correndo.

— Ora, ora — disse alguém, a voz grave fazendo-me virar em direção à ela. Senti todo meu corpo retesar ao perceber que também já conhecia a origem da voz. Frederich Turner, o homem elegante que conheci na Turner Imóveis algumas semanas antes. — Quem é vivo sempre aparece. Não é o que dizem?

Não é possível que toda a família esteja em casa!

Veio em direção do filho com uma expressão alegre e o abraçou com vontade, rindo. Estava em um terno preto, diferentemente de Turner no dia em questão. Meu professor havia abandonado as roupas sociais para viajar, assim como o fazia quando estava em casa, optando pelas comuns calça jeans e camisetas.

— E este rapaz, quem é? — Mirou-me com os olhos castanhos, ainda sorrindo. Retribui o sorriso de maneira nervosa, aceitando a mão que ele já estendia para mim, antes mesmo de receber uma resposta.

— Will Jones, prazer — murmurei pela terceira vez em poucos minutos.

— Frederich Turner — disse ele, olhando para o filho. — Seu amigo ou de Jay? — Perguntou com uma risada, fazendo-me perguntar o que exatamente seria a piadinha interna.

— Meu — respondeu Turner, prontamente. Não pude evitar o arrepio que subiu minha espinha com a simples palavra, já que sabia que Turner estava pensando no duplo sentido também. — Jay não veio para a cidade ainda.

— Vai ficar aqui também? — Perguntou diretamente para mim, fazendo-me abrir a boca igual um retardado.

— Vai — respondeu Turner por mim, aproximando-se. — Will... — começou ele, me encarando antes de focar os olhos cinzas nos dos pais, que já estavam lado a lado. — Will não veio por acaso. Eu queria apresentá-lo à vocês.

— Ora, é mesmo? — Alfinetou Becca, com um sorriso de escárnio. Ela realmente sabia quem eu era, afinal.

Turner estreitou os olhos em sua direção, antes de voltá-los aos pais, que nos encaravam com curiosidade. Prendi a respiração, não sabendo o que fazer com as mãos.

— Will... — começou ele, chegando mais perto de mim e colocando o braço mais uma vez sobre meus ombros. — Will e eu estamos juntos — falou tudo de forma rápida, como se arrancasse um band-aid. Abriu a boca para falar mais, porém nada saiu. Fechou-a e encarou os pais, sorrindo forçado.

Ambos arquearam as sobrancelhas com surpresa antes de franzir o cenho. A sincronicidade seria engraçada se a situação não fosse tão desconfortável.

— Juntos? — Os olhos azuis da mãe pousaram no braço à minha volta, em mim e em Turner novamente. O semblante confuso recordou-me de minha mãe algumas semanas antes.

— Ele quis dizer que estão namorando, mãe — interveio Becca, pela primeira vez tirando o sorriso debochado do rosto. Ainda assim, tinha a expressão divertida ao encarar-nos.

— Namorando? — Foi a vez do pai perguntar, com uma expressão indecifrável. Engoli em seco, reprimindo a vontade de unir-me ao chão. — Está brincando, não é?

As batidas do meu coração só não podiam ser ouvidas por conta do silêncio ensurdecedor do local. Quando Turner não respondeu, seu pai encarou a mãe de forma questionadora. Ela parecia ainda mais confusa que ele.

— Mas ele... — Começou, e parecia estar fazendo um extremo esforço para tentar entender. — Eu não entendo. Rich, ele é um... — Interrompeu-se ao focar os olhos azuis em mim, fechando a boca. Mordi os lábios, encarando o rosto de Turner.

— Eu sei, mãe — murmurou Turner. — Eu sei, mas...

— Mas aconteceu — interveio Becca mais uma vez, sorrindo. Arqueou as sobrancelhas ao encarar a mãe. — Porque essas coisas acontecem, não é mesmo, Rich? Pessoas se apaixonam, mesmo quando não esperam, mesmo quando não querem, mesmo quando não devem. E é ótimo, não é mesmo? Se apaixonar é maravilhoso — disse ela, e eu não soube interpretar sua expressão. — Mesmo quando parece ser errado, não é.

A mãe estreitou os olhos em sua direção e o pai desviou o olhar, suspirando, mas Becca manteve os olhos cinzas nos da mãe. Deu de ombros, com uma expressão desafiadora. Franzi o cenho, olhando para Turner. Ele, no entanto, parecia estar tão confuso quanto eu.

— Certo — murmurou o pai, sem saber se olhava para Becca, para sua mulher, ou para nós.

— Não sei o que dizer — Isobel murmurou, encarando o marido.

Fechei os olhos, derrotado. Isso havia sido uma péssima ideia.

— Não é nada contra você, Will — emendou ela, provavelmente percebendo minha expressão. — Eu só estou processando a informação, porque está difícil de entender — falou ela, com um tom de repreensão ao encarar o filho. — Não estou entendendo como é que meu filho não me contou nada disto antes — falou, o tom de voz grave. — Há quanto tempo isto está acontecendo, Richard?

Desviei os olhos para Frederich, que coçava a barba mesclada com a cor branca, de maneira muito semelhante à de Turner. Então eu soube que estava desconfortável, da mesma maneira que o filho o estava quando fazia o mesmo.

— Há quanto tempo estamos juntos? — Turner inclinou-se para me perguntar em voz baixa.

— Não sei — murmurei, nervoso. Turner pegou minha mão na sua, fazendo-me morder o lábio, os olhos disparando entre os membros de sua família. Eu não poderia levantar e começar a andar de um lado ao outro de nervoso, então fazia o que podia: balançar as pernas, desviar o olhar e esconder os lábios. — Dois meses?

— Mais ou menos — concordou Turner, encarando a mãe em seguida. — Dois meses.

Ela revirou os olhos, pondo-se a caminhar para os lados. Repreendeu Becca com o olhar, mas não pude entender o porquê. Suspirou, colocando as mãos na cintura e encarando o marido.

O Sr. Turner, apesar de parecer surpreso e desconfortável com a situação, estava relativamente tranquilo. Parecia apenas querer que o momento tenso acabasse logo para que pudesse colocar o sorriso alegre no rosto mais uma vez.

— Entendo que estejam surpresos, mas fiquei sabendo que queriam conhecer a pessoa com a qual eu estou saindo. — Turner interrompeu o silêncio, passando uma das mãos por meu cabelo. — E eu o trouxe.

Antes que mais alguém falasse algo, um senhor apareceu na sala com uma bandeja em mãos e um sorriso no rosto.

— Bom dia. Imaginei que estavam entretidos demais com o filho para me chamar — disse ele, sorrindo. — Trouxe chá.

O homem tinha por volta de sessenta anos, denunciados pelas rugas em seu rosto. Os olhos castanhos eram amistosos. Usava um uniforme preto e tinha os cabelos acinzentados penteados para trás. A postura era elegante, mas tudo nele exalava simplicidade. Sorriu ao colocar a bandeja na mesinha entre os sofás da sala, só então percebendo a tensão da sala.

— Atrapalhei alguma coisa? — Perguntou ele, inseguro. Vi Turner balançar a cabeça, piscando um dos olhos para ele.

— De forma alguma. Obrigada, Finn — agradeceu Isobel, forçando um sorriso antes de desviar os olhos para nós mais uma vez.

— Por nada, senhora — disse ele antes de pousar os olhos castanhos em Turner. — Por fim, o primogênito apareceu, não é?

— O primogênito sempre aparece — respondeu, sorrindo. — E você nunca sai, Finn. Mesmo com as birras de Becca, as brincadeiras de Rob, as reclamações de mamãe acerca de nós e as implantações de tecnologias por meu pai na casa. É admirável, realmente. — Riu ele. — Você é um guerreiro, Finn.

Finn, pela primeira vez que entrou no cômodo, demonstrou-se desajeitado. Riu de maneira nervosa e corou feito um tomate. Lembrou-me realmente da voz atrapalhada que repercutiu através do interfone.

— Perdão por isto, Richard — disse ele, relanceando Frederich, que arqueou as sobrancelhas. — Não devia tê-lo feito esperar tanto, mas este interfone... Me dá nos nervos — comentou. — Perdão, senhor — acrescentou, olhando para Frederich com um sorriso amarelo. Em seguida, sorriu de forma afável. — E é claro que nunca saio, aqui é o meu lar. — Turner assentiu de forma respeitosa.

Logo após, Finn retirou-se com um sorriso, deixando-nos na névoa tensa mais uma vez. O silêncio que abateu-se na sala foi interrompido por Isobel.

— Vou precisar de um tempo para me adaptar com a ideia — pronunciou, encarando-nos. — Enquanto isto, tire esta expressão assustada do rosto, querido — disse ela, dando um sorriso.

Demorei a entender que ela falava de mim, e não de Turner, já que os olhos azuis miravam os meus. Pisquei algumas vezes, percebendo que devia estar parecendo o Bambi mesmo. Sr. Turner riu alto ao me observar, deixando-me sem graça. Tentei sorrir, mas todos os músculos do corpo pareciam ter enferrujado.

— Apesar de desconfiar um pouco de que isto aconteceria, ainda assim estou surpresa — continuou ela —, mas não pense que será maltratado aqui dentro, Will. Confio no julgamento de Rich — disse, sentando-se em uma das poltronas da sala.

Becca estalou a língua com o último comentário da mãe, franzindo os lábios. A mesma foi repreendida com o olhar de ambos os pais, o que a fez aproximar-se e sorrir forçadamente em minha direção, acrescentando: — Bem-vindo à família Turner, Will.

— Com certeza — interveio o Sr. Turner, aproximando-se de mim. Sorriu de forma afável antes de abraçar-me, da mesma forma que o fizera com o filho. — Você é muito bem-vindo aqui, Will.

— Obrigado — murmurei, finalmente conseguindo sorrir.

— Obrigado — repetiu Turner ao encarar os pais, enlaçando a mão na minha. — E me desculpem por vir e contar assim, mas não sabia de que outra forma fazê-lo.

Deixei que o ar entrasse em meus pulmões de forma plena, percebendo que Turner estava tão nervoso quanto eu devido a força com que apertava minha mão. Sorriu de forma alargada mesmo assim, os olhos cinzas reluzindo ao focar em meu rosto.

A conversa não fora travada de forma tão intensa devido aos preparativos do almoço. Deslocamo-nos em direção à cozinha, onde caberia cinco vezes a cozinha de minha casa, para que organizássemos a mesa. A mãe, Isobel, parecia gostar desta tarefa, embora o almoço em si estivesse sendo preparado por uma das empregadas da casa, Rose.

A Sra. Turner não hesitou em ligar para o segundo filho tantas vezes quantas fossem necessárias para o mesmo atendesse e viesse para o almoço. Sr. Turner, apesar de tentar focar as perguntas em mim, fora forçado — pelo filho, embora não houvesse percebido – a envolver-se em uma conversa animada sobre sua empresa.

A primeira coisa que Robert fez ao adentrar a cozinha meia hora depois foi encarar-me com curiosidade. Parecia realmente surpreso, embora eu soubesse que ele fora o primeiro a descobrir que eu era, de fato, um homem. Aproximou-se a passos largos, interrompendo a conversa acirrada do pai.

— Uau, Rich — murmurou ele, sorrindo. — Você tem um bom gosto, hein? Mas preciso perguntar — emendou ele, depois que eu senti meu rosto queimar com as palavras ousadas —, escondeu o garoto porque ele é um garoto ou porque é menor de idade?

Turner deu um empurrão não tão leve quanto devia no irmão mais novo, censurando-o. A mãe, que conversava sussurradamente com a irmã, interrompeu a conversa para xingar o filho mais novo:

— Robert! — Exclamou, chocada.

Isto, no entanto, apenas fez com a gargalhada de Rob se intensificasse, contagiando o pai, que sorriu e recebeu um olhar repreendedor da mulher. Ergueu os braços, como se dissesse que não tinha nada a ver com o que o loiro falara. Turner revirou os olhos, puxando-me para perto, como se pudesse me proteger de Rob.

— Will não é menor de idade, Rob — resmungou Turner, em sua carranca conhecida. — Ele tem vinte anos e aposto que é mais maduro que você, com vinte e sete.

Rob interrompeu a risada somente alguns segundos depois, arqueando as sobrancelhas com surpresa.

— É mesmo? — Acenei com a cabeça ao ver que dirigia a pergunta à mim. Ele assobiou. — Meus parabéns. Queria eu saber estas técnicas de rejuvenescimento — falou, divertido. Não esperou qualquer resposta antes de puxar-me dos braços de Turner e abraçar-me, assim como os pais o fizeram. — É um prazer finalmente conhecê-lo, Will.

Robert, pensei, havia herdado toda a animação e alegria genuína do pai. Apesar de ser um homem calmo e não ser brincalhão igual ao filho, o Sr. Turner era um homem empolgado por natureza. Ao menos foi o que imaginei, já que tinha as mesmas expressões e a mesma postura nas duas vezes em que o vi.

Becca, no entanto, era mais parecida com Turner. Tinha a língua afiada e havia certa arrogância envolta em si em alguns momentos, semelhante à que eu enxergava no meu primeiro semestre com o Sr. Dragão, professor da caverna. Mesmo assim, não dirigiu nenhum comentário ofensivo em minha direção, incentivando-me com o olhar quando percebia que eu empacava nas perguntas dirigidas à mim. Rebecca me lembrava muito de Laurel.

Apenas quando todos estávamos sentados na mesa do almoço, Finn e Rose juntos, que a série de perguntas começaram a ser lançadas para nós.

Talvez devido ao medo de que o momento família acabasse, Turner desviou rapidamente de todas as respostas que levariam ao fato de eu ser seu aluno. E eu sabia que não demoraria muito para o fato aparecer, já que ambos os irmãos estavam cientes disto, embora não lembrassem. E o pai da família, por mais que talvez não houvesse prestado atenção, também já houvera me visto antes.

Eu estava sentado ao lado de Turner, já um pouco relaxado, acostumando-me com as brincadeiras de Rob e as perguntas indiretamente diretas de Becca. Turner, a cada dois minutos, apertava minha mão com um encorajamento silencioso. Encorajamento que, imaginei, ele também precisasse.

Ainda mais quando, de forma aterradora, a seguinte frase escapou da boca de Robert:

— Eu te conheço de algum lugar, Will?

Notas finais
Oi, vocês que são lindos e ficaram ♥ Por que voltei agora? A resposta é bem óbvia: Porque tenho "Lucca" em andamento, porque é fim de semestre, tenho provas e problemas e preocupações, não tenho tempo nem dinheiro nem paz interior. Daí eu fiz o que? Isso mesmo que vocês tão pensando! Escrever romance gay! Yey! HAHAHAHA Tentando não escrever textão, vou ser rápida: 1. Desculpa pela demorinha, tive problema em organizar os capítulos! Mas agora SÓ VAI, MINHA GENTE hahahahah 2. Tava com sdds dessa bagaça aqui ahahah. Espero que vocês gostem do retorno :3 3. Eu reli por cima alguns capítulos e vou fazer umas mudanças neles (não sei quando omg) e não se preocupem que eu não vou mudar a história. Só a escrita um pouco, que tá tensa ahahhah 4. Amo vocês ♥ Amem, odeiem, mas me digam, PLEASE, o que acharam! Yey! *O*