Made of Fire
26 XXIII - Eu, mar de lágrimas
Notas iniciais
Abri a porta da frente de casa, meu olhar disparando até onde minha visão podia alcançar, os ouvidos atentos aos sons quase inexistentes, com exceção das vozes vindas da televisão. Inspirei fundo antes de entrar, fechando a porta devagar atrás de mim, rezando para que minha mãe não tivesse tirado o dia de folga novamente. Mordi os lábios ao deixar minha mochila em cima da mesa da cozinha, tentando fazê-lo de forma mais silenciosa possível. Mudei de ideia rapidamente, voltando a pendurá-la em meu ombro.
Com o coração disparado, sentia a pontada de esperança de que pudesse entrar sem deparar-me com mais ninguém. Talvez Caleb houvesse deixado a televisão ligada e estivesse em seu quarto dormindo, assim fazendo possível que eu atravessasse a sala em direção ao meu quarto de forma despercebida.
Com isso em mente, peguei uma maçã no cesto de frutas para que não tivesse que deixar meu cômodo até o dia de amanhã. Embora eu soubesse que isso era altamente improvável, não podia evitar a falsa expectativa. Esperança é uma vadia que brilha demais em momentos inoportunos.
Caminhei com passos lentos em direção à sala de estar, apenas para dar de cara com o chão. Metaforicamente, é claro. Podia ver a cabeleira de Caleb, sentado no sofá, alguns centímetros afastada de cabelos loiros dos quais não pude reconhecer imediatamente. Franzi o cenho, pensando se, mesmo assim, eu pudesse atravessar o local em silêncio atrás do sofá.
Eu tive, no entanto, menos de um segundo para raciocinar a respeito antes de ver Caleb virar a cabeça rapidamente em minha direção, as sobrancelhas escuras arqueadas. Senti um aperto no estômago quase que imediatamente.
Merda.
— Will — pronunciou, levemente surpreso e aliviado. — Você voltou!
Um sorriso fez menção de aparecer em seus lábios, mas a hesitação que apoderava-se dele, e de mim também, pareceu fazê-lo desvanecer aos poucos. Só percebi que a figura ao seu lado havia também se voltado à mim quando ouvi a voz familiar dizer:
— Boa tarde, Will — falou Mason, amigo de Caleb, encarando-me atrás do óculos de grau que parecia boiar em seu rosto magro. Forcei-me a sorrir fracamente.
— Boa tarde — murmurei, sem graça, antes de disparar meus olhos para os de meu irmão.
Caleb estava tornando-se tão parecido comigo que às vezes era impossível deixar de observá-lo com atenção. Os olhos verdes, como um reflexo dos meus, encaravam-me com tanta oscilação quanto à que havia em mim. Pude vê-lo abrir a boca novamente mas, em um impulso covarde, dei-lhe as costas antes que se pronunciasse.
Caminhei em direção à meu quarto com agilidade, fechando a porta atrás de mim quando pude, enfim, entrar. Soltei o ar que não sabia que prendia antes de encostar-me na porta e deslizar até o chão.
Podia ser pior, pensei. Minha mãe podia estar em casa.
Fechei os olhos com frustração, lutando contra as lágrimas ao lembrar do fatídico episódio do dia anterior.
Flashback on
Havia aberto a porta de casa, assim como alguns minutos antes de agora, embora não houvesse cuidado algum em meus movimentos. Entrei e fechei-a atrás de mim, ação tão rotineira que havia se tornado um costume. No entanto, assim que ergui os olhos encontrei uma cena nem um pouco familiar.
Minha mãe estava sentada em frente à mesa da cozinha, as pernas cruzadas ao balançarem ininterruptamente como tique nervoso, parecido com o meu. Esta ação, somada ao fato que ela roía as unhas nervosamente, não foi a primeira coisa que alertou meu sinal vermelho. A primeira coisa foi o fato de ela estar em casa neste horário, sendo que devia estar no restaurante.
— Mãe? — perguntei nervoso, minha mente disparando de tal forma que não pude raciocinar normalmente. — Aconteceu alguma coisa? O que a senhora está fazendo aqui neste horário?
Franzi o cenho, confuso com a situação. Minha mãe pareceu dar-se conta de minha presença apenas quando ouviu minha voz, parando o movimento das pernas imediatamente antes de erguer os olhos castanhos em minha direção. Seu rosto mortalmente sério trouxe um calafrio nada bom à minha espinha. Engoli em seco, aproximando-me devagar depois de largar as chaves no balcão.
Mamãe suspirou pesadamente antes de descruzar as pernas, ajeitando-se na cadeira.
— É verdade? — perguntou ela, fazendo-me congelar.
Oh, não. Não, não, não.
— O quê? — perguntei debilmente. Qualquer resquício de esperança de que ela não estivesse falando sobre o que eu pensava desvanecia ao passo que eu me dava conta de não haver qualquer outro motivo para essa conversa além do que eu pensava. Além do que eu sabia. — Do que você...
— É verdade, Will? — interrompeu-me, a voz mais alta que antes.
Senti meu peito subir e descer furiosamente, tamanho o desespero que tomava conta de meu corpo. Meu coração disparava, ameaçando quebrar-se com o tom aborrecido em sua voz. Tom que eu nunca houvera escutado antes, com exceção das vezes em que eu fazia asneiras quando criança.
Mordi o lábio inferior, incapaz de falar nada.
O ar estava tão denso que parecia pesar, como se fechasse à minha volta. Cercando-me, prendendo-me, sufocando-me. Minha garganta parecia haver se fechado, não permitindo que eu sequer engolisse em seco. Fechei a boca com maior brusquidão ao ver que meu lábio inferior teimava em tremer.
— Você está... — começou, a voz ligeiramente amenizada antes de levantar-se, sem desviar os olhos de mim. — Você está saindo com um homem? Com um... — Franziu os lábios, desgostosa. — Com um professor, Will?
Encarou-me como se não me conhecesse, fazendo com que meu coração, enfim, cumprisse a ameaça de despedaçar-se.
— Mãe...
— É para a casa desse homem que você está indo todo dia? — perguntou-me quase em um sussurro, levando a mão ao peito como se isso a magoasse profundamente. — É isso que têm feito? É por isso que você quase reprovou o semestre passado, porque estava envolvido com um professor, Will? — perguntou, a voz elevando-se a cada palavra.
Sacudi a cabeça rapidamente, sentindo as lágrimas acumularem em meus olhos.
— Não, mamãe, eu não havia...
— Will! — exclamou ela, fazendo um gesto brusco com a mão. — Will! Como você pode fazer algo assim? Como você... — Suspirou, encarando-me com incredulidade. — Will, eu trabalho todo dia para dar uma vida melhor para você e seu irmão. Eu trabalho durante horas, Will, horas! Eu dedico minha vida à isso! Eu fico horas em pé, horas lidando com pessoas ignorantes, horas com dor nas costas!
— Eu sei, mãe, mas eu...
— Tudo que eu faço na vida é por vocês. Tudo que espero em troca é que estudem, que se tornem homens competentes, homens de respeito! — continuou ela, atingindo-me onde doía com o tom de voz alto, ignorando minhas tentativas frustradas de falar. — É assim que você retribui? É esse o exemplo que você está dando para seu irmão enquanto eu estou fora? — gritou, apontando freneticamente em direção à sala. — Meu deus! Eu não consigo nem... Dormindo com um professor... Eu nem sei o quê...
Balançou a cabeça, os olhos desfocados ao tentar entender. Em seguida, ergueu-os à mim novamente, furiosos.
— Você já trouxe esse homem aqui para casa? — perguntou, as mãos trêmulas, ignorando o fato de eu balançar a cabeça negativamente. — Você já trouxe ele aqui, com seu irmão em casa? — falou mais alto, meu coração apertando cada vez mais.
— Não, mãe! Nunca — neguei, a visão ficando embaçada. — E não teria problemas, ele... — Suspirei ao vê-la cerrar os punhos. — Nunca — finalizei, deixando meus ombros caírem.
Seu rosto amenizou, os olhos disparavam para todos os lados como se seguisse o exemplo dos pensamentos que deviam passar por sua mente. Seu lábio inferior vacilou ao passo que levava as mãos ao rosto.
— Eu não entendo. Logo você, Will, tão... tão... — murmurou com a voz abafada atrás das mãos, balançando a cabeça negativamente.
À esta altura, eu já podia ouvir os soluços escaparem de meu peito e as lágrimas molharem meu rosto de forma uniforme. Balancei a cabeça, dando um passo em sua direção, mas desistindo ao perceber que talvez isto a exaltasse ainda mais. Agoniado com a sensação de impotência, sem saber o que fazer ou o que falar, mantive-me quieto, sem reação.
Pude vê-la retirar as mãos do rosto, revelando lágrimas nos olhos lindamente esverdeados. Tanta mágoa e desolação os envolvia que pensei estar apenas enxergando o reflexo dos meus. As poucas rugas estavam mais acentuadas devido ao rosto que começava a inchar pelo choro, pelo pesar, pelo estresse.
— Por quê? — murmurou subitamente, aproximando um pouco de mim. — Eu não entendo o que houve... Eu fiz alguma coisa de errado? — Balancei a cabeça negativamente, forçando-me a abrir a boca. — Eu falhei com vocês?
— Não, mãe... — falei baixinho, deixando outro soluço escapar de mim. — Não. — Balancei a cabeça negativamente, pegando suas mãos nas minhas, encarando a profundidade castanha de seu olhar aflito. — Não, você é a melhor mãe do mundo. — murmurei, deixando as lágrimas escorrerem infinitamente por meu rosto.
Meu peito apertou e minha voz falhou, assim como todo o meu sistema nervoso. Minha mãe era minha rocha, minha armadura. Minha mãe era um dos seres de maior importância em minha vida, senão o de maior. Era uma criatura maravilhosa que, embora já estivesse alcançando a casa dos cinquenta, ainda exalava beleza. Era um ser tão cheio de amor, carisma e dedicação. A pessoa que eu menos gostaria de magoar no mundo.
Ao vê-la esforçar-se para entender o que em sua mente não parecia fazer sentido algum, culpando-se por o que quer que houvesse dado errado em sua cabeça, quebrava-me ao meio.
— Por quê? — Pude sentir suas mãos apertarem as minhas ao passo que sussurrava, o rosto cansado.
— Eu o amo, mãe — falei, sentindo o gosto das lágrimas.
Minha resposta pareceu confundi-la ainda mais, visto que a incredulidade parecia inundar seus traços e seu cenho franzir violentamente.
— Então é isto? — perguntou, afastando-se de mim ao franzir os lábios. — Você é... Você... Meu deus! — Afundou o rosto nas mãos novamente, enquanto eu tentava inutilmente limpar o rio de lágrimas que insistia em cair de meus olhos. — Como? — Descobriu o rosto novamente. — Você tinha uma namorada... Will, como é que agora você... O que aconteceu? — sussurrou, decepcionada, ao soluçar também.
"O que aconteceu com você, Will?". Sabia que era isso que ela quis perguntar, na verdade. A decepção era demais para mim, engolindo-me vivo.
— Eu não sabia — murmurei. — Eu não sabia, mãe. Eu descobri agora... — Solucei, baixando a cabeça. — Eu sou assim e não tem nada de errado. Mãe — falei mais alto ao levantar a cabeça e vê-la negar —, não tem nada de errado.
— Mas por que um professor? — perguntou ao apoiar as mãos na mesa, os olhos nos meus. — Que idade esse homem tem? Ele está abusando de você? Will... Ele está...? — perguntou, a mão erguendo-se até a boca de forma aterrorizada, as lágrimas caindo de seu rosto.
Neguei rapidamente, aproximando-me novamente.
— Não, não, ele nunca faria isso! — expliquei, tentando inutilmente fazer o olhar profundamente magoado sumir de seu rosto. — Eu não sei por que é ele, mãe. Simplesmente aconteceu, não foi do jeito que você pensa...
Funguei rapidamente, limpando o rosto com o dorso da mão.
— Então não tem nada que possa fazer...? — perguntou em um murmúrio, desolada.
Neguei com a cabeça, sendo interrompido ao abrir a boca.
— Não tem como reverter...? — perguntou novamente, o rosto contorcendo-se em uma cara de dor antes de soluçar. — Oh, deus! Deus! Meu filho...
Desatou-se a chorar novamente e tão logo começou, uni-me à ela em completo desalento.
Em um impulso, aproximei-me o suficiente para tomá-la em meus braços, enterrando o rosto em seu pescoço. Não abraçou-me de volta, fazendo o gosto amargo em minha boca acentuar-se, mas não afastou-me tampouco. Limitamo-nos a chorar parcialmente abraçados.
Depois de poucos segundos, afastou-me de si com pouca força, os olhos abaixados.
— Não posso fazer isso agora, Will — falou, balançando a cabeça. — Não quero fazer isso agora... — Soluçou mais uma vez, virando o rosto para a janela com tristeza.
Assenti, sentindo o medo apoderar-se de todo meu corpo, envolvendo-me de forma uniforme como uma fumaça. O pior medo do mundo: o medo de perder minha mãe.
Dei-lhe as costas antes que falasse mais alguma coisa e dirigi-me à sala, com o intuito de chegar ao meu quarto. No entanto, ao entrar no segundo cômodo da casa, encontrei meu irmão ao lado do sofá. Estava parado em pé, virado em direção à porta que separava a cozinha da sala, de onde eu vinha. Estanquei no lugar ao ver os olhos verdes esbugalhados em mim. Mordia o lábio inferior e estava pálido, o rosto completa e inteiramente indecifrável.
Senti meu lábio inferior tremer ao observá-lo. Senti minha respiração falhar ao me deparar com os olhos em alerta dele. Fechei os olhos, sabendo que estaria correndo o risco de perdê-lo também. Mas não podia negar quem eu sou e quem sou capaz de amar para sempre.
Abri-os novamente, percorrendo o resto do caminho até chegar em meu quarto. Peguei as primeiras peças de roupa que vi no caminho e minha escova de dentes no banheiro antes de dirigir-me de volta à cozinha, passando pela sala novamente. Percebi, pela visão periférica, que Caleb permanecia no mesmo local, embora não me atrevesse a olhar em seus olhos novamente.
Passei boa parte de minha vida, talvez mais do que minha mãe, com Caleb. Passei a maior parte de minha vida ensinando-lhe o alfabeto, ajudando em seus deveres, cuidando de seu joelho esfolado. Gastei horas tentando fazê-lo entender que a vida é bela, sim. Coloquei muito esforço, esforço que valeu a pena, para mostrar-lhe que a vida é cheia de coisas boas, de aventuras e coisas a se conquistar.
Meu irmão é a pessoa que mais amo no mundo inteiro.
"É esse o exemplo que está dando para seu irmão?", a voz de minha mãe ecoava em minha mente, estremecendo-me.
Talvez o que mais doesse, no final das contas, o que mais me matasse, fosse encontrar a mesma mágoa e decepção que vi nos olhos de minha mãe, nos de meu irmão. Talvez o que mais me doesse fosse descobrir, depois de anos, que tudo que fiz por Caleb foi em vão. Descobrir que, depois de tanto tempo tentando fazer com que toda a parte sonhadora de meu irmão nunca se apagasse, eu causasse exatamente o que temi.
Talvez o que mais doesse fosse, um dia, não encontrar mais a ternura que abraça Caleb por inteiro. E descobrir que a culpa é minha, por haver nascido como nasci. Por haver me apaixonado por quem me apaixonei.
Entendendo um pouco como minha mãe devia sentir-se, ao imaginar que devia ser mais ou menos como eu me sentia em relação à Caleb, terminei o caminho até a cozinha com meus pertences em mãos. Sem olhar para os lados, peguei minha mochila, que nem havia percebido ter largado no chão, tamanho o desespero, e enfiei o que trazia nas mãos dentro dela de forma rápida.
Saí de casa sem olhar uma única vez para trás, aumentando a velocidade de meus passos gradualmente. Senti meu rosto gelar, devido às lágrimas, estúpidas lágrimas que não haviam dado trégua alguma, recordando-me da época em que fazia o mesmo quando criança. Corria porta afora, chorando ao escutar os gritos e o choro de minha mãe. Choro de minha mãe que havia se repetido hoje, depois de muito tempo.
Naquela época, eu não ia muito longe, não gostava de deixar Caleb sozinho, mesmo que dormisse. Agora, no entanto, isso não me preocupava. Corri o mais rápido que pude, o quanto podia com a mochila nas costas. Corri o mais rápido que pude, visto que não possuía nem um centímetro atlético em meu corpo. Queria encontrar Turner. Iria encontrar Turner. Sentiria seus braços envolverem-me, assim como o calor que emanava de si. Encontraria meu professor e ele me acolheria com amor.
Queria afastar-me de minha família o máximo possível, podendo enfim chorar o mais alto que pudesse, deixando minhas frustrações e meu coração partido à amostra. Permitindo enfim, colocar meus sentimentos acima dos dele.
Podendo, enfim, afundar-me em desolação.
Flashback off
Deixei as lágrimas traiçoeiras derramarem-se sobre meu rosto antes de finalmente levantar-me. Joguei a mochila e a maçã em cima da cama, antes de despir-me de minha roupa. Abri a porta novamente, olhando para os lados antes de, a passos largos, entrar no banheiro.
Deixei a água escorrer por meu corpo, esperando que meus ombros tensos relaxassem. Tentativa falha. Fiquei um bom tempo parado embaixo da água, com a cabeça escorada no azulejo. Lembrei-me, então, de que estava gastando água. Não podia voltar para casa justo para gastar água. Para causar mais problemas.
Droga, Will!, repreendi-me silenciosamente.
Eu não podia simplesmente monopolizar o apartamento de Turner, então voltei, contrariando seus pedidos e o pedido atencioso de Jay, no dia anterior, de que eu ficasse alguns dias em seu apartamento. Sem falar que era época de provas finais e tudo que eu precisava para estudar estava em casa. Essa semana seria cheia.
Maldito o momento que isso veio acontecer!
Decidi voltar para casa, não tendo escolha, já que não havia sido propriamente expulso, embora não tivesse recebido mensagem ou ligação alguma de minha mãe. Ou de Caleb. Suspirei.
Saí do chuveiro e voltei para o quarto, vestindo uma roupa qualquer e deixando que meus cabelos pingassem por sobre meu pescoço. Comi a maçã e fiquei ali dentro por um tempo, mas fui incapaz de permanecer até o anoitecer. Andava de um lado ao outro, nervoso com todas as possibilidades do que Caleb estaria pensando.
O sol ainda erguia-se no céu quando saí de meu cômodo, caminhando a passos lentos até a sala.
— ... tudo que eu sei. — Pude reconhecer a voz estridente, devido à puberdade, de Mason. — Ah, não! Tem mais uma coisa: ele é rico. Os pais são donos de uma imobiliária famosa. Turner Imóveis, sabe? — perguntou antes de continuar. — Pois então, é da família dele. Também lembro de ter ouvido falar sobre apostas ou algo assim.
— Apostas? — Caleb murmurou, curioso.
— Sim — confirmou Mason. — Ouvi dizer que ele meteu-se em vários problemas quando era mais novo. Apostas do tipo pôquer ou corridas ilegais de carros, coisas que definitivamente não pareceriam bem no seu currículo de professor. — Arregalei os olhos, chocado. — Também teve a morte de um... De uma... Will? — disse, fazendo com que eu desse um pulo. — Não vi que estava aí.
Encontrei ambos os olhos azuis e verdes em mim ao passo que abria a boca no intuito de gaguejar alguma coisa convincente além de: Sim, estava ouvindo a conversa alheia como um delinquente!
— Will! — exclamou Caleb, surpreso. Piscou algumas vezes, com os olhos esbugalhados, disparando-os entre eu e Mason. — Nós só estávamos... Nós estávamos... — gaguejou, engolindo em seco.
— Falando sobre meu professor? — tentei, sabendo que não podia culpá-lo por isso, ainda mais tendo Mason de seu lado. Além do garoto ser uma máquina de informações, também era bastante tagarela. — Tudo bem — murmurei, sabendo que estava em terreno desconhecido com Caleb.
Ele piscou algumas vezes, sério, antes de assentir positivamente.
— Queria descobrir se era uma boa pessoa — murmurou, deixando os ombros caírem.
Inspirei fundo, tentando matar a maldita esperança que brilhava em mim. Tentando extorqui-la, mas não foi possível. Deixei com que um sorriso se abrisse em meu rosto antes de falhar novamente, sumindo.
— Podia ter perguntado a mim — murmurei também, aproximando-me mais deles.
Caleb ergueu os ombros, desviando o olhar.
— Não sabia como — respondeu, olhando para Mason.
Fechei os olhos, tamanho o alívio de não encontrar nenhum ódio à vista vindo de meu irmão. Senti um pouco do peso em meus ombros aliviar com simples palavras, fazendo muito mais efeito do que longos minutos de banho. Abri-os novamente, acercando-me o suficiente para sentar na ponta do sofá, um pouco afastado dos dois.
O garoto magricela desviou os olhos para mim, parecendo desconfortável por estar ali, provavelmente percebendo o clima estranho pairar entre nós. Com certeza sabia do que havia ocorrido, já que sabia de tudo, sem falar que é o melhor amigo de Caleb.
— Caleb — murmurei, extremamente receoso —, você sabe como a mamãe descobriu? — perguntei o que havia me perturbado durante horas.
Esta havia sido a primeira pergunta que Turner me fizera assim que contei o que aconteceu. Ainda tinha o rosto enfiado em seu peito, no sofá, quando me dei conta que não fazia ideia de como responder-lhe. Lembrei, pasmo, que a conversa havia tomado outro rumo e que olhos pesarosos de minha mãe haviam feito de meu raciocínio, fumaça. Então desatei-me a chorar novamente, fazendo com que um Turner preocupado pedisse desculpas por sequer perguntar.
Caleb suspirou.
— Eu a ouvi conversando mais cedo no telefone — disse ele, pensativo. — Ela estava surpresa ao receber a ligação, suponho que de alguma amiga antiga, mas então ficou nervosa e agitada. Desligou o telefone depois de xingar a pessoa e ligou para o Smith, pedindo o dia de folga — completou, erguendo os ombros.
Franzi o cenho, pensando à respeito. Certamente alguém nos viu abraçados na universidade e contou para alguém que contou para alguém, só para no fim, foder com minha vida. Que ótimo.
Merda de mundo pequeno! Merda de pessoas inúteis, sem mais nada o que fazer!
Inspirei fundo, pensando se ficava realmente bravo ou se agradecia ao ser em questão. Se não fosse pela desventura, eu provavelmente demoraria muito mais tempo para largar a bomba em casa. Possivelmente, nunca tivesse coragem de me abrir e contar a verdade.
Fui desviado de meus pensamentos pela voz de Caleb, quebrando o silêncio que instalou-se sobre a sala.
— Você sabia que ele havia participado de coisas ilegais?
Senti-me retesar, pensando no que responder. Pensando também no porquê diabos eu não havia insistido em saber mais sobre seu passado. Forcei minha mente a afastar a questão de Turner e focar em Caleb e no que diabos lhe responder. Não conseguia, no entanto, deixar de imaginar – ou tentar imaginar – Turner em corridas ilegais e jogos de pôquer, rindo e bebendo no meio de pessoas delinquentes.
Consegui evitar balançar a cabeça, engolindo em seco.
— Sim — menti, tentando passar convicção —, mas ele não é assim agora — afirmei, sabendo ser verdade.
Caleb, ainda sério, assentiu devagar.
— Está bem — disse simplesmente, ficando em silêncio mais uma vez. Logo, voltou a falar: — Você não vai ir embora de novo, não é?
Lutei contra as lágrimas e o entalo em minha garganta antes de pigarrear.
— Não, não vou — falei, olhando-o nos olhos. — Só saio daqui se vocês quiserem.
Ao ver que ele havia entendido, devido ao silêncio – muitas vezes, Caleb se comunicava de forma silenciosa –, levantei-me antes de sorrir para Mason, que nos encarava de forma deslocada. Segui para meu quarto, sentindo-me um pouco mais leve e amortecido. Ao chegar, vi que a tela de meu celular estava acesa. Peguei-o nas mãos para ver mensagens de Laurel e Cenoura.
"Onde caralhos você tá?", dizia a mensagem de ruiva postiça. Seguida de uma segunda, mais calma: "Tamos preocupados contigo".
"Will, cara, a gente tá aqui pra você, parceiro. Você sabe", dizia a mensagem de Cenoura.
Suspirei ao balançar a cabeça. Sentei em minha cama, atirado.
Se o rumor havia se espalhado pela universidade, despertando meus amigos de forma com que enchessem meu celular de mensagens, certamente o rumor chegaria aos ouvidos de minha mãe e de meu irmão. Provavelmente teria chegado aos ouvidos de Caleb primeiro, porque Mason descobriria antes que qualquer um.
Coloquei uma das mãos no pescoço, incrédulo comigo mesmo.
Não sei como eu não pensei nisso antes. Devia estar muito ocupado, sendo magicamente hipnotizado pelos olhos cinzas calorosos de meu professor. Olhos lindos. Olhos absurdamente incomuns e lindos. Como o resto dele. Como todo o resto dele.
Fechei os olhos, lembrando da forma como cuidou de mim, os olhos preocupados percorrendo todo meu corpo à procura de que parte doía e por que meus olhos expeliam lágrimas suficientes para encher um rio. Sorri, lembrando dos lábios macios no topo de minha cabeça, em meu rosto, em minhas bochechas, em meus lábios. Suspirei ao recordar dos braços que me envolveram, fazendo-me perceber que eu tenho mais do que apenas um lar agora. Eu tenho Turner e todo o calor que o envolve. O calor que acaba por me envolver também.
O leve soar de dedos na porta chamou-me a atenção. Não demorou para que eu visse o rosto de Caleb aparecer por entre o vão da porta ao abri-la. Deu um sorriso nervoso antes de entrar parcialmente.
Ficou um tempo em silêncio antes de se pronunciar.
— Will — disse ele —, eu queria que você soubesse que eu não me importo. — Sua voz falhou levemente. — Não me importo com quem você namore ou saia ou sei lá. Não vai deixar de ser meu irmão por isso — completou, falhando ao sorrir.
Senti meus olhos encherem de lágrimas novamente, agora não me importando com elas. Quis levantar e tomar o garoto de cabelos escuros nos braços para mostrar o quanto ele é e sempre será importante para mim.
— Mason disse que seria bom se você ouvisse isso — explicou ao passo que eu me levantava da cama, limpando o rosto com o dorso da mão novamente. — Como ele é observador, ele também entende melhor as pessoas do que eu e... — murmurava quando o interrompi ao envolvê-lo em um abraço.
Às vezes, eu esquecia que sua cabecinha de doze anos era muito mais avançada do que a de muita gente mais velha por aí. Esquecia que ele teve de amadurecer mais rápido, devido à infância que eu teimava em tornar melhor. Não pude protegê-lo de tudo, no entanto, e embora me sentisse mal por isso, não podia deixar de pensar que era isso o que o tornava tão especial. Ele não seria tão inteligente e auto suficiente se as coisas não houvessem ocorrido da forma como ocorreram.
Abracei-o com força, percebendo que faltava poucos anos antes que ele alcançasse minha altura. Senti seus braços envolverem-me também, embora não tão forte quanto eu.
E então, o alívio.
O alívio ao perceber que ele apenas fazia o mesmo que fiz por ele a vida inteira. Me protegia, me acolhia. Tentava fazer de meu mundo um lugar mais bonito, como se pintasse minhas paredes com planetas e estrelas. Como se me entregasse a estrela de presente à qual me prometera tantos anos antes.
— Obrigado, Caleb — sussurrei, sentindo um soluço vir à tona novamente. — Obrigado.
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