Made of Fire

50 EXTRA - Porque talvez seja você


Notas iniciais
Gente linda, gente boa, gente bela! :3 Agradeço à Kill Schneider, que recomendou MoF! BEIJO E CHOCOLATE PRA TI, meu bem! ♥ O capítulo de Turner&Will está - quase - prontinho, só que eu pensei que o capítulo 50, assim como o 40, devia ser sobre o Luke&Rob. Com isto em mente, comecei a digitar e em alguns dias, ficou pronto! Espero que gostem, fiz de coração ♥ Rob's POV Boa leitura! *-*

Eu havia aprendido muito cedo.

Se a vida te dá limões, faça uma limonada do caralho!

A vida havia me presenteado com uma gama de maldições — os famosos micos -, que começaram desde o incidente na creche envolvendo cabelos de macarrão e terminaram hoje, envolvendo uma calçada molhada e minha bunda no chão. Quero dizer, é claro que não terminariam hoje.

Quando se tem cinco anos de idade e se descobre, da maneira mais infeliz do mundo, que a tigela de macarrão não foi feita para ser cuidadosamente posta ao inverso na sua cabeça — ainda mais com macarrão dentro -, é hora de inventar e reinventar acima desta vida sem graça. Caso contrário, definharia até a morte dia após dia.

Onde já se viu, comida ser feita apenas para comer?

Claro que eu era muito novo para aprender esta lição de vida com apenas cinco anos de idade, então demorou até o momento em que eu tinha treze, uma camada de espinha na pele e uma flor na mão estendida para a menina mais bonita do colégio. Não que eu me importasse que Olivia fosse a menina mais bonita, já que meus olhos sempre se voltaram à Steve, de olhos azuis, cabelos negros e pele branca feito papel. Aquele desgraçado era bonito pra caralho, e eu já não sabia se queria beijá-lo ou socá-lo na cara, mas não era maluco de admitir pôr olhos em um garoto ao invés de uma garota.

O acontecimento seguinte foi o ranho saindo pelo nariz no minuto que espirrei, antes que ela respondesse a respeito do convite de aniversário. Foi um azar tremendo, mas foi neste instante que eu percebi que devia abraçar-me à ele ao invés de fugir. Afinal, o azar sempre estaria ao meu lado, e os micos também.

A partir daí, toda vez que eu caía, eu também ria. Porque a vida não tem graça sem a própria graça, não é mesmo? E foi assim que começaram as piadinhas, tanto para disfarçar todas as proezas que eu conseguia fazer quanto para tornar minha vida um pouco menos ridícula. Afinal, não é o que dizem? A única maneira de vencer o medo é se tornar amedrontador, de vencer o frio é se tornar gelo, e de vencer as sombras é apagar a luz? Pois então.

Única maneira de ter uma vida menos ridícula é se tornar mais ridículo ainda.

Balancei a cabeça, com um suspiro, ao perceber que não tinha ninguém ao meu lado para compartilhar o devaneio.

Levantei da calçada, com a ajuda do porteiro, que riu da minha desgraça enquanto eu o imitava. Ora, havia sido engraçado, ainda mais para olhos alheios. Senti a bunda molhada, mas tentei ajeitar o terno e fingir que estava tudo bem, muito obrigado, antes de finalmente entrar no prédio da Turner Imóveis.

É claro que eu havia crescido, me tornado um adulto responsável, com um emprego fixo e uma carreira pela frente. Havia deixado as espinhas e o cabelo oleoso para trás, havia crescido barba — embora a tirasse vez ou outra -, havia ganhado peso e chegado aos um e oitenta de altura. Os micos e o azar tremendo não eram mais tão constantes. Mas aquele espírito brincalhão e já automático, de quem quer disfarçar todas as proezas da vida, seguia em mim. E foi este mesmo espírito que me tornou uma pessoa bem-humorada, bem-sucedida e benquista por todos.

O problema é que havia muito mais sob a superfície.

Adentrei no elevador, apertando a maleta contra minhas mãos e batendo o pé no chão ao observar os números dos andares mudarem de um para outro.

Não estou nervoso, reafirmei, mentalmente, ao fechar a mão que tremia em punho. É claro que não estou.

Sou um homem adulto, de vinte e sete anos completos, e com certeza não fico nervoso com a simples ideia de caminhar até meu escritório e cumprimentar, bem educado, meu melhor amigo. Claro que não.

Eu já era adulto quando descobri sobre a ansiedade e fui receitado com mais de um tipo de ansiolítico. Começou de forma leve quando eu era ainda adolescente e foi piorando com o passar dos anos, embora no fundo eu soubesse o motivo, e logo tudo explodiu quando Rich apareceu com a história de que namorava um garoto.

Sério que eu passei anos escondendo minha sexualidade de todos e meu irmão mais velho simplesmente aparecia com a notícia e, logo, com o próprio garoto?

Era tão cômico que chegava a doer na minha alma.

Rich, sem sequer perceber, enfiou uma agulha no balão dos meus segredos mais profundos — talvez escondidos até mesmo de mim — e tornado minha vida uma confusão. Rich, sem querer, acabou enchendo minha cabeça com ideias estranhas. Não eram tão estranhas, porque eu já estava acostumado com elas, mas o que foi estranho foi querer tirá-las de minha mente e trazê-las para a plena e cruel realidade.

E bom, o que eu tive foi uma plena e cruel resposta.

Não era novidade para mim que homens são muito mais atrativos que mulheres. E quando eu digo muito mais, eu quero dizer que toda a atratividade está nos homens. Não era novidade que eu tivesse sonhos eróticos com pessoas não curvilíneas, robustas, e com pêlos excessivos no rosto. Não era novidade que eu quase perdesse o ar ao trombar com algum homem na rua — o que era não era tão incomum assim e nem tão proposital -, sentisse o coração querer explodir e ficasse agitado pelo resto do dia. Nem mesmo as ereções involuntárias e inconvenientes formadas exclusivamente por causa do gênero masculino eram uma novidade para mim.

No entanto, algo diferente aconteceu devido às minhoquinhas que Rich alimentou em minha cabeça. Algo diferente que eu havia reprimido de acontecer, mas que acabou acontecendo mesmo assim. É, tenho controle sobre minha vida à este ponto.

Foi aquele frio no estômago, facilmente confundido com enjôo ou como se algo vivo se remexesse dentro dele — as famosas borboletas -, em junção da sensação contrária dentro do peito: aquele calor, aquele aperto, aquela velocidade dos movimentos cardíacos combinando perfeitamente com a velocidade dos sentimentos que lutavam por espaço dentro de mim. A perda de força nos músculos — as famosas pernas bambas -, o formigamento em cada pedaço de pele e todos os cinco sentidos — ou mais: ainda não tinha descoberto — em alerta vermelho.

Tudo isto por apenas um homem, uma pessoa, um ser: Luke Stewart.

Luke é um homem atrativo, e isto também não era novidade para mim. Aquele moreno alto, de olhos cor de mel, cabelos rentes e sorriso torto era uma inspiração de arte. Olhos sérios e sorrisos fáceis. Palavras inteligentes e voz encantadora. Eu tive anos para desmontar a imagem de Luke em milhões de detalhes e eu já conhecia cada um deles. É claro, como um amigo.

E eu tive anos para que todo o carinho e todo o amor que eu sentia por Luke começasse a se transformar em algo além disto. Não, não foi amor à primeira vista — aliás, consegui-lo fazer rir das minhas piadas era quase impossível e eu levei tempos até fazê-lo se acostumar comigo e relaxar na minha presença. E então eu descobri que ele também era um palhaço, mas um palhaço discreto, ao contrário de mim, que sou espalhafatoso. Viramos amigos, então melhores amigos, e então colegas de trabalho.

Eu não sou idiota, sei muito bem que estou apaixonado por ele. Eu não sei exatamente quando isto começou, mas eu lembro vividamente de quando percebi que podia encarar seu rosto o dia todo sem cansar. Logo depois, reprimi completamente o pensamento. E todos os que seguiram.

Mas então eu admiti. Antes de admitir para mim mesmo, admiti para ele, sem que eu sequer percebesse o que estava fazendo. Estava bêbado e não é como se eu dissesse: Hey, estou completamente apaixonado por você, Luke, tanto que dobrei a dose de ansiolítico, porque antes eu era gay enrustido e agora eu sou um gay enrustido e apaixonado, o que torna tudo mil vezes pior. Mas eu conhecia Luke por três anos agora e ele também me conhecia por três anos — o que, por incrível que pareça, meu cérebro não foi capaz de raciocinar na hora -, então ele soube traduzir cada mínimo gesto e palavra que eu disse.

E ele me beijou.

Conclusão: a dose foi triplicada.

No dia seguinte ao do acontecimento no bar, nós cumprimos o papel de fingir que nada havia acontecido. Nada havia mudado. Éramos dois amigos que trabalham juntos e que, na noite anterior, houveram bebido e cantado em um bar no meio da cidade. Foi conveniente o álcool porque podíamos fingir, em último caso, que tudo foi esquecido de ambas as memórias, embora estivesse claro e estampado com tinta permanente em nossas testas que nossos narizes cresciam a cada palavra mentirosa que saía de nossa boca.

O talento que Luke tinha para cantar, não era o mesmo para atuar. Ele seria um péssimo ator e, olha que novidade, eu também. Nenhum assunto fluiu, por cerca de três dias, onde apenas nos encarávamos de forma estranha e tínhamos conversas monossilábicas. Estes três dias foram os piores, ainda piores do que quando, logo após, paramos de nos falar completamente. Porque ali eu percebi que eu queria contar para ele, camuflado de piadas sem graça, sobre um cara que havia me beijado em um banheiro de um bar. E eu não podia.

Que loucura, não?, eu perguntaria. E ele daria um jeito de retribuir as gracinhas, enquanto me sondava para ver se era sério. Se percebesse que era algo de importância, daria um bom conselho, para logo nos rirmos outra vez.

Mas isto não aconteceu.

Eu sou uma pessoa alegre, então podia afirmar, com toda a minha certeza, que eu nunca havia chorado tanto em minha vida quanto nas últimas três semanas. A ansiedade não me fazia ficar em forma de bola na minha cama chorando até dormir, pelo contrário, então foi fácil perceber que minha vida havia virado do avesso quando isto aconteceu todas as noites que se seguiram. O problema não era a ansiedade, era o coração apertado.

Eu tive mais de três semanas para que a ficha finalmente caísse sobre o que realmente aconteceu naquela quarta-feira. E o que aconteceria em seguida: jamais seríamos os mesmos novamente. O que era muito trágico, porque eu já não sabia quem eu era sem Luke, e eu não queria descobrir por nada no mundo.

Adentrei no meu setor da empresa, e logo que vi Luke, o cumprimentei com um "bom dia" falsamente cordial. É claro que eu fraquejei no momento em que os olhos cor de mel pousaram em mim, mas eu me manti firme e forte, e abri um sorriso rotineiro ao cumprimentá-lo e receber a mesma falsa cordialidade dele. Adentrei em meu escritório em dois toques e fiquei lá dentro pelo que eu esperava ser o resto do dia.

O problema é que meu trabalho era intercalado com o de Luke, ou seja, tínhamos que trabalhar juntos de uma maneira ou de outra. Meu pai havia se arrependido de pôr nossos escritórios lado a lado, porque passávamos gargalhando, e agora que tudo havia sido engolido pelo completo silêncio, éramos nós dois que nos arrependíamos do fato.

Engoli em seco, remexendo na gravata, quando um rosto surgiu na abertura da porta que interligava nossos escritórios.

— Rob.

Dei um pulo no lugar, sequer importando-me em virar para ele, já que sabia quem era. Eu ouvia a maldita voz até em meus sonhos. Senti meu rosto avermelhar, mas me recusei a ver a obra prima de beterraba que havia se tornado, no reflexo de um dos retratos de vidro.

Havia ficado tão envolto com meus próprios pensamentos que sequer ouvi a porta sendo aberta.

— Luke — falei, tentando controlar as batidas do meu coração. — Bom dia — cumprimentei, ajeitando os papéis já ajeitados em cima de minha mesa, depois de relanceá-lo rapidamente. Ignorei o fato de que já havia dado "bom dia" há cerca de uma hora atrás.

— Bom dia — murmurou ele, com os olhos em mim quando me inclinei na mesa para pegar um post-it por... Bom, por motivo algum. — Posso entrar?

— É claro. — Ri, idiota, como eu faria se achasse a pergunta estranha.

Não era nem um pouco estranha, afinal, já que não éramos mais amigos, mas desconhecidos com uma memória desagradável — da parte dele, é claro — que eram forçados a conviver diariamente.

Luke caminhou até ficar em frente à minha mesa, sério, com os olhos em mim. À esta altura, eu já não podia desviar o olhar do dele.

Sou um homem adulto, repeti para mim mesmo. Aja como tal.

— E-eu... — gaguejei, para logo pigarrear. Ri, fingindo achar graça ao ver as sobrancelhas escuras erguerem-se. — Eu já terminei todos estes. — Indiquei a pilha de papelada à minha frente. Não que eu tivesse feito hoje, já que hoje eu não havia feito nada além de encarar o vazio com a mente a mil.

Luke desceu o olhar para os papéis, franzindo o cenho, e encarando-os por um tempo exagerado como se sequer pudesse enxergá-los ali. Remexi-me na cadeira, vendo-o piscar e arquear as sobrancelhas.

— Claro — disse, balançando a cabeça com um sorriso que logo desvaneceu. — A papelada da advocacia. É claro. Foi por isto que vim — falou, incerto, juntando a pilha de papéis com suas mãos.

Pisquei algumas vezes, tentando assimilar a informação.

— Não foi por isto que veio? — perguntei, mesmo que tivesse acabado de ouvir do contrário de sua boca. Afinal, ele acabava de mentir na cara dura. Ele parou, abraçando a papelada em seus braços, com os olhos em mim.

Engoli em seco.

— Foi — disse, simplesmente, com a voz tão fraca que mal ouvi. Assenti, forçando um riso para tentar descontrair, mas que descontraiu foi nada.

Apesar disto, Luke relaxou a expressão tensa e sorriu mínima e apreensivamente. Permaneceu parado com o olhar sobre mim por tempo suficiente para que eu sentisse teria um ataque cardíaco. Mas não parecia que diria mais nada, pela firmeza com que os lábios eram frisados um no outro, então fiquei mais agitado ainda.

— Sabe que hoje vai aparecer uma garotada por aqui para as vagas abertas, né? — perguntei, no ímpeto de que quebrasse o clima estranho. Luke demorou mas assentiu, forçando um sorriso. — Pensei que... Já que temos que entrevistá-los juntos, podíamos fazer o complexo do policial bom e o policial ruim.

Ergui os ombros, vendo-o ajeitar a papelada nos braços e trocar de perna para apoio, depois de tentar a primeira conversa em semanas. Era algo que eu realmente diria se estivesse sendo eu mesmo. Porque antes daquela quarta-feira, eu realmente havia pensado nas entrevistas que selecionaria os jovens aprendizes para trabalhar na Turner Imóveis. E depois daquela quarta-feira, eu já não era eu mesmo.

Fiz uma careta pelo pensamento.

Ele riu, e me senti tenso por um momento, percebendo que não parecia nada forçado. O que seria de mim se ele começasse a desenvolver um segundo dom, como o da atuação?

Eu ficaria louco.

— Parece uma boa — disse ele, diminuindo o sorriso ao me encarar. — Você quer ser qual? — perguntou, mas pela maneira engraçada como me olhava, supus que já sabia.

Finalmente a tensão em meus ombros começou a aliviar. Ele ainda me conhecia, ele ainda sabia quem eu era, mesmo que eu viesse a esquecer. Sorri verdadeiramente para Luke pela primeira vez no que pareceram eras.

Ergui os ombros.

— Você sabe, eu quero ser o malvado — falei, soltando um riso.

Luke assentiu, com a expressão divertida, mas ela logo mudou. Aproximou-se até que encostasse o quadril em minha mesa, o que fez meu sorriso vacilar.

— Mas você sabe que os papéis estão invertidos. — Não era uma pergunta. Inclinou a cabeça, sustentando meu olhar. — Você não se parece nada com o policial malvado — explicou, fazendo com que meu sorriso se desvanecesse aos poucos. Pisquei muito, não conseguindo pensar em nada além dele. — Você não é malvado, Rob.

Eu soube que as coisas realmente haviam mudado porque não havia sombra alguma de humor nos olhos mel e nem mesmo em seu tom. Percebi que as coisas haviam mudado porque a vontade de rir não veio, e nem a piada que se formaria em minha mente e eu me forçaria a compartilhar com Luke.

Senti o estranho ímpeto de começar a chorar, não entendendo o que ele queria dizer com aquilo. Não compreendendo o que havia naqueles olhos tão incomuns e tão encantadores.

Ele queria dizer que já não pensava que eu era uma escória para o mundo? Queria ele dizer que me perdoava pelo beijo? Mas como ele poderia me perdoar, se foi ele que me beijou?

Eu não era malvado, mas ele também não.

Precisava haver um vilão na história?

— E você é? — perguntei, começando a ficar nervoso.

Luke também havia perdido o sorriso, e uma pontada de culpa passou por seu rosto. Engoli o choro, pensando que toda a ansiedade voltara como uma bomba de encontro à mim.

— Eu não queria ser — murmurou, tão baixo que me esforcei para ouvir.

Surpreso e também confuso, tentei formular algo para dizer em resposta, mas absolutamente nada vinha à minha mente.

A tortura acabou quando meu pai abriu a porta com uma careta animada, embora as olheiras estivessem visíveis em seu rosto. O terno estava perfeitamente alinhado, o rosto corado — provavelmente por subir as escadas, já que não suportava o elevador -, e um sorriso no rosto.

— Crianças, trabalho em campo hoje! — anunciou, sorrindo de ponta a ponta e indicando a porta com a cabeça. — Venham, tirem essas expressões melancólicas do rosto e vamos fechar alguns negócios!

Luke não esperou mais um segundo e deu as costas, afastando-se de mim novamente em direção ao seu escritório. Meu pai quase saía da porta quando percebeu meu olhar pesado. Desviou os olhos castanhos para a porta por onde Luke passara — a segunda porta, ligada ao escritório de Luke — e logo os voltou à mim. Soltou um suspiro pesado.

— Até quando isto vai durar? — perguntou ele, indicando o escritório de Luke ao lado. É claro que ele havia percebido que já não nos falávamos direito. Dei de ombros. — Vocês precisam fazer as pazes.

Suspirei, passando a mão pelos cabelos. Não aguentava mais o discurso de "fazer as pazes" como se fosse algo tão simples. Não precisávamos fazer as pazes porque não estávamos brigados. Era muito pior do que uma briga. Era silêncio atrás de silêncio, por um motivo tão profundo que eu sequer entendia.

Seria vergonha? Preconceito? Medo? Arrependimento?

Eu já não tinha ideia.

— Onde vamos? — perguntei, ignorando sua pergunta. Pude ouvi-lo suspirar e balançar a cabeça, descrente, antes de dar-se por vencido.

Em seguida, o dia de trabalho finalmente começou, já que meu pai estava estranhamente animado.

Não que esta não fosse a verdadeira face de Frederich Turner, mas depois da briga feia com Mike a respeito de Becca, ele andava meio para baixo e meio irritado. Eu não via a Becca desde o dia que Rich voltou para sua cidade natal, já que eu havia me atolado em trabalho, doces e remédios, mas eu esperava realmente que isto houvesse sido resolvido. Seja o que for, eu estava aliviado por vê-lo voltar à sua antiga forma.

Apesar do meu pai ser o proprietário da Turner Imóveis e não precisar fazer o trabalho em campo, já que sua função já era enorme ao ter que gerenciar todos os setores da empresa, ele o fazia mesmo assim. Aliás, suponho que ele adora sair daquele escritório e perambular pela empresa — se infiltrava em todos os setores por conta própria — e pela cidade.

Do contrário, eu e Luke precisávamos realmente sair de vez em quando. Nossa função, como gerentes administrativos, ia desde toda a análise das performances, resultados, gastos, riscos e garantias da empresa até a parte de marketing e produção. Sem falar em todos os relatórios que deviam ser feitos, e toda a papelada — por mais que fosse cuidada pelos assistentes e os outros setores, nós devíamos revisar tudo por precaução — que envolvia a empresa. Era muita coisa, e foi exatamente por isto que Luke subiu de cargo, para dividir a gerência comigo.

E estava sendo um inferno.

Pelo resto do dia, acompanhamos meu pai no fechamento de alguns negócios na parte do financiamento, divulgação e parceria com outras empresas. Almoçamos junto com o pessoal em menos de uma hora e voltamos para o serviço. Tive que ficar no meio na papelada enquanto Luke saía novamente com meu pai, já que não podíamos deixar a gerência vazia por muito tempo: atolava de papéis e e-mails não respondidos.

Ali pelas quatro horas, entrevistamos os futuros estagiários.

Apesar de Luke houver deixado claro que eu não parecia com o policial malvado — e eu sabia que ele tinha razão -, ele começou com as perguntas boas. Informações pessoais, objetivos ao trabalhar na nossa empresa, quais horários estaria em disponibilidade. E eu, alegremente, fiquei com as mais pesadas. Histórico de trabalho, experiência em campo, qual o diferencial de seu trabalho e se a pessoa atendia a todos os requisitos que procurávamos.

Isto me fez sorrir, mesmo que eu me xingasse mentalmente. Luke, depois de eu insistir muito, sempre acabava fazendo o que eu pedia, mesmo que estivesse a contragosto. Uma das muitas coisas que me fizeram cair como um patinho no abismo que era estar apaixonado por ele.

— E você realmente acha que dá conta de todos os requisitos necessários para manter uma empresa como esta? — perguntei, fingindo estar muito sério, ao encarar a garota loira.

Ela alargou um pouco os olhos por detrás dos óculos retangulares, remexendo-se na cadeira em frente à nós.

Era uma sala destinada à este tipo de situação. Estávamos sentados em uma mesa destinada à, pelo menos, vinte pessoas, mas ocupada apenas por nós três. Eu e Luke lado e lado e a garota, sétima pessoa a ser entrevistada para o cargo de estagiária, do outro lado.

— É claro — disse, mas seu tom era interrogativo. — Bom, eu vou estar estagiando e não gerenciando a empresa — afirmou, confusa.

Sorri.

— Todos os setores e todos os funcionários, em seus respectivos cargos, têm a responsabilidade de manter a Turner Imóveis funcionando na mais perfeita ordem. — Ergui os ombros, fazendo-me de desentendido, ao relancear um cômico Luke ao meu lado.

Antes que a garota reiniciasse o gaguejo, Luke interferiu ao sorrir amavelmente e tranquilizá-la com outras perguntas amenas. Ela não conhecia Luke para saber que a maior parte dos sorrisos dele não eram genuinamente para acalmá-la e sim, para impedir que risse da minha atuação.

Eu não conseguia ser tão assustador quanto ele na arte do policial mau, mas eu estava fazendo um trabalho razoável. E ele também, com os sorrisos e as perguntas, que anteriormente foram escritas em uma caligrafia horrível num pedaço de papel.

Pelo menos, naquele momento, podíamos estar um ao lado do outro em tranquilidade, em um clima ameno. Não precisávamos forçar cordialidades e pensar em conversas que vão além de "bom dia" ou "você já terminou esta papelada?".

E eu nem sequer começaria a pensar no quão triste era precisar de algo assim para ficarmos numa boa.

— E qual característica sua é um diferencial quanto às características de seus concorrentes? — perguntei, juntando as mãos na mesa e arqueando uma das sobrancelhas na maior cara de "Richard Turner" que consegui. Meu irmão sim, faria o policial do mal perfeitamente.

O rapaz, de vinte e um anos, usava uma roupa bem longe de ser social, mas possuía uma atitude confiante. Focou os olhos castanhos em mim, parecendo pensativo por um momento, mas logo deixou-se sorrir.

— Eu sou muito criativo, tenho ideias ótimas para a área de marketing e sou muito esforçado. — Eu estava prestes a questionar-lhe novamente, quando um sorriso diferente se formou em seu rosto e ele acrescentou: — E eu tenho muito, muito bom gosto.

A sentença teria passado desapercebida não fossem os olhos maliciosos e fixos em mim, e o sorriso de canto que o rapaz usara. Apesar disto, eu ainda tive que tomar alguns segundos para saber se não estava imaginando coisas.

Pisquei algumas vezes e, ao ver o sorriso do rapaz crescer, minha postura do policial malvado se desfez completamente. Senti todo o sangue do meu corpo subir para o meu rosto e o embaraço tomar conta de cada canto de meu corpo.

A vergonha era ainda maior ao pensar na presença de Luke ao meu lado, por tantos motivos diferentes que nem podia contar. Por estar apaixonado por ele, por houver sido beijado por ele, por sentir minha sexualidade exposta por ele, por mil outros motivos. Alarguei os olhos ao relancear rápido em sua direção e ver que ele tinha os olhos fixos no jovem à nossa frente com uma expressão séria.

Eu admito que não era a primeira vez que algum homem flertava comigo. Quem sabe exista mesmo o famoso gaydar? Não importa, porque eu nunca, jamais, retribuí este tipo de trova. Não é como se eu tivesse preconceito comigo mesmo, eu só tinha um medo imenso de sair por aí sendo quem eu sou e gostando do tipo de pessoa que gostava. Um medo não tão irracional assim.

Seria irracional para alguém que não houve as notícias ao redor do mundo. O mundo é um lugar assustador para ser você mesmo.

Foquei os olhos no rapaz, que ainda flertava com os olhos, embora agora tivesse uma expressão divertida ao me ver semelhante à um pimentão. E isto era justamente o que eu não precisava depois de tudo que houvera acontecido.

No fundo, estava com medo que o flerte do rapaz fizesse Luke me odiar um pouquinho mais, mesmo que não houvesse muita lógica por trás disto.

— Erm... — Remexi-me na cadeira, desconfortável, depois de alguns segundos.

Qual a próxima pergunta? Qual a próxima pergunta?

Minha cabeça não funcionava.

— Muita gente tem. — Luke pronunciou-se, em um tom tão duro que girei o rosto para ele com os olhos alargados. Tinha o cenho franzido, os lábios frisados um no outro, e uma expressão enraivecida. — Alguma coisa que seja interessante?

Ainda chocado com a reação de meu melhor amigo, arrumei a gravata em meu pescoço, não querendo olhar para o rosto de nenhum dos dois. Remexi nos papéis em minha frente, nervoso, mas a resposta do rapaz, que eu lembrava chamar-se Jason, fez com que eu erguesse os olhos.

— Sim. — Agora seus olhos estavam em Luke, e tinha um ar desafiador pairando sobre ele. — Não me deixo abalar pelos obstáculos no caminho, sou muito decidido e dou um jeito de contornar todos eles.

Ok, admiti, isto está indo para um lugar terrível.

Luke, depois de um momento em silêncio — e depois de eu quase poder ouvir sua mandíbula trincar -, ajeitou a postura com um olhar sádico para o garoto atrevido.

— Alguns obstáculos são maiores do que parecem e acabam por derrubar rapazes presunçosos e metidos a espertos — declarou, cruzando as mãos em cima da mesa de maneira semelhante à que eu houvera feito mais cedo.

Havíamos oficialmente trocado de papel.

À esta altura, meu coração pestanejava entre quebrar minhas costelas ou sair pela minha boca. Eu não sabia se me sentia triste, ofendido, assustado, lisonjeado ou feliz da vida com a reação de Luke. Optei pela confusão que tomou conta de cada parte de mim. E bom, pela pena que senti do rapaz pelo tom duro que faria qualquer um quebrar ao meio.

— E isto seria incontestável em uma empresa como esta — continuou ele, depois de desviar o olhar fixo do outro, juntando os papéis à sua frente com um expressão altiva. — Está liberado.

Jason focou, então, os olhos em mim, como se esperasse que eu tomasse a frente da situação. Mas eu não era louco de fazer isto, não vendo as juntas brancas dos dedos de Luke ao apertar os currículos que tinha em suas mãos.

— N-nós ainda temos muitas entrevistas pela frente e o tempo é curto — menti, para explicar o motivo que fez Luke praticamente expulsar o rapaz da nossa sala. Forcei um sorriso, completando com a frase que dizemos à todos: — Entraremos em contato, caso você seja selecionado.

— Pouco provável — resmungou Luke, em um tom não tão baixo assim, que me fez pigarrear em desconforto.

Assim que Jason saiu, parecendo um tanto quanto desgostoso pela situação, pensei que ia sufocar naquela sala com Luke. A vergonha ainda repercutia em mim, e o clima se tornou mil vezes pior naquele silêncio pesado, enquanto eu tentava à todo custo fazer meu rosto esfriar.

Não atrevi-me a virar em sua direção, nem em abrir a boca, e percebi que ele fez o mesmo. Mas seu humor havia cambiado para um sinistro, e automaticamente, sem precisar dizer uma palavra para mim, eu continuei no papel de policial bom. Eu o conhecia à este ponto.

Depois de mais onze entrevistas, eu saí daquela sala como se minha vida dependesse disto. E dependia, já que eu não conseguia respirar direito e precisava tomar um comprimido a mais naquela tarde, sob os olhos mal-humorados de Luke. Dei um riso nervoso ao me despedir, dizendo que estaria no escritório caso ele precisasse e evaporei no ar antes que ele respondesse.

Pelo resto daquele dia, trabalhamos separados até a hora de ir embora. Aliás, sequer vi quando Luke foi embora, já que havia saído mais cedo.

Enquanto reflexionava, sozinho, no meu escritório, me permiti admitir para mim mesmo: ok, aquilo foi muito estranho. E eu odiava pensar que aquilo foi uma cena de ciúmes, mas esta conclusão simplesmente pipocava em minha mente quanto mais eu esperava que desvanecesse. Eu só havia visto Luke com ciúmes uma vez em minha vida, quando ele me encontrou conversando com a Emma.

Luke havia começado a namorar, e embora eu sentisse uma pontada de ciúmes por ele sumir sem deixar rastro durante todo o fim de semana, eu relevei o assunto. Quando Emma apareceu, no entanto, atrás de seu "namorado", confesso que desconfiei se tratar de Luke. O problema, além de Emma ser muito bonita — embora isto não me afetasse além da admiração -, é que ela tinha ficado toda sorrisos e olhares para cima de mim. Não era tão comum assim todo aquele flerte descarado, mas eu soube reconhecer do que se tratava. E pensei que, se esta fosse mesmo a namorada do Luke ou não, ela não merecia o namorado que tinha.

Luke apareceu no terceiro andar logo em seguida, enquanto eu retribuía os flertes da mulher por mais tempo do que gostaria. Eu tirava uma das mechas negras de seus olhos e o colocava para trás de sua orelha quando ele nos interrompeu com o mesmo semblante tenebroso com o qual encarara o coitado do Jason. Eu não saberia dizer com quem ele ficou mais furioso, mas julgando pelo fato de haver me perdoado depois de um par de semanas e terminado com Emma, imagino que tenha sido com ela.

E lembrar disto me deixava com mais medo ainda.

Cheguei em casa e nem ao menos me dei ao trabalho de comer alguma coisa antes de subir as escadas e atirar-me em minha cama. Depois de um bom tempo encarando o teto, resolvi tirar o terno de uma vez e tomar um banho. Vesti qualquer coisa antes de descer as escadas e, tentando fazer meus braços esticarem ao dobro, carreguei uns dez pacotes de bolachas e salgadinhos pro meu quarto, equilibrando uma garrafa de refrigerante entre o queixo e o peito.

Ok, eu sou péssimo exemplo de adulto saudável.

Assim que voltei ao quarto, fechei a porta com a perna e joguei tudo em cima da cama. Encarei os papéis da empresa em cima da minha mesa e logo o computador ao lado, divergi o olhar entre eles até optar pelo computador. Eu precisava da Netflix, dei-me conta.

Patético!

Mas eu não tive chance de ser mais patético ainda, porque ouvi alguém bater na porta do meu quarto. Fechei os olhos, suspirando. Eu já não aguentava mais essas conversas com minha mãe a respeito da minha medicação e dos meus problemas e o porquê de eu estar "brigado" com Luke.

Eu tenho vinte e sete anos, pelo amor de deus!

— Entra — resmunguei, já me preparando psicologicamente, enquanto abria um pacote de salgadinho.

Só que não era minha mãe.

Congelei no lugar, com o salgadinho à meio caminho até minha boca.

Luke estava usando um tênis de correr e uma roupa de malha usada para suas corridas, mais comum, e para a academia que ele raramente frequentava. Apesar disto, não estava derretendo em suor como era comum de vê-lo, embora o rosto estivesse meio vermelho.

— Seu pai disse que eu podia subir — disse ele, simplesmente, ainda no batente da porta.

Pisquei algumas vezes, tentando raciocinar.

É claro que eu estava pensando em rir e dizer alguma coisa para aliviar o clima, mas eu não conseguia. Não conseguia, porque Luke quase nunca vinha no meu quarto, nem mesmo quando éramos amigos. E agora muito menos.

— Ah. Ok — consegui formular, vendo-o assentir ao desviar o olhar pelo meu quarto como se fosse muito interessante.

Aquela vontade de chorar voltou com força, pela estranheza que nunca devia haver entre a gente, mas a afastei ao piscar consecutivamente os olhos.

E Luke desviou o olhar para o chão, parecendo ponderar a respeito de alguma coisa. Bom, eu esperava que fosse a respeito do porquê diabos ele estava no meu quarto com cara de peixe morto sem qualquer explicação razoável! Enquanto isto, eu tentava à todo custo permanecer calmo. Não que funcionasse, é claro.

Remexi as mãos, nervoso, percebendo que o pacote ainda estava nelas. Isto pareceu chamar a atenção de Luke para mim e logo, para a cama atrás de mim lotada de gorduras saturadas. Com um suspiro, ele retirou os fones de ouvido do contorno de seu pescoço e puxou o celular do bolso, largando ambos — conectados — em cima do balcão que havia ao lado da porta. Observei seus movimentos, percebendo que ele estava oficialmente dentro do meu quarto.

E em silêncio.

— Aconteceu alguma coisa? — optei por perguntar, largando o pacote em cima da cama com os outros de seus irmãos.

Achando muito estranha sua reação, percebi que eu não conseguia pensar em nenhuma justificativa para ele aparecer ali quase oito horas da noite.

Luke só então ergueu os olhos cor de mel para mim, e permaneceu com eles ali, em meu rosto. Engoli em seco, perdendo-me nos olhos castanho-claros do rosto moreno, bem enquadrado, com barba de três dias por fazer. Aqueles poderosos olhos peculiares.

— Sim — respondeu, por fim. Franzi o cenho.

Luke, então, quase me deu um infarto com seu próximo movimento. Deu as costas rapidamente e fechou a porta, fazendo com que eu quase tonteasse de nervoso, antes de virar novamente para mim.

Ergueu uma das mãos para puxar o encaixe do fone de ouvido do aparelho celular, fazendo com que a música que repercutia ali agora repercutisse pelo quarto, antes silencioso.

— ... should've somehow realized what you're not to do — cantava o aparelho, e eu juntei as sobrancelhas enquanto tentava me lembrar de que música se tratava. — I don't believe that anybody feels the way I do, about you now...

Não precisou mais do que isto para que eu reconhecesse Wonderwall, de Oasis. Era uma música nova comparada às outras que Luke tanto gostava, mas eu sabia que ele não escutava apenas as músicas de seus bisavós.

Foquei meus olhos nos dele, sentindo um calafrio subir-me à espinha e a respiração começar a falhar. Esperava mesmo não ter um ataque cardíaco, mas eu não estava contando com isto.

— Eu fui correr e esta música tocou na rádio — disse ele, quebrando o silêncio a despeito da música. Pisquei algumas vezes, tentando fazer meu cérebro tentar formular alguma coisa, mas nada saía. — Eu sabia que eu tinha ela em alguma parte das minhas mil playlists, então eu encontrei e coloquei no repeat.

Assenti, ainda meio confuso e meio embaraçado pela situação.

— E ela me trouxe até aqui — completou, erguendo os ombros. Arqueei as sobrancelhas, vendo as comissuras de sua boca elevarem-se minimamente. — Ela me trouxe até você.

E enquanto a música continuava a reproduzir-se no aparelho, e os olhos de Luke continuavam a encarar os meus, eu só conseguia pensar que isto não estava realmente acontecendo. E, ao passo que os segundos tornaram-se minutos, minha mente esvaziou completamente e ficou em branco.

Porque eu só conseguia encarar a figura de Luke em meu quarto, com a porta fechada e com a mesma música tocando pela segunda vez.

Agora seria um bom momento para dizer alguma coisa.

Eu sou um cara ansioso, então é de se estranhar que eu não tenha conseguido mexer um músculo e formar uma palavra até então.

Luke deu um passo em frente, fazendo com que eu prendesse a respiração. E outro, fazendo meu peito doer com as batidas do meu coração. E mais outro, fazendo com que meus olhos ameçassem sair das órbitas, e mais um, finalmente despertando-me por completo.

Pisquei algumas vezes, sentindo os olhos marejarem com toda a informação não dita, e aquela pontada de dúvida que ainda teimava em queimar meu peito. E então todo meu corpo começou a se mexer.

— Ah, eu... Erm... — comecei, sentindo meu corpo começar a agitar e minhas mãos começarem a se torcer em nervosismo. — Luke, eu... — Quase engasguei quando ele recomeçou a caminhar em minha direção. — Esta música é linda. E-eu fico feliz que tenha pensado em mim. D-digo, que... — Embaralhei-me, começando a rir nervoso e gesticular em demasia. — Bom, e-estou surpreso e feliz que você tenha vindo até a-aqui... Q-quer um salgadinho? — perguntei, aturdido com a aproximação, ao girar para pegar em cima da cama.

A mão de Luke fechou-se em torno do meu pulso, impedindo que eu me afastasse. Arregalei os olhos, com medo de erguê-los até o rosto de Luke e ficasse óbvio tudo que se passa em mim.

Não vou ser hipócrita ao dizer que olhos azuis são feios ou perturbadores, mas eu sempre senti como se qualquer um que olhasse em meus olhos claros pudesse enxergar minha alma. É como se eu não pudesse ter segredo algum, porque meus olhos azuis denunciariam qualquer coisa de forma tão clara quanto o eram minhas íris. Olhos escuros é que carregavam toda a força, misteriosos e poderosos, e apesar dos olhos de Luke não serem tão escuros, eram peculiares o suficiente para deixá-lo enigmático.

Ao contrário de mim.

— Rob — murmurou ele, puxando ainda mais meu corpo em sua direção, pelo pulso. Fechei os olhos, ainda de lado, sentindo todas as terminações nervosas do meu corpo vibrarem com o simples toque em meu braço. — Por favor, não foge. — Encostou a testa na minha têmpora, roçando o nariz no meu rosto. — Não foge de mim.

Ora, se isto não era o que eu precisava para começar a tremer da cabeça aos pés.

Senti seus lábios encostarem em meu rosto, em um leve roçar que fez com que um arrepio subisse pela minha coluna.

Luke desceu a mão de meu pulso para a minha mão, enlaçando os dedos nos meus de uma forma tão singela que fez com que a vontade de chorar voltasse. Apertei meus dedos contra as sua mão, como se isto fosse recuperar meu equilíbrio. E logo, seus lábios encontraram a comissura da minha boca.

Ele, então, levou a mão esquerda para o meu rosto, girando-o em sua direção. Não abri os olhos, mas isto não pareceu afetá-lo enquanto continuava a roçar os lábios contra minha boca. Selou-os, finalmente, com os meus em um aperto macio, e eu logo perdi a força das minhas pernas, volvendo a apertar sua mão na minha.

Puta que pariu.

A mão em meu rosto deslizou para a minha nuca ao passo que os lábios alheios apertavam-se ainda mais contra os meus. Eu já estava completamente de frente para ele, e tinha uma das mãos, sem perceber, segurando em seu braço para recuperar o equilíbrio.

Isto não pode estar acontecendo.

Eu segurava a respiração, de forma que parecia não haver mais ar em nosso entorno, e meu corpo inteiro queimava. Me arrependi amargamente de haver tomado tanto remédio naquele dia, porque agora eu tinha a sensação de que faziam mais mal do que bem.

Soltei um suspiro involuntário e logo senti sua língua abrir espaço entre meus lábios para encontrar a minha. E logo a encontrou.

Ok, eu não planejava aquele gemido com tão pouco!

Era óbvio que Luke perceberia, mas ele não pareceu odiar ao aprofundar o beijo e deslizar a língua pela minha em movimentos provindos dos deuses.

Eu senti meu corpo inteiro amolecer com o contato primitivo entre nossas bocas. Em que ano estávamos, eu já havia esquecido. Onde estávamos, eu não fazia ideia. Se havia chão debaixo dos meus pés, eu duvidava. Mas havia Luke grudado em mim, e disto meu corpo era incapaz de esquecer, mesmo que por um segundo.

Aquele era Luke. Aquele era seu cheiro masculino, aquele era seu corpo robusto da mesma altura que a minha, aquela era a mesma boca que eu beijara três semanas atrás. Aquelas eram as suas mãos, que me grudaram na parede pichada daquele banheiro de bar.

Luke.

Ele largou minha mão enlaçada na sua para desviá-la à minha cintura. Fechou os dedos ali e então alcançou a base da minha coluna, sem deixar meus lábios, para puxar meu corpo e literalmente colar no dele. Levei uma das mãos para abraçar-lhe, também, pelo contorno da cintura e a outra para seu rosto. Podia sentir a barba, teimando em surgir em seu rosto, na pele da minha mão. E o peito forte, de quem costuma se cuidar, grudado no meu ao imitar os mesmos movimentos ao subir e descer pela respiração acelerada. E os cabelos curtos, quando deslizei a mão para seu pescoço.

Era maravilhoso.

Sequer nos damos conta que a música havia cessado, devido à bateria fraca de seu celular.

Eu tinha vinte e sete anos, mas Luke era o primeiro homem que eu beijava. Para alguém que sempre esteve ciente da própria sexualidade, era um fato um tanto quanto triste e repressivo, mas naquele momento, eu não conseguia parar de pensar que estava esperando por ele.

Teria revirado os olhos pelo pensamento idiota, mas os girei em órbita pela sensação da língua de Luke ao encontrar o meu pescoço. Senti sua respiração em meu ouvido, seu braço forte me apertando contra ele e a mão fechando em meus cabelos, também curtos.

Luke estava todo por cima de mim, mesmo que estivéssemos em pé.

Eu não conseguia respirar.

— Rob — murmurou ele, voltando os lábios para os meus e grudando a testa da minha. Roçou nossos narizes. — Tudo bem?

Abri os olhos devagar, piscando muito, ao dar-me conta de que eu havia sentido tudo e não visto nada. Talvez por isto me sentisse tão tonto quanto estaria depois de andar na montanha russa. Deparei-me com os olhos cor de mel, castanho-amarelados, tão de perto.

Estavam limpos, desprovidos de fingimento ou falsa cortesia, e cheios de palavras não ditas que eu tentava compreender. As maçãs de seu rosto estavam coradas e os lábios avermelhados. Pisquei algumas vezes, vendo que ele não havia se afastado de mim como da última vez. E percebendo que eu nunca pensei que veria tanto detalhe de seu rosto quanto agora.

Luke sorriu de canto ao desgrudar a testa na minha e desviar o olhar para meu corpo grudado no seu. Um sorriso que eu ainda não reconhecia, embora fosse mínimo. Ergueu os olhos para mim, enquanto eu ainda lidava com a sobrecarga de informação.

— Como cafeína — sussurrou ele, parecendo divertido ao me observar.

Franzi o cenho, tentando descobrir se ele se referia ao meu corpo ainda trêmulo em seus braços. Eu tinha uma certeza absurda de que, se ele me largasse, eu me espatifaria no chão.

— Rob — chamou de novo, juntando as sobrancelhas. — Fala alguma coisa.

Abri a boca, desviando os olhos por todo o seu rosto, tentando encontrar ao menos uma palavra para dizer. Mas nada vinha. Apertei ainda mais seu corpo contra o meu, tentando dizer que não se afastasse só porque eu não conseguia formular nem uma maldita palavra.

— Rob, fala alguma coisa antes que eu tire sua roupa aqui para descobrir mais sobre seus "dotes de Don Juan" — acrescentou ele, arqueando uma das sobrancelhas escuras.

Bom, funcionou. Alarguei os olhos com a parte da roupa, mas logo eu estava rindo — mesmo que nervoso — com a referência de uma das nossas conversas idiotas de alguns meses atrás.

Então ele ergueu as sobrancelhas, esperando ainda que eu dissesse alguma coisa. Engoli em seco, perdendo o sorriso, ao encarar com interesse seu queixo.

— Pensei que me odiasse — murmurei, ainda com os dedos fechados na parte traseira de sua camiseta.

Luke ficou sério, mas inclinou a cabeça para o lado com interesse, procurando meus olhos. Assim que os encontrou, negou com a cabeça.

— Não, eu te amo — disse, com tanta simplicidade que fez eu quase ter um ataque nervoso novamente.

Talvez eu tenha reagido surpreso demais pela forma divertida com que me encarou.

— Eu sei que é estranho dizer isto — disse ele, ainda com os olhos em mim —, mas é que eu sempre te amei. Você é meu melhor amigo e fez tanta coisa por mim que... — Parou, suspirando. — Eu só não pensei que isto pudesse aumentar, que eu pudesse sentir ainda mais por você, mas daí... Naquele bar, você me diz uma coisa destas e eu...

Sorri por isto, conseguindo apenas então frouxar o aperto e me afastar milimetricamente. Mas meu coração parecia querer sair do peito, e tudo havia aquecido com aquelas palavras.

— Eu não disse nada — falei, mesmo que soubesse à que ele se referia.

O sorriso que veio em seguida começou de forma mínima nos cantos de seus lábios e logo se alargou em um sorriso completo, com dentes brancos à mostra e tudo. Me senti estranhamente envergonhado ao ver o mesmo sorriso de todos os dias, mas agora tão de perto.

— Ah, você disse sim — afirmou ele, fazendo com que eu desse um riso nervoso e desviasse o olhar. Mas ele aproximou o rosto do meu, forçando com que eu o olhasse novamente. — Você disse muito.

Em seguida, colou a boca na minha mais uma vez, desta vez com mais destreza. Eu ainda estava meio avoado com tudo, mas levei ambas as mãos ao seu rosto, não querendo que acabasse por nada no mundo.

Tanto tempo perdido. Tanto tempo reprimindo a melhor sensação do mundo. Tudo bem que, talvez com outra pessoa, não fosse tão maravilhoso porque eu não estaria tão apaixonado. Mesmo assim, teria sido uma ótima experiência e eu não tive a chance de tê-la por medo.

Medo de quê? Eu já nem sabia.

— Eu te amo também — sussurrei, contra seus lábios, como um segredo, sentindo-o sorrir.

Luke lambeu meus lábios em um movimento que me fez suspirar.

— Eu sei — sussurrou de volta, sorrindo e voltando a me beijar.

As mãos de Luke já haviam adentrado por debaixo da minha camiseta e faziam minha pele inteira arrepiar. Eu não mais conseguia abrir os olhos, não com aquela língua atrevida enrolando-se com a minha de maneira sensual. Tudo em Luke era sensual. Absolutamente tudo.

O resmungo que ele soltou fez com que o frenesi se interrompesse por um instante e eu abrisse os olhos. Encontrei um sorriso de canto, meio acanhado, meio divertido, no rosto moreno. Arqueei as sobrancelhas, fazendo o mesmo em seguida.

Eu havia praticamente o encurralado contra meu guarda-roupa, e acho que não fui muito delicado pela maneira como ele se encontrava. Mas eu sabia exatamente o motivo daquela careta engraçada, porque ele também havia feito o mesmo comigo naquele banheiro.

É que era estranho. Não estranho ruim, pelo menos não para mim, mas estranho diferente. Porque éramos nós que empurrávamos garotas contra a parede e era meio engraçado estar do outro lado da situação.

Era a peculiaridade da relação entre dois homens, dei-me conta, e eu estava achando encantador.

Luke, depois de me encarar com intensidade por um instante, desceu os olhos para nossos corpos, não tão juntos quanto eu gostaria. Pousou ambas as mãos em cada lado do meu quadril e me puxou, ainda com os olhos embaixo, até que grudasse no seu.

Engoli a lamúria antes que ela saísse, mas com muito esforço.

— Puta merda — gemeu ele, erguendo os olhos para mim, com uma expressão incrédula. — Puta que pariu, Rob. — E logo, tomou meus lábios outra vez.

Praticamente girou meu corpo para o lado e grudou minhas costas no móvel, invertendo as posições. Desceu as mãos para o meu traseiro, o que me deixou muito nervoso, diga-se de passagem, mas logo desviou as mãos para toda parte corporal que encontrava pelo caminho. Da mesma forma que eu o fazia nele.

Estava friccionando uma ereção na outra, de forma delirante mesmo que por cima da roupa, enquanto eu deslizava os lábios por todo o seu pescoço tentador. Então ele ergueu minha camiseta antes que eu sequer me desse conta, jogando-a na cama ao lado.

Só então eu percebi que estava usando o pijama de nuvem que Becca me deu de aniversário. Aquele tipo de pijama que só se usa perto da família, ou escondido no quarto. O tipo de pijama que não se mostra, de forma alguma, para um amigo ou para um amante. Só não fiquei com mais vergonha porque não havia mais nenhum nível para subir.

Ao menos, era o que eu pensava.

Os lábios começaram a descer do meu pescoço para o meu peito nu, roçando por toda a pele arrepiada. Deslizou a língua pelos mamilos eriçados. O que é que não estava eriçado no meu corpo? Fechei os olhos, não sabendo em que me segurar, quando a boca desceu até acima de meu umbigo.

— Para de tremer — murmurou ele, segurando minha mão que o fazia. — Está me deixando nervoso — admitiu, com um sorriso meio sem jeito.

— Não consigo — falei, observando seu rosto perigosamente perto do tecido fino da calça de pijama. — Isso é gostoso pra caralho, Luke — falei, meio abismado.

A risada que ele deu fez cócegas em minha barriga, e ele encostou os lábios ali em seguida, enquanto me abraçava pelo quadril. Deslizou, então, uma das mãos por cima da ereção visível até demais. Abri a boca, observando o ato com incredulidade.

Até minutos atrás eu estava prestes a comer mil pacotes de gorduras extras enquanto me afogava em alguma comédia romântica da Netflix, e agora Luke estava ajoelhado, com os olhos e as mãos por cima do meu membro.

O mundo realmente dá voltas. E voltas muito rápidas. Talvez rápidas demais, pensei, estremecendo.

— Luke — comecei, com a voz rouca e falha —, você não...

Engoli o resto das palavras com o gemido quando ele puxou o pijama para baixo, junto da samba-canção, o suficiente para que minha ereção saltasse, feliz da vida. Ora, se não era o próprio parque de diversões.

E ele ainda queria que eu parasse de tremer...

— Meu deus, Luke, é sério, você não quer faze... — E então, ele tomou a ereção com a boca como um deus. Quase engasguei com o ato.

Ele conseguiu colocar quase tudo na boca, em um vai e vem cauteloso, enquanto eu praticamente deixava a cabeça cair para trás, batendo com tudo no móvel. Não sabia onde colocar as mãos, mas Luke pegou firme uma delas com a sua, fazendo com que eu olhasse para baixo, para a visão dos deuses.

Aqueles olhos claros em mim, lá de baixo, enquanto continuava os movimentos ponderados. Ora franzia o cenho ao descê-los para o volume em sua boca, como se analisasse a própria ação, ora relaxava com malícia no olhar. Depois retirou-me de sua boca em um movimento molhado, fazendo com que eu me contorcesse com a visão, deslizando a língua pela glande por fim.

Levantou-se, enquanto eu ainda me encontrava esparramado contra o guarda-roupa, mal podendo ver entre as sombras dos meus olhos o que acontecia de tão abismado. Retirou sua camisa de malha em um movimento rápido, e puxou-me de cima do móvel pela mão, com um sorriso no rosto.

Eu estava atirado por lá e logo estava atirado pela minha própria cama, sentado com os braços apoiados para trás pra recuperar o equilíbrio. Empurrei para o lado os pacotes em um movimento desajeitado. Luke permaneceu em pé, na minha frente, por um instante, me observando com olhos vorazes.

O peitoral de Luke era um tanto mais malhado que o meu — ok, admito que o meu não é nem um pouco malhado -, e a cor bronzeada o deixava mil vezes mais sensual. Não havia pêlo algum em seu tórax, ao contrário de mim, exceto, tentadoramente, na região abaixo do umbigo. Ponderei se abaixo desta região também haveria.

Luke, antes que eu fizesse qualquer coisa, retirou a própria calça e jogou-a no chão. Em seguida, praticamente subiu em cima de mim com rapidez, uma perna em cada lado do meu corpo, tomando meu rosto com as mãos e beijando-me com fúria. Surpreso e sem saber onde colocar as mãos, abracei seu corpo para junto do meu, em torno de suas costas.

Esfreguei o nariz por toda a região de seu pescoço, vendo-o estremecer quando funguei perto de seu ouvido. Perpassei as mãos de suas costas para seu traseiro bem definido, de forma semelhante à que houvera feito comigo, e ouvi um riso de sua parte. Desviei minha atenção para seu peito em uma confusão de lábios, língua e dentes, enquanto ele pegava a minha mão e a direcionava para a própria ereção apertada no tecido da cueca azul.

Luke gemeu da maneira mais sensual que eu já houvera visto alguém gemer na vida quando retirei seu membro de dentro do tecido e tomei-o com a mão. Sorri, lembrando das brincadeiras idiotas que fazíamos sobre sexo e bom, sobre mulheres. Olhei por cima de seu ombro para o pôster da mulher seminua atrás da minha porta.

R.I.P Playboy. Até nunca mais.

Ergui o olhar para Luke, achando curiosa a visão dele em cima de mim. Tudo bem que tínhamos a mesma altura, mas, apesar de não parecer quando usávamos ternos, Luke tinha mais massa muscular que eu e tinha os ombros mais largos devido à academia e as pernas mais grossas devido às corridas. No entanto, a visão era maravilhosa, ainda mais ao perceber que eu não era o único acanhado da situação e nem o único com o rosto rubro.

Ao perceber que eu o encarava com devoção, Luke sorriu, respirando pesado enquanto eu o masturbava com uma mão, descendo o rosto até encostar a testa na minha.

— Caralho, Rob... — murmurou, entre suspiros.

— Boca suja — acusei, sentindo os olhos pesarem quando ele juntou sua ereção na minha, ainda para fora da calça, em movimentos lentos.

Luke espalmou a mão em meu peito e jogou-me para trás, e eu sequer tive forças ou pensamento rápido para me segurar. Deixei os braços caírem do lado de meu corpo, e observei — e senti — Luke deitar por cima de mim. Apoiou as mãos em cada lado de meu rosto, com os braços esticados, e logo começou a esfregar-se sensualmente contra mim.

Juntou os lábios na curva do meu pescoço, enquanto tirava as pernas de meu entorno e as pousava entre as minhas. Desta vez, eu as abria para que encaixasse melhor ali e continuasse aquela dança de ereções já molhadas que fazia meu corpo inteiro tremular.

— Você trancou a porta? — perguntei em um murmúrio, relanceando-a com nervosismo, pela posição comprometedora em que nos escontrávamos. Luke afastou o rosto para me olhar nos olhos, então sorriu maliciosamente.

— Não. — Grudou os lábios nos meus novamente, e eu resmunguei em resposta.

Deslizei as mãos por toda a extensão de suas costas, pelos braços, pelo traseiro, pelo peitoral, apertando onde podia e puxando seus cabelos enquanto o sentia fazer o mesmo. Nossas bocas se encontraram em um beijo molhado, primitivo, faminto. Enfiei as mãos por debaixo de sua cueca, ainda cobrindo as nádegas, e apertei ao puxar-lhe em minha direção para que seu membro fizesse mais atrito contra o meu.

A respiração pesada tornou-se rápida, e eu ainda não conseguia sequer acreditar como eu havia chegado até ali sem gozar por ele todo. Achei que não ia durar nem no primeiro toque atrevido. Senti o lábio arder quando Luke o puxou entre os dentes, chupando-o entre os lábios após.

Me tornei subitamente consciente das regiões friccionadas, sentindo a mente nublar, e os olhos revirarem, sabendo o que viria em seguida. Em um movimento que fez com que eu me contorcesse dos pés à cabeça, desfiz-me entre nossas barrigas. Abri os olhos apenas para ver Luke sorrir maliciosamente e lamber meus lábios, continuando os próprios movimentos contra mim.

Gemi, sôfrego, mas não demorou para que ele soltasse uma lámuria contra meus lábios e grunhisse em seguida, afundando o rosto contra meu pescoço e a cama e deixando-se soltar totalmente o peso em cima do meu. Ainda se remexeu com os membros se encostando, resmungando, mas não fez sinal de que sairia de cima de mim.

E eu não estava reclamando.

Depois de alguns minutos em silêncio, unidos pela própria bagunça entre nossos corpos, Luke ergueu a cabeça para me olhar nos olhos. Ele estava pesando, mas eu não reclamaria. O sorriso começou simples e logo tornou-se um riso gracioso.

— Rob — disse ele, com uma mão em meu rosto, ainda rindo —, eu também tenho um bom gosto. — Franzi o cenho, rindo de seu riso, enquanto lembrava das entrevistas de mais cedo. Então eu estava certo sobre o ciúmes. Luke arqueou uma das sobrancelhas com altivez. — Mas o bom gosto também me tem.

Com um sorriso vitorioso, deslizou para o meu lado, enquanto segurava o riso ao encarar minha expressão incrédula e envergonhada. Puxou a minha camisa que estava na cama e limpou-nos com ela, mas eu sequer me importei.

— Você só pode estar brincando — falei, sentindo-me ultrajado. Luke ainda ria quando jogou a camiseta no cesto ao lado da cama. — Precisou um garoto dar em cima de mim para você vir até aqui?

— Dar em cima de você é pouco — disse, estalando a língua. Deu de ombros, ainda sorrindo, embora houvesse juntado as sobrancelhas com a menção ao entrevistado. — E precisou da sua música também — lembrou ele, mexendo nos meus cabelos suados.

— Minha música? — murmurei, em tom interrogativo, perdido nos olhos cor de mel e os lábios inchados.

Luke me puxou ainda mais para perto, até que nossos narizes estivessem encostando-se, para começar a murmurar em tom baixo, a letra da canção que o trouxera até mim.

Engoli em seco, não sabendo se prestava atenção na voz mil vezes mais bonita do que qualquer cantor de banda, nos olhos peculiares desviando pelo meu rosto, ou na mão que brincava com os meus dedos e a outra nos meus cabelos.

Assim que ele errou uma parte da música, franzindo o cenho ao ponderar sobre a letra, comecei a rir quando ele recomeçou, desta vez cantando certinho. Cantei junto as partes que eu conhecia, vendo-o rir abertamente da minha voz magnífica.

Trocamos insultos e beliscões e gargalhadas, mas logo estávamos com os narizes e os lábios e toda parte corporal possível grudadas. E a música recomeçava, em sua voz, de forma que fez com que eu odiasse a versão original porque nunca seria tão melodiosa.

E todas as estradas que nos levam até lá são sinuosas
E todas as luzes que iluminam o caminho são cegantes
Há muitas coisas que eu
Gostaria de dizer a você mas eu não sei como

Porque talvez você será aquele que me salva
Afinal de contas, você é meu porto seguro

Ouvi a canção murmurada em tom baixo, sentindo a respiração contra minha boca durante as pausas, e podendo ainda sentir o gosto dos seus lábios como se repercutisse nos meus para sempre.

E aqueles olhos. E aquela voz maravilhosa. E aquela pessoa.

Senti os olhos pesarem, os músculos relaxarem e o coração bater compassadamente junto ao dele, em uma calmaria que apenas ele conseguiria trazer. E ele trouxe, muito eficiente, mais eficiente do que qualquer medicamento.

Luke era, afinal, o meu melhor ansiolítico.

Notas finais
Minha desculpa para 10 mil palavras é: capítulo extra pode tudo! Hahahaha. E quando eu começo a escrever sobre estes dois, não consigo parar. :3 Foi um pouco difícil escrever na visão do Rob, porque ele é um tanto controverso: meio engraçado, meio encabulado, meio GOSTOSO DA PORRA. Mas enfim AHAHHAHAHAHA, espero que tenha feito jus à imagem dele! Amem, odeiem, mas me digam o que acharam! *O*