Notas iniciais
Gente linda, gente boa, gente bela! Meus panditores, oilá por aqui, uma última vez ❤ O tempo gigantesco em que estive ausente me fez ponderar se eu não devia ter publicado um capítulo extra só de “notas” devido aos monólogos que vão se encontrar em ambas as notas deste epílogo, mas é proibido pelo site ahahahha. Sim, eu realmente considerei isto! Eu sei que já disse isto mas repito: eu tenho sérios problemas com finais. Se eu gosto ou amo muito alguma coisa, eu não vou querer chegar ao fim dela. Parece que não aproveitei o suficiente, que não fiz ou disse tudo o que poderia, que faltaram detalhes ou palavras, que está incompleto, que eu ainda tenho algo a acrescentar, algo a oferecer. É difícil aceitar que algo que amamos chegou ao seu devido fim, mas esta necessidade de estender o que já acabou, de espremer um pouco mais para que saia algo valioso deste projeto para o qual tu trabalhou, investiu e colocou tanto carinho, só acaba por maltratar e causar prejuízo. Isto vale para toda e qualquer coisa na nossa vida. E eu sei, eu tô trabalhando nisto, porque eu realmente sou este tipo de pessoa com absolutamente todos os aspectos da minha vida ahahhaha. Por isto, peço desculpas se minha tentativa inútil - e ausente, ainda por cima! - estragou ou maltratou um pouquinho este trabalho que todos nós construímos juntos. Juro que não foi a minha intenção. E creio que, por um bem maior, eu deva pôr um ponto final por e para todos nós, para que este ciclo se feche. Inicialmente, eu criei a desculpa de estender este epílogo porque queria trazer a playlist da história e a pasta no Pinterest com ideias, fotografias e personagens - que realmente estão em construção -, então, obviamente eu também não consegui finalizar isto porque - ding ding ding - é PSICOLÓGICO! Hhahahahaha. Assim que eu finalizar estes detalhes “extras” da história, eu posso colocar os links tanto no meu perfil quanto nas notas da história - aquelas da página inicial de MOF. Combinado? No final das contas, neste ano eu percebi que dia 22/05/2021, exatamente 1 mês atrás, Made of Fire completaria - e completou! - seus 5 anos. Foi o que me fez largar de mão essa fobia de finais e trazer o nosso merecido logo. Também foi uma forma de eu colocar um prazo (sim, eu passei do prazo, pois hoje completa um mês desde o aniversário de cinco anos) para que eu escrevesse, e se teve uma coisa que aprendi nos meus anos universitários, é que eu só funciono com prazos. É só na base do terror psicológico de deixar as coisas para a última hora do prazo determinado que meu cérebro ilumina e constrói as coisas mais extraordinariamente bem feitas. Inclusive, foi assim que funcionou basicamente MOF inteira, porque eu sempre queria publicar nos fins de semana antes dos domingos chegarem ao fim - embora eu sempre acabasse publicando na segunda. Inclusive, eu postei literalmente 00h00 este review, então tecnicamente hoje é dia 23. Passei do prazo, só de bonito. Sim, eu sei ahahhaha. Então, aqui estou, um mês - e um dia - após o prazo porque eu não seria eu se não me atrasasse. FELIZ 5 ANOS, MINHA GENTE! ❤ Fora isto, queria dizer que eu sou bem dramática e emotiva, porque mesmo que MOF seja finalizada, eu ainda tenho MOS e as duas outras spin-offs que estão por serem escritas, então não é um adeus. Sim, que anta! E mesmo que fosse o fim desta “série” toda, eu ainda vou continuar escrevendo, ainda vou estar por aqui, ainda vou estar aqui para vocês se precisarem. Então obviamente isto não é um adeus, de fato, mas eu sou mesmo este poço de drama que vocês tiveram que aguentar ahahahhah e tive que tornar tudo mil vezes mais difícil. Desculpa, gente. Dito isto, vamos ao que interessa! PARA RELEMBRAREM: Eu sei que faz tempo, então vou localizá-los sobre algumas coisas: em 2016, quando nossa história começou, o Will tava no 3º/4º semestre, ou seja, no segundo ano da faculdade. Como nesta universidade em específico a ADM dura 5 anos, então o curso deveria ter durado de 2015-2019. Outras informações: MOF durou, praticamente, dois anos. 2016 e 2017, e no início de 2018 o Turner se muda para Lydris. Basicamente: 2016: Prólogo, 1ª fase de MOF e até o começo - férias de final de ano - da 2ª fase de MOF. 2017: Restante da 2ª fase de MOF. 2018: Season Finale se passa no início deste ano. 2019: Último ano de ADM do Will - não pudemos ter vislumbre desta lindeza de ano, só sob os olhos de Caleb em MOS, mas eles tão ocupados focados em Alex. Sorry. 2020: Epílogo. Ah, eu já sinto e sentirei tanta falta. Boa leitura final, panditores! ❤

2020

— William Alexander Jones!

Eu estive pensando muito em quem eu sou, de onde vim e onde estarei no futuro.

Quanto mais próximo eu me encontrava da data da minha formatura, mais eu pensava sobre isto. Era irônico, porque eu não precisava morrer para que minha vida passasse em memórias diante dos meus olhos. Tudo o que eu precisava era dar um passo ousado na minha vida, talvez porque isto me fazia ficar tão nervoso que eu poderia realmente ter um ataque cardíaco e morrer.

Quando entrei para a faculdade, eu o fiz porque queria dar uma vida melhor para a minha mãe e retribuir tudo o que ela havia feito por mim. Tão focado em finalizar o curso por inteiro, e dar orgulho a ela, que eu raramente pensei no que faria depois. Quero dizer, o diploma de graduação era apenas um passo para que fosse possível entregar qualquer coisa à minha família.

E os outros passos?

Sinceramente, eu ainda não os havia planejado. Talvez porque no fundo não acreditei tanto em mim mesmo a ponto de cogitar que eu fosse conseguir. No fundo, pensava que eu ia desistir na metade do caminho e arranjar um emprego meia boca para trabalhar ao invés de estudar.

No entanto, quando entrei no último ano de faculdade, sabendo que eu não planejava desistir, as coisas se tornaram um pouco mais reais. Eu soube que eu conseguiria, sim, apesar da insegurança bater vez ou outra. E eu soube, também, que eu deveria decidir o que fazer em seguida.

Foi a primeira vez que me bateu à compreensão que o próximo passo dependia muito mais de um propósito próprio do que um propósito familiar. O próximo passo, seja qual fosse, era mais pessoal, mais íntimo, mais meu. Dependia do que eu queria para mim, do que eu gostaria de ter e de fazer, das coisas nas quais eu sou bom, do que eu aprendi nos últimos anos e onde poderia e gostaria de aplicar estes conhecimentos.

Isto desencadeou em um dilema pessoal.

Quero dizer, não é preciso me conhecer tão bem para saber que isto me estressou bem mais do que toda a loucura de conclusão de curso, de matérias finais, de estágios e trabalhos importantes, de falta de tempo até para respirar. Porque, durante todo este tempo em que estive atolado até o pescoço de coisas para fazer, este dilema persistia.

Acontece que a pergunta tão simples de “o que eu farei em seguida?” acabou desencadeando em uma série de questionamentos pessoais, auto análises e devaneios profundos e filosóficos sobre até mesmo a minha mera existência.

Eu nunca pensei tanto sobre mim, porque eu nunca havia sido tão importante assim para mim mesmo. Eu cresci tendo que cuidar da minha família, pensar no que seria o melhor para eles, planejar uma vida onde eles estariam felizes. E não era algo proposital, no qual eu me desprezasse por me achar uma pessoa terrível. Era algo intrínseco, algo que passava desapercebido e que, ainda, a vida em uma série de coincidências, tenha influenciado para que permanecesse assim.

Eu escolhi fazer faculdade pela minha família, e talvez se a faculdade que eu gostasse e a faculdade que achasse que geraria um futuro bom não batessem como a mesma — Administração -, quiçá este dilema houvesse começado mais cedo. Quiçá, também, se eu houvesse me apaixonado por um cara quando ainda adolescente, eu houvesse tido que encarar a mim mesmo mais cedo e sair do armário antes do ocorrido. Afinal, aquela havia sido a primeira vez que eu pensei em mim e também ocorreu tarde. E se eu houvesse sido confiante desde o princípio a respeito da faculdade, quiçá houvesse refletido sobre o próximo passo ainda mais cedo, também evitando que o dilema se fizesse presente apenas no fim desta etapa.

Mas algo me fazia pensar que talvez, talvez, as coisas devessem ter ocorrido exatamente desta maneira; que mais cedo não teria sido o ideal.

Eu não estou reclamando!, reforcei, mentalmente. Só que, pensar sobre mim mesmo, sobre o meu futuro, sobre a capacidade que eu tenho de fazer o que eu quero, o que eu gosto e o que eu amo, é um pouquinho assustador.

E outro pouco de excitante.

É por isto que eu venho pensando muito em quem eu sou, de onde vim e onde estarei no futuro. E foi pensando nisto que tomei algumas decisões a respeito da minha própria vida, por mim mesmo e pelo meu futuro.

E eu devo dizer que, de todas as decisões que tomei na minha vida, estas haviam sido as mais difíceis de todas até agora.

Pisquei os olhos em demasiado, olhando para cima para que as lágrimas não caíssem mais uma vez. Eu já havia chorado o suficiente por uma vida toda em apenas um dia.

Já chega, Will, reforcei, inspirando fundo, mas os olhos insistiam em produzir as malditas lágrimas e meu coração teimava em bater forte contra o meu peito.

— Vamos lá, parceiro, não exagere ou é hoje que você infarta — sussurrei, para o estranho órgão no meu peito, ao espalmar a mão ali.

No entanto, tão logo ele fez questão de bater com normalidade, meu nome foi chamado pelo reitor e ele tornou a maltratar minhas costelas.

Talvez fosse o nervosismo e a empolgação de subir lá e receber meu diploma, mas ao invés destes momentos passarem lentamente, eles voaram.

Em um instante, eu me sentia infartar, ouvindo meu nome e os gritos da minha família. No próximo, meu corpo seguia comandos que nem mesmo eu conseguia absorver com tanta rapidez, e eu já estava lá em cima. E no seguinte, eu já havia recebido o diploma nas mãos trêmulas e já me sentava ao observar aquela multidão de lá de cima.

Foi tudo tão rápido!

Isto não deixava de ser irônico, afinal, haver passado cinco anos da minha vida esperando por um momento que, talvez, houvesse durado cinco minutos — e eu duvidava que fossem tantos. Semanas planejando todos os detalhes do evento, escolhendo música, vestimenta, fazendo convites, prestando homenagens, escolhendo local, estrutura, horário, e tudo que encaixasse nos horários de todos; tudo isto para um momento que durava menos de cinco minutos.

Senti as bochechas arderem de tanto sorrir, pensando que: é ridículo o quanto esses cinco minutos valeram totalmente a pena!

Os seguintes minutos, observando os dois últimos nomes serem chamados — uma pequena vantagem e desvantagem da vida toda de ter meu nome no fim da chamada para tudo — simplesmente passaram em um piscar de olhos.

Quando a bagunça se fez presente na arte de todos buscarem suas famílias, um rostinho bonito apareceu no meu campo de visão antes que eu tivesse a chance de encontrá-los.

Meu dragão.

Eu já havia visto toda a sua formosura hoje, mas para ser sincero, eu estava tão envolto por todo o significado gigantesco da formatura — e toda a correria que o dia foi — que mal podia absorver alguma coisa à minha volta além do vendaval de sentimentos que pulsavam no meu peito.

Agora eu podia vê-lo melhor, vendo que havia sido sequestrado pela multidão de formandos que o conheciam e que provavelmente sentiam sua falta.

Turner estava em um traje formal, embora este não fosse o tipo que usa para as suas aulas, mas para eventos grandes como este, já preparado para a minha festa após. Havia deixado a gravata de lado, no entanto, e os primeiros botões abertos, não parecendo exatamente como meu professor, mas meu namorado.

Parei de frente para ele, sentindo os olhos pousarem em mim, assim que a formanda que estava com ele se retirou. Sorri, de orelha a orelha, vendo-o fazer o mesmo.

Turner pegou minhas mãos nas suas.

— Como seu recrutante, eu preciso dizer que estou muito orgulhoso de você — conta, com um sorriso lindo, e eu não posso evitar sorrir ainda mais, em retorno.

Os olhos cinzas brilham e tudo o que eu vejo é amor, o mesmo que eu sabia reluzir nos meus. Ele leva ambas as minhas mãos aos lábios e as beija com carinho, uma após a outra, antes de soltá-las e ajeitar a postura.

Parecendo um tanto mais alto ao se endireitar, ele pigarreia, sob meu encanto, e sorri mais uma vez. Desta vez, o sorriso mais contido demonstra certo respeito.

— E como seu professor... — continua, fazendo-me arquear as sobrancelhas, surpreso. — Estou muito orgulhoso de você, Will.

A mesma frase, mas o tom completamente diferente.

Deixo um sorriso abrir-se em meu rosto uma vez mais, e solto um riso rápido, antes de assentir, com carinho.

— Não vou dizer que foi meu melhor aluno, mas certamente você foi o que mais me encheu de orgulho — revela, e tudo que ouço na sua voz é o orgulho ao qual se refere. — Eu sabia que conseguiria — sussurrou, por fim.

Sorrio, afetuoso, antes de assentir.

Nossa história realmente ultrapassou qualquer linha entre um aluno e professor, mas eu não podia negar o fato de que ele mudou por completo minha visão da faculdade, dos estudos, das minhas responsabilidades e do futuro que tracei para mim mesmo.

Eu era desleixado, preguiçoso e bastante irresponsável. Fazia pouco caso dos meus estudos, não dava valor para a faculdade e não tinha visão nenhuma. Curiosamente, reprovar na matéria do Sr. Turner não apenas iniciou nossa história de amor, como também me impulsionou para frente com relação aos meus estudos e meu futuro.

Quem diria que o pulso firme e a rabugentice do Sr. Dragão seriam de muita ajuda?

Devia muito a ele por isto, como professor.

— Obrigado, Sr. Turner — agradeci, sincero, com um sorriso respeitoso.

Ele assentiu, levando uma das mãos aos meus cabelos, para fazer um cafuné rápido.

— Disponha, William.

Escondi os lábios, mas não consegui evitar soltar um riso.

Tudo bem que eu tivesse meu histórico de memórias ruins com meu nome completo, mas ao ouvi-lo naquele contexto, tudo o que eu podia me recordar era de um longo flashback do começo da nossa história de amor.

Especialmente de quando eu bati a porta da sua sala com tanta força que tremeu o chão, na primeira de muitas vezes em que estive lá.

Bons tempos.

— Eu te amo — declarei, involuntariamente, ao rir da lembrança.

Turner não aguentou e me puxou para perto, envolvendo-me em seus braços com tanta força que quase sufoquei. Beijou meu rosto, meu pescoço, meu ombro e tudo o que via pela frente.

— Eu é que te amo, anjo — anunciou, deixando um beijo rápido em meus lábios.

Ri, percebendo a maneira rápida como mudou de postura para meu namorado uma vez mais, deixando vários selinhos seguidos nos meus lábios. Parecia não dar indícios de querer soltar-me de jeito nenhum.

Mas querer não é poder, porque eu logo fui arrancado de seus braços por uma emocionada e espalhafatosa Kaori. Junto dela, todos os demais haviam encontrado caminho entre a multidão para a área próxima do palco onde estávamos.

— Até que enfim! — exclamou ela, apertando com tanta força que tive que resmungar. Afastou-se para me olhar de baixo sob os olhos puxados. — Vou ter meu amigo de volta!

Revirei os olhos, mas ela me puxou novamente.

— Não exagera, K — resmunguei, mas ela apenas riu-se. — Não foi pra tanto.

— Achei que nunca mais ia te recuperar — insistiu ela, dramática, para me calar. — Agora você tá livre!

Tive que rir em resposta.

O último semestre da faculdade tomou muito de mim: meu tempo, meu sono, minha paciência, meu bom espírito, minha alma. Eu não estive presente e quando estava, acho que fiz todos preferirem que não estivesse.

Ok, ela tem um pouquinho de razão.

Em seguida, recebi uma série de abraços carinhosos e parabenizações. Tio Shiori e tia Kira, tia Nancy, Theodore, Jay, Peter, Gabe.

E então, restaram os dois, lado a lado.

Minha mãe não conseguia nem falar, o rosto inchado pelo choro, os olhos marejados não haviam saído de mim em momento algum. No minuto em que a enxerguei, e como toda vez que a enxergava chorosa no dia de hoje, senti meus olhos voltarem a marejar também.

Ela fechou o espaço entre nós, pegando meu rosto com suas mãos. Um nódulo cresceu na minha garganta, com o ímpeto de soluçar, da maneira como sabia que ela sentia-se também.

Estava vestida feito a rainha que ela é, em um vestido azul que caía perfeitamente em seu corpo, e a escolha da maquiagem à prova d’água havia sido a cereja do bolo. Se havia alguém que precisasse de maquiagem à prova d’água era a minha mãe.

E talvez eu também.

— Will — sussurrou, mas eu pude ouvir mesmo com a barulheira do local. Aquele som era alto, atingia bem no meio do peito, aquecido. — Essa é a primeira das suas muitas conquistas, eu sei que eu ainda vou presenciar muito mais. — Sorriu com ternura, e eu me acabei de chorar, obviamente. Não reprimi o soluço, deixando o rosto descansar no carinho das suas mãos. — Estou muito orgulhosa de você. Parabéns, meu amor.

Deixei-me ser envolvido por seu abraço e seu amor ali mesmo, sem conseguir enxergar mais nada devido às lágrimas. Meu rosto caiu em seu ombro, ao passo que eu a abraçava com força, sentindo o carinho em minhas costas, como o colo de mãe.

Ela ainda sussurrou mais palavras carinhosas, enquanto todos esperavam o momento entre as duas pessoas mais sensíveis da família acabar.

É genético, tá?

Mas o meu irmão, que nos observava o tempo todo sem uma única mísera lágrima nos olhos, estava ali para provar do contrário. Aquele menino insensível, que quase nunca chorava ou entendia emoções humanas, que falava o que pensava na cara, desprovido de tato, que quando tem tato provavelmente só está fazendo aquilo porque sente empatia — o que o impede de ser um monstro sem emoção no fim das contas -, estranhamente possuía um similar DNA que o nosso.

Sorri, percebendo que ele sorria de volta, observando a cena com carinho.

Não se parecesse muito comigo e com a minha mãe, eu diria que é adotado. Inclusive disse, me corrigi, várias vezes enquanto crescíamos.

— Você só pode ser adotado — verbalizei, vendo que o sorriso dele aumentou para um riso engraçado.

— Se eu sou, você também é — retrucou, antes de me abraçar quando mamãe finalmente me soltou.

Eu costumava pensar que Caleb seria mais alto do que eu porque havia espichado muito rápido no início da puberdade, mas parece que ele estancou um pouco agora, uma cabeça mais baixo que eu. Ainda assim, era ele que dava batidinhas no meu ombro para me acalmar ao passo que eu suspirava, apoiado nele e limpava o rosto.

Era um dia importante, oras!

Finalmente, nos movimentamos para sairmos e irmos para o salão de festas que minha mãe insistiu que tínhamos que reservar junto de Laurel e Cenoura. Acontece que nossa família se resume à minha mãe e meu irmão, além da família ao lado e amigos da família, então reservar um salão para comemorar era meio ridículo. Laurel e Cenoura também se formaram junto de mim, então a gente decidiu unir as festas para dividir as despesas e encher um local de eventos, porque minha lista de convidados era miseravelmente curta.

Laurel por si só levaria metade dos convidados, porque apesar da família não ser grande, ela conhecia a cidade toda. Cenoura não tinha amigos além de nós, mas sua família era gigantesca. Então, acabamos completos.

Saí da beca, porque aquela coisa me fazia suar dos pés à cabeça, ajeitei minhas coisas, peguei meu diploma - que, na realidade, era apenas um papel cerimonial, que ultraje! — e estava preparado para encher a cara e dançar até dar pane no sistema.

Eu me formei, caralho!

*

— Minha festa de administrador, que coisa mais linda!

Senti o Turner rir no meu ouvido, ao me abraçar por trás, antes de deixar um beijo estalado no meu pescoço. Apoiei a cabeça no seu ombro, os olhos presos nas luzes piscantes, naquela cambada de gente unida em um mesmo lugar, na sensação da música literalmente dançando dentro do meu peito.

Que coisa mais linda!, repeti, internamente.

— Você merece — murmurou ele, apoiando o queixo no meu ombro. Esperou um minuto antes de perguntar: — E agora, qual vai ser a próxima faculdade?

Virei na sua direção feito um vulto.

— Que próxima faculdade? — perguntei, sentindo as pernas ficarem bambas só de imaginar passar por tudo de novo. — Eu não pretendo fazer isto de novo nunca mais!

Turner gargalhou.

— Não sei, Will, é que você ficou murmurando “que coisa linda” e “que coisa mais linda” — debochou ele, fingindo estar pensativo. — Pensei que queria repetir a experiência!

Ri também, dando um tapa em seu ombro, mas meu sorriso logo desvaneceu. Turner piscou, parecendo confuso com a minha reação.

No calor do momento, cheguei até a esquecer que eu gostaria de conversar sobre o tópico logo depois que me formasse, antes mesmo de vir para a festa e estar no meio de tanto barulho e comoção. Havia deixado para hoje, porque queria passar pela experiência da formatura antes de focar em qualquer outra coisa.

— Eu preciso te contar uma coisa.

Vi quando as sobrancelhas uniram-se em confusão.

— O quê?

Mordi os lábios, em uma tentativa de não deixar escapar todas as palavras metralhadas de uma vez, para poder deixá-lo digerir as coisas por partes.

— Eu me inscrevi para uma pós-graduação.

Turner arqueou as sobrancelhas, embora eu já pudesse vislumbrar uma mistura de contentamento, receio e confusão nos olhos cinzas, enquanto a mente dele trabalhava. Sorriu em resposta, como se não soubesse se devia ou não.

— É mesmo?

Assenti, escondendo o sorriso, antes de revelar: — E eu passei.

Turner soltou um riso agradado, mas a ruga continuava entre as sobrancelhas, e eu soube mais ou menos quais questionamentos rolavam ali dentro.

— Isso é ótimo, Will! — exclamou, as mãos envoltas nos meus braços, um genuíno orgulho perpassando por seus olhos. — Parabéns! Eu nem sei o que... — interrompeu-se, a confusão tomando conta, junto de certa hesitação. — Por que não me contou antes?

É claro que já havíamos conversado sobre isto antes, mas como eu disse, eu precisei estar na reta final do curso para realmente começar a ponderar sobre o que fazer da minha vida. Eu precisei estar com um pé no dia de hoje, praticamente, para poder considerar minhas opções. Até onde Turner saiba, eu ainda estava perdido no que fazer em seguida.

— Não queria criar falsas expectativas — revelei, porque era verdade. Apenas os meus amigos sabiam sobre isto, não havia criado coragem nem de contar à minha família também.

Se eu não passasse, não queria ver a decepção no rosto de ninguém além do meu próprio.

— Mas, Will...

Calei-o ao pôr um dedo sob seus lábios, já não mais conseguindo esconder o sorriso.

— Quer saber para onde? — Ele piscou, assentindo minimamente, como se quase não tivesse certeza de que queria saber. — Adivinha.

Um misto de emoções passou pelo seu rosto mais uma vez, ao passo que eu tentava não pular no próprio lugar de empolgação. Ele pensou por um instante, mas parecia receoso sobre o provável primeiro lugar que passou pela sua cabeça.

— Will... — começou, com tanta cautela que eu quis rir. — É o que estou pensando?

Sorri, apenas, querendo brincar com ele um pouco mais ao dar de ombros, desentendido. — Não sei o que tá pensando.

Parecendo dividido, ele soltou um riso nervoso, antes de tornar a ficar a sério, mas logo sorriu outra vez. Era quase como se estivesse desarmando uma bomba.

— Will... — Riu novamente, soando nervoso, e eu apenas segurei o riso. — Sabe, sim — insistiu, a ruga ainda ali. E então, tentou despejar o que eu já esperava: — Se tá falando da UFLY, Will, você...

Balancei a cabeça negativamente antes que ele terminasse, de um lado para o outro.

Shh — interrompi, calando-o outra vez ao levar uma mão para o seu rosto e acariciá-lo. Esclareci, sabendo o que viria em seguida: — Não é por sua causa.

Turner não pareceu convencido, a hesitação brilhando em seus olhos como se eu pudesse vê-la escrita neles. O cenho vincado em preocupações desnecessárias, o meio sorriso nervoso, as mãos tensas nos meus braços.

Ainda assim, deixou escapar um receoso: — Não?

Suspirei, sorrindo.

Balanço a cabeça negativamente, os olhos presos nos dele para passar segurança, antes de me aproximar um tanto mais e ficar grudado em seu corpo.

Eu estaria mentindo se dissesse que a jornada até aqui foi fácil.

Os últimos dois anos da faculdade, ironicamente os dois em que Turner não estava por perto, foram os mais desafiadores para mim. Eu tive que pôr em prática muito do que aprendi em mais do que apenas um estágio, ao mesmo tempo em que assistia aulas pesadas.

Por um lado, foi ótimo que o Turner não estivesse por aqui, porque pude focar sem qualquer interrupção nos meus estudos e no meu futuro. Por outro, no entanto, foi péssimo pelos desencontros que tivemos, já que estivemos os dois ocupados, então encontrar um fim de semana em que os dois pudessem se ver foi desanimador.

Não vou dizer que nosso relacionamento permaneceu intacto durante estes dois anos, e que não tivemos crises, discussões e desentendimentos, e até términos no auge de uma discussão, porque isto também seria uma tremenda de uma mentira.

Aliás, o mês final de conclusão de curso foi particularmente estressante para mim e pode ser que eu tenha descontado muito no Turner a ponto de que mal nos falamos durante todo este período. Ainda assim, ele moveu céus e terras para estar aqui e ajudar com tudo o que eu precisasse, sem uma gota de má vontade.

Era fácil esquecer do porquê de estarmos juntos quando ficamos tanto tempo separados.

Mas bastava nos encontrarmos, mesmo emburrados, para que tudo se encaixasse novamente. Bastava que estivéssemos no mesmo ambiente outra vez, e nenhum dos grandiosos sentimentos que sentimos um pelo outro se tornava meramente nebuloso. Bastava um olhar, um sorriso, uma palavra, para que eu esquecesse até o meu nome.

Era sempre assim, e eu pondero se algum dia mudará.

Mordi os lábios, deixando os braços caírem ao meu lado.

— Eu acho que... — sussurrei, meio que para mim mesmo, ao medir as palavras. — Eu nunca havia me permitido sonhar alto. Sabe? — questionei, mas não esperei uma resposta. — Eu nem sabia se conseguiria chegar aqui hoje, e quando o dia se aproximava eu me dei conta de que eu posso fazer o que eu quiser agora. Eu conquistei o diploma que sempre quis, com o qual eu sempre sonhei. Eu ainda não sei o que esperar do futuro, se eu quero ser pesquisador, professor, empresário ou qualquer outra coisa, mas eu percebi que agora, neste momento, eu quero continuar estudando.

Turner assentiu, levando uma mão ao meu rosto também, para acariciá-lo, de forma semelhante a que eu havia feito mais cedo nele.

— E quero continuar estudando Administração, então decidi fazer a pós. E, por um momento, eu... Eu... — Suspirei, sob os olhos atentos dele, antes de admitir: — É claro que eu escolhi a UFLY por sua causa, mas isto é porque não tenho uma universidade dos sonhos ou uma cidade dos sonhos ou mesmo um emprego dos sonhos no momento — expliquei, rapidamente, ao ver qualquer vislumbre de tensão desvanecer de seu rosto quando ele sorriu, vencido. — Mas eu quero sair mundo afora, e eu quero estar com você, e eu quero continuar estudando — listei, agitado, vendo um sorriso orgulhoso espalhar-se pelo seu rosto lindo mais uma vez. — Eu acho que tá na hora de eu voar solo e deixar a minha mãe voar solo também, sabe, por completo.

Não acho que ela vá ficar muito feliz com isto, acrescentei mentalmente, motivo pelo qual ela será a última a saber, porque eu estou morrendo de medo de encará-la para isto. Mas ela vai ter que aceitar, no fim das contas, porque também deve saber que será o melhor.

Eu sei que o Caleb ainda vai levar alguns anos para sair debaixo das asas dela, mas é diferente comigo, porque eu sei que ela esteve adaptando a vida dela junto de mim nos últimos tempos. Até o meu quarto na reforma da casa foi mantido da mesma forma, poluindo a casa atualizada da nova vida de casada da minha mãe.

Chegou a hora.

Eu tenho que seguir em frente.

— Cenoura conseguiu um emprego foda em Mallow Coast, o Gabe largou a faculdade quase na reta final e agora está cursando o que sonhava de verdade, e a Laurel vai fazer o mestrado aqui na HFU. Todos os meus amigos estão seguindo seus próprios sonhos e eles são altos, sabe? — Ele assentiu, e eu sorri. — Eu quero sonhar alto também, Turner. Eu quero sair daquele bairro, daquela casa, daquela vida. Eu quero me arriscar e me aventurar para longe. Eu quero pensar um pouco em mim. E eu quero estar perto de você.

Um sorriso largo espalhou-se pelo seu rosto, atingindo os olhos acinzentados pelos quais me apaixonei. Senti sua mão na minha cintura, porque já estávamos grudados um no outro, e seu perfume cheiroso.

— E eu espero poder conquistar tudo isto ao seu lado... — finalizei, sentindo-me subitamente exposto depois de tanta palavra. Uma pontada de medo atingiu meu âmago antes que eu acrescentasse, baixinho: — Se você quiser.

Assim que o último som saiu da minha boca, Turner me beijou com rapidez. Os lábios selados mais serviram para o propósito de deixar uma mensagem do que pelo simples ato de beijar, ao passo que nos abraçávamos no mesmo instante.

Assim que separou nossas bocas, eu sorri.

— É claro que quero, Will — sussurrou ele, colando a testa na minha, ao soltar um riso fofo. — Não há nada que eu queira mais.

Desta vez, fui eu quem fechou o espaço entre nós de surpresa. E desta vez, para beijar mesmo.

*

Esta é a primeira vez que me formo, mas já fui convidado para as formaturas de outras pessoas. Se tem uma coisa que percebi é que não há nada como um grande evento, como este, para unir pessoas que você não vê há muito tempo.

Geralmente, parentes, mas o meu caso é diferente.

Tudo bem que eu andava bem ocupado nos últimos meses a ponto de sequer conviver quem é próximo de mim, mas acredito que isto também tenha a ver com o significado de grandes eventos como formaturas.

Foi o que pensei ao deparar-me com as famílias da Laurel e do Cenoura, bem como a família do Turner, que havia vindo por minha causa.

Jay era outro que fazia um tempo que eu não via e que, neste momento, havia sequestrado meu recrutante para conversar em uma das mesas.

Kaori morava do lado de casa, mas focado na reta final da faculdade, eu já não via seu namorado há tempos, o Ryan. O mesmo eu digo para a Jess, que esteve sumida com o Cenoura tanto quanto eu estive de todos.

Na tia Nancy eu pude dar um abraço ainda na semana passada, mas o filho dela já fazia um tempo que eu não via. E lá estava o Peter, com o seu novo namorado.

Ainda era estranho vê-lo, depois de tanto tempo, mas a nossa relação não ficou exatamente ruim depois que ele terminou com o George. Ele fez um esforço para, sempre que sua mãe visitasse a minha, ele estivesse lá também para me visitar. Foi bom por um tempo, mas este tempo também foi o suficiente para perceber que nossa amizade — o início dela, na verdade — já estava manchada pelo que ocorreu. Depois de um tempo, ele não apareceu mais, e se tornou mais uma vez apenas o filho de Nancy, quem eu cumprimentava de longe nas ruas.

Acho que os únicos ali, além da minha família, que mesmo sem ir atrás para vê-los, eu via constantemente mesmo durante a loucura de formação, eram a Kaori, o Cenoura, o Gabe e a Laurel.

Os amigos do Caleb também sempre estavam lá em casa, então era impossível evitá-los. E todos estavam aqui também, um ao lado do outro, enquanto conversavam em uma das mesas.

Bom, quase todos.

Suspirei, querendo me dirigir até lá, mas fui interrompido por um rapaz ruivo.

— Opa — disse ele, levando uma das mãos ao meu ombro direito. — Aonde é que você pensa que vai?

Ri, tirando sua mão de mim em um instante.

— Você já tá bêbado, Cenoura?

O rosto alvo estava avermelhado porque, instantes antes, ele estava na pista de dança com sua namorada e outros dos nossos amigos. Não estava bêbado — ainda —, mas já havia um copo vazio na sua mão.

Ainda não — respondeu, com um riso, e eu gargalhei. O bom é que ele sabe. — Vem, tá todo mundo te chamando!

Relanceei a pista de dança, onde todos estavam fazendo vexame na frente das famílias, movimentando o corpo em algo que deveria ser dança mas era qualquer coisa além disto. E, como sempre, o ritual de acasalamento bonito, porém estranho, de aranhas coloridas me veio à mente ao observar a pista de dança.

Gargalhei.

— Me recuso!

Porém, minha recusa não foi aceita, e eu fui arrastado para passar vergonha junto deles. Mal cheguei e minha mão foi pega por Kaori, que me puxou para imitar os movimentos dela, que rebolava incessantemente ao lado de Ryan.

Fiquei um tempo com eles, música após música, bebendo do copo dos demais aqui e ali, mas acompanhando-os nas batidas agitadas. As garotas dançavam mais e melhor que os garotos, com exceção de Cenoura, que rebolava até o chão junto de Jess, o que causava mais risos do que qualquer uma de suas piadas.

Em algum momento, Gabe riu e pegou minha outra mão para largar uma latinha de cerveja. Estreitei os olhos para ele, apontando um dedo em sua direção.

— Você podia tá se formando com a gente hoje, né?

Eu não sei de onde Gabe tirou coragem de finalizar o curso pela metade — mais para o fim do que para a metade — para começar um novo. Eu não podia aguentar mais e mal esperava estes cinco anos acabarem de vez, e meu amigo de infância recomeçava tudo do zero.

Coragem, porque a noção era menos zero.

Gabe fez uma careta, mas deu de ombros. — Vou contar a verdade, Will — pronunciou ele, aproximando-se, enquanto eu tomava bons goles amargos da minha cerveja favorita. — Eu não aguentaria dividir esse dia com vocês três, precisava de um dia só pra mim! Foi por isto que me transferi para Arquitetura — revelou, e eu revirei os olhos.

Cenoura, ao ouvir aquilo, gargalhou feito uma hiena engasgada, o que acabou fazendo nós dois rirmos também da piada sem graça de Gabe. Ridículo!

Onde foi que eu arranjei amigos tão ridículos?

— Sendo o mais ridículo de todos! — respondeu Laurel, ao berrar no meu ouvido acima da música, à minha pergunta nem tão mental assim.

Esfreguei o ouvido, com uma careta, antes de atirar a língua para ela. Laurel, tão madura quanto eu, fez o mesmo em resposta, antes que Kaori perguntasse do outro lado: — Quem são os amigos ridículos?

Faltou a mão na cintura, mas o tom de voz disse tudo. Gargalhei, antes de apontar para ela, que ainda estava meio grudada em Ryan.

— Você, que só fica agarrada nesse teu namorado — reclamei, com um beiço, ao apontar para o rapaz risonho ao lado.

Como quem faz graça, ele largou a japonesa no mesmo instante, erguendo as mãos em defesa. Kaori riu, puxou-o pela camisa para que se abaixasse um tanto e falou alguma coisa em seu ouvido — aparentemente, só para me irritar com sua melação apaixonada em resposta à minha reclamação ciumenta por sua atenção!

Como eu disse: ridículos, sem se salvar nenhum, todos os meus amigos!

No entanto, o rapaz alto riu e focou os olhos em mim, antes de assentir e caminhar em minha direção. Arqueei as sobrancelhas, vendo Kaori rir ao seu lado, antes que ele me puxasse pela cintura de forma parecida com a que fazia com a namorada para dançar.

— O que tá fazendo?! — exclamei, rindo de nervoso, ao alternar entre fuzilar minha melhor amiga com os olhos e alargá-los ao ver Ryan rir da minha cara, na minha cara.

Ele deu de ombros, indicando Kaori, que gargalhava ao se inclinar sob o próprio corpo esguio, com a cabeça. — K me disse pra dançar com você também pra que não sentisse tanto ciúmes, tem eu de sobra para vocês dois — brincou, tão debochado quanto a namorada.

Estreitei os olhos para os dois, me desvencilhando dos braços musculosos, antes de dar uma olhada nos outros amigos que gargalhavam em meio aos movimentos ritmados.

Voltei-os para a japonesa. — Você não tem vergonha na cara, não? — reclamei, mas isso a fez gargalhar ainda mais.

— Vai, dança com ele, ciumento! — finalmente falou, divertida, antes de empurrar o namorado para mim e pegar a latinha das minhas mãos como se fizesse uma troca.

Eu conhecia Ryan há dois anos já, o suficiente para que isto não fosse meramente estranho, visto que ele era muito tranquilo. Eu já havia aprovado o relacionamento dos dois quando vi que ele não repetiu o padrão tóxico dos antigos namorados da azarada K.

Dei de ombros, aceitando quando ele se aproximou mais uma vez.

— Ok, mas se o Turner reclamar, você que se explique — apontei para ela, vendo que ela relanceava as mesas com diversão para onde ele estava.

— Ele não é ciumento, né? — perguntou Ryan, um tanto temeroso, ao olhar por cima do meu ombro. Turner, ao contrário de mim, havia passado pouco tempo com ele devido ao seu tempo em Lydris.

Sorri largo, dando de ombros, ao acompanhá-lo na dança que fez os demais à nossa volta gritarem e rirem com diversão. Em menos de um minuto, estavam todos pulando à nossa volta quando a música trocou de uma latina para uma eletrônica, ao passo que eu já me encontrava abraçado entre Ryan e Kaori, um braço em torno de cada um deles.

Aquilo já havia virado uma confusão de pessoas embriagadas ou, no meu caso, empolgadas o suficiente para serem confudidas com embriagadas na pista de dança. No fundo, agradeci que minha mãe insistisse para alugar um salão e que as coisas houvessem se ajeitado para que dividíssemos a festa com meus amigos.

Tive que me desvencilhar pouco tempo depois, e encontrar meu senso de direção no meio de luzes piscantes, música alta, escuridão e a luz mais ao longe, que cercava a área das mesas e o balcão atrás com as bebidas. Caminhei até lá, com o intuito de buscar mais cerveja, porque eu não havia bebido quase nada ainda. E eu havia pagado por parte daquelas bebidas!

No caminho, só ouvi o berro de Laurel lá atrás, acima da música: — A gente se formou, caralho! — Ri, relanceando-a a tempo de ver que ela erguia uma garrafa para cima, olhando em algum ponto específico das mesas de sua família. — Quero ver sua filha mostrar esse diploma também, tia Lara!

Quase me engasguei com o riso, lembrando do quanto ela reclamava da cobrança dos parentes sobre sua vida e dos que diziam que ela nunca iria se formar, sendo filha de uma mera cabelereira. Até parece!

Uma mão fechou-se no meu braço antes que eu alcançasse o balcão, quando passei entre as mesas, e eu soube quem era antes mesmo de ver. Soltei um riso, virando para deparar-me com olhos que, apesar de não poder ver devido a falha de claridade, eu sabia serem perfeitamente acizentados.

— Aonde vai, menino travesso? — perguntou ele, com o tom brincalhão, ao deslizar a mão do meu braço para a minha, entrelaçando-as.

Desviei o olhar para a mesa, vendo que Jay estava ao seu lado direito, mas que conversava animadamente com Rob, Luke e Becca. Seus pais e Mike não estavam ali, provavelmente estavam com a minha mãe, na mesa dela.

— Pegar minhas cevas antes que todos acabem com elas — revelei, vendo-o rir em resposta, antes de apontar para a mesa, onde uma garrafa de cerveja acabara de ser aberta ao lado.

Inclinei-me para pegá-la, mas ele negou, com um sorriso travesso. Puxou-me de tal maneira que eu caísse sentado em sua perna direita.

— O que tá fazendo, menino travesso? — brinquei, em resposta, ao arquear as sobrancelhas.

Ele sorriu, mas deu de ombros. — Ninguém tá prestando atenção na gente — revelou, e eu soube que era verdade. Mesmo que estivessem, havia muita gente por ali e pouca luz. — Posso saber por que você estava dançando indecentemente com um namorado que não é o seu?

Não pude evitar rir alto, e um tanto satisfeito, que aquilo não houvesse passado desapercebido por ele.

Olhei-o pelo canto do olho, tentando ler sua expressão, já que não se podia ouvir muito do tom de voz com tanto barulho à volta. Mas além de uma pontada de ciúmes, no máximo, tudo o que havia ali era diversão e um tanto de uma provocação bem-vinda.

— Por quê? — provoquei em resposta, aproximando os lábios de seu ouvido ao senti-lo apertar os dedos em minha cintura. — Não posso?

Senti um riso na minha bochecha, ao passo que ele levava o outro braço para circundar-me com os dois. — Não — respondeu, e eu pude sentir a voz grave na pele. Sorri mais largo. — Só comigo, anjo.

Hum — resmunguei, achando graça, antes que ele tascasse um beijo no meu rosto. — Então vamos lá.

Turner arqueou as sobrancelhas, como quem havia caído em uma armadilha, e eu apenas sorri largamente ao levantar do seu colo e estender uma mão a ele.

Já havia tentado levá-lo à pista de dança desde que chegamos ali, mesmo antes de eu haver me juntado aos meus amigos nela, e eles também tentaram arrastá-lo, obtendo negativas o tempo todo. A mesma se repetia naquele instante, quando ele balançava a cabeça de um lado ao outro, rindo com graciosidade.

— Que engenhoso, Will — admitiu ele, rindo, antes de arquear uma das sobrancelhas com análise: — E maquiavélico!

Gargalhei, tentando puxá-lo, ao ouvir outra música de batida latina começar a ressoar pelo salão.

— Vamos, professor — brinquei, devido ao comportamento conservador. — Deixa de ser careta!

— Não deixo — brincou em resposta, fazendo um beiço teimoso.

Ri, mais uma vez. — Vamos!

— Não — insistiu, de fato, com uma careta que se apossou de seu rosto quando relanceou a pista de dança pela possibilidade de ter que ir até lá.

Desisti, sabendo que ele iria se eu insistisse mais um pouco, mas então não teria graça. Eu teria que fazê-lo ir por conta própria, e não me importava que levasse a festa toda para que o fizesse. Ele iria.

Sorri, inclinando-me em sua direção, os olhos nos dele.

— Você já me viu dançar antes — apontei, com um sorriso traquineiro —, então sabe que a dança com o Ryan não foi nada indecente, como você disse. Porque você, Turner — falei mais baixo, vendo-o descer os olhos para a minha boca —, sabe o que é dança indecente de verdade. Não sabe?

Ele ergueu os olhos para os meus, um sorriso brincando em seus lábios, refletindo a palavra que repeti duas vezes: indecência, em cada pedacinho de sua expressão. Sorri da mesma forma.

— Não quer vir comigo? — perguntei, inclinando-me ainda mais, até que alcançasse seu ouvido. — Então só assista.

Aproveitei a aproximação para roçar o nariz em seu pescoço ao passo que esticava o braço para juntar a garrafa de cerveja da mesa, e logo me afastei, risonho.

Dei uma última olhada para sua figura intocável na mesa antes de voltar para a pista de dança e me unir às danças reboladas de todas. Desta vez, com um alvo na platéia, que não tirou os olhos de mim em momento algum.

— Parece que alguém vai se dar bem essa noite — comentou Jess, ao me cutucar, com diversão.

Quase me engasguei com a bebida que virava no momento, vendo-a gargalhar junto do namorado. — Não sei do que você tá falando — desconversei, roxo de vergonha.

Ela arqueou uma das sobrancelhas, apontando para a mesa atrás de mim. — Eu acho que sabe.

Revirei os olhos, e Cenoura aproveitou o momento para apontar também, com um gesto vago.

— Já contou pra ele, Will? — perguntou, e tive que pensar um pouco para entender que ele se referia à pós-graduação.

Sorri largo, assentindo com empolgação. — Contei, até que enfim!

— Ele deve ter ficado muito feliz — acrescentou Jess, com um sorriso carinhoso.

— Alguém, pelo menos — resmungou Laurel, ao se intrometer na conversa, limpando o suor da testa.

Gargalhei, passando um braço em torno dos ombros dela e o outro em torno dos ombros do Cenoura. — Eu sei que eu vou fazer muita falta, mas eu prometo que vocês vão sobreviver sem a minha pessoa!

Laurel cutucou minha barriga com força desmedida, e eu choraminguei. — É claro que vamos sobreviver! Mas você vai embora, Will — reclamou, com um beiço. — Vai ser um saco ter que aguentar esses dois sozinha.

— Ei! — reclamou Gabe, materializando-se na nossa frente, ao lado de Jess. — Eu sou seu namorado!

— Grande coisa — reclamou ela, com um beiço. — Will, sendo o resmungão dramático que ele é, ainda assim torna nosso círculo de amizade neutralizado.

Resmungão dramático?

— Ei! — reclamei, também, cutucando-a com a mesma força desmedida que ela usou em mim. — Calúnia! Quem é o resmungão dramático?!

— Você! — exclamaram todos, em uníssono.

Soltei um arquejo, deixando o queixo cair em ultraje. — Que absurdo!

— Não se preocupa — garantiu Cenoura, do meu lado, ao dar tapinhas no meu ombros de forma sábia. — A gente te ama do jeitinho que você é.

Dei um peteleco em sua cabeleira ruiva, apenas para não perder o costume, ao vê-lo se desvencilhar gargalhando alto. E, no mesmo instante, nosso abraço triplo se desfez com tanta rapidez quanto se formou, substituída por cutucadas, petelecos e provocações.

Não dava para negar: esse é o nosso tipo de amizade. Os carinhos, os mimos, os abraços e declarações de amor não duravam muito tempo. O nosso verdadeiro amor era demonstrado com puxões de orelha, gargalhadas de hienas chapadas, ofensas carinhosas e empurrões amorosos.

Para ser sincero, eu não estava tão preocupado com eles.

Primeiro, porque eu sabia que eles podiam se virar perfeitamente sem mim e também sabia que, nessa etapa das nossas vidas, mesmo que eu estivesse por perto o tempo todo, nos veríamos bem menos do que nos vimos na graduação. Segundo, eu também sabia que eu visitaria com muita frequência porque certamente morreria de saudades de casa, da minha mãe e do meu irmão, e que as oportunidades de vê-los sempre estariam ali.

Sem falar que os maiores problemas da minha mudança para outra cidade nada tinham a ver com meus amigos. E o primeiro deles residia em como diabos eu contaria isto para a minha mãe e o meu irmão, e em como eu conseguiria manter-me determinado em ir ao pensar no que seriam dos dois sem que eu estivesse por perto para manter um olho neles 24/7.

Foi aí que minha atenção, como se atraída feito um ímã, recaiu sob Caleb, que tinha os olhos desfocados, sequer prestando atenção no que o melhor amigo tagarelava ao seu lado, enquanto apertava o pingente de seu colar nos dedos. Sua mente parecia estar em qualquer lugar que não fosse aqui.

Suspirei, meus pensamentos sobre a mudança calando-se no mesmo instante. Em seguida, aproximei-me dele, percebendo a áurea negativa que não parecia desvanecer dele em momento algum.

— O quê? — perguntou, depois de levar uns segundos para perceber que eu estava parado na sua frente.

Estendi a mão.

— Vem, maninho, vem — chamei, apontando para a pista de dança. — Tenho certeza que dançar um pouquinho vai levantar seu astral!

Caleb fez uma careta desanimada antes de olhar para baixo, dando de ombros, que fez meu coração encolher um pouquinho no peito.

Eu havia percebido, é claro, que ele usou de muito esforço para não demonstrar o que sentia de verdade durante essa última semana, por respeito a mim e ao dia de hoje, mas suponho que este esforço se esgotava ao passo que o dia chegava ao fim. E com ele, os reais sentimentos que agoniavam seu coraçãozinho supostamente de pedra nos últimos tempos, retornavam com força.

— Vem, Caleb — insisti, pegando sua mão e a puxando para que se erguesse, na tentativa inútil de proporcionar um pouco de consolo. Não adiantou, obviamente.

— Eu não gosto nem sei dançar, Will — reclamou ele, as sobrancelhas escuras unidas em desagrado, antes de pedir: — Me deixa.

Suspirei, com uma careta, ao relancear Mason. O rapaz loiro ajeitou os óculos no rosto e deu de ombros, como se dissesse que ele não podia fazer nada a respeito, e eu soube que era verdade.

Na real, não havia nada que ninguém pudesse fazer, mas eu queria sugar toda a dor que ele sentia para mim, se assim fosse possível, para não ver meu irmão naquele estado de espírito.

Dobrei os joelhos para me abaixar, e o encarei de baixo, vendo os olhos verdes pousarem nos meus, como o reflexo de um espelho.

Caleb havia emagrecido, os olhos pareciam constantemente inchados e nem mesmo o sono pesado parecia afastar o sono ruim, a julgar pelas olheiras. Estava muito bonito, assim mesmo, todo arrumadinho com os cabelos escuros lambidos para o lado e o terno escuro perfeitamente alinhado.

Forcei um sorriso, tentando fazer um mesmo esforço para que ele não se sentisse mal. — Deixo — garanti, assentindo. — Mas é minha formatura, e ao menos beber você vai.

Ele franziu o cenho.

— Eu tenho quinze anos — reclamou, como se eu fosse um criminoso.

— É, mas hoje é uma exceção — garanti, dando de ombros, antes de fazer uma careta ao observá-lo. — Acredite, você tá precisando.

Mason riu, mas ele revirou os olhos.

— Vou buscar pra vocês, já volto — informei, e ignorei-o deliberadamente ao levantar e dar as costas quando retrucava.

Assim que larguei as latinhas que consegui equilibrar — e eu devia ganhar um prêmio por conseguir equilibrá-las quando já estava começando a ficar tonto — na mesa dos meninos, senti um olhar queimar as minhas costas.

Virei-me apenas para confirmar que era minha mãe.

Ah, que todos os deuses tenham piedade desta minha alma!

Aproximei-me dela com um sorriso amarelo, observando os olhos estreitados na minha direção, claramente julgando meu caráter ao entregar bebidas alcoólicas para um bando de adolescentes menores de idade. Um deles, seu próprio caçula.

— Mãezinha — cantarolei, levando uma mão para acariciar seu rosto. — Eu não fiz nada, viu?

Ela segurava o riso, embora tivesse uma pose de séria ao ignorar o carinho que fiz, como se desaprovasse. Theodore, ao seu lado, apenas escondeu o riso ao levar a garrafinha d’água à boca. Os demais que conversavam na mesa não pareciam estar prestando atenção.

Quando ela continuou a me ignorar, sentei em seu colo de lado, com cuidado para não soltar meu peso, ao apoiar minha cabeça na sua.

Isto meio que a quebrou.

— Cara de pau, Will! — acusou, corretamente, ao deixar um tapa no meu braço, mas eu podia sentir o carinho nas palavras.

Soltei um riso, deixando um beijo estalado em seus cabelos. — Te amo — declarei, sentindo-a me abraçar também, repetindo o mesmo.

Ao longe, podia ver parte dos meus amigos cantando no meio dos seus parentes na pista de dança. Pouco dançavam, já cansados, mas estavam abraçados ao berrar as letras das músicas. Kaori, Ryan, Cenoura e Jess. Mais escondidos, eu podia enxergar Peter e seu namorado. Outros perdidos no meio do pessoal era a parte mais extrovertida do grupo de amigos do Caleb, como a Grace, Dan, Korn e Bex.

Quando não encontrei Laurel e Gabe, desviei os olhos para o balcão das bebidas, onde os dois se beijavam apaixonadamente, esquecendo das garrafas. Sorri para isto, achando graça que viviam de picuinhas feito um casal de idosos e que raramente os via aos beijos.

Em frente ao mesmo campo de visão, na mesa em frente à nossa, enxerguei Turner e Jay abraçados, em cadeiras uma ao lado da outra, ao passo que se balançavam no ritmo da música.

Minha mãe, no entanto, puxou minha atenção deles para ela. Pegou a mão que estava em seu ombro, já que eu havia passado o braço direito em torno de seu pescoço e deu uma apertadinha. Foquei os olhos nela.

— Will... — murmurou, fazendo um carinho na mesma mão.

Eu soube que era sério devido a falha na sua voz, apenas possível ouvir devido a troca de música no fundo. Arqueei as sobrancelhas, tentando ler seu rosto, mas apesar de estar tão perto do meu, as luzes piscantes não ajudavam em nada.

— Quando é que pretende ir para Lydris? — perguntou, e eu arregalei os olhos quase que imediatamente. Em seguida, aproximei o ouvido de sua boca ao resmungar um "hum?" para ver se havia ouvido direito ou se já estava alucinando. — Perguntei quando pretende partir.

Engoli em seco, sentindo sua outra mão chegar aos meus cabelos para fazer um carinho nos fios já bagunçados.

— O que quer dizer? — ainda atrevi a perguntar, em um fiapo de voz que não sei se ela realmente ouviu.

Ela sorriu mais uma vez, suspirando. — Vamos, eu sou sua mãe — afirmou, daquele jeitinho certeiro de sempre. — Eu sabia que este dia ia chegar desde que o Richard se mudou pra lá.

Franzi o cenho, um nódulo na garganta, ao negar. — Não, mãe, eu não pretendo ir só por causa...

— Eu sei, meu bem — interrompeu ela, e eu mordi os lábios. — Mas acho que podemos concordar que isto ia acabar acontecendo mais cedo ou mais tarde, não é? — questionou, bem mais calma do que eu imaginava que estaria durante esta conversa. — Eu tô muito feliz por você, Will, e muito orgulhosa. Saber que você tá pensando em si mesmo, pra variar, e que tá disposto a sair do ninho enche meu coração de paz — falou, e eu franzi o cenho, já sentindo os olhos marejarem de novo. — Sim, de paz — confirmou, ao ver minha careta de desconfiança. — Quer dizer que apesar dos tropeços, eu fiz um bom trabalho como mãe.

Funguei, estreitando os braços em seu entorno ao apoiar a cabeça na sua, com um beiço. — É claro que fez, mãezinha — resmunguei, achando um absurdo que ela ainda duvidasse.

— O último que gostaria, pra você ou para o Caleb, é que ficassem presos aqui — revelou, com um suspiro. — Eu decidi crescer raíz na mesma casa, no mesmo local, transformar toda aquela experiência ruim em algo bom e manter as memórias lindas de vocês que tenho lá — confessou, com um sorriso, antes de balançar a cabeça negativamente. — Mas esta foi minha escolha. De jeito nenhum precisa ser a escolha de vocês também.

Assenti, porque embora eu torcesse o nariz para a reforma que fizeram na casa de madeira, para que Theodore começasse a viver ali também, agora eu entendia que não era de todo ruim. Antes que eu percebesse, cada canto de memória trágica daquela casa havia sido renovada com uma memória feliz. Todas as coisas que me faziam recordar de coisas ruins já não o faziam, substituídos por coisas relacionadas à nova vida da minha mãe.

Isto, por si só, já era o suficiente. E agora, quando eu pensava em visitá-la quando estivesse longe, tudo o que eu pensava sobre aquela casa é que era a casa da minha mãe, o local onde ela estaria vivendo com Theodore, apaixonada, e no qual eu ainda poderia encontrar meu irmão por alguns anos antes que ele também seguisse seu caminho.

— É, bom, acho que a senhora ainda tem muito o que trilhar com o Caleb — ponderei, fazendo-a soltar um riso e assentir. — Porque isto vai ser difícil dele entender.

— É, eu penso o mesmo — murmurou ela, também apoiada em mim.

— Achei que a senhora faria um escândalo quando descobrisse que eu me mudaria pra Lydris — resmunguei, uma pouquinho desapontado com a ausência de choro e desespero existencial por ter que viver sem mim.

Ela gargalhou. — Pode ter certeza que os escândalos virão quando você tiver que partir — garantiu ela, e eu ri em resposta. — E se eu ficar com muita saudade, vou fazer você voltar pra casa imediatamente.

Gargalhei, apoiado nela, antes de deixar outro beijo estalado em sua testa. Ajeitei-me em seu colo, já cansado de sustentar meu próprio peso nas pernas para não apoiá-lo nela o tempo todo.

Ponderei se contava ou não sobre a pós-graduação, mas achei que depois de haver descoberto cedo demais sobre minha mudança, não doeria deixá-la de molho um pouquinho antes de revelar o motivo para vê-la emocionar-se de novo. Por um motivo ou por outro, ela teria que chorar comigo!

Senti um carinho no meu rosto e virei para deparar-me com um sorriso cheio de ternura da minha segunda mãe, tia Kira. Ainda sentado no colo da minha mãe, levei a cabeça para apoiar-me no ombro da japonesa, recebendo o carinho ao passo que o tio Shiori desaprovava os mimos ao seu lado, embora risse com diversão.

Para ser sincero, eu devia muito aos dois também.

— Obrigado por tudo — pedi, olhando para o rostinho dos dois japoneses e em seguida, para o da minha mãe, grudado ao meu. — Não estaria aqui sem vocês.

Literalmente.

Tio Shiori deixou um tapinha nas minhas costas, aquietado como sempre era, embora todas as ações fossem o suficiente para que eu não necessitasse de palavra alguma.

Senti os olhos marejarem outra vez, lembrando de todos os detalhes que fizeram toda a diferença, partindo de cada um deles. Cada minuto dedicado a mim, cada carinho, cada mimo, cada ajuda. Todas as vezes que meus tios postiços cuidaram de mim e do Caleb quando minha mãe não podia, todas as vezes em que me ofereceram carona, ou um lanche, ou uma roupa nova, ou um abraço. Nos ajudaram financeiramente quando estávamos em aperto, emocionalmente quando estávamos em um campo de batalha dentro de casa, nos entregaram de bandeja tempo e amor.

Na realidade, nunca estivemos sozinhos. Onde estavam os Jones, os Ishikawa também estavam lá.

E a minha mãe, ah!, não tem nem como pôr em palavras tudo o que ela havia feito por mim e todo o papel que havia desempenhado para que estivéssemos ali.

Eu me formei!

É óbvio que eu estava muito orgulhoso de mim, de todo o trabalho que eu fiz, de todo o papel que eu tive na minha própria formação. Orgulhoso, acima de tudo, por jamais haver desistido.

Mas antes de orgulhoso de mim, eu estava grato aos demais.

E isto não podia se medir em palavras.

Obrigado, repeti em minha mente, imerso em amor.

Dois meses depois

— Espera, aonde estamos indo?

Apesar de estarmos seguindo um caminho parecido com o que levava ao apartamento do Turner, ele havia virado uma esquina diferente e dirigido para um lado totalmente contrário ao que eu reconhecia.

Soltou um riso, parecendo agradado com a minha pergunta.

— Você vai ver.

Estranhei, dando uma olhada em volta para tentar me localizar e lembrar do que via à minha volta caso assim fosse necessário.

Não é minha culpa.

Eu morei durante toda a minha vida em uma mesma cidade, raramente havendo visitado outras à nossa volta e por pouco tempo. Eu conhecia cada bairro de Hybridfield, cada loja, cada bar, cada balada, e inclusive, conhecia de nome várias de suas ruas. Eu frequentava os mesmos lugares, as mesmas casas, a mesma universidade. Pegava os mesmos ônibus na mesma parada a vida toda, para o centro, para as casas dos meus amigos ou para a HFU.

Eu ainda não sabia onde ficava metade dos locais em Lydris, e isto nem era o pior, porque quanto aos locais que eu conhecia, eu sequer sabia chegar neles. Havia decorado o caminho da entrada da cidade para a UFLY e para o apartamento do Turner, e também sabia o caminho do apartamento dele para o centro da cidade.

De resto, era tudo novidade para mim.

Apesar de haver visitado o Turner mais vezes do que poderia contar, conhecido mais locais do que poderia me lembrar e caminhado pelas ruas da cidade a qual ele já estava familiarizado, era muito difícil gravar tudo na minha cabeça desmiolada.

Desistindo de decorar o caminho que ele seguia, muito tranquilamente, eu ajeitei-me no banco de passageiro, apenas observando a cidade pela janela. Eu estava apertado no assento com a quantidade de coisas que haviam enfiadas no carro, então nem quis me mexer muito.

Toda a minha mudança coube no carro do Turner, o que era bom em parte e humilhante em outra. Meus móveis haviam ficado na casa da minha mãe, outros já haviam no apartamento do Turner e os demais eu teria que comprar assim que arranjasse um estágio que pagasse bem. Não era algo ruim, sem falar que havia coisa suficiente enfiada em seu carro: minhas roupas, cobertas, travesseiro, fotos, documentos, livros, notebook e minhas tralhas aleatórias.

Apoiei o rosto no travesseiro ao qual estava abraçado, os olhos presos nas ruas movimentadas de Lydris, minada exageradamente de jovens.

Lydris era muito diferente de Hybridfield, desde os locais, as ruas, o sotaque, os costumes e as pessoas, até a quantidade destes. Era uma cidade muito populosa, com uma universidade muito famosa, e possuía muitos locais, muito trânsito e muita gente. Eu podia chamá-la de Cidade Muito.

A vantagem disto é que, por exemplo, também era muito bonita. As ruas pareciam ter mais vida que em Hybridfield, e apesar de ser mais industrializada, ainda assim parecia possuir mais verde do que a pacata cidade onde cresci. A universidade era tão grande que era chamada de cidade universitária, e eu demorava muito para encontrar o Turner nos prédios gigantescos nos quais ele leciona, assim como todos os prédios de toda a UFLY.

Turner se mudou para cá com a desculpa de tentar a posição de coordenador, além da posição de professor universitário de Contábeis — e agora, também de Administração -, mas levou dois anos para que conseguisse.

Este seria seu primeiro ano como coordenador do curso, votado pela maioria que já o conhecia o suficiente para saber que faria um trabalho excelente. Que orgulho!

— Quando perguntarem quem é meu recrutante, vou poder dizer que é o Coordenador do Curso de Contábeis, o Sr. Turner — contei, virando o rosto a tempo de vê-lo sorrir de orelha a orelha, relanceando-me com rapidez antes de voltar as orbes cinzas para o trânsito. — Que tudo!

Turner gargalhou. — Para com isto — pediu, e eu amei vê-lo sem graça outra vez, as orelhas avermelhando.

— Eu nem comecei ainda — retruquei, sorrindo largo, cutucando-o no abdômen.

Ele estendeu o braço para apertar minha bochecha.

— É uma pena que eles não te conheçam como Sr. Dragão — comentei, um tanto desapontado quando isto me passou pela cabeça.

— Como coordenador, talvez eu adquire esse apelido sem que alguém precise espalhá-lo por lá — brincou ele, mas eu neguei, encarando-o com carinho.

— Duvido muito — falei, o coração cheio de orgulho dele. — Você vai ajudá-los no que precisem. Mas talvez essa fama se espalhe pelos professores e não pelos alunos, não é? — sugeri, pensando que seria bem possível. Turner fez uma careta só de imaginar e eu ri. — Eu aposto que sim, porque eles já te adoram!

Antes que ele pudesse responder, conduziu o carro para que estacionasse em frente a um prédio bastante alto.

Pisquei, confuso, ao dar uma olhada ao redor da rua. Não havia nada de muito interessante por ali, apenas prédios e umas duas casas onde minha visão podia alcançar. Pude ver os letreiros de um bar mais ao longe, próximo da esquina, e sabia que havíamos passado por uma sorveteria na quadra de trás, bem como um parque verde e aberto. Além disto, no quarteirão onde estávamos, não havia mais nada de interessante.

— Ué — falei, virando-me para ele. — Onde estamos?

Turner parecia bem-humorado ao me encarar com certa diversão.

— Em casa — declarou, simplesmente, ao indicar o prédio ao meu lado direito.

Pisquei, tentando compreender.

— Como assim "em casa"?

— Em casa.

— Turner...

Eu soube, imediatamente, o que ele quis dizer. Ainda mais quando o sorriso culpado espalhou-se por seu rosto lindo, os olhos brilhantes de quem aprontou e o riso empolgado de quem gostaria de me mostrar logo sua travessura.

Havíamos discutido isto antes, mas o apartamento do Turner não podia ser considerado pequeno, ainda mais sabendo que dormiríamos no mesmo quarto como sempre fazíamos quando eu o visitava. Não havia necessidade de mudar para outro lugar, menos ainda que fosse um lugar maior, porque aquele era o seu lar.

Ele construiu um lar confortável ali durante estes dois anos, e eu não me importava nem um pouco de viver lá.

Shh — calou-me, antes que eu finalizasse, ao pôr um dedo por sobre os meus lábios. — Eu sei o que você vai dizer, mas Will, venha ver nosso apartamento antes de qualquer coisa. Tá bom? — pediu, tirando o dedo de meus lábios e levando-os para acariciar meu rosto. — Eu sei que você vai gostar!

Na realidade, eu não me importava nem um pouco com isto, porque sabia que Turner dificilmente escolheria um local que eu não gostasse. Mas este não era o problema.

— Mas, Turner, aquele era o seu lar — murmurei, culpado, conhecendo-o o suficiente para saber que ele já havia desistido do apartamento em termos de documentações também.

Aliás, era por isto que ele estava agindo estranho nas últimas semanas!

Um sorriso amável espalhou por seu rosto, chegando aos olhos cinzas.

— Will, você não entende — murmurou ele, aproximando-se o suficiente para deixar um beijo casto em cada uma das minhas bochechas. — Aquele era meu apartamento. Meu lar é onde você está — revelou, sorrindo docemente.

Não evitei sorrir devido a sua declaração clichê, e ele soltou um risinho, antes de unir nossos lábios em um beijo apaixonado. Senti o coração aquecer com as palavras, sabendo serem sinceras porque eu sentia o mesmo, e assenti em resposta.

— Sem falar que, já que estamos começando outra etapa das nossas vidas, cheia de mudanças para os dois — acrescentou, dando de ombros —, uma mudança a mais não vai doer. Até porque, precisamos de um apartamento nosso — enfatizou, fazendo um gesto para apontar para si mesmo e logo para mim —, e não meu.

Mordi os lábios, sentindo uma súbita adrenalina espalhar pelo meu corpo ao passo que a ficha caía sobre morarmos juntos, em um lugar nosso, em uma cidade longe de todos, como uma aventura particular.

— Ok — assenti, sorrindo feito uma criança. — Me leva pra casa.

*

O prédio era relativamente novo, todo esvidraçado nas cores escuras de preto e azul, e possuía dez andares. Os porteiros eram simpáticos, e o local era seguro, assim como o estacionamento no subsolo dele. Foi para lá que Turner conduziu o carro depois de me mostrar o apartamento pela primeira vez, para que ficasse mais fácil de trazer minhas parafernalhas para cima.

Nosso apartamento ficava no último andar, mas eu relaxei ao ver que havia, ao menos, elevadores no prédio. Era um tanto maior que o anterior, embora não fosse tão luxuoso, e eu agradeci mentalmente por isto. Já havia conversado com ele sobre como eu me sentia mais à vontade em lugares aconchegantes do que lugares luxuosos, e que para mim os dois eram antônimos.

Literalmente em frente à porta de entrada, dava para ver outra porta — aberta quando entrei — que levava à varanda. A varanda, como mais tarde confirmei, acompanhava toda a largura do apartamento, e dela se podia ver a rua onde havíamos estacionado logo ao chegar. Foi a primeira coisa que enxerguei, embora não se pudesse ver muito dela da entrada, quando adentrei em nosso novo lar.

Do lado esquerdo da entrada havia uma parede que, apenas depois, descobri que separava o nosso quarto da sala. Obviamente, o quarto não era da largura de todo o local, mas seguia a mesma extensão da porta de entrada à varanda. Do meu lado direito e à minha frente, se encontrava a sala de estar e a cozinha, mais ao fundo, separada dela por um balcão.

Na sala, dava para ver a televisão acoplada à mesma parede de onde a porta de entrada se abria, ao lado direito, e ficava em frente ao sofá que, por sua vez, estava de costas para a cozinha. A cozinha possuía aberturas de ambos os lados, um deles diretamente em frente à porta, que levavam à varanda, bem como a janela pela qual eu também podia ver parte da tela que protegia toda a extensão da varanda.

Todo o local era iluminado, tanto pelas aberturas à varanda quanto pelas janelas.

Do outro lado do apartamento, contrário ao do nosso quarto e ocupando o mesmo espaço dele, ficava o banheiro e um quartinho pequeno de hóspedes. As janelas de ambos os quartos também encontravam a varanda de frente da casa, como se ela fizesse a conexão de todo o lar, com exceção do banheiro e, indiretamente, da sala de estar, onde se encontrava a porta de entrada.

— É perfeito — verbalizei, pela milésima vez, enquanto largava mais uma caixa de livros no nosso quarto.

Era a última viagem que fizemos do carro até ali com a mudança, depois de algumas, e eu já estava cansado o suficiente.

Você é perfeito — retrucou ele, antes de empurrar a porta de entrada com o pé para que se fechasse, largando o restante das coisas ao lado do sofá.

Turner, como eu já imaginava desde o momento em que deu a entender que aquele seria nosso novo lar, já havia se mudado para ali nesta semana. O apartamento estava praticamente pronto, com seus móveis nos devidos lugares, apesar de algumas caixas suas ainda para desempacotar nos quartos.

Não quer ver anúncios?

Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.

Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!

Com o lanche que compramos no caminho até lá, nos sentamos no sofá, mesmo em meio a bagunça à nossa volta, aquela que eu havia trazido ao apartamento — quase — impecável, e comemos em frente à televisão. A empolgação era tanta que sequer prestamos atenção no que se passava no canal aberto, ao invés disto, ficamos conversando e rindo, com as bocas cheias.

Se alguém me dissesse que eu estaria vivendo isto neste momento, lá atrás, naquela primeira noite que conversamos em um bar como aluno e professor, eu não acreditaria.

Ri, vendo-o virar a garrafinha de Coca-Cola após comer uns quatro pastéis de uma vez só.

Turner era muito mais elegante antes de me conhecer, lembrei, cogitando se eu não havia mal acostumado o homem ao meu lado. Ele até costumava recusar tomar muito refrigerante, ou a comer muita porcaria, mas agora ele era praticamente um Jones da vida e não mais um Turner.

Gargalhei com o pensamento, obtendo o par de olhos em mim.

— Do que ri, anjo? — perguntou, casualmente, ao me encarar com diversão, girando a tampinha para fechar a garrafa.

— Nada — menti, levando uma das mãos para limpar o farelo que havia parado misteriosamente em sua bochecha. Ri mais uma vez, acariciando-a com ternura. — Eu tô feliz.

Sua expressão suavizou quase imediatamente, e eu pude ler "amor" em cada detalhezinho de seu rosto e de seus olhares.

— Will, dizer que "eu também" parece ridículo de tão pouca palavra para explicar tanta felicidade — poetizou, aproximando-se o suficiente para me abraçar e deixar beijinhos em meu rosto. — Você não tem ideia, Will, não tem ideia — murmurou, voltando para beijar meus lábios.

Sorri entre os beijos, sentindo-o sorrir também, quando me aconcheguei em seu abraço. Espalmei a mão em seu peito, sentindo o coração precioso bater e repercutir em minha pele.

— É claro que eu tenho — retruquei, com um sorriso, ao deixar beijos estalados em seu pescoço também.

Turner riu, fazendo meus cabelos movimentarem-se, antes de estalar outro beijo ali. Seus dedos acariciaram meus braços desnudos da camiseta curta, e depois traçaram parte da minha clavícula antes de subirem para o meu pescoço, parando no meu rosto por tempo demasiado.

— O que foi? — questionei, vendo que ele acariciava meu queixo, meu pescoço e minha bochecha quase com curiosidade.

Ele baixou o olhar para mim, e eu ergui o meu para ele, vendo um sorriso engraçado em seu rosto.

— Nada — respondeu, pegando meu queixo e analisando meu rosto de ambos os lados —, é que agora eu me dei conta que nunca te vi com tanta barba antes.

Soltei um riso, compreendendo.

Não dá pra chamar isto de barba, no entanto.

Desde que comecei a criar um bigodinho brega no auge da puberdade, eu sempre me livrava dos pelos incômodos que tomavam conta do meu rosto. Era mais porque eu sabia que eles não eram uniformes e as poucas vezes que tentei deixar crescer, ficavam ridículos, mas depois se tornou um hábito.

Com meu tempo livre, longe do Turner, eu fazia idiotices como deixar minha barba crescer e cortar meus cabelos em casa, deixando-os piores do que já eram por natureza.

Acontece que eu não fiquei tão ruim de barba. Pelo contrário, eu perdia um pouco o rosto de bunda de bebê que sempre tive e aparentava, pelo menos na minha concepção, ter mais do que quinze anos agora.

— Eu sei — concordei, passando meus dedos pelos fios que deixei crescer por umas duas semanas, desta vez. — Eu tô um gato, não tô?

Turner riu, mas os olhos pareciam bem sinceros ao concordar: — Está, sim — murmurou, olhando-me de cima com certa análise nas orbes cinzas ao estudar cada pedacinho do meu rosto. — Irresistível.

Abri um sorriso malicioso, vendo que ele espelhava o meu, ao endireitar-me nos seus braços para que meus olhos ficassem na altura dos seus.

— Você também — retruquei, dando uma boa secada no meu homem charmoso e cada detalhezinho que eu pudesse considerar um tanto diferente do comum. Levei uma mão para os seus cabelos, puxando uma mecha escura deles. — Sabe que eu também nunca te vi com tanto cabelo?

Ao contrário de mim, Turner estava com uma barba de três dias, no máximo. Mas os fios castanho-escuros estavam crescidos, embora não exatamente longos, ao ponto de enroscarem-se nas orelhas e em seu pescoço. Sentindo-os entre meus dedos, me dei por conta que estavam longos o suficiente para que eu os pudesse puxar com mais facilidade.

Sorri mais largo com o pensamento pecaminoso, vendo-o estreitar os olhos cinzas, como se pudesse ler minha mente.

— É, eu tive que fazer um update — respondeu, gracioso, ao dar de ombros. — Não podia deixar meu namorado sair por aí mais bonito do que eu.

Gargalhei, seguindo na sua graça. — É mesmo?

— Sim — assentiu, as comissuras dos lábios erguendo-se com hom humor. — E parece que funcionou, já que eu chamei a sua atenção — brincou, antes de se interrompeu, com um olhar sério: — Mas não se engane. Apesar de você ser... — Os olhos cinzas, desta vez, perpassaram por todo o meu corpo, dos pés à cabeça, antes que ele lambesse os próprios lábios ao focar nos meus. — Apesar de você ser essa obra de arte, Olhos Verdes, eu estou comprometido, então não pense que pode me seduzir.

É um desafio?

Mordi os lábios, achando graça, mas não tanto quanto achava extremamente obscena a maneira como ele me encarava no momento. Deslizei um dedo pelo seu abdômen até chegar ao cós da sua calça de moletom, mas quando ele prendeu a respiração, voltei a deslizá-los para o seu peito.

Soltei um riso, vendo os olhos me observarem quase com expectativa, para quem não queria ser seduzido.

Apoiei meu peso nos joelhos e o empurrei para trás, de forma que suas costas apoiassem-se no sofá, e tratei de sentar-me em seu colo antes que eles tivesse a chance de resistir. Suas mãos, automaticamente, espalmaram-se nas minhas coxas, e eu movimentei-me em seu colo até que estivesse perfeitamente encaixado e confortável ali, percebendo o desconforto dele.

— Seu namorado é um cara com muita sorte, Olhos Cinzas — retruquei, usando do mesmo termo que ele usou —, mas eu garanto que eu sou mais.

Pude vislumbrar os olhos quase brilharem quando abri um sorriso malicioso, deslizando minha mão por debaixo de sua camisa ao sentir cada pedaço de pele que eu podia tocar. Me movi lentamente, sem tirar os olhos dos seus, antes de retirar minha mão de seu abdômen apenas para puxar minha própria camiseta pela cabeça e jogar em cima da pilha da mudança ao lado da sofá.

Senti suas mãos deslizarem das minhas pernas para a minhas nádegas, apertando-as antes de deslizarem para a pele desnuda das minhas costas.

Encolhi-me pelo arrepio, inclinando-me em sua direção para roçar o nariz no seu. Passei a língua pelos seus lábios em um movimento rápido, sentindo-o fechar os braços em meu entorno para puxar-me em sua direção.

Afastei o rosto com um riso quando ele tentou capturar meus lábios em um beijo.

— Turner, Turner, Turner — murmurei, em tom de aviso, a voz já rouca pelo meu estado físico. Estalei a língua, balançando a cabeça, quando ele tentou me beijar mais uma vez, grudando-me ainda mais nele. — Pensei que não pudesse ser seduzido.

Turner piscou algumas vezes, a compreensão batendo em seu rosto, antes de fechar os olhos com desistência. Soltou um riso, e eu o imitei, antes que os abrisse uma vez mais.

— Will — lamuriou, a voz fazendo todos os pelos do meu corpo eriçarem em resposta —, eu tenho a carne fraca.

Engoli em seco, vendo que ele insistia em querer me beijar, ao passo que eu me inclinava o máximo que eu podia para trás. Soltando um resmungo impaciente, ele aproveitou que eu tinha as pernas envoltas nele. Levando uma das mãos para a minha bunda e a outra para apoiar minhas costas, deitou-me no sofá sem escapatória.

Soltei outro riso, nem uma célula do meu corpo querendo, de fato, escapar.

— O que o seu namorado vai dizer? — brinquei, sentindo seu peso sobre mim e usando das pernas para puxá-lo ainda mais perto.

Turner respondeu com um beijo de novela.

Mal havia grudado os lábios nos meus, com ânsia pelo beijo negado tantas vezes, invadiu minha boca com a língua em movimentos pecaminosamente bruscos. Retribuí prontamente, levando minhas mãos para arrancar sua camisa também, atirando-a longe quando ele deu espaço para tal.

Turner desceu os lábios para o meu pescoço, sua língua aventurando-se pelo pedaço de pele que eu entregava sem qualquer resistência a ele.

— Meu namorado — sussurrou, diretamente em meu ouvido — vai me pedir por mais.

Gemi em resposta, assentindo, porque eu provavelmente pediria mesmo e era de conhecimento mútuo.

Ele soltou um riso no mesmo local, fazendo-me encolher pelo arrepio. Senti os dentes cravarem na pele exposta do meu pescoço e eu puxei os fios que minutos antes desejei puxar, com o intuito de trazer sua boca à minha novamente.

Embriagados dessa necessidade de estar mais e mais perto, em pouco tempo, já tínhamos os corpos tão unidos quanto se era humanamente possível estar.

Não tivemos tempo ou paciência de chegar no quarto para isto, estreando o nosso sofá.

Talvez, quando a adrenalina e a animação em estarmos morando juntos passasse, pudéssemos tomar mais tempo e paciência para transar como seres humanos e não feito animais. Talvez, quando a ficha finalmente caísse da nossa nova realidade, desta nova etapa de nossa vida, de nosso novo e perfeito lar, pudéssemos aproveitar de um dia a dia menos intenso e mais tranquilo.

Eu estarei aqui, afinal, quando nossas vidas juntas se tornarem rotina, perfeitamente pacatas e entediantes como a de um casal idoso. Mas isto não aconteceria por um tempo.

Dois anos vivendo em cidades separadas havia sido o suficiente para que a vivência sob o mesmo teto se tornasse mil vezes mais significativa, mais intensa, mais emocionante.

E mais apaixonada.

Eu é que não iria reclamar.

*

Mais tarde, quando já havíamos colocado boa parte da mudança para os seus devidos lugares ou, ao menos, as retirado do meio da sala para que não poluísse o ambiente, tomamos banho e fizemos a janta juntos.

Talvez parecesse coisa boba de gente emocionada que recém havia se mudado para viver junto, e que pedir uma pizza, ao menos por hoje, seria mais prático. No entanto, acho que tanto eu quanto Turner queríamos passar por este ritual tão emocionamente entediante de cozinhar na nossa cozinha e tirar fotos dos pratos.

Pelo menos eu não sou o único emocionado!

Belisquei a bunda acentuada do meu recrutante, ao passo que ele virava um omelete na frigideira, e sorri quando ele me dirigiu mais um olhar malicioso.

Enviei as fotos da bagunça na cozinha para a minha mãe, ressaltando que eu usava alguns dos acessórios de cozinha que ela me presenteara, ao vê-la responder com rapidez.

Jay ligou tantas vezes, mais para incomodar do que por qualquer outro motivo relevante, para o celular do Turner que, quando ele parou de responder, as ligações foram dirigidas a mim. Atendi a videochamada, apontando a câmera para um Turner de cabelos úmidos e roupa de andar em casa, cozinhando feito um marido gostoso de comerciais.

Jay aprovou, tirando prints para publicá-los na internet e marcar seu melhor amigo, com besteiras costumeiras. Ele ainda teve que me chamar a atenção, algumas vezes, quando eu me perdia observando o Turner e deixava a câmera baixar até que apenas filmasse os pés dele.

Mas não tem como não se distrair!

Os cabelos úmidos nos olhos acizentados de Turner, o lábio inferior mordido ao concentrar-se no que fazia e os braços que se movimentavam com graciosidade ao desempenhar sua função de cozinheiro. Parece que depois que eu decidi vir morar com ele, Turner havia ficado mil vezes mais maravilhoso que o normal, que nunca havia sido muito normal coisa alguma.

Turner olhou por cima do ombro, finalizando o que quer que fazia e eu já não mais prestava atenção, antes de piscar um dos olhos peculiares. Sorri, implorando que meu corpo se aquietasse, porque seria um absurdo que eu pulasse nele nele o tempo todo, feito um adolescente hormonal.

Como se o universo ouvisse minhas preces, feito um balde de água fria, minha mãe ligou logo após jantarmos. Levei o celular para fora, na varanda estreita que eu havia amado, onde podia ver boa parte da cidade. Mostrei para ela a vista de onde estávamos e ela chamou Theodore e Caleb para que também vissem.

Combinamos deles virem visitar na próxima semana, como já estávamos combinando antes mesmo de que eu me mudasse, e informei que minhas aulas só começariam em um mês na UFLY. Conversamos sobre isto até que eu estivesse sozinho com a minha mãe mais uma vez.

Sentei em uma cadeira de balanço para dois, presente dos meus sogros, e me encolhi devido à brisa congelante. A cidade estava iluminada, bem mais do que Hybridfield jamais estaria, e eu compartilhava isto com ela quando a ouvi suspirar.

— O que houve? — perguntei, preocupado, vendo as rugas tomarem conta de suas expressões.

— Nada demais — mentiu, e eu estreitei os olhos, o que a fez desembuchar. — Só tô preocupada com o seu irmão.

Relaxei o rosto, compreendendo imediatamente.

Mesmo pela videochamada eu podia ver que ele tinha o rosto inchado, olheiras debaixo dos olhos e um desânimo que provavelmente me atingiu há quilômetros de distância.

— Eu também, mãe — admiti, sorrindo com tristeza. — Eu também.

Em seguida, ela me contou que ele ainda não comia direito, que se recusava a sair de casa a não ser que fosse arrastado pelos amigos, que eles têm que ir pessoalmente até lá para isto. Só que, ao contrário de mim, ela acreditava que isso iria acabar passando mais rápido do que imaginávamos. Ela pensava que ele estava agindo assim porque os acontecimentos eram recentes, mas eu sabia que era mais do que isto.

Eu discordava veementemente.

— Por que essa carinha? — perguntou Turner, depois que a chamada já havia acabado, ao sentar ao meu lado.

Passou um braço em torno dos meus ombros, junto de uma manta, e eu beijei sua mão em agradecimento.

— Caleb tá deprimido — contei, porque não era nada de novo sob o sol.

Turner piscou.

— Por causa do que aconteceu?

— Sim. Ele tá sofrendo — sussurrei, chateado, porque quanto mais pensava a respeito menos suportável se tornava. — Eu sei que tá. A mãe acha que eu estou enxergando coisa onde não tem porque eles eram amigos, mas eu sei melhor do que isto. Eu conheço o Caleb — afirmei, emburrado.

Turner suspirou, puxando-me mais para perto de seu peito.

— Ainda acha que ele era apaixonado pelo Alex?

— Ele é apaixonado pelo Alex, Turner. E agora... — Suspirei, incomodado. — É diferente para ele do que é para mim, sabe? Quando eu te conheci, eu tinha dezenove anos. Caleb era tão novo quando conheceu aquele garoto — murmurei, tentando me lembrar que idade ele tinha na primeira vez que o vi por lá. — Eu não acho que ele vai superar isto tão rápido. Ele tá deste jeito desde dezembro. Eu odeio que isto esteja acontecendo agora que eu me mudei para cá!

Tomar a decisão de mudar para Lydris havia sido uma decisão difícil de tomar, embora fácil na arte de desempenhar, mas isto não queria dizer que eu não teria ressalvas. Uma pontadinha de culpa batia desde o dia em que descobri que passei para a pós-graduação, pensando na minha família.

— Não fica assim, Will — pediu, fazendo carinho nos meus cabelos. — Não tem muito que você possa fazer, meu amor, é uma questão de tempo.

Apesar do coração aquecido com a forma carinhosa com a qual me chamou, senti um beiço formar nos meus lábios. Ergui os olhos para ele, sentindo o mesmo coração aquecido encolher um tanto no peito ao pensar mais uma vez no meu irmão.

— Nenhum tempo no mundo me faria te superar e seguir com minha vida sem você — sussurrei, enfiando o rosto na curva do seu pescoço, com um nódulo na garganta só de imaginar.

Ele suspirou, afagando minhas costas, antes de deixar beijinhos no topo da minha cabeleira rebelde.

— Você nunca vai precisar — garantiu ele, baixinho, como uma promessa. Suspirou mais uma vez, apoiando o rosto onde havia beijado. — Eu sei que o Caleb não tem escolha, mas ele é muito forte. Ele aprendeu de alguém que conheço — afirmou, com carinho. — Se você tá certo, aquele rapaz foi o primeiro amor dele, então ele jamais vai esquecer. Mas, Will? — chamou, dando uma sacudidinha em mim até que eu resmungasse um “hum?”. — O tempo vai, sim, ajudá-lo a superar. É assim que as coisas acontecem, é o meio natural de acontecerem.

Suspirei também.

— É, talvez — obriguei-me a concordar, assentindo. — Mas ainda assim eu odeio isto.

— Eu sei. Vem cá.

Abraçou-me totalmente desta vez, quando virei de frente para ele, e retribuí o ato carinhoso com tanta gana quanto o recebi.

— Vai ficar tudo bem. Tudo sempre fica.

Inspirei seu cheirinho de banho recém tomado, bem como a colônia e o aroma mais distante de cozinha.

Senti um calafrio espalhar-se pelo meu corpo quando o ventinho fresco pareceu adentrar por entre o tecido da manta. Turner percebeu no mesmo instante e me convidou para entrar de uma vez. Soltei um riso, sem graça, quando ele tentou se afastar e eu não deixei.

— O que foi?

Mordi os lábios.

— É que não faz nem um dia e eu já tô choramingando feito o dramático que eu sou por estar longe da minha família — revelei, rindo mais uma vez, ao me sentir estúpido.

Turner riu, embora eu soubesse que ele concordava. Deu alguns tapinhas nas minhas costas, como se para me reconfortar.

— Eu te amo do jeito que você é — declarou, risonho, e eu me afastei para deixar um tapa nele.

Turner gargalhou, levantando-se e me levando junto dele.

— A propósito, o apartamento já veio telado? — perguntei, ao apontar para a tela protetora que cercava toda a varanda. — Que estranho — pensei, lembrando que do lado de fora podia-se que a maioria não era.

Turner fechou a porta, de tal forma que eu já não podia mais vê-la, e virou-se na minha direção. Sorriu, achando graça.

— Claro — respondeu, se dirigindo ao nosso quarto. — Eu escolhi este por isto também.

Pensei um pouco a respeito.

— Porque eu teria grandes chances de cair daqui de cima, só de pateta que sou? — brinquei, embora realmente pensasse que isto era possível.

Eu nunca fui muito fã de alturas.

Já sentia o corpo todo arrepiar só de olhar por entre os espaços da tela protetora e ver o espaço vazio esperando para engolir-me por inteiro. Sem aquela tela, eu sequer pisaria na varanda, passaria longe dela e ainda faria preces para que mesmo assim nenhum acidente acontecesse.

Turner gargalhou.

— Por ser segura, também — afirmou, mas subitamente mudou para um olhar travesso. — Mas também, como é que adotaríamos um gatinho sem tela protetora?

Arqueei as sobrancelhas, sentindo o riso escapar da minha boca antes que eu assimilasse a informação por completo.

— Um gatinho? — perguntei, o tom duvidoso. — Vamos adotar um gatinho?

Turner espreguiçou-se, com um sorriso largo, antes de assentir. Apenas isto: assentir, como se não fosse nada. Mordi os lábios, achando a coisa mais fofa do mundo, vendo-o ajeitar a cama para deitar ao passo que observava minha reação.

— E se eu não quiser um gatinho?

Desta vez, foi ele quem me olhou de maneira duvidosa, como se me estudasse.

— Você não quer?

— Quero.

Turner gargalhou, jogando o travesseiro na minha cara, e eu me agachei para juntá-lo, atirando de volta. Ele foi rápido, ao contrário de mim, e o pegou no ar, antes de ajeitá-lo na cama.

Peguei mais uma coberta, porque estava esfriando, e tratei de ajeitar na cama, enquanto ele me chamava de bobo por sempre retrucar.

— Ué — falei, rindo —, eu só queria pensar possibilidade de não querer.

— Ah, é?

No minuto seguinte, como se quisesse tirar a cara de pau que eu esboçava no rosto, ele me atacou. Tentei me desvencilhar, dizendo que precisava checar mais algumas coisas antes de dormir, mas ele me arrastou para a cama.

— Quem disse que vamos dormir? — perguntou, abraçado em mim, quando eu havia desistido.

— Não sei do que você tá falando — retruquei, e ele abriu a boca para apontar que eu era do contra mais uma vez, mas eu gargalhei antes que o fizesse.

Paramos de rir aos poucos, deitados de frente um para o outro, apenas nos observando.

As luzes ainda estavam acesas, então eu o podia ver com clareza. Gostava de vê-lo assim, feito um menino-homem travesso que mantinha no peito desde pequeno, rindo até que os olhos lindos parecessem esconder-se detrás das pálpebras.

Turner era ainda mais lindo quando sorria.

Ele arqueou as sobrancelhas sugestivamente, deslizando a mão para o meu corpo, enquanto eu esperava pelo que viria.

— Vamos para mais uma rodada? — perguntou, e eu tive que esconder os lábios para não rir.

Neguei, mas ele insistiu, e eu comecei a me afastar aos poucos. Não fui rápido o suficiente antes que levasse o bote mais uma vez, sendo preso contra ele e o colchão.

— Não, espera! — reclamei, tentando me desvencilhar. — Minha bunda não aguenta mais, Turner, deixa eu me recuperar do namoro à distância de dois anos!

Aproveitei do seu riso para unir minhas duas pernas de forma que as suas ficassem abertas, em torno das minhas.

Turner arqueou as sobrancelhas quando percebeu, e eu sorri, maquiavélico.

— A não ser que você queira fazer do contrário.

Turner levou alguns segundos para entender a que eu me referia antes que estreitasse os olhos cinzas com acusação. Pude ver que o seu corpo ficou tenso, no mesmo instante, apesar de que ainda podia ver faíscas divertidas no seu olhar.

— Nem vem, Will — resmungou, dando um tapa na mão que eu subi para a sua nádega vantajosa. Eu ri, e vi que ele fez o mesmo. — Tentamos isto uma vez e foi a última!

Levei os dedos, que sabia estarem gelados, para subir pela sua coluna, vendo-o rir quando arrepiou-se.

— Eu acho que não foi, não — garanti, sorrindo com malícia.

Ao perceber que eu estava levando a sério, acusou, indignado: — Você também não gostou!

Segurei o riso como se minha vida dependesse disto. — Ah, mas é porque foi a primeira vez, a gente não fez direito... — provoquei, jogando-o para o lado com certa dificuldade antes de subir em cima dele.

— Não, Will, sai! — reclamou, mas eu consegui prendê-lo com as pernas e os braços. — Não! — gritou, mas eu não consegui evitar gargalhar.

Senti um beliscão na minha bunda, mas dei um safanão em sua mão de forma parecida com a que ele fez comigo.

— Eu vou ser o dragão a partir de agora — informei, atacando seu pescoço.

Turner começou a rir mais uma vez, mas não me afastou, parecendo nem ter forças para isto. Todo o clima havia ido por água abaixo, mas eu não me importei, sabendo que ele retornaria com tanta velocidade com a qual sumiu.

— Não! — insistiu, entre risos, enquanto eu me agarrava nele com mais gana, já desistindo de qualquer malícia. — Sai de cima de mim, dragão falsificado!

— Não saio.

Já estávamos embolados na cama, que estava uma bagunça contrária a que se encontrava quando foi arrumada, e eu o prendi com toda a minha força. Turner olhou para baixo, mas eu não me movi.

— Viu só? Você tá mais para um bichinho preguiça agarrado em uma árvore.

Belisquei seu mamilo, vendo-o em parte gemer, em outra resmungar. Sorri, satisfeito, erguendo o rosto para olhá-lo de cima.

No fim, em um desenrolar costumeiro, de alguma forma eu acabei em seu colo, totalmente rendido a ele. De corpo, de alma e de coração. Ali estava eu, rendido para que fizesse o que desejasse com o meu corpo, na intensidade que desejasse e quantas vezes desejasse.

Turner sentou-se na cama, comigo em cima dele, em uma posição semelhante a que estava no sofá mais cedo. Acariciou meu rosto, os olhos percorrendo cada pedaço de pele que ele, em seguida, beijava.

— Céus, Will! — exclamou, extasiado, em algum momento, parando os beijos para me olhar mais uma vez. — A gente vai poder fazer isto todo dia agora. Para sempre — enfatizou, com os olhos fogosos antes de atacar meu pescoço mais uma vez.

Gemi, agarrando seus cabelos, antes de acariciar sua nuca. Soltei um riso quando ele encolheu-se pelo ato.

— Este “para sempre” foi meio psicopático — comentei, gracioso, mas dei de ombros —, mas eu concordo.

Turner riu, sem se aguentar, ao parar de beijar-me mais uma vez e apoiar o queixo em meu ombro. Dei um tapa em suas costas, vendo-o abraçar-me enquanto ria.

— Você sempre acaba com o clima — acusou, em um resmungo divertido.

— Mentira — respondi, achando graça, ao rebolar em seu colo, confirmando que ainda podia senti-lo pulsar ali mesmo com a roupa cobrindo-o.

Levei seu rosto ao meu mais uma vez e deslizei a língua pelos seus lábios, vendo quando as sobrancelhas arquearam em surpresa, e o beijei até que o riso desse espaço a algo mais.

Turner fechou os olhos, soltando um suspiro agradado. — Você me pegou.

Assim que pensei que começaríamos a tirar as roupas, me dei por conta que as luzes ainda estavam acesas, praticamente todas elas. Pensando que as contas sairiam caras demais para que minha bunda desempregada pagasse, tive o intuito de subornar para que ele levantasse e as apagasse no meu lugar.

Congelei no mesmo instante.

Turner piscou, analisando-me com curiosidade, não parecendo ter pressa alguma em finalizar o que começamos no que pareciam ser horas atrás.

É claro que não, porque tínhamos todo o tempo do mundo e todo o espaço do mundo para isto!

Poderíamos nos esfregar pela casa o tempo todo nessa lua de mel de quem acabou com a distância de uma relação o quanto quiséssemos, dia, tarde e noite. A madrugada toda, se assim desejássemos. Poderíamos gargalhar de besteiras e cozinhar quando desse vontade para publicar fotos de casais e exibi-los aos infelizes solteiros. Poderíamos ir aonde quiséssemos, construir nossas carreiras ali fora, separados, porque sempre que voltássemos para casa, iríamos nos encontrar.

E poderíamos, sim, como nos filmes, brigar toda noite sobre quem iria desligar as luzes da casa.

— Estamos morando juntos — declarei, em um sussurro, como se recém me desse por conta.

Turner pareceu achar graça, mas eu segurei seu rosto com ambas as mãos e arregalei os olhos para passar-lhe a seriedade da situação.

— Não. — Balancei a cabeça, dizendo mais devagar: — Estamos morando juntos mesmo.

Ele assentiu, perdendo o sorriso para deixar outro beijo casto nos meus lábios, antes de sorrir com tanto amor que pensei que fosse morrer.

— Estamos morando juntos, Will — murmurou ele também, sorrindo largo, ao me abraçar.

Sorri, relaxando os ombros, como se tivesse acabado de ganhar na loteria. Assenti, colando minha testa na sua, ao acariciar suas orelhas quentes.

— E depois vamos adotar um gatinho e vamos chamá-lo de Smaug — pensei, em voz alta, ao me iludir já pensando em uma fera em miniatura.

Turner riu, parecendo aprovar o nome do nosso novo bichano que ainda não chegamos a conhecer.

— E depois que a gente tiver adotado Smaug, seremos uma família ainda mais completa — continuou ele, no meu jogo iludido. Assenti, fechando os olhos quando ele tascou um beijo nos meus lábios. Não percebi a voz travessa quando acrescentou: — E depois, só vai faltar casar e estaremos mais unidos ainda.

Sorri em resposta, achando a ideia um tanto agradável de se pensar.

— Isso não seria nada mal.

— Não é?

Abri os olhos quando senti o riso nos meus lábios, e uni as sobrancelhas em confusão ao passo que digeria o que havia acabado de ouvir. Turner esperou, pacientemente — e alegremente, feito uma criança no parque de diversões -, minha ficha cair.

— Espera — pedi, soltando um riso nervoso. — Você tá mesmo me pedindo em casamento?!

Turner piscou, arregalando os olhos, como se não fizesse a menor ideia do que eu estava falando.

— Estou? — questionou, desentendido, ao me observar com atenção.

Estreitei os olhos em sua direção, afastando o rosto milimetricamente para analisá-lo melhor. — Não tá?

Turner começou a rir, e eu o empurrei para trás, vendo-o se defender dos meus golpes fracos. Em seguida, levantou-se mais uma vez, segurando ambas as minhas mãos e beijando-as ao mesmo tempo, ao passo que eu unia as minhas sobrancelhas em falsa irritação e uma verdadeira hesitação.

Por que ele havia trazido isto à tona?

Turner sorriu, levando um dedo para massagear a ruga entre meus olhos até que se desvanecesse. — Agora, não — respondeu, enfim, ao demonstrar um pouco de seriedade, como se quisesse evitar que eu entrasse em pânico. — Você não gostaria de um pedido mais formal?

A pergunta havia sido meio óbvia, como quem garante que, sem sombra de dúvidas, aquele não havia sido nada mais do que um jogo verde e não um pedido de verdade.

Só que eu não pude deixar de me sentir bem com toda a informalidade.

Pensei um pouco a respeito, ponderando sobre pedidos de casamentos informais, ternos de noivos, juramentos sob uma árvore enfeitada e convidados ao ar livre. Nada disto me interessava — nunca havia me interessado -, mas também não me incomodava nem um pouco, se eu parasse para refletir.

No entanto, quando pensava em pedidos de casamentos informais, o que me contentava não era a ideia de um casamento, mas de um matrimônio.

Por que eu estou pensando nisto?

Dei uma olhada em Turner, ignorando qualquer receio e questionamentos medrosos que pudessem me invaidr, sabendo que eu não me importaria de passar o resto da vida chamando-o de marido, ao invés de recrutante.

Ok, ao invés de “namorado”, que seja!

— Não.

Parecendo surpreso com a minha resposta, ele piscou algumas vezes, parecendo dar pane no sistema. Pisquei também, feito um reflexo, e desta vez fui eu a observar — pacientemente e alegremente — sua reação.

No próximo instante, um brilho acendeu nos olhos cinzentos, e eu sorri para isto instantaneamente. Um sorriso começou a se abrir em seu rosto, embora ainda parecesse incrédulo que eu fosse aceitar um pedido informal de casamento com tanta facilidade, até que se espalhasse por cada detalhe de suas feições.

Soltei um riso, mas me apressei em tapar sua boca com a minha mão, antes que ele tivesse realmente a ideia mirabolante de me pedir casamento agora, sem jogar verde.

O brilho em seu olhar sequer abrandou, mas ele respeitou que eu o houvesse calado.

Ok, muita calma nessa hora e muita hora nessa calma, pensei, sob as faíscas de seus olhos que aparentavam praticamente penetrar na minha pele.

Ok — verbalizei, soltando um riso nervoso, e ouvindo minha própria voz oscilar —, me pergunte isto em alguns anos.

Um tanto encabulado com o fervor do seu olhar, senti as orelhas queimarem em junção ao rosto que fervia. Mordi os lábios, sentindo meu coração bater mais forte, como se quisesse entregar-se a ele, em um frenesi não tão incomum.

Turner retirou minha mão de cima de seus lábios, e assentiu, com um sorriso que eu não conseguiria mais tirar do seu rosto nem se eu quisesse.

— É — concordou, a voz um tanto falha, e eu senti outro arrepio subir pela minha espinha —, isto é uma boa ideia.

— É? — murmurei, escondendo os lábios para não sorrir.

Turner assentiu mais uma vez, unindo os lábios aos meus com tanta leveza que jurei haver subido para os céus e retornado. Balançou a cabeça de um lado para o outro, como se não acreditasse no que via, mas o sorriso não desvaneceu em momento algum.

Abracei-o com rapidez, contornando os braços em seu entorno, para esconder meu rosto em seu pescoço, sentindo-me mais exposto do que me sentia quando literalmente ficava de quatro para ele.

Turner riu-se, aparentando estar muito satisfeito, antes de trocar as nossas posições e me jogar na cama outra vez.

*

Eu estive pensando muito em quem eu sou, de onde vim e onde estarei no futuro.

Talvez isto fizesse parte do trabalho que é escrever minha própria história, ser responsável pelo meu próprio enredo, pelas próprias resoluções das complicadas equações emocionais da minha vida, abraçar o que pode ser controlado por mim e aceitar os desfechos que estão além do meu controle.

Viver é muito mais do que eu pensava.

É o mesmo que conquistar um diploma de Administração, que de nada valerá se eu não puser em prática. Deixar que a vida te leve pode ser muito poético, mas em pouco tempo começará a não ter muito valor. Algumas decisões precisam ser feitas, e você precisa aprender a se levar para onde quiser ao invés de aceitar qualquer caminho que cruze com você.

Tomar a decisão de planejar meu próximo passo desencadeou em uma reação em cadeia na minha vida. Talvez, por este motivo, que eu passasse a escolher os meus próprios caminhos com uma facilidade maior e com uma rapidez impressionante.

Ao menos, era o que passava pela minha cabeça depois de aceitar um pedido de matrimônio informal, um tanto fictício e mais outro tanto de impulsivo.

Antigamente, eu teria fugido para as colinas pelo medo. Mais tarde, no entanto, quando estivéssemos abraçados na cama feito uma bola de neve, prontos para dormir e encerrar o famoso primeiro dia do resto das nossas vidas, eu chamaria seu nome para confirmar.

Grande parte da aventura de administrar a minha própria vida, pondo em prática tudo o que aprendi sobre mim mesmo e sobre o mundo, envolvia respeitar meu tempo, meu espaço e meu o próprio querer. Envolvia entender que estava tudo bem querer amar uma pessoa, querer estudar alguma faculdade, querer trabalhar em alguma área específica, querer construir uma família ou construir uma carreira.

Talvez a lição mais valiosa tenha sido esta, e eu desejei poder sussurrá-la no ouvido de um Will mais jovem, com tanta empatia quanto ele merecia: não há nada de errado com quem você é, com o que sente, com o que faz e com quem desejar compatilhar sua vida.

Não há nada de errado com você, Will, e você vale muito.

Nos próprios capítulos da minha história, eu respeitaria o meu querer, e naquele instante, eu soube que eu já não mais queria meias perguntas, meias respostas, meias escolhas e meias vontades.

Eu faria, sentiria e seria tudo por inteiro.

— Turner?

— Hum?

— Eu vou te contar um spoiler — avisei, no escuro do quarto e no conforto de seus braços, antes de declarar o óbvio: — eu vou aceitar.

Eu sei que esse é apenas o começo.

Muito estaria por vir e as coisas, quiçá, fossem bem diferentes do que eu esperava. Quiçá a lição mais valiosa da minha vida ainda não houvesse chegado. Eu ainda tenho muito para trilhar, em todos os aspectos da minha vida, e estas pequenas conquistas haviam sido pequenos passos de bebê. Ainda assim, eu me sentia realizadopor haver conseguido desempenhá-los.

Eu precisei seguir em frente, mudar de estação, avançar de capítulo.

Não há nada de errado com isto também.

Inclusive, é uma passagem linda. Há quase uma poesia neste processo artístico de viver, de tocar em frente, de encerrar uma jornada para aventurar-se em outra e de simplesmente crescer.

E se eu prestar suficiente atenção, é quase como se eu pudesse escutar o passar de página.

Notas finais
Epílogo: Sobre o primeiro dia deles juntos, era mesmo para ser bobinho e rotineiro e emocionado. Era para passar aquela vibe de casal apaixonado que recém se mudou junto, que se agarra o tempo inteiro, que tá empolgado e muda da vibe fogosa para poética em questão de segundos e aproveita as coisas mais simples como se fossem as mais preciosas. Espero que esta fase deles dure muito, e que mesmo quando mude, ainda seja igualmente magnífica. E eu só gostaria de lembrá-los rapidamente que Made of Stone ainda tá em andamento - aliás, é por isto que eu fiz referências alarmantes a MOS aqui no epílogo que, na verdade, era pra ter sido postado bem antes para deixá-los ponderando sobre o que aconteceu por mais tempo, muahahaha. Mas vocês foram sortudos de eu haver encalhado no final de MOF e agora já estarmos em 2019 lá em MOS. Vai demorar menos para que sanem suas dúvidas, apenas, então não fiquem tão agoniados. Além disto, eu ainda vou publicar (um dia, gente, porque eu tenho muita história em andamento no momento) Made of Art e Made of Chaos. Então, na realidade, a "saga" - será que dá pra chamar assim? - tá um pouquinho longe de acabar. Apenas este começo dela, com sua primogênita, iniciada no nosso tão amado Will. Por ora, esta será nossa efêmera despedida. Bom, se prepara que vem textão. Gente linda, gente boa, gente bela ❤ Eu tenho sido dramática, mas acho bom explicar um pouquinho o porquê e o que tá se passando aqui dentro. Eu tenho um nódulo na garganta por ter chegado ao fim de Made of Fire, porque significa TANTO, mas TANTO para mim que vocês não têm ideia. Eu sei que já comentei em algum momento, mas Made of Fire não foi apenas a primeira história que eu postei. Foi a primeiríssima história que ESCREVI na vida. Sim, eu NUNCA tinha escrito nada antes de MOF (a não ser diários com despejos emocionais ou redações com histórias malucas quando tava no fundamental), e quando eu escrevi o primeiro capítulo (hoje, este é o prólogo), eu simplesmente joguei aqui, peguei uma foto aleatória (a primeira capa de MOF foi de um personagem de Teen Wolf, o Hellhound, que pega fogo), e esperei por um retorno. Eu fiquei bem chocada e empolgada quando este retorno realmente veio, pra ser sincera. Uma pessoa comentou, e então outra, e então eu não pude fazer nada além de continuar. Eu já conhecia o Nyah (se vocês checarem no meu perfil, tá lá a data de 2014, mas eu era mega fantasma antes, então visitava o site e lia anonimamente, sem nem ter criado conta, desde meados de 2011-12, por aí), mas nunca havia me apegado aqui. Vocês me acolheram tão bem como escritora, tão tão tão bem, que eu me vi presa no site quase todos os dias. Eu me vi pulando com cada review novo, cada favorito, cada recomendação, cada acompanhamento. Cada mensagem de carinho me inspirou e me motivou. E isto eu já havia comentado, sentimental do jeito que sou, no fim da primeira "temporada": o único motivo pelo qual me dignei a escrever uma história, em primeiro lugar, foi porque eu tava tão afundada em ansiedade e melancolia que eu tive que me entreter de alguma forma mais além das normais (filmes, séries, livros - LER -, álcool e festa, tumblr e encarar o dito teto). E eu escolhi a certa. A escrita me salvou, impulsionada por vocês. Mas foi mais do que isto. Por todas as deusas, eu não tinha ideia de que eu ia amar tanto escrever! Eu não tinha a menor ideia de que isto seria a melhor parte dos meus dias. Eu não sabia. Made of Fire foi a porta para este mundo lindo, cheio de pessoas incríveis, e minado de magia. Tudo começou bem aqui, a parte mais lindamente mágica da minha vida. Querendo ou não, tudo o que eu escrevi e escreverei no futuro começou e foi impulsionado por esta história aqui. Todas as minhas criações originaram desta. Então, pois é, eu tô me acabando de chorar com este final. Mas acho que isto é de conhecimento geral, além de ser verdadeiro: no fim de uma etapa, há o começo de outra. E eu posso até levar isto para o lado da escrita aqui, porque MOS só começa de verdade, cronologicamente, depois de MOF. Made of Fire está tomada de erros, de furos no enredo, de esteriótipos (Turner é mais velho, o mais alto, o mais sério, o mais "forte”, enquanto Will é o contrário, e sim, isto é um mega esteriótipo de casal gay - nada de errado com isto, mas seria boa uma mudança no que seria mais de 50% dos casais em BLs), e de falhas, e de tanto mais. Estas foram coisas que eu só fui perceber depois de um tempo, mais atenta aos detalhes e às críticas, e mais determinada em trazer algo com conteúdo para vocês. Acho que isto faz parte de ser escritora, e vale para todos, porque quanto mais li relatos de outros escritores e mais me inseri neste mundo da escrita, mais pude aprender e mais visão pude ter sobre as minhas próprias histórias. É um processo inacabável, acredito, e apesar de boa parte dele ter que partir de mim, a outra se deve completamente a vocês. Por isto, agradeço imensamente pelas críticas também, ambas positiva e negativa - e confesso que não soube lidar muito bem com as negativas no início hahahaha -, tanto por aqui quanto no grupo do Nyah. No fim das contas, este foi meu primeiro passo nessa jornada, obviamente estaria longe de ser perfeito, e eu NÃO me arrependo por nada no mundo do que eu construí aqui, do que nós construímos juntos - JUNTOS, SIM! Algumas ideias de capítulos e mesmo do rumo e enredo da história eu obtive nas conversas com vocês por meio dos reviews, que foram MUITO importantes e pode ser que MOF tivesse um resultado completamente DIFERENTE sem vocês, pasmem! Como eu cheguei aqui completamente despreparada, sem um enredo pronto, sem personagens totalmente construídos, sem uma linha do tempo, sem ideia para o final - em outras palavras: sem ter cosntruído o esqueleto da história -, acho seguro afirmar que vocês tiveram TUDO a ver com a maneira como a história se desenrolou. Eu pretendo melhorar muito, e abraçar a responsabilidade que é escrever e compartilhar histórias com um público, que vai além de entreter, mas de passar uma mensagem boa. Agora eu sei disso e espero que, mesmo quando eu ainda não enxergava o plano todo, eu já estivesse construindo uma mensagem positiva para vocês. Espero que, apesar das minhas falhas, eu tenha conseguido deixar alguma marca para os que leram. Espero que saibam que o amor prevalece, e o respeito, e a união. Espero que tenham compreendido que a tua família pode, sim, ser a de sangue, mas também pode ser aquela de alma (os Ishikawa), que tu encontra no abraço de um amigo (hello, Jay) ou de um amor. Espero que vocês tenham entendido que não há vergonha em pedir ajuda, que não devemos ser definidos por nada além do nosso caráter e nossas ações, que o diálogo é a base de qualquer relação e que essas relações só deveriam continuar existindo quando saudáveis. Eu espero que lembrem que todos temos um passado e que ele não nos define; que todos passamos por maus bocados e que podemos, sim, superá-los; que o medo é um monstro traiçoeiro e que tu pode deixá-lo te alertar mas nunca te dominar; que as aparências enganam; que uma dor compartilhada é uma dor amenizada; e que todos precisamos de um ombro amigo, um aperto de mãos, um abraço. Entendam que o amor não pode ser medido por nenhum instrumento jamais criado e que não existe barreira alguma para que ele nasça, cresça e exista entre as pessoas, mesmo após a morte. Lembrem sempre que o amor é uma pulsação de vida dentro da gente e que ele não morre, ele se perpetua. E que estamos juntos, sempre. Muito obrigada pela oportunidade incrível, pelo amor, pelo carinho, pelo incentivo, pela paciência (especialmente por este final demorar horrores para sair). Esses cinco anos são de vocês. Eu os amo de todo o coração e deixo aqui uma parte de mim, para que releiam quantas vezes quiserem e saibam que é tudo por vocês e para vocês. Antes de Made of Fire ser feita de fogo, ela foi feita de muito amor. Will e Turner agradecem! Obrigada! ❤ Com tanto amor que nem cabe em mim, Josi. Amem, odeiem, mas me digam o que acharam uma última vez.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!