Made of Fire

62 Especial — Congelados no tempo


Notas iniciais
Gente linda, gente boa, gente bela! Meus panditores primogênitos ♥ SIM, VAI TER TEXTÃO (porque faz 1 ano, gente, tenho que elucidar algumas coisas): Eu sei que eu empaquei feio, empaquei rude, e sumi por MUITO tempo. Aliás, última atualização de MOF, pra ficar registrado antes que isto mude foi: 17/06/2019 às 01:32. Mais de um ano atrás. Sinto muito, de verdade T.T Eu tô começando outra etapa da minha vida, então achei que o mais justo seria finalizar algumas que ficaram esquecidas atrás. Esse capítulo tava semi pronto há MUITO tempo, mas eu queria finalizar o epílogo também, então acabei deixando e deixando e deixando. Queria fazer playlist de MOF, queria fazer uma pasta no Pinterest, queria MUITA coisa, muita coisa impedindo que eu finalizasse essa história e talvez fosse bem psicológico mesmo e eu estivesse me auto sabotando esse tempo todo haahhahahaha. Sorry. Eu NÃO finalizei o epílogo ainda, mas eu espero que postando o último EXTRA especial me incentive a terminar logo para finalizar MOF, por fim. Espero que perdoem minha demora 3 ENFIM, SOBRE O CAPÍTULO: Este EXTRA é mais do que especial, porque além de ser o último extra, eu trouxe cenas anteriores “deletadas” HAHAHAHAH. Sim, isso mesmo. Eu tô achando que isto aqui é uma série ou um filme da Hollywood. 2 bjs. Eu complementei todas elas, porque estavam incompletas (claro né, tinha deixado de lado por algum motivo), mas o esqueleto é o mesmo. IMPORTANTE: Eu as coloquei em ordem REGRESSIVA! Isto é, vocês vão ler e aos poucos (a cada cena) vão voltando para o início da história, como uma viagem no tempo ♥ O final vai ser o começo. Boa leitura! ♥

1. De todos os caminhos do mundo, logo este

A noite estava fria, contrariando o resto do dia.

Apesar disto, a janela estava aberta, a privacidade confiada na segurança da cortina que a cobria. O quarto estava quente, como se nossos dois corpos emanassem a respectiva quentura para o cômodo ao redor. O cheiro de sexo, ainda presente, só teria chance de se esvair por completo assim que se esvaísse dos dois homens abraçados nesta cama de solteiro.

Sorri para isto, satisfeito de uma maneira distinta.

Não sei quantas vezes eu tive o corpo perfeito do Will em meus braços, desta forma, e embora pensasse que não haviam sido vezes suficientes, eu também sabia que já havia se passado quase duas semanas desde a primeira vez. Era muito tempo para tão pouca sensação de tempo.

Eu estava tão perdido nos meus próprios pensamentos confusos e na sensação boa que se espalhava por cada pedaço do meu corpo, que sequer percebi que Will fazia o mesmo.

Notei o silêncio absoluto apenas quando Will o quebrou.

— Então... — começou ele, a voz revelando timidez ao mexer nos pêlos do meu peito, interrompendo minha mente cheia. — Você é como eu?

Abracei-o instintivamente ao ouvir sua voz, deslizando os dedos por seu braço, em seguida.

Franzi o cenho, mas não pensei muito antes de murmurar: — Como você?

Will ajeitou-se, apoiando o queixo no meu ombro e erguendo os olhos verdes para mim quando os baixei para ele. — É — confirmou, um tanto baixinho —, você sabe, gay.

Percebi que o termo saiu em um tom de voz mais agudo, como se não soubesse como pronunciar a palavra, e imaginei que não a pronunciasse com frequência.

— Ah. — Voltei atrás, recordando-me da pergunta. — Hum... Não acho que eu seja, Will — confessei, um tanto receoso sobre o que ele pensaria a respeito. — Eu realmente já me senti atraído por mulheres. Aliás, eu nem sabia que eu podia me atrair por você também — falei, apertando-o contra o meu corpo.

Will ficou em silêncio por um tempo antes de pronunciar um simples “ah”.

Pisquei, tornando a mirá-lo. — Está chateado?

— Não — respondeu, sincero. — Só estou curioso. Não sei como é se atrair por mulheres.

Fiquei mais tempo do que planejava em silêncio, a mente rodando e rodando em torno de sua última proclamação.

— E a sua ex? — perguntei, também curioso. — Vocês não transavam?

Nem percebi a pergunta indiscreta até Will remexer-se desconfortavelmente em meus braços, sem jeito.

— Isso é pergunta que se faça? — Ri sem jeito, pedindo desculpa, mas ele respondeu assim mesmo: — Sim, a gente transava, mas...

Fechou a boca, deixando a frase morrer.

— E como conseguia se não se sentia atraído por ela? — interrompi, na pausa longa que ele fez, no que parecia pensar sobre como continuar.

— Sei lá, eu... — Suspirou. — Eu me concentrava, tipo, nos beijos e, enfim, nas sensações... — Ri novamente, levando um beliscão como recompensa, do seu jeito envergonhado de relatar. — Eu não sei explicar. Eu só... Eu conseguia fazer e sentir e eu não me permitia pensar que não era aquilo que eu queria. Na verdade, eu não me permitia pensar em nada, só me concentrar no que fazia — optou por dizer, e o senti dar de ombros contra o meu.

Não ri dessa vez, sentindo-me triste com o relato, ao apertar o corpo, mesmo inconscientemente, contra mim. Queria protegê-lo destas imposições absurdas as quais a sociedade joga na cara de gente como a gente. Como se não fôssemos normais, como se o normal fosse fingir até sentir, apesar da segunda parte nunca vir.

— Isto é triste — limitei-me a comentar, pesaroso.

Will demorou um tempo ainda antes de murmurar baixinho: — É...

Suspirei, acariciando suas costas.

— Sexo é algo... — comecei, com os olhos no teto mas sem enxergá-lo. — É um compartilhamento de emoção, de sensação, de prazer. E apesar de não exigir que fiquemos pensando nas consequências, no futuro, em valores ou regras que estejamos quebrando; ainda assim precisamos focar na pessoa com a qual estamos. É a única regra. Devia ser a única regra — acrescentei, rapidamente. — Dar tudo de si para a pessoa com a qual está naquele momento. Mesmo que não esteja apaixonado ou que a ame, mesmo que seja uma pessoa com quem você cruzou na rua no mesmo dia. Ao menos naquele momento, vocês são um só e isto devia ser só o que importa.

Will permaneceu em silêncio, embora eu pudesse sentir seus dedos pressionarem um pouco mais minha pele, como se fosse instintivo. Apertei-o contra mim mais uma vez, baixando os olhos para ele, mas vendo-o encarar meu peito com a cabeça longe daqui.

— É triste pensar que há muitas pessoas, neste exato momento, fazendo o que você costumava fazer — comentei, baixinho, observando as sardas em seu nariz. — Se entregando sem se entregar. — Will ergueu os olhos para mim. — Aliás, pelo contrário, perdendo um pouco da sua essência.

Ele assentiu, piscando algumas vezes com uma faceta triste antes de murmurar, com um brilho esperançoso no mar verde: — É, mas eu gosto de pensar que essas pessoas... Ou a maioria delas — corrigiu —, ainda assim, vai se encontrar algum dia. — Roçou o nariz em meu queixo. — Da mesma forma como eu me encontrei.

Sorri, satisfeito que ele tenha tirado um lado bom do meu monólogo pesaroso, antes de inclinar-me para beijá-lo. Will sorriu contra os meus lábios, ajeitando-se ao virar ainda mais o corpo na minha direção, ao passo que eu fazia o mesmo.

Fiquei encarando os detalhes de seu rosto por tempo suficiente para deixá-lo constrangido uma vez mais. Desviou o olhar para o outro lado do quarto, escondendo uma careta, mas eu a vi.

Ri baixinho, deixando um beijo no topo de seus cabelos.

— E você nunca desconfiou que gostasse de homem também? — prosseguiu ele, como se para não mergulharmos no silêncio novamente. — Sério? Tipo, nunca mesmo? — especificou, com estranhamento, antes de focar os olhos em mim.

Se eu nunca desconfiei?

Alguns flashes de meu passado rodaram minha cabeça, como se gritassem verdades que muito evitei encarar. Fiz uma careta, mas soltei um riso pelo nariz.

— Bom... Eu acho que sim. Eu já cheguei a desconfiar — admiti, e Will riu, convencido.

Ergueu o rosto para apoiá-lo em sua mão, subitamente animado. — Me conta mais sobre isto — pediu, com súplica no olhar.

Ri, encarando-o com humor.

— Ah, eu acho que já tinha beijado um rapaz, ou talvez mais de um — corrigi, forçando a memória —, quando eu era mais novo. — Will franziu o cenho, mas expliquei, com um riso: — Eu lembro de ter uma vaga lembrança disto, junto da dor de cabeça, no outro dia...

Ele arqueou as sobrancelhas. — Bêbado?

Hesitei.

— Talvez mais do que isto — revelei, me referindo às drogas. — Foi na minha época sombria. — Senti meu sorriso vacilar ao recordar-me dos flashes. Balancei a cabeça, focando os olhos no rosto encantador à minha frente. Sorri mais uma vez. — E eu também tive minha época de curioso.

— Época de curioso?

Assenti, com um sorriso brincalhão. — Quando eu era adolescente, e estava curioso com relação ao sexo em si, e via revistas e vídeos na internet...

— Existia internet na sua época? — provocou, e eu estreitei os olhos.

— Credo, Will! — reclamei, e o Will gargalhou. — Não brinca com isto. — pedi, sério, mas com certa diversão. — Não é engraçado. Que idade você acha que eu tenho? — questionei, retoricamente, o que já causou mais risos nele. — Enfim, eu vi alguns vídeos de sexo gay — confessei, meio sem jeito, mas isso apenas pareceu encantar ainda mais o garoto dos cabelos emaranhados. — Mas eu achei que era bobagem da minha cabeça ter gostado — acrescentei, balançando a cabeça. — Afinal, eu também tinha gostado dos vídeos héteros, não? — questionei o que havia sido uma pergunta minha da época. — Então eu só podia ser hétero.

Olhei-o de canto de olho, nu ao meu lado, e achei graça na divergência daquele passado tão distante e a realidade de agora.

Will pareceu pensar o mesmo, soltando um riso.

— Claro — concordou, risonho, como se compreendesse de verdade essa linha de pensamento. — E o que mais? — pediu, mexendo na minha orelha.

Inclinei minha cabeça automaticamente em sua direção, pensando no que mais havia para não revelar a primeira coisa que havia brotado em minha mente desde o início dos questionamentos de Will, mas não havia mais nada.

Nada além daquilo.

Remexi-me, olhando-o de canto.

— Bom... — comecei, pensando se contava ou não, e achando que a melhor opção seria não, nunca, jamais. Ainda assim, me peguei revelando: — Também teve um lance com o Jay.

Esperei pela bomba.

O quê?

Will chegou a erguer o tronco para me olhar com mais facilidade, e eu fechei um dos olhos, como se houvesse feito algo muito errado.

Apesar de tudo, arrisquei olhá-lo, com um sorriso amarelo.

— Você teve algo com o Jay? — verbalizou, os olhos alargados como se fossem sair das órbitas, e um minúsculo sorriso em seu rosto, como se ponderasse se era brincadeira.

— Não! — Ri, nervoso. — Não, eu não tive “algo” com o Jay, eu só...

— Vocês ficaram? — interrompeu, o rosto flutuando em cima do meu de forma bonitinha. — Vocês se beijaram? Transaram? Namoraram?

— Will, deixa eu falar — pedi, rindo. Will ainda tinha os olhos esbugalhados, mas fechou a boca. — Eu... Nos beijamos — admiti, com rapidez, como se para arrancar o band-aid. Deixei o ar sair pela boca como se eu o segurasse. — Foi um beijo, ok? — garanti, frisando o "só". —Recém tínhamos nos mudado para cá, e o Jay estava animado, ia em muitas festas, fazendo mil amizades, e andava sempre bêbado. E um dia me arrastou com ele, então bebemos juntos.

Will piscou, atento, embora as comissuras de sua boca permanecessem erguidas como se preparasse para rir. Ergui eu corpo também, apoiando o peso no cotovelo, para contar melhor.

— Eu lembro que bebi muito porque era o meu primeiro semestre na universidade e estava sendo um porre. Eu estava sobrecarregado, estressado, e lamentando sobre ser um péssimo professor — contei, com uma careta, ao recordar-me. — Então chegamos em casa, bêbados, e assim que Jay lamuriou sobre nunca encontrar o amor da vida dele, eu o beijei — revelei, contorcendo o rosto em culpa.

Will permaneceu com os olhos alargados, o sorriso dissipando ao passo que os olhos aumentavam de dimensão. Eu ri, nervoso.

— Foi um impulso, eu... — Suspirei. — Eu estava bêbado e eu não aguentava mais vê-lo chorar. Mas a gente se deu conta do erro colossal e parou. Então foi só um beijo mesmo. — Dei de ombros, observando as orbes lindamente esculpidas por um deus. — Will!

Will deixou-se cair ao meu lado novamente, com os olhos ainda alargados, em completo choque. Ri ainda mais, observando-o com carinho.

— Eu não acredito — murmurou ele, como se fosse uma notícia bombástica, os olhos no teto.

— Não foi nada demais — garanti, porque não havia sido mesmo.

— Deixa que eu decido isto — pediu, estreitando o olhar, ao virar o rosto para mim ao sair do estado de choque. — Foi com língua? Quanto tempo durou? Teve... — Pausou, e desta vez assombro passou por seu rosto. — Mais?

Desviei o olhar, desconfortável.

— Você quer detalhes? — questionei, chocado, com uma careta. Eu jurei nunca mais falar nisto, e agora ele queria detalhes. — Não teve “mais” — apressei-me em garantir, fazendo as aspas com as mãos, para acalmá-lo. — Foi só um beijo.

Will pareceu aliviado, mas continuava curioso. Virou-se para mim. — Tá, mas quem parou?

Fechei os olhos, com uma careta.

— Ele parou — confessei, constrangido.

Se dependesse de mim, naquele estado de embriaguez, a noite não haveria acabado ali, na minha sala de estar, com rápidas trocas de saliva.

Graças ao universo, o meu melhor amigo é um rei da sensatez.

— Porque você recém se dava conta de que gostou muito de beijar um cara e queria continuar até o fim? — questionou, deduzindo, e eu arqueei as sobrancelhas.

Relaxei o rosto, sorrindo, com a linda constatação de que Will já me conhecia tão bem em tão pouco tempo.

— Sim. — Fiz um carinho em seu rosto, encantado, antes de finalizar: — Mas depois nós combinamos que jamais falaríamos sobre isto de novo, porque foi muito, muito estranho. — Contorci o rosto em uma careta ao relembrar. — Jay é meu irmão.

Lembro da sensação de náusea do outro dia, que apenas aumentou quando recordei o que havia acontecido. A sensação fria em meu peito sobre haver passado dos limites com o Jay, completamente diferente da quentura que sentia ao passar dos limites com o Will. Um arrependimento na boca do estômago que me fez vomitar ainda mais naquela manhã.

Porém, uma vez mais, Jay era incrível demais e eu não o merecia. Apesar do constrangimento, foi ele quem apareceu por lá, iniciou o assunto e disse que estava tudo bem entre a gente, e que não precisávamos falar nisto outra vez.

Se fosse qualquer outra pessoa, pudesse ser que nem mesmo aquela conversa fosse o suficiente para alinhar uma amizade de novo. Mas Jay não era e nunca foi qualquer um.

Will assentiu, compreensivo.

— Eu nunca iria imaginar que vocês se beijaram um dia — confessou, perdido em pensamentos.

— Porque não devia — apressei-me em dizer, com um riso baixo quando ele sorriu para mim. — Isto não aconteceu.

Will assentiu mais uma vez, respeitoso.

— Então como que, depois disto, você continuou achando que era hétero? — questionou, uma ruga entre as sobrancelhas.

— Ah, sei lá, Will — respondi, sincero, atirando-me ao seu lado com um suspiro. — Você sabe o quanto é complicado ser diferente da forma como somos. Eu suponho que eu só não quis mais um problema e optei por ignorar que isto acontecia. Continuei saindo apenas com mulheres, e nunca mais pensei nisto, porque... — Ponderei por um instante. — Bom, para ser sincero, porque era fácil assim.

Assim que o silêncio se apoderou do quarto uma vez mais, voltei-me a ele, com os olhos observadores.

— E você, sempre soube? — sussurrei, mexendo em seus cabelos para chamar sua atenção do Mundo de Will para mim.

Will piscou, olhando-me com carinho, antes de acenar positivamente.

— Sempre. Sempre mesmo — enfatizou com um murmúrio, o tom triste. — Mas eu não queria aceitar. Eu não queria ser um problema para a minha mãe, depois de tudo que ela passou, e para o meu irmão. Fingir ser hétero, para mim, não era mais fácil. Isto é fácil — disse, fazendo carinho meu peito. Sorri fraco. — Mas o caminho fácil não era uma opção a ser considerada. Eu sempre achei que devia passar pelo caminho difícil primeiro. Talvez eu conseguisse mudar? — perguntou, mais para si mesmo, com o cenho franzido, antes de dar de ombros. — Sei lá. Nada mais do que eu pensava tem qualquer lógica para mim agora. Tudo se esvaiu lindamente — explicou, com um sorriso, ao me encarar com carinho.

Deixei um beijo por sobre sua cabeleira castanha.

Will suspirou, pensativo, antes de desvencilhar-se de mim apenas para erguer-se e subir em meu colo, pegando-me de surpresa. Encarei-o de baixo, levando minhas mãos para o seu troco, instintivamente, e deslizando-a por sua barriga magricela.

Will sorriu largamente.

— Então você apareceu, assim, todo... — Desceu um dedo por sobre o meu peito, e eu senti meus músculos reagirem instantaneamente ao seu toque, contraindo com o ato. — Todo “Turner” — explicou, como se fizesse sentido, mas eu sorri também. — E eu só queria ter você para mim. Eu deixei o caminho difícil de lado porque eu queria tanto este— murmurou, com a voz rouca, ao usar as pontas dos dedos indicadores para passar por cima das entradas na base do meu abdômen.

Pude sentir meu corpo inteiro esquentar em antecedência, e a pele formigar exatamente onde Will a tocara. Cada célula do meu corpo reagindo ao deleite que se apoderava do rosto do garoto e ao morder de lábios pecaminoso que desempenhava ao observar-me.

Deslizei minhas mãos pelas coxas do garoto até pousá-las em seu quadril, sentindo-o estremecer no processo.

Ergui o corpo até colar meu peito no seu, usando uma de minhas mãos para deslizar pelas suas costas. Contemplei as íris em todos os seus detalhes de perto, roçando meu nariz no seu, sentindo sua respiração entrecortada encontrar-se com a minha.

— E você conseguiu.

Will sorriu maliciosamente antes que eu grudasse meus lábios molhados nos seus, tomando aquele sorriso para mim.

2. O problema maior é que não vejo problema

Eu não estou nervoso, eu não estou nervoso.

Parei em frente à porta já conhecida e ergui a mão para levar à maçaneta, mas a maldita estava tremendo. Aliás, todo o meu corpo estava agitado como se eu tivesse acabado de descer da montanha-russa.

Inspirei e expirei algumas vezes antes de girar a maçaneta.

Afinal, o que podia dar errado?

Só que eu sei perfeitamente o que pode dar errado, porque é o medo de que dê errado que vêm me assombrando desde ontem. O receio de que ele finja que nada aconteceu, que a coisa mais maravilhosa do mundo não aconteceu. Ou ainda pior, que ele não finja coisa nenhuma, mas que venha dar uma de professor certinho e arrependido e de que “isto não vai se repetir, Will”.

Mas ele não faria isto. Faria?

Digo, ele não pareceu arrependido depois de repetir a dose do beijo da sua sala no corredor do prédio e me acompanhar até o lado de fora em silêncio. Mais ainda: depois se despedir fazendo um carinho no meu rosto, e me olhando como se eu fosse o Brad Pitt em pessoa de tão lindo que sou até que eu fosse embora, tropeçando nos meus próprios pés.

Aquilo não foi uma despedida do tipo: "toma mais um beijo, um último carinho, porque isto nunca mais vai acontecer, Will", ou foi?

Abri a porta, imediatamente me deparando com meu professor inclinado na mesa, limpando com rapidez o que parecia ser café derramado nela. Turner tinha o cenho franzido, as mãos ágeis, ao mesmo tempo que tentavam enxugar o líquido escuro, também erguiam alguns papéis manchados da mesa e os transportavam para o lado que estava limpo dela.

Entrei, sem que ele me visse, mas obtive sua atenção quando fechei a porta atrás de mim, apoiado nela.

— Will — murmurou ele, relaxando o rosto, quando pousou os olhos lindos em mim.

Ok, não foi um “Will” chateado, magoado, ou irritado, então suponho que ainda estamos em chão sólido. Seguros.

Sorri e quase suspirei de alívio ao ver outro sorriso em resposta. Ele piscou, baixando os olhos para o desastre na mesa, e logo os ergueu para mim com uma careta de quem aprontou.

— Eu... Eu só estava... Derramei café — optou por explicar, debilmente.

Acabou rindo sem jeito antes de terminar de ajeitar as coisas e olhar para o pano nas mãos sem saber o que fazer com ele. Apenas quando o jogou em uma cadeira vazia percebi que não era um pano, era o seu colete o azarado tecido escolhido para enxugar o café.

— Pode sentar — falou, apontando para a cadeira. — Eu até tinha esquecido que a gente... — Uniu as sobrancelhas, inclinando o rosto para me observar como se recém prestasse atenção, ponderando. — Não, não tivemos aula hoje.

Apenas quando o silêncio se tornou constrangedor, lembrei que eu não era um expectador. Eu estava naquela cena, naquele ambiente, com aquela pessoa. Então era justo que eu dissesse algo.

Abri a boca, recém dando-me conta que meu corpo também estava ali e não precisava ficar grudado na porta. Desencostei-me dela, pondo as pernas para caminharem em direção à sua mesa, sentindo-as instáveis. Parei em frente às duas cadeiras, vendo que ele permanecia em pé atrás de sua mesa, com os olhos em mim. Mordi o lábio, digerindo suas palavras, antes de negar com a cabeça mecanicamente.

Não, não tivemos, quis responder, mas nada saiu. Eu vim sem qualquer desculpa de aluno estudioso. Nada saía.

Pelo amor, Will, cadê a provocação?

Faz algo, fala algo, o deixe desconfortável pra você se sentir confortável!

Vai! Vai! Vai!

Turner não ajudou em nada, porque enquanto eu o encarava feito um perfeito imbecil, ele também me encarava feito um perfeito imbecil. Pior ainda, ele estava totalmente parado, sem piscar, como se sequer me enxergasse.

Então, para alívio cósmico, ele desviou o olhar.

— Bom — começou, pigarreando, antes de contornar a mesa —, eu suponho que não há problema algum em você vir aqui nos outros dias.

Congelei, vendo que ele se aproximava até parar no meu lado, ao passo que eu já havia me virado para ele. Ele tinha as mãos nos bolsos na calça social, os olhos nos meus e só uns dois passos de distância entre a gente.

— Mas... — comecei, percorrendo seu rosto com os olhos. — Eu não tenho dúvidas — declarei, simplesmente, como um idiota.

Ele arqueou as sobrancelhas, antes de assentir, engolindo em seco.

— Suponho que... Hum... — Fez uma careta, unindo as sobrancelhas rapidamente, talvez pelo que estava prestes a dizer: — Suponho que também não há problema em você aparecer aqui, só para conversar, de vez em quando.

Aquilo trouxe um sorriso ao meu rosto e eu finalmente consegui relaxar um pouco. Turner sorriu também, como um espelho, ao inclinar o rosto para me observar melhor.

Dei um passo em sua direção.

— Mas eu também não quero conversar.

Turner desceu os olhos para a minha boca, como se lesse meus pensamentos pecaminosos, e engoliu em seco, perdendo um pouco do sorriso. Deu um passo em minha direção também, ao ponto de eu sentir sua respiração em meu rosto, o cheiro de café e de perfume caro. Ao ponto de eu poder enxergar os detalhes de seu rosto com perfeição, na perfeição que eles tomam.

— Eu acho que... — murmurou, com a voz rouca, ao roçar o nariz no meu. — Não há problema... — Senti a mão resvalar na minha também, antes dos nossos dedos entrelaçarem-se de forma desajeitada. — Não há problema nisto também.

— Não? — questionei, sem prestar muita atenção, ainda com o nariz no dele.

Turner levou uma das mãos para o meu rosto, fazendo um carinho semelhante ao do dia anterior. Sorriu minimamente quando inclinei o rosto de leve em direção à sua mão. — Não — sussurrou.

Seus lábios perpassaram pelos meus, fazendo-me fechar os olhos, como uma provocação que nenhum dos dois queria que acabasse. Eu queria grudar-me inteiro nele, mas aquele roçar de pele era tentador demais.

A mão que deslizara pela minha bochecha deslocou-se para o meu pescoço, onde os dedos acariciaram também, fazendo todos os meus pêlos eriçarem. Espiei por entre as frestas dos olhos para ver que os olhos cinzas ainda pousavam em mim, mesmo com os lábios brincando com os meus.

O ar denso daquela sala apenas mudou quando sua língua quente resvalou pelos meus lábios entreabertos, e eu fechei a mão em sua camisa.

A partir daí, eu já não tive mais autocontrole algum para as provocações. Levei uma mão para a sua nuca e o puxei até que os nossos lábios estivessem completamente selados. Turner não perdeu tempo e passou um braço em torno do meu tronco e o grudou no dele, aprofundando o beijo que havia começado tão calmo.

Por que aquelas janelas não eram maiores?

Era difícil respirar com o deslizar de uma língua na outra, com o peito que mal podia subir e descer pela falta de espaço entre a gente, com aqueles sons profundamente sensuais de beijo e respiração entrecortada.

Socorro.

Turner, em algum momento, fez com que eu ficasse de costas para a sua mesa e foi caminhando comigo até que eu batesse a bunda contra ela. Abri os olhos, vendo que ele o fizera também, e ajeitara o corpo com as pernas entre as minhas.

Aproveitei para engolir uma boa quantia de ar.

— Isto — falei, com a voz falha, ao espalmar uma mão em seu peito — não tem problema também?

Turner sorriu, deixando um beijo rápido em meus lábios, então resvalando o nariz pelo meu rosto até fungar em meu pescoço. Fechei ambas as mãos na mesa, recuperando... Eu não sei o que eu estava recuperando, mas certamente havia perdido mil partes de mim ali, no Turner.

— Não — sussurrou, no meu ouvido, e frisei um lábio no outro para não gemer.

Que todos os deuses perdoassem esse virgem escandaloso, mas eu nunca tive um cara fungando em meu ouvido!

E não era um simples cara, era o professor Turner.

Ri, nervoso, ao relancear a porta.

— Acho que vai ser um problema se... — Engoli a próxima palavra quando sua língua deslizou perto da minha orelha. — Se... Se o Sr. Edwar...

— Não — interrompeu, rápido demais. — Edwards está longe — certificou-me, se afastando apenas para encontrar com a boca na minha.

Assenti, como um robô, com a boca ocupada.

Em seguida, iniciou-se o que pareceu uma tentativa mútua de fundirmos um no outro, ali mesmo, na sua sala, grudados quase em cima de sua mesa de estudos.

O beijo houvera intensificado ao passo que o atrito entre um corpo e o outro também, assim como a falta de ar. Absolutamente todos os elementos daquela sala eram diretamente proporcionais, porque ao passo que a língua deslizava sobre a minha com mais destreza, minhas mãos se certificavam de puxar o corpo masculino em junção ao meu com mais fervor.

Todo local que ele encostava queimava, como fogo.

Senhor!

Um descanso se fez possível quando Turner, mais uma vez, voltou sua atenção para o meu pescoço, perpassando os lábios por sobre a minha mandíbula, fungando mais uma vez — que todas as deusas me ajudassem - em meu ouvido até alcançar a área que queria, deslizando a língua pela minha jugular.

Um gemido escapou pela minha boca antes que eu pudesse contê-lo ao passo que, como reflexo, deixei a respiração presa escapar em seu ouvido. E por deus se aquilo não foi a melhor coisa que eu fiz na vida!, porque quem perdeu a compostura dessa vez, foi ele, deixando escapar um som semelhante ao meu.

Foi o que bastou para que ele se afastasse, pondo ao menos um pé de distância entre a gente, com a mão na minha camisa. Eu teria reclamado, não fosse minha consciência começar a bater, ao que parecia, ao mesmo tempo que a dele.

Estremeci meu corpo virgem sob a mão que me segurava ao notar a total descompostura do meu professor. Os olhos estavam enegrecidos e eu teria que me esforçar para ver o resquício cinza neles, os lábios avermelhados pelo estrago orgulhoso que eu fiz e a camisa completamente amassada.

Eu causei isto, pensei, com orgulho.

— Isto é um problema? — ousei perguntar, com um fiapo de voz.

Turner engoliu em seco, desviando os olhos para o meu corpo, atirado naquela mesa como uma perfeita gelatina, enquanto eu tentava controlar a respiração.

Sentindo todo o sangue do meu corpo subir para o meu rosto, observei enquanto um sorriso malicioso se curvava em seus lábios. Segurei-me na mesa com mais força, sentindo a barriga gelar e o coração esquentar com a atitude.

Turner é a personificação do pecado.

— Não — garantiu, a voz rouca.

Assenti, ainda descomposto, sem conseguir sorrir novamente.

Vamos, Will! Não é porque você se pegou com o Turner que não precisa mais provocá-lo! Vamos!

Mas nada saiu, ao passo que eu sentia meu rosto queimar de vergonha.

Turner pôs-se a ajeitar sua própria camisa antes de levar as mãos pecaminosas à minha com o mesmo intuito. Passou a língua nos lábios enquanto minha mente ia para lugares bem inapropriados com a ação, e em seguida, levou as mãos ao meu cabelo, para tentar pôr em ordem a bagunçaa qual eu já havia aprendido que jamais se ordenaria.

Sorriu, desta vez, com certo carinho.

— Não tem problema algum, mas suponho que é inteligente da nossa parte parar por aqui, não acha? — questionou, erguendo os olhos cinzas para mim, com um sorriso de canto.

Assenti, débil, feito uma criança, sentindo a realidade cair sobre mim.

Turner havia me beijado de novo! De novo! De novo!

Turner me beijou.

Ele me beijou!

— Então... — comecei, sentindo-me idiota por minha voz haver tremido demasiado. — Então talvez... — Pigarreei, desencostando na mesa ao rezar que minhas pernas funcionassem para me manter em pé sem apoio algum. — Talvez também seja inteligente que eu vá... Agora... Para...

Turner apenas me observou, com carinho, antes de negar com a cabeça, fazendo com que minha frase morresse antes de finalizá-la.

— Não — murmurou, os olhos perpassando pelo meu rosto, onde fez carinho em seguida. — Fica.

Pisquei, sentindo o coração querer sair do peito e se unir ao Sr. Turner como um fã quer se unir ao seu ídolo. Engoli em seco, piscando algumas vezes ao testar minhas pernas quando me aproximei mais dele.

— Não tem problema que eu fique? — perguntei, com um sorriso, ao vislumbrá-lo tão de perto novamente.

Turner sorriu também, negando com uma lentidão memorável.

Sua resposta, no entanto, foi bem mais significativa do que eu esperava e essa mesma resposta ressoaria na minha cabeça toda vez, pelas próximas semanas, em que eu decidisse aparecer em sua sala sem motivo algum. Bom, além de querer estar com ele.

Isto porque me garantiu que queria estar comigo também.

— Tem problema se você não ficar.

3. O que me importuna não é você, é o que sinto por você

— Mais alguma pergunta referente ao conteúdo dado em aula, Will? — perguntei, depois de um suspiro, fingindo que nada havia acontecido.

Nenhuma das cinquenta insinuações, perguntas pessoais e flertes inapropriados. Nenhum dos olhares invasivos, sorrisos maliciosos e lábios umedecidos ao encarar os meus.

— Não — respondeu-me simplesmente, sem mexer um músculo.

Sustentei seu olhar, sem conseguir disfarçar meu embaraço.

Céus, se ele não tinha mais nenhuma pergunta, por que não ia embora?

Pisquei algumas vezes, remexendo-me na cadeira.

— Certo — murmurei, cautelosamente.

Ele virou o rosto de tal forma que podia ver apenas seu perfil esquerdo. Olhava para a janela, descansado, como se não tivesse nenhuma preocupação no mundo. Como se estivesse na própria casa.

Eu gostava de pensar que estava encarando-o devido ao seu comportamento peculiar e ao fato de permanecer em minha sala, mesmo sem qualquer interação. Gostava de pensar que nada tinha a ver com o fato de que Will parece uma pintura e eu não me importaria de encará-lo para sempre. O perfil perfeito, os cabelos brilhando, quase loiros com a luz do sol que provinha da janela, os cílios levemente curvados, o nariz reto e as sardas sobre ele.

Bastava comprar uma moldura e encaixá-lo nela.

A boca, no entanto, estava levemente franzida. Parecia pensativo, como se houvesse acabado de cruzar com um pensamento ruim.

Eu não sabia como agir, então achei sensato que eu ficasse imóvel, observando-o em silêncio. Eu estava quase confortável — porque não era difícil esta sensação correr em direção à mim quando Will estava por perto -, quando ele tornou a falar.

— Se estou importunando-o, professor, não há razão para que eu volte — disse, subitamente, quebrando o silêncio. Mantinha o rosto virado para a janela, o semblante sério.

— É claro que não me importuna, Will — explicitei, bem mais rápido do que havia planejado.

Will virou o rosto em minha direção e sorriu de leve.

— Então devo voltar?

Abri a boca para responder, como professor, mas então a fechei, como homem. Senti que a pergunta que me fazia não era tão simples quanto parecia. Havia algo a mais ali, como sempre havia quando se tratava de William.

— Deve voltar sempre que achar necessário — entreguei a mesma resposta que diria como professor, depois de pensar um pouco. Ou de não pensar nada, acrescentei mentalmente.

Porque havia algo mais aqui também.

— É algo que o senhor deseja? — sondou, ainda com olhos por sobre os meus.

Engoli em seco, pensando em uma resposta que fosse sincera e que não levasse minha carreira ao fim.

— Como professor — articulei, devagar, covarde demais para olhá-lo nos olhos —, sim, quero que os meus alunos absorvam o máximo do conhecimento que posso lhes fornecer.

Antes que eu o contemplasse uma vez mais, já sabia que estava sorrindo, que os olhos permaneciam sobre mim e que todo ele emanava intensidade. Antes de olhá-lo uma vez mais, eu já sabia que me sentiria vulnerável outra vez, e confirmei a sensação quando assim o fiz.

— Mais alguma pergunta, Will? — repeti, novamente, desta vez eliminando parte do questionamento anterior que estava ali só de enfeite: referente ao conteúdo dado em aula.

Will baixou os olhos para seu colo, aumentando o sorriso feito uma criança, ao passo que eu tentava me convencer de que queria mesmo que o plantão encerrasse.

— Nenhuma, professor.

Não, eu não queria.

4. Teu desconforto me conforta

— Meu ônibus!

Despedi-me rapidamente das pessoas que não sofriam para pegar ônibus no horário e podiam ir de carro gastando gasolina que tinham dinheiro para pagar, e segui para as escadas.

Aliás, onde estavam os meus amigos pobres?

Ninguém mandou ficar matando tempo discutindo sobre matérias desnecessárias e professores filhos da puta. Bem feito para mim!

Corri escadas abaixo, abrindo a porta de vidro para o pátio e, é claro, esbarrando em algo. Por que não, não é mesmo, quando se está atrasado?

— Olha por onde anda! — reclamei, abaixando-me para juntar os livros que derrubei, com irritação.

Os motoristas dos ônibus não são mordomos de gente rica. Eles estão ali para os pobres e pelos pobres, ninguém espera.

— Me desculpe, Will, mas foi você quem não me viu aqui fora — disse a voz que tanto invadia meus sonhos, fazendo-me erguer o rosto e vê-lo de baixo com a sobrancelha arqueada. — O que é curioso, porque a porta é de vidro — acrescentou, debochado.

Deixei a boca abrir, com um dos livros boiando em minha mão, feito um destrambelhado.

O Sr. Turner estalou a língua, abaixando-se também para me ajudar com os livros, já que claramente eu tenho estupidez neste corpo por não conseguir juntar quatro fucking livros em mais de um minuto.

— Obrigado, professor — agradeci, me sentindo um idiota —, e me desculpa.

— Tudo bem — falou, como se não fosse nada, ao me estender dois dos livros.

Ele estava perfeitamente vestido, como de costume, e não estava carregando a pasta, o que me fazia pensar que houvera saído por um instante para logo retornar. Bom, isto e o café que segurava em uma das mãos.

Engoli em seco, pegando-os de forma desajeitada, com todo o cuidado do mundo para não encostar nele como da última vez, quando lhe entreguei as chaves que derrubara. Aquela vez em que um calafrio subiu desde as pontas dos meus pés até o último fio do cabelo, arrepiando meus braços.

Uma semana e um dia haviam se passado desde aquele dia.

Não que eu esteja contando.

— Você não está atrasado? — perguntou ele, as sobrancelhas arqueadas ao me observar.

— Hum?

Caralho, que cor é aquela?

Eu nunca havia reparado na cor de seus olhos na influência da luz do dia. Eram um cinza bizarro, como um dia nublado, mas ainda assim, se assemelhavam à um azul escurecido e acinzentado.

Eu nunca havia visto nada mais lindo.

Saí do transe quando ele piscou algumas vezes, desviando o olhar, antes de soltar um riso desconfortável.

— Tem alguma coisa no meu rosto? — perguntou, com um meio sorriso, mas percebi que era apenas uma indireta para dizer que eu estava encarando-o de maneira extremamente indelicada. Ou pior, de maneira desrespeitosa.

Sim, tem muita beleza aí, seu deus grego!

— Não, não — atrapalhei-me, girando o rosto para o outro lado, com o rosto pegando fogo pela linha de pensamento.

Porra, Will, que merda tá passando pela sua cabeça?

— Eu só... Eu estava... — Parei para pensar, porque puta que pariu, quando é que eu parei de pensar? — Eu tinha que pegar o ônibus. Para casa — expliquei, tentando parecer convincente. Afinal, quando você está atrasado para pegar ônibus, é muito lógico que encare a pessoa na qual esbarrou como se ela fosse uma obra de arte. Mas ele é uma obra de arte!, minha mente se defendeu, em um grito. — Eu devo ter perdido já.

— Ah — deixou escapar ele, parecendo perdido. Pudera! — Que pena. Quem sabe, então, você quer tirar as dúvidas que ficaram de ontem...? — perguntou, incerto, ao apontar para o prédio.

Ontem era segunda, e havia sido a terceira vez que apareci em sua sala, com polígrafos e marca-textos em mão como se preparado para uma guerra. Havia ficado tarde e eu tinha que voltar para casa, então algumas questões da matéria ficaram para a próxima sexta.

Ponderei, por um instante, percebendo que os cabelos dele eram, na verdade, castanho-escuros, o que é muito curioso, porque eu podia jurar que eram negros.

Pisquei.

— Acho melhor eu ir na sexta mesmo — murmurei, me desculpando. Tinha alguma coisa seriamente errada comigo, e até eu conseguir me livrar disto, eu deveria ficar seriamente longe dele. — Para não perder o costume — acrescentei, com um sorriso.

O Sr. Turner assentiu, daquele jeito formal nele, que me fazia...

Interrompi-me novamente. Droga, Will!

— Muito bem, nos vemos na sexta-feira — disse, apontando mais uma vez para a porta, de forma desajeitada, como se não soubesse se despedir. — Eu vou indo então, tenho mais algumas horas de plantão para cobrir.

Assenti, observando-o com atenção.

— Claro, professor — falei, sorrindo um pouco mais largo, com os olhos nos seus. Bom, eu tentava mantê-los ali, mas é que a boca também era marav...

Mordi o lábio, vendo que ele descera para os meus também. Engoliu em seco, desconcertado, e terminou de abrir a porta para entrar. Do lado de dentro, levou a mesma mão para a ajustar a gravata, virando para subir as escadas sem olhar atrás.

Oh, ali estava novamente, o mesmo desconforto.

Eu o deixava desconfortável.

Sorri ainda mais, virando as costas para o prédio.

Se era para perder o ônibus assim, eu perdia todos os dias.

5. Me desgrace, me odeie, mas nunca esqueça... de me respeitar

Aposto que chego no prédio antes dessa música terminar.

— Will! Will!

Pisquei, olhando para os lados, quando ouvi a voz abafada chamar meu nome. Apenas quando se repetiu, tirei um dos fones do ouvido e parei de caminhar, percebendo vir das minhas costas.

— Em que volume ‘tá esse troço? — perguntou Laurel, me alcançando. — Eu ‘tava gritando feito uma louca e você não me ouvia.

Recomeçamos a andar lado a lado em direção ao prédio, enquanto eu lhe sorria.

— Bom, era essa a intenção — esclareci, encarando os olhos castanhos ao meu lado. — Escutar a música e não as pessoas ao redor.

Laurel estalou a língua, mas relevou.

Os cabelos castanhos estavam enrolados em uma trança lateral e os olhos estavam delineados na cor azul. Laurel sempre foi peculiarmente bonita. O tipo de pessoa que você se pega encarando sem querer, apenas para admirar a obra de arte do universo.

Não é que não houvesse atração física também, mas...

É, realmente não havia atração física alguma.

— Que aula é agora?

— Não faço ideia — respondi, erguendo os ombros.

O terceiro semestre havia começado nesta semana. Pelas minhas contas, provavelmente só vou saber os horários quando estiver no fim do semestre, quando já não for mais necessário porque em pouco tempo haverão horários diferentes para decorar.

Assim que chegamos no prédio com o qual já estava me acostumando, subimos as escadas e demos de cara com nossa turma pelos corredores.

— Vieram juntos? — questionou Gabe, quando nos viu, estranhando.

— Quem me dera! — exclamou Laurel, debochada. — Desci do ônibus e enxerguei o Will, fiz a maior gritaria para ele me esperar e o idiota não me ouvia com os fones!

Cenoura gargalhou, e Gabe sorriu para isto.

— Ué, mas os fones são para escutar música — murmurou Johnny, tirando os olhos do tablet.

Ah, meu deus, sim!

— Obrigado!

Agradeci, apontando para ele para que Laurel entendesse o recado. Jonathan riu, balançando a cabeça ao achar graça, mas Laurel apenas rolou os olhos.

— Quem a gente tá esperando? — perguntou ela, olhando ao redor.

— ‘Cês não sabem? — Gabe arqueou as sobrancelhas. — É aquele professor que todo mundo odeia.

— Qual deles? — questionei, rindo.

— Credo, Will!

— O quê? — Coloquei a mão no peito, ofendido. — Vocês também viram que a Sra. Lawson é o demônio reencarnado, e a gente só teve uma aula com ela.

— Bom, agora a gente vai ter várias — comentou Cenoura, erguendo o calendário de todos semestres. — Ela oficialmente assumiu a segunda parte da matéria, que era do professor Gaspard: Gestão de Pessoas II. Teremos ela no semestre que vem também.

Argh — comentou Laurel, com cara de nojo.

— Idem.

— Não sei se esse é pior que ela, mas o pessoal ‘tava comentando aqui — disse Gabe, apontando para alguns dos nossos veteranos — que a matéria dele é a pior, sim. Tem gente que ‘tá repetindo a classe pela terceira vez.

Resmunguei alto, deixando minha cabeça cair para trás, encarando o teto. Se vai ter mais alguém que repetirá uma terceira vez, esse alguém sou eu.

— Eu sei, eu também — comentou Gabe para mim, como se entendesse minha linguagem de resmungos.

— Sim, é o Sr. Turner — comentou Johnny, assentindo. — Já ouvi falar dele.

— É aquele que chamam de Dragão, lembram? — apontou Cenoura, para nós.

Franzi o cenho, relembrando de algumas histórias das quais ouvi falar. Não eram nem um pouco animadoras. Para mim, já estava certo que esse cara está no mesmo nível baixo da Sra. Lawson.

Saco.

— Eu nunca entendi por que o chamam de Dragão — divaguei. — Ele é tão feio assim?

Laurel riu. — Por favor! O cara é um gato — esclareceu ela, com um sorriso malicioso. — E é novo. Eu o ouvi na universidade algumas vezes. Deve estar na casa dos trinta, por aí.

— Que exagero — rebateu Gabe, estalando a língua. — Ele é normal.

— Não, Gabe — disse ela, balançando a cabeça com humor. — Você é normal. Ele é um gato!

Tentei travar o riso, mas não consegui, o que tornou minha risada em um som borbulhado de pura esquisitice. Isto, por sua vez, fez com que ríssemos ainda mais.

— Muito engraçado, muito engraçado — reclamou Gabe, forçando seriedade. Mas era possível ver as comissuras de sua boca curvadas.

— Ei, galera! Vamos indo, vamos indo — chamou um rapaz que eu não conhecia, se aproximando de nós. — Ele já chegou.

Pisquei, os olhos voando para a sala. Já estava aberta e ele provavelmente já havia entrado. O burburinho de vozes no corredor era alto o suficiente para que nós, um pouco mais afastados da sala de aula, não percebêssemos a movimentação quando ele chegou.

Ah, que ótimo!

A faculdade resultou ser um campo de batalha entre eu mesmo e minha força de vontade. Dois professores de querer cortar os pulsos e morrer em um mesmo semestre é mesmo um teste de paciência para qualquer um que quer um diploma.

Em pensar que na sexta passada eu ainda estava de férias, enrolado nas cobertas e assistindo zumbis comerem pessoas...

Entramos na sala de aula, nos dispersando por ela em nossos lugares, enquanto eu relanceava o professor que tanto fora mal falado que ponderei se suas orelhas não estariam avermelhadas — mas não estavam.

A primeira vez que pus os olhos no Sr. Turner — conscientemente, já que era provável que eu já o tivesse visto pelo campus antes -, eu já tinha em mente algumas coisas as quais me foram ditas. Primeira, ele era apelidado de Dragão por algum motivo péssimo, mas curioso. Segunda, ele era um ser humano desprezível como a Sra. Lawson e um professor babaca. Terceira, o cara era jovem e bonito.

Então, quando o enxerguei e o analisei visualmente, eu soube que estava sendo influenciado pelos pré-conceitos dos outros a respeito do cara. Primeiro, porque eu podia jurar que os olhos cinzas mal-humorados eram tão sagazes quanto os de Smaug. Eu literalmente enxerguei a porra de um dragão. Segundo, ele tinha cara e jeito de professor de Exatas que adora um cálculo impossível e adora mais ainda ver o desespero dos alunos tentando resolver. Eu podia jurar que já sabia o que viria a seguir: rabugentice por um semestre todo. Terceiro, Gabe realmente é um mundano padrão. Me peguei fazendo um raio-x do cara com os olhos, concordando mentalmente com Laurel.

Então eu pensei comigo: óbvio que fui influenciado.

Nada disto passaria pela minha cabeça em condições normais.

— Já vou começar a me preparar para o exame de fim de semestre — comentou Cenoura, atrás de mim.

Segurei o riso, vendo que os outros faziam o mesmo.

A aula do Sr. Turner já havia começado e ele realmente estava fazendo justiça à imagem feita dele pelos alunos. Eu já queria morrer e nem meia hora havia se passado. É sexta-feira, pelo amor de todos os deuses. Ninguém merece terminar a semana assim, morrendo lentamente.

— Estamos juntos, bro — concordei, fechando o punho e o erguendo ao lado para que Cenoura batesse o dele.

Laurel suspirou alto.

— Eu retiro o que eu disse — murmurou ela, desanimada, ao deitar-se na classe com pesar. — Ele é feio, horrível, pavoroso. Gabe? — chamou, cutucando nosso amigo. — Você é um deus.

Ri, me juntando a eles.

— Foi o que eu disse — concordou Gabe, orgulhoso, mas logo riu com a gente.

— “Sem conversa, sem sono, sem celular” — imitou Laurel, não tão sussurrado assim, parte da introdução do Sr. Turner. — “Ah, e por favor, crianças, não esqueçam a merenda na hora do recreio”.

Shhh, Laurel — chiou Gabe, apenas a olhando por cima do ombro enquanto ríamos.

— Bom, você está conversando, mexendo no celular e deitada na classe — apontou Johnny, por detrás dos óculos, com o tom baixo.

Ele se sentava atrás do Cenoura, então provavelmente não havia como não ouvir nossas conversas. Estávamos todos em frente a ele.

Laurel estreitou os olhos para ele, largando o celular. Apenas troquei olhares com Gabe, alargando os olhos teatralmente pela provocação à Laurel. Johnny nunca teve muita paciência para ela e Laurel nunca teve muito saco para o Johnny.

Honestamente, eu não culpava nenhum dos dois.

— Não briguem, crianças — comentou Cenoura, em um ar importante.

Não me aguentei e virei minimamente para trás para jogar um lápis na cara dele. A cara indignada foi tamanha que tive que enfiar a cara na parede para não rir alto.

Nós não estávamos exatamente chamando a atenção, porque meia turma estava conversando aos sussurros, e alguns nem tanto aos sussurros assim. Só que eu me enganava ao pensar que o Sr. Turner era tão ordinário quanto os outros professores maldosos. Os olhos eram, sim, tão sagazes quanto os de um dragão.

E estávamos prestes a descobrir o porquê da fama.

Por um momento pensei que não consegui segurar o riso o suficiente, já que ouvi a gargalhada. Só que não era minha, e sim de uma garota do fundo da classe, do outro lado da sala.

Como se soubéssemos que um limite foi cruzado, todos olhamos para frente quase ao mesmo tempo.

Ele estava em silêncio e tinha os olhos fechados como se para recobrar a consciência e a ética de não assassinar nenhum aluno. Só isto parecia ser uma tarefa difícil, e na minha opinião requeria no mínimo um dia inteiro de olhos fechados devido à veia que pulsava em sua testa.

Quando os abriu, um arrepio nada bem-vindo subiu pela minha coluna.

— Todos — pronunciou, com muita raiva contida — fora.

Pisquei, pensando se me permitia ficar chocado ou rir, porque as coisas são sempre mais engraçadas em situações sérias.

É, eu saí do colégio mas o colégio não saiu de mim.

— Todos os que não estão interessados na minha aula, eu os quero fora.

A sala que tanto cochichava ficou em total silêncio, com exceção de alguns que murmuraram uns “desculpa, professor” respeitosos. Mas nem estes obteram misericórdia do Sr. Turner. Sendo totalmente sincero, o cara estava totalmente certo. Estávamos mesmo sendo desrespeitosos, e se eu fosse o professor na situação eu estaria puto.

Não, eu não seria o professor da situação, porque eu jamais seria um professor rabugento da época das cavernas.

Ri mentalmente, tentando não deixar escapar para fora a minha piada, querendo compartilhar com os demais.

Cavernas? Dragão?

Eu sou mesmo uma gracinha.

— Agora — completou ele, me tirando do transe.

Eu realmente estava achando que ele tinha razão, mas então eu percebi que ele não era apenas chato, rabugento e exigente. Ele era maldoso.

O filho da mãe sorriu. Sorriu!

Os olhos se tornaram zombeteiros ao passo que seus lábios curvaram de um lado, e então ele cruzou os braços, arqueando as sobrancelhas. Depois de toda a raiva reprimida, e de todo o autocontrole, ele pareceu totalmente relaxado ao ver graça nas nossas caras de tacho. Nossa desgraça o relaxou!

Se perguntar para mim, acho isso o fim da picada.

— Não? — perguntou ele, alternando o olhar entre a gente, com escárnio. — Ninguém? — forçou, com um sorriso de canto, debochado até a alma.

É óbvio que ninguém iria levantar e sair da sua aula, admitindo que não tem interesse. Não só por um resquício de respeito a ele, como professor, mas porque já sabemos que até mesmo professores universitários guardam rancor de certos alunos. E dependíamos deles para nos formar.

Só que o Sr. Turner não é qualquer professor rabugento. A proeza de continuar a aula de forma normal depois dessa pergunta não tão atípica, ah, esta ele não desempenharia!

— Eu penso diferente — rebateu, mais uma vez, ao silêncio da turma. — Eu sei exatamente quem não está interessado na minha aula. E eu disse e repito: os quero fora. — Descruzou os braços apenas para apontar. — Vocês três, o trio mágico — ironizou —, e os cinco lá de trás... Sim, vocês. E a garota da risada, o garoto com touca e o cara com a barba do Dumbledore. Sim, vocês — repetiu, enquanto eu piscava e olhava ao redor.

Os murmúrios recomeçaram, desta vez, rancorosos. E eu sabia, desde ali, que os mesmos resmungos da turma se repetiriam pelo resto do semestre. Opa, por mais dois semestres, porque havia uma segunda parte da matéria.

Puta que pariu.

— E vocês quatro. Sim, vocês — repetiu pela vigésima vez, mas desta com os olhos na gente. — O casal, o ruivo e o garoto do lápis. Fora.

Caralho, ele viu aquilo?

Então a constatação me atingiu: ele memorizou cada um, mesmo tendo os olhos nos slides boa parte do tempo. Não precisou de algumas semanas de aula para decorar os nomes de cada um, não, ele não precisava dessa intimidade. Bastava ligar os rostos às ações travessas e pronto, ali naquela cabeça linda agora existia a lista sinistra de mau comportamento feito por um professor, da qual tanto falávamos na infância.

Ela existia.

E isto estranhamente me trouxe um alívio paradoxal.

Quando ninguém se levantou, porque ninguém se atreveu, ele caminhou com muita calmaria debochada até a porta e a abriu, esperando. Foi tipo: não me importo de ficar segurando a porta o dia todo, mas me importo de ver essas caras pelo resto da aula.

Todos se movimentaram quase ao mesmo tempo para se locomover para a porta, incluindo a gente. Nosso quinto amigo permaneceu, quieto como ficara durante quase toda a aula.

Quando passei pelo Sr. Turner, fui um pouco mais atrevido que os outros por olhá-lo na cara.

Eu, com toda a certeza do mundo, já desgostava do Sr. Turner. Só que agora eu também tinha desenvolvido, estranhamente, um certo respeito por ele. Acho que todos desenvolvemos depois desta experiência. A diferença, comigo, é que isto me deixou curioso com relação à ele.

O que se passa naquela cabeça? O que mais estávamos prestes a conhecer dele? O que estava por vir?

O Sr. Dragão era como aquele vilão de quadrinhos que todos odeiam, mas todos respeitam. Aquele cara foda que intriga a todos os fãs dos seus adversários. Eu diria que ele é um psicopata cuja mente todos querem desvendar, mas eu não sou suicida, nem por pensamento. E esta foi exatamente a espécie de respeito que ele conseguiu de mim naquela primeiríssima aula.

Não que isto jamais viesse a mudar, principalmente se ele algum dia me reprovasse por uma mísera falta necessária... Mas naquele momento, ele venceu a batalha que nem sabíamos que estávamos lutando.

E, quando passei por ele, com os olhos curiosos presos naquele rosto sério e vi os olhos cinzas e altivos apenas passarem por mim com trivialidade, a curiosidade acerca dele só aumentou. Eu a afastei, assim como me afastei da sala de aula. E eu a continuaria afastando toda segunda e sexta, até um fim de semana corriqueiro em um bar.

Mal sabia eu que, a partir daquela noite, ele estaria à uma outra curiosidade minha a alimentar.

6. Um anjo em meio a depravações

Um dia é tempo o suficiente para mudar o rumo da sua vida?

— Ontem? — questionei, incrédulo. Aumentei o volume da voz para demonstrar o quanto aquilo era absurdo, sobrepondo a música latente. — Você os conheceu ontem!?

Jay gargalhou, dando de ombros em seguida.

Como alguém faz amizade em um dia?

— Você os conheceu ontem no meio da madrugada e hoje estamos saindo com eles como se fôssemos velhos amigos? — repeti, em outras palavras, para enfatizar o absurdo.

Jay revirou os olhos, desta vez.

— Mas eles são legais, não são? — perguntou, com carinha inocente.

Foi a minha vez de revirar os olhos. — Eles falam bastante, como você — apontei, com um sorriso, ao me apoiar no balcão do bar.

— Então você adorou meus amigos — apontou, sorrindo, e eu me permiti sorrir de volta.

Havia aproveitado que as três novas amizades do Jay se dispersaram pela boate para que eu pudesse conversar com ele sobre elas e a intimidade com que se tratavam. Isto era muito estranho para mim, que tenho um total de 1 amigo.

Jay.

Se havia alguém no mundo que seria capaz de se mudar para a mesma cidade que eu, ao mesmo tempo, para o apartamento ao lado, este alguém era o Jay. Mesmo assim, quando ele me seguiu para Hybridfield, eu fiquei meio chocado.

Talvez o choque passasse quando acabássemos com a mudança. Ambos os apartamentos ainda tinham caixas não abertas da mudança de três semanas atrás. No caso do Jay, quase todas. Eu já teria organizado tudo, mas Jay sempre interrompia meus planos ao me embebedar quase toda noite e me deixar de ressaca o dia seguinte inteiro, me impedindo de fazer qualquer coisa que não envolvesse dormir.

Eu ainda tinha duas semanas antes de começar meu novo emprego, caso contrário, eu não estaria aqui.

A música que fazia o chão vibrar, as luzes coloridas no escuro, o cheiro de suor e de álcool por toda parte. Eu havia abandonado esse mundo e a única coisa que o tornava tolerável era o álcool em minhas mãos e o meu melhor amigo ao meu lado.

— Você tá com aquela cara de novo — reclamou ele, alto o suficiente para que eu ouvisse.

Girei o rosto, me deparando com a expressão julgadora de Jay.

Enquanto esperávamos os demais retornarem, eu estava apoiado no balcão do bar, encarando a pista gigantesca de dança e Jay estava ao meu lado, de frente para mim, vestindo uma camisa social florida que era a cara dele.

— Ah, sei lá, Jay — resmunguei, girando a garrafa de cerveja nas mãos. — Sempre que venho em lugares assim, isso me trás uma nostalgia ruim.

Ele assentiu, suspirando ao colocar uma mão no meu ombro.

— É, eu entendo — falou, olhando ao redor. — Mas você está aqui comigo agora, e a gente tá em outra fase das nossas vidas. Rich — chamou, para que eu o encarasse, e sorriu largo —, você vai ser professor universitário, cara. — Sorri, relaxando o rosto. — As nostalgias ruins podem vir tantas vezes quantas vierem, porque a realidade não vai mudar: passado é passado. Você está aqui agora, e essa nova vida tá só começando. Para mim e para você. Só tá começando, Rich.

Sorri largo, grato pelas palavras.

Jay sempre sabe o que dizer.

— Te garanto que essas são as palavras mais lindas que já ouvi dentro de uma boate — brinquei, rindo, e ele gargalhou antes de me puxar para um abraço.

Os amigos de Jay retornaram logo em seguida, com mais amigos que nos foram apresentados. Eu não fiz questão de decorar o nome de nenhum, a não ser os que estavam com a gente a mais tempo. Kellan, Leah e Jack — ou Jake, ou Jason, ou Jamilson. Vou eu saber!

O tal de Kellan convidou, mais uma vez, o Jay para dançar. Ele negou, mais uma vez, por minha causa, mas eu tinha certeza de que, no fim da saída, Jay iria para a casa do loiro ou o arrastaria com a gente para o seu apartamento.

Forcei um sorriso quando Jay perguntou se eu estava curtindo, e ergui a garrafa de cerveja como para brindar o ar antes de tomar uns bons goles dela.

Jay suspirou.

— Por que não se solta mais? — A mesma pergunta de sempre. Ignorei-o, observando o movimento. — Devia aproveitar que saiu para variar e curtir ao máximo. Devia investir na Leah, você sabe...

Encarei-o, vendo um sorriso malicioso ali esboçado.

— Leah? — questionei, apenas para testá-lo.

Ele abriu ainda mais o sorriso.

— Só muito ignorante pra não ver o jeito que ela estava te olhando — apontou, com discrição, para a mulher morena, batendo o ombro no meu. — Eu sei que você é um idiota, mas ignorante não é!

Eu ri, balançando a cabeça, mas voltei os olhos para a pista.

— É, eu sei — resmunguei, apoiando o outro cotovelo no balcão. — Mas não tô afim.

— Você nunca está — retrucou ele, me observando com atenção.

Apenas girei os olhos para encará-lo de canto, mas retornei-os para as pessoas bailantes, com um sorriso mínimo.

— Não adianta, Jay, eu não sou como você — constatei, olhando ao redor. Não mais, adicionei mentalmente. — Eu não sou um amante — optei por dizer, para não usar “galinha”. — Não sinto falta de sexo se não tenho. Não tenho vontade de pegar todo mundo também — alfinetei, com um sorriso.

Pousei os olhos nele apenas o suficiente para vê-lo congelado em uma expressão pensativa. Logo, piscou e balançou a cabeça, sorrindo.

— Quando disse que não é como eu, pensei que queria dizer que não é Bi... — Aproximou-se um tanto. — Sexy... — Aproximou um tanto mais. — Wow.

Não me aguentei e gargalhei, vendo-o fazer o mesmo. Só quando percebi os olhos questionadores, prestei atenção em toda a sentença dele. Arqueei as sobrancelhas, curioso.

— Isso também — concordei, analisando-o.

— Como sabe? — perguntou, e eu franzi o cenho. — Já provou a outra frutapra ter certeza?

Pisquei algumas vezes, achando estranho Jay entrar no assunto, já que nunca houvera antes. Soltei um riso pelo nariz.

— Tá falando sério?

— Claro, ué — falou, sorrindo com bom humor. — Olha só, vamos achar um bofe para você.

Ri alto, por sorte, antes de engolir a bebida, visto que já tinha a garrafa na boca. Olhei-o com incredulidade, embora sorrisse com humor.

— Jay, eu não vou pegar um cara — declarei, achando graça na ideia.

— Por que não? — perguntou ele, sem muita expressão.

Inclinei o rosto para analisá-lo, franzindo o cenho ao tentar entender de onde vinha tudo aquilo e onde ele queria chegar.

— Jay, não é por que não quero pegar toda mulher que vejo que eu sou gay.

Jay riu, balançando a cabeça como se eu fosse uma criança boba.

— Gay? — questionou, achando graça. — Eu não usei essa palavra. E não se trata disto — garantiu, apontando com o rosto para a pista. — Dá uma olhada. Talvez você só não tenha olhado para o outro lado — sugeriu, pensativo. — E sua boca não vai cair de beijar um cara, Rich, por favor. Não custa nada tentar.

Talvez fosse a embriaguez, ou talvez as luzes que me deixavam tonto e confuso, mas eu demorei demais para responder.

— Não... — tentei, sem muita firmeza, ao olhar ao redor rapidamente e voltar os olhos ao Jay. — Não, não. Você tá doido.

— Eu sou um artista — disse ele, e eu revirei os olhos, já sabendo que viria algo poético em seguida: — As melhores artes se fazem saindo da zona de conforto.

Ri, mas optei por não responder.

Não é que a ideia me trouxesse repulsa ou algo parecido. É que eu mal fico com mulheres depois da Hilary, e eu tenho que querer muito para ficar. Com homens, então, nem valia a pena tentar porque não havia vontade alguma em mim de ficar com um.

Talvez um pouco de curiosidade, uma que Jay fez questão de desenterrar em mim, mas vontade não.

No entanto, meu silêncio devia ter feito Jay interpretar como sinal positivo porque minutos depois, persistiu: — Que tal aquele lá? — falou, apontando para um cara musculoso entre a multidão. Eu ri, tomando mais um gole da cerveja. — Ele é gato.

— Jay, não vou pegar um cara — reforcei, mais uma vez.

— E aquele com shorts? — continuou, me ignorando, ao me fazer rir.

Se tratava de um rapaz magricela, com uma franja enorme, que mais parecia um arco-íris ambulante.

Balancei a cabeça negativamente, fingindo interesse na pesca do Jay.

— E o cara sem camisa? — ponderou, apontando o único ser dentro a multidão que não usava uma. Era delgado, mas tinha um bom físico. Sorriso bonito, cabelo ruivo, tatuagens. Não era feio aos olhos.

Mesmo assim...

— Quem tira a camisa no meio de uma festa? — questionei, de fato, intrigado.

Jay revirou os olhos mais uma vez, tornando ao olhar ao redor.

— Ui, e aquele?

Era um playboy com roupa de marca e óculos de grau, e um afro bem arrumado. Me peguei pensando que não seria o tipo de pessoa com quem eu teria assunto.

— Que tal aquele então?

O próximo era um cara muito baixinho, com barba bem feita e um casaco amarrado na cintura. Era meio fofo, mas não conseguia sentir atração nenhuma.

Subitamente, percebi que eu havia mesmo entrado no jogo do meu amigo, de fato considerando e analisando cada um dos rapazes que ele apresentava. Eu podia não admitir para mim mesmo, mas eu estava usando basicamente a mesma análise rápida que eu fazia com mulheres.

Parece algo meio calculista, mas embora eu vá ser um professor de Administração, nada tinha a ver. Era bem simples, na verdade: consistia em “o santo bate ou não”. Ninguém quer ficar com uma pessoa com quem não se tem assunto, ou não se sente à vontade, ou não sente atração. A não ser, é claro, que eu chegasse em alguém só para beijar, sem papo algum. Mas eu nunca fui deste tipo de cara, nem mesmo na minha época de adolescente rebelde.

A não ser que eu tivesse drogado, mas aí era outra história.

— Já chega, não é? — perguntei, desviando minha atenção dos meus pensamentos.Não queria pensar em nada disso.

Jay estalou a língua, parecendo desistir.

— E que tal dentro da zona de conforto, então? — tentou mais uma vez. Deixei a cabeça cair para trás, pedindo ajuda aos céus. — Vamos lá, Rich. Eu sempre me divirto ao máximo, e você fica aí, com essa cara de azedo. Pelo menos uma vez, homem, faz algo além de beber! — Gesticulou, indignado, antes de puxar minha camisa e me olhar nos olhos. — A Leah, não?

— Não.

Jay suspirou, de cara, e eu apenas ri. Me virei para o balcão, chamando um dos bartenderes para que nos trouxesse mais algumas garrafas. Eu já havia acabado com as seis últimas.

Talvez eu até já houvesse passado da fase do brilho, mas sequer sentia.

Agradeci e abri a garrafa, virando de frente para a pista mais uma vez, levando-a à boca. Só então percebi que o grupinho do Jay havia tomado um chá de sumiço. Relanceei meu amigo para perguntar sobre seus “amigos”, mas os olhos dele estavam presos na pessoa ao meu lado, inclinada no balcão para chamar o bartender.

— O quê? — perguntei, depois de relancear o garoto.

Jay sorriu, apontando para ele. — E esse?

Franzi o cenho, focando minha atenção no garoto mais uma vez. Era um tanto mais baixo do que eu, e bem mais magricela. Tinha as bochechas coradas — pelo álcool, pela animação ou por vergonha, eu não soube dizer — e os lábios umedecidos. Os cabelos eram uma bagunça desorganizada e os olhos eram de alguma cor clara que não pude identificar.

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Fechei a cara, virando o rosto para o Jay de novo, desta vez, desacreditado.

— Uma criança? — perguntei, estalando a língua ao balançar a cabeça. — Aí você passa de todos os limites, Jay.

Virei de frente para o balcão, apoiando os braços nele, e Jay riu, fazendo o mesmo. Desta forma, o garoto estava à minha direita e o Jay, à minha esquerda.

— Ele tá aqui, não tá? — brincou ele. — Passou pelo segurança.

Fixei os olhos no garoto mais uma vez, que se atrapalhava para pegar o documento na carteira porque, obviamente, o bartender desconfiou da idade dele.

— Esse garoto não tem dezoito anos nem aqui nem em outro planeta — falei, certo do que eu digo. Jay riu. — Ele sabe também — acrescentei, me referindo ao bartender.

Tinha a cara desconfiada, mesmo depois de ler a data na identidade do jovem umas cinco vezes seguidas. Devolveu-a com relutância, junto das três garrafas que o garoto equilibrou nas duas mãos delgadas após guardar a identidade falsa no bolso da calça.

— Não sei não, Rich, quando eu tinha dezoito eu parecia ter uns doze — comentou ele, como quem não quer nada.

Arqueei uma das sobrancelhas, desviando o olhar do garoto que se enfiava na multidão equilibrando as garrafas para o Jay. — Não mesmo — retruquei. — Eu te conheci quando você tinha dezoito, e você parecia ter dezoito.

— Na verdade, eu entrei com dezessete na facul — revelou ele, e eu franzi o cenho.

— É mesmo? — Pisquei, surpreso. — Não lembrava.

— Sim, mas eu fiz dezoito pouco tempo depois. Não sei se te conheci antes ou depois do meu aniversário.

— Eu não sei também — murmurei, algo chamando a minha atenção quando voltei os olhos para meu lado direito.

Estalei a língua ao enxergar o que havia no chão. Me abaixei para juntar, girando o documento nas minhas mãos.

— Além de menor de idade, é atrapalhado.

— O quê?

Ri, balançando a identidade para o Jay antes de ler para ele: — Setembro de 96 — revelei, rindo. — O garoto trouxe a identidade verdadeira junto da falsa para a festa. Eu não era tonto desse jeito quando tinha a idade dele — ri, olhando ao redor para ver se o encontrava.

Ouvi Jay rir também.

— Ele deve ter deixado cair quando tirou a outra da carteira — deduziu ele, girando-a em mãos.

— Eu devolvo quando ele voltar — sugeri, dando uma olhada ao redor. — Com certeza, ele vai voltar. Deve estar com um grupo de amigos.

William — leu, analisando o documento antes de me encarar. — Eu pegava. — Deu de ombros.

Fiz uma careta, encarando-o com incredulidade.

— Jay, pelo amor de deus! — reclamei, desaprovando.

— O quê? Você não? — Riu ele, dando de ombros. — Quero dizer, depois que fizer os dezoito — elucidou, embora algo me dissesse que não era o caso. Jay deu de ombros. — Mas eu ficava muito com caras mais velhos quando tinha a idade dele — contou, e eu puxei a identidade das mãos dele.

— Pensei que você quisesse que eu ficasse com um cara — falei, antes de me aproximar para enfatizar o erro —, não com um adolescente.

— Bom, você não quis nenhum dos que sugeri! — resmungou, fazendo bico.

— Cadê seus amigos, hein? — perguntei, querendo mudar de assunto.

Jay apontou em frente. — Estão na pista. — Então, me deu uma olhada rápida antes de voltar os olhos para a multidão. — E cadê o seu garoto?

Arqueei as sobrancelhas.

— O meu garoto?

Jay riu. — Não preciso nem te olhar pra saber que tem uma veia saltando na sua testa.

Dei um empurrão nele, que se desequilibrou devido ao álcool. Segurei-o rapidamente, rindo do acaso, enquanto ele me encarava com incredulidade.

— Desculpa, Jay — pedi, gargalhando mais uma vez.

— Se você não sabe aturar minhas brincadeiras, que sou seu amigo, imagina as de um bando de universitários que recém saiu do colégio — advertiu ele, me apontando o dedo.

— Nem me fala — resmunguei, porque eu já havia pensado nisso.

Evitei me aprofundar no assunto, porque já fazia semanas em que eu pensava e repensava nas mil e uma maneiras que eu poderia foder com o meu emprego como professor. As mil e uma maneiras de desempenhar um péssimo trabalho como tal e formar alunos incompetentes que não aprender nada além de odiar estudar.

Isto me dava calafrios.

Balancei a cabeça, focando na pista de dança para ver se encontrava o garoto delinquente que sequer podia estar ali. No entanto, acabei encontrando o grupo de novos amigos do Jay, e me virei para comentar algo quando percebi os olhos maliciosos por sobre o tal de Kellan.

— Saquei — falei para ele, ao cutucá-lo, com um sorriso sugestivo.

Jay riu em antecedência, me olhando com curiosidade. — O quê?

— O loiro — falei, apontando com a cabeça o grupinho que volta e meia esquecia de nós dois em um canto. Quero dizer, me esqueciam e Jay vinha junto para não me deixar sozinho. — Por isto que você fez amizades.

Jay fez cara de ofendido.

— Tá doido? — perguntou, dando um tapa no meu braço. — Onde já se viu fazer amizade com três pessoas porque tá afim de uma delas? — Estalou a língua, e eu arqueei uma das sobrancelhas, à espera da verdade. — Ou duas delas — acrescentou rapidamente, olhando o grupinho.

Gargalhei, empurrando-o de leve, enquanto ele gargalhava também.

— Você não presta!

Jay soltou um riso maquiavélico para mim, mas mudou a voz para uma inocente ao declarar: — Eu sou um amor. E eu já volto — acrescentou rapidamente, quando se dirigiu até o loiro com a cerveja na mão e a ofereceu, aparentemente, em troca de um beijo.

Soltei um riso, vendo os dois agarrados desrespeitosamente no meio da pista de dança. Leah relanceou a área onde eu me encontrava, com um sorriso, mas eu apenas acenei e fingi muito interesse no meu celular até que ela perdesse o interesse momentâneo.

Me sentindo péssimo, ergui os olhos apenas para ter certeza de que ela realmente já não mais me olhava. No processo, acabei encontrando o garoto que eu desejava encontrar, no meio de um grupo de amigos. Para não perdê-lo de vista outra vez e arriscar que ele fosse embora sem seus documentos, atravessei a pista de dança até parar na frente dele, chamando sua atenção.

Os olhos claros alargaram-se ao ver que eu o encarava com a melhor cara de bronca que consegui fazer. Se meus irmãos aprontassem isso quando tinham a idade dele e eu ficasse sabendo, eu os castigaria para a vida toda.

Peguei sua mão, vendo a boca abrir em choque e o corpo retesar com o movimento, e larguei sua identidade ali. Quase me senti tão sujo quanto Jay me fizera sentir ao questionar meu interesse em um garoto de dezesseis anos, quando percebi o que se passara pela cabeleira desgrenhada dele ao me ver tocá-lo. No entanto, compreensão passou pelo seu rosto quando girou sua própria identidade verdadeira nas mãos e a expressão envergonhada tomou conta de seu rosto.

Satisfeito, me aproximei o suficiente para aconselhar: — Adolescentes que perdem a identidade verdadeira em uma boate não deveriam estar em uma boate, garoto.

O garoto cujo nome minha mente não registrou piscou algumas vezes, mas não foi capaz de dizer nada, talvez devido a embriaguez que não era permitida ocupar seu corpo adolescente. Apenas me encarou com cara de tacho antes que eu soltasse um riso pelo nariz e decidisse dar as costas. Antes que eu alcançasse o balcão do bar novamente, no entanto, senti uma mão prender-se em meu braço.

Ali estava ele, mais uma vez, com os olhos peculiares grudados nos meus. Franzi o cenho, não entendendo, até vê-lo sorrir e aproximar o rosto do meu ouvido com rapidez.

— Obrigado.

Pisquei, vendo-o se afastar antes de balançar a identidade para mim, indicando que era por isto que agradecia. Sorri também, desconfortável com os grandes e curiosos olhos em mim, antes de assentir.

O garoto, então, voltou pelo caminho que percorrera. Olhou para trás duas vezes, sempre sorrindo, antes de sumir entre a multidão.

Cocei os cabelos, subitamente ainda mais incomodado com o calor da boate e o som alto que repercutia nos meus ouvidos. Desejei, pela vigésima vez naquela noite, que eu pudesse ir embora, deitar em minha cama e dormir tranquilamente.

Apesar de tudo, nenhuma sensação estranha me arrebatou. Permaneci no balcão de bebidas da boate pelo restante da festa, como de costume e o acontecimento com o garoto foi caindo, aos poucos, no esquecimento. Jamais poderia imaginar que, quase três anos após aquela festa mundana, eu reencontraria o mesmo garoto na minha sala de aula, atirando um lápis no rosto de um colega de classe.

Jay é um artista, mas quiçá sua maior obra de arte tenha sido prever no futuro, como prevê sua próxima pincelada em um quadro, que o garoto daquela festa seria, de fato, exatamente quem supôs que fosse.

O meu garoto.

Notas finais
Da série da Hilary "aquela que era amada demais mas amava de menos", vem aí o Turner, "aquele que era odiado demais mas odiava de menos". Rich ♥ GENTE, eu vou localizar vocês sobre cada cena, por isto que eu numerei-as, ok? CENA 1: Duas semanas após a primeira vez deles, que foi no aniversário do Turner, no capítulo XXI. Se lembram? Hahahahha. Então foi após o capítulo "Não te embrulho, te desnudo" e ocorreu antes do capítulo "Eu, júbilo de paz". CENA 2: Um dia após o dito cujo do primeiro beijo @realoficial, que começou na sala do Turner e terminou no corredor no prédio, após o Edwards quase pegá-los no meio do ato. Lembram disso? HAHAHAH. Então ocorreu entre "Sozinhos somos um perigo" e "Tão singelo quanto um beijo de despedida". CENA 3: Entre o capítulo “Aquela segunda primeira aula” e o capítulo “Manual de como tirar dúvidas inexistentes”. Aliás, neste último, ele menciona rápido sobre ter esbarrado no professor do lado de fora do prédio. Pois bem, ele se referia a esta cena. CENA 4: Na época do capítulo “Não desgosto de você”, como vocês já devem saber: Gentem, essa CENA 4, como vocês talvez se recordem, parece muito com uma do capítulo “Não desgosto de você”, que o Turner repete duas vezes que não, não é ruim que ele vá tirar as dúvidas. Isto é porque eu fiz essa cena ANTES de escrever este capítulo, e eu PERDI a maldita (encontrei depois) entre os 23293 words que eu criava pra MOF. Então eu reescrevi, e ficou totalmente diferente, mas a ideia era a mesma: que terminasse com o Turner assumindo que não se importa que Will vá até ele (e, entrelinhas: que flerte com ele) quando quiser. ♥ CENA 5: Esse aqui foi maravilhoso de escrever - foi o primeiro encontro cara a cara do Will com o Turner, na universidade, como aluno e professor, então foi ANTES do prólogo, no início de 2016. Curtiram? ♥ CENA 6: Na metade do ano em 2013, pra ser exata, antes do segundo semestre do ano começar e o primeiro em que Rich começa a dar aulas. Também foi antes do aniversário de 17 do Will, ou seja, ele tinha 16 neste flashback e sim, era ele HAHAHAHAH. E não, nenhum dos dois se lembra do ocorrido. SÓ NÓS SABEMOS. Sintam-se no poder. ♥ Quis adicionar essa última cena porque ai gente, acho que faz parte. A gente vê muita gente todo dia (nessa quarentena não, mas a gente vê) e revê também, sem nem saber. Acontece e acontece muito. Pra vocês terem noção, meu primeiro beijo foi em uma festa. Eu tinha 15 anos, lembro que era um cara malhadinho de mais de 20 que usava uma roupa preta - lembro disso porque fiquei me perguntando se ele trabalhava lá porque os funcionários usavam uniforme preto também -, não tão alto. Agora, o rosto? E os detalhes? Gentem, eu posso ter cruzado com ele na rua 19329 vezes e nunca vou saber quem é, porque não lembro MESMO de nenhum detalhe do rosto do cara. NENHUM. E isso que foi meu primeiro beijo! Era pra ser algo marcante, mas não lembro nem do cara. E não sou tão velha, eu tenho 23. Então é isto, casualidade do destino destes dois. Quem sabe um dia eles não se dão por conta? :3 Dito isto, gente, só nos resta o Epílogo. Eu queria mesmo finalizar tanto a Playlist quanto a pasta no Pinterest pra vocês antes disso, mas eu não vou prolongar mais, eu juro. São duas coisas extras que eu queria trazer pra vocês e não, sobre o Pinterest não é um "casting" oficial, eu vou pôr várias opções para cada personagem para que vocês tenham uma ideia de como se parecem (porque eu criei do 0 na minha mente, então é mt difícil - têm sido impossível - achar algum que seja exatamente como imaginei) e vá que gostem de alguma das opções específicas para cada, né não? Por falar nisso, me digam se, quando pensam nos personagens, vocês têm pessoas específicas em mente? Eu posso adicionar na pastinha ♥ OUTRA COISA BEM RELEVANTE PRA VOCÊS, PREPAREM O CORAÇÃO. Made of Fire, além de Made of Stone, terá mais DOIS Spin-off's por enquanto. Isso mesmo, eu já estou trabalhando nos dois hahahahaha. Eu queria muito deixar toda a "Made Of" para trás, e não porque eu não amo de coração, mas porque pode ser que eu só queira estender essa Universo que amo muito de coração quando, na realidade, eu tenho vários outros projetos diferentes para escrever. MAS, PORÉM, ENTRETANTO... AHAHAHAHHAHAH. Eu ando bem bloqueada já faz um tempão e quando a inspiração bate, eu não posso ser seletiva, não. Então, eu escrevo o que vier e o que veio foi isso: 1) MADE OF CHAOS. Ou, como eu prefiro: "CHAOS, Made of". Vocês podem ficar de cara depois de tanto me pedirem Spin-offs específicos, que eu tenha decidido fazer um sobre o George. HAHAHAHAHAHAHHA. Desculpa! Mas só separar o Peter dele não foi suficiente para mim, eu precisava ver o carma acontecer com meus próprios olhos! Um pouco de contexto pra vocês: Essa fic vai ser meio diferente das demais, porque vai ter alguns outros casais e vai se passar em LYDRIS. Lembram desse nome? É a cidade para a qual o Turner foi, é uma cidade universitária, e a UFLY vai ser parte do cenário dessa história. Ou seja, George realmente se transferiu para lá no mesmo ano em que o Turner, para se afastar do Peter como foi pedido por ele. Turner vai aparecer algumas vezes, se pá até o Will, e vai ter um personagem de MOS que também vai dar uma aparecida em algum momento, mas não posso revelar nada a respeito disso porque é muito spoiler pro desenrolar de MOS atual. Não fiquem de cara comigo, ok? George vai rolar no carma antes de eu pensar dar uma redenção pra ele AHHAHAHAHAH. ♥ E SIM, ele vai ter um par romântico que vai ser basicamente a personificação do carma pra ele, muahahaha. A propósito, falo tanto disso que "Made of Karma" também funcionaria HAHHAHAHAH. 2) MADE OF ART ou "ART, Made of", pra ficar mais chic. Só o nome já diz, né minha gente? Esse Spin-off pertence a ninguém menos do que o personagem secundário favorito de todos, o Jay. E agora ele vai ser o principal da sua própria história. Eu não vou revelar muito, porque ainda tô planejando todo o esquema, mas vocês conseguem adivinhar com quem ou com que tipo de pessoa ele vai ficar? Me contem :3 Outra coisa sobre esse projeto é que vai ter um outro casal que nós também amamos, mais de perto, sem capítulos "extras" para que apareçam: Rob & Luke. Sim, eu ouço os apelos de vocês HAHAHAHHAHA. Eles não vão ser o foco, mas eles não vão ser "secundários" também, eles tão junto para fazer parte do rolê. Não irei revelar o par romântico do Jay ainda, porque é surpresa AHAHAHAHHA. Conseguem imaginar? Bom, é isto, por ora. Espero que vocês estejam bem de saúde física, mental e emocional. Espero que a quarentena acabe logo e que as mortes diminuam drasticamente logo. Espero mesmo que não tenham perdido ninguém que amam e nem a sanidade de vocês. Eu tô sempre aqui para o que vocês precisarem, tá bom? Se quiserem conversar, além das minhas contas como escritora, suponho que tudo bem passar o insta pessoal, ao menos: josi_quaiatto. Mas se forem me seguir, se identifiquem antes porque às vezes eu acho que são pessoas aleatórias e não aceito HAHAHAHAHAH. Sorry. Fiquem bem, fiquem seguros. Senti falta de todos. Amo vocês. ♥ PS.: Textão emotivo e chorão sobre o fim de MOF só vai ocorrer no Epílogo, ok? Por isso eu não mencionei nada, senão vou chorar e chorar, nessa quarentena e nesse país do (des)governo, o quanto menos melhor, porque o menos já é muito ahahhahaha. É, eu sei, não tem graça. É trágico. Amem, odeiem, mas me digam o que acharam uma penúltima vez!