Made of Fire
27 XXIV - Uma dose de valentia, por favor
Notas iniciais
— Não? — Rob perguntou pelo telefone. — Como não?
— Não, Rob! Eu não penso ir para casa neste fim de semana ou no próximo, ok? — deixei claro, já irritado, ao sair da loja de xerox da esquina de casa.
— Rich, eu não falo por mim, tá bom? Nossos pais estão reclamando que você não aparece aqui faz tempo — falou ele, logo mastigando alguma coisa.
Rolei os olhos.
— Eles estão reclamando mais agora porque você abriu essa boca grande e contou sobre o Will! — xinguei, vendo o olhar de algumas pessoas sobre mim na rua.
— Ah, então o nome dele é Will? — perguntou, como se eu nada houvesse dito. — Bom saber.
— Robert, eu vou socar a sua cara! — grunhi, desviando de uma mulher.
— Desculpa, Rich — disse ele, sincero. — Mas pelo menos eles não sabem que seu romance é com alguém que não tem seios. — Sua gargalhada repercutiu pelo celular.
Tampouco sabem que é meu aluno, pensei, Rob incluso.
— Desculpa, desculpa — repetiu novamente quando a risada cessou.
Robert podia ser tão esperto quanto uma pedra, às vezes. Deixara a porta aberta ao tagarelar com Becca sobre meu relacionamento com Will — o que, a propósito, eu não havia permitido -, fazendo com que minha mãe ficasse ainda mais atazanada com a ideia de eu ir visitá-los o mais rápido possível. Me ligara, dizendo que estava ansiosa para conhecer a nora e que eles preparariam um jantar especial para isso.
Óbvio que eu não iria.
— Por que você não vem neste fim de semana com o cara e arranca o band-aid de uma vez? — perguntou ele quando o silêncio reinou. — Você não pode esconder isso para sempre, Rich, ainda mais se esse relacionamento é sério. Uma hora eles vão acabar descobrindo, de uma forma ou de outra.
— Eu sei, eu sei — resmunguei, chutando uma pedra conforme caminhava os últimos passos até a entrada de meu prédio. — Mas eu não posso lidar com isto agora. Não agora.
— Qual o problema de agora? — perguntou ele, com a boca cheia.
Abri a porta que dava para as escadas, subindo degrau por degrau sem ânimo algum.
— Nada — falei, lembrando do rosto triste de Will. — Olha só, Rob, eu vou alguma outra semana, ok? Não falta muito para as aulas acabarem, quem sabe nas férias apareço por...
— Nas férias? — perguntou, incrédulo. — Você vem no Natal, pelo menos, não é?
Abri a porta final das escadas e fechando atrás de mim. Logo que ergui o olhar, encontrei os cabelos semi loiros que tanto gosto.
— Will — murmurei ao vê-lo sentado com as costas na porta de meu apartamento. Usava uma camiseta cinza e tinha uma mão na testa, exibindo a pulseira que lhe dei. Ele aparentemente nunca a tirava do pulso. Ergueu o rosto em minha direção, um sorriso murcho em seus lábios.
— Rich? — Rob chamou-me, pelo telefone.
— Rob, tenho que desligar agora. Depois a gente se fala — falei, já tirando o celular do ouvido. Não tão rápido para impedir-me de ouvir a voz de Rob, no entanto:
— Espera, o que eu falo para...
Desliguei o celular, guardando-o no bolso. Will soltou um suspiro, ainda no chão, o sorriso em seu rosto. Ergueu os ombros.
— Eu estava aqui perto com o pessoal — disse ele. — Então pensei em passar aqui porque... Porque sim — concluiu, dando de ombros mais uma vez.
Will passava mais tempo em minha casa do que na sua. Eu não tinha do que reclamar, já que sua constante presença em minha vida – e em meu apartamento –, fazia com que eu me sentisse no mínimo, completo. As circunstâncias, entretanto, não eram as melhores. O sorriso de ponta a ponta de Will fazia falta, embora fazê-lo rir tenha se tornado mais fácil com o passar do tempo. O brilho nos olhos é que havia se convertido em algo raro, o que pesava meu coração.
Nos primeiros dias após o desentendimento com sua mãe, não evitava as lágrimas que me cortavam o coração. Após um tempo, no entanto, limitava-se a engolir o choro e sorrir, desviando o assunto apressadamente. Para minha tristeza, Will havia ficado muito bom nisto.
Sorri antes de caminhar em sua direção, estendendo a mão livre para que ele pudesse levantar. Envolveu a mão na minha, erguendo-se de forma rápida. Deixou um beijo em meu rosto antes de deslizar os olhos para minha mão direita.
— O que é isto? — perguntou, os olhos atentos.
— Eu fui imprimir as provas do quarto semestre — respondi, erguendo a sobrancelha. — Provas que você não deve nem cogitar ver — esclareci ao perceber o rosto curioso.
Abriu a boca, surpreso, antes de me olhar afetado.
— Mas eu nem estou no quarto semestre — resmungou ele, embora eu ouvisse uma pitada de diversão em sua voz. Sorri.
Após abrir a porta com agilidade, seguido de Will, fechei-a ao dar de ombros.
— Ainda. — Coloquei a pasta em cima do balcão de entrada. — Faltam quantas provas para acabar o terceiro semestre, duas?
Will, como o mesmo costume que tinha ao entrar em minha sala do curso, jogou a mochila de encontro à cadeira de madeira que fica na sala. Em seguida, colocou as mãos nos quadris depois de passar uma delas na testa.
— Três — respondeu ao revirar os olhos. — Tivemos que implorar para que a Sra. Lawson, aquele demônio, terminasse o conteúdo antes do natal!
— Demônio? — Ri alto, puxando o garoto de olhos verdes em minha direção e beijando-lhe os lábios de forma rápida. — Do que vocês me chamam então, do diabo reencarnado?
Caminhei para frente com os braços ao redor de Will, fazendo-o andar para trás de forma que o levasse comigo em direção ao sofá. Assim que chegamos, com os lábios unidos, sentei-me com ele abraçado em mim.
— A maioria dos alunos gosta de você agora — retrucou ele, roçando o nariz em meu queixo.
— E antes? — perguntei, beijando-lhe a testa. Ele riu, balançando a cabeça. Não iria me responder. Estreitei os olhos. Talvez eu devesse arrancar o que queria com um beijo.
Senti Will brincar com minha camiseta, parecendo distraído, os dedos traçando minha barriga. Percebi tardiamente que ele tocava, por cima da minha camiseta, as cicatrizes que haviam em meu abdômen. Em menos de um segundo, senti o corpo de Will retesar em meus braços.
Franzi o cenho, procurando seu rosto.
— O que foi? — perguntei, estranhando sua reação.
Os olhos verdes ergueram-se na altura dos meus, encarando-me como se procurasse alguma coisa. Parecia indeciso. Mordeu o lábio inferior antes de fechar os olhos, balançando a cabeça negativamente. Um sorriso amarelo surgiu em seus lábios em seguida, como eu já estava acostumado. Era o sorriso que dizia: mudemos de assunto.
— Ainda tem o estoque de pipoca que Jay trouxe para cá? — perguntou, mexendo em minha camisa novamente, como quem não quer nada. Reprimi um suspiro frustrado, não compreendendo o motivo da troca de assunto desta vez.
— Sempre tem — falei, forçando um sorriso ao afagar os cabelos bagunçados.
Desvencilhei-me de seus braços com o intuito de dirigir-me até a cozinha, assim, satisfazendo seu desejo de último momento. Antes que o fizesse, todavia, fui surpreendido quando Will colocou as duas mãos nas laterais de meu rosto e puxou-me para um beijo brusco. Assim que atingiu o objetivo de fazer-me retribuir, apesar da surpresa, envolveu um dos braços em meus quadris, colando-me nele.
— Will? — murmurei ao deixar sua boca por um segundo, antes de ser atacado novamente.
— Shh — disse ele, contra meus lábios. — Só me beija.
Não é como se eu precisasse de mais incentivo do que isto.
Chupei-lhe os lábios rapidamente, percebendo que apenas isso o fizera gemer contra mim. Atirou os braços em torno de meu pescoço, tentando, procurando, forcejando seu corpo ao meu. Em um segundo, joguei-me contra ele de forma com que ficasse embaixo de mim. Inalei seu perfume, roçando o nariz por toda a extensão de seu pescoço, assim como a língua.
O cheiro de Will. O gosto de Will.
Soltei um gemido assim que ele puxou meus cabelos, apertando ainda mais meu corpo no seu. Estava embriagando-me aos poucos, a saudade do contato falando mais alto.
Meu paraíso particular.
Desci os lábios por seu peito, sentindo-me exasperado com a camiseta que nele havia. Puxei-a com vontade, procurando mais extensão da pele macia de Will. Pude ouvi-lo gemer e senti-lo encaixar as pernas em torno de mim. Reprimi um sorriso. Adorava quando ele fazia isso. Puxei mais um pouco a camiseta, tentando empurrá-la para o lado direito.
Grunhi com frustração, em seguida vendo o corpo de Will balançar antes que a melodia chegasse aos meus ouvidos. Ergui a cabeça, percebendo os olhos fechados e os dentes à mostra.
A risada de Will.
— Camiseta, um. Turner, zero — falou ele quando parou de rir. Franzi o cenho, desviando os olhos para a camisa já amassada. — Quer ajuda com isto, Sr. Turner?
Estreitei os olhos, subindo a barra da camiseta alheia até os ombros de Will. Ele ergueu o corpo de forma com que a camiseta saísse e eu pudesse jogá-la longe. Chequei para ver que ela havia parado em cima da televisão. Longe. Bem longe. Camiseta estúpida.
— Se eu não conhecesse minhas roupas, acharia que a camiseta havia cometido um crime — disse ele, voltando a rir. Revirei os olhos.
— Não — falei, inclinando-me de forma com que eu pudesse passar a língua desde seu umbigo até a proximidade do pescoço. — Isto aqui... — falei, descendo as mãos por seu abdômen, tendo o prazer de vê-lo estremecer. — Isto aqui é que é um crime.
Sorri largamente.
Os olhos de Will brilharam assim que a boca aberta, pela surpresa e pela excitação talvez, fechou. Um sorriso preguiçoso abriu em seu rosto enquanto ele descia os dedos por meus braços.
— Devíamos tentar de novo — disse ele, distraído com minha pele. Ergui a sobrancelha.
— Você quer dizer... — comecei, lembrando de suas palavras algumas semanas atrás. — Tentar fazer de novo o que nunca devíamos fazer de novo?
— Eu disse "nunca"? Não lembro — resmungou, mexendo na gola de minha camisa, logo puxando-me para deixar beijos em meu rosto.
Ri contra seus lábios.
O vai e vem de nossas línguas em uma dança lenta pareceu acalmar ambos os corações, fazendo com que os apertos e puxões cessassem gradualmente. Beijei seu nariz, suas pálpebras fechadas, sua boca. Envolvi seu corpo com o meu, descansando em cima de si.
Eu sabia que Will estava com os hormônios à flor da pele. O estresse, a mágoa, o medo e a insegurança de Will o deixavam mais agitado que o normal. Andava em círculos por meu apartamento, por minha sala, pelos corredores da faculdade. Trocava os assuntos rapidamente, ora pedindo pipoca ora me beijando. Ora me queria, ora não me queria, e assim foi até chegarmos ao ponto em que estávamos em abstinência. Eu, pelo menos. Não voltamos a fazer amor como daquela vez.
Suspirei, roçando o rosto em seu pescoço. Queria arrancar todo e qualquer resquício de tristeza de seu corpo, de seu coração. Gostaria poder mudar a história da humanidade, os fazendo menos tolos, fúteis e crentes de teorias absurdas. Queria, desesperadamente, o sorriso que chegava aos olhos de Will inundando todo o local que tivesse o privilégio de ter sua presença.
Se tudo o que eu pudesse fazer, todavia, fosse retribuir seus beijos ou fazer cinco potes de pipoca como faço para Jay quando está triste, eu o faria.
— Pipoca ou quarto? — perguntei finalmente, sentindo a respiração já calma de Will em minha orelha e suas mãos mexendo em meus cabelos. Ele soltou um riso pelo nariz.
— Sabe, você está literalmente me esmagando — falou, com carinho.
Ergui a cabeça e afastei um pouco meu corpo do seu, sustentando meu peso nos braços. Observei as linhas perfeitas de seu rosto, imaginando que nada podia ser mais lindo. Parecia um anjo. Os olhos verdes, o nariz perfeito, os lábios vermelhos e os cabelos irritantemente desgrenhados como uma eterna provocação. Sorri, juntando meu corpo ao seu novamente, fazendo atrito, ignorando o resmungo que saiu de seus lábios.
Eu nem sou tão pesado.
— Pipoca ou quarto, Will? — insisti, desconfiando pelos olhos arteiros da resposta e tendo certeza quando um sorriso nada inocente abriu em seu rosto.
— Ora, não é óbvio, Turner?
Sorri, satisfeito.
Balancei a cabeça antes de levantar-me, parando ao lado do sofá sem tirar os olhos dele. Will sentou-se, confuso, ao desviar os olhos de meu rosto para minha calça de moletom já incômoda e de volta para meu rosto. Soltei um suspiro antes de pegá-lo e jogá-lo em minhas costas, não permitindo que ele tivesse tempo suficiente para abrir a boca.
Sua risada, a mais genuína das duas semanas que se passaram, ecoou pela sala ao passo que ele tentava segurar-se para não cair.
— Seu desejo é uma ordem — falei, finalmente levando-o para o quarto.
*
Mais ou menos uma hora havia se passado desde que Will adormecera em meus braços, abraçado em mim. Uma mecha loira de seus cabelos, agora já secos, caía sobre sua testa. Tirei-a devagar, observando os olhos fechados e a boca entreaberta. Um dos braços estava envolto em minha cintura, o corpo nu junto ao meu.
O que eu não era capaz de fazer, movido pelo transtorno de sentimentos que Will em mim causava?
Não havia qualquer receio em mim ou qualquer dúvida quanto à estar com Will. Havia aprendido poucas lições em minha vida, mas uma delas é que o amor recíproco não é tão comum quanto as pessoas pensam. O coração retumbante que parece capaz de quebrar as costelas a qualquer momento ou a sensação de haver perdido uma parte de você para outra pessoa, não é nem um pouco corriqueira. É raro, bonito e é um privilégio. Ainda mais quando a pessoa que rouba qualquer linha de raciocínio sua tem olhos tão lindos, coração tão puro e uma personalidade tão arteira.
Suponho que eu faria qualquer coisa para poder estar com ele.
Eu não havia contado à Will o episódio que ocorreu logo após a segunda noite que ele passara aqui, embora choroso, em meus braços. Não havia sucedido mais nada após o desfortúnio, o que me deixava parte aliviado, parte receoso. Dizem que quando as coisas estão quietas demais, é porque o tsunami está prestes a chegar.
Deveria eu esperar uma Terceira Guerra Mundial?
Flashback on
No dia seguinte ao que Will aparecera em minha porta, chorando, algumas coisas não correram bem para mim também. Eu tinha que dar a última parte de Sistemas de Informação para a turma do Jamie e não estava nada feliz com isto. Toda a tristeza exalada por Will havia me deixado profundamente atordoado, chateado e irritado. Queria ter ficado em casa, afagando-lhe os cabelos e deixando beijos por seu rosto. Secando-lhe as lágrimas.
Assim que pus o pé para fora da sala do terceiro andar, após a cansativa e aborrecida aula, dei de cara com o Sr. Fitzgerald. Apesar de não ser uma criatura assustadora, sendo meu chefe, seu rosto sério havia me deixado apreensivo.
— Boa tarde, Sr. Fitzgerald — cumprimentei, ignorando o mau pressentimento. — O que posso fazer pelo senhor?
Os cabelos castanhos junto aos brancos estavam para trás, provavelmente com o uso de algum gel. Os olhos, também castanhos, quase sumiram devido as sobrancelhas franzidas dele. Colocou as mãos no bolso, dando um suspiro.
— Os rumores sobre você estar dormindo com um aluno — disse ele, direto ao ponto —, são verdadeiros?
Franzi os lábios, sem desviar meus olhos dos seus.
— Sim, são verdadeiros — afirmei, sem pestanejar.
Fitzgerald inspirou fundo e fechou os olhos, os lábios franzidos novamente. Parecia estar cansado demais para ter que lidar com esse assunto e, sem paciência alguma, tampouco.
— Muito bem — disse ele. — Gostaria de conversar a respeito em meu escritório — completou, olhando para os lados antes de voltar os olhos para mim, severos. — Agora.
O Sr. Edwards pareceria bastante inofensivo perto do meu chefe, depois dessa.
Então, sem esperar uma resposta, deu-me as costas e eu não precisei de alguma explicação para saber que devia segui-lo. Caminhei a passos largos em direção ao primeiro andar do curso, atrás de Fitzgerald. Assim que passou pela porta da coordenação, sentou atrás da mesa grandiosa de madeira, juntando os dedos.
Fechei a porta e sentei na cadeira à sua frente, sério.
— Que porra é essa? — Foi logo dizendo. Eu já não ficava surpreso com seus palavrões ou sua forma de falar. Ele é que havia me contratado, afinal. — Como assim você se envolveu com um aluno? Eu deixei bem claro as regras desta instituição quando você entrou aqui, Richard.
— Na verdade, o senhor me deu um manual das regras e não as mencionou — falei, me arrependendo logo após.
— Porque era para ser lido! — esbravejou. — Porra, Richard. E ainda com um homem... — Fez uma cara de nojo, fazendo um gesto vago com a mão. — Eu não posso admitir isso, não é correto.
— Se vai me despedir porque me envolvi com um aluno, então muito bem — falei, já irritado. — Eu sabia que não era permitido. Mas se você está querendo me despedir porque me envolvi com um homem... Eu não preciso dizer que, neste caso, sou eu quem não vai admitir isso, não é?
Fitzgerald fechou a cara, cerrando as mãos em punho. Piscou algumas vezes antes de balançar a cabeça.
— Richard, eu não estou nem aí para quem você está fodendo, por mais repulsivo que seja — falou, com uma carranca. — O que me importa são os alunos e suas famílias. Quem recebe a droga das reclamações sou eu! Você já pode imaginar como eu descobri suas infrações, não é?
Fechei os olhos, suspirando.
— Quem foi o aluno?
— Não, quem foram os alunos, você quer dizer — falou, irritado. — Foram sete reclamações, Richard, sete! Espero que entenda que as coisas não estão muito bonitas para o seu lado. Primeiro, eu tenho que ouvir dizer que você não é justo nas aulas, que é um péssimo professor e que não cumpre seu papel. — Fiz uma careta. — Depois de meses suportando toda essa merda por sua causa, já que você é bem qualificado, você resolve se envolver com a droga de um aluno. O que espera que eu faça por você? Ponha a mão no fogo, só porque você é um Turner?
Senti o sangue fervilhar em meu corpo, louco para impulsionar meu punho ao encontro do rosto de Fitzgerald. Eu não podia reclamar, no entanto. Sabia que se fosse qualquer outro professor no meu lugar, já teria sido demitido na primeira falha.
— É claro que não — falei, engolindo meu orgulho. — O que espero que faça é perceber que meu envolvimento com Will, seja o que for, não interfere de forma alguma em meu desempenho nesta universidade.
Fitzgerald bufou, apoiando-se nas costas de sua cadeira.
— Você acha mesmo que os alunos, ou os pais dos alunos, se importam com isto? — perguntou, fazendo-me suspirar. — Não, Richard, eles não se importam nem um pouco. A única coisa que passa pela mente deles é você se esfregando com um aluno pelos corredores e aprovando ele em suas matérias em seguida.
— Eu não me esfrego com aluno pelos corredores! — esbravejei. — É meu dever ser justo com as notas e eu sou. Você jamais vai ter motivo para me chamar de incompetente!
— Ninguém se importa com a verdade, Richard! É isso que você não está entendendo — falou, já sem paciência. — Se você se envolvesse com uma aluna, já ia causar transtorno. O fato de ser um cara só piora a situação.
— Deixa eu adivinhar — falei, inclinando a cabeça. — George Peterson foi um dos alunos que passou por aqui. — Pude vê-lo abrir a boca para falar, mas continuei, impassível: — Seus amigos também. Outro aluno que deu o prazer de sua presença pode ter sido algum com influência de classe. Estou correto?
Fitzgerald inclinou-se sobre a mesa, os olhos estreitos em minha direção.
— Não piore sua situação, Turner — falou com a voz mansa, perigosa, fazendo-me esquentar de raiva. Sabia que meu sobrenome pronunciado por sua voz, ao contrário de Will, se referia diretamente à minha família, fato que ele não deixava passar nem por um segundo.
— Piorar como? Você não está prestes a me despedir, devido ao descontentamento dos alunos de elite? — perguntei, sádico. Sabia que, se havia algo maior do que a intolerância de Fitzgerald, era seu orgulho.
— Não me tente, Richard, não me tente — resmungou, fazendo gestos com a mão.
— Não vou renunciar a Will — falei com firmeza ao perceber que ele não tinha tanta disposição em me despedir. Sabia que, pra eu ficar, essa seria a única forma em sua mente. — As famílias que se fodam. — Trinquei a mandíbula ao falar da mesma forma que ele.
Sua boca tornou-se uma linha fina novamente.
— Pois então não reclame de seu destino aqui — grunhiu, irritado. — As famílias que se matriculam em nosso curso são de grande influência para a notoriedade dele e isso vale para todos os cursos, para toda a droga da universidade. Você sabe disso, não é idiota.
— No entanto, cabe a você decidir o melhor para este curso — falei, já apaziguado. — Se você acredita mesmo nas palavras emburradas de alunos mimados, e se você acha que não estou desempenhando meu papel de forma adequada, não me sobra outra alternativa que não seja me despedir. Isto, claro, se você também acreditar que pode encontrar um professor de Administração Financeira melhor ou tão qualificado quanto eu. — Ergui uma das sobrancelhas, recostando-me na cadeira. — A decisão é sua, Fitzgerald. Desde que, notoriamente, deixe contente às famílias dos alunos e à eles próprios. A elite, principalmente. — Estreitou os olhos para mim, inflando as narinas. — De qualquer forma, aceitarei meu destino com orgulho. Cabe a você decidir, coordenador.
Fitzgerald, com os punhos já cerrados novamente, as narinas infladas, os lábios franzidos, as sobrancelhas grossas juntas, limitou-se a bufar. Seu rosto estava vermelho como um tomate. Levou uma das mãos à boca, como se ponderasse minhas palavras.
Enfim, suspirou ao descer os olhos para os papéis em sua mesa, organizando-os como se eu não estivesse ali.
— Pode retirar-se, Turner. Acabamos aqui — retrucou. — Não estou te pagando para ficar vagabundeando pelo prédio. Tem trabalho à fazer.
Sorri, levantando-me com agilidade antes que ele mudasse de ideia.
— Sim, senhor — falei, girando nos calcanhares antes de abrir a porta e sair como o vento.
Flashback off
Desvencilhei-me de Will com cuidado para não acordá-lo, ouvindo um resmungo de sua parte quando consegui. Observei-o de cima, adormecido ao virar de bruços e encaixar o rosto no travesseiro de forma que formasse um beiço involuntário. Balancei a cabeça antes de juntar minha calça de moletom, enfiando-a no corpo de forma rápida.
Saí do quarto, indo ao banheiro rapidamente ao perceber a bexiga cheia. Assim que terminei, encarei-me no espelho, frustrado ao perceber que ainda pareço ter quarenta anos, apesar de me sentir mais novo. Apesar de ser mais novo, corrigi mentalmente. Fiz uma careta ao observar os cabelos que Will conseguiu desgrenhar da mesma forma que os seus.
Perdido em pensamentos, só depois de um tempo indeterminado dei-me conta de lavar as mãos, abrindo a torneira e levando-as para baixo da água. Ainda em devaneios, ao passo que lavava as mãos, foi inevitável dar um pulo quando ouvi a voz chocada ao meu lado.
— Eu não acredito! — dissera Will, com os olhos alargados em minha direção.
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