Made of Fire
61 XXV. Season Finale
Notas iniciais
Caso haja um final para a minha história, eu gostaria que fosse como este.
Uma despedida repleta de amor, de companheirismo, de confiança, de abraços tomados de ternura, e até mesmo uma fisgada de dor, porque não existe nada mais humano. Mais do que isto, uma despedida carregada da certeza de que haverão outras despedidas, e portanto, infinitos reencontros.
E caso a morte não seja o fim, e minha existência continue a perpetuar pelo universo, desprovida de um encerramento, eu espero que assim o faça ligada às existências que validam a minha.
A existência da minha família, dos meus amigos, e a existência do meu único e exorbitante amor.
Caso haja um final para a minha história, que este se mantenha inerte no tempo a fim de torná-la eterna.
*
Abri os olhos, assustado.
Levei um tempo para que minha respiração acalmasse, o coração desacelerasse e os músculos descontraíssem.
Com os olhos acostumados com o escuro da madrugada, girei o rosto para checar se Will ainda dormia ao meu lado e confirmei ao enxergar os cabelos emaranhados dispersos pelo travesseiro. Acariciei as costas nuas, já que o garoto estava virado de bruços, antes de me levantar com muito cuidado para não despertá-lo.
Ainda sentindo minhas mãos tremerem pelo agito dos sonhos que não permitiram que minha mente descansasse, saí do meu quarto e encostei a porta. Esfreguei o rosto e o pescoço, duro pela tensão das últimas semanas.
Vivi neste mesmo apartamento por quatro longos anos.
Dormi naquela cama, ora sozinho ora acompanhado; preparei minhas aulas naquela sala, ora concentrado ora atrapalhado pelos filmes e tagarelice do Jay; me descobri e redescobri como professor e como homem andando em círculos neste mesmo piso.
Mais do que isto, comecei minha carreira como professor nesta cidade, neste apartamento, nesta universidade. Voei por conta própria, acompanhado do meu melhor amigo, e finalmente tudo se encaixou.
Precisei voltar ao passado, é certo, para que eu pudesse ter o vislumbre de um futuro, mas desde que pus os pés neste local, é como se minha vida fosse atualizada para uma nova versão, como um smartphone.
E agora eu planejava abandoná-la?
— Puta que pariu, espero que isto seja questão de vida ou morte — resmungou Jay, coçando os olhos.
Abriu a porta enfeitada de seu apartamento, depois que eu bati nela diversas vezes seguidas, com o rosto inchado pelo sono e a voz rouca pelo tempo sem uso.
Permaneci encarando-o, com a cabeça à mil, por mais tempo do que planejei. Vi os olhos sonolentos tentarem se acostumar com a luz do corredor do prédio, e piscarem lentamente ao fazer o mesmo que eu: despertar.
No meu caso, era despertar para longe da minha mente frustrada.
— Jay — pronunciei, em um murmúrio, ao dar um passo na direção dele —, você acha que eu estou cometendo um erro?
Ele ainda piscou mais algumas vezes, daquele jeito zen que sempre o faz demorar séculos para acordar, antes de pronunciar, inteligentemente: — Hum?
Suspirei, dando mais um passo em sua direção.
— E se isto for um erro e eu não puder voltar atrás?
Jay ainda me encarou por mais um tempo, por entre os olhos entreabertos, antes de franzir o cenho. — Rich — começou, lento —, que horas são isso?
Mais uma vez, tornei a agitar-me antes de abrir espaço e entrar em seu apartamento com rapidez. Acendi a luz da sala, tropecei em uma escultura, e me sentei no sofá. Alguns segundos depois, atrasado, ouvi-o fechar a porta e caminhar com lentidão até a sala.
— Erro? — resmungou, parecendo resgatar as palavras que eu havia deixado no ar. — Do que está falando?
— Eu falo de Lydris, Jay — expliquei, erguendo os olhos para ele. — Eu não consigo deixar de pensar que, apesar de ter o apoio de todo mundo, talvez eu esteja sendo precipitado aqui — assumi, sentindo a voz trêmula. — Talvez esteja sendo precipitado demais, ingênuo demais, ambicioso demais. Talvez isto tudo seja um erro.
O que eu tenho na cabeça, não é mesmo?
Depois de tudo pelo que passei, tudo o que superei, tudo o que deixei para trás e tudo que construí aqui, eu estava pensando em largar tudo e ir atrás de uma carreira?
Eu já tenho um trabalho aqui.
Mais do que isto, eu tenho tudo aqui. Meu lar, meu emprego, meu relacionamento, uma estabilidade emocional que nunca pensei que teria, o equílíbrio de ter Jay aqui comigo e minha família na cidade ao lado.
E se tudo isto se perder?
— E se eu acabar estragando tudo que eu tenho por algo que sequer tem valor? — questionei, apoiando os cotovelos nos joelhos e levando as mãos aos cabelos com nervosismo.
Meu estado de ânimo pareceu ser o suficiente para despertar Jay de vez, visto que agora eu podia enxergar de forma nítida os olhos castanhos, anteriormente fechados.
— Rich, isso são horas de conversar sobre isto? — perguntou, lento, relanceando o relógio que marcava quatro e quinze da manhã. — E outra, você está tendo dúvidas a respeito disto à esta altura do campeonato?
Suspirei, levantando em seguida, agitado.
— Jay, eu não dou a mínima para o horário ou para o dia — deixei claro, tentando passar a gravidade da situação. — Eu estou com um problemão aqui, e eu preciso que você me diga o que fazer. — Aproximei-me dele. — Eu preciso que me diga se estou maluco de tomar este passo.
Jay esfregou os olhos com uma careta. — Não, não está.
Suspirei, ignorando-o, antes de respirar fundo.
Fechei os olhos em desalento, depois de alguns segundos, lamentando comigo mesmo.
— O que eu tenho na cabeça? — lamuriei, sentindo os ombros caírem. — Como eu pude engatar nessa ideia maluca de ir para uma cidade onde não conheço quase ninguém, longe da minha família, longe de você e do Will? — questionei, colocando para fora. — Eu estou achando que eu tenho o quê, dezoito anos, para me jogar na primeira oportunidade que aparece como se eu tivesse a vida toda para cometer erros? A vida perfeita que tenho agora me deixou entediado, é isto? — debochei, com humor ácido.
Jay piscou, tentando acompanhar meus pensamentos embaralhados.
— Onde é que eu estava com a cabeça? — murmurei, desgastado, antes de sentar no sofá mais uma vez.
Jay ainda esperou alguns minutos, me encarando, antes de se juntar à mim. — Se você acha que é um erro, não vai — disse, de forma simples, antes de sentar ao meu lado com um suspiro preguiçoso. — Tá, você já acertou as coisas aqui, já acertou as coisas lá, então vai ser uma verdadeira bagunça se resolver ficar, mas se é o que você quer... — Deixou no ar.
Girei o rosto para ele, incrédulo.
— Jay, esse não é o conselho que preciso ouvir — declarei, ainda mais nervoso.
Jay me presenteou com uma careta.
— Você vai para o outro lado do mundo me abandonar. Me desculpa se eu não te dou o conselho que quer ouvir — resmungou, atirando-se por completo no sofá.
Pensei um pouco, encarando-o com atenção, antes de sorrir com carinho.
— Eu não vou nem trocar de Estado — relembrei, achando graça no drama sobre o outro lado do mundo. — E você sempre tem a opção de se enfiar em meu apartamento, como sempre fez — apontei, divertido.
Jay sorriu também, de forma preguiçosa, antes de suspirar com certo pesar. — Eu até queria, mas não posso ficar a vida toda te seguindo pelo mundo, Rich — disse ele, de forma descontraída, mas eu pude ouvir o tom de tristeza.
— Eu sei — murmurei, subitamente melancólico também —, mas saber não torna isto menos triste.
Ficamos um momento em um silêncio confortável, apesar da nostalgia que já me abalava.
Conheci o Jay há quase dez anos atrás, e pela primeira vez desde aquele dia qualquer em que conheci o rapaz artista, eu sentia como se estivéssemos envelhecendo.
Era muito mais do que uma questão individual de idade — que sempre senti, na verdade -, mas uma questão conjunta entre nós a respeito de caminhos diferentes. O fato de eu estar me separando dele pela primeira vez desde que o conheci marcava claramente isto. Eu escolhi ir e ele escolhera ficar. Nós dois, em sincronia, fazendo escolhas distintas que visam o melhor para o nosso futuro.
Jay foi o primeiro a quebrar o silêncio.
— Escuta, Rich — começou, e eu o encarei. — Você já seguiu sua independência para longe sem olhar para trás uma vez — lembrou —, eu sei que pode fazer isto de novo.
Sorri sem muita vontade.
— É, mas foi diferente, Jay — expliquei, coçando o queixo. — Eu vim para a cidade ao lado, você veio comigo, e eu não tinha nada a perder porque era o começo da minha carreira — relembrei, sério, antes de baixar a voz ao recordar-me do corpo desnudo em minha cama: — E eu era solteiro.
Jay ficou em silêncio por alguns segundos, antes de apontar: — Foi escolha dele não ir com você.
Assenti, mexendo com a barra da minha camisa. — Eu sei.
— E ele não tá errado — acrescentou, sério. — Nenhum dos dois está.
— Eu sei — repeti, desanimado.
Jay soltou um suspiro também.
— Mas isto também não quer dizer que vocês não farão escolhas semelhantes um dia.
Girei o rosto para ele, desesperado por alguma resposta mais certeira do que o “talvez um dia”, por algo que não envolvesse só a esperança de que eu esteja caminhando lado a lado com a sorte.
— Jay — sussurrei, com os olhos presos nos dele —, e se for um erro?
Mas ele também parecia não saber a resposta.
Depois de um tempo, sorriu, gracioso, antes de aproximar o rosto do meu de forma engraçada. — Rich, será que eu devo recapitular alguns dos erros épicos que você cometeu na vida?
Soltei um som pelo nariz, sorrindo, pego de surpresa.
— Acredite — continuou ele, com uma da sobrancelhas arqueadas —, se mudar-se para outra cidade atrás de uma oportunidade de emprego foda é um erro, vai ser o erro mais leve que você já cometeu na vida!
Me permiti rir, vendo-o gargalhar em seguida, apoiando os cotovelos nos joelhos para me encarar.
— Não posso dizer que você está errado — concordei, balançando a cabeça. — Meio babaca, mas não errado — brinquei, vendo-o estalar a língua.
Virou-se na minha direção, dobrando uma das pernas para cima do sofá
— Veja bem, Rich — chamou, com descontração —, na pior das hipóteses, você ainda pode voltar para cá, recuperar o antigo emprego ou outro aqui na cidade, e viver feliz para sempre — brincou, revirando os olhos.
Sorri também, embora me recordasse que nada era tão simplório assim.
— E quanto ao Will?
Jay rolou os olhos castanhos nas órbitas.
— Acho que o Will é crescidinho o bastante para tomar decisões para a vida dele — retrucou, um tanto impaciente, antes de sorrir, leve. — E ele continua fazendo a mesma escolha, mesmo sabendo que você vai para longe dele. O garoto te ama, Rich — afirmou, e eu desviei os olhos para longe. — Ele te ama e ele te respeita, e ainda quer uma vida contigo.
Assenti, mecanicamente, tentando me convencer de que isto era e sempre seria o suficiente.
— Isto é muito mais do que eu já tive na vida — acrescentou, dramático.
Soltei um riso, sendo puxado dos meus pensamentos sombrios uma vez mais para as graciosidades do Jay. E isto certamente me deixaria triste quando eu estivesse há quilômetros de distância dele, no meio de alguma crise emocional, sem a chance de tê-lo no apartamento ao lado.
— Eu te amo, te respeito e também quero uma vida contigo — brinquei, piscando um dos olhos, para garantir que o drama não tinha sentido.
Jay riu, assentindo, antes de contra-argumentar: — É, mas você não transa comigo.
Gargalhei, me unindo a ele.
— E eu acho que sou o único — provoquei, julgando.
— Credo, Rich! — Deu-me um peteleco. — Eu não sou tão galinha assim.
— Ok. — Segui em seu jogo. — Me diz uma pessoa jovem que você conheça e conviva — enfatizei —, seja do círculo de amizades ou dos serviços, que seja solteire e com quem você nunca transou.
— Tem várias — disse, cínico, dando de ombros.
— E que não tenha beijado, flertado ou se envolvido de alguma forma bíblica? — aprofundei, analisando-o com cuidado quando percebi que ele estreitou os olhos com rancor. — Uma só. Vamos!
Desta vez, ele pensou por tempo demais.
Gargalhei, vendo-o sem jeito.
— Você é um otário e não vou sentir sua falta — deixou claro, feito uma criança emburrada.
Abanei como se aquilo não fosse nada.
— Você vai morrer por dentro sem mim — garanti, até podendo prever as ligações dramáticas.
Jay discordou. — Eu aposto uma semana de serviço antes de você quebrar e querer voltar para mim — garantiu ele, em contrapartida.
Me permiti rir, um tanto mais aliviado, como eu sabia que me sentiria após conversar com ele.
— Venha cá, meu rabugento preferido — chamou ele, me puxando para um abraço de urso.
Dei um tapa em seu ombro, mas aceitei.
Ainda conversamos por mais alguns minutos antes que os bocejos de Jay começassem a se repetir mais e mais vezes, e optei por deixá-lo dormir.
Voltei mais leve para o meu apartamento.
A ideia de que eu estivesse cometendo um erro aliviou um pouco a pressão que estava me fazendo com a ideia de que erros podem ser corrigidos.
Nenhum erro cometido na arte de ter um pouco de amor próprio é irreparável, se não quisermos que seja.
Will estava exatamente do mesmo jeito que o deixei. Ergui o lençol com cautela e deitei ao seu lado novamente, puxando seu corpo até que estivesse grudado no meu. Ele resmungou, mas se deixou ser trazido com as costas nuas ao meu peito até que estivesse devidamente abraçado.
Relanceei o relógio na cabeceira.
Já eram cinco horas da manhã, e eu tinha apenas uma hora e meia antes de ter que levantar e partir para o meu último dia na Universidade Federal de Hybrifield.
Com este pensamento em mente, tornou-se ainda mais difícil dormir.
Um último dia. Uma última sexta-feira. Os dois últimos exames para monitorar, e o restante das minhas coisas para buscar na minha sala compartilhada com o Edwards.
Suspirei, encarando os cabelos do Will.
Eu posso fazer isto, pensei comigo mesmo, relembrando o que Will repetira diversas vezes desde o anúncio da viagem.
Podemos fazer isto.
*
— Por que está indo se não pegou exame?
Will aprontava o café da manhã com certa preguiça enquanto eu corria de um lado ao outro me certificando de que peguei tudo o que precisava. Já vestia a roupa para sair, uma camiseta escura e calça jeans, e os cabelos ainda estavam rebeldes, embora parecessem visualmente em ordem desta vez.
Ele soltou um riso.
— Na verdade, peguei sim — explicou ele, servindo o café nas duas canecas. — Só que é na semana que vem.
Pisquei, olhando ao redor, atrás da minha gravata.
— Cadê minha gravata? — verbalizei, desorientado.
Will bebericou o café, despreocupado. — Qual delas?
Encarei-o com certa impaciência pela plenitude de anjo que ele esbanjava pelo apartamento tomado de energias ruins — provindas de mim, é claro.
Riu-se. — Credo — falou, tentando conter o riso. — Eu podia jurar que havia voltado no tempo e estava levando sermão em frente de toda a turma — brincou, com os olhos verdes em mim. — Esta é igualzinha a cara de psicopata que você faz em aula.
Suspirei, mas antes que falasse algo, vi que ele apontava para a minha mão. Olhei para baixo e revirei os olhos quando percebi que eu mesmo segurava a gravata cinza.
— Nossa — murmurei, antes que controlasse —, eu estou um caos.
Will se aproximou, largando a caneca na mesa de vidro e puxando a gravata das minhas mãos. Com certa agilidade pega pelo tempo, circundou-a em meu pescoço e fez um nó certeiro.
— Eu é que sou o caos, Turner — disse ele, sorrindo de canto. — Você está roubando meu holofote.
Sorri, fechando os olhos, ao assentir.
Antes que os abrisse, senti seus lábios nos meus em um roçar calmo, que de alguma forma conseguiu relaxar minha tensão. Puxei-o para mim, antes que sequer pensasse a respeito, e aprofundei o beijo.
— Eu tô nervoso — admiti, quando separei-me dele, sem olhá-lo nos olhos. — É o meu último dia.
— Eu sei, mas... — Pensou por um instante. — Sempre que vier para cá, pode visitar a universidade. Isto não precisa se perder — falou, fazendo com que eu prendesse os olhos nos dele. — Você sabe, visitar uns amigos, rever alguns rostos conhecidos...
Sorri junto dele, mas franzi o cenho em seguida.
— Amigos? — questionei, achando graça. — Will, em quatro anos na HFU, eu não fiz uma amizade.
Ri, vendo-o negar.
— Mentira sua — retrucou ele, gracioso. — Eu sei que você gosta do Sr. Edwards e dos amigos de idade dele — argumentou, rindo.
— Ah, Leonard é uma rara exceção — admiti, sem graça. — E o que quer dizer com isto? — questionei, ofendido. — Que eu sou aquela criança excluída na escola que faz amizade com a tia do lanche?
Will gargalhou, afastando-se um pouco para tentar controlar o riso. Coloquei as mãos na cintura, bem estilo Isobel Schüttler, evitando sorrir ao lhe julgar com o olhar.
— Judiaria — disse ele, por fim, o rosto virado em um tomate. Aproximou-se enquanto eu tentava não curvar os lábios. — Mas você sabe que as tias do lanche são melhores amigas do que qualquer uma das crianças endiabradas jamais seriam, não é?
Não aguentei e ri, concordando.
— Tem razão — falei, assentindo. — Edwards é mesmo a melhor das tias do lanche.
Will gargalhou mais uma vez antes de me abraçar.
— Você logo vai estar naquela universidade enorme, cheia de gente diferente, cheia de tecnologias e nem vai lembrar mais de nós — falou, com o rosto enfiado em meu pescoço.
Tentei afastá-lo mas ele não deixou.
— Ora ora, tava quase me convencendo de que eu era o único em crise aqui até esse último deslize — brinquei, sentindo-o deixar um tapa nas minhas costas.
Beijei seu pescoço, afastando-me por fim.
Will sorria, no entanto, apesar do pequeno vislumbre de desânimo em suas orbes verdes.
— É claro que vou lembrar de tudo aqui, todos os dias — afirmei, olhando-o com carinho.
Ele ainda fez uma careta fofa, mas me impedi de jogá-lo no sofá e abraçá-lo para sempre porque estávamos quase atrasados para sair.
— Tem certeza que quer ir agora? — perguntei, me apressando em tomar ao menos uns goles de café antes de ir. — São sete da manhã. Você nem tem exame.
Will deu de ombros.
— Combinei de estudar com o pessoal para o exame da semana que vem. É a única coisa pendente antes do semestre acabar — explicou, de forma simplória.
— Às sete da manhã? — perguntei, desconfiado.
Will pensou um pouco antes de erguer os ombros.
— Mais tarde, mas eu queria ir com você — revelou, com um sorriso encantador. — Não me importo de esperar por eles — falou, enchendo a boca de café.
Sorri, agradecido por isto.
*
Assim que pus os pés na universidade, me senti mais tranquilo, como se todo o ambiente já passasse uma dose de calmaria.
Era meu último dia, mas nem por isto tinha que ser triste ou pesado. Sequer precisava ser importante, com eventos e rotinas diferentes para marcá-lo como tal. Tudo o que eu precisava era que fosse um dia normal, comum, rotineiro.
Entreguei os exames de Administração Financeira I e II pela manhã, e aproveitei o tempo em que as provas eram realizadas para olhar ao redor da sala costumeira com mais tranquilidade. Depois do tempo que passei lá dentro, durante toda a manhã, eu já não estava mais sentindo aquela angústia a respeito de jamais retornar àquelas salas.
E eu havia planejado uma rotina para aquele dia.
Após a manhã de exames, eu almoçaria, e à tarde eu iria estar no plantão pela última vez, corrigindo os exames das duas turmas e, por fim, finalizaria a tarde erguendo as notas no mural do prédio.
Havia me acostumado com perfeição com esta ideia de rotina, então certamente me surpreendi ao perceber que as coisas não sairiam rotineiras, como imaginado.
Muito pelo contrário.
Muito.
Quando saí da sala, assim que o último aluno finalizou o exame, mal tive tempo de trancar a porta antes de levar o susto colossal.
Veja bem, eu não tenho mais vinte anos. E meu coração certamente já tinha algumas sequelas da minha época de delinquente. Então, quando a primeira buzina apitou do lado de fora da sala, eu levei um puta de um susto, e meu coração foi parar na minha garganta.
Minha pasta literalmente caiu no chão, e como eu estava sendo gravado por mais de uma câmera, soube que aquilo entraria para a história.
— O quê...?
Ainda demorei a entender do que se tratava, embora já risse de nervoso, conforme enxergava aquela cambada de alunos interrompendo o trânsito do corredor.
Aqueles alunos, aquela gritaria, aquelas palmas e assobios, aqueles confetes que ainda voavam, embora quase todos já estivessem ao chão, e os apitos em suas bocas, além de cartazes que eu sequer tinha cabeça para ler.
Puta. Que. Pariu.
Rapidamente, passei os olhos pelos alunos, desde os mais antigos até os mais atuais. May estava bem na frente, Naomi e Adam também, além de rostos que eu não via há mais de anos. Do lado esquerdo, enxerguei Laurel, Louis e Gabriel ao lado de Will.
Will, que me sorria.
— Professor Turner... — começou a voz de May, a qual tive que seguir para encontrá-la. Ela sorria ao segurar um papel em mãos. — Primeiramente, eu gostaria de dizer, em nome de todos — falou, segurando o riso, ao olhar ao redor —, que imaginávamos qual seria a sua cara quando o surpreendêssemos e era exatamente esta.
Seguiu-se um coro de risadas e assobios, e eu ri também, é claro, feito um pateta.
Sequer sabia o que fazer com as mãos.
O que diabos estava acontecendo?
— Também imaginamos que você deve estar se perguntando do que isto tudo se trata — falou, rindo, e eu assenti, arqueando as sobrancelhas. — Então aqui vai.
Desta vez, focou os olhos no papel em mãos.
— Professor, por muito tempo tivemos uma relação de amor e ódio com o senhor. Menos eu, eu sempre gostei do senhor — acrescentou, e os demais riram, assim como um colega deu um peteleco em sua cabeça, mas a garota apenas riu. — Em realidade, era uma série de coisas que nos fazia querer jogar tudo para o alto e ligar um foda-se para a nossa formação acadêmica.
Todos riram, ao passo que eu ficava cada vez mais nervoso e cada vez com menos noção do que fazer. Pensei em juntar a minha pasta, mas eu sentia como se todos os músculos do meu corpo estivessem travados.
Uma coisa era tê-los me encarando durante a aula, porque este é o meu trabalho. Outra bem diferente é a atenção deles em mim fora do meu serviço, cheios de sorrisos e animação.
— Eram as horas de aulas extensas de puro sofrimento que pareciam se alongar mais, e mais, e mais... — Ri junto à eles, balançando a cabeça. — E os conteúdos cabulosos que você explicava com uma tranquilidade invejosa, enquanto nos perguntávamos se estávamos mesmo no curso certo.
Mais risos, e acho que ri também, mas eu estava tão por fora do meu corpo que não tenho certeza.
Não era nem o que falavam, nem a noção que eu tinha sobre o que estava acontecendo, era a vibração positiva que me fazia sentir essa vontade imensa de chorar. E meu corpo sabia disto, porque eu senti os olhos encherem d’água contra a minha vontade, e pisquei para que elas me obedecessem.
— E aquela sala de plantão tenebrosa — continuou ela — que muitos de nós tínhamos até medo de nos aproximar, mas que de nada adiantava, porque assim que reprovávamos, e como reprovávamos! — acrescentou, conforme os outros gargalhavam —, a primeira coisa que ouvíamos no próximo semestre é que reprovaríamos de novo caso não nos dirigíssemos até ela.
Assenti, de forma alguma sabendo se eu ria ou chorava, então apesar de rir e sentir meus ombros se movimentarem, ainda assim eu sentia o rosto esquentar pelo choro que eu me negava a deixar escapar.
Interrompi, apontando: — Você não reprovou nenhuma vez, Srta. McCurty — falei, orgulhoso.
— É porque ela é sua fã número 1, Sr. Turner! — gritou alguém de trás, e os demais riram.
— Cala a boca, Clark! — reclamou ela, embora nunca perdesse o humor. Voltou à mim: — Vários contribuíram para a carta, Sr. Turner, então estou apenas sendo o porta-voz de todos nós aqui presentes — explicou, e eu assenti, coçando o pescoço.
Senti a pele vibrar e o coração apertar ao ouvi-la.
Eles estavam me homenageando. Os alunos que tanto me odiaram por anos haviam se unido para me homenagear antes que eu mudasse de cidade nunca mais visse a maioria deles.
Eles estavam me homenageando, e eu não queria me permitir acreditar, porque a sensação era boa demais para ser verdade.
Puta que pariu.
— Antes de sermos seus alunos, já ouvíamos rumores fortíssimos sobre o Sr. Professor Dragão — comentou, e eu ri, sem me aguentar. Em falar que eu nem sabia deste apelido rolando pela universidade até conhecer o Will. — Você já nos colocava medo antes mesmo de conhecê-lo, e quando o conhecemos, bom... Pode-se dizer que o senhor fazia jus àquela imagem de um dragão soltando fogo — contou, e eu senti um pouco de vergonha por isto. — No entanto, no entanto — enfatizou, alegre —, tivemos a oportunidade de vê-lo evoluir. Só deus sabe o nosso susto quando entrou em sala ano passado mil vezes mais manso que jamais foi. — Todos gargalharam. — O que havia acontecido com o Dragão?, todos perguntávamos. Mas a verdade é que o senhor ainda era o mesmo, embora uma versão mais evoluída de professor.
Parou um pouco a narrativa, olhando-me com admiração, enquanto eu me sentia tremer.
— Não sabe o quanto agradecemos muito por isto — continuou, a voz carinhosa, voltando os olhos à folha. — Pelo esforço, pelas horas em que ficava disponível para a gente, pela consideração pela nossa dificuldade. Agora, sob nossos olhos mais experientes, depois de havermos repetido ao menos uma vez em suas matérias e passado mais tempo com o senhor, recebemos a notícia da sua partida. E, como um susto, nos bateu a compreensão de que as horas de tortura que se estendiam mais, e mais, e mais... — Repetiu, rindo antes que os olhos se tornassem compassivos: — Não mais se estenderiam.
Engoli em seco, levando uma mão ao pescoço para esfregá-lo com rapidez, sentindo um nódulo na garganta. Em seguida, afrouxei a gravata, mas de nada adiantou.
— E que a tranquilidade do senhor ao nos ensinar diferentes conteúdos, na verdade, é uma dádiva e um talento, e tenha a certeza de que seu conhecimento compartilhado fará falta. E ainda, que a sala a qual nos recusávamos a entrar, — seja por medo, por rancor ou por falta de interesse -, em realidade, nos fez aprender tanto.
Funguei, desistindo da pose estável, esfregando o nariz.
— Não só Administração Financeira, mas valores que muitas vezes são esquecidos. O valor de termos a oportunidade de aprender, uma oportunidade que é para poucos, e tão subestimada... — Assenti, emocionado. — O valor de correr atrás do que queremos, e de não termos medo de enfrentá-lo atrás de aprendizagem, porque esta luta não podemos perder. — E, desta vez, ouvi sua voz tremer. — E que se há alguma luta, certamente é com o senhor ao nosso lado.
— Uhul! — gritou alguém, quebrando um tanto da tensão, enquanto eu esfregava os olhos.
O grito empolgado, como um gatilho, desencadeou em mais gritos e assobios de todos, que se agitavam ainda mais.
E, quando eu pensei que havia acabado, envergonhado pelo choro óbvio que só se agravou ao ver que algumas alunas se emocionaram também, May continuou.
Céus!, meu coração não aguenta esse tranco todo.
— Por fim, queremos que saiba que o senhor foi importantíssimo na nossa formação. E pedimos desculpas — disse, a voz embargando — por havermos levado tanto tempo para perceber... O quão rara e valiosa é a certeza de que jamais sairíamos da orientação de um professor sem haver adquirido todo o conhecimento do qual tanto precisávamos. Muito obrigada.
Desta vez, o barulho que se seguiu foi maior, e as palmas duraram mais tempo, enquanto eu me sentia tão grande quanto me sentia pequeno. Foi a sensação mais peculiar, e também a mais incrível que já senti.
Eu não tenho psicológico para isto, pensei.
Ao passo que eles me encaravam em busca de alguma resposta e eu ficava ali, estatelado, feito um perfeito indivíduo retraído da sociedade, soube que eu não fazia a menor das ideias do que falar.
Pigarreei, coçando o rosto ao desviar o olhar por cada um deles.
— Eu... Eu não sei o que dizer — admiti, nervoso, o que gerou mais um tanto de risos. — Eu realmente não tava esperando isto.
— Eu falei que ele ia travar! — disse Laurel, para os outros, enquanto todos volviam a rir.
Cocei a cabeça, em desespero, e afrouxei ainda mais a gravata em meu pescoço, como se isto sequer fosse possível.
— Não chora, professor! — Naomi gritou, rindo.
Franzi o cenho, teatralmente, ao esfregar os olhos mais uma vez. — Não, eu não estou chorando. Imagina! — brinquei, passando a mão no rosto.
Parado aqui, nesta situação linda, eu não conseguia deixar de pensar que tudo foi um acaso.
Quando eu fiz o mestrado, eu não o fazia porque queria ser professor, mas porque achava que era meu dever continuar os estudos. Eu nem sabia o que queria, e como sentia que não podia largar o mestrado na metade, comecei a estagiar na Turner Imóveis no último ano deste.
Foi apenas quando tive o diploma em mãos que decidi enfrentar minha família, com pesar, ao dizer que não queria seguir os passos deles.
Eu seguiria os meus.
O engraçado é que eu nem sabia quais passos eram estes, e nem o que significavam. Sabia que eu tinha um mestrado strictu sensu em mãos, sabia que queria sair de Mallow Coast e sabia que havia uma vaga de professor de Administração na HFU.
As coisas simplesmente se encaixaram.
Minha vida se encaixou.
Gostei tanto da área acadêmica que agora eu me encontrava aqui: no meu último dia da zona de conforto antes de seguir uma carreira como professor, e possivelmente como coordenador, em uma das maiores universidades do país.
E tudo isto sem nunca haver sentido na pele o que estava sentindo agora: a verdadeira gratidão do meu trabalho.
E é bom pra caralho!
— Eu não sei nem como agradecer, de verdade — admiti, sem jeito.
Ouvi uma série de “que isto, professor”, “não precisa”, “nós que agradecemos”, que me fizeram sentir ainda mais derretido, desacreditado.
— Eu sei que não sou o melhor professor e que... Nossa, vocês realmente me surpreenderam ao tirar algo de bom das minhas aulas — confessei, sincero, ouvindo gargalhadas. — Eu estou falando sério — verbalizei, mas isto só gerou mais risos, o que fez com que eu não me aguentasse também. — Eu estou, na verdade...
Inspirei fundo, tomando uma pausa para dar uma olhada em cada rostinho deles, querendo fotografar aquele momento em minha memória.
— Estou muito orgulhoso de todos vocês — confessei, sentindo a voz embargada. — Eu... Eu sei que fui um pouco extremo nos primeiros anos, eu achava que estava fazendo um bom trabalho, mas... Caralho, eu... — Interrompi-me, percebendo o palavrão. — Eu ouvi falar muito da gratidão por ser professor, e eu achava que entendia, mas... Puta merda.
Engoli em seco, percebendo que eles não perdiam o humor e sorri também, desconfortável, ouvindo mais palmas animadas.
— Desculpa — pedi, coçando o queixo, quando eles novamente se silenciaram. Ergui os ombros, sem saber como finalizar. — Vocês me ensinaram a ser professor, então podem ter certeza que eu vou sentir falta de todos vocês. E eu jamais vou esquecer o que fizeram hoje por mim — murmurei, a voz falha. — Obrigado.
Como uma manada, todos se aproximaram em um abraço de grupo à minha volta, me cercando com tanto carinho que tive que me esforçar para não chorar mais uma vez.
Com as câmeras de celulares que todos tinham, tiramos uma foto ali, naquele corredor sujo de confetes, com alguns alunos confusos no fundo com a bagunça e outros passando por ali com olhos curiosos. A foto foi registrada, como se para congelar aquele momento da forma como eu queria.
Agradeci mais uma vez, quando eles vieram, um por um, me desejar boa viagem.
— Também sentiremos sua falta, professor. — Naomi se aproximou, dando-me um abraço.
— Espero que tenha uma boa jornada lá para fora. — May completou, sorrindo.
Repeti tantas vezes o “obrigado” que eu me senti ainda mais insignificante por não responder nada mais complexo depois daquela homenagem linda que eles não tinham obrigação alguma de fazer.
Eu sentia como se nada que eu falasse ou fizesse por eles estaria à altura do que fizeram hoje por mim.
— Foi você, anjo? — perguntei, assim que senti seu nariz intrometido em meu pescoço no abraço mais apertado que ganhei.
Ele riu, afastando-se para me olhar nos olhos.
— Na verdade, não, eu fiquei sabendo depois que eles já haviam começado a planejar — contou, meio sem jeito, embora isto só tenha feito com que eu me sentisse aliviado.
— Por isto que veio às sete da manhã? — questionei, ligando os pontos.
Ele riu, traquineiro. — Precisávamos terminar a carta ainda, então viemos cedo. E os confetes — acrescentou, com cara de pavor.
Ri, assentindo, conforme sentia os dedos dele limparem o resquício de lágrimas abaixo dos meus olhos. Deu-me um beijo rápido antes de murmurar: — Você é um professor incrível, e merece muito mais.
Agradeci e abracei-o uma vez mais, cumprimentando em seguida o restante dos alunos antes que eles se dispersassem pelo prédio, alguns ainda buzinando de brincadeira com os brinquedos.
No fim, acabei recebendo a carta com os dizeres declamados por May, com a assinatura de todos os participantes. Confirmei ali que todos eram de ao menos cinco turmas diferentes entre si, o que me surpreendeu, porque fazia pouco que eu sentia como se tivesse conquistado uma mínima parte deles.
Certamente irei esbanjar aquela carta linda em um quadro no meio da minha sala de estar, como símbolo do dia em que foi verdadeiramente validada a minha profissão.
E eu realmente sentia como se cada célula do meu corpo vibrasse para nunca mais parar, naquele momento, em pura gratidão.
O dia acabou e eu ainda tinha um sorriso no rosto e uma leveza na alma.
Um mês depois
— Leva esta aqui também — pedi, entregando a caixa de papelão ao Caleb.
O dia da mudança, em janeiro, havia chegado mais rápido do que previ, como se todo aquele último mês houvesse passado voando, e eu mal havia parado em casa.
Era verdade que o ano letivo só começava em março, mas a mudança para lá em janeiro era requerida devido à toda a papelada, e devido ao tempo que eu precisava para me adaptar à cidade. E como eram férias de verão, ficou decidido que Will iria comigo.
Não sei quanto tempo ele ficaria por lá, me ajudando com a mudança, conhecendo o apartamento, a cidade, a universidade. Mas só o fato de tê-lo comigo durante este período de transição já significava o mundo para mim.
Já havia visitado Lydris por um dia para ser entrevistado e conhecer o local, logo após eu decidir aceitar a proposta. No entanto, ainda em dezembro, tive que me encaminhar para lá outra vez, para acertar a papelada. Portanto, fiquei alguns dias em um hotel, rodando a cidade atrás de opções de apartamento.
Devo confessar que já me sentia como parte do local, e aquilo me trouxe uma tranquilidade estranha.
A UFLY parecia ainda maior do que eu me recordava, com mais extensões e centros de pesquisas. Animado, conheci todos os prédios das Exatas, e já conheci a sala que já era confirmada minha como professor, além das três matérias pelas quais eu seria responsável.
A vaga para a coordenação, no entanto, levaria mais um tempo para que eu conseguisse. As eleições começariam no início das aulas, só em março, e eu certamente não era o único candidato. Para ser sincero, eu não estava tão confiante a respeito da coordenação, embora isto não diminuísse em nada minha empolgação com a UFLY.
Quando comecei a trabalhar na HFU, eu pensei em trocar para a Contábeis ainda no meu primeiro ano, já que estava mais familiarizado com a minha graduação, mas no fim, acabei me acomodando na Administração.
É claro que jamais vou me arrepender disto. Foi apenas uma peculiaridade bonita da minha jornada, embora agora eu sentisse como se já houvesse passado da hora de eu focar mais na minha carreira.
— E quanto à mesa? — questionou Will, se aproximando.
Neguei. — Não, a mesa é parte do apartamento.
Will arqueou as sobrancelhas, surpreso, mas logo deu as costas mais uma vez para juntar mais uma caixa.
Engoli em seco, dando uma olhada no local.
Sarah, Kaori e Caleb foram os primeiros a chegar, visto que a mãe do Will deixou claro semanas atrás que ajudaria com a mudança, caso necessário. Almoçaram comigo e com o Jay, que também estava por aqui, agitado, desde cedo da manhã.
Mais tarde, Will saiu para buscar lanche com Kaori para a gente e voltou com uma equipe de mudança: Gabriel, Louis e Laurel. Fiquei surpreso, e um tanto sem jeito, como sempre ficava perto deles — mas talvez isto mudasse agora que já não fossem meus alunos -, mas achei graça que Will se preocupou com a trabalheira que seria levar as coisas pesadas lá para baixo.
Eu não possuía muita coisa aqui, mas eu tinha ao menos um estoque de livros pesados. A mesa em meu quarto, um dos guarda-roupas, a máquina de lavar, a televisão e mais outros móveis eram meus. De resto, pertencia ao apartamento mobiliado.
Estávamos deixando tudo lá em baixo, sob os olhos do porteiro, enquanto esperávamos o caminhão da mudança chegar em um par de horas. Bastaria apenas um destes para levar todos os meus pertences, enquanto as coisas mais levianas levaríamos no carro com a gente.
Confesso que me sentia estranhamente vazio ao ver meu apartamento de quatro anos ser esvaziado.
— Poucos livros hein, professor? — brincou Gabe, com graça, quando começou a ajudar com estes.
— Eu preciso ter uma base de ideias para as longas horas de sofrimento de vocês — retruquei, fazendo-os rir.
Will balançou a cabeça, achando graça. — Ele tá doído com isto desde o dia da homenagem — dedurou-me, batendo o ombro no de Gabe.
— Calúnia! — reclamei, vendo-o jogar um beijo para mim. — Nem estou.
— Nem está — zombou, e aproveitei o momento para jogar meu travesseiro, de cima de uma das caixas, em seu rosto.
Will apenas me mostrou a língua, juntando-o em seguida.
— Eita, Will, que isso? — questionou Laurel, quando a gola do casaco movimentou-se para o lado com o travesseiro.
Quase me engasguei, segurando o riso, antes de olhar com rapidez ao redor para ver se Sarah não estava por ali. Com alívio, percebi que tanto ela quanto Caleb haviam descido mais uma vez, junto do Jay.
— Nada! — respondeu ele, rápido, tentando esconder.
Encarei Will, que estava virado em pimentão, desvencilhando-se das mãos brincalhonas dos amigos, e comecei a rir.
— Minha nossa! — exclamou ela, começando a gargalhar, quando o incomodou até que pudesse enxergar do que se tratava. — Caralho, vocês aproveitaram mesmo para se despedir ontem!
Novamente enxerguei o pescoço marcado, com certa admiração. Eu sou tão artista quanto o Jay!
— Meu, até na sua nuca! — comentou Gabe, rindo, ao enxergar a marca bonita que causei ali.
— Parece até que nunca mais vão se ver — acrescentou Louis, já avermelhado de tanto rir.
— Vai para a guerra, Sr. Turner? — perguntou ela, sarcástica.
Apenas ri, sem jeito, dando de ombros.
Dei graças a tudo que é mais sagrado quando Sarah, Caleb e Jay retornaram, porque sabia que mais nada seria comentado a respeito disto perto deles.
Will puxou o casaco novamente, para tapar ainda mais toda aquela região maravilhosa de se beijar com exagero. E ainda me olhou, com o rosto corado, balançando a cabeça como se desaprovasse tudo.
Não falei nada, mas quando estivéssemos sozinhos, eu me certificaria de relembrá-lo que ele não havia esbojado nenhuma reclamação quando o ato acontecia. Aliás, pelo contrário, lembro de ouvi-lo gemer e pedir por mais.
Deixei estar, por enquanto.
— Fazia tempo que não te via — comentou Louis, em algum momento, com a japonesa.
— É, vocês são os dois pombinhos que começam a namorar e esquecem dos amigos — intrometeu-se Will, com zombaria.
— Kaori, você também? — perguntou Laurel, seguindo na brincadeira de Will, fingindo choque, ao colocar um dos braços por cima dos ombros dela. — E eu que achava que só o Cenoura era desses.
— De novo isto? — reclamou o ruivo, parecendo cansado da zombaria, mas os amigos não pareciam se importar com isto.
— Você não pode falar de mim, Will, não você — disse a japonesa, com um sorriso de canto, apontando para ele.
— É, Will, você não pode — apoiei Kaori, assentindo, obtendo aprovação dos olhos puxados.
Will começou a rir, jogando-me o mesmo travesseiro que joguei nele. — Não se mete, Turner!
Ri, desviando do mesmo, antes de voltar ao trabalho.
— Eu já disse que adoro o seu cabelo? — perguntou Jay à Kaori, percebi quando ergui os olhos para os dois.
Ela riu, assentindo. — Já, algumas vezes — riu-se, puxando o fio do próprio cabelo liso para observá-lo com rapidez. — Mas é muito comum. Seus dreads é que são demais! — apontou, inclinando o rosto com um sorriso.
— Obrigado — disse ele, orgulhoso, ao mexer nos mesmos. — Você devia tentar um dia.
Revirei os olhos, achando graça, antes de vê-lo se aproximar de Caleb com certa rapidez.
Percebi que o garoto estava na caixa dos pertences do Jay — sim, havia uma caixa dos pertences dele em minha casa -, segurando um de seus quadros há um tempo.
— Não vai colocar fora, pelo amor de todos os deuses — pediu ele, para o garoto, que ergueu os olhos da pintura em mãos.
— Eu não ia — garantiu, confuso. — Eu só estava olhando.
— Esta belezinha pertence à mim — contou Jay, apontando para a pintura do corpo semi-nu de uma mulher. — Gostou dela?
Caleb desviou os olhos para a mesma, olhando-a por mais um instante, antes de sorrir para o Jay. — É muito bonita.
O rosto de Jay se iluminou, e ele sentou com graciosidade no sofá ao lado de Caleb, fisgado. Ri para mim mesmo, porque este meu artista não se aguenta depois de ouvir um elogio sincero desses.
— Se quiser ficar com ela, pode ficar — esbanjou, feliz, antes de focar os olhos castanhos em mim: — Rich não sabe apreciar minhas artes mesmo.
Revirei os olhos.
— Que mentira! — gritei, do outro lado da sala. — Você sabe que amo suas artes.
— De qualquer forma... — continuou ele, me ignorando, ao voltar os olhos para o Caleb: — Eu tenho muitas, então não tem problema que fique com alguma. Will me contou que você é um bom apreciador de arte — comentou ele, todo filosófico.
Caleb riu, sem jeito. — Eu gosto de desenhar, na verdade, mas achei bacana as suas pinturas.
— Ah, eu sou o contrário — compartilhou ele, girando a tela nas mãos. — Mas apreciar é diferente de curtir fazer — apontou, encarando o garoto com curiosidade, antes de se recordar de algo. — Eu exponho minhas pinturas e minhas esculturas às vezes em uma galeria de arte. Na próxima, eu peço para que o Will te leve junto — falou, animado.
Caleb piscou, assentindo antes de sorrir. — Ok, irei.
— Vai querer então? — questionou, referindo-se à pintura da mulher.
— Posso escolher outra? — tentou ele, puxando outra tela da caixa quando Jay assentiu. — Eu gostei mais desta.
Era a pintura de um rapaz, também nu, encolhido no canto de um quarto. Era muito semelhante à outra, sombria e sombreada, em tons de branco, cinza e preto, e eu as achava um tanto angustiantes.
Jay adorava e discursara por horas a respeito da beleza por trás dos medos e das angústias humanas, e o quanto era difícil retratar isto em uma pintura.
Caleb, aparentemente, parecia partilhar da mesma conclusão.
— Claro, é todo seu!
Pude ver que Sarah também observava a interação dos dois, com certa ternura, antes de pousar os olhos em mim. Sorriu mais discretamente, com certa afabilidade, antes de se aproximar.
— Está animado? — perguntou, com um sorriso.
Aproximei-me um tanto dela também, coçando a barba. — Não posso dizer que não — admiti, sorrindo.
— Que bom — disse, assentindo, pensativa. — Que bom. Fico feliz — acrescentou, mas tinha um tom melancólico em sua voz.
Ela usava um vestido florido e tinha os cabelos castanhos, soltos em ondas, desta vez. Parecia muito mais confortável e feliz consigo mesma desde que conhecera Theodore, o que me fazia pensar que ele tinha esse efeito em todos. Se Sarah estava feliz, os filhos também estavam.
Tomei um tempo para tentar desvendá-la, mas não pude.
— Há algo que a preocupa? — questionei, sério.
— Eu sou mãe, Richard — disse ela, soltando um riso, relanceando Caleb com a pintura soturna. — Sempre há algo que me preocupa. Sempre.
Deixei-me rir, acompanhando-a no processo.
Eu sabia que ela estava passando pelas mesmas dúvidas pelas quais Will e eu passamos, quanto ao nosso relacionamento e a distância entre a gente. Estava preocupada que Will saísse machucado por causa de uma decisão minha de ir para longe.
Eu, inicialmente, também estava. Custou-me, mas eu entrei em paz comigo mesmo, por saber que eu jamais o machucaria de propósito, e que se, em algum momento, eu tivesse que escolher entre um emprego novo e ele, eu certamente escolheria o Will.
— Mas... — continuei, analisando-a por um instante. — Há algo que eu possa fazer quanto à isto?
Ela pareceu pensar por um instante, relanceando Will, que gargalhava com os amigos, antes de voltar os olhos castanho-esverdeados para mim.
— Não — murmurou, sorrindo. — Na verdade, eu me pergunto se algo que eu possa fazer, caso você — enfatizou, calma — esteja preocupado.
Fiquei um tempo em silêncio, tentando descobrir se havia entendido de forma correta, antes de pousar os olhos em Will. E é claro que eu me preocupava por ele.
Suspirei.
— Me incomoda não estar aqui para manter um olho nele e me certificar de que está bem — confessei, quieto. Então, baixei os olhos para os dela, sorrindo. — Mas eu jamais pediria para que cuidasse dele, porque eu sei que sempre o fez.
— Ah, Richard... — Ela sorriu, pondo uma das mãos em meu braço. — Não se preocupe por Will, ele está cercado de gente que o ama. Mas... — Pausou, parecendo piedosa. — Quem é que cuidará de você?
Pisquei, ponderativo, mas optei por balançar a cabeça.
— Eu já sou crescido, Sarah — murmurei, sorrindo de canto. Me pareceu engraçado que ela soasse exatamente como a minha mãe.
— Eu também — brincou ela, arqueando as sobrancelhas. — E ainda assim eu preciso ter as pessoas que amo próximas à mim.
Engoli em seco, fraquejando por um instante.
— Ora, não se assuste! — acrescentou ela, rapidamente, quando percebeu que eu hesitara. — O que quero dizer é que... — Sorriu. — Espero que faça amizades rapidamente por lá.
Sorri também, um tanto fraco, mas Sarah me puxou para um abraço forte no mesmo instante. Retribuí, rindo pela surpresa.
— Não hesite em criar laços por lá, mas também não esqueça de visitar com certa frequência — pediu, em meio ao abraço. Assenti. — Estou torcendo por você e pelo seu sucesso.
— Obrigado. Não esquecerei — garanti, abraçando-a por mais um instante antes de nos afastarmos.
Ela sorriu de volta.
Minutos depois, ela teve que se retirar porque trabalhava em poucas horas. Caleb e Kaori aproveitaram para ir junto, após despedirem-se da gente e desejarem boa viagem. Laurel, Louis e Gabriel também não ficaram por muito mais tempo antes de se retirarem, não antes de deixarem claro que eu jamais teria melhores alunos que eles, o que achei uma graça.
Quando subi com o Will, após os deixarmos lá embaixo, encontrei Jay cercado do silêncio ensurdecedor do apartamento.
O céu havia se fechado lá fora, como se preparasse para um temporal, então o apartamente havia escurecido um tanto apenas no período em que descemos e retornamos. Jay estava de costas para a porta, tinha os ombros baixos, as mãos vazias e estava simplesmente parado, olhando ao redor do apartamento vazio.
Haviam algumas coisas fora do lugar de quando lanchamos, mas tudo que era importante já estava lá embaixo, então apenas restara as coisas que eu levaria no carro conosco.
— Jay?
— Hum? — resmungou, sem olhar para trás.
Relanceei Will, mas ele apenas alargou os olhos, também confuso, antes de se deslocar para a cozinha para nos deixar sozinhos, arrumando a bagunça que havíamos feito por lá.
— Você tá bem? — perguntei, me aproximando dele.
Jay piscou, deixando com que uma lágrima caísse, mas logo limpou o rosto com rapidez. Deixei um suspiro escapar, vendo que ele voltara a chorar.
Mais uma vez.
— Jay...
— Eu estou bem — garantiu, limpando mais uma vez o rosto, e me aproximei, mas ele não deixou com que eu o abraçasse. — Rich — pediu, alargando os olhos de forma cômica —, não me abraça senão eu vou chorar.
Comecei a rir, sem me aguentar, sentindo meu corpo chacoalhar pela risada, enquanto ele me olhava com incredulidade. — Mas você já está chorando, Jay!
— Não estou!
Ri mais um pouco, olhando para Will, que nos encarava da cozinha. — Will? — pedi por apoio, mas ele apenas voltou ao que fazia, como se não fosse com ele.
Jay inspirou fundo, se controlando.
— Eu acho que vou dar uma volta — optou por dizer, dando mais uma olhada melancólica ao redor. — Depois eu volto para me despedir de vocês.
— Não precisa sair, Jay... — tentei, mas ele negou.
— Preciso — garantiu, com a voz falha, dando as costas.
Suspirei, vendo-o se afastar, mas antes que ele alcançasse a porta, parou por um instante. Inspirou e expirou algumas vezes, antes de girar o rosto na minha direção, os olhos avermelhados me encarando.
Então, se aproximou a passos largos.
Soltei um resmungo fraco quando o corpo forte de Jay trombou com o meu, em um abraço que quase me sufocou, envolvendo-me em sua colônia comumente doce. Senti-o fungar, quando o abraço se demorou por mais tempo que pensei, então também o apertei contra mim um pouco mais forte, deixando um beijo estalado em seu pescoço ao afagar seus cabelos estilosos.
— Eu sei, Jay — murmurei, sem que ele precisasse dizer nada. — Eu sei.
Jay assentiu, mecanicamente, e me ficou grudado em mais por mais alguns segundos antes de me soltar e dirigir-se para a porta mais uma vez.
Desta, no entanto, passou por ela e fechou-a em um clique silencioso.
Inspirei fundo, encarando a madeira por um tempo, no silêncio calmante do apartamento, sentindo-me subitamente pesado. Apenas quando vi os grandes olhos verdes me encarando de perto, percebi que Will havia se aproximado de maneira silenciosa.
— Você está bem? — perguntou, com os olhos piedosos, embora ainda parecesse calmo.
Aliás, o tempo todo, de maneira surpreendente, parecia calmo.
Durante todo o último mês apenas me ajudou com o que eu precisava, escolheu comigo o apartamento em Lydris, encheu-me de apoio, o que também significava que confiava em mim e também em meu futuro.
Me parecia que Will entrou em paz com a situação ainda antes que eu.
— Você está? — questionei, inclinando a cabeça para observá-lo.
Will me encarou por um instante, como se percebesse que eu evitara a pergunta, mas pareceu relevar. Ponderou por um momento antes de sorrir.
— Na verdade, estou sim — respondeu, confirmando o que eu inicialmente pensara. — Vou sentir falta de te ver pelos corredores do prédio, e vou sentir falta desse apartamento. Tenho algumas memórias boas aqui — comentou, ao dar uma olhada ao redor. Sorri para isto. — Provavelmente vou chorar uma vez ou outra quando eu vier visitar o Jay e ver o seu apê ocupado por outro — riu, sem graça, coçando os cabelos. — E vou sentir a sua falta, acima de tudo, mas... Eu não vou te perder — concluiu, com os olhos grandes fixos nos meus. — Aliás, é você que está trocando roupas velhas por novas — metaforizou, com um sorriso. — Então isto é ao seu respeito. Como se sente?
Me aproximei dele, de forma lenta, com o coração pesado.
— Com saudade — murmurei, colando a testa na dele, com um riso.
— Mas você ainda nem foi — riu, achando graça.
— Eu sei, mas já estou com saudade.
Abracei-o com carinho, sentindo-o colar em mim ao circundar meu corpo com seus braços, de maneira semelhante à minha. Fungou em meu pescoço, e eu levei meus dedos ao dele para acariciar a região com leveza.
O abraço tranquilizante durou mais tempo do que pensei, só nós dois, até que as batidas dos corações sincronizassem umas com as outras.
*
A chuva começou a cair inesperadamente.
Dei uma boa olhada no espaço vazio à nossa volta, com exceção da mobília. A varanda totalmente à vista já que as cortinas, compradas por mim, foram retiradas; a sala já sem o tapete, sem a televisão e sem os livros que costumavam ficar na estante; e as paredes completamente vazias.
Relanceei o sofá, com um sorriso, antes de me virar para o Will, que me observava com os olhos atentos, fechando sua mochila após estar tudo pronto.
— Nós realmente temos boas memórias aqui — comentei, recordando-me do que ele dissera minutos antes. Apontei para o sofá. — Foi ali que percebi que não tenho autocontrole perto de você.
Will sorriu, soltando um riso ao se recordar.
— Tá falando da primeira vez que você me trouxe aqui? Bêbado? — questionou, divertido.
Assenti, relanceando-o com carinho antes de olhar para o sofá mais uma vez.
Will é magro, mas ele não é tão leve, e naquela vez eu tive que trazê-lo do estacionamento até aqui, com muita dificuldade.
Lembro que ainda fiquei alguns instantes parado no meio da sala, com ele nos braços, pensando se o deitava na minha cama ou no sofá. E depois ainda fiquei horas observando-o dormir, com medo que ele acordasse assustado, sem saber onde estava, ou que passasse mal de madrugada devido ao abuso do álcool.
No fim, só consegui dormir um pouco depois que o Jay entrou de súbito no apartamento. Ele ficou de olho no Will enquanto eu adormecia por um par de horas.
Pisquei, voltando-me para ele antes de apontar para a bancada na cozinha. — Falando em primeira vez, foi ali que começou a nossa.
Will sorriu, assentindo. Piscou um dos olhos de forma graciosa antes de completar: — E foi no quarto que terminou.
Girei o rosto para ver a porta que dava para o quarto antes de fixar os olhos nos verdes.
— Também foi nele que te contei sobre o meu passado — apontei, perdendo um pouco do sorriso.
Will também perdeu o humor, descendo os olhos para o chão ao lado do sofá, que depois eu perceberia ser onde eu havia deixado as malas da última vez. — E foi aqui na sala que você me contou que voltaria até lá — murmurou, melancólico pela memória.
Nos entreolhamos rapidamente antes que eu desse alguns passos para me aproximar dele, com o coração apertado.
Eu não sei o que se passava pela sua cabeça, mas pela minha, eu repassava as similaridades entre hoje e aquele dia, cerca de seis meses atrás. Afinal, eu estava com as malas prontas mais uma vez para me afastar do Will de forma inesperada. Tivemos alguns meses para nos prepararmos, mas a ideia surgiu em um momento inesperado também, pegando-nos de surpresa.
Encarei o rosto formoso, desde os grandes olhos verdes até os lábios entreabertos. Os cabelos claros cobriam-lhe as orelhas e as sardas, como acontecia na luz do dia, estavam visíveis como pontos em um mapa, mesmo que o tempo estivesse ruim lá fora.
O mapa mais lindo.
— Sabe que na cozinha foi a primeira vez que admiti ao Jay que estava me apaixonando por você? — contei, desviando o assunto pesado.
Levei uma mão para acariciar-lhe o rosto, sem resistir.
As sobrancelhas arquearam-se em surpresa, e ele pareceu me analisar por um momento para ver se eu falava sério.
— É mesmo? — perguntou, por fim, girando o rosto para encarar a cozinha como se pudesse ver. — Quando?
— Depois da primeira vez que você faltou o plantão.
Will voltou os olhos verdes para mim, piscando algumas vezes como se para recordar, e então sorriu. E o sorriso apenas aumentou ao passo que ele digeria as palavras.
— E nem foi de propósito — murmurou ao recordar-se, estudando meu rosto com curiosidade. — Você sentiu a minha falta daquela vez? — questionou, encantado, ao inclinar o rosto.
— E todas as seguintes — acrescentei, olhando-o com carinho.
Deixei um beijo rápido por seus lábios, levando uma mão para fazer carinho nos seus cabelos. No entanto, Will não conseguiu deixar a questão de lado, como se fosse a coisa mais bonita que havia ouvido em muito tempo.
— Eu não acredito que você sentiu minha falta daquela vez!
Ri, puxando-o para um abraço. Will o aceitou, fechando os braços em meu entorno.
— Como que não, Will? — perguntei, deixando um beijo em seu pescoço marcado. — Era óbvio que você já me tinha nas suas mãos. Eu não conseguia disfarçar nem para mim mesmo, quem dirá para você!
Will soltou um som pelo nariz, abismado.
— Bom, eu não sabia — repetiu ele, e eu quase podia ver um beiço, como se eu devesse ter contado no dia. — Não até logo depois disto, quando você deu a entender que eu sou o yin do seu yang e quase me roubou um beijo no meio da universidade — provocou ele, gracioso.
Gargalhei, me afastando para olhá-lo nos olhos.
— Quase mesmo — concordei, roçando o nariz no dele. — Eu ainda não sei como é que consegui me segurar. — Então, sorri com diversão. — Você estava lá, todo corado, de olhos fechados, todo ares de “me beije” e eu só...
— Cala a boca, idiota! — reclamou ele, envergonhado ainda pela cena vivida, ao se afastar um pouco. — Nem estava nada.
— Estava, sim — insisti, rindo ainda mais. — Eu juro até que vi um biquinho — acrescentei, demonstrando um com a minha boca.
Will soltou um arquejo indignado, sem se aguentar ao rir logo após.
— Calúnia! — exclamou, deixando um tapa não exatamente fraco em meu braço. Me afastei, esfregando-o, ao dar alguns passos para trás. Will estreitou os olhos. — Vou te mostrar quem é que pede beijo, vem cá! — provocou, mas eu corri para trás do sofá.
Will pegou a almofada e jogou na minha cara. Ri ainda mais, vendo-o fazer o mesmo antes de me mostrar a língua feito uma criança emburrada.
Ficamos nos encarando, travando o riso, eu parado em um lado do sofá e o Will no outro. Observei a covinha afundar-se em sua bochecha, com admiração, recordando-me daquele mesmo dia. Só que a expressão de Will, mais de um ano atrás, não era apenas risonha, era maliciosa.
Céus, como eu me perdia quando ele fazia isto!
— Tá, fecha os olhos — pedi, subindo no sofá e parando na frente dele.
Ele riu, franzindo o cenho com estranhamento. — O quê?
— Nós vamos recriar aquela cena — informei, tentando passar seriedade, estufando o peito. — Eu vou fazer aquele beijo acontecer.
Will riu mais uma vez. — Aqui? — perguntou, se referindo ao apartamento.
Dei de ombros. — Sim, aqui. — Inclinei o rosto com humor. — Nós estamos na universidade.
— Fala sério! — Riu, dando-me um empurrão fraco.
— Estou falando — repeti, fechando a mão em sua camisa para puxá-lo mais para perto. — Venha. Me provoque — pedi, com um sorriso arteiro. — E lembre de fechar os olhos.
Will me analisou por mais alguns segundos antes de ceder, embora ainda parecesse divertido.
— Ok, te provocar como?
— Seja criativo. — Pisquei um dos olhos.
Will ponderou por um instante antes de sorrir largamente, os olhos tornando-se pecaminosos. Em meio segundo, puxou a própria camisa pela cabeça e jogou-a no chão, arqueando uma das sobrancelhas, como se perguntasse: assim tá bom?
— Will! — repreendi, tentando segurar o riso. Olhei para os lados para encenar. — Está maluco? Nâo pode tirar a roupa assim, na universidade, com todo mundo olhando.
Will ainda me encarou como se me achasse ridículo na arte de atuar antes de gargalhar. Ri também, revirando os olhos por ele estar estragando nosso momento.
Ele negou assim que suspendeu o riso. — A universidade estava vazia naquela tarde.
Franzi o cenho, ainda sorrindo, ao piscar.
Não me lembrava disto, apenas que já iria escurecer e que ele havia ficado a tarde inteira na minha sala, até o Sr. Edwards entrar pela sala, o que acontecia quando ele finalizava todas as aulas do dia.
Sorri com carinho, surpreso que ele lembrasse. — Estava?
Will assentiu, os olhos tornando-se mansos ao me fitar.
— Estava.
— Eu não lembro do arredor — admiti, observando os olhos verdes —, eu só lembro de você. — Will sorriu mais uma vez, com certa calma. — Só de você.
As pessoas costumam dizer que o sentimento muda ao longo de um relacionamento. Já ouvi dizer que as pessoas se cansam umas das outras, ou que ficam entediadas, ou que mudam com o tempo e não se gostam mais.
Mas eu olho para o Will e sinto exatamente a mesma coisa.
A diferença entre agora e um ano atrás é que não há o medo de me aproximar e tê-lo me rejeitando, não há a curiosidade de saber qual o gosto dos seus lábios porque eu já os conheço, não há a insegurança de que ele me abandone ao me conhecer direito, porque agora ele já sabe tudo sobre mim.
As diferenças estão ali, e mais mudanças virão, mas eu acho que quando você ama de verdade a pessoa que faz seu mundo parar, uma vez que você já a conhece em profundidade, com o tempo você só tem que aprender a identificar o sentimento que permaneceu desde o primeiro instante e destacá-lo dentre todos os demais.
E continua ali, latente, potente, permanente.
Uma força que nos aproxima como um íman, mesmo quando queremos nos afastar.
E, como se tivesse consciência e me entendesse, meu corpo acabou aproximando-se mais de Will ao passo que ele também apressou-se em minha direção até que eu pudesse sentir sua respiração na minha boca.
Ficamos nos admirando por um tempo, como duas obras de arte compartilhando o espaço de uma exposição.
O cenário era vazio, o que o tornava peculiarmente sonoro, completando a excentricidade do local. Um apartamento desabitado que, apesar de haver me causado um coração apertado por deixá-lo, ainda assim era apenas um imóvel sem importância.
O que é importante eu não sou capaz de perder.
O que é significantemente importante, de fato, também é eterno em minhas memórias.
— Ok — murmurou Will, manso, quebrando o silêncio —, o que eu tinha dito mesmo?
Pela primeira vez, pareceu levar a sério a história de reencenação do nosso quase beijo. Sorri para isto, sob o olhar das orbes verdes enamoradas.
— Algo sobre eu amar o seu nome — lembrei, porque quando ele me acusou desta façanha, eu percebi que era verdade pela primeira vez. — E eu amo.
Will revirou os olhos, estalando a língua.
— Tá, mas e depois?
Pensei por um instante, observando as pintinhas concentradas que começavam nas maçãs do rosto e terminavam na ponta do nariz.
— Eu disse que nunca pararia.
— Sim — murmurou, franzindo o cenho —, mas de quê?
— De te amar — falei, roçando o nariz no dele com ternura.
Will riu, me empurrando um pouco para longe. — Não foi isso!
Ri também, mas entrei no jogo.
— Ok — cedi, sorrindo —, você me perguntou quando eu pararia de ser o chato reclamão que sou.
A compreensão passou por seu rosto, e vi que ele se recordava.
Assentiu, achando graça.
— Ah, certo, os sermões — riu-se, e eu o acompanhei. — Você disse que só pararia quando eu parasse de ser o cara de pau que sou.
Sorriu-se, arteiro, como se aquilo fosse motivo de um orgulho pessoal. Como se provocar seu professor universitário a ponto dele arrancar os próprios cabelos para não cair na armadilha do amor — e vê-lo caindo toda vez — fosse uma realização própria.
Gargalhei, gostando mais dessa interpretação cheia de intimidade do que da versão original. Levei uma mão aos seus cabelos, deixando um beijo casto em seu nariz.
— E você disse “nunca” — murmurei, lembrando-me perfeitamente dessa parte.
A voz dele ainda reverberava em minha cabeça, naquela sentença aparentemente inocente, mas poderosa o suficiente para que me abalasse por dias e eu jamais me esquecesse.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Aquilo havia me marcado, e havia marcado um ponto decisivo para mim.
Lembro de haver sentido uma mistura de alívio e desespero quando ele deixou claro que não mudaria, e eu sabia que nem tampouco eu.
Era como se ali, naquele instante, Will houvesse desenhado uma linha, um espaço-tempo para a gente, como a cláusula na lei da nossa atração. Era como se ele evidenciasse que não tínhamos chance alguma contra o que sentimos e contra o destino que nos uniu.
E eu o amei por isto. A minha consciência, no entanto, quase explodiu.
Naquele momento, naquele espaço-tempo, eu compreendi — embora viesse a duvidar novamente depois — que eu não podia e nem devia me sentir culpado por aquela conexão entre a gente. Pelo contrário, eu me senti conformado de que não havia nada que eu pudesse fazer para quebrar o vínculo entre nós dois.
Nenhum de nós era forte o suficiente para isto, e ele me garantiu com aquela simples palavrinha.
Ele não pararia de infiltrar-se em meu ser porque isto faz parte de quem ele é. E eu inicialmente não admitiria, mas quem eu sou jamais conseguiria afastá-lo por completo.
Will sorriu, levando ambas as mãos para o meu rosto para que eu o olhasse nos olhos.
— Você disse que nunca também, Turner — declarou, baixo, perdendo o sorriso ao tomar uma expressão quase melancólica.
Grudei-o ainda mais em mim, com a testa grudada na dele, ao observá-lo inquietar-se nos meus braços. Abriu e fechou a boca algumas vezes, fechando os olhos.
— É verdade? — perguntou, por fim, em um sussurro.
Franzi o cenho, tentando desvendá-lo da forma como sempre me empenhava desde que o conheci.
Estaria ele perguntando se eu jamais deixaria de ser quem eu sou? Ou talvez que eu jamais o impediria de ser quem é? Ou, ainda, estaria ele me perguntando se eu jamais deixaria de amá-lo?
Inspirei fundo, fechando os olhos também.
— Sim — respondi, sabendo que a resposta para qualquer das perguntas seria esta. — É verdade, sim, anjo.
Inclinei o rosto para fechar o espaço entre nós, seguindo apenas o instinto que tanto queria beijar-lhe durante todos os encontros anteriores.
Podia sentir seu coração batendo contra o meu, como se ambos entrassem em sincronia com a chuva que começava a tomar força do lado de fora, como se apenas existisse por nossa causa.
Encostei os lábios nos dele, aprofundando-o o suficiente para saciar aquela necessidade que sentia no calor do meu peito.
O mesmo gosto.
O mesmo aroma.
O mesmo sentimento.
E, por um instante, senti como se também fosse o mesmo cenário. Como se sempre fosse o mesmo cenário, em todos os beijos, apenas nós dois em um espaço-tempo à parte deste mundo.
Um espaço-tempo que existia apenas para nós, e apenas conosco, que nos transportava para longe daqui.
Senti o gosto salgado de lágrima, embora eu já não soubesse de qual dos dois proviera, antes de mover os lábios molhados nos dele até que sentisse sua língua calorosa na minha.
As mãos deslizaram com uma delicadeza memorável pelas minhas costas conforme eu desempenhava o mesmo em seu corpo já despido no tronco. E, como se lesse meus pensamentos, Will trouxe os dedos ágeis à minha camisa e a retirou de mim.
Abri os olhos apenas para contemplá-lo na luz escassa do dia chuvoso, e fechei nossa distância mais uma vez. Limpei seu rosto com o polegar antes que ele o afundasse em meu pescoço, beijando-o com carinho. Tracei as marcas de seu pescoço com o dedo como se a memorizasse e o senti encolher-se pelo arrepio, pressionando minhas costas no processo.
A porta destravada, a varanda descoberta e o tempo limitado antes da viagem não pareceram importar. Nem mesmo o fato de que isto não é uma despedida, ou de que iríamos viajar e passar um tempo à sós ainda hoje, ou de que tínhamos todo o tempo do mundo eram relevantes.
No fim, aquela não era uma despedida da gente, ou do apartamento, ou de quem eu sou e da vida que eu levo.
Era uma despedida deste capítulo da minha vida.
O mês inteiro havia sido uma despedida, desde o meu último dia na universidade até o meu último dia como morador desta cidade.
E, ao passo que sentia os lábios molhados de Will por sobre a minha pele aquecida, seu coração batendo forte contra o meu e os olhos verdes encantados nos meus, eu soube que não poderia pedir por um desfecho mais bonito.
Esta seria uma bela última memória do meu prévio lar.
Will, em algum momento, curvou os lábios avermelhados em um sorriso travesso.
Aquele sorriso.
Aquele sorriso perfeito que tornara esta história, a nossa história, possível.
O garoto dos olhos verdes afastou-se, com a sobrancelha arqueada e os olhos arteiros por sobre mim, como se me desafiasse a não cair em seu encanto pela primeira vez. E para mim, estava óbvio que eu cairia.
Ele me testava, explorando a força e a frieza que não se encontravam neste corpo, porque não é como se eu fosse feito de ferro.
E quando meu corpo começou a aquecer pela prévia da paixão incandescente, e meu coração tornou a bater forte como se quisesse se juntar ao dele e, ainda, na minha barriga se instalaram mil borboletas, como se eu houvesse acabado de lançar vôo, me ocorreu do contrário.
Sorri, travesso também, antes de avançar nele.
Não, eu não sou feito de ferro.
Eu sou feito de fogo.
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