Made of Fire
25 XXII - Descobri o céu e ele não tem olhos azuis
Notas iniciais
"Estar apaixonado é estar mais próximo da insanidade do que da razão", disse Sigmund Freud.
Estar apaixonado não é nem um pouco assustador, mas a lógica por trás disso – ou a falta dela – faz-me ficar a noite acordado inundado por temor. Sendo um homem que gosta de fatos, números e certezas, é de se esperar que estar apaixonado seja fruto de apreensão de minha parte.
Desliguei o carro, enfim estacionado no lugar certo, e sorri.
Tal acontecimento pode banhar-me de receios e desconfianças, porém, o fato de estar apaixonado em si impede-me de levar qualquer um desses sentimentos mais longe do que os olhos verdes estão de mim. E, principalmente, faz com que a sensação de paz me envolva de tal maneira que eu já nem me importe com a razão. Ou talvez sejam os olhos verdes que me causam isso. Não importa.
Desci e tranquei as portas do carro, seguindo o meu rotineiro caminho em direção ao prédio já desgastado pelo tempo. Assim que cheguei no andar correto, encontrei diversos pares de olhos em mim. Ansiedade, temor e nervosismo estampados em tantas cores de íris diferentes que quase espantou-me, não fosse a ciência que eu tinha do motivo.
Sorri novamente.
— Bom dia para vocês também — falei com ironia antes de virar-me para destrancar a porta. — Não está difícil. Não vou pedir nada que não dei em aula — disse com o objetivo de tranquilizá-los antes de abrir a porta e virar para eles novamente. — Por via das dúvidas, ainda há o exame — falei, obtendo algumas caretas. — Podem entrar. — Indiquei a porta aberta para os rostos assustados.
Alguns pareceram levemente amortecidos ao lembrar-se do exame, enquanto que para outros, nada do que falei teve efeito algum. Fiquei ao menos um pouco aliviado ao perceber que haviam sim, rostos tranquilos.
— Bom dia, Sr. Turner! — ouvi-os cumprimentarem ao entrar na sala.
— Como se o exame fosse ajudar... — resmungou Jason, aluno repetente, antes de passar por mim.
— Já disse que você está muito apresentável hoje, professor? — Hollis disse com um sorriso falho e pude perceber que outros alunos também disseram coisas parecidas.
Evitei ao máximo revirar os olhos por suas tentativas frustradas de ganhar boas notas a partir de sua gentileza.
— Sr. Turner, não esqueça que eu lhe trouxe café na semana passada. — Diego, o garoto mexicano, falou com um sorriso de orelha a orelha antes de entrar. Assenti ao reprimir o riso.
— Bolacha? — perguntou o garoto ruivo ao estender o pacote em minha direção, com um sorriso torto também.
— Não, obrigado, Louis — falei com um sorriso ao perceber ser o amigo de Will.
Atrás dele, entrou o resto do pessoal, deixando um último aluno que mantinha-se apoiado na parede com uma careta. Sorri ao lembrar das milhares de expressões que passaram por seu rosto no fim de semana. Expressões sensuais.
— Will, não pode fazer a prova se ficar parado aqui fora... — comecei, observando o adorável rosto esboçar um meio sorriso. — E eu não posso lhe passar de semestre se você não fizer a prova.
Will inspirou fundo antes de caminhar devagar em minha direção. Mordi os lábios com o intuito de não sorrir quando percebi que ele caminhava devagar demais.
— Turner, se minha nota não for boa — disse ele ao chegar perto o suficiente —, a culpa vai ser inteiramente sua. — Fez um beiço que chamava-me para envolvê-lo com minha boca.
Cruzei os braços, inclinando levemente a cabeça antes de perguntar o que já sabia a resposta.
— Ah, é? — perguntei, tentando ficar sério. — Por quê?
Will meio suspirou meio bufou ao passo que a careta tomava conta de seu rosto novamente. A vermelhidão adorável espalhou por seus traços de forma contínua, acentuando os cabelos claros. Inclinou-se em minha direção para praticamente sussurrar em meu ouvido:
— Nós nunca faremos isso de novo — sussurrou ele, não com tanta convicção quanto esperava que fosse. — Minha bunda dói pra caralho! — resmungou baixinho antes de virar as costas emburrado e entrar na sala.
Devagar.
Não consegui impedir o riso de sair por minha boca, só então podendo entrar também na sala e fechar a porta atrás de mim com o rosto impassível. Dirigi-me à minha mesa, juntando as provas ao ver Will sentar na cadeira com cuidado. Desviei o olhar rapidamente para não sorrir de novo.
Entreguei todas as provas, desejei-lhes sorte e sentei em minha mesa para esperar. Ou melhor, para observar Will.
Ele ainda manteve-se com o olhar fixo em mim durante um tempo antes de finalmente concentrar-se na folha em sua mesa. Percebi rapidamente que usava uma camiseta diferente das usuais. Esta não era nem um pouco larga ou solta em volta do pescoço, pelo contrário. Levei a mão à boca para esconder o riso ao entender. Porém, nem a camiseta distinta pôde esconder os traços de meus feitios em sua pele.
A evidência do ato de amor.
Flashback on
O rosto cativante estava tomado de suor, o que fazia os fios claros grudarem em sua testa de forma sensual. Os olhos verdes mal faziam-se visíveis, devido às pálpebras entreabertas. A boca, mais avermelhada do que meu autocontrole permitia, estava adoravelmente aberta. Passei a língua por ela novamente, observando-o abrir mais os olhos.
Incapaz de conter-me, retirei os dedos de Will, posicionando melhor meu corpo acima do seu. Fechei os olhos com vontade ao sentir meu corpo tremer com a antecipação. Apertei o travesseiro com força antes de forçar-me para dentro de Will. Abri os olhos apenas quando senti suas pequenas unhas apertarem-se contra a pele de minhas costas.
Se eu tivesse alguma dúvida de que Will era virgem, agora eu já não teria nenhuma.
Will tinha os olhos verdes bem abertos, diferentemente do momento anterior, e esboçava uma careta de dor ao morder o lábio inferior com força. Trinquei os dentes com o intuito de não possuir seu corpo tão rápido quanto gostaria ao senti-lo apertar-se em volta de mim.
Tentador demais.
— Nós ainda podemos parar, você sabe — falei com a voz rouca, esperando que ela passasse ao menos um pouco de convicção.
Will pareceu cogitar a ideia por alguns segundos – que pareceram uma eternidade – antes de balançar a cabeça negativamente.
— Não — disse ele em um murmúrio. — Continua.
Deslizei meu braço esquerdo abaixo do braço direito de Will, envolvendo seu ombro com a mão e encostando meu peito no seu. Praticamente grudei nossos corpos de forma completa antes de deixar um beijo em seus lábios. Só quando pude enxergar as sardas de perto é que forcei-me a entrar um pouco mais, com um pouco mais de determinação.
Will soltou um gemido agoniado – longe de ser um gemido de prazer – e cravou as unhas em meus ombros como se quisesse arrancar minha pele fora.
— Will — falei, sem fôlego —, vamos parar agora — disse com determinação, chateado por tê-lo machucado.
— Nem pense nisso! — resmungou ele, segurando meu corpo com uma força que eu não sabia que tinha quando tentei afastar-me. Estreitou os olhos para mim. — Vamos até o fim — afirmou, a fumacinha de teimosia pairando por ele.
— Estou te machucando — resmunguei, tentando afastar-me novamente sem sucesso.
Will envolveu minha cintura com as pernas rapidamente, fazendo uma careta ao provavelmente perceber que isso fizera com que eu me mexesse um pouco dentro de si, deslizando para dentro um tanto mais.
— E eu estou machucando você, Turner — disse ele, os olhos fixos em meus ombros. Desviei o olhar para o mesmo local, vendo que seus arranhões haviam alcançado o nível de sangue. Estreitei os olhos para ele, falsamente zangado ao perceber que ele devia realmente estar tentando tirar um pedaço de mim. Estava fazendo de propósito. — Vamos sofrer juntos — falou, com um meio sorriso sedutor.
Incapaz de segurar-me, soltei um riso pelo nariz, incrédulo. Encarei-o com compaixão por um instante ao decidir-me.
— Você que pediu — falei antes de tirar o band-aid com rapidez. Ou melhor, antes de entrar mais para dentro de si com força, obtendo um resmungo reprovador. — Dói menos quando você não vê chegando — expliquei, deixando um beijo em sua pálpebra fechada.
— Eu te odeio — resmungou ele e percebi que uma lágrima saía de seu rosto. Limpei-a com a língua.
— Não odeia, não — afirmei, deslizando a mão direita em direção ao seu membro para estimulá-lo. Sua careta suavizou levemente, mas ainda havia um beiço teimoso em seu rosto.
— Isso devia ser bom. Devia... — reclamou ele, olhando para nossos corpos antes de arregalar os olhos. — Eu não acredito que ainda não foi tudo! — choramingou. — Eu não acredito que você é grande assim! Puta que pariu!
Comecei a rir, o que era o menos esperado para a situação na qual nos encontrávamos, obtendo uma cara zangada de sua parte. Eu não era tão bem dotado assim, então pensei que talvez fosse a dor falando.
— Já disse que você é que é pequeno — falei com carinho, sabendo que em termos sexuais isso seria mentira. Mesmo assim, observei o rosto zangado se transformar em incrédulo.
— Não. — disse ele, incrédulo. Então, franziu o cenho, confuso. — E isso nem faz sentido na nossa situação!
Inspirei fundo para estancar o riso. Beijei-lhe os lábios novamente. E então, ao observar minha mão deslizando por seu membro de forma contínua, com a outra segurei sua cintura e empurrei-o em minha direção com força. Will fez o intuito de proclamar palavrões novamente, mas seu rosto franziu e ele olhou para baixo, fazendo um perfeito "o" com a boca. Ergui as sobrancelhas.
— Isso realmente pode ficar bom, eu acho — disse ele, como se não pudesse acreditar.
Relaxou os ombros levemente. Saí de seu corpo, observando sua expressão mudar e entrei novamente, segurando-me a todo o autocontrole que devia ter na vida. Ficamos fazendo isso por um tempo, mas a careta de dor no rosto de Will voltava toda vez.
— Will, relaxa — falei, passando uma das mãos por seus cabelos úmidos.
— Não tem como relaxar, tá doendo! — reclamou.
— Mas não pode ficar bom também?
— Sim — falou contrariado em um murmúrio. Achei que havia se aquietado quando passou a gemer com mais gana e apertar-me o corpo com mais força, mas então abriu a boca novamente: — Mas ainda dói! — reclamou.
Revirei os olhos, feliz por vê-lo manter o humor até mesmo quando estava sensualmente nu embaixo de mim. O rosto corado em junção com a boca avermelhada ao passo que eu mexia-me em cima dele era como o céu. Will gemendo e proclamando palavrões embaixo de mim era o mais próximo que havia chegado de um paraíso.
Sorri ao ver que ele já não podia formar mais palavras, com os olhos fechados. Já havia cansado de tentar arrancar minha pele, embora ainda apertasse meu corpo junto ao seu. Abriu os olhos levemente e, depois de passar uma das mãos por meu rosto com carinho, sorriu abertamente, deixando-me hipnotizado.
E a sensação de paz volta.
Estimulando seu membro já umedecido e beijando-lhe a boca com paixão, não demorou muito para que o sentisse retesar abaixo de mim e gemer com ardor. Senti tanto minha mão quanto sua barriga serem melecadas em questão de segundos. Sorri, lambendo-lhe a boca e continuando a mover-me em cima de si. Observei sua expressão tranquila e os traços perfeitos de seu rosto tomados de prazer. Seus olhos brilhavam.
Estava errado, pensei. Essa é que é a visão do paraíso!
Foi com esse pensamento que deixei o calor tomar conta de meu corpo, desde a ponta do pé até o último fio de cabelo. Foi com essa visão que, sentindo meu corpo queimar, desfiz-me dentro de si. Desfiz-me de corpo e alma pela primeira vez dentro de um homem. Dentro de Will.
E nada havia sido tão bom.
Embora eu tivesse que ouvi-lo reclamar o resto do dia que não conseguia andar direito, podia senti-lo passar os braços em volta de minha cintura e beijar-me o pescoço de forma sensual mais de uma vez durante as horas que se passaram. Pude vislumbrar o corpo esbelto tomado de marcas minhas com orgulho e satisfação. Meu.
Então, quando deixei-o em casa, rindo de suas reclamações, Will parou antes de abrir a porta. Virou-se para mim com hesitação e pude observar o rosto familiar corar antes de puxar-me para perto. Pensei que me beijaria, mas manteve-se apenas observando-me com os grandes olhos verdes atentos. Parecia assustado.
— Turner — disse ele, finalmente, em um murmúrio. Franzi o cenho ao observá-lo. — Eu queria que você soubesse... — sussurrou, como se alguém pudesse nos ouvir. — Eu não pensei que ficaríamos juntos, porque no início... — Inspirou uma, duas vezes antes de voltar os olhos aos meus. — Eu não estava pensando, eu só estava sentindo. Talvez por medo... Mas agora que eu posso pensar novamente, em tudo isso — disse, segurando minha camisa —, eu vejo que... — Pigarreou antes de continuar, ainda com a voz baixa. — Você é a melhor coisa que aconteceu comigo.
Enfiou o rosto em meu pescoço assim que a cor avermelhada passou a tomar conta deste.
— Eu amo cada pedacinho seu — murmurou, por fim.
Engoli em seco, apertando-o contra mim com força. Pensando que eu nunca saberia qual momento com o Will era mais digno de um paraíso, beijei-lhe os cabelos antes de erguer seu rosto para mim.
— Eu também amo cada pedacinho seu, Will — falei, sentindo meu coração bater mais forte. — Cada detalhe — falei, passando os dedos pelas sardas claras em seu rosto e vendo-o sorrir abertamente, expondo a covinha em sua bochecha.
Aproximou-se o suficiente para roçar os lábios nos meus, de forma calma. Alcancei sua mão e apertei de leve antes de entrelaçar meus dedos nos seus. Will deixou um beijo em meu rosto antes de observar nossas mãos unidas. Somente um pouco menor que a minha, a mão de Will era mais magra, com os dedos mais finos e de cor mais clara. Encaixava perfeitamente. Sorri.
— Feito sob encomenda — falei, roçando o nariz em seus cabelos. Ele riu suavemente.
No entanto, o barulho do portão chamou nossa atenção e prontamente ergui os olhos para duas figuras ali paradas. Reconheci a jovem japonesa e sabia que se chamava Kaori, já que Will havia me contado. Ela olhava com receio para o garoto de cabelos escuros ao seu lado. Não foi difícil identificá-lo como irmão de Will, tamanha a semelhança, embora eu já houvesse visto uma foto sua. Os olhos verdes do mais novo estavam estancados em mim com curiosidade.
Desviei os olhos para Will que, em um pulo, afastou-se de mim e abriu a porta do carro. Olhou-me com sorriso torto e eu soube que cada músculo em seu corpo estava retesado. Acenei com a cabeça assim que ele fechou a porta e lhe sorri. Observei os três pares de olhos curiosos em mim pelo retrovisor antes de vê-los sumir de vista.
Flashback off
Franzi o cenho ao observar Will fazer o mesmo, olhando para sua prova. Batia o lápis de forma irritante na classe, embora não balançasse a perna. Franziu os lábios, erguendo os olhos para mim. Balancei a cabeça negativamente em sua direção, reprovando as horas que havia deixado de estudar para a segunda prova.
Mostrou-me a língua antes de desviar os olhos para a folha novamente e assim ficou pela próxima hora, como os outros alunos. Esperei até a sala tornar-se escassa, franzindo o cenho para Will que, apesar de ter ficado por último, não parecia tê-lo feito de propósito desta vez.
— Will! — chamei e pude vê-lo olhar para as cadeiras vazias ao seu redor. — Você precisa entregar a prova. Acabou o tempo — expliquei, vendo-o rolar os olhos e suspirar.
— Como quiser, professor — disse ele com um sorriso arteiro antes de levantar-se.
Caminhou lentamente em minha direção enquanto a careta desgostosa voltava ao seu rosto. Entregou-me a prova, observando minha reação. Passei os olhos rapidamente pelas duas folhas, voltando-os para Will com uma sobrancelha arqueada.
— Por que tem uma questão em branco? — perguntei com os olhos estreitados.
Will deu de ombros com um sorriso.
— Você pede as cinco diretrizes nesta questão — disse ele, apontando com o dedo. — E eu não sabia uma sequer, o que me faz pensar que... — falou, inclinando a cabeça com o rosto teatralmente pensativo — eu devia estar ocupado nesta aula pensando em teus lábios — falou com um sorriso largo —, e eu não pude tirar as dúvidas após, porque estava ocupado beijando-os — completou a linha de pensamento com um simples erguer de ombros.
Fechei os olhos e baixei a cabeça até encostá-la em minha mesa com um suspiro. Era exatamente isso que me preocupava em nosso relacionamento. Me agonizava por dentro saber que podíamos distorcer nossas funções de aluno e de professor. Voltei a erguer o rosto para deparar-me com um sorriso de orelha a orelha de Will, enquanto esse arqueava uma das sobrancelhas em um perfeito arco.
— Você se preocupa demais — disse ele, como se lesse meus pensamentos. — Se eu estivesse apaixonado pelo Gabe, aconteceria o mesmo — completou simplesmente.
Estreitei os olhos.
— Por que você estaria apaixonado pelo Gabe? — repeti suas palavras, tentando ignorar a inquietação dentro de mim ao pensar em suas trocas de palavras e risos durante as aulas.
O sorriso de Will sumiu ao passo que ele me observava com atenção, antes de voltar em maior escala. Gargalhou ao ponto de levar a mão à barriga enquanto eu decidia se ficava frustrado, incrédulo ou encantado com seu jeito gracioso. Limitei-me a simplesmente observá-lo até que se recompusesse.
Inesperadamente, Will inclinou-se sobre minha mesa com um sorriso genuíno que chegava aos seus olhos antes de roubar-me um beijo com agilidade. Não tive tempo de afastar-me com surpresa antes que ele mesmo o fizesse. Percebi, deslumbrado, que Will não havia se preocupado em sequer checar a porta aberta ao seu lado direito antes de pronunciar-se.
Era como se beijar-me fosse a coisa mais normal do mundo.
— Não se preocupe, Conde — falou, erguendo uma das sobrancelhas ao usar a referência de Drácula novamente. — Sou só teu — disse de forma simples. — Além do mais, Gabe é apaixonado por Laurel.
Surpreso, resolvi não perguntar mais nada à respeito. Até porque, o "sou só teu" ainda ecoava de maneira uniforme em minha mente. Sorri antes de guardar minhas coisas e levantar-me, sentindo os olhos verdes em mim, atentos.
Observei a camiseta de cor azul moldar perfeitamente seu corpo, já que a maioria das outras que usava ficavam largas demais. A bermuda de cor bege chamou minha atenção para as pernas de cor clara coberta por pêlos finos e castanhos. Sorri ao observar os tênis surrados. Will podia ser a pessoa mais imprevisível do mundo, mas certas coisas eram um tanto quanto óbvias em sua personalidade.
Beijei-lhe a testa sem observar sua reação e passei a mão em torno de sua cintura ao caminhar em direção à porta, puxando um Will hesitante comigo. Olhou-me com os olhos esbugalhados e tentou desvencilhar-me de mim, mas o mantive preso em meu corpo ao sair da sala e passar a chave na porta.
— O que você está fazendo? — perguntou em um murmúrio ao disparar os olhos pelo corredor não tão vazio quanto ele provavelmente esperava que estivesse.
— O que eu quero — falei, com a sobrancelha arqueada. — Você é meu, certo? Posso fazer o que quiser, então — concluí, seguindo sua lógica.
Will continuou a olhar-me boquiaberto antes de relancear as poucas pessoas no corredor. Pessoas estas que passaram os olhos por nós e não prestaram atenção ou simplesmente não se importaram. Já ia usar este argumento, mas me contive ao perceber que nenhum deles era meu aluno.
Dei de ombros ao roçar o nariz em seus cabelos cheirosos.
— Vai almoçar comigo hoje? — perguntei, tentando desviar sua atenção de meu braço em seu contorno para aliviar a tensão em seus ombros magros. Não obtive sucesso, sentindo-o se afastar finalmente de mim, desconfortável. — Will, ninguém vai morrer se nos verem juntos. Nem eu nem você, ao menos. Talvez o Sr. Edwards tenha um ataque cardíaco, mas acho pouco provável — brinquei, com um sorriso.
Will abriu a boca antes de fechá-la novamente. Olhou mais um pouco ao redor enquanto eu colocava as mãos nos bolsos da calça, esperando pacientemente. O garoto de olhos verdes pareceu realmente indeciso ao morder os lábios com hesitação. Suspirei, balançando a cabeça com diversão antes de aproximar-me o suficiente para segurar seu rosto com as duas mãos.
— Você já ouviu falar nos vinte segundos de coragem? — perguntei, observando-o assentir silenciosamente. — Pois então. — Observei os olhos piscarem algumas vezes antes dele assentir novamente. Deixei minhas mãos caírem.
— Claro — falou, suspirando ao chamar minha atenção novamente. — Muito bem. Muito bem — repetiu, assentindo mecanicamente mais vezes do que devia. — Tudo bem — falou, desviando os olhos para mim.
Então, depois de um vigésimo suspiro, um sorriso preguiçoso abriu-se em seu adorável rosto. — Eu adoraria almoçar com você, Turner.
Aproximou-se o suficiente para passar o braço em torno de meus quadris, da forma como eu havia feito com ele. Deixou um beijo em meu pescoço antes de encaixar a cabeça ali, levando-me junto à si ao passo que começava a caminhar novamente em direção às escadas. Passei o braço em torno de seus ombros, sorrindo ao desviar o assunto para algo mais trivial.
No percurso em direção ao estacionamento, cruzamos com alguns dos meus alunos e, infelizmente, com um dos professores do curso. Ignorei-os prontamente, ciente de que era impossível sairmos abraçados sem sermos vistos por ninguém. Relanceei Will, que tinha as bochechas coradas de animação, surpreso ao ouvi-lo tagarelar sobre seus amigos e sua vida.
Aparentemente, a determinação havia tomado conta de seu corpo, visto que estava tendo sucesso ao ignorar os olhares curiosos junto de mim. Eu não conseguia prestar muita atenção em suas palavras, focado mais no rosto e na voz, e tive a impressão que ele tampouco mantinha concentração no que saía de sua boca.
Chegamos ao carro e levei-o à um restaurante não muito longe da universidade, para que pudéssemos voltar a tempo de ambas nossas obrigações. Assisti-o sorrir toda vez que o silêncio se abatera sobre nós. Observei as vagarosas sardas em seu rosto, fazendo uma combinação perfeita com os olhos verdes de detalhes amarelados. Percebi suas mãos fazerem gestos no momento em que tentava explicar alguma coisa, franzindo o cenho de forma cativante.
Cativante, pensei. Will é cativante.
Não desviei os olhos do meu garoto de olhos verdes até o momento em que tomamos rumos diferentes dentro da universidade, sendo um sorriso aberto a última coisa que vi antes dele sumir escadas acima.
*
— Por que seu apartamento está cheirando a sexo? — Ouvi a voz de Jay, enquanto ele mantinha-se com um sorriso matreiro antes de jogar-se contra meu sofá.
Rolei os olhos, voltando a atenção para as provas que corrigia. Apesar de Will haver deixado uma questão em branco e tirar meio certo em outra, todas as outras estavam impecavelmente dissertadas com sua caligrafia de letra cursiva.
Pelo menos isso dissipava um pouco o rumor de favoritismo, pensei.
— Não está cheirando a sexo — resmunguei, sem tirar os olhos das folhas.
— Não mais — retrucou ele, a voz tomada de malícia. — Mas eu sei que estava, já que está escrito em sua cara — confirmou antes de dar uma conferida desconfiada no sofá e se levantar com uma careta. — Espero mesmo que não tenha sido aqui.
— Jay, por favor — falei, revirando os olhos novamente. — Isso quer dizer que não posso encostar em nada do seu apartamento? — perguntei ao finalmente erguer os olhos para os seus castanhos com a sobrancelha erguida.
Mostrou-me a língua como uma criança teimosa e sentou-se em uma cadeira próxima. Logo a animação voltou ao seu corpo, para meu completo desespero, antes de ele continuar a falar.
— Minha dicas funcionaram? — perguntou, ainda insistindo no assunto. — Foi bom? Doeu muito? Você foi o ativo ou o passivo? — Fez uma cara pensativa, como se considerasse as opções. — Me diz que usou lubrificante, pelo amor de deus!
— Jay — chamei sua atenção, embora já a tivesse até demais —, eu não quero nem vou discutir minha vida sexual com você — falei, sério.
Pude vê-lo estreitar os olhos antes de cruzar os braços musculosos frente ao corpo. Arqueou uma das sobrancelhas e eu soube que havia sido rude demais.
— É assim que me agradece? — perguntou após estalar a língua.
Suspirei, desistindo finalmente de corrigir o resto das provas.
— Desculpa — resmunguei. — Sim, usei lubrificante. Sim, foi bom — falei, olhando para a janela de forma contrariada. — E sim — ergui as sobrancelhas ao olhar para seu sorriso satisfeito —, doeu. Will deixou bem claro isso ao dizer que nunca faremos nada do tipo novamente. — Ri, incapaz de fazer desvanecer de minha mente a careta emburrada no rosto jovem.
A gargalhada de Jay invadiu o apartamento, fazendo seus dreads balançarem.
— Tadinho — disse ele, balançando a cabeça como se entendesse perfeitamente. — Ei, depois me dê o número de Will — falou, assustando-me com a ideia. — O quê? Tenho várias dicas para ele também. Aprendi na prática — afirmou, com o rosto nostálgico.
Fiz uma careta, juntando as folhas novamente e pegando a caneta.
— Muita informação, Jay, muita informação — falei, tentando deixar de pensar em suas experiências sexuais.
Isso pareceu instigá-lo mais ainda, visto que um sorriso abria-se largamente, embelezando de forma mais acentuada o rosto bem estruturado.
— Sabe, tem umas camisinhas muito interessantes. Frias, quentes, de todo tipo... Também descobri na prática vários brinquedos intrigantes, daqueles que se introduz diretamente no...
A cada palavra uma careta se aprofundava em meu rosto e eu tinha certeza disso, a julgar pelos olhos risonhos de meu amigo.
— Jay! — interrompi-o de forma agoniada antes que terminasse. — Pelo amor de deus, Jay! — resmunguei, bufando.
— Você não sabe que eu sou um chato reservado, Jay? — disse ele, fazendo uma careta ao engrossar a voz, claramente tentando fazê-la parecer com a minha. — Não sabe que a carranca faz parte de mim, Jay? — continuou, tentando imitar-me com os movimentos corporais também. Revirei os olhos. — Eu sou o Rich, especialista em acabar com diversões alhe...
Interrompi sua atuação ridícula ao jogar uma almofada em sua cabeça, fazendo com que perdesse o equilíbrio e caísse sentado na cadeira ao passo que a gargalhada voltava a inundar o apartamento pequeno. Forcei-me a manter o rosto sério, lutando contra o sorriso.
— Também te amo — disse ele ao piscar um dos olhos castanhos.
Incapaz de conter-me, deixei um sorriso espalhar-se por meu rosto.
Ficamos a tarde inteira por casa, enquanto Jay mantinha seu sorriso travesso no rosto ao largar ainda sugestões sobre meu relacionamento com Will. Consegui ignorá-lo por tempo suficiente para que se distraísse com a Netflix e deixasse-me em paz. Terminei de corrigir as provas enquanto Jay fazia pipoca – seu lanche prático preferido, o que não era surpresa, visto que adorava cinema.
Já havia anoitecido quando o rosto sério de Jay chamou-me a atenção e cutuquei-o com a mão. Encarou-me pensativo, como se estivesse indeciso se abria a boca ou não. Por fim, deu de ombros antes de olhar a televisão de novo ao perguntar:
— E os seus pais?
Retesei conta o estofado do sofá, quieto antes de atrever-me a responder.
— O que tem eles? — perguntei, fingindo prestar atenção na televisão.
Podia sentir os olhos castanhos de Jay em mim, tamanha intensidade do artista, mas não movi um músculo até perceber que ele havia virado o rosto para a televisão também. Soltou um suspiro e virei para vê-lo erguer os ombros.
— Nada — disse simplesmente, embora eu soubesse onde exatamente ele queria chegar. E ele sabia que eu sabia, por isso não falou mais nada. Jay era muito previsível ou, talvez, eu o conhecesse demasiado bem.
O dia havia irradiado luz literal e metaforicamente. A noite fresca emanava uma serenidade que atingia cada centímetro de meu corpo. Corpo esse que já não me pertencia, não completamente, assim como minha alma e coração.
O ar estava tão leve e brando que tudo que pude fazer quando Jay trouxe os problemas à tona novamente foi limitar-me à ignorá-lo. Limitar-me a fingir que nada ouvi. Porém, o gosto amargo em minha boca me impedia de manter meus pensamentos em ordem. Logo, tudo havia virado um caos. Um caos tanto em mim quanto no ar à minha volta.
Mal sabia eu que Jay não era o causador do mau presságio e eu logo descobriria, assim que a campainha tocasse, inundando o apartamento silencioso à exceção das vozes da televisão.
Eu descobriria assim que me levantasse, sabendo que a pessoa por detrás da porta só podia ser Will, visto que dei permissão ao porteiro que ele entrasse no prédio quando quisesse. Descobriria no momento em que eliminasse a madeira entre nós e percebesse estar correto. Descobriria assim que constatasse que, pela primeira vez, eu gostaria de não possuir a razão.
Os olhos esverdeados do meu garoto não emanavam brilho, exceto talvez, o brilho das lágrimas. O rosto inchado estava tomado delas. A boca úmida não se curvava em seu famoso sorriso, exibindo a covinha ímpar em sua bochecha esquerda, não. Seus cabelos estavam levemente úmidos devido à garoa que eu não havia percebido cair lá fora.
Fungou uma, duas vezes antes de abrir a boca para fazer-se ouvir pela voz chorosa:
— Posso ficar aqui esta noite?
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