Made of Fire
49 XVII. O veredicto das almas solitárias
Notas iniciais
Era possível a união de duas almas de universos paralelos?
Eu não sabia o que pensar. Sinceramente.
Talvez George e Peter fossem amigos de infância ou algo assim, e permaneceram apesar da sexualidade de Peter. Fiz uma careta. Não. Talvez George não soubesse da sexualidade de Peter, por isto mantinha a amizade entre eles. Não tem como também. Talvez eles tivessem um envolvimento além da amizade.
Minha careta foi mais profunda desta vez. Não tinha como.
Como é que George poderia ter algo com Peter se ele era um homofóbico nato?
Mesmo como um gay novato no mundo exterior, eu já tinha uma ideia sobre a teoria de que toda pessoa homofóbica é, na verdade, homossexual. E também é claro que eu já ponderara a respeito, positivamente. Mas George? George?
Impossível.
Sem falar que, se ele fosse um enrustido e precisasse se aliviar — mais uma careta -, ele não buscaria alguém como Peter. Pete, além de ser um universitário e estar sempre por perto, também era o tipo de cara que não tem medo de se assumir e não morde a língua quando é ofendido, pelo contrário. Peter é abertamente gay e não tem medo de defender sua comunidade — caminho que ainda estava sendo percorrido por mim, mas eu ainda não tinha chegado neste ponto. Peter sim. Peter teve uma vida inteira para se adaptar, enquanto eu tive menos de um ano.
Peter, definitivamente, não era o tipo de pessoa com o qual George se envolveria se realmente fosse um enrustido.
George deveria procurar um garoto de programa, ou alguém de outra cidade, ou alguém também enrustido, como ele. Nunca alguém que poderia dar com a língua nos dentes e espalhar por aí que ele é gay. Nunca alguém destemido, sem nada a perder.
E o que diabos Peter iria querer com George, aquele garoto babaca e homofóbico?
Não fazia o menor sentido.
Talvez eles realmente fossem amigos de infância, ou primos, ou algo assim — que sustentasse a ideia de que, mesmo diferentes, tivessem que aguentar um ao outro.
Resumidamente, ficava claro que eu não tinha ideia do que pensar.
— E quanto à este? — perguntou K, saindo do provador para me mostrar um vestido lilás e comprido, que balançava com o ventilador da loja em suas pernas.
— Todos são lindos, K — falei, já estressado por passar o dia todo no centro da cidade. Sem falar que eu não entendia nada de moda.
Kaori estreitou os olhos já estreitados por natureza, bufando em seguida ao dar as costas e entrar no provador novamente. Suspirei.
A festa dos calouros, que devia ter acontecido semana passada, um dia depois do concerto de Peter, aconteceria hoje, sábado à noite. Fomos obrigados a atrasar uma semana porque o DJ responsável por uma das partes mais importantes da festa — a música — houvera cancelado, deixando a todos furiosos, incluindo eu, já que teria que continuar nessa comissão idiota por mais uma longa semana. Mas felizmente, tudo foi perfeitamente arranjado para que ocorresse hoje à noite.
Não que eu estivesse animado.
Kaori, no entanto, estava animada até demais. Conhecera um garoto de Contábeis, por meio de uma amiga da faculdade privada na qual estudava. Ryan. Sabia de certeza porque ela houvera falado tanto do garoto que meus tímpanos quase sangraram. Sem falar que eu não gostava da ideia de alguém com Kaori. Ela havia namorado sério apenas uma vez, uma que não acabou muito bem, e eu gostava da ideia de cuidar dela sozinho pelo resto da vida.
Claro que seria injusto com ela, mas que tipo de ciúmes é justo ou justificável?
A festa dos calouros permitiria a entrada dos não-universitários — é claro, por um preço mais alto -, motivo pelo qual Kaori estava escolhendo um vestido para ir se encontrar com o tal de Ryan.
Mas minha cabeça estava longe, em Mallow Coast, com um certo professor já não mais tão ranzinza que tinha um gosto muito estranho por perigo.
Esfreguei um olho, cansado demais para alguém da minha idade, quando Kaori saiu daquele provador com o vestido mais bonito que eu houvera visto em minha vida.
— Uau — falei, embasbacado.
Podia ser que eu não entendesse de moda e que o vestido verde realmente não fosse o mais bonito do mundo, mas que houvera caído perfeito no corpo branquelo, ah, houvera sim!
O vestido verde musgo era todo feito de renda e, embora justo na cintura, abaixo era solto e rodado até acima dos joelhos. As alças tapavam apenas os ombros e o decote, bem comportado, era reto. Embora parecesse bonito e extravagante demais para uma festa universitária, eu sabia que ela iria com ele mesmo assim. Ficara tão perfeito no corpo magro e pequeno de Kaori que parecia ter sido feito para ela.
E, bem, era verde!
Ri, vendo que ela ria também, balançando a cabeça.
— É este — disse, lendo meu rosto, em tom afirmativo, ao encarar-se no espelho atrás de si.
— É este — confirmei, balançando a cabeça. — Ryan é sortudo pra caralho.
O rosto de Kaori ficou roxo com a afirmação, mas ela sorriu abertamente para mim. Rostinho de criança em um corpo de mulher. Sorri, orgulhoso.
E, enfim, eu podia ir pra casa dormir depois do dia cansativo no centro da cidade. Era o que eu mais fazia ultimamente, afinal. Comer, dormir, e encarar meu celular como se fosse uma bola de cristal.
Assim que deixei K em casa com seu novo vestido e um novo sorriso no rosto — sorriso apaixonado -, dirigi-me à minha casa ao lado, olhando automaticamente para meu celular e as mensagens do pessoal.
Revirei os olhos.
Cenoura perguntava se eu realmente não desistiria da festa, Gabe dizia para eu perguntar para Pete se JJ iria também, Laurel dizia para eu dar um motivo para ela aparecer lá, mas logo abaixo mandava várias fotos de roupas diferentes que vestira — reforçando o fato de que não precisava que eu desse um motivo pra ela -, e Peter nada havia mandado de mensagem. Silêncio total.
Abri a porta, ouvindo vozes na sala e o cheiro de café da tarde de minha mãe, que corria para desligar alguma coisa no forno. Arqueei as sobrancelhas, largando minhas coisas e tentando ajudá-la com a forma quente de bolo.
— Quem tá aí? — perguntei, mas pela voz de Mason, imaginei que fossem os três garotos de sempre. Nada fora do comum.
E, conhecendo minha mãe, sabia que sempre que havia visita — mesmo a família Ishikawa, que já era de casa -, ela enchia a mesa de coisas comestíveis. Sorri.
— Os coleguinhas do Caleb — respondeu ela, sorrindo ao passar um dos braços pela testa. — É hoje a festa do seu curso, não? — perguntou, ajeitando xícaras na mesa.
— Sim — respondi, roubando um pedaço de bolo. — Mas só mais tarde.
Senti os olhos de minha mãe em mim, mais do que vi, e estremeci por dentro. Era hora de eu sair de perto. Mas antes que eu desse as costas, a mão magra de minha mãe fechou no meu pulso de forma delicada, mas o suficiente para que eu ficasse.
— E o Richard, ainda não voltou? — perguntou ela, os olhos sábios de mãe em mim. Balancei a cabeça, desviando o olhar. — Você não vai mesmo me contar o motivo dele estar na cidade natal por duas semanas já?
Engoli em seco.
— Mãe, eu já te disse. É algo de família — menti, roubando mais um pedaço de bolo para manter minha boca ocupada.
— Will, não me leve à mal pela pergunta... — começou ela, e eu suspirei internamente. — Vocês terminaram o namoro ou estão dando um tempo, algo assim?
Balancei a cabeça novamente.
— Estamos bem, mãe — falei, mas vi o olhar contrariado. — Só estou com saudade — acrescentei, a única verdade que podia contar.
Ela sorriu triste, pegando meu rosto e dando um beijo em cada bochecha. Firmei os lábios para não chorar.
Será que ela não sabe que não se pode demonstrar carinho quando a pessoa está triste, que ela chora?
— Espero que ele volte logo — disse ela, em um murmúrio carinhoso. — Vai ficar tudo bem.
Assenti, afastando-me de todo seu amor e carinho antes que chorasse aqui mesmo, chamando a atenção dos garotos na sala. Engoli em seco, deixando um beijo em seu rosto antes de ir para o meu quarto.
Vai ficar tudo bem, repeti mentalmente, como um mantra.
No entanto, ao passar pela sala, vi um rosto que ainda não conhecia, o que me fez parar a meio caminho de meu quarto.
— Olá — falei, os olhos voltando para o garoto moreno na sala.
— Boa tarde, Will — cumprimentou Ian, enquanto Mason dizia algo parecido e o outro garoto sorria de maneira educada, sem saber o que dizer.
Caleb, ao perceber meus olhos curiosos, indicou o garoto com um gesto vago.
— Will, este é Alex, primo do Ian — disse, apontando para o garoto de olhos escuros. Arqueei as sobrancelhas. Ah, era isso que era tão familiar nele! — Alex, esse é meu irmão mais velho, Will.
— Prazer — disse ele, os olhos negros percorrendo meu rosto, ação comum em quem comparava meu irmão a mim.
Sorri, cumprimentando de volta, antes de dar as costas, achando a situação estranha.
Era comum encontrar Mason e Ian por ali — e eu até já sabia onde ambos moravam, por ter que buscá-lo na casa dos amigos -, mas meu irmão não trazia mais ninguém ali pra casa. Nem mesmo quando havia trabalhos em grupos, já que tudo era feito pela internet ou pelo celular. Se bem que, sendo primo de Ian, fazia sentido que se aproximassem dele.
Bom, não é como se eu não tivesse mais com o que me preocupar.
Joguei-me na cama com um suspiro pesado, afundando o rosto no travesseiro. Meus pensamentos voltavam aos meus dois problemas maiores: Turner e Peter.
Turner havia me mandado uma mensagem no início da manhã, dizendo que tudo ficaria bem com uma confiança que, ao invés de fazer-me sentir bem, fez com que meu coração encolhesse no peito.
Claro que eu queria que ele voltasse. Nunca quis tanto algo em minha vida. Nem mesmo quando quis tomar os lábios de Turner com os meus pela primeira vez. Preferia que estivesse vivo do que estivesse comigo. Só que eu tinha um medo imenso do que ele teria que fazer para que "ficasse tudo bem". E de que, talvez, ele estivesse errado.
Meu celular vibrou, indicando uma mensagem de Peter, meu segundo problema. Suspirei ao ver que queria ir junto comigo para a festa.
O problema com relação ao Peter foi o silêncio. Eu já havia me acostumado com a presença dele nas últimas semanas, mas nesta ele havia aparecido somente quando o necessário e falado comigo com poucas palavras.
Não que eu me incomodasse se ele parasse de falar comigo, acrescentei mentalmente. Eu apenas me incomodava com o motivo.
Seja lá que motivo Peter tinha para se comunicar com George e poder empurrar ele sem levar uma surra, eu sabia que ele tinha feito aquilo por causa do que descobriu. Ele ficara muito perturbado com a ideia de que George houvesse me espancado no semestre passado e houvera se afastado da gente naquela noite. Isto, juntado ao fato de que ele estava tirando satisfação com George no escuro, apenas deixava claro que os acontecimentos estavam conectados.
Ele deve ter perguntado se George tinha algo a ver com o que aconteceu comigo, e George, com a verdade ou não, deve ter respondido. O que me incomodava não era o fato de Peter não ter me contado nada a respeito — eu entenderia ele não querer abrir feridas antigas -, mas o fato de haver ficado estranho perto de mim. Ora, se George não tinha nada a ver com o que ocorreu, Peter não devia ter começado a agir estranho.
Eu fiquei quieto, não questionei nada. Ele não sabia o que eu tinha visto, nem ninguém, então eu esperei que me dissesse algo, e já que não disse, imaginei que a resposta de George foi uma negativa. Mas isso não explicava o motivo de Pete estar tão estranho comigo.
Ele me diria se George fosse o responsável, não diria?
Engoli em seco, levantando-me em seguida para tomar um banho e me arrumar. Não daria tempo de dormir, no final das contas, porque eu estava na comissão da festa e precisava chegar antes como os outros para nos certificarmos que tudo estaria perfeito.
Vesti uma calça jeans solta e uma camisa curta da cor preta — minha preferida -, com meus tênis surrados. Tentei arrumar meus cabelos — impossível de se fazer -, e passei um gel para isto. Não funcionou muito, mas deixei do jeito que estava. Haja paciência para arrumar cabelo, e não havia em mim.
— Vai, por favor, me mostra — pedia o garoto moreno, quando adentrei na sala, inclinando-se em direção do meu irmão.
Alex — como havia descoberto ser o nome do garoto — estava sentado ao lado de Caleb no sofá, enquanto Mason estava sentado no outro e Ian atirado no chão com o controle apontado para televisão, resmungando com o loiro sobre o que assistiriam. No entanto, Caleb e Alex deviam estar em uma discussão própria, com Caleb negando com a cabeça e Alex sorrindo com cara de pidão.
Arqueei as sobrancelhas, curioso.
— Eu já mostrei as paisagens — resmungou Caleb, estalando a língua e inclinando-se para longe de Alex.
Caleb amava desenhar, mas mostrar para os outros era outra história.
— Mas eu quero ver as pessoas — insistiu o outro, sorrindo largamente com os olhos fixos em meu irmão, provavelmente se referindo aos desenhos dele.
Franzi o cenho, torcendo os lábios.
Que idade tinha aquele garoto, afinal?
— Will! — chamou minha mãe, fazendo com que Alex e Caleb olhassem para trás e o maior fixasse os olhos negros nos meus. — Peter está aqui!
Caleb olhou para frente rapidamente, de costas para mim, ajeitando a postura no sofá. Alex, no entanto, havia perdido o sorriso mas continuou a me encarar com tanta curiosidade quanto eu o encarava. De certo queria ver em meu rosto se eu havia percebido o que se passava na cabeça dele. E ah, eu percebia sim!
Arqueei uma das sobrancelhas, desafiando-o a sustentar meu olhar. Mas ele pareceu sem graça, desviando o olhar para frente e ajeitando a postura da mesma forma que meu irmão, mais longe dele do que parecia querer.
Soltei um riso sem graça por meu nariz antes de me dirigir à cozinha para sair.
Era só o que me faltava!
Um garoto mais velho de olho no meu irmãozinho. Irmãozinho, sim! Era uma criança e sempre seria uma criança ao meu ver. E estou pouco me fodendo se eu tinha a idade dele no meu primeiro beijo. Caleb, sendo hétero ou não, só beijaria na boca depois dos dezoito. Ora essa!
No entanto, olhei para trás uma última vez, com o coração apertado.
Seria Caleb gay também?
Engoli em seco, piscando algumas vezes para não chorar. Céus, eu estava sensível pra caramba. Mas a ideia de meu irmão sofrendo preconceito fez com que eu desejasse — mesmo me sentindo culpado — que ele fosse diferente de mim. Mesmo que isto fosse irracional, já que Caleb poderia sofrer de mil maneiras diferentes, mesmo sendo hétero — como qualquer pessoa -, eu desejei com tudo que ele não fosse encurralado no meio de um bosque e espancado até apagar completamente por conta de sua sexualidade.
Respirei fundo, encontrando o olhar castanho de Peter do lado de fora.
O dia ainda estava claro, mesmo sendo quase oito horas da noite, por conta do verão, então fomos caminhando até a parada para pegar ônibus. Peter não morava muito longe de casa, já que era no bairro vizinho. Caminhamos tranquilamente, conversando sobre assuntos banais. Peter parecia agir como se nada houvesse acontecido, enquanto eu só conseguia pensar nisto.
Mas eu não mencionaria o assunto, não mesmo.
*
Assim que chegamos no centro de eventos da universidade — basicamente, o que se assemelhava a um ginásio grande, projetado para os eventos -, já dava para perceber a movimentação com a organização das coisas. Decoração, palco, aparelhos de som. Havia um caminhão descarregando os fardos de cerveja para a festa, as que houveram faltado. Não havia ninguém ali além do pessoal veterano dos cursos envolvidos na festa dos calouros.
Jogamos conversa fora por ali mesmo, assim que já estava tudo arrumado e o pessoal já chegava para a festa. Já havia escurecido e os seguranças já estavam a postos na entrada no local, para checar a identidade de todos e revistá-los, enquanto a música já corria solta lá dentro.
Lotou mais e mais rápido do que a gente pensou. Apesar de ser uma festa dedicada aos calouros — todos os calouros dos nossos cursos tinham acesso ao open bar -, todos os universitários podiam entrar com o ingresso pago, e não-universitários também, embora mais caro. Era o dinheiro dos convidados, afinal, que havia bancado tudo, além do tanto que a gente tirou do próprio bolso.
Comecei a beber logo no início, já que estava necessitado. Primeiro, porque fazia tempo que eu não ia à nenhuma festa e não bebia de verdade. Segundo, porque eu provavelmente tenho ansiedade e quando estou nervoso preciso comer e beber tudo que tem pela frente. Principalmente se se trata de álcool. E eu estava nervoso. Terceiro, porque para nós — da comissão — era de graça. Open bar não se recusa nem aqui nem na China.
Relanceei ao redor, percebendo que o local já estava começando a encher de verdade. Olhei para o lado, para meus amigos conversando alto em um semi círculo no fundo da multidão. Ao constatar pela primeira vez na noite que Laurel estava gostosa pra caramba naquele vestido — sou gay, não cego -, desviei o olhar para Gabe, que parecia um tanto avoado com o assunto dos rapazes. Desviou o olhar azul para mim e sorriu sem graça ao relancear Laurel e voltar os olhos para mim. Estavam brilhantes demais.
Entendi o recado.
Logo, estávamos dando uma desculpa para sair de perto e eu o arrastei até a banca na lateral do local, onde estavam trocando as fichas por bebidas.
— JJ não vai vir? — perguntei à ele, enquanto esperávamos por mais cerveja. Gabe piscou muito, e percebi que segurava as lágrimas, balançando negativamente com a cabeça.
Suspirei.
— Ela vem sim — disse, fazendo com que eu erguesse o olhar. — Só que está com os amigos do curso dela. Sei lá. Não me importo — falou, desviando o olhar para checar as horas no celular.
— Não é com ela que você se importa — falei, pegando a cerveja das mãos de Dave, o garoto de Contábeis, que sorriu amigavelmente antes de atender o próximo.
Da metade da festa para o fim, éramos nós — os que estavam ali aproveitando -, que estaríamos atrás do balcão atendendo o pessoal que queria bebida. Havíamos combinado de nos revezarmos.
Gabe abriu a latinha e girou, tomando quase metade de uma vez só, antes de fazer uma careta pelo álcool, ou talvez pela culpa — a mesma que se passou em seu olhar. Ergueu os ombros.
Meses atrás, Gabe tinha ido em uma das festas da Ballare — local em que mais frequentamos para festas e afins -, junto com o pessoal do curso. Laurel, Cenoura e Jessica também haviam ido, enquanto eu ficava em casa com Turner. Foi nesta festa em que Gabe e Laurel pararam de se falar, e ele apenas me contou isto — como prometido — depois que eu contei sobre o que estava acontecendo com nosso professor de Administração.
— A gente foi naquela festa, e ela tinha ficado com o Adam de novo, mesmo que soubesse que minutos antes ele estava ficando com a loira aquela. — Havia revirado os olhos, irritado. — E eu me irritei com isto, e acabei brigando com ela e quando ela me xingou também, eu contei. Contei pra ela. — Gabe balançou a cabeça, enquanto eu me ajeitava na cama e assentia ao dizer que estava ouvindo. Engoliu em seco. — Ela ficou ainda mais furiosa quando eu contei que gosto dela. Perguntou por que eu não tinha contado antes e depois me deu as costas. Vi ela conversando com o Adam de novo, mais tarde, e fiquei com raiva por ela ter ignorado sobre o que eu avisei, para logo depois ver que estava furiosa ao ver Adam ficar com outra garota. Mas era óbvio que isto aconteceria. — Estalou a língua, olhando ao redor de meu quarto desarrumado. Aproximei-me mais dele na cama para ouvir, interessado. — Então eu também fiquei com outra, e ela viu e nunca mais falou direito comigo, como se fosse tudo culpa minha, inclusive o que Adam fez.
Enquanto encarava Gabe, a conversa me veio à mente, e eu o observei em silêncio. Virei a latinha de cerveja, tomando longos goles da bebida gelada. Logo, suspirei, aproximando-me dele para falar alto.
— Tenta de novo — falei, vendo-o franzir o cenho. — Tenta de novo, Gabe, e se não der certo, parte para outra. JJ é muito bacana, mas você não pode investir nela sem tentar mais uma vez com Laurel.
Quando eu beijei Turner pela primeira vez, ele ficou sem falar comigo por uma semana, me tratando mal e mal olhando na minha cara. Eu não havia insistido depois disto, da forma como eu dizia para Gabe insistir, mas ele veio falar comigo. Só que Laurel não era como Turner. Laurel era geniosa demais, intensa demais, teimosa demais.
Gabe logo balançou a cabeça, negando veemente. Mas eu estreitei os olhos em sua direção, indicando que eu estava falando sério. Ele pareceu em dúvida, e eu logo sabia que ele cederia.
Arrastei-o de volta para onde nosso grupo estava.
— Vamos — falei, indicando a garota dos cabelos vermelhos com a cabeça. — Vai, Gabriel! — ralhei, ao ver a careta em seu rosto, como uma mãe irritada.
Gabe suspirou, aproximando-se da ruiva antes que se arrependesse. Falou alguma coisa no ouvido dela, estendendo a mão, e imaginei que havia convidado para dançar. O franzir entre as sobrancelhas de Laurel — que havia se formado quando ele se aproximou — aumentou ainda mais. Então, Gabe aproximou-se novamente do ouvido dela e falou mais alguma coisa, estendendo a mão novamente. Laurel encarou a mão dele por um tempo como se fosse queimá-la, até suspirar, contrariada, e colocar a mão magra sobre a dele.
Gabe deu um sorriso fraco e logo os dois sumiram na multidão de gente.
Sorri para aquilo. Se nada desse certo, pelo menos ele havia tentado. Mas logo um pensamento começou a me incomodar: se não desse certo, ele me culparia pelo resto da vida!
— Quer dançar? — Peter perguntou no meu ouvido, fazendo com que eu encolhesse meu ombro automaticamente.
De onde a criatura havia surgido?
Encontrei o sorriso típico do garoto, com os olhos castanhos fixos nos meus e uma das sobrancelhas grossas arqueadas. Ponderei por um tempo, afastando-me um pouco do rosto próximo demais do meu. Dei uma olhada ao redor, para ver se encontrava K, mas nada da japonesa.
Sorri fraco, assentindo.
Logo, a mão de Peter desceu para a minha — o que achei muito estranho, mas tudo bem -, e ele me puxou para a multidão também. Era bom que ele estivesse me tratando normal de novo, porque assim eu cogitava a hipótese de que seu afastamento na última semana fosse devido à alguma coisa familiar ou pessoal. Mesmo que eu soubesse estar errado.
Acho que já comentei o quanto eu ignoro a minha boa e velha intuição.
Kaori iria com os amigos da faculdade e, ugh, com o tal de Ryan, então pensei que ao me infiltrar com Peter no meio das pessoas, pudesse vislumbrar a pequena em algum lugar. A japonesa não havia respondido minhas mensagens, encantada demais pelo garoto, provavelmente. Mas logo eu a vi, distante, entre a multidão de gente.
Ryan não se parecia nada com a forma como eu pensava: era alto, musculoso — do tipo que faz academia -, loiro e estranhamente charmoso. Senti uma pontada de ciúmes irracional antes que ele, desastrado, derrubasse a garrafa de cerveja inteira no chão e arregalasse os olhos com pavor. Puxou K com o braço para que não se sujasse e ficou da cor de beterraba ao parecer pedir desculpas e acabar sendo trombado por alguém que passou atrás de si. Kaori, perto dele, parecia um esquilinho. Mas agora eu percebia que o esquilinho era ele, mesmo com todo aquele tamanho.
Minha atenção foi desviada quando Peter juntou o corpo ao meu e começou a se movimentar no ritmo da música comigo. Perdi o sorriso que nem percebi haver portado no rosto, e foquei os olhos nos castanhos à minha frente. A maioria das canções eram pop ou eletrônicas, em uma mistura exótica, mas animada. Não estava encarregado da música, mas imaginava que não haveria nenhuma lenta, como naqueles bailes de colégio. Pelo contrário, tendia apenas a ficarem mais rápidas.
Apesar da batida forte e ritmada, ainda assim haviam muitas pessoas dançando junto. Sorri ao perceber que Peter dançava muito melhor que eu, mas ainda assim parecia desajeitado junto à mim.
— Você está lindo, coração — disse ele, próximo à mim, com um sorriso. Uma gota de suor já escorria pelos cabelos encaracolados.
— Você também — falei, um tanto sem graça por admitir em voz alta.
Mas, ao encarar as orbes castanhas, me perdi em pensamentos ao tentar decifrar o que se passava ali dentro. Afinal, eu achava que conhecia Peter, mas ele se tornava uma incógnita a cada dia que passava. Tentei decifrar os segredos do garoto apenas ao olhá-lo nos olhos.
Ele tinha segredos, não tinha?
— O que foi? — perguntou ele, parecendo um tanto divertido e um tanto receoso ao me observar.
— Eu... — comecei, mas não sabia como continuar. Como perguntar a respeito de George? — Você está saindo com alguém?
As sobrancelhas de Peter ergueram-se visivelmente, enquanto ele piscava ao pensar a respeito. Olhei para o lado, já que alguém esbarrou em mim, e me movi para o lado esquerdo. Voltei os olhos para Peter, vendo que ele sorria, puxando-me para perto dele novamente.
— Por que você quer saber? — perguntou ele, divertido, não precisando gritar pela proximidade.
Franzi o cenho.
— Duvido que você não tenha alguém — optei por dizer, pensando se eu não estava mesmo equivocado com relação à George. Talvez eles realmente fossem amigos.
Amigos!, uma parte de mim gritou internamente. Que piada!
— Eu tenho você, coração — respondeu ele, sorrindo maliciosamente ao descer uma das mãos pela lateral do meu corpo. Revirei os olhos, dando um tapa em seu ombro.
Ele apenas se riu ainda mais, afastando-se um pouco para erguer a cabeça para cima e movimentá-la para os lados no ritmo da música. Me incentivou com o olhar para que eu começasse a mexer o corpo também, de um lado ao outro, ao invés de só os pés, como eu estava fazendo antes.
— Estou falando sério — reforcei, recém percebendo que Peter estava tão afetado pela bebida quanto eu.
Eu não estava bêbado, e sequer tonto, mas já estava na brisa inicial da bebida: de falar mais alto sem perceber, piscar muito, sorrir mais fácil, começar a ficar lento, e este tipo de coisa. Peter também estava, pelo jeito solto com o qual dançava e sorria. Mais solto que o normal.
Medo.
— Não tenho ninguém — falou, perdendo um pouco do sorriso ao vincar as sobrancelhas. Pareceu chateado pelo assunto, mas isto durou pouco. Parou de se movimentar assim que a música chegou ao fim, antes que começasse outra. Aproximou-se de mim, pegando meu pulso no intuito de puxar minha atenção para ele, como se eu já não estivesse atento. — Por que quer saber? — repetiu, perdendo a seriedade e levantando as comissuras dos lábios.
Pisquei.
Falava ou não falava?
— Eu... Eu sei sobre ele — falei, um tanto mais baixo que gostaria.
Peter juntou as sobrancelhas escuras, confuso, para logo piscar algumas vezes ao se dar conta do que eu falava. Ou achar se dar conta, já que parecia em dúvida ao me analisar o rosto.
— Sobre quem? — perguntou, receoso, mas uma música dos The Chainsmokers começou e a batida eletrônica recomeçou, fazendo até o chão tremer quase que imperceptivelmente.
— Peter... — comecei, mas suspirei logo em seguida.
Estávamos bebendo e no meio de uma festa barulhenta. Realmente não era o melhor momento para conversar sobre isto, sem falar que eu não sabia como continuar a jogar verde sem transparecer minha dúvida. Eu sabia de metade da história apenas, a outra metade estava com Peter.
Balancei a cabeça e forcei um sorriso, aproximando-me dele para dançar e tentar esquecer o assunto. Mas os olhos castanhos continuaram a tentar me avaliar, tentando descobrir se eu sabia mesmo sobre George. Ora, eu sabia sim, um pouco da história!
Movimentei o corpo na batida de Don't Let Me Down, que havia começado, e achei estranhamente apropriada para o momento. Balancei a cabeça, puxando Peter para que parasse de me olhar assim e esquecesse o assunto. Funcionou, mais ou menos. E quando eu levei a latinha de cerveja — esquecida na minha mão — à boca para tomar o resto do líquido, um sorriso voltou ao rosto de Peter, como se ainda estivesse pensando no assunto.
Aproximou o rosto do meu ouvido para não falar alto.
— Não estou com ninguém, Will — disse ele, levando uma das mãos à minha cintura. — Mas isto não quer dizer que eu não esteja gostando de ninguém também. E você sabe disso.
Pisquei muito, as luzes deixando-me mais tonto que o próprio álcool, os olhos fixos no ombro de Peter — o que tinha na minha frente, já que ele se aproximou. Senti o coração praticamente descer pro estômago, aquela sensação estranha que não tinha um nome. Não era ruim, mas não era boa também.
I need you, I need you, I need you right now
Yeah, I need you right now
So don't let me, don't let me, don't let me down
I think I'm losing my mind now
Peter se afastou ao levar a segunda mão para o meu rosto, fazendo um carinho que eu pensaria ser inocente, como Peter sempre fazia, mas os olhos castanhos haviam perdido a inocência em relação a mim em questão de segundos.
Engoli em seco, tentando me afastar.
— Não foi isso que eu quis dizer — falei, percebendo o que ele estava pensando.
É claro que eu sabia que ele queria algo comigo, mesmo respeitoso por eu estar namorando. E é claro que ele sabia que eu sabia sobre isto. Mas ele superaria logo quando fixasse a atenção em alguém mais, se ficasse calado. O que eu havia dito, no entanto, pareceu empurrá-lo na direção de abrir a boca para dizer o que ambos sabíamos. Eu não queria dizer que me importava sobre com quem ele fica, e sim que eu queria saber se esta pessoa — se existia mesmo — era George. Mas isto não pareceu importar, porque a merda já estava feita.
— Não importa — retrucou ele, descendo os dedos para segurar, delicadamente, meu queixo para olhá-lo nos olhos. — Eu quero dizer em voz alta. — Tensifiquei o corpo inteiro, percebendo onde ele chegaria. — Eu gosto de você, Will.
Devia ter soltado a latinha no chão, porque levei ambas as mãos para os braços de Peter, com o intuito de afastá-lo, caso tentasse fazer algo idiota como me beijar. Mas eu não sei de onde diabos eu tiraria forças, porque fiquei tão sem chão com as palavras dele que senti minha boca abrir pelo espanto.
Ele não devia ter confessado isto em voz alta. Não devia, porque agora a coisa se tornou real e não iria ser superada apenas quando ele fixasse sua paixonite em alguém mais. Teria que ser superada agora, o que faria com que ele parasse de falar comigo, já que eu não corresponderia. E eu não queria parar de falar com ele.
— Pára, Peter — pedi, balançando a cabeça para logo olhar para os nossos pés.
Sim, eu havia largado a latinha no chão.
— Por quê? — perguntou ele, desviando a mão para a lateral de meu pescoço, de forma parecida com a que fez quando a gente se beijou, meses atrás.
Fechei os olhos, apertando ambos os braços dele.
— Você sabe o porquê — falei, e ergui o olhar, mesmo não querendo, para as orbes castanhas. — Que droga — resmunguei, sentindo a raiva atrasada do que ele estava fazendo. — Não era pra você ter dito isto, Pete.
Ele soltou um riso pelo nariz, balançando a cabeça, sem humor.
Só então pude perceber que ele estava mesmo transtornado pelo assunto, mas também soube que não era apenas isto que se passava em sua mente. Ele gostava de mim, da forma como havia dito, mas estava claro que ele não era apaixonado. Era só uma atração que eu não entendia por que ele houvera decidido agora, ao contrário das semanas anteriores, a buscar que se realizasse. Ele sabia que não se realizaria.
— Falar ou não falar, não muda o fato — disse ele, de forma confusa, mas entendi. — Eu gosto de você — repetiu, deslizando os dedos por meus cabelos acima da nuca.
Encolhi os ombros pelo arrepio inevitável, e todo o tremor parou em minhas mãos, de forma que tentei realmente afastá-lo desta vez. Mas ele não saiu do lugar, franzindo o cenho para minha reação. Então seu semblante mudou.
Ah, não.
— Você não tem certeza — concluiu ele, aproximando o rosto do meu, e embora vago, eu soube do que ele falava.
"Você não tem certeza se sim ou se não, Will."
Ele estava errado. Eu não queria nada com ele. Eu não podia.
Apertei ainda mais seus braços e franzi o cenho, em sinal de aviso para que não se aproximasse. Já havia esquecido completamente todas as pessoas ao redor, e até a música, que chegava ao fim, mesmo que sentisse vez ou outra alguém esbarrar em mim.
— Will... — murmurou, e repetiu o movimento lento em minha nuca, fazendo com que eu fraquejasse o aperto automaticamente com o arrepio.
Pisquei algumas vezes, sentindo o coração acelerar quando meu fraquejo aproximou o rosto de Peter ainda mais do meu, e meus braços arrepiaram.
— Não fa...
Até tentei, mas os lábios de Peter estavam grudados nos meus antes mesmo que eu terminasse. A mão esquerda do garoto de cabelos cacheados firmou em minha cintura, grudando todo meu corpo tenso no dele e a outra houvera puxado minha nuca com força em direção a ele.
É claro que eu não retribuí, frisando os lábios, mas a língua de Peter conseguiu infiltrar-se entre eles de alguma maneira.
Por que eu não me afastei?
Todos meus músculos estavam tensos, meu estômago houvera revirado — malditos pedaços de bolo roubado! — de tal maneira que eu pensava que vomitaria a qualquer movimento brusco, e meu coração fazia o próprio movimento brusco ao bater tanto que eu poderia ter um infarto. Era errado. O cheiro de Peter, remetendo àquela outra festa com ele, impregnava-se em minhas narinas, e o corpo másculo contra o meu já era conhecido da vez anterior.
E eu não conseguia me mover, nem mesmo para tentar afastá-lo.
Não é como se eu tivesse controle sobre meu corpo, afinal, ainda mais quando alterado por álcool. Eu sou humano, e Peter consegue ser sensual pra caramba, ainda mais me cortejando daquela forma. Mas isto não quer dizer que eu queria aquilo, nem mesmo quando sua língua encontrara a minha para que deslizasse lentamente sobre e com ela.
Peter é encantador.
Qualquer um gostaria de ter os lábios grudados nos dele. Qualquer um gostaria de ser objeto de sua atenção e seus olhares desejosos. Qualquer um cairia de amores por alguém como ele. Peter é um cara foda.
Mas ele não é o Turner.
— Peter! — acusei, conseguindo, por fim, girar meu rosto para o lado.
Não podia acreditar no que estava acontecendo.
Os lábios de Peter encostaram em meu ouvido com um beijo leve, fazendo com que eu me encolhesse novamente. Droga de corpo sensível do cacete! Mas ele logo afastou o rosto do meu, obedecendo, mesmo com o corpo ainda grudado em mim.
— Não estou arrependido — logo disse, fazendo com que eu trincasse a mandíbula, começando a recobrar os sentidos do meu corpo e da minha irritação, novamente atrasada.
— Sai — grunhi, querendo dizer que me largasse.
No entanto, isto aconteceu de forma mais brusca do que eu gostaria, fazendo com que eu buscasse com os olhos o que diabos acontecera. Ergui o olhar para Peter, mas ele já estava mais longe, com os olhos arregalados ao encarar o espaço ao meu lado. Segui seu olhar, encontrando George meio segundo antes de ele me segurar pela gola da camisa com o rosto vermelho em fúria.
George havia puxado e empurrado Peter para longe e logo partido para cima de mim. E agora me tinha em seus braços para que me quebrasse ao meio. Ao menos, era isso que seus olhos raivosos diziam.
— Você tá maluco, viadinho de merda? — perguntou ele, na minha cara, com o nariz quase grudado no meu.
George tinha os cabelos negros quase totalmente raspados, olhos escuros que nunca quis saber de cor eram e pele bronzeada. Era realmente forte, embora não fosse musculoso como o cara com quem K estava saindo. E era perigoso.
Tentei empurrá-lo, mas não funcionou. George era forte para caramba e nem mesmo se eu estivesse completamente sóbrio conseguiria fazê-lo mover-se um centímetro.
— A porra do seu namoradinho viado sabe o que você está fazendo aqui? — berrou em minha cara, fazendo com que minha respiração acelerasse.
Apesar de não me importar com o que quer que este embuste falasse, mencionar Turner havia trazido um gosto amargo à minha boca e uma vontade imensa de chorar. Peter havia me beijado durante mais tempo do que eu gostaria de admitir, e eu não havia conseguido nem ao menos tentar me afastar. E eu tinha o Turner.
E o pior de tudo: Peter havia se impregnado tanto em minha vida nos últimos tempos, e me enchido de cortejos e charmes, que eu sequer havia pensado em Turner quando ele me beijou. Sabia que não devia e, principalmente, que não queria, mas não havia exatamente pensado nele.
E era a degraça de George que me lembrava disto.
— George! — berrou Peter, tentando afastá-lo de mim, sem muito resultado. — Larga ele, imbecil!
Ver George ao lado de Peter, que tentava puxá-lo com as mãos de músico, era meio contrastante. Peter tinha o tamanho semelhante ao meu e George era um tanto maior, talvez mais alto que Turner. Tinham cabelos e olhos escuros, semelhantes, mas não havia nada de semelhante entre as personalidades dos dois. Não que eu soubesse.
A música continuava, mas eu podia sentir os olhares alheios em mim, fazendo com que meus olhos marejassem. Droga. Certo que já havia um grupinho de gente ao nosso redor, e os berros de George e Peter apenas contribuíam para isto.
Mas agora eu sabia que estava mesmo certo. O bichinho do ciúmes havia picado no mais profundo da alma amarga de George. Estavam juntos, mesmo que o junto deles não fosse aberto para o mundo.
Isto me deixou mais com raiva do que mágoa.
Eu estava mesmo certo.
— Engraçado você me chamar de viadinho — falei, aproveitando que o rosto de George estava perto para aproximar ainda mais ao tocar o nariz dele com o meu. — O que você tem com Peter é o quê, então, machão? — perguntei, vendo-o fraquejar por um instante. — Amizade colorida?
Foi neste instante que George soltou uma das mãos de minha camisa, e eu soube o que aconteceria em seguida. Ela encontraria meu rosto, em punho. E foi exatamente o que aconteceu.
Mas valeu a pena.
— George! George! — gritou Peter, quando senti meu nariz doer pra cacete e minha cabeça ser jogada para trás. — Solta ele, caralho! Solta, porra!
Ele devia ter conseguido afastá-lo de mim, porque no instante seguinte senti minha bunda grudar no chão, enquanto eu segurava meu nariz úmido pelo sangue. As lágrimas acumuladas em meus olhos ao pensar em Turner escorreram quando apertei-os pela dor do soco, e logo podia sentir o gosto delas em minha boca.
À esta altura do campeonato, a música havia cessado e o DJ contratado perguntava, pelo microfone, se a situação havia sido controlada, já que não devia ter uma visão muito boa no palco do meio da multidão. Ergui o olhar para encontrar um Peter nervoso ao apertar um dos braços de George entre seus dedos, enquanto outras pessoas o seguravam também. Percebi que uma delas era o tal de Ryan de Kaori, com o olhar preocupado.
Irritado, puxei o braço das mãos de Gabe — que eu nem percebi haver se aproximado de mim -, e levantei do chão.
— Estou errado, George? — continuei, cego pelo ódio. Relanceei Peter, que tinha os olhos castanhos alargados e uma cara culpada. — Se eu sou um viadinho de merda, você também é! — berrei.
George, apesar de tentar com ainda mais força se soltar para me calar a boca com seu punho, estava com medo. Claro que estava. Eu podia ver em seus olhos escuros o medo de ser exposto, mesmo que viesse a negar. E é claro que negaria.
— Will... — chamou Peter, balançando a cabeça negativamente em um pedido silencioso.
Fechei os punhos.
Por que ele estava defendendo George?
— Foi ele? — perguntei, apontando para George.
Eu já havia descoberto que estava certo sobre estarem juntos, agora faltava descobrir se estava certo sobre o George ter algo a ver com o que aconteceu comigo no ano anterior.
Vi, mesmo de longe e mesmo com as luzes coloridas, seus lábios tremerem. Os olhos castanhos que eu tanto gostava lacrimejaram, e ele piscou mais vezes do que uma pessoa inocente piscaria. Era culpado.
Minha respiração pesou, e senti meus próprios olhos lacrimejarem.
— Foi ele, Peter? — perguntei novamente, já sem a firmeza anterior. Mas o fato de George ter parado de se debater e Peter morder os lábios com força foi o suficiente para que eu soubesse.
George era o responsável por dias e mais dias de dores musculares e noites e mais noites em claro. George era o responsável pelo medo de andar em ruas vazias e de sair mais tarde das aulas. George era o responsável por eu me perguntar se eu não devia voltar ao armário, onde era mais seguro.
— Por favor, Will — murmurou ele, limpando a lágrima que caiu do olho, enquanto a música recomeçava com o intuito de acabar de vez com a confusão. Peter não se parecia nada com aquele músico alegre e conquistador que eu conhecia, não daquele jeito.
Peter o defendia. E Peter sabia.
Nem mesmo se ele estivesse apaixonado por George era justificativa suficiente para que omitisse essa informação de mim. Nem mesmo que caísse de amores por aquele babaca era justificativa para que ele saísse impune pelo que me fez. Violência física movida por preconceito dá cadeia ou, ao menos, algumas horas de trabalho comunitário. E este nem ao menos era o problema.
O problema é que Peter havia se tornado meu amigo. E, nem ao menos cinco minutos antes disto, ele havia dito que gostava de mim.
Se ele gostasse de mim de verdade...
Larguei o pensamento de mão, porque larguei Peter e George de mão.
Dei as costas.
Ninguém estava entendendo o que acontecia, embora minha pergunta tenha alarmado Laurel e Gabe, que estavam tentando me ajudar, e souberam na hora do que se tratava. Laurel estava da cor dos cabelos tingidos, encarando George como se o estrangulasse até a morte apenas com o olhar. Kaori tinha uma das mãos na boca, apavorada com a situação, embora eu desconfiasse que fosse mais por eu estar ali no meio. E Gabe tentou segurar meu braço enquanto eu me afastava, mas o puxei de volta, negando com a cabeça com um pedido silencioso.
Me larga. Me solta. Me deixa. Me deixa sair daqui e respirar novamente.
Pude ver, em um último vislumbre, o pessoal voltar a preencher o espaço que houvera sido feito pelo círculo e voltar a dançar. Por um momento me perguntei quem havia visto o beijo de Peter, já que todos sabiam do meu relacionamento com Turner.
Limpei o rosto, percebendo que era inútil, porque meus olhos continuavam a produzir lágrimas incessantes. Funguei, alcançando a saída do centro de eventos.
Assim que saí, recebendo olhares em mim pela forma como eu houvera começado a soluçar sem querer, comecei a caminhar sem rumo, passando pelas pessoas e implorando que estivesse sozinho logo. Os soluços, uma vez que começaram, apenas aumentaram com o rumo de meus pensamentos.
Eu não estava acreditando no que estava acontecendo. E, principalmente, eu não estava acreditando que eu houvera deixado tudo isto acontecer.
— Idiota — murmurei à mim mesmo, limpando o rosto. Idiota por acreditar que, se Peter nada havia dito, era porque George não tinha nada a ver com o que aconteceu comigo. Idiota por haver deixado que ele me beijasse. Idiota por— que merda foi essa? — retribuir o beijo. — Você é um idiota, Will.
Desci a rua vazia até começar a aparecerem os prédios de aulas, passando por algum pessoal que bebia por ali mesmo, nos carros, já que não se podia entrar no centro de eventos com bebida que não provinha lá de dentro.
Logo, passei entre os prédios até dobrar uma das esquinas e vislumbrar o terminal de ônibus, onde eu iria pegar o meu. O bosque no qual fui encurralado ficava atrás da parada, onde, atrás dele, havia os prédios de minhas aulas e o prédio específico do curso de Administração.
Solucei novamente, sentindo que minha vida havia tomado um rumo ridículo. Eu não podia controlar minha vida, meu corpo ou meu coração. E eu não podia controlar os outros e nem o que eles faziam. Eu não podia controlar absolutamente nada e me senti ridículo ao pensar que, na realidade, é disto que se trata a vida.
Nada está na mão de ninguém. E todos estávamos sozinhos, porque viemos assim ao mundo e partiríamos assim também. Almas em pena.
— Idiota — murmurei novamente, limpando o líquido abaixo do nariz dolorido, percebendo ser sangue pela coloração avermelhada.
O que viria a seguir?, me perguntei. A morte?
Tudo bem que eu estivesse dramatizando — não seria eu se não metesse drama no meio -, mas convenhamos, é muito acontecimento ruim e seguido para uma pessoa só. Estava em uma maré ruim. Realmente não sabia o que esperar a seguir.
Acabei chorando mais ainda ao pensar em Turner e em tudo que poderia dar errado com relação à ele. Afinal, era só o que faltava mesmo. Eu o havia traído, enquanto ele estava lá lutando pela vida? Aquele beijo idiota era considerado uma traição?
Eu não sei por que eu o fiz.
Funguei novamente, atravessando a rua deserta e alcançando a parada de ônibus, onde umas três pessoas bêbadas esperavam pelos respectivos. Pensei em me aproximar e puxar conversa, tipo: e aí, qual seu motivo por ter deixado a festa antes mesmo das duas da manhã?
No entanto, um carro chamou minha atenção, estacionado do outro lado da rua, lado contrário ao qual passavam os ônibus. Pisquei algumas vezes, tentando afastar as lágrimas para enxergar direito e ver se não estava maluco ou alucinando. Não. Aquele era mesmo o carro do Turner.
Dei um passo em frente, automaticamente, ao estreitar os olhos.
Quão bêbado eu estava? Sequer estava bêbado? Bêbado de mágoa ou de álcool?
Alarguei os olhos ao enxergar a figura ao lado do carro, que se desencostava dele e descruzava os braços ao me enxergar.
Turner.
Não sei quanto tempo ficamos nos encarando, um de cada lado da rua, mesmo sem poder ver seu rosto direito pela luz precária dos postes de luz. Para mim, pareceu uma eternidade na qual eu me perguntava se estava sonhando ou não.
Mas a resposta veio em seguida, quando solucei mais uma vez.
Ele atravessou a rua como um vulto, sem nem olhar para os lados para ver se algum ônibus passava, e parou em frente à mim na calçada.
— Turner? — perguntei, limpando o rosto de maneira automática novamente.
Como havia um poste de luz bem ao lado do terminal, eu podia ver os lábios rotos de meu professor, a marca em torno de um dos olhos preocupados, no rosto e no canto de sua boca. Havia um corte próximo à testa, fechando com chave de ouro o rosto acabado.
Dei um passo em frente, os olhos descendo para seu corpo. Usava uma calça de moletom e uma regata branca, que fez com que eu fixasse os olhos no ombro enfaixado abaixo dela. Meus lábios tremeram quando encontrei o olhar cinza que mais amo no mundo.
— Will — murmurou ele, com tanto carinho que acabou comigo.
Então, um soluço escapou de minha garganta quando dei mais um passo em frente e fui acolhido pelos braços fortes que bem conhecia.
Apertei-me contra o corpo que tanto amo, deixando o corpo balançar com os soluços fortes e afundei o rosto contra o pescoço com cheiro específico de Richard Turner. Apertei suas costas, deslizei as mãos para seus braços, e logo voltei-as para as costas, subindo até os ombros.
Turner soltou um resmungo, e voltei as mãos para as costas, percebendo o ferimento no ombro. Estava ferido. Chorei copiosamente, enquanto ele afagava minhas costas e meus cabelos, murmurando palavras reconfortantes.
Ele estava mesmo ali. Era mesmo ele. O meu Turner.
Esfreguei meu nariz contra seu pescoço, sentindo o cheiro e a textura da pele, querendo fundir-me à ele ali mesmo. Havia pensado que nunca mais poderia ouvir sua voz pessoalmente, e que nunca mais iria sentir seu cheiro, e poder tocar-lhe. Apertei a regata contra meus dedos, tentando encontrar seus lábios ao esfregar o meu nariz por sua mandíbula e senti-lo fungar próximo à minha orelha.
Encontrei seu queixo com o nariz e logo com a boca, deixando um beijo choroso ali, nada mais que um roçar de lábios para logo encontrar os seus. Houve, então, o encontro brusco entre nossos lábios, com o gosto salgado de lágrimas e saudade.
Um beijo que eu devia, que eu queria, que eu sabia.
Turner segurou minha nuca, da mesma forma que Peter o houvera feito, mas de forma correta. Porque era a pessoa correta. A pessoa feita para mim.
O pensamento fez com que eu soluçasse novamente, ainda com os lábios grudados nos macios de Turner, o que fez com que ele juntasse ainda mais meu corpo com o dele. Segurei seu rosto com ambas as mãos, me demorando ainda mais com a junção simples de nossas bocas.
Um selinho demorado e banhado de lágrimas.
Abri os olhos, encontrando os cinzas — mesmo mal os podendo ver pela penumbra da noite — também molhados a me observar. Ele deixou minha boca para encostar os lábios molhados na comissura dela, logo em meu rosto, e em seguida em meu nariz.
— Você voltou pra mim — sussurrei, tentando um sorriso e vendo que ele fazia o mesmo. Limpou minhas lágrimas com os dedos e assentiu, grudando a testa na minha.
Em seguida, em uma junção de corações lesionados, nos abraçamos.
No silêncio das ruas universitárias e desertas, com a escuridão da noite e a luminosidade da lua, estávamos nós dois em um abraço forte. Uma cena que ficaria marcada em minha memória. E tudo estava em seu devido lugar.
Dois corpos, dois corações, duas almas.
Duas almas condenadas.
Uma para a outra.
— Sempre.
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