Made of Fire
28 XXV - Meu passado me condena
Notas iniciais
— Eu não acredito! — Will dissera, a voz rouca pelo tempo que passou dormido.
— Will, você quer me matar do coração? — perguntei, o coração disparado ao ser pego desprevenido. Virei o rosto em sua direção ao fechar a torneira e ergui o braço para alcançar a toalha de rosto. — Eu já sou velho, não pode fazer coisas do... O que foi? — perguntei assim que virei de frente para ele.
Os olhos estavam abertos demais para quem acabou de acordar e sua boca estava aberta, desviando os olhos desfocados de meu peito para meu rosto. Franzi o cenho, preocupado.
— O quê?
Mal fechei a boca e Will avançou em minha direção, as mãos em meus braços empurraram-me para o lado com determinação. Demorei pouco tempo para entender que ele queria me virar de costas. Deixei que o fizesse, confuso.
Assim que suas mãos deixaram minha pele, ouvi um murmúrio surpreso. Olhei-o por sobre o ombro, tentando virar em sua direção novamente. Fui impedido pelas mãos alheias mais uma vez. Seus dedos traçaram uma linha em minhas costas de leve, fazendo-me arrepiar. Girei o rosto para tentar vê-lo, mas não consegui. Ficou em silêncio um tempo, não sabia o que era tão chocante para deixar Will atordoado.
— Will, o que houve? — perguntei, frustrado por não poder ver seu rosto a fim de decifrá-lo.
— Eu não acredito! — exclamou em um tom alto novamente. — Eu não... O quê... Por quê... — balbuciou e eu virei-me em sua direção, encarando os olhos verdes. — Por que você tem uma tatuagem de dragão? — inquiriu, como se me desse bronca.
Franzi o cenho, dando um passo atrás com sua reação. Estaria ele bravo?
A tatuagem detalhada podia ser grande o suficiente para cobrir minhas costas inteiras, mas eu não imaginava o porquê de impressionar Will. Ele não tinha nada contra tatuagens, visto que havia uma em seu braço. Talvez ele não gostasse de tatuagens tão grandes. Ou talvez ele não gostasse de dragões.
— Eu não deveria? — tentei cauteloso, com medo que ele me batesse. Will era incapaz de fazer algo assim, mas pela forma como me olhava, era bom estar prevenido.
— Mas... — Parou, o rosto relaxando ao ficar pensativo. — Eu não entendo.
Franzi o cenho, tentando entender o que ele não entendia. Eu estava realmente confuso, então não soube o que pensar. Assim que eu percebi que ele nada mais diria, dei um passo em frente novamente.
— Achei que você já tivesse visto a tatuagem, Will — falei, deixando meus olhos na altura dos seus, ao dar-me conta do fato. — Não é como se você não tivesse me visto sem camisa. — Ergui a sobrancelha.
— Não é como se eu tivesse prestado atenção! — resmungou ele. — Eu estava ocupado te beijando e você não ficou de costas para mim!
— Está bem, está bem — falei, erguendo as mãos, tentando entender o motivo de tanta alteração. — Posso saber o que há de errado com minha tatuagem?
Forcei minha mente a pensar o que diabos havia acontecido. Lembrei vagamente de quando Will houvera me comparado com um dragão, meses antes. Havia pensado que ele soubesse alguma coisa sobre meu apelido dos tempos antigos, mas assim que olhara em seus olhos, havia considerado que fosse coisa de minha mente. Estreitei os olhos em sua direção.
Ele sabia o motivo da tatuagem?
— Você sabe qual seu apelido então? — perguntou, receoso. Abri a boca, mas logo a fechei rapidamente ao dar-me conta de que não, não fazia sentido.
Do que diabos ele estava falando?
— Will, você não está fazendo sentido algum.
— O apelido! Você me perguntou do que nós te chamamos na universidade e eu não respondi. Você sabe? — perguntou, praticamente com o rosto colado ao meu, tamanha curiosidade.
— Se eu soubesse, não perguntaria — falei, estranhando sua reação. Will franziu o cenho, deixando-me mais confuso. — Tem alguma coisa a ver com dragões? — deduzi, analisando sua expressão.
— Dragão! Seu apelido é Dragão, Turner! — exclamou, mexendo freneticamente as mãos para dar ênfase. Ergui a sobrancelha, intrigado. — Não é possível que seja coincidência. Pensei que você houvesse feito a tatuagem porque sabia do apelido, como uma piada interna, mas não faria muito sentido... Então talvez, o apelido seja por causa da tatuagem... Mas quem...?
Franzi o cenho, as peças encaixando-se aos poucos. Lembrei das vezes em que ouvi o apelido pelos corredores e pelas salas de aula sem saber que era direcionado à mim. No entanto, sempre desconfiei. Pensei que falavam sobre o cassino, algum rumor à respeito espalhando-se pela universidade por conta de Jared. Nunca pensei que fosse um apelido usado pelos alunos, com o simples intuito de descontar sua frustração com relação à mim.
Mas não podia ser coincidência, claro que não.
— Eu não acho que seja coincidência, Will — falei, imaginando que, se ele me chamava assim como os outros alunos e ficara confuso ao ver a tatuagem, ninguém devia saber de nada. — Quem passou a me chamar assim primeiro?
Ele franziu o cenho, erguendo os ombros.
— Todo mundo te chamava assim quando entrei na sua turma.
Assenti devagar, não gostando nada do rumo da conversa. Nada mesmo. Talvez se eu me fizesse de esquecido, Will também deixasse de lado o assunto de uma vez. Virei as costas novamente, girando em direção ao quarto infestado com o cheiro de Will. Não demorou muito para que me seguisse.
— E então? — perguntou, as mãos na cintura. Percebi que havia vestido uma de minhas calças de moletom também. Suspirei, contrariado.
— Era um apelido de uma época distante — falei, tentando omitir ao máximo os detalhes. — Alguém deve ter ouvido e passado pela universidade. Ninguém deve saber o motivo do apelido, de qualquer forma. — Ergui os ombros, sentando na cama. — Você quer a pipoca agora?
— E qual o motivo? — insistiu ao se aproximar da cama também, onde eu sentara, os curiosos olhos verdes em mim.
— Eu gosto de dragões — respondi simplesmente, puxando os cordões da calça que ele usava em minha direção. — E eu prefiro quando você está sem isto — falei com um sorriso.
Will sorriu de volta, mas percebi que não havia sido um sorriso completo. Estava nervoso e curioso. Agora que havia atiçado sua curiosidade, por conta da maldita tatuagem, ele não iria se aquietar. Em pé no meio de minhas pernas, mexeu em meus cabelos com o rosto receoso. Escondeu os lábios antes de perguntar com a voz baixa:
— Tem alguma coisa a ver com as apostas?
Abri a boca, surpreso ao encarar os olhos que desviavam de mim.
— Como você sabe sobre as apostas? — perguntei em um fio de voz, minha cabeça dando voltas. — E como você não sabe sobre o apelido se sabe sobre as apostas?
Ele franziu o cenho, voltando os olhos à mim.
— Então tem a ver com as apostas? — deduziu ao me encarar com apreensão. Fechei os olhos.
Como diabos ele sabia disso?
— Will, eu não sei como te contar... Digo, como você...? — tentei ao balançar a cabeça, ficando em pé novamente.
— Não importa — resmungou ele. — Eu ouvi algo vago a respeito e queria te perguntar, mas... eu não soube como — contou baixinho. — Quero saber sobre essas coisas e quero saber por você, não por outras pessoas. Não precisa guardar segredos de mim, eu não vou contar à ninguém — completou em um tom magoado.
— Esse não é o problema, Will — falei, passando as mãos nos cabelos. — Eu confio em você. Eu contaria tudo que fosse necessário se você pedisse, mas isto... — Fiz um gesto vago com a mão. — Isto não é necessário, não são coisas das quais me orgulho. Faz parte de um passado que pretendo esquecer. De propósito — enfatizei, vendo se deixava mais claro assim.
Ele suspirou, os olhos cravados em mim não vacilaram nem por um segundo a determinação neles estampada. Parecia aflito e eu sabia que a curiosidade venceria a guerra interna que se passava dentro de si.
— Eu não me importo com o que você tenha aprontado — falou, tendo o cuidado de escolher o verbo "aprontar". — Eu não vou deixar de te amar por causa disso.
Quase pude sentir meu coração parar por um segundo antes de bater mais forte. Amaldiçoei Will e seu poder sobre mim antes de fechar os olhos e deixar o ombros caírem, derrotado.
Sentei sobre a cama e puxei ele comigo, olhando em seus olhos.
— Tudo bem — falei, desistindo de fazê-lo mudar de ideia.
Eu lutava tanto para deixar tudo o que aconteceu no passado, no fundo da minha memória. Tentava tanto deixar tudo para trás, acreditar que eu mudei, que eu já não pertencia ao passado, àquele mundo. Contudo, eu sabia que, no fundo, era necessário que Will soubesse. Eu tampouco conseguiria manter nada para mim por tanto tempo, se eu passasse o resto dos meus dias com Will. Certamente não iria conseguir escapar das perguntas ou dos acontecimentos que trariam tudo o que aconteceu à tona.
Encarei as esmeraldas bonitas, nas quais Deus, caso exista, colocou tanto esmero em criá-las. Esmero em criar todo ele.
Will me conhecera como sou nos dias atuais. Me conhecera responsável, centrado e sensato. Se apaixonara por mim depois de eu haver passado anos construindo uma melhor maneira de ser, uma melhor maneira de viver minha vida e batalhar pelo que eu quero. Não queria que soubesse que eu nem sempre fui assim. Não queria correr o risco de mudar sua opinião a meu respeito. Mas eu, com toda certeza, confiava em seu julgamento. E em seu amor.
— Eu sempre tive um temperamento um tanto quanto tempestuoso — comecei, fazendo uma careta. Lembrava de cada soco que eu havia dado no colégio, cada discussão e cada pegadinha que armávamos para os colegas. Eu era, literalmente, uma praga. Decidi que isso não seria relevante em meu monólogo para Will. — Assim que eu terminei o colégio, eu devia fazer algum curso que me pusesse em um cargo importante na empresa de meus pais. Só que eu, sendo o adolescente ignorante que era, não achava importante estudar, trabalhar ou virar gente decente — falei a última parte com certo desgosto sobre minhas escolhas. — Eu não queria cursar nenhuma faculdade ou assumir um cargo em empresa alguma, já que eu podia desfrutar do dinheiro de meus pais. Então tudo que eu fiz durante quase dois anos foi... — Suspirei, franzindo os lábios.
Foi vagabundear, pensei, e cumprir seriamente o papel de ser um inútil.
Observei os olhos atentos em mim, a mão macia na minha, apertando de leve como um incentivo para que eu continuasse. Sorri.
— Eu estava cansado de ter que ser o responsável, não queria ter que tomar conta de Rob e Becca o tempo todo. — Soltei um suspiro pesado. — Veja bem, Will, eu não era nem um santo, mas eu sempre colocava meus irmãos acima de tudo. Mesmo querendo sair com os amigos, mesmo querendo fazer mil besteiras... Se eles precisassem de mim, eu renunciava todo e qualquer capricho meu por eles — completei, lembrando dos momentos em que isto foi necessário ocorrer.
Experimentara pela primeira vez um cigarro, aos treze anos, depois de haver fugido da escola por algumas horas. Avistei de longe meu irmão levando uma surra fora da área do colégio, sabendo que ele havia saído procurando por mim, e corri em sua direção para ajudá-lo. Enfrentei os três garotos mais velhos, com raiva, até poder levar meu irmão de volta para a escola, enfiá-lo em seu lugar sem que ninguém percebesse e logo levar a culpa por tudo que houvera acontecido.
— Depois que terminei o colégio, no entanto, eu mal parei em casa. Fui negligente com meu papel de irmão mais velho — falei, sentindo uma pontada no peito ao lembrar de tudo que abdiquei e tudo que fiz na época. — Andei com más companhias, comecei a fumar e a beber — Encarei seu rosto para ver se continuava. Suspirei. — Cheguei a usar até metanfetamina. — Vi os olhos verdes alargarem-se involuntariamente, mas Will assentiu para que eu continuasse. — Eu dormia em festas, na rua, no meu carro, em casas de estranhos. Eu não fazia absolutamente nada além disso, havia afundado.
Foram diversas as vezes em que acordei na cama com alguém que não fazia ideia de quem era. Duas as vezes em que acordei em uma poça de meu próprio vômito e outras várias em que acordei sozinho, em algum lugar que não sabia como diabos havia chegado.
— Então, depois de um problema com carros e bebidas... — falei, lembrando do rosto rechonchudo do policial que gritava na minha cara e em seguida, puxava-me em direção à delegacia pela roupa. — E depois de ser fichado na polícia — falei, vendo a boca de Will cair —, meu pai cortou todos os meus gastos. Me disse que eu devia tomar jeito na vida e que, só depois disso, eu devia voltar para casa. Meu pai é um homem correto, um pai carinhoso. Então, para me expulsar de casa, você pode imaginar o estrago que eu fiz. — Sorri sem humor.
Meu pai pagou a minha fiança por dirigir bêbado e causar um acidente de carro que gerou graves ferimentos em mais duas pessoas, Marcus incluso, e levou-me para a casa em silêncio antes de soltar a bomba. O rosto assustado de minha irmã e a expressão furiosa de meu irmão no momento em que meu pai me expulsara de casa não saía de minha mente. Rob sempre foi o que mais tivera paciência comigo, mas algumas coisas que fiz o tiraram do sério e eu soube que ele apoiava nosso pai em sua decisão. Mamãe chorara, correndo para o quarto logo em seguida. Limitei-me a dar de ombros e sair cambaleando pela porta, certo de que não voltaria.
Will ficou em silêncio por um tempo, e apenas voltei à realidade das lembranças assim que ouvi a voz dele.
— Sim, mas... Bom, imagino que você seria uma pessoa diferente se nada disso houvesse acontecido — falou ele, sendo extremamente gentil. Quis beijá-lo por ser tão compreensivo. — Estou correto?
Assenti, roçando os dedos em seu rosto antes de continuar.
— A história não acabou aí, Will — falei, vendo o cenho franzir.
— Você não voltou para casa — concluiu ele em um murmúrio, e eu assenti.
— Eu não voltei para casa — confirmei. — Eu não tinha mais carro, eu não tinha dinheiro nem para comprar bebidas, achei que não tinha nada mais a perder. Fiquei na casa de um amigo por um tempo — falei, lembrando do rosto alegre e chapado de Marcus. Balancei a cabeça para afastar a imagem. — Então, em uma de minhas saídas, conheci um cara que tinha entrada exclusiva para um cassino. A entrada exclusiva tinha certas regalias... — Suspirei ao observar o rosto atento. — O interessante não era o cassino em si, era o subsolo dele. Apesar das brigas e confusões, não havia nada de ilegal no térreo, onde era confiscado. No subsolo, entretanto, eram feitos jogos ilícitos de pôquer, cartas, e diversos. Apostas eram feitas — expliquei, vendo suas sobrancelhas erguerem —, assim que o dado era jogado. Você entendeu o que quis dizer — falei ao ver o cenho franzir novamente. — Consegui a entrada exclusiva com este amigo e, usando o pouco dinheiro que tinha nos bolsos, passei a frequentar este lugar todas as noites. Foi aí que surgiu o apelido.
— Como? — perguntou Will, confuso.
— Ninguém sabia da existência do subsolo, a não ser quem tinha a entrada exclusiva. Mas ela dava direito a entrar no subsolo apenas depois que você jogasse no cassino superior. Era uma burocracia chata, embora eu imagine o motivo deles fazerem isso. Mas depois de um tempo, as coisas ficavam mais fáceis. Assim que você conseguisse a confiança do Cobra, o gerente do subsolo, devido à frequência que você aparecesse lá, eles entregavam o cartão dourado — contei, encarando os olhos atentos. — Se você tivesse o cartão dourado, poderia entrar pelos fundos do cassino, sem precisar jogar em cima primeiro. Todos que tinham este cartão gostavam de usar apelidos nos jogos, apelidos estes adquiridos nas quedas de braço. Veja bem, queda de braço é um dos jogos de azar que mais dependem da sorte. — Will franziu o cenho. — Da força, no caso. As apostas eram enormes e nem todo mundo se disponibilizava a jogar. Logo que consegui o cartão, fui compelido a escolher um apelido. Como eu sempre tive grande fascínio por dragões, já sabe...
Os olhos de Will pareciam querer saltar das órbitas e, se a situação não fosse a qual nos encontrávamos, eu o consideraria incrivelmente adorável.
— Com você falando, parece tudo normal. — Ergui uma sobrancelha. — Dentro dos parâmetros — explicou ele, rapidamente. A ruga entre suas sobrancelhas aumentos, com o olhar pensativo. — Mas eu não consigo deixar de pensar em como isso deve ser perigoso. Se era tanto dinheiro envolvido, o que acontecia com quem perdia, com quem não pagava? Isso era possível, alguém deixar de pagar?
Engoli em seco, amaldiçoando-me por pensar que Will não se daria conta dos detalhes. Esqueci por um momento com que eu falava.
Subitamente, imagens vieram-me à mente do lado obscuro de minha história. Não era como um filme, onde tudo parece ser bacana e inofensivo, eu não sou invencível, eu sou um simples mortal. E eu fui um mortal jovem e burro.
O subsolo era reservado e mais restrito ainda com os cartões dourados porque não era qualquer pessoa que conseguia as regalias. Não era qualquer pessoa que tinha coragem de descer até lá e arcar com as consequências do jogo. O cartão era como um tiquet para a rodovia do inferno: podia ser que não entrasse lá, mas não havia maneira de voltar atrás. Eram pessoas com extremo poder e dinheiro ou pessoas estúpidas como eu, que não tinha absolutamente mais nada a perder. Ou assim pensava.
Na primeira confusão que criei, mentindo que tinha dinheiro quando não o tinha e perdendo tudo que conseguira na queda de braço contra Zeus, a princípio pensei que sairia ileso. Ninguém havia comentado nada quando esquivei-me de pagar, mostrando os bolsos vazios, mas assim que cheguei próximo à porta de saída, obviamente não me deixaram passar por ela.
Lembrava nitidamente do cheiro de tabaco e suor naquela maldita sala fechada. Meus gritos inundaram o local, e eu não me importava bulhufas com a minha própria dignidade ao espernear, lutando contra homens que certamente eram mais fortes do que eu. Podia sentir o sangue molhar minha roupa e o cheiro do mesmo inundar meus narizes de forma contínua. A intenção não era me matar, logo me dei conta. A intenção era me machucar tanto quanto podiam, mas da menor forma possível para que causasse ferimentos graves o suficiente para que me desse conta da merda que fiz. A intenção era educar-me de acordo com suas regras.
A intenção fora cumprida.
— Melhor deixar essa parte de lado, Will — falei com cuidado, vendo seus olhos alargarem mais ainda. Engoli em seco. — Como eu disse, no cassino tinha toda uma burocracia. Gente rica e poderosa, já sabe. Pouca gente ficava sem pagar, eles controlavam bem quem tinha condições e quem não — falei, pensando que as poucas pessoas sofreram o suficiente por várias. — As apostas envolvidas em corridas de carro é que eram complicadas.
— Não acabou ainda — murmurou ele, sem se preocupar em esconder a incredulidade.
— Não, Will, tem mais — confirmei, triste. — Voltei para casa assim que consegui juntar dinheiro o suficiente, depois de várias confusões... — Tomei uma pausa para balançar a cabeça, incrédulo com minhas ações no passado.
Apesar de haver desejado correr com o rabo entre as pernas e nunca voltar ao local depois do primeiro deslize, não consegui impedir a mim mesmo. O desejo irracional de sentir o poder nas minhas mãos ao vencer as partidas mais uma vez. A abstinência de adrenalina ao chegar na casa de Marcus e andar de um lado ao outro. Paguei o que devia e ganhei mais ainda, fazendo com que eu voltasse mais vezes e, consequentemente, fazendo com que eu cometesse mais deslizes no local.
Toquei meu abdômen inconscientemente, sentindo um calafrio subir-me à coluna pela lembrança, mas logo afastei as memórias. Ao ver os olhos verdes em meu rosto, sorri forçado, aliviado por ele não haver se dado conta.
— Eu voltei para casa apenas para pegar meu carro de volta. Ainda estava em meu nome, então não tive problemas com isso — contei finalmente.
— Suponho que pegou seu carro sem o consentimento do seu pai — falou Will, com uma careta engraçada.
— Bem observado. — Ri, achando mais graça do garoto de cabelos desgrenhados do que da situação. — Eu e este amigo, meu melhor amigo na época, partimos para as corridas ilegais. Já havia ouvido falar, mas estava tão envolvido no cassino que nunca houvera participado até aquele momento. Você não tem noção do dinheiro envolvido, Will, e muito menos da confusão que causava.
Com um suspiro, lembrei do momento em que percebi que havia passado de todos os limites que eu mesmo tinha imposto à mim. E eles eram flexivos, lembrei. A gritaria, a música, o cheiro de álcool infestando os locais ao ar livre devido ao vento que passava. A excitação, a agitação que eu sentira com as corridas e a adrenalina. E então os desastres, os acidentes de carro, os incidentes que ocorriam por perto, as overdoses...
A imagem da garota de pele escura, já pálida pelo tempo em que adormecera, voltou como um vento à minha mente. Seu carro havia ficado estacionado no local por dois dias seguidos, violando uma das poucas regras que havia nas corridas de carros: esvaziar o local. Então, ao darem-se conta do que havia acontecido, invadiram o carro apenas para encontrar seu corpo desfalecido. Eu estava bêbado no dia, mas certamente a figura da garota desfalecida ao lado de drogas injetáveis não saíra de minha mente jamais.
Pigarreei, afastando as memórias.
— As corridas de carro ocorriam em um lugar mais afastado da cidade. Certo que era mais "tranquilo" que o cassino, porque as pessoas que frequentavam eram geralmente jovens inúteis como eu e não pessoas de poder como havia no local fechado. Por outro lado, a liberdade que havia ali gerava muitas desventuras, já que não haviam regras além da que dizia para esvaziar o local assim que tudo acabasse. Eu estava tão atolado em problemas, que eu não podia largar tudo até que os resolvesse. Pouca gente sabia quem eu era, mas os poucos eram suficiente. Neste ponto, eu já não frequentava mais o cassino — falei, a mente distante.
Havia trocado um vício por outro, pensei.
Respirei fundo antes de colar meus olhos nos de Will, ainda atentos. Soltei um suspiro pesado antes de acariciar seu rosto, percebendo mais uma vez o quanto eu era sortudo de haver chegado até aqui e tido o prazer de conhecê-lo e de ser amado por ele.
E por outro, completei.
Will franziu o cenho para mim, preocupado.
— E o que aconteceu?
— Eu estava bloqueado — contei em um murmúrio, pesaroso. Conseguir largar o cassino é um feitio muito improvável, mas eu consegui. O problema são as consequências. O problema é viver assustado, se questionando se realmente consegui e se ninguém vai me seguir, ou me esquartejar em uma esquina, ou se o fizessem, quando seria o momento em que o fariam. Decidi ocultar isto de Will também. — Will, eu estava ficando paranóico até com a minha própria sombra. Eu comecei a ficar bloqueado pelo medo assim que me dei conta das proporções que tudo aquilo tomava. Chegou à um ponto em que eu já nem dormia. Tentei me afastar, mas alguma coisa sempre me fazia voltar para lá — falei, decidindo omitir também que a coisa que me atraía de volta toda vez era a Hilary. Outro erro catastrófico. Engoli em seco antes de abrir os olhos que sequer percebi haver fechado. — Até que aconteceu uma tragédia. O local foi vasculhado pela polícia, e como uma peste, erradicado. Muita gente foi presa e tudo acabou.
Terminei o monólogo, desejando com todas as forças dar o assunto como encerrado. Minha cabeça latejava, deixando claro que havia sido bem mais difícil do que pensei.
— Que tragédia? — perguntou ele em um sussurro.
— Melhor deixar essa parte de lado também, Will — falei, os olhos desfocados ao encarar o chão.
— Mas...
— Não — falei, firme. Respirei fundo ao notar meu tom de voz. — Não é importante, Will. — Voltei os olhos à ele, vendo-o morder os lábios. — O que importa é que saí dessa. Prometi nunca mais voltar, prometi nunca mais fazer nada do tipo, prometi andar nos trilhos. Então eu me encontrei em Contabilidade, e encontrei Jay no segundo ano de meu curso. — Sorri, lembrando da cena, e vendo Will imitar minha expressão. — Trabalhei um ano na empresa de meus pais, mas larguei porque não era o que eu queria. Vim para cá por causa da vaga de professor, seguido de Jay, quando eu tinha uns vinte e seis anos. Então, no início deste ano, te conheci. — Inclinei o rosto levemente ao observar a covinha afundar em sua bochecha. — Fim da minha história.
Ele assentiu, passando os dedos por meu braço antes de deslizá-los para as minhas costas. Aproximou-se ao encaixar o rosto em meu pescoço conforme eu o abraçava, inspirando fundo em seus cabelos.
— Desculpa haver feito você me contar tudo isso, Turner — murmurou contra meu pescoço.
— Tudo bem, eu quis contar — murmurei também, afagando suas costas. Afastou-se rapidamente como se lembrasse de algo.
— Você fez a tatuagem naquela época — disse ele, afirmando ao invés de perguntar.
Assenti com um sorriso.
— Podemos ficar nus novamente, agora? — perguntei, observando o rosto tingir de vermelho. Will era muito imprevisível, às vezes. Por que ele estava corando com minhas palavras se ele mesmo havia tirado minha roupa sem pudor algum?
— Se você quiser... — falou, com um sorriso conforme eu me aproximava. O sorriso sumiu rapidamente e ele afastou-se mais uma vez, sobressaltando-me. — Ah, espera! Tenho só mais uma pergunta!
— O quê? — resmunguei, revirando os olhos..
— Bom... Você... — pigarreou, olhando-me com aflição. — Você não falou nada sobre suas namoradas... — sugeriu baixinho. Abri a boca para responder, mas fui impedido. — E eu sei que você teve! — falou a última parte rapidamente. Suspirei.
— Will, Will, Will — resmunguei, fazendo cara de dor. — Por favor — pedi com agonia —, eu já estou com dor de cabeça o suficiente!
— Tá bom, tá bom, tá bom — disse ele, imitando-me ao repetir antes de erguer as mãos e rir.
Puxei-o finalmente em minha direção, aliviado até a alma de que o assunto cessara, por enquanto. Sabia que Will não me afastaria por coisas que fiz no passado, sabia que ficaria ao meu lado. Da mesma forma como tenho certeza que, sendo curioso da forma como é, não vai demorar tanto assim para que tire de mim toda a parte que deixei de contar. Talvez meu maior receio fosse ter tudo isso trazido à tona em minha mente.
Havia superado as drogas lícitas e ilícitas, havia superado toda a curiosidade de jovem que eu tivera e que Will tem em si, havia superado até mesmo Hilary. Eu não tinha certeza, no entanto, se havia superado completamente o gosto pela adrenalina que tudo causara. Eu não tinha certeza se conseguiria seguir em frente sem olhar para trás caso me deparasse com esse mundo de novo. Ponderava se não cairia em desgraça novamente, caso eu não conseguisse. Não estava certo, tampouco, de que eu conseguiria sair vivo de uma recaída.
E, céus, eu daria tudo para não ter que descobrir.
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